Mês: abril 2013



Ano que começa no dia 1º de maio

Por Wilame Prado

Neste 30 de abril de véspera de feriado, estamos prestes a viver mais um dos tantos mitos anuais que envolvem o calendário. Mais do que o Dia Internacional dos Trabalhadores, pelo menos aqui no Brasil o dia 1º de maio é data simbólica e estruturalmente marcante.

Hoje, às 23h59, encerra-se o prazo para os contribuintes entregarem a Declaração do Imposto de Renda. Motivo de sobra para contadores deixarem os engradados gelando e a carne temperada para churrasquear em alusão ao fim de tanto expediente no escritório. Depois do feriado – dia tipicamente festivo, com torneios de futebol e shows em praça pública –, costuma-se também haver reajustes no salário mínimo, símbolo maior da classe trabalhadora.

Aos procrastinadores, a data pode ser oportuna para se começar aquele regime, finalizar o vício ou realizar os projetos que ainda vivem apenas no campo das ideias. Mas só depois do feriado, claro. Assim como acontece após o 1º de janeiro ou após a terça-feira de Carnaval (pensando bem, após a semana do Carnaval), cabe também repetir aquela velha história de que, agora assim, o ano vai começar no Brasil.

A gente se prende em datas. E isso estimula as nossas desculpas para que não façamos nada. Sempre deixamos para depois. Projeto de Ano Novo. Aulas que começam só depois do Carnaval. Empresas que começam a se mexer no mercado a partir de maio, e por aí vai. A vida é curta e as atitudes que podem repercutir mudanças deveriam ser baseadas em minutos, não em anos.

A chegada do mês de maio significa dizer que já estamos perto do meio do ano. E perceber, como todos os anos, que o tempo tem passado depressa demais e que os dias escapam pelos dedos, como areia. Sejamos otimistas, pelo menos: amanhã, já no feriado e não só depois, pode ser um bom dia para tomada de decisões e atitudes. Infelizmente, não para mim: 1º de maio, no meu caso, é dia de pouca ação e muita reflexão, dia de tentar entender os mistérios da vida e da morte pensando, embasbacado com a velocidade do tempo, na partida do meu pai, há exatos seis anos.

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A magia d’O Teatro Mágico

Por Wilame Prado

Em dez anos de carreira, a proposta d’O Teatro Mágico de “juntar tudo numa coisa só” continua dando certo. Os fãs maringaenses comprovaram isso no espetáculo do grupo que aconteceu no domingo do dia 14 de abril, no Clube Olímpico de Maringá.

No palco, a competência do líder Fernando Anitelli – com sua caracterização de palhaço já conhecida – ao lado de grandes instrumentistas, como o violonista Luis Galdino e o guitarrista e produtor Daniel Santiago, foi ressaltada pela vertente musical, cênica e literária. Mais uma vez, O Teatro Mágico presenteou a cidade com um show memorável sonora e esteticamente.

Para um público que soube cantar absolutamente todas as músicas que compuseram o set list do show, a emoção intensamente aflorada não se limitava quando grandes sucessos, como “O Anjo Mais Velho” ou “Camarada D’Água”, eram entoados tal qual hinos sagrados.

Entregues a uma espécie de catarse já comumente vista em shows d’O Teatro Mágico, o encantamento na performance artística do grupo também acontecia quando as gêmeas bailarinas se penduravam em cordas, dançavam e executavam técnicas circenses em meio às canções, ou ainda quando Anitelli dedicava o espaço só para a sua voz: ora declamando poesia, ora defendendo o movimento da música livre ou ainda ressaltando a importância de se ocupar espaços nobres na televisão emplacando temas na trilha sonora da novela.

Musicalmente falando, o momento solo de Anitelli no palco – quando os músicos fazem uma pausa para tomar uma água e quando o vocalista inevitavelmente acaba ressaltando o fato de que ele é “dono” do projeto – serviu também como respiro para tantas luzes, danças, peripécias, caras e bocas da trupe.

O músico demonstrou intimidade com o violão e com a arte do cantar quando executou baladas mais românticas e recheadas com letras extremamente poéticas mas válidas, nada melosas. “Sonho de Uma Flauta”, baseada em trechos de livros de Mário Quintana e Hermann Hesse, talvez a mais bela canção do show, senão d’O Teatro Mágico, demonstra ainda a grande capacidade de Anitelli como letrista.

O Teatro Mágico já é conhecido em Maringá como um grupo que se propõe a fazer belos espetáculos, com uma boa energia totalmente voltada para a arte.

Prova disso é a presença de um público também mais velho e famílias inteiras, de crianças a avós, juntas, sentadas em cadeiras próximas ao palco, comendo pizza e tomando chopp ou refrigerante (ponto para os organizadores do show, que escolheram um cardápio ideal para oferecer em uma noite de domingo), esperando o show começar enquanto a banda maringaense Trafford iniciava os trabalhos cantando em inglês.

Essa talvez seja a grande magia que O Teatro Mágico consegue fazer: estimular as pessoas a se permitirem ser feliz consumindo arte, nem que se isso se limite às duas horas do espetáculo.

*Comentário publicado no D+, do Diário de Maringá.

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Messi quis uma bicicleta e conquistou o mundo

“Não sabemos aonde chegará Lionel Messi. Só sabemos que não há zagueiros nem trincos de portas que sejam capazes de detê-lo.

Quando uma criança quer uma bicicleta, é capaz de muitas coisas. Quando um homem joga feito o menino que quer uma bicicleta, é o melhor jogador de futebol do mundo.”

Leia o perfil de Lionel Messi traçado em ótimo ensaio de Juan Villoro, pela Ilustríssima.

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Exposição ‘Des Cobertas’, para se pensar o Índio por inteiro

Artista plástica e professora Sheilla Souza: em meio aos vestidos de índias Kaingangs, da exposição “Descobertas”, que tem abertura hoje no Calil (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

A exposição “Des Cobertas”, organizada pela artista plástica e professora de Artes Visuais da UEM Sheilla Souza, tem abertura a partir das 20h desta quarta-feira (17), no térreo do Teatro Calil Haddad. A exposição, atração com entrada franca do projeto Convite às Artes Visuais, é realizada em parceira com artistas Kaingang e com os artistas maringaenses Tabajara Marques e Tadeu dos Santos, além de uma equipe de colaboradores da Associação Indigenista – Assindi – Maringá, estudantes indígenas e do curso de Artes Visuais da UEM.

Para a abertura da exposição na noite de hoje, haverá apresentação de dança Kaingang com o grupo da Terra Indígena de Barão de Antonina e também será servida comida tradicional Kaingang – o Emi (espécie de bolo de milho assado).

A exposição apresenta vestidos feitos por mulheres Kaingang, peças de arte indígena, fotografias e vídeo. Na manhã de ontem, dando os últimos detalhes na montagem da exposição, Sheilla conversou comigo sobre a situação atual dos índios da região e principalmente sobre as três principais sessões de “Descobertas”: a dos vestidos, a dos balaios e a dos retratos. Leia abaixo:

Os vestidos da exposição foram usados pelas índias?

SHEILLA SOUZA – Elas usavam e elas quem faziam. Elas aprenderam após receber os tecidos pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), hoje Funai. O trabalho começou há muito tempo com a Assindi juntando os vestidos que fazem parte do acervo do museu indígena da Assindi. Os vestidos são trocados, e elas ganham um corte novo de vestido quando o outro fica velho. A relação do vestido na exposição é com a invisibilidade do indígena na cidade, por isso tem volume de corpo mas não tem rosto, como se as pessoas estivessem andando e a gente não as visse. Se o índio não se vestir e falar o português, ele não tem como se defender, não tem como ir para Brasília reivindicar seus direitos nem entrar na universidade para conseguir mais respeito à sua cultura. A gente veste o índio para despi-lo de toda sua cultura original.

O que tem a dizer sobre os 40 balaios da exposição?

Os balaios têm movimento que indica que existe algo dentro que a gente conhece pouco ou ignora, assim como acontece com a arte indígena. O índio Daniel Puri, que fez o texto de apresentação da exposição, fala que o índio precisa realmente vir para cidade para conseguir defender sua mata, seu ambiente, sua cultura. Os balaios estão aí para mostrar o quanto é incoerente as pessoas admirarem a arte indígena sem que se respeite a cultura indígena.

E os retratos?

As fotografias são do Tabajara Marques, que faz parte da diretoria da Assindi. Parte desses retratos foram encobertos por uma faixa para ressaltar a invisibilidade indígena. A gente vê uma parte das fotos e não por inteiro, justamente para mostrar que tem muita coisa pra gente ver e que ainda a gente não conhece sobre os índios. A gente conhece muito dos nossos antepassados europeus, mas pouco falamos de nossa etnia indígena, isso parece que não é importante e muitos ainda querem esconder.

Essa exposição tem um sentido mais de discurso ideológico ou de estética e beleza?

A arte e a ideologia nunca estão separadas. Toda obra de arte tem um caráter ideológico, seja ela qual for. Aqui, esse aspecto de luta, de falar de questões políticas, não faz com que essa exposição deixe de ser artística. Há um tempo atrás a arte engajada recebia esse rótulo de arte panfletária, mas não é o caso porque a gente está mostrando com essas peças – que tem esse caráter ideológico, que tem esse caráter político – a questão da beleza, para que se enxergue a beleza desse conjunto maior. É uma beleza dolorida, mas temos formas de estética que trazem a dor, o Expressionismo é um exemplo. A memória precisa ser enfrentada.

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Reencontros no Cine Bar da Avenida Brasil, ou o estranho fechamento do Bar do Jair, na Vila Bosque, em pleno clássico dominical

Por Wilame Prado

Naquele domingo de temperaturas amenas, a Vila Bosque, bairro que se confunde com a Zona 2 em Maringá, acordou estranha. Tudo bem: assistiríamos a programas temáticos na TV, comeríamos frango com macarrão no almoço e não suportaríamos mais esperar pela hora do jogo. Tudo normal. Ainda mais em dia de clássico: Santos e Palmeiras, ambas as equipes em momentos de futebol apático, de pouca genialidade e de muita preguiça. Não importa: clássico é clássico e vice-versa.

As anormalidades começaram a ser enxergadas pelos homens das mais diferentes faixas etárias naquele bairro maringaense por volta de trinta minutos antes das 16h, retumbante horário da bola começar a ser rolada. A estranheza principal se deu com as portas metálicas vermelhas, do vermelho Bar do Jair, que pintaram a Avenida São Paulo (antiga Avenida Gurucaia) de tons melancólicos mesmo com a suposta vibração que a cor quente poderia causar. Onde assistiríamos ao jogo exibido apenas pelo luxuoso e para poucos “Pagar-Para-Ver”?

Sem as cadeiras vermelhas distribuídas na calçada respeitando o vão dos pedestres, sem o simpático garçom Tevez tirando sarros dos dois times em plena exaltação clubística e antiética em prol do Corinthians e sem a tiração de sarro do cobrador da Viação Garcia e sua declarada paixão pelo Santos Futebol Clube, aquele domingo só poderia ser considerado estranho. Estranhamente, um vento fraco transportando folhas, poeiras e sujeiras fazia-nos crer que Maringá havia sido abandonada pelos seus bravos moradores, incluindo o Jair e o seu filho, o Tevez, com seus aparelhos televisores, seus pacotes do PFC e suas cervejas geladas, seus conhaques quentes.

O semáforo abria e fechava involuntária e desnecessariamente pelas bandas daquela vila, todos cabisbaixos, muitos admitindo recorrer aos rádios de pilha, outros se recusando a apenas ouvir ao jogo e se limitando a ver o Campeonato Paranaense pela RPC, quando, de repente, eis que a lembrança coletiva é acometida com a assertiva de que existe vida além do Bair do Jair, de que há mundo além da Vila Bosque e que, provavelmente, todos deviam ter ido mesmo é para a Avenida Brasil, grande via maringaense.

Botecos geralmente vermelhos (a padronização imposta por marcas de cervejas nos bares da cidade acabou com a estética “pé sujo” dos estabelecimentos e ceifou parte de suas almas) daquela avenida grandiosa e cheia de Outono prontamente foram pintados de verde. Palmeirenses são menos discretos, ainda mais quando se propõem a usar a camisa verde limão do time de Parque Antarctica. Alguns santistas – a minoria – também se vestem heroicamente com o manto alvinegro sagrado. Mas são discretos, só querem ver gols, dribles e vitórias.

Naquele domingo estranho, chuvoso e completamente vazio, pelo menos na Vila Bosque maringaense, as chamas da alegria e do entretenimento que só o futebol consegue trazer para as massas foram reacesas na Avenida Brasil, no tradicionalíssimo Cine Bar, também vermelho. Além da tela pequena da TV – direcionada para um menos importante Corinthians e Guarani –, um telão recobrava a dignidade que outrora faltara a palmeirenses e santistas, em uma busca ensandecida por estabelecimentos onde, além da cerveja, além do espetinho, além do torresmo, além do ovo rosa, doses cavalares de alegria vinham na bandeja do garçom traduzida em transmissão futebolística.

Grande palco de encontros e reencontros aquela imensa Avenida Brasil! Como não poderia ser diferente, órfãos do Bar do Jair se viram e cumprimentaram-se no Cine Bar. O Zé, com sua voz enroscada, rouca e miúda, após um empate humilhante sem gols, resolveu contar para o W. um pouco da sua vida, suas desventuras entre Maringá e a grande São Paulo, da aposentadoria, da lojinha de departamento e, claro, também indagar o misterioso cerrar de portas, em pleno domingo de clássico, do vermelho Bar do Jair.

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Dilemas de uma ‘paixão’ a céu aberto

Por Wilame Prado

A encenação da Paixão de Cristo conta uma história que todo mundo já sabe: momentos anteriores e posteriores à crucificação e morte de Jesus de Nazaré. História conhecida, mas que costuma arrastar multidões. Nas duas sessões deste ano em Maringá, quarta e sexta-feira passadas, não foi diferente: organizadores estimam um público de cerca de 40 mil pessoas.

Se, por um lado, deve-se saudar como bastante positiva a atração de tamanho público, que por sinal lotou o estacionamento da Catedral, lamenta-se que, pelo mesmo fator, muita gente não conseguiu ter um mínimo de visão do palco. O espetáculo, encenado a céu aberto, foi transmitido ainda por dois telões com imagens escuras e que fazia o cidadão pensar que talvez tivesse sido melhor ter ficado em casa vendo a encenação pela transmissão ao vivo na TV 3º Milênio.

Quem chegou 40 minutos antes de o espetáculo começar, por exemplo, já não conseguia lugar na frente. Nem houve cadeiras em número suficiente para os idosos. Quem ficou atrás, com exceção de pessoas com estatura considerável, não conseguia ver nada. Isso porque, ironicamente, faltou compaixão, talvez, a grande parte dos fieis, que não titubeou em levar banquetas e cadeiras para subir e assim ter visão privilegiada.

As crianças são lindas e, vivenciando o espírito da Páscoa intensamente ao prestigiar desde cedo a Paixão de Cristo, acabaram também sendo obstáculo à visão de muitos, já que os zelosos pais também não fizeram menos do que enganchar os pimpolhos em cima dos ombros, como a dizer: também faço minha forcinha.

Mesmo em eventos religiosos, chega-se à conclusão de que as atitudes das pessoas nem sempre condizem com o espírito que deveria ser o da ocasião. É estranho, por exemplo, ver um motorista exibindo um adesivo com o dístico (slogan talvez seja mais apropriado) “Jesus is the King” no carro e estacionando descaradamente em local proibido.

O que acabou salvando a noite foi mesmo a trilha sonora da “Paixão de Cristo” maringaense. Com canções tocantes e muito bem interpretadas por grupos musicais católicos da cidade, a trilha original foi composta por Diego Contiero, que, na remasterização, explorou o universo sacro e apostou em músicas católicas conhecidas, músicas em latim e em hebraico, no canto gregoriano e nos instrumentos de corda e percussão.

Tudo isso teria ficado ainda melhor se os diretores tivessem optado por diálogos ao vivo e não gravados. Fatalmente, o som alto e gravado de falas em situações calamitosas, como a de um Jesus Cristo gemendo de dores ou a de um soldado exaltado pela sede de violência, propiciou tons pitorescos na interpretação e semelhanças com os dramalhões das novelas mexicanas que chegam de quando em quando ao País, com dublagens que são um martírio à parte .

É de se registrar o zelo no figurino do time de atores e ainda a imensidão do cenário (as duas estruturas ligadas por uma rampa mediam mais de 700m). Isso permitiu movimentação e respiros na encenação, tudo bem calculado, com a multiplicação de “palcos” a partir de um simples direcionamento de luz.

Mesmo com as dificuldades para o público todo conseguir ver a encenação, o fato de a “Paixão de Cristo” ter sido a céu aberto possibilitou um leque de opções cenográficas interessantes para o grupo de voluntários da Renovação Carismática de Maringá trabalhar. Por exemplo, a conquista de uma grande comoção do público com as cenas do Anjo Gabriel descendo à Terra e Jesus Cristo, ressuscitado, subindo aos céus graças ao suporte de um imenso guindaste.

Ou ainda o trabalho de iluminação feito por LEDs que, em meio à encenação, também ressaltou a beleza da Catedral maringaense, que acabou fazendo parte do cenário do espetáculo.

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