Mês: setembro 2013



O colecionador de sorrisos anônimos

Por Wilame Prado

Aos domingos, minha atividade preferida é colecionar sorrisos anônimos. Para isso, dou umas voltas, dirigindo o carro, em torno do Parque do Ingá, do lado de lá da fita da Setran que protege os praticantes de atividade física ao ar livre. Famílias inteiras sorriem, distribuem simpatia, exibem seus aparelhos ortodônticos e proclamam a felicidade.

Tênis coloridos, bicicletas velozes, algodão doce e sorrisos. Retorno para a casa satisfeito. Tudo está em paz, a maionese para o almoço já foi comprada e logo mais os times de futebol duelarão em espetáculos televisionados. Morar em Maringá é estar longe demais das capitais, até mesmo em dias de semana. É não precisar visitar museus grandiosos porque as telas mais bonitas estão no cotidiano visual, pintadas em um céu claro noturno estonteante e em dias quentes amainados com sombras de árvores. Isso sem falar das Academias da Terceira Idade: um luxo só.

Aqui, quase todo mundo é amigo do rei. Maringá recebe luz “diferenciada”. E uma certa banda da cidade proclama: só falta praia para Maringá virar Los Angeles. Por essas e outras, não entendo porque os maringaenses ficam tanto tempo em redes sociais, consumindo notícias horríveis que chegam das mais diferentes partes do mundo. Em Maringá, o máximo que pode acontecer são envolvimentos tragicômicos entre uma abobrinha e um senhor de idade, assaltos diários, acidentes de moto e quando em vez um acerto de contas na guerra do tráfico.

Já que as pessoas não largam mais os smartphones, alguém deveria inventar um Facebook só para maringaenses. Comentaríamos apenas sobre o passeio no bosque, o cinema e a comida rápida oferecidos em shoppings devidamente climatizados e também sobre as boas iniciativas advindas do poder público, como a instalação de câmeras vigilantes nos pontos principais da cidade e uma investigação acerca do serviço de transporte coletivo – pra não dizer que não falei das flores.

Proponho mais: que Maringá se torne uma ilha. E que coisas estranhas e impensáveis aos olhos maringaenses – como família inteira dizimada pelo filho; mãe que mata as duas filhas e enforca o cachorro; mãe e quatro filhos encontrados envenenados dentro do apartamento; mais de 50 mortos em ataque terrorista no Quênia; Estados Unidos querendo guerrear para conter outra guerra; além de coisas menos periclitantes, mas também bizarras, como axé no Rock in Rio; Aécio Neves falando “papo reto” no comercial da televisão; e atrizes globais ridiculamente de luto por causa do Mensalão – nunca cheguem por aqui e atrapalhem minha caça dominical a sorrisos anônimos.

*Crônica publicada nesta terça-feira (24) na coluna Crônico do D+, no Diário de Maringá

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Tardei

Por Wilame Prado

Tardei, no lado oeste da cidade de pequeno porte

o sol caía

o moleque recolhia o par de chinelo-trave

o shortinho curto da moça tapava o paraíso

a senhora terminava de varrer a sujeira do mundo

e eu,

enquanto deixava a máquina automobilística me levar para mais próximo das nuvens,

tardei

Termine de ler n´A Poltrona

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O tédio dos jovens e de Sofia Coppola

Atriz Emma Watson em cena de “Bling Ring”: assaltos recheados de futilidade e consumismo

Por Wilame Prado

Tenho acompanhado há alguns anos o trabalho como diretora de cinema de Sofia Coppola, filha do mestre Francis Ford Coppola. E se o pai fez da história da máfia uma das grandes obsessões cinematográficas, a filha prefere centralizar em sua filmografia uma questão recorrente da contemporaneidade: o tédio.

Em “Um Lugar Qualquer” (filme de 2010 e vencedor do Leão de Ouro, em Veneza), Sofia já estava querendo nos dizer o seguinte: por detrás do glamour, da fama e da grana de um astro de Hollywood, há também tédio. Com “Bling Ring – A Gangue de Hollywood”, filme em cartaz no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping, o tédio continua sendo explorado por ela.

Nicki (Emma Watson), Marc (Israel Broussard), Sam (Taissa Farmiga), Rebecca (Katie Chang) e Chloe (Claire Julian) são as figuras principais da gangue que resolve se divertir matando o tempo em assaltos praticados em mansões situadas em Los Angeles.

O alvo dos assaltos são as celebridades, como Paris Hilton e Lindsay Lohan, figuras públicas que deixam vazar pela internet informações sobre viagens que fazem pelo mundo, pressuposto para a moçada invadir facilmente a propriedade privada sabendo que não há ninguém em casa. Para o filme, Sofia se baseou em uma história real, lida em um artigo da revista Vanity Fair.

Entediada. É assim que vejo aquela turma de jovens que resolve praticar furtos nas mansões dos milionários envolvidos com o mundo da moda e do entretenimento. Os dias de hoje são um tédio só. Junte isso ao consumismo babaca, à doença de se querer glamour por meio de luxo e marcas em roupas, aparelhos tecnológicos e acessórios, e então se fabrica uma juventude que não sabe mais o que inventar em uma época em que é mais importante postar, curtir e compartilhar do que viver.

No longa-metragem em cartaz, Sofia se atenta a isso e dedica boa parte das cenas naquele ritual comum e desprezível dos tempos de Facebook: agir, registrar, postar na rede social e aguardar a reação. Com joias, sapatos, bolsas e dólares furtados das mansões, o ápice do prazer banal da juventude só é pleno a partir do momento em que tudo fica registrado para os “amigos” verem.

Claro que, na trama, com as facilidades materiais advindas com a prática do crime, a galera desfruta de sensações, como a de dirigir um carro importado em alta velocidade, tomar champagne na melhor balada das redondezas e de experimentar drogas estimulantes. Mas o que vem depois? O tédio, em doses cavalares, com a força da realidade cotidiana que revela a fugacidade de tudo aquilo.

“Bling Ring” vem provando o que muitos dizem: Sofia Coppola talvez aborde temas que estão muito próximos a ela. Refiro-me novamente ao tédio: famosa desde que nasceu por conta do sucesso do pai, iniciado na década de 1970 com a saga do “Poderoso Chefão” e com “Apocalypse Now”, a jovem atriz e diretora deve saber que as coisas essenciais da vida não estão à venda e que, por isso mesmo, há tanta banalidade principalmente no mundo das celebridades; tudo não passa de uma fuga doentia contra o tédio.

Em seu último trabalho, porém, a diretora deixou escorrer a essência para a técnica, e isso vem sendo característica cada vez mais marcante e preocupante da diretora de cinema. Para Sofia, abordar o tédio como temática é essencial. Ela só não precisava ter transferido toda essa obsessão para as questões envolvendo a arte de se fazer um filme. “Bling Ring”, em suas repetidas e iguais cenas de furtos às mansões praticados por jovens fúteis e desmiolados, torna-se um filme chato, com roteiro fraco, sonolento, enfim, entediante.

Envolto às questões da juventude vazia que caracteriza a “gangue de Hollywood”, há uma série de elementos que poderiam ter sido melhores explorados pela diretora, como a ausência dos pais, amizades escolhidas e premissas de uma sociedade contemporânea que se mostra, cada vez mais, mesquinha em meio aos ditames consumistas da moda e do cinema.

Mas não: Sofia, talvez entediada para caramba, optou por ocupar mais de uma hora do longa – que, mesmo breve, se arrasta a passos lentos em seus infindáveis 1h30min de duração – com a repetição de cenas dos assaltos. Foram pelo menos três investidas no closet e na boate particular de Paris Hilton. Um tédio só ver aquelas meninas delirando com bolsas e sapatos e um menino com medo de ser pego em flagrante mas se revelando obcecado pelas marcas e joias tal qual uma patricinha de quinta categoria.

Sendo assim, “Bling Ring” caberia esplendidamente em um curta-metragem de 15 minutos, com uma cena de abertura, uma cena de assalto e outra com o desfecho da história. O público teria ficado menos entediado.

Obs.: Como bem alertou o jornalista e crítico de cinema Elton Telles, o filme “Spring Breakers – Garotas Perigosas” (dirigido e roteirizado por Harmony Korine este ano e que não estreou em cinemas brasileiros) traz à tona a mesma questão: garotas entediadas que resolvem subverter a ordem, curtindo umas “férias adoidadas”, literalmente. Filmaço, com cenas impactantes e que mesclam, com maestria, a singeleza de “novinhas” com seus biquínis amarelos com o perigoso mundo das drogas, álcool, tráfico, sexo e armas.

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Não existe amor em Maringá?

Por Wilame Prado

Em muros maringaenses, algumas frases soam interessantes. Pensando nessas frases – assim como a da foto, em tom de súplica e revolta pedindo mais amor – produzi uma divagação em exercício proposto no curso de pós-graduação. Quem se interessar, pode ler o texto em A Poltrona. 

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Escolhas de Steve Jobs

Por Wilame Prado

As escolhas estão aí em nossa curta vida, espalhadas pelo ar, impregnadas nas relações humanas. Dificilmente não haverá escolha. Sei lá, menos em uma doença fatal, em um acidente de trânsito (foi acidente mesmo ou imprudência?); mas aí as escolhas já partem para o plano metafísico, fica difícil de discorrer, restam apenas divagações.

O que estou querendo dizer é que podemos ser tudo nessa vida louca. Podemos ser um andarilho e se alimentar de mangas que caem de grandiosas mangueiras plantadas por passarinhos na beira da rodovia. Como podemos também ser o fundador da Apple e responsável por grandes descobertas e feitos relacionados à tecnologia e à criação de objetos que tendem a facilitar a vida das pessoas. Escolhe-se e, consequentemente, seleciona-se.

“Jobs” (cinebiografia dirigida por Joshua Michael Stern, com roteiro de Matt Whiteley), em cartaz no Cineflix Cinemas (Maringá Park Shopping), Circuito Cinemas (Shopping Cidade) e Multiplex (Catuaí Shopping), faz um recorte biográfico de Steve Jobs (com interpretação elogiada de Ashton Kutcher), o astuto cara da maçãzinha dos adorados iPod´s, iPhone´s e iMac´s da vida.

Filme recomendado até mesmo para aqueles que sentem ojeriza por questões envolvendo tecnologia. O filme não é sobre nerds não. É sim sobre um cara maníaco, perfeccionista, determinado, inteligente e disposto a fazer o melhor, a criar a roda do século 20. Enfim, um filme sobre quem escolheu ser o fundador da Apple e não o andarilho comedor de mangas (nada contra os livres, leves e soltos andarilhos; gosto muito de manga, por sinal).

“Jobs” parece livro de autoajuda assistido nos cinemas. Mas vale o ingresso. É interessante a história de como surgiu a Apple no final da década de 1970. É curioso ver revelado alguns dos milhões de trejeitos e manias do ímpar Jobs, que odiava calçar tênis e cheirava mal.

Ao sair da sala do cinema, o sentimento é de revolta por sermos tão burros. Todos somos burros perto de Jobs, que, além de ter sido eficaz no campo da informática, sabia também negociar como ninguém e tinha o poder da oratória para convencer que tudo o que fazia era buscando o Inalcançável, pelo menos o inalcançável aparentemente aos olhos humanos dos mortais.

Ao “escolher” a perfeição, Jobs abre mão de muita coisa. Aos olhos atentos na telona dos falsos moralistas de plantão, ele se revela um calhorda. Abre mão das pessoas próximas pelos seus ideais. Em um jogo de eterno retorno de rejeição, o filho adotivo Jobs não quer reconhecer a paternidade de Lisa, sua primeira filha. Ele bem que tenta, vez ou outra, dialogar com antigos amigos, mas, simplesmente, admite não ter tempo: suas “escolhas” não permitiram a perda de tempo com tamanhos “luxos”.

O engraçado em Jobs – pelo menos o Jobs pintado na tela do cinema (confesso não ter lido muito sobre o inventor e empresário) – são as ironias do destino. Ele queria aproximar as pessoas com a tecnologia e, sem entrar no mérito das pseudo relações humanas via Iphone, conseguiu tamanha proeza. No entanto, para isso, “escolheu” o seu necessário afastamento humano. Aceitou ser encarado como um vilão egocêntrico e desumano para deixar um enorme legado à humanidade.

Vítima jovem de um câncer no pâncreas, morreu aos 56 anos, em 2011, um dia após o lançamento do Iphone 4S. Deve ter ido em paz, após mais um feito dentro da sua maçã mágica. Mas não é possível que Steve Jobs, em algum momento em sua vida ligeira e intensa, não parou para pensar um pouco nas escolhas que fez, nos amigos que não teve, nas mulheres que não amou, nos funcionários que humilhou, enfim, nas “simples guinadas do destino”, como bem cantou Bob Dylan (músico preferido de Jobs) na bela canção “Simple Twist of Fate”.

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Sobre amor e piano*

Por Wilame Prado

Dinheiro era o que precisava para conseguir por em prática um sonho que contaminava seus pensamentos diariamente, antes de dormir, desfocado no trabalho ou fumando cigarros. Em lágrimas, vendeu a humilde moto 125 cilindradas e ajuntou um pouco de dinheiro optando em comer prato feito à R$ 3,50 em vez de almoçar em restaurantes que cobram por quilo. Ainda vendeu o velho violão Eagle preto, de cordas de aço, e conseguiu outro punhado de reais.

Tinha, agora, certo ordenado na poupança. Tinha também lembranças de momentos bons – vento na cara, velocidade, mão dela em sua cintura, mentiras para ele mesmo de que estava pilotando uma Harley, ovo frito e bisteca de sexta-feira, canções românticas mal cantadas e tocadas, dedicadas a ela. Nostálgico, quase se arrependeu do que fez, mas o amor e a vontade de surpreender o impulsionava.

Digitou no Google “Piano”, em aspas para apurar melhor a pesquisa. Sem norte, acabou pagando fortuna em um Fritz Dobbert, castanho escuro, usado, sujo e quebrado, de uma velha professora de piano (igual àquelas que sempre têm nos filmes) que queria se desfazer do instrumento musical (móvel da sala) para comprar passagem de ida sem volta rumo à Europa, em casas de tias-avós.

Acabou ganhando, de brinde, um tapete mofado para que o instrumento não riscasse o chão. O segundo e maior desafio, que também custaria dinheiro, era o de aprender a tocar piano. Tarefa árdua para alguém que “malemá” tirava um Raul Seixas no violão e tinha dificuldades atenuantes para conseguir tocar qualquer canção de Chico Buarque.

Teve de voltar ao prato feito por mais algum tempo para conseguir pagar as duas aulas semanais, de uma hora cada, com uma outra senhora que parecia a dos filmes. O terceiro e último desafio, que, lógico, também custaria dinheiro, era o de viajar a praia, nem que fosse um final de semana, para finalmente realizar seu sonho, cultivado há anos. Dessa vez, teve de fazer empréstimo e matou saudade do velho e bom boleto bancário.

Enquanto isso, conseguiu a façanha de esconder da amada, não só sua falta de talento, como também o próprio piano. Amoitou-o em república de amigos meio loucos, meio beberrões, que nem se importavam quando, em madrugadas a fio, ele insistia em tentar tirar, irritantemente, um “Dó-Ré-Mi-Fá Fá-Fá Dó-Ré Dó-Ré Ré-Ré”. Com cerveja em mãos, os amigos sempre pensavam que estava tocando a música da propaganda do Danoninho.

Em um agitado sábado de fim de ano, em uma praia movimentada, crianças tiravam sarro e velhos se assustavam ao vê-lo deitando um velho tapete mofado nos grãos de areia fofa, a alguns metros de distância de sua amada, que tomava sol, distraída, com casal de amigos. A multidão começou a se formar quando um sujeito encostou uma camionete à beira da praia e, com ajuda de alguns salva-vidas, descarregou o velho piano Fritz Dobbert sobre o tapete.

Suado, não apenas pelo nervosismo, mas também pelo sol de meio-dia escaldante, começou, desajeitado e errante, a tocar uma canção de amor – a mesma que fez trilha sonora para o primeiro beijo do casal, na cantina da universidade. Continuou errando, mas nem se importava mais, pois logo viu que ela reconhecera a música e, correndo, aproximou-se do piano, empurrando gente, enxugando lágrimas.

Ao final, pediu-a em casamento e, ao ver tamanho sorriso de criança em seu rosto, chorou de alegria e de alívio por finalmente ter conseguido realizar seu sonho. Ao som de palmas da multidão, beijaram-se.

*Conto publicado dia 18 de novembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná, e também no livro “Charlene Flanders, que Voava em Seu Guarda-Chuva Roxo, Mudou Minha Vida” (Muti Foco, 2011)

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