Mês: junho 2013



Paixão de protesto

Por Wilame Prado

Marchando, as individualidades se tornam invisíveis e todos se transformam em um só corpo, em uma só coletividade. O protesto serve como esconderijo e refúgio para ele. Em sua timidez, opta por não erguer cartaz e segura com a mão direita uma máscara do V de Vingança para alguma emergência, caso precise apagar ainda mais os traços personificados de sua existência. Ele só não pode perdê-la de vista, o que é difícil de acontecer.

Diferentemente dele, ela leva o cartaz mais estrambólico de todos, tem cores pintadas pelo corpo inteiro e uma impressionante capacidade de gritar sem perder a voz. As ruas do centro de Maringá se transformam em passarela para a moça que passa com suas pernas de louça de fora e visíveis no espaço entre um simples shortinho jeans e um tênis de skatista. Ela não sente frio, não sente fome, não sente medo e só quer mudar o Brasil.

Ele, pelo contrário, não acredita em nada disso. Mas está ali, anulado em meio a uma coletividade só para não perdê-la de vista. Por vezes ficou sem fôlego ao precisar apertar o passo para continuar observando-a no protesto. A chuva agora cai irritantemente para deixá-lo ainda mais exausto de tanta caminhada no meio da rua.

A água dos céus, para ela, é como benta, sente-se agora abençoada, abastecida com combustível chamado chuva e grita ainda mais forte enquanto ele, cansado, agradece pelo menos o fato de o líquido gelado ter delineado ainda mais as curvas da moça que faz das ruas da cidade o palco de sua indignação e a vitrine de sua beleza.

A vitória da juventude oprimida parece certa. Os jovens estão bravos e cheios de razão. Conquistam até o microfone da Câmara Municipal. Fazem exigências, assim como um sequestrador com a arma engatilhada no pescoço da vítima. Conquistam até uma Comissão Parlamentar de Inquérito.

Neste momento, ela já foi ao céu e voltou e fica impressionantemente mais bonita a cada segundo que passa. Em compensação, se algum conhecido o visse naquele estado lamentável, diria que talvez precisasse urgentemente de um médico ou pelo menos de descanso e chá quente na cama.

Quando ela some em meio à multidão, já em clima de conquista de Copa do Mundo, ele se sente completamente desnorteado e sem forças para procurar. O cartaz chamativo dela derreteu com a chuva, e as tintas no corpo também se foram juntamente com a água que caía do céu.

A beleza da moça se mistura agora com a beleza do povo, com o charme da juventude em pleno protesto. Ele sabe do seu egoísmo e manda para o inferno a CPI, os R$ 0,20, a PEC 37, os hospitais, as escolas e a Cura Gay.

Pensando honestamente, mais valeria para ele esta paixão de protesto, esse desejo incontrolável de tê-la nos braços protegendo-a do frio e da chuva, um drinque depois da vitória ou um encontro a dois, talvez rachando um cachorro-quente na avenida Colombo.

Sem dinheiro no bolso para um táxi, sem esperança na alma e por saber que o transporte coletivo na cidade nunca funciona direito, ainda aguenta um pouco mais as dores das bolhas nos pés e chega até o apartamento na Zona 7 que divide com outros dois caras. O bairro universitário está vazio, triste e sujo.

Sem as pessoas, até o Afonso’s se transforma em um boteco deprimente, feio e parecido com uma jaula para abrigar os animais humanos sempre em busca de ração e cerveja. Os politizados daquele bairro mutante ainda esbravejam na manifestação. Os demais foram para a casa dos pais no período de férias da universidade.

No lar, restam-lhe a raiva e a solidão. Depois de um banho e mais calmo, veste a máscara do V de Vingança enquanto confere o noticiário sobre a onda de protestos em todo o País. Ele adormece na sala pensando na moça bonita da manifestação. Pensa que ela nem sabe o seu nome e que sequer olhou para ele algum dia.

*Crônica publicada ontem (25) no D+, caderno do Diário de Maringá

2 Comentários


Poesia com vinagre

Por Wilame Prado

O maior poema de toda história brasileira. É assim como define a onda de protestos e manifestações registradas em todo o País (inclusive em Maringá) o paulistano Fabiano Calixto, 40 anos, um dos organizadores de “Vinagre – Uma Antologia dos Poetas Neobarracos”, publicação online de 93 páginas que reuniu inúmeros poemas e algumas ilustrações inspirados no sentimento de revolta e na ânsia por mudanças – características primeiras dos jovens que estão mas ruas em protesto nos últimos dias.

Fabiano Calixto em protesto da quinta-feira da semana passada, em SP: escritor é um dos organizadores da “Vinagre…” (Foto de Eduardo Sterzi)

Calixto, escritor e mestre em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP), há algum tempo, juntamente com outros amigos, almejava criar um zine com o formato de antologia digital.

Quando percebeu a “contaminação” vinda dos protestos das ruas chegando até o âmago dos poetas, muitos já fazendo literatura engajada por meio de publicações nas redes sociais, sentiu que havia encontrado o tema para a antologia. Após o convite, em poucos dias estava pronta “Vinagre…”, disponibilizada no começo desta semana, gratuitamente, pelo link: http://migre.me/f5Ddx.

Sem muitas preocupações relacionadas à estética da publicação, “Vinagre…” é um arquivo em pdf com textos distribuídos pelas páginas, aparentemente sem edição. A capa é ilustrada pela famosa arte do grafiteiro britânico Banksy em que um homem atira flores ao invés de uma bomba incendiária. De modo geral, os poemas são revoltosos e acalorados.

Tem-se a impressão de que alguns dos escritores, inconsolados após ferimento por bala de borracha, por exemplo, foram rapidamente para o teclado fazer poesia. Tal qual uma manifestação em massa, a antologia é quente. Os organizadores foram felizes ao não tardar na disponibilização da publicação, que funciona e certamente será lida por muita gente, em especial nesses dias cercados por protestos em todo o País.

“A ideia, desde o princípio, foi de um gesto de solidariedade. Não deixei minhas preferências estéticas interferirem no processo. A ideia era fazer uma antologia que, na verdade, tivesse a cara de um único poema com muitas vozes.

A preocupação poética, neste gesto de solidariedade, é inteiramente política”, explica Calixto, que, além de organizar a antologia, também publicou um poema de sua lavra, “Dark Medieval Times”, que exalta o gesto corajoso de sair às ruas para o enfrentamento e que também critica aqueles que não abrem mão da segurança do sofá e TV. “Apenas tentei fazer um poema sobre o que eu estava sentindo, após a manifestação do dia 13 de junho, quando a polícia atuou com uma brutalidade sem tamanho.”

Segunda edição

Com o sucesso da primeira antologia, Calixto resolveu abrir espaço para outros escritores convidando-os, pelas redes sociais, a enviarem seus poemas por e-mail cujo tema são as manifestações que acontecem em todo o País. Essa segunda antologia, que deverá ficar pronta também rapidamente e ser disponibilizada na rede dentro de alguns dias, contará com capa ilustrada por Diego de Sousa.

“Estou fazendo, a pedidos de pessoas e por conta também de sugestão de amigos e da capa linda que Diego de Sousa fez para o projeto, uma segunda edição. Só isso. Apenas para aumentar o volume do grito. Depois, me volto para a luta nas ruas apenas”, informa.

Os escritores de Maringá e região que quiserem participar da antologia devem mandar seus textos, em documento de Word, até amanhã, para o e-mail: fabianocalixto@yahoo.com.br.

Escritores do PR também em ‘Vinagre…’

Para o escritor maringaense radicado em Santos (SP) Ademir Demarchi, 53, “Vinagre – Uma Antologia dos Poetas Neobarracos” é como uma bomba: “foi uma antologia no calor da hora, a grande maioria daqueles poetas ali é ótima, estão na lida com a linguagem há anos, portanto mesmo que um dado poema ali não seja ótimo, pode haver ótimos em sua obra.

No calor da hora não dá para refletir muito, escolher, essa é a marca da antologia, como uma bomba que se joga, é preciso jogar, não dá pra pensar. Jogamos, e você agora, n’O Diário, está interessado nisso. Os estilhaços se espalham, está circulando amplamente no Facebook.”

Cronista do D+ às quintas-feiras e autor de “Pirão de Sereia” e “Os Mortos na Sala de Jantar”, Demarchi participa na antologia com uma espécie de haikai conciso e ácido. Fala sobre bombas que acabam, mais que estimulando passeatas, favorecendo ainda os festejos da juventude que protesta.

“A festa é própria da juventude. Daí que, tendo bomba, teremos mais passeatas e mais festas. É delicioso lutar contra o poder instituído, ele sempre existe, ele sempre está aí, normatizando as vidas, enquadrando-as e tornando-as previsíveis e disfarçando as formas de controle e de autoritarismo”, diz.

Ricardo Pedrosa Alves, 40, de Guarapuava (PR), é outro paranaense que contribuiu com “Vinagre…”. Ainda que longe das principais manifestações que vem acontecendo nas capitais, em “Estado de Exceção” questiona a língua e o poder. “Este poema nasceu de uma inquietação com a linguagem oficial. Trata-se de um elenco (que poderia ser ampliado, em tese) de termos do senso comum. Como a função da poesia é também a do questionamento da linguagem, nada melhor que tentar realizar isso num momento de acirramento social e político nacional”, considera.

A artista visual e poeta Jussara Salazar vive entre Recife, Curitiba e São Paulo. Em “Vinagre…”, contribuiu com uma ilustração poética. “A observação e a crítica aos 20 centavos demonstram maturidade por parte da população brasileira, a sutileza inaugura um novo momento, tudo passará a ser importante a partir de agora. A imagem da moeda e o provérbio popular me pareceram adequados para expressar um sentimento de ironia e humor, quase uma brincadeira, considerando também a informalidade e o pouco tempo com que o Fabiano Calixto organizou tudo, praticamente em dois dias. O resultado foi uma surpresa, o conjunto reunido tem força e coerência.”

Beatriz Azevedo, moradora do Rio

A poeta, cantora e compositora carioca Beatriz Azevedo diz que a antologia é mais uma expressão da inquietação geral que movimenta o País. Para participar da antologia, levou para a poesia o que vem sentindo com o “calor da hora” das manifestações literárias nas redes sociais.

“A própria agilidade da edição da antologia me inspirou a entrar no fluxo dos acontecimentos e experimentar usar essas ferramentas virtuais, e não o tempo de maturação da feitura de um livro de poemas, por exemplo”, diz ela, autora, em “Vinagre…”, de rajadas poéticas que dialogam com os acontecimentos. “Quando vi a declaração do governador de SP sobre as manifestações, incitando a violência da polícia, comecei instantaneamente a digitar.”

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (20) no D+, caderno do Diário de Maringá

Comente aqui


Desconfortos

Por Wilame Prado

Poderia ter sido um começo de semana rotineiro. Sentaria em frente ao computador para escrever um texto, enviá-lo-ia ao editor e, no dia seguinte, vê-lo-ia publicado na página do jornal. Seria mesmo uma manhã daquelas corriqueiras de segunda-feira, tirando o fato de que, finalmente, resolveu fazer frio na cidade e que, outra vez, uma nuvem branca invadiu as ruas maringaenses, conforme testemunhei ao olhar lá para fora e também depois ao ver fotos pipocando nas redes sociais. Tudo estaria normal, até mesmo a leve dor no braço direito após ter passado horas de sono com o peso do corpo todo em cima do membro superior, uma espécie de “mau jeito” que evidencia as consequências do tempo que passa e que destrói. Continuaria praticando meus crimes medianos e de classe média tendo, após alguns cliques, os arquivos de áudios daquele álbum de música que nem foi lançado na loja ou então o arquivo de vídeo que me permite – em resolução HD e perfeitamente legendado – assistir ao filme daquele diretor preferido e que sequer chegará aos cinemas de Maringá.

Poderia ter sido um começo de semana rotineiro, mas não foi. Assim como eu, acredito que milhares de brasileiros, confortáveis em sua vida de consumo e facilidades causadas pelas condições sociofinanceiras, começaram a semana com alguns desconfortos que ultrapassam as dores físicas de uma noite mal dormida. Um desconforto que atingiu muita gente, acredito eu, após o despertar de indignação ocasionado com a onda de protestos do Movimento Passe Livre, em São Paulo, e que vem se estendendo por todo o País. Há muito tempo (quatro dias, e isso, hoje em dia, é muito tempo) finalmente entendemos que a revolta não se limita aos R$ 0,20 a mais da passagem de ônibus. Até Arnaldo Jabor, um dinossauro arrogante que detém espaço na maior rádio, em um dos maiores jornais impressos e na maior televisão do País, fez a mea culpa aplaudindo aqueles que se rebelam nas ruas após ter dito, no Jornal da Globo semana passada, que os manifestantes não passavam de anárquicos sem causas vindos da classe média.

Esse desconforto, no entanto, costuma passar rápido demais porque, mesmo com tanta coisa errada acontecendo, a vida está incrível e mascaradamente boa de se viver para muita gente no Brasil. Como escreveu ontem Ruy Castro na Folha de S. Paulo, “a favela não tem esgoto nem escola, mas as casas são de alvenaria e têm internet e TV de LED”. E então ocorre uma espécie de anestesia consumista que nos faz, no máximo, querer praticar apenas uma revolução de mentira, confirmando presença em protestos via Facebook ou, via email, assinando virtualmente petições contra o mau trato de animais ou contra a PEC 37. Podemos brincar de protesto, brincar de ser rebelde, para depois continuar aceitando as coisas erradas deste País, como a corrupção, os custos ridículos na Copa do Mundo e o alto preço da passagem do transporte coletivo, até porque, depois do trabalho, poderemos tomar cerveja na hora feliz e contar sobre nossas aquisições via parcelamento no cartão de crédito ou via financiamentos e consórcios para toda vida. Estamos anestesiados neste consumo, afinal, podemos ter um carro zero quilômetro, até uma casa própria e ainda brincar de ser rebelde.

Mas desta vez, não. Os protestos continuam (a estimativa ontem era de milhares de pessoas em protesto nas ruas paulistanas) e a onda do descontentamento parece ter chegado até mesmo aqui em Maringá, cidade vendida como o paraíso na Terra. Estou me referindo ao “Segundo Ato Contra o Aumento das Passagens em Maringá”, agendado para hoje, às 17h30, no Terminal Urbano de Maringá. Fui convidado via Facebook a participar e estendo o convite a todos os leitores que iniciaram a semana também desconfortáveis.

*Crônica publicada nesta terça-feira (18) no D+, do Diário de Maringá

1 Comentário


Nuvem

Por Wilame Prado

E então eu vi da minha janela, no quinto andar de um prédio na Vila Bosque, uma nuvem branca que parece ter descido do céu e que invadiu as ruas maringaenses. Era outono e fazia frio naquela quinta-feira que ficaria marcada para sempre na história da cidade. A princípio, todo mundo pensou se tratar de uma neblina comum, daquelas que, por esses tempos de manhãs frias e tardes quentes, costuma encobrir a Catedral e emprestar ares europeus ao Parque do Ingá e a todos seus habitantes vestidos de moletons e tênis coloridos de corrida. Não se tratava, porém, de uma simples quinta-feira nublada, senhores leitores. Também não posso afirmar com toda certeza de que aquilo era realmente uma nuvem que descia como se fosse presente a Maringá caindo dos céus. Sabemos, pelo menos, eu e vários moradores da cidade, que o fenômeno deixou a paisagem urbana exuberante, bucólica e lânguida.

Não se pode também concluir com total firmeza, até porque não virou notícia de jornal nem sequer relatório de polícia, mas fontes seguras me confirmaram que, no centro da cidade, com a descida da nuvem branca naquela manhã fria, houve uma espécie de síncope dos cidadãos que estavam se locomovendo via automóveis, motocicletas e a pé. Todos pararam seus afazeres imediatamente para se maravilharem e, embasbacados, sentirem-se iluminados, agradecidos, pessoas de sorte. Alguns se atreveram a desligar o carro em plena Avenida São Paulo para caminhar nos canteiros, sorrindo para os guardas da Setran e olhando com cara de bobo para os motociclistas, que, já sem capacetes, trocavam palavras cordiais com pedestres.

Pelo cálculo que fiz olhando a nuvem de minha janela, tal fenômeno da natureza aparentemente inexplicável e que, uma hora dessas, já deve ter se tornado lenda urbana, não durou mais que cinco minutos. Isso, claro, atrapalhou a imprensa, a polícia e as autoridades oficiais a registrar nos autos, nos anais ou nos tratados que Maringá viveu um episódio único e muito provavelmente benéfico à saúde da sociedade. As fotos dos plantonistas das redes sociais também não convenceram ninguém de que aquilo não passava de uma casual neblina outonal. Para dizer a verdade, as imagens em si, pelo menos desta vez, não significaram mais que mil palavras.

Até mesmo as palavras, neste caso, não podem traduzir ao certo aquilo que sentimos eu e, tenho certeza, outras várias pessoas que vimos aquela nuvem descendo do céu. E se hoje escrevo aqui sobre isso é simplesmente como forma de agradecimento, e também porque algo me dizia que, ainda sem conseguir provar nada, Maringá e maringaenses se transformaram positivamente após aquilo que venho considerando como um rito de passagem. Em uma tentativa tateante e nada científica, tento explicar as causas deste acontecimento, até para que o leitor não me julgue mal nem pense que me contento apenas com as benesses da contemplação estética: para quem viu e sentiu, era como se dentro daquela fumaça não-poluente houvesse uma substância com capacidades terapêuticas, só que para a alma.

O episódio do trânsito que parou para ver a nuvem passar é apenas um dos vários que já fiquei sabendo e que não cabe aqui, pelo menos não neste momento, relatar. O que posso dizer é que, após a nuvem da paz que visitou só por alguns minutos a cidade, imediatamente tudo se iluminou com o sol mais energizante de todos os tempos. E aí não havia mais filtros na paisagem, o azul do céu e o verde do mato maringaenses ficaram ainda mais azul e verde, e então, pelo menos naquela quinta-feira em que se fez frio de manhã e calor a tarde, várias pessoas na cidade praticaram gentilezas no trabalho e depois em casa, e todos que viram aquela nuvem passar tiveram uma agradável e suave noite de sono, revigorante o suficiente para permitir que elas continuassem vivendo, até hoje, extremamente agradecidas por tudo e com esperanças de dias melhores e pelo possível retorno da nuvem.

*Crônica publicada nesta terça-feira (11) no D+, caderno do Diário de Maringá

4 Comentários


Tristezas paulistanas

Por Wilame Prado

A cidade de São Paulo retorna às páginas de ficção. O escritor Joca Reiners Terron, 45 anos, cuiabano radicado em São Paulo, não fez da megalópole inspiração para poemas ácidos e irônicos, como Mário de Andrade em “Paulicéia Desvairada” (1922), mas um pano de fundo obscuro para o romance “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves” (Editora Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 36), lançado recentemente.

E não se trata apenas de cenário. Os personagens do livro são figuras típicas encontradas nos bairros paulistanos, em especial o Bom Retiro. Entre bolivianos, coreanos, judeus e usuários de crack, neste bairro tradicional também vivem a Sra. X, enfermeira especializada em pacientes terminais, e sua paciente – uma pessoa com tamanho de criança chamada por “criatura” e que se protege da luz com suas galochas e capa de chuva vermelha com capuz. É por lá também que, entre doses de uísque misturadas com anfetaminas, perambula um escrivão insone que divide seus dias e suas noites entre os plantões na delegacia, o zelo com o pai judeu e senil em casa e suas memórias de infância a todo momento.

Joca Reiners Terron: escritor radicado em São Paulo utiliza histórias tristes e dramáticas para construir trama de suspense

O romance é separado por capítulos ora narrados em primeira pessoa, com as andanças meio desrumadas do escrivão, ora narrados em terceira pessoa, mostrando relações entre pessoas e bichos, entre a criatura e o leopardo-das-neves, entre um taxista psicopata e seus rottweilers sanguinolentos e finalmente entre uma turma que resolve participar do Nocturama, um passeio noturno dentro de um zoológico, e as feras daquele lugar.

As histórias entre os vários personagens principais e secundários de “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves” tardam a se entrelaçar. Isso torna o livro, só no início, desamarrado. Terron despeja pistas no decorrer dos fatos, almejando atiçar o leitor em uma trama de suspense que, aos poucos, vai se revelando mais dramática e menos paródica – o autor correu os riscos sempre iminentes da ficção que dedica olhares para a realidade brutal de acontecimentos absurdos mas extremamente possíveis.

Assim como São Paulo, sempre tão acinzentada e obscura, os personagens do romance vão se revelando donos de histórias fantasticamente infelizes. Mesmo com o humor ácido do escrivão – uma voz real de Terron em suas inúmeras críticas ao modo de viver das pessoas na cidade nos dias de hoje – é difícil ver graça em qualquer uma das situações do romance, que é escatológico. Juntamente com o final da história, vai se findando também a existência dos próprios personagens. É como se todos fossem derretendo e sucumbindo violentamente ao pesado ato de existir.

Na lenda inserida no romance e confabulada brilhantemente por Terron, em que um leopardo-das-neves fica eternamente entristecido por não encontrar a voz humana que persegue errante pelo mundo, o bicho não vê saída a não ser iniciar um processo de autoflagelação devorando as próprias patas. Mesmo desconsolado, o felino encontra soluções para a falta de sentido da vida. Diferentemente dos personagens humanos do livro, velhos, solitários, deformados, loucos, imigrantes, viciados, segregados e assassinos. Estes sim, são tristes e ocupantes de uma cidade mais triste ainda.

Em “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves”, não dá para saber se as pessoas é que deixam São Paulo uma cidade triste, ou se São Paulo é que entristece as pessoas.

ISTO É JOCA REINERS TERRON

Todo dia a sra. X desinfetava a criatura. O trabalho era muito delicado, e se iniciava na tentativa de convencê-la a se despir. Envergonhada de sua aparência, a criatura sempre vestia capa de chuva vermelha com capuz, calças largas e galochas dentro de casa. Primeiro, a governanta limpava a pele da criatura com água boricada e algodão. As feridas se esparramavam por todo o corpo, tendo ela contato com a luz diurna ou não.Eram inflamações purulentas que surgiam de um dia para o outro como se o corpo dela estivesse em constante estado de erupção. Apareciam nos pontos de contato da pele com a cama quando a criatura se deitava ou com a cadeira quando se sentava, mas também no rosto e até mesmo na delicada penugem que lhe encobria as córneas. As mutilações em suas mãos eram terríveis, e ela relutava em tirar as luvas de couro. A maior parte do tempo a criatura estava coberta por feridas de diferentes tonalidades de cor, do vermelho mais vivo das feridas recém-surgidas às cascas quase negras de sangue coagulado dos machucados de três dias ou mais. Parecia uma pintura abstrata cujo pintor tinha desistido a meio caminho, colocando-a de lado…”

“…Devido talvez a um efeito das bolhas de sono que começavam a flutuar diante dos meus olhos, coreanos e bolivianos começaram a se multiplicar, e adolescentes coreanas de minissaia com livros escolares nos braços sumiam no buraco escuro do metrô, homens bolivianos com bebês de colo paravam nas esquinas enquanto suas mulheres trabalhavam nas oficinas clandestinas de costura dos velhos coreanos que escarravam nos meio-fios, bolhas de sono saíam de bueiros, explodiam na minha cara que nem bolhas de sabão, bolhas de luz encobriam a esquina da Prates com a Três Rios, eu precisava de meus Inibex, será que o frasco estava esquecido lá em casa? Era bem provável, pois antes de seguir para o plantão eu tinha cochilado uns instantes abraçado ao bisonte na sala de estar, cheguei até a ter um princípio de sonho em que montava o bisonte e ele voava sobre o bairro e eu via lá embaixo a reunião dominical de judeus na antiga pletzel e podia ver minha mãe de braço dado com meu pai e com o dr. Glass e era de manhã e eles riam e cantavam a Internacional Socialista bem alto…Quando vi, estava parado diante de casa. Os bolivianos como sempre tinham se atrasado para o serviço e não abriram as portas de correr da loja. Senti uma fisgada no peito. A luz da escadaria continuava acessa e tudo parecia normal. Outra, mais forte. Podia ser mais um ataque de paranoia ou só o começo de um infarto. Trechos do romance “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves”, de Joca Reiners Terron

ESTANTE

A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves

Gênero: romance

Autor: Joca Reiners Terron

Editora: Companhia das Letras

Número de páginas: 176

Preço: R$ 36

 *Comentário publicado na edição deste domingo (9) do D+, no Diário de Maringá

Comente aqui


Sobre anjos, amigos e ThunderCats

Por Wilame Prado

O frio é relativo. Então falei para ela que seria preciso carregar mais blusas naquele começo de fim de semana para ir ao encontro da comida rápida, duvidosa, saborosa, gordurosa e provavelmente maléfica à saúde. A gente sempre está por ali, gastando nossa saúde e nosso dinheiro em alimentos feitos em tempo recorde. O lugar é colorido, excessivamente iluminado e nos permite ver a Catedral, que, nos últimos tempos, também vem recebendo excessiva iluminação e cores.

Um lugar pode ser outro, dependendo do horário. Por isso, digo: o fast-food da Avenida Tiradentes, no Centro de Maringá, é relativo, assim como o frio. As pessoas é que dão o tom de cada ambiente. Sempre vamos àquele lugar no mesmo horário, entre o fim da tarde e o começo da noite, e encontramos pais, filhos, tios e sobrinhos. No mesmo lugar, só que de madrugada, entraríamos no fast-food como se fosse um outro lugar, com jovens necessitados de hambúrgueres após alguns momentos de prazeres fugazes dentro de uma casa noturna.

No horário dos que não vão mais às baladas, estamos cercados por crianças. Naquele começo de noite de sexta-feira em que alguns vestiam blusas e outros não, havia um anjo ao nosso lado. Uma pequena garotinha com seus dois ou três anos de idade e seu par de olhos azuis esbugalhados para ver tanta cor, tanta vida – plastificada, é verdade –, não queria o lanche, não queria batata, não queria Coca-Cola. Queria o boneco do ThunderCats. E teve o brinquedo sonhado, amado, idolatrado e conquistado, desejos esses que, nos dias de hoje, se constroem e morrem no decorrer de cinco minutos.

E a menina sorria para o boneco, e o boneco talvez sorrisse para ela. E, em um momento de distração, eis que o boneco desaba no chão. Já tínhamos percebido que a garotinha é daquelas que fazem manha, simulando choro a qualquer sopro do vento. Deu-se a chorar com a queda do brinquedo. Não por muito tempo. Um bravo prontamente se deslocou da mesa onde devorava um lanche contendo umas saladas enfeitando os feixes de hambúrgueres e fatias de bacon e resgatou o ThunderCats daquele chão gelado.

A garotinha, aparentemente mimada, não agradeceu o gesto solidário do homem que deixou esfriar o seu jantar só para salvar o ThunderCats. Mas, pelo menos – e isso todos que estavam naquele restaurante de comidas rápidas são testemunhas –, deu um imenso sorriso salvador da humanidade para o autor do resgate. Nós, na mesa ao lado, ainda recebemos presente maior ao ouvir as palavras mais verdadeiras dos últimos tempos, cantaroladas pela adorável menininha após ter o seu ThunderCats de volta: “Ele é meu amigo, ele é meu A-M-I-G-O!”

Após ver mais um anjo aqui na Terra falar sobre seu amigo salvador de brinquedos, fiquei pensando naquele bebê resgatado de um encanamento de esgoto em Jinhuana, na China. A vida quase não deu chances para ele. Agora, após ter enfrentado tal desafio logo nos primeiros minutos de sua iluminada existência enquanto agonizava aguardando por um resgate dentro de um cano de dez centímetros de diâmetro, continuará sua missão também como anjo e certamente algum dia vai desejar demais ter amigos para brincar com bonecos do ThunderCats ou talvez de algum super-herói chinês.

*Crônica publicada no D+, do Diário de Maringá, nesta terça-feira (4)

2 Comentários


Kadaré prepara o jantar

Por Wilame Prado

Como já visto em outras obras suas, em “O Jantar Errado” (Companhia das Letras, 168 páginas, R$ 36) o escritor albanês Ismail Kadaré, 77 anos, continua dono de uma prosa refinada para se utilizar eficazmente de lugares, vilarejos e nações como personagens marcantes no romance. Como se sabe, para ele, figuras inanimadas como pontes, vilas e até povoados ganham tanta relevância na obra que, muitas vezes, roubam, brilhantemente, o protagonismo de personagens humanos. No último livro do autor lançado no País, isso também acontece.

Na obra, Kadaré narra os acontecimentos posteriores a um jantar estranho e que supostamente teria acontecido na casa do Dr. Gurameto Grande, em Girokastra (cidade pequena na Albânia de 20 mil habitantes), cujo convidado principal é o coronel das tropas alemãs Fritz von Schawabe. Isso em setembro de 1943, quando as tropas do Terceiro Reich invadem a Albânia. Em Girokastra, comunistas, nacionalistas e monarquistas dividem o espaço em meio ao falatório das pessoas em um período crítico de guerra.

Ismail Kadaré, 77 anos: escritor albanês é sempre relacionado em listas de possíveis candidatos ao Prêmio Nobel de Literatura

A capacidade de fantasiar do autor é colocada à prova neste livro. O jantar descrito e que desencadeia uma série de acontecimentos nos primeiros capítulos será questionado nas páginas finais. Leitor e talvez até o próprio Dr. Gurameto Grande vai começar a colocar em dúvida os fatos envolvendo o jantar, se é que o jantar realmente aconteceu.

Kadaré brinca com verdade oficial, fatos verdadeiros e lendas que se transformam em verdade em uma trama desconfortável em razão das reviravoltas e mudanças de foco a cada capítulo. O poder da informação e da percepção do sentido de um fato são questionados no livro, que evidencia o exagero que a “língua do povo” traz para os falatórios.

Nesse jogo de incertezas, as fofocas dos moradores do vilarejo sacrificam ou santificam o protagonista; Dr. Gurameto passa de vilão a merecedor de cargo de governador da Albânia, dependendo da “notícia dos fatos” que chega até eles.

Como já se disse ser característica de Kadaré, percebe-se no romance poucas atenções dedicadas ao protagonista e uma dose grande de sarcasmo e ousadia literária dedicada a contar a história do pensamento comunista na Albânia. Partindo de um simples acontecimento, no caso um jantar, Kadaré se propõe a contar a história da dominação comunista naquele país e faz uma autópsia reveladora do modo como os comunistas pensavam e o constante sentimento de conspiração que costuma confundir e distorcer a informação, principalmente em períodos críticos que marcaram aquela região europeia após a 2ª Guerra Mundial.

A forma única que só Kadaré tem de escrever também presenteia os leitores em “O Jantar Errado”. Sua prosa, não importa qual assunto seja, aproxima-se da poesia e da oralidade, tal qual um contador de histórias rodeado por ouvintes em volta de uma fogueira. Para isso, além desse roteiro mirabolante que traduz o modo de pensar de um país, de uma época, de um povo, ele traz recortes de histórias albanesas antigas, lendas, cantigas populares entoadas por um velho cego e outros temperos a mais que, irrevogavelmente, reafirmam a premissa de que Kadaré é um escritor preso ao local mas que consegue escrever para o mundo todo ler.

“O Jantar Errado” pode até ser vista como obra menor quando comparada a outro livros grandiosos do autor, como “A Ponte dos Três Arcos” ou “Três Cantos Fúnebres para Kosovo”. Talvez este romance seja mais descompromissado. Mais engraçado, sem dúvida. Ainda assim, principalmente com o desfecho brilhante dado pelo autor (incluindo um novo personagem e que levantará questões na história envolvendo desafios profissionais, derrotas pessoais e fidelidade máxima a Stálin), Kadaré continua sendo um dos maiores escritores vivos do planeta e sempre candidato forte ao Prêmio Nobel de Literatura.

ESTANTE

Livro: O Jantar Errado

Autor: Ismail Kadaré

Tradução: Bernardo Joffily

Gênero: romance

Editora: Companhia das Letras

Número de páginas: 168

Preço: R$ 36

*Comentário publicado no D+, do jornal O Diário de Maringá

Comente aqui