Mês: agosto 2013



Mendigagem via email

Oi, tudo bem com você?

Você deve estar pensando que este é mais um daqueles e-mails chatos, mas continue lendo e você verá que não é.

Meu nome é Edson, tenho 43 anos, e quero lhe fazer um pedido…ou melhor solicitar sua ajuda (pedir é coisa de pobre) para que eu consiga realizar um sonho. Não vou te iludir (ou mentir se preferir) contando aquele contos de fadas de mandar 1 real para cinco pessoas e estas mandaram para mais cinco e blá,blá,blá… (aquelas correntes falsas) ou muito menos programas de pirâmides ou de marketing multinível.

A verdade é que eu quero mesmo é sua ajuda para me dar uma forcinha.

(Como sempre digo, pedir ajuda não é crime. Crime é roubar e/ou matar.)

Tenho uma moto velha (muito velha mesmo. Uma suzuki yes 125 – ano 2006) e não estou conseguindo juntar grana para comprar um ford KA. do modelo antigo. Aquele que parece uma baratinha. ( ter um Ford KA é um antigo sonho meu )

O Ford KA deve tá custando em uns R$ 13.000,00 (usado) e minha moto deve tá valendo R$ 1.000,00.

Meu salário é de R$ 735,00. Por aí você tira a dificudade pra juntar essa grana.

Emprestimo? Nem pensar, os juros são altíssimos.

AH, não seja muquirana, murrinha, mão-de-vaca. Ajude-me com qualquer quantia que não te deixe mais pobre.

Você com certeza algum dia deve ter ajudado um mendigo na rua ou um pivete no sinal que acabaram por gastar seu dinheiro com bebidas e cola. Ou até gastado seu dinheiro com coisas fúteis.

Eu não tenho vícios, sou de classe média baixa, sou casado e com filhos e o meu suado dinheirinho só dá pra gastar em casa. (Sobra mais mês do que salário.) E se eu for esperar e juntar ate conseguir todo o dinheiro vai demorar uma eternidade.

E eu, com a idade já avançada não quero ficar arriscando minha vida em cima de uma moto para o resto da minha vida. (Preciso do veículo para ir ao trabalho, me locomover)

Se você não me acha um idiota ainda e decidiu contribuir para essa causa nobre, faça uma doação com qualquer valor na seguinte conta:

Nome: Edson Sena

Banco: Banco do Brasil

Agência: 5742-8 Conta: 9163-4 (conta corrente)

Muito obrigado por ter perdido parte de seu tempo lendo esse e-mail e por favor não retorne me chamando de vagabundo, preguiçoso ou me xingando. Se não tiver sensibilidade, um bom coração e não quiser ajudar apenas delete esse email ou repasse para outras pessoas.

Muito obrigado por sua solidariedade. Que Deus te abençoe e te dê em dobro o que você puder me doar.

(PS. Não me pergunte como esse email chegou até você. Acho que foi o destino que quis assim.)

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O pai, o filho, a moça e o camaro amarelo*

Por Leandro Veras*

Um rapaz, cuja idade não foi divulgada, está andando pela cidade e tirando a maior onda com um carrão de duzentos mil reais que comprou recentemente só para impressionar uma moça que, aparentemente, não queria nada com ele até bem pouco tempo atrás. Segundo pudemos apurar, a moça teria desprezado o coitado só porque ele andava com uma CG Titan, provavelmente de 125 cilindradas, que não chama a atenção de ninguém (exceto de alguns trombadinhas).

Agora, o que impressiona mesmo nessa história, é como ele ganhou o dinheiro para comprar o carrão. De acordo com as palavras do próprio rapaz: “Aí veio a herança do meu ‘véio’,/ Resolveu os meus problemas, minha situação/ E do dia pra noite fiquei rico/ Tô na grife, tô bonito/ Tô andando igual patrão.”

Como podemos ver, o pai dele MORREU e o insensato em vez de ter ficado triste com isso, não, se apressou logo em, “do dia pra noite”, meter a mão na grana do “véio” (que talvez tenha batalhado a vida inteira para construir um patrimônio).

Mas a história não termina aí e é cheia de mistérios.

Primeiro, não sabemos se o “véio” morreu de fato ou se apenas adiantou a herança para o filho, como naquela história bíblica. Segundo, por que será que um sujeito cheio da grana (afinal, não é qualquer um que deixa ou adianta uma herança dessas para um filho) permitia que o seu moleque andasse por aí de CG? Por que será que ele não dava logo uma Kawasaki pro garoto tirar onda com as “mina”? Ou quem sabe uma Hayabusa? Certamente a moça não o teria esnobado!

Temos algumas hipóteses: como vimos, o “véio” até podia bancar a vida boa do filho, mas não o fazia. Por quê? Talvez porque esse pai fosse daquele tipo de empresário de classe média que saiu de baixo, comeu o pão que o diabo amassou, lutou, batalhou 10, 12, 16 horas por dia para construir seu patrimônio e não concordava com o estilo de vida do filho. Aliás, é isso que nos faz crer que o “véio” tenha mesmo batido as botas.

E que estilo de vida seria esse? Ao que tudo indica, o moleque é um desses boyzinhos mauricinhos, mimados pela mãe, que não tem nada na cabeça e não faz a menor ideia do que seja dar valor ao trabalho (muito menos o trabalho dos outros!). Afinal, que ideia podemos fazer de um sujeito que anda por aí dizendo coisas do tipo:

“Agora eu fiquei doce, doce, doce, doce/ Agora eu fiquei dododododoce, doce [2x]/ Agora eu fiquei doce igual caramelo/ Tô tirando onda de camaro amarelo/ Agora você diz: ‘Vem cá que eu te quero!’ Quando eu passo no camaro amarelo”?

É possível também que o pai fosse um tirano malvado, desses que fazem questão de que o filho assuma os negócios da família enquanto o garoto quer tocar violão e passear de moto com a namorada, sentindo o vento na cara como forma de liberdade. Daí viria, então, sua rebeldia, só para contrariar o “véio”.

Mas isso são só conjecturas que não encontram respaldo no relato conhecido e difundido pela mídia.

Também não podemos esquecer da tal moça. Considerando as palavras do rapaz, e é só com base nisso que podemos afirmar qualquer coisa (como, aliás, aconteceu com aquela Capitu), ela não passa de uma interesseira esperando algum novo rico para dar o bote. Senão, “Quando eu passava por você na minha CG/ Você nem me olhava/ Fazia de tudo pra me ver, pra me perceber/ Mas nem me olhava”

Hoje, após a provável morte do pai e o lance da herança e do carrão, nos conta o “Sr. agora eu fiquei doce” a respeito da moça: “Agora você vem, né?/ E agora você quer, né?/ Só que agora vou escolher, ta sobrando mulher.”

Mas ela se deu mal! É óbvio que o rapaz não ia querer compromisso agora que “tá sobrando mulher”.

A história ficou famosa, mas parece que ninguém ainda se deu conta dos detalhes absurdos (e sórdidos, inclusive, podemos afirmar) nos meandros deste enredo aparentemente tão leve e inocente.

*O texto de Leandro Veras foi publicado no D+, caderno do Diário de Maringá, em 7 de julho de 2013

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Escritor Rodrigo Lacerda faz bate-papo hoje em Maringá

Escritor Rodrigo Lacerda, ano passado, em bate-papo com Luis Henrique Pellanda no Paiol Literário, em Curitiba (Foto de Matheus Dias)

Por Wilame Prado

Com o bate-papo do escritor carioca radicado em São Paulo Rodrigo Lacerda, 44 anos, marcado para hoje, às 20h, o Sesc encerra o ciclo com escritores convidados do projeto Autores & Ideias. Próximos encontros acontecerão só no ano que vem. Além de Lacerda, este ano vieram à cidade falar sobre literatura o cronista e biógrafo Humberto Werneck e o autor de livros infantis Ilan Brenman.

Neto de Carlos Lacerda (jornalista, governador do antigo Estado da Guanabara e criador da editora Nova Fronteira morto em 1977), Rodrigo Lacerda passou toda a infância rodeada por livros e gente que trabalhava com livros na editora. Mas isso nem sempre estimula as pessoas da família a ambicionarem a carreiras das letras. “Tenho muitos primos e uma irmã que nasceram no mesmo meio familiar e cultural que eu e não deram para isso. Foram ganhar sua vida de outro jeito”, conta Lacerda, em entrevista para O Diário.

No caso dele, a timidez, o medo da morte e a dificuldade em arrumar uma namorada foram fatores mais determinantes na hora de sonhar em ser escritor do que propriamente o trabalho familiar com a editora.

No bate-papo de logo mais, cujo tema é “Um Caminho Para os Novos Leitores”, Lacerda fala sobre esses possíveis caminhos, formação de leitor de ficção e possibilidades fora da escola relacionadas à literatura. Sobre isso, carreira, cenário atual da literatura e muito mais o autor do premiado “O Mistério do Leão Rampante” (Ateliê Editorial, 156 páginas, 1995) conversou com a reportagem. Leia a entrevista:

O tema dos Autores & Ideias em que participará aqui em Maringá é “Um Caminho Para os Novos Leitores”. Que caminho é este, Rodrigo?

RODRIGO LACERDA – Acho que é o caminho da persistência, não desistir nunca é a chave. Tudo irá conspirar contra a carreira de escritor: a falta de tempo, de dinheiro, a incompreensão da crítica (na maioria das vezes), a necessidade de ter outro trabalho até se firmar (ou mesmo depois), a solidão inerente ao processo de escrita etc. Então, para vencer tudo isso, você precisa ter uma necessidade interna imensa de escrever. Na verdade, escrever não deve ser uma opção, mas uma condição.

Replico aqui as perguntas do texto de apresentação do projeto: “o que uma formação mais sólida de leitor de ficção e poesia poderia oferecer aos brasileiros adultos, não importa de que área?” “E fora da escola, que caminho os leitores podem seguir?”

O que as artes, não só a literatura, têm a oferecer é algo fundamental para todos, não só para estudantes da área. Pois diz respeito à capacidade de ver o mundo por outros olhos, de educar seus sentimentos para enxergar o outro, e isso afetará sua vida em todos os níveis, pessoal, familiar, profissional e como cidadão. Como falar de política, por exemplo, se você não enxerga o outro, se você acha que a sua razão se sobrepõe a todas as outras? Como ser um irmão melhor, um filho melhor, um marido melhor, sem treinar sua consciência para lidar com realidades paralelas?

O que pensa sobre os Autores & Ideias? Antes de Maringá, irá ter visitado quais cidades? Particularmente, curte essa aproximação com o público leitor?

Gosto muito de fazer essas viagens. É uma chance de sair do escritório e encontrar os leitores, de quebrar a solidão de que já falei. E o Paraná despontou nos últimos anos como polo literário importante, com grandes programas de apoio à leitura, com o melhor jornal literário do Brasil, o Rascunho, com pessoas que realmente estão fazendo a diferença nessa área. Então, além de um prazer, torna-se quase uma obrigação participar e, na medida do meu possível, ajudar.

Ainda sobre o tal caminho para os novos leitores, devo considerar ter sido fácil o seu caminho nas letras, já que veio de uma família cujo negócio era uma grande editora de livros?

Na verdade, ser de uma família ligada ao mundo editorial foi um elemento a mais a me aproximar da literatura, mas não sei se foi o determinante. Tenho muitos primos e uma irmã que nasceram no mesmo meio familiar e cultural que eu e não deram para isso. Foram ganhar sua vida de outro jeito. E quando publiquei meu primeiro livro, não publiquei pela editora da família. Já estava morando em São Paulo, e não no Rio de Janeiro, onde nasci, e estava justamente afastado da empresa familiar, embora continuasse trabalhando no meio editorial. Os elementos determinantes, que realmente plantaram em mim, lá pelos 13/14 anos, o desejo de ser escritor, foram: 1) a timidez e a dificuldade de arrumar uma namorada; 2) o medo de morrer e não deixar nada para trás.

E para os brasileirinhos filhos de analfabetos ou de analfabetos funcionais, cuja leitura de ficção nunca foi hábito, em casas onde o único livro encontrado muitas vezes se resume a uma Bíblia Sagrada?

Tenho um colega escritor, e amigo, Ronaldo Correia de Brito, que era exatamente essa pessoa. O filho de uma família muito humilde de camponeses, que tinha apenas a Bíblia em casa. E o escritor sobre o qual fiz minha tese de doutorado, o João Antônio, também foi eleito pela família para ler a Bíblia todas as noites, com a família a sua volta. E os dois viraram escritores maravilhosos. Convenhamos, a Bíblia, do ponto de vista literário, é um livro tão bom, tão cheio de histórias, de variações estilísticas, que é certamente um excelente começo para qualquer escritor. Se você, além da opção de ser escritor, “sofre” a condição, os parcos recursos culturais da sua família serão tanto um obstáculo quanto um estímulo.

Sinceramente falando, alguma vez já sentiu estar sendo superestimado pelo fato de ser de uma família conhecida, principalmente no meio literário?

Nunca, até porque, nunca tive tanto sucesso assim. Ganhei alguns prêmios, é verdade, mas não tenho grande adesão da crítica ao meu trabalho. Sou visto como um escritor que, na melhor das hipóteses, renova a tradição, mas não como um inventor de algo novo. Do ponto de vista do público, meu livro que mais vendeu, afora adoções em escola, vendeu por volta de 10 mil exemplares, o que não é tanto. Sendo assim, sinto-me na verdade subestimado! Eu acho que mereço muito mais! (risos)

Salvo engano, seu penúltimo livro foi publicado originalmente em 2008. “O Fazedor de Velhos” continuou ganhando reimpressões até o ano passado. Por que resolveu publicar literatura infantojuvenil?

Eu estava escrevendo outro romance, adulto, chamado “Outra Vida”, e estava tendo muita dificuldade para continuar. Tinha a impressão de que havia começado uma história que não sabia como acabar. Então resolvi fazer um livro leve, para minha filha, que tinha então 12 anos. Um livro que eu escrevesse sem pressão, sem planos, sem uma história pronta, improvisando a cada passo. Saiu o “Fazedor de Velhos”, meu livro mais bem sucedido comercialmente falando, e talvez literariamente. A decisão de escrevê-lo, portanto, tinha um caráter recreativo. Além disso, eu queria transmitir à minha filha algumas das coisas que eu pensava da vida, mas sem soar professoral, fazendo com que as emoções dela a levassem às mesmas conclusões que eu. E uma boa história é a melhor maneira de fazer isso.

“Outra Vida”, de 2009, também é romance premiado e sua última obra. Tem algo na manga? De repente, o livro sobre política e que pesquisou a história de seu avô, o Carlos Lacerda? O que pode me contar sobre sua última obra?

O que posso contar é que acabei! Entreguei na editora e dei a umas pessoas próximas para que lessem. Estou recolhendo suas impressões para depois fazer a versão definitiva. Posso dizer também que o livro deixou de ser apenas sobre o meu avô. Vi que o pai dele também era político, e os dois tios, e o avô dele. Então o livro virou algo maior, que vem do período imperial até 1954, com a história do Brasil sendo contada pelos olhos de três gerações de políticos de uma mesma família. Acho que ficou legal.

Como analisa essa sua bela biografia literária, começando bem com um “O Mistério do Leão Rampante” vencedor do Jabuti e um “Outra Vida” vencedor de prêmio na Academia Brasileira de Letras?

Como eu disse, não tenho de mim essa impressão de alguém tão bem sucedido. Vocês estão sendo generosos demais comigo. Encaro esses prêmios como incentivos para continuar a melhorar, a ampliar meus recursos literários, a expandir minha sensibilidade, a me despojar de minhas travações, e assim fazer melhor na próxima vez. Quando rendem algum dinheiro, são uma garantia de que o próximo livro poderá existir, o que é bom. Acabo de acabar o romance sobre os políticos da família e já estou pensando num livro de contos que tenho começado. Sempre estou com a cabeça no próximo livro.

O que tem feito ultimamente da vida? Pode se dedicar apenas ao ato de escrever ficção ou tem outras atividades, ainda que, de repente, envolvida com a literatura?

Já houve o tempo em que eu tinha uma relação de amor e ódio com minhas outras atividades além da literária, sobretudo com minha atividade como editor. Hoje gosto de atuar em mais de uma frente: sou escritor, tradutor e editor. Vivo do que ganho como editor, e portanto essa é minha atividade cotidiana, mais regular que a literatura, até. Trabalho na editora Zahar, onde encontrei o ambiente de trabalho ideal, cheio de amizade, transparência, respeito e admiração mútua. Custou, mas encontrei uma editora onde estou totalmente feliz. E olha que eu rodei, passando pela Nova Aguilar, Nova Fronteira, Edusp, CosacNaify e Mameluco. Em todas tive ótimas experiências, mas só na Zahar a química foi perfeita.

Na apresentação d´“O Mistério do Leão Rampante”, João Ubaldo Ribeiro disse que você chegaria onde quisesse na literatura porque tinha amor pelas palavras, um deleite em escrever. Como é a sua relação com as palavras, digo, com a leitura de palavras e com a produção de palavras. Revele ao nosso leitor, por gentileza, alguns de seus hábitos de leitura e também de produção literária.

Meus hábitos de leitura são caóticos. Por causa do trabalho na editora, leio predominantemente livros de não-ficção, de todos os tipos e sabores. E muitas vezes leio-os pela metade, pois se já não gostei devo aproveitar ao máximo meu tempo para ler os que estão na fila. Fora isso, tento ler literatura, mas acabo lendo tudo aos pedaços também, por falta de tempo. Meus livros, enquanto estão sendo escritos, passam por centenas de releituras, e mexo neles até o último minuto, o que é bastante cansativo. Quando chego no fim do dia, como tenho dupla jornada, como editor e escritor, acabo preferindo um filmezinho na TV.

Quando estreou na literatura, com muito êxito, diga-se de passagem, tinha só 26 anos. Olhando para trás, teria feito tudo exatamente igual, esperaria um pouco mais para lançar? Enfim, o que tem a dizer para os jovens que estão lotando suas pastas de arquivos de computador com contos, romances, poesias. Em Maringá há um monte deles.

Quando eu lancei o primeiro livro, minha vontade era reencarnar um Balzac ou um Jorge Amado, e sair publicando dez, vinte, trinta romances. Ter uma obra imensa, mesmo que nem tudo fosse bom. Mas fui vendo que o meu ritmo de vida e o meu nível de perfeccionismo não me encaminhava para isso, e sim para um ritmo mais lento de publicação. Se tenho algum conselho a dar é que a publicação do livro não deve ser apressada. Mas ele deve ser lido por aquelas pessoas cuja opinião são importantes para você, para que você possa aprimorá-lo. Quando esse trabalho de aperfeiçoamento estiver avançado (terminado nunca está), o livro encontrará um caminho para ser publicado.

Por falar em Maringá, já conhece a cidade ou será a primeira vez? Tenho a honra de informar, se já não sabe, que temos o atual vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013 na categoria Romance, o meu amigo Marcos Peres, também muito jovem, e temos o atual vencedor do Prêmio Jabuti na Categoria Romance, o professor e escritor Oscar Nakasato (vencedor do Prêmio Benvirá, da Saraiva com o mesmo livro), que nasceu aqui mas se radicou em Apucarana (65 quilômetros distantes).

Já ouvi muito falar de Maringá, sobretudo quando fiz a tese de doutorado, pois o João Antônio morou no Paraná, onde foi um dos editores do jornal Panorama, nos anos 70, e ele tem textos sobre Maringá. Também tenho uma grande amiga que mora perto, e acompanho sua vida. Não sabia dessa concentração de premiados por aí, mas espero poder conhecê-los.

Última de Maringá: No Paiol Literário, em 2012, afirmou: “escolhi São Paulo para morar, mas adoraria morar no Rio, em Curitiba, Londres, Paris, Berlim”. Maringá seria muito pequeno para um grande escritor como você? O que pensa sobre os eixos imaginários Rio-SP no que tange à literatura e escritores?

Na verdade, meu sonho é morar numa fazenda, ou num sítio próximo a uma cidade de porte médio. Odeio os grandes centros. Mas como preciso trabalhar para viver, e como 99% das editoras, no Brasil, estão concentradas no eixo Rio-São Paulo, estou condenado a ficar ou numa ou na outra cidade. Se a prefeitura de Maringá quiser me dar uma bolsa para eu ir morar aí, faço as malas hoje mesmo!

Para o Paiol Literário, disse que tentava seguir uma linha de João Ubaldo, com erudição e humor. Continua sendo a sua grande referência para escrever, além de Eça, Faulkner e Shakespeare? Ou, de lá para cá, descobriu outras leituras e que seriam boas recomendações para os leitores deste jornal?

Descobrir bons escritores é a coisa mais fácil do mundo. Para mim, o talento está disseminado em toda a parte. Não vejo o talento como o dom de uma casta de privilegiados a serem cultuados. Vejo o talento artístico como parte da vida cotidiana. Mas às vezes certos escritores te pegam num momento da vida em que a obra deles realmente transforma sua percepção da vida, sua visão de mundo. Não só pelo mérito literário deles, mas por um momento de vida seu. É uma conjunção cósmica, quase. E nesse plano, realmente, Eça, João Ubaldo, Shakespeare e Faulkner são, para mim, os escritores fundamentais. Eça e João Ubaldo me ensinaram a rir da minha desgraça, o Shakespeare, a lutar para sair da condição de desgraçado, e o Faulkner me ensinou que todo mundo é irresgatavelmente desgraçado, o que não resolveu meu problema mas me deu a sensação de não estar sozinho, o que já foi um adianto considerável.

No Paiol, disse também para Pellanda e plateia curitibana que, nos anos 90, “O Mistério do Leão Rampante” foi um contraponto ao realismo de Rubem Fonseca “ditador” de tendências para a literatura brasileira da época. Hoje, na sua opinião, conseguimos fazer uma análise daquilo o que se está produzindo na literatura contemporânea brasileira? Assim como há quase 20 anos, você destoa ou percebe que vem seguindo uma linha parecida?

Não devemos esquecer que, se o “Mistério…” teve esse papel, ele o teve para mim e para a meia dúzia de leitores na época, enquanto o Rubem Fonseca era lido por milhões. É importante guardar as proporções, ou eu estaria reescrevendo a história da literatura brasileira a meu favor. Acho que hoje em dia é muito mais difícil fazer um painel compreensivo da literatura brasileira, pois a variedade de vozes é imensa, não há grupos ou movimentos muito articulados, que organizem a cena. Então todas os balanços, a meu ver, tendem a ser um pouco parciais. Isso não é necessariamente mau, mas precisamos ter em mente que existe. Quanto à minha obra, cheguei à conclusão que, entre o Hitchcock e o Billy wilder, sou mais o Billy Wilder. O que quero dizer com isso? Que não sou o tipo de escritor que tem um gênero preferencial, que faz de cada livro uma variação numa linha de trabalho contínua. Para o bem ou para o mal, vejo meus livros como muito diferentes uns dos outros, e gosto de variar de “voz narrativa”, gosto de recriar tons e universos a cada livro. Talvez o verbo “gostar”não seja o ideal; não escolhi ser assim, sou assim porque não sei ser do outro jeito.

SERVIÇO – ENTRADA FRANCA

Autores & Ideias

Com o escritor Rodrigo Lacerda

Mediação do jornalista Marcelo Bulgarelli

Quando: amanhã

Onde: Sesc (Av. Duque de Caxias, 1.517, Zona 7)

Horário: 20h

Entrada franca

Informações: (44) 3262-3232

*Entrevista publicada terça-feira (13) no D+, caderno do Diário de Maringá

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Em terra de Smile, todo mundo é feliz

Por Wilame Prado

A felicidade não se mede com o tamanho do sorriso, embora o símbolo mais comumente utilizado para representar pessoas felizes é o rostinho amarelo chamado Smile, minimalista com suas duas bolotas pretas representando olhos e um arco horizontal com as pontas para cima fazendo o sorriso de desenho.

Após reportagem aqui no Diário informando sobre os 90% de felizes maringaenses, resolvi que vou passar mais tempo zanzando nas ruas só para ver meu novos amiguinhos, os Smiles maringaenses. Em minha imaginação, já estou aqui trocando os rostos das pessoas, nas calçadas, dirigindo carro, esquentando ovos na chapa da padaria, por aquela carinhas amarelas sorridentes. Todos, automaticamente, ficam felizes e eu, de quebra, fico também.

Lembro-me bem da infância, período em que era proibido ser muito felizão. Corríamos perigo de sermos chamados de “bobo alegre”. Que medo mais besta. Felizes são os bobos alegres, que riem de tudo e do nada, que não fecham a cara mesmo sabendo que tem um monte de gente dando porrada e chute na bunda.

A felicidade costuma ficar mais contida na adolescência. E aí a moçada acha que é bonito ser feio. A velha e saudável rebeldia, o descontentamento como premissa de vida. Muitos adultos, por essa época, gostam de repetir uma frase clichê e afirmam que, para eles, cara feia é sinal de fome.

Na fase adulta, vim parar na cidade dos felizes. Maringá é onde trabalho. E no ambiente profissional, repare bem, ao contrário da época infantil, é meio que obrigação ser alegre. Alguém, um dia, deve ter escrito naqueles importantes livros de autoajuda que, para um bom ambiente de trabalho, devemos sorrir, ainda que talvez não estejamos sendo filmados.

Estou pensando bem aqui comigo e, na verdade, não é só no trabalho, não, que somos obrigados a ser Smiles. Na fase adulta, de modo geral, todo mundo fica cobrando felicidade. Em casa, na padaria, em qualquer lugar. O homem de pouco sorriso é malvisto. Deve ser traído, já começam a pensar os mais ferinos. A mulher mais séria espanta pretendentes e amigas. É falta de homem, imaginam os canalhas; mal amada, repetem as mulheres.

O bobo alegre, em toda sua respeitabilidade, em seus eternos cumprimentos de mãos, beijinhos no rosto e cara de Smile, cumpre bem o seu papel corporativo. Tem a vida ganha e não se estressa. Quando chega em casa, nada de bronca no filho que não sai do videogame, apenas recomendações, um olho no olho para discorrer sobre os malefícios do game.

A mulher do bobo alegre nunca o viu chorar, mesmo no dia em que brochou na cama ou quando sua tia querida morreu. Smiles não choram, ele comentou uma vez para ela, mãos no volante, olhar fixo para a frente, prestes a sair dirigindo o seu carro do ano, com ar-condicionado e rádio ligado, pelas ruas bem sinalizadas de Maringá. Pelo vidro, de relance, percebeu que 90% das pessoas tinham os rostos iguais ao seu, amarelo e redondo.

*Crônica publicada nesta terça-feira (13) na coluna Crônico, do D+, caderno do Diário de Maringá

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Memórias de Brás Cubas e William Kentridge

Por Wilame Prado

Memórias, reminiscências. Coisas do passado, mas que, dependendo do movimento, podem construir beleza no agora, se não forem deixadas pra trás. William Kentridge, 58 anos, sul-africano, que não gosta de deixar as coisas pra trás, um bruxo da arte contemporânea, rememorou e homenageou o bruxo brasileiro, o nosso grande Joaquim, o intocável Machado de Assis, em seu desenho filmado “De Como Não Me Tornei Ministro D´Estado”.

Na obra de arte de Kentridge, temos um curta-metragem de gosto fino e para ser apreciado com olhos atentos para as constantes significâncias que brotam da tela, da pintura, das páginas que compõem o desenho filmado.

Homem do seu tempo esse sul-africano. Ele sabia que nós, brasileiros, iríamos cair aos seus pés pelo “simples” fato de ter lembrado do nosso ídolo-mor da literatura brasileira – talvez mundial –, o nosso Bruxo do Cosme Velho.

Utilizar páginas de uma velha edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ano 1946 como pano de fundo para a principal obra de “Fortuna”, exposição de Kentridge que fica no Brasil até novembro deste ano, foi sacada de mestre.

Brás Cubas de Assis, neste momento, certamente está dando risada no túmulo e talvez até preparando novas memórias póstumas.

O artista sul-africano, com todo seu hibridismo, com seus traços expressivos, com suas técnicas de flipbook, com seus cabisbaixos autorretratos que não param de andar para lá e para cá, com suas constantes homenagens para com as grandes artes – assim como é a literatura – e finalmente com suas memórias, conta pra gente os motivos pelos quais, ainda bem!, não se tornou ministro d´Estado. Kentridge, pelo menos aqui no Brasil, preferiu ser Machado de Assis.

*Crônica feita para a matéria “Leitura e Releitura”, ministrada pela professora Annelise Nani, na pós-graduação de Arte na Contemporaneidade, da Unicesumar

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Parabéns Metrô!

Por Wilame Prado

Por esses tempos, os sujeitos mais atentos vinham reparando bem nos olhares tristes dos maringaenses enquanto iam até a padaria do bairro buscar os pãezinhos, dentro de uma circular ou quando se prestavam a rodear intermitentemente o Parque do Ingá. Estavam todos calados, cabisbaixos, absortos em pensamentos, sós consigo mesmos os moradores desta cidade. Olhavam mais para a poeira do chão do que para a imensidão do horizonte. Essa tristeza incalculável mas nem sempre admitida dos maringaenses – pesquisas suspeitas andam dizendo por aí que aqui mora gente feliz – só podia ter uma explicação. A ausência de um time de futebol profissional decente.

Havia uma carência futebolística que foi se acumulando com tantos anos de amargura dentro do gramado, anos de times não sintonizados com o anseio do povo e uma dor no peito grande ao ver rivais como o Londrina Esporte Clube ou o Cianorte Futebol Clube jogando certinho, brigando lá em cima, dando alegria para seus torcedores em tardes de domingo, em dias de estádio cheio, sol quente e bola nas redes. Esse clima de velório futebolístico se reverteu por aqui desde as 17h19 do último domingo, instante em que o juiz Murilo Ugolini Klein apitou o término da partida entre o Colorado e o Metropolitano Maringá (realizada no simpático Estádio Municipal Francisco Borges de Campos na terra não menos simpática da cana-de-açúcar e do rodeio), sacramentando a vitória por 1×0 que garantiu o time maringaense, com duas rodadas de antecedência, na primeira divisão do Campeonato Paranaense, a ser disputado no ano que vem.

Com o acesso à primeira divisão, o sorriso do maringaense só não é mais escancarado porque, a bem da verdade, a sensação é a mesma quando acontece de o carro ser recuperado sem rádio e sem calotas após um furto. Recupera-se o bem que jamais deveria ter saído de suas mãos. Maringá jamais deveria ter saído da elite do futebol estadual e até nacional. Gente gabaritada, como o compositor e jornalista Cláudio Viola, não me deixa mentir: Maringá sempre foi boa das pernas e, em décadas passadas, não escolhia adversário para duelar no esporte bretão.

O Estádio Regional Willie Davids jamais deveria ter sido silenciado. Ninguém merece tardes vazias de domingo com um gigante calado.

Cristiano: esta é a minha sugestão para o nome do teu filho, caro leitor ou leitora. Cristiano, este é o nome da fera. Dono da camisa 9, artilheiro do torneio e autor do gol da vitória que garantiu a subida do Metropolitano Maringá aos céus após período que parecia ser interminável no purgatório das almas que tateiam em busca de times para torcer, com gritos de gols entalados e que causavam sufocamento de gargantas aquietadas.

Quando Cristiano interferiu na trajetória do escanteio batido por Fernandinho, fazendo, aos quarenta minutos do primeiro tempo, um belo gol de cabeça no canto superior esquerdo do pobre goleiro colorado Rafael, ele sabia que os maringaenses estávamos feridos, abatidos, sem dignidade, sem alma, sem coração e cada vez mais agarrados aos times paulistas.

Obrigado, Cristiano.

Sim, tudo bem, somos santistas também, palmeirenses, corintianos e até são-paulinos – as vezes encontra-se flamenguistas, atleticanos e outros suicidas mais na cidade. Mas, a cada rodada dos torneios mais representativos praticados por esses times, competições com envergadura nacional e até internacional, havia uma outra camisa vestindo os maringaenses, só que pelo lado de dentro do corpo. Maringá sempre teve camisa (cores e nomes dos times que representam a cidade pouco importam), nunca se desprotegeu. Chegou a hora de vesti-la por cima de qualquer roupagem enquanto se caminha – sem olhar para trás ou para o chão – até o estádio em uma tarde ensolarada de domingo, dia de rede balançando e de guerreiros cantando na arquibancada. Parabéns, Metrô!

*Crônica publicada esta terça-feira (6) na coluna Crônico, do D+, caderno do Diário de Maringá

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