Mês: fevereiro 2013



Lados bons: atuações e tema

É triste dizer isso, mas muitas vezes acabamos nos consolando ao notar que nossas fragilidades também fazem parte da rotina de outras pessoas e que ser estranho, dependendo do ponto de vista, é algo normal.

Mesmo sendo um filme previsível, leve e que certamente vem agradando aos apreciadores das nem sem sempre destacáveis comédias românticas, “O Lado Bom da Vida” (filme de David O. Russell em cartaz em Maringá) se destaca por belas atuações e por focar, no enredo, mais do que a possibilidade amorosa entre os protagonistas, em um tema sério e atual: os distúrbios psicológicos e psiquiátricos que afetam grande parte da população em geral.

O bipolar Pat Solitano Jr. (Bradley Cooper) acaba de sair do sanatório, local onde foi internado por quase matar a pancadas o amante de sua mulher, em um ataque de raiva após ver os dois tomando banho juntos ao som da música do seu casamento.

Volta para casa mas continua ao lado de gente que aparentemente também convive com problemas mentais. Seu pai, magistralmente interpretado por Robert de Niro, dá provas de que sofre de TOC.

Tiffany (Jennifer Lawrence), irmã da mulher de um amigo de Pat, é conhecida na vizinhança como uma viciada em sexo e por episódios de transtornos encenados competentemente pela bela atriz. Ela resolve ajudá-lo a superar as inquietações que o levam a desejar o reencontro com sua mulher.

O pano de fundo de toda essa história é uma sequência de cenas típicas do dito “seria cômico se não fosse trágico”. É mesmo muito engraçado ver um cara boa pinta, com menos de 40 anos, tentando se livrar dos seus monstros correndo com um saco de lixo preto encaixado toscamente no peito na tentativa de emagrecer para assim agradar a mulher que o trocou por um homem bem mais velho.

É hilariante ver uma jovem bonita e precocemente viúva tentando conter seus impulsos sexuais enquanto ensina seu novo amigo os primeiros passos de uma dança – os dois fazem um trato e ensaiam duro para participarem de um concurso de dança como casal.

É saboroso ver cenas de um viciado em apostas de futebol americano acreditando em seus mantras, em suas mandingas, e exigindo que o filho permaneça o jogo todo sentado ao seu lado no sofá como se fosse uma espécie de talismã.

É tudo muito engraçado, mas, mesmo com os exageros típicos do cinema, tudo é também muito real, próximo, palpável no nosso cotidiano de urbanos ocidentais. Todo mundo, hoje em dia, tem, convive ou pelo menos conhece alguém que sofre algum distúrbio neurológico.

E talvez o lado bom da vida seja mesmo refletir que não estamos sozinhos nessas enrascadas que os cérebros e todas suas produções, de mais ou de menos, de serotoninas e adrenalinas costumam aprontar. “O Lado Bom da Vida”, que teve oito indicações ao Oscar, entra nos catálogos dos geralmente desmerecidos filmes de autoajuda ou de comédias românticas. Mas se destaca dos demais com ótimas atuações e um roteiro perfeitamente bem adaptado para que o espectador possa acompanhar, no cinema, uma simpática e gostosa história envolvendo gente comum, com problemas comuns.

*Resenha publicada no D+, do Diário de Maringá

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