Mês: outubro 2013



Orquestra de Cordas abre Temporada Universitária da UEM

Por Wilame Prado

O escritor gaúcho Erico Veríssimo fazia questão de dizer, orgulhoso, que a sua cidade – Porto Alegre – tinha uma orquestra sinfônica. O músico e professor de violino Paulo Egídio Lückman relembra do autor de “O Tempo e o Vento” para afirmar: “Quem tem orquestra, tem vitrine”. Por essa razão, diz ele, nada mais apropriado que a Temporada Universitária 2013 tenha em sua abertura um concerto da Orquestra de Cordas da UEM, marcado para esta quinta-feira (31), às 20h30, no Teatro de Oficina da UEM.

Ao lado do violoncelista e professor Henrique Ludwig, Lückman é responsável pela coordenação e preparação de repertório da orquestra de cordas, que se apresentará com 17 instrumentistas, sendo, em sua maioria, estudantes de Música da UEM. Na função de spalla, o professor revela um dos grandes desafios para esses músicos, que executarão no concerto obras de Arcangelo Corelli, Edward Grieg e Gustav Holst sem a regência de um maestro.

Lückman explica que as atividades da orquestra tem caráter pedagógico, o que não impede os integrantes de ensaiarem pensando em concertos abertos ao público. O programa, por exemplo, foi definido pensando em uma linha da história da música cuja audição, garante o violinista, agradará ao público ouvinte. “Teremos traços folclóricos, coloridos harmônicos e até efeitos de som ‘estéreo’ com os violinistas solistas se posicionando um em cada lado (prática que foi comum no período barroco) no Concerto Grosso No. 4 em Ré maior, do italiano Arcangelo Corelli”, resume.

“Já fizemos Mozart pensando no período clássico e estamos trabalhando na música barroca. Já fizemos obras de três compositores ingleses da virada do século 19 para o 20. Um desses é o Gustavo Holst, que, com o movimento ‘Jig’, nos remete à música celta, agradabilíssima aos ouvidos, e ainda o último movimento com as canções ‘Dargason’ e ‘Greensleeves’, que nos remete a questões folclóricas da Renascença, também muito interessantes ao público”, diz Lückman, que alerta: mesmo com a leveza e brilhantismo, as peças são distintas de “Os Planetas”, obra mais conhecida de Holst.

Ainda no concerto de hoje, o alto romantismo do norueguês Edward Grieg será representado pelas Duas Melodias Elegíacas, inspiradas em dois poemas de Aasmund Olafsson Vinje e que falam sobre as feridas da vida e sua incapacidade de destruir a fé e também sobre a estação das cores com a possibilidade de que não haja outra oportunidade para vê-la. Mensagens poéticas que, para o spalla, com certeza são sentidas por meio das vibrações musicais.

Mesmo ansioso com os projetos para 2014, quando pensa em envolver toda a orquestra com “As Quatro Estações”, de Vivaldi, pelo menos por enquanto, com o concerto de hoje, Lückman espera que a Orquestra de Cordas da UEM faça um som digno de aplausos de um apreciador de música como foi Erico Veríssimo. Assim, considera ele, abre-se com dignidade uma temporada universitária que se propõe ser cultural.

TUM comemora 25 anos em temporada
Criada pelo Teatro Universitário de Maringá (TUM) há oito anos, a Temporada Universitária tem como objetivo fomentar a política de ação cultural na universidade e na cidade. Nesta edição, os 25 anos do TUM serão lembrados pela temporada, que começa hoje e vai até 9 de dezembro, coincidindo também com o Festival de Teatro da UEM. Segundo o coordenador geral Pedro Uchôa, devido à extensão, a programação da temporada deste ano será divulgada semanalmente.

A temporada é promovida pela Diretoria de Cultura/APC e realizada pelos atores do TUM e alunos do Curso de Graduação em Artes Cênicas. São eles quem fazem todo o trabalho de produção, ou seja: agendamento com os grupos, colagem de cartazes, distribuição de panfletos, visitas, assessoria de imprensa, recepção, auxílio na montagem da cenografia e iluminação, bilheteria, portaria, entre outros. Com isso, diz Uchôa, a temporada acaba sendo um ótimo processo de estágio para futuros profissionais do teatro.

Uma das grandes funções da Temporada Universitária é criar plateia por meio de uma programação eclética e procurando trazer espetáculos de qualidade, sempre a preço popular e acessível ao acadêmico e comunidade em geral. Todos os espetáculos deste ano acontecem na Oficina de Teatro UEM.

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (31) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Feliz ano velho nem tão chato assim

Por Wilame Prado

O Brasil é campeão do Grand Prix de Futsal. Coisa óbvia dizer que, em terra de Falcão, Manoel Tobias e tantos outros craques salonistas, somos campeões em um torneio de futsal. O legal dessa história toda é que a taça foi erguida sobre o piso da quadra do maringaense Ginásio Chico Neto. E esta aproximação entre a cidade e as coisas envolvendo o melão sendo rolado – ainda que um melãozinho menor, no caso, a bola que não pinga do futsal – fez-me refletir sobre o ano de 2013 e toda sua chatice causada pelo desastroso torneio nacional de futebol de campo.

Diante disso, adianto que esta crônica é uma espécie de “crônica errata” da semana anterior, quando, no texto intitulado “Feliz chato ano velho”, tinha dito que o futebol jogado por essas plagas brasílicas tinha sido o grande culpado por mais um ano chato e que passou rápido demais. Por muitas vezes nem notamos que as chaves que passamos a manhã toda procurando estavam no bolso de trás da calça. O que quero dizer com isso é que, olhando mais atentamente para o que está próximo de mim, devo reconsiderar as coisas da vã filosofia dizendo que, graças ao esporte local, 2013 foi um feliz ano velho nem tão chato assim.

Enquanto nós, mortais pecadores que acompanhamos o esporte bretão, estávamos eternamente entediados com os zero a zero “conquistados” pelo Corinthians, irritadiços com os muitos volantes colocados pelo técnico nos jogos do Santos, rindo da incapacidade de bater pênalti do Rogério Ceni e desmerecendo as vitórias fáceis do Palmeiras na Série B, o então Metropolitano Maringá – atual Maringá Futebol Clube – seguia firme na caminhada rumo à elite do futebol paranaense com os gols do artilheiro Cristiano (já apelidado de CristiGol), com a organização no meio de campo exigida pela capitão Léo Maringá e aplaudindo de pé as pontes de Ney – goleiro menos vazado do torneio.

Quando cansados do sol de lascar ou do sereno noturno no Estádio Regional Willie Davids, tínhamos ainda a opção de nos abrigarmos no confortável Ginásio Chico Neto – onde, veja só, até se chegou a vender cerveja nos jogos – para assistirmos aos espetáculos de toques rápidos e chutes certeiros para as redes do plantel do Oppnus Maringá, time de futsal montado pelo Ciagym para uma elogiável atuação na Liga Futsal – o torneio mais importante de clubes salonistas do País. Dizem (eu não estava lá) que a vitória do time maringaense contra o Corinthians foi algo para ficar na história daquela quadra recentemente abençoada por Falcão e companhia no Grand Prix de Futsal.

E assim os mortais pecadores que acompanham o futebol em todas suas ramificações (dependendo do que for, assistimos até veteranos se digladiando no tapete sintético do futebol society em torneios de Showbol) vamos vendo os anos passarem, nem ligando para aquelas histórias furadas sobre pão (churrasquinho também vai bem antes, depois e durante um bom jogo visto na TV) e circo. Gostamos do espetáculo da bola, concordamos com a ideia de que futebol também é cultura e somos capazes de esperar décadas por um gol de placa do craque do nosso time ou até um centenário para ver o time do coração ganhando uma Libertadores.

E que 2014 seja um ano futebolístico feliz – nacional e localmente –, sem regressões no esporte em Maringá e, pelo amor de Deus, sem um novo Maracanaço na Copa do Mundo Fifa.

*Crônica publicada terça-feira (29) na coluna Crônico do caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Professora da UEM lança livro sobre cultura indígena

Nessa sexta feira (1º), às 10h, acontece no Museu Kre Porã, localizado no Centro Cultural Indígena de Maringá, o lançamento do livro “Arte e Cultura Indígena: Povos Guarani e Kaingang na Associação Indigenista – Assindi – Maringá”.

O livro foi realizado com patrocínio da Caixa Econômica Federal, por meio do Projeto Kre Porã, elaborado pela Assindi – Maringá e aprovado no Programa Caixa de Apoio ao Artesanato Brasileiro. A publicação foi organizada pela professora Sheilla Souza, docente no curso de Artes Visuais da UEM.

Por meio do projeto apoiado pela Caixa o livro teve uma tiragem de mil exemplares, distribuídos gratuitamente nas escolas indígenas do Paraná, em escolas públicas e instituições culturais e educativas em Maringá. O livro teve também uma tiragem anterior de mil exemplares, realizada com recurso do Prêmio Aniceto Mati, recebido da Secretaria de Cultura de Maringá, nesse ano.

Além do lançamento do livro, o Centro Cultural Indígena apresenta até o mês de dezembro a exposição Kre Porã, com objetos de arte indígena Guarani e Kaingang. O horário de visitação é de 13:30 às 17 horas.

Local: Centro Cultural Indígena de Maringá – Rodovia BR 376 Km 170 – Gleba Patrimônio Maringá (Depois da Coca-Cola, após o Contorno Norte – 100 metros à direita).

Informações: (44) 3224 -7117

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Semana cheia no Sesc

O escritor, diretor e ator Lauande Aires é João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi em "Miolo da Estória" (Foto de Ayrton Valle)

O escritor, diretor e ator Lauande Aires é João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi em “Miolo da Estória” (Foto de Ayrton Valle)

Por Wilame Prado

Parece propaganda manjada de televisão, mas não é: comemora-se amanhã o Dia do Comerciário e quem ganha é o maringaense. Isso porque uma programação especial visando formação de plateia e aproximação de linguagens diferenciadas foi definida pelo Sesc e resultou em uma semana cheia de boas atrações culturais na cidade, a chamada Semana do Comércio em Movimento.

“Neste projeto, estão inseridas atividades artísticas com apresentações musicais e de teatro sempre gratuitas. Buscamos ampliar assim o nível cultural e de formação do indivíduo”, diz Bárbara Di Gennaro, técnica de Atividades do Sesc.

Tudo começou ontem, com obras clássicas de Edino Krieger compondo o concerto apresentado pelo Duo Cancionâncias.

Quem perdeu, tem a chance de se encontrar com a boa música hoje novamente. O cancioneiro do compositor – e biólogo – brasileiro falecido este ano Paulo Vanzolini, autor de famosas canções como “Ronda” e “Na Boca da Noite”, será interpretado pelo músico e médico maringaense Celso Barretto, da banda A Válvula.

Com voz e violão, Barretto faz show ao lado de Geraldinho do Cavaco, Paulo na percussão e José Domingos no pandeiro, além de contar com a voz de Najara Nogueira em participação especial.

Amanhã é dia de teatro. Também pela programação da Semana do Comércio em Movimento, o espetáculo “Miolo da Estória”, da Santa Ignorância Cia. de Artes (São Luís-MA), será apresentado no Teatro Barracão após ter sido atração do Festival Palco Giratório no mês de agosto em Curitiba, e ter percorrido por outras cidades paranaenses.

O escritor, diretor e ator Lauande Aires estrela o solo com base em leitura, observação e depoimentos de brincantes e conta a história de João Miolo, um operário da construção civil e brincante de bumba-meu-boi que vive dilemas sobre a fé e relações sociais.

Em entrevista por telefone, ele diz que estreou o espetáculo em 2010 com o objetivo de refletir e se fazer refletir sobre esses dois mundos conflitantes de seu personagem: o mundo do operário e o mundo do brincante.

“Como esse homem se sente nesses dois mundos? Como o operário se sente no mundo do brincante? Como o brincante se sente no mundo do operário?”, indaga ele. A história revela o drama de João Miolo quando, não sendo aceito como cantador no boi, decide não sair na boiada daquele ano e, revoltado, acaba se machucando ao ir bêbado para o trabalho. Com isso, precisa rever sua fé ao pedir votos para o santo temendo o pior: perder uma perna.

“Mesmo tendo estreado em 2010, toda a inspiração para fazer o texto se deu dez anos antes, quando vi um brincante pagando uma promessa, em uma festa de São Pedro, subindo e descendo escadarias com o boizinho nas costas”, diz Lauande, que apresenta “Miolo da Estória” contando com o trabalho de um iluminador, um operador de palco e um operador de sonoplastia.

Vencedor do Prêmio Myriam Muniz concedido pelo Ministério da Cultura, o espetáculo circulou por toda a região Norte em 2011.

Na quinta-feira, a música volta a ser destaque da semana com o show da cantora paulistana Keila Abeid e Quarteto no Sesc. Ela lança o álbum “Muito Prazer”, que vai do samba e da bossa ao ijexá e baladas. Também no Sesc, na sexta, a semana cultural se encerra com o espetáculo “As Espertezas de Arlequim”, do grupo Arte da Comédia (Curitiba). A peça, inspirada na Commedia dell´Arte, não tem falas e os atores improvisam realizando jogos cênicos a todo momento.

*Reportagem publicada nesta terça-feira (29) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Sofá

Por Wilame Prado

Ela viu um sofá

jogado no terreno

baldio.

Eu vi verde do tecido,

vermelho da terra e azul logo adiante

no céu.

Pensávamos sobre o dali pra frente.

Desafios prestes a serem encarados.

Ela então se lembrou de querer um novo sofá.

E eu me lembrei da decadência aceita

em tardes de domingo sentado,

olhando pra TV.

Então ela foi dar um jeito de pagar as contas.

Eu eu permaneci no velho sofá,

pensando no verde, vermelho e azul

lá de fora.

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Feliz chato ano velho

Por Wilame Prado

Aos desavisados, anuncio: já estamos vivendo em um feliz ano velho. Alguns fatores evidenciam a aproximação de 2014, como a troca de blusas por guarda-chuvas em nossos itinerários, a obrigatoriedade de se mudar os ponteiros do relógio por causa do chamado horário de verão e o desfecho dos campeonatos de futebol.

Se o leitor me permite explorar um pouco mais a vã filosofia, vou além e defendo a tese de que este ano, mais que ter passado rápido demais, deixará a sensação de que nem existiu. E isso, como qualquer mortal pecador que acompanha o esporte bretão sabe, é culpa do Campeonato Brasileiro de futebol.

Ou vai me dizer que, em algum momento, o senhor ou a senhora repararam que, neste País, houve um campeonato nacional envolvendo times de futebol? Assim como os anos, o Campeonato Brasileiro passou que nem vimos. Mas não foi porque estávamos tão empolgados com golaços, frangos, zebras ou disputas ensandecidas e sanguinolentas (no bom sentido) por cada ponto como se este ponto fosse o último gole de água no deserto. Foi devido muito mais à sua chatice.

E então o leitor mineiro vai me denunciar como apoiador do Eixo Rio-SP, vai apontar o dedo na minha cara dizendo que, só porque Corinthians, Flamengo, São Paulo e Fluminense estão longe das disputas mais importantes, perdi o interesse pela guerra civil envolvendo times de futebol. Antes de mais nada, tento a reaproximação com o povo simpático de Minas Gerais: parabéns ao Atlético Mineiro, vencedor da tão sonhada Taça Libertadores da América; e parabéns ao Cruzeiro, virtual campeão do torneio nacional disputado em pontos corridos.

Dito isto, agora sim apresento minha defesa relembrando que, mesmo faltando exatos 70 dias para o estourar da champanha na virada de ano, já sabemos que o Palmeiras e o Chapecó estarão na elite do futebol em 2014, que o Náutico retorna à série B e que o Cruzeiro não será alcançado lá no topo, isso sem falar nas vagas da Libertadores para o ano que vem, praticamente todas carimbadas.

O equívoco da disputa por pontos corridos, adotada no mundo todo e que acaba com a magia das grandes finais, ajudou nesse processo de chatice anual. Mas devo dizer – e aí o cruzeirense vai me desculpar – que praticamente não houve disputa no Nacional deste ano. Parece que ninguém queria a taça do Campeonato Brasileiro, um foi jogando para o outro, até que Marcelo Oliveira e seus comandados resolveram assumir a bronca e dizer: seremos os campeões então, uai! Por que não?

Mesmo com algumas derrotas recentes da Raposa, o retranqueiro Grêmio, o azarado Botafogo e o zebrado Atlético Paranaense não são capazes de desfazer aquilo que já está feito: a chatice do Campeonato Brasileiro contaminou o ano. Assim como os episódios desagradáveis em nossas vidas, 2013 e principalmente o campeonato deste ano serão páginas viradas da memória dos mortais pecadores que acompanham o futebol bretão neste País.

Porém, se é possível apontar somente um fator que inverteu um pouco a lógica da chatice deste ano, faço o merecido registro dizendo que a sequência de penalidades perdidas por Rogério Ceni e as suas façanhas megalomaníacas a cada entrevista concedida na televisão no final das partidas foram, pelo menos, alento divertido e contribuidor para que não sejamos chamados de ingratos com este feliz e chato ano velho.

*Crônica publicada na terça-feira (22) na Coluna Crônico do caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Sociedade mais sólida a partir da leitura

Por Wilame Prado

Pela Bienal do Livro e Leituras de Campo Mourão, Rogério Pereira ministrou a palestra “Políticas públicas para o livro, leitura e literatura”. Por email, o diretor da Biblioteca Pública do Paraná, editor do jornal Rascunho e escritor comenta o tema:

Rogério Pereira, diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do Rascunho

Rogério Pereira, diretor da Biblioteca Pública do Paraná e editor do Rascunho

Recentemente, em um texto publicado no Vida Breve, o senhor criticou duramente a Fundação Cultural de Curitiba pela falta de apoio ao projeto Paiol Literário. Na sua opinião, como estão as políticas públicas para a área da literatura em nosso Estado e no Brasil de um modo geral?
ROGÉRIO PEREIRA – O Brasil (e aí incluo os estados e municípios) avançou muito nas políticas públicas para a leitura nos últimos anos. Mas, obviamente, estamos muito longe de uma situação apenas razoável. As políticas do livro e leitura no Brasil ainda são muito delicadas, algo em construção, lentamente. Uma construção que às vezes se esboroa. E, então, é preciso recomeçar tudo. É comum andar cinco passos adiante. E dez para trás. Veja o exemplo do Plano Nacional do Livro e Leitura: foi completamente esfacelado no início da gestão da presidente Dilma. Agora, há um recomeço. Mas muito tempo foi perdido. Conquistas importantes se perderam.

Por que é importante uma atenção maior das políticas públicas nessa área?
Porque é a partir da leitura que se estrutura toda uma política cultural. Porque é a partir da leitura (da boa leitura) que se constrói uma sociedade mais sólida, mais crítica, mais humana. A leitura é o caminho possível para uma grande transformação social. E, quando digo leitura, obviamente estou falando em educação e cultura – duas palavras que andam muito distantes uma da outra no Brasil. O que o Ministério da Educação faz hoje como política de leitura? Compra livros, compra milhões de livros. O governo brasileiro é o maior comprador de livros do mundo. E o que acontece? Quase nada. Por que o nosso índice de leitura é tão baixo, se temos um mercado editorial que movimenta bilhões de reais todos os anos? Porque livros são comprados, mas não são lidos. Livros são mandados para escolas, mas ficam em caixas, esquecidos, mofando. É óbvio que é importante comprar livros, mas é mais importante investir na formação de professores-leitores, de bibliotecários-leitores. São eles, bem capacitados, que vão construir novos leitores. A escola pública é fundamental na formação de leitores, mas não está preparada para isso. É preciso encontrar um caminho de fortalecer o valor social da leitura. Portanto, são imprescindíveis políticas públicas consistentes voltadas ao livro e leitura. Por quê? Por motivos bastante óbvios. Acho.

O que citaria como exemplos de boas políticas públicas para o livro, leitura e literatura?
Há várias ações espalhadas por todo o Brasil. Em todos os Estados brasileiros, temos bons exemplos. Mas, volto a ressaltar, as políticas públicas mais fortes são aquelas voltadas para a formação de agentes de leitura (professores e bibliotecários). Estas têm um resultado muito interessante a longo prazo.

Por fim, o que pensa sobre essa maior agitação no interior paranaense envolvendo a literatura, com mais obras publicadas e eventos literários acontecendo.
O que acontece no interior do Paraná é um reflexo do que acontece no Brasil nos últimos anos. Hoje, temos um ambiente mais propício para se discutir o livro e a leitura em todo o País. E não é diferente aqui no Paraná. É importante que aproveitemos este momento para construir novos leitores, uma massa crítica consistente, em busca de um País de leitores. O caminho é tortuoso, a viagem bem desconfortável. Mas vale muito a pena seguir adiante.

*Entrevista publicada nesta terça-feira (22) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Os livros entram em campo

Por Wilame Prado

O Paraná vive um bom momento literário. Escritores paranaenses ou aqui radicados vêm conquistando o mercado editorial, o público e, em muitos casos, a crítica. Junto a isso, eventos literários passam também a acontecer com mais frequência no Estado, mesmo em cidades onde antes não se fazia praticamente nada relacionado à literatura.

É o caso de Campo Mourão (a 90 quilômetros de Maringá), que sedia de hoje a sábado a 1ª Bienal do Livro e Leituras, com 52 atrações entre palestras, oficinas, exposições, lançamentos de livros, feiras de troca e programação artística. Concentrada na Avenida Comendador Norberto Marcondes, em frente ao Teatro Municipal, mas com atrações em outros pontos da cidade, a bienal – uma realização da prefeitura e da Fundação Cultural (Fundacam) – homenageia o centenário do poeta Vinicius de Morais. A entrada é franca.

Maringá será muito bem representada na bienal pelo escritor maringaense radicado em Apucarana Oscar Nakasato, vencedor, no ano passado, do Prêmio Jabuti na categoria Romance. Além de lançar “Nihonjin” (Editora Benvirá, 2011, 176 páginas) às 11h de sábado, no Auditório Senac, ele participará da mesa “A Literatura do Paraná no Brasil” ao lado de Gilson Mendes de Góis, Gilmar Cardoso, Marcelo Miguel e Nilton Bobato, no mesmo local, duas horas antes.

Nakasato diz que não será difícil integrar uma mesa onde se pretende discutir literatura paranaense. Para ele, do já consagrado Dalton Trevisan até o sucesso recente de Marcos Peres com o seu “O Evangelho Segundo Hitler” (Editora Record, 2013, 352 páginas), há muita coisa boa para se falar. “Não é difícil falar desse tema com tanta gente produzindo literatura de primeira”, diz.

O desafio mesmo, segundo o escritor, além do questionamento sobre quem deve figurar nessa lista de autores que mereçam discussões, é encontrar tendências ou mesmo uma temática regional quando o assunto é literatura paranaense. “Desdém para com o local e a inclinação para o universal são fenômenos que não ocorrem somente no nosso Estado. É certo que (Domingos) Pellegrini e (Marco) Cremasco abordam a colonização do norte do Estado, Dalton localiza seus personagens nos recantos de Curitiba e (Helena) Kolody cita araucárias em alguns poemas, mas não se percebe um conjunto orgânico e articulado de produção para que se possa falar efetivamente em literatura paranaense”, opina Nakasato.

O diretor da Biblioteca Pública do Paraná, Rogério Pereira, é o primeiro convidado a ministrar palestra na Bienal do Livro e da Leitura de Campo Mourão. Editor há muitos anos do jornal Rascunho, Pereira fala sobre políticas públicas, leitura e literatura.

Em entrevista para O Diário, ele reconhece um certo avanço nas políticas públicas do setor literário no País, mas faz ressalvas e critica alguns procedimentos do governo, como o fato de comprar milhares de livros mesmo sabendo que a leitura dessas obras não se realiza.

*Matéria publicada nesta terça-feira (22) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Maringá perde Marciano Lopes

Por Wilame Prado e Mariana Kateivas

“Não permita Deus que eu morra/sem comer um Big-Mac”, assim escreveu Marciano Lopes e Silva, em tom irônico, na poesia “Adeus Vidinha Besta”, publicada em seu último livro “A Contrapelo” (2007). Infelizmente, não deu tempo de perguntar para ele, também na brincadeira, se finalmente havia comido o tal junk food. Marciano Lopes, escritor e professor doutor que lecionava no Departamento de Letras da UEM desde 1997, morreu aos 48 anos, às 19h da última quinta-feira, no Hospital Metropolitano, em Sarandi, após complicações decorrentes de uma pneumonia.

O velório, sexta-feira passada, na Capela do Prever, reuniu vários amigos, familiares e principalmente professores e alunos da UEM . A cremação do corpo estava marcada para as 11h de sábado, no Cemitério Park. Sem filhos biológicos e já tendo pai e mãe falecidos, Marciano deixa mulher, Fabiana Silva.

Natural de Porto Alegre (RS) e torcedor apaixonado pelo Grêmio, Marciano se destacou principalmente com os seus poemas – os quais resultaram em duas obras -, pelos programas de rádio sobre literatura que comandava na Rádio Universitária da UEM e com a idealização e organização da Jornada Interartes Outras Palavras (Jiop), eventos que mesclavam vários tipos de arte.

Desses encontros e também na sala de aula, o professor encontrava material literário para a publicação dos números da revista eletrônica No Meio do Caminho.

A colega Marisa Correa Silva, também professora de Literatura na UEM, diz que Marciano Lopes fará falta pela sua criatividade e vontade de ajudar os colegas das letras. “Escrevia, estimulava os outros a escrever, publicava textos de alunos e de ex-alunos no blog e na revista. O curso de Letras da UEM sofrerá com a falta dele.”

Para Ademir Demarchi, escritor, amigo e cronista do caderno Cultura do Diário, é uma pena ter perdido Marciano Lopes justamente quando ele se encontrava em sua melhor forma literária. “Marciano estava num momento criativo muito bom, de maturidade, que se refletia na sua poesia. Ele estava sendo uma pessoa valiosa por sua capacidade de aglutinar pessoas e de projetos distintos, numa cidade que tende à entropia, ao recolhimento de cada um aos projetos individuais.”

“O corpo vai…a poesia fica”, disse o escritor Nelson Alexandre, ex-aluno e amigo do professor. Ele revela que, como homenagem ao grande entusiasta das letras maringaenses, amigos se reunirão hoje, em local e horário a definir, para fazer o sarau da Jiop e lançar o livro “Poemas Para Quem Não Me Quer”, de Nelson Alexandre e que tem orelha assinada por Marciano Lopes, que deixa saudades. (não foi possível realizar o sarau e nem o lançamento do livro, que será remarcado)

+ MARCIANO

META-ARTE: Leia críticas, poemas, contos e outros textos do professor e escritor Marciano Lopes no blog Meta-Arte:

marcianolopes.blogspot.com.br

*Matéria publicada sábado no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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O eterno murro na eterna faca

Cena de "Murro em Ponta de Faca": escrito em 1974, texto de Boal continua atual (Foto de Roberto Reitenbach)

Cena de “Murro em Ponta de Faca”: de 1974, texto de Boal continua atual (Foto de Roberto Reitenbach)

Por Wilame Prado

Questões obscuras envolvendo tortura, desaparecimento e morte de pessoas perseguidas durante o regime militar no Brasil não foram resolvidas até hoje, 28 anos após o seu fim. Sem ditadura, no entanto, coisas do tipo continuam acontecendo no País em pleno 2013. Um exemplo? Policiais são suspeitos de tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, que morava na Rocinha, Rio de Janeiro (RJ). O corpo da vítima ainda não foi encontrado.

Toda essa repressão – velada ou não – é motivo mais do que suficiente para se dizer que, no País, continua-se dando murro em ponta de faca, como prega o velho ditado. Motivo também que fez a atriz e produtora de teatro Nena Inoue procurar o consagrado ator e diretor Paulo José para apresentar um projeto de montagem do espetáculo “Murro em Ponta de Faca”, escrita em 1974 pelo dramaturgo Augusto Boal e que foi dirigida pelo próprio ator em 1978.

Selecionada pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura 2013/2014, a montagem “Murro em Ponta de Faca”, do Espaço Cênico Produções Artísticas (Curitiba), será apresentado na noite deste domingo, às 20h, no Cine Teatro Sonia Silvestre, em Marialva. Às 19h30 de segunda-feira, apresentação única também acontece em Apucarana, no Cine Teatro Fênix. A entrada é franca.

“Tivemos um apoio imenso em Maringá, mas infelizmente o Calil (Haddad) estava sem agenda e, pela importância da montagem, queríamos encontrar um local que suportasse um público maior. Em Marialva, que é bem pertinho, o teatro comporta 600 pessoas”, explica a argentina radicada em Curitiba Nena. De Maringá, um ônibus (já lotado) transportará moradores locais graças a uma parceria entre a TCCC, o Expresso Maringá e o Instituto Cultural Ingá.

O existencialismo do exílio
No espetáculo, contemplado com o Prêmio Myriam Muniz de Teatro 2011 (concedido pelo MinC), o tema principal é o exílio e todas as questões existencialistas que cercam os mais diferentes perfis de gente exilada na época da ditadura. Paulo José aceitou participar do projeto como diretor principalmente por um motivo, como comentou na estreia: “Eu afirmo que importante também é não esquecer, pois a perda de memória pode nos levar a repetir o erro.”

“Murro em Ponta de Faca” conta a história de um grupo de exilados brasileiros em suas trajetórias pelo Chile, Argentina e França. Nena conta que o espetáculo se confunde com a própria a história de Boal, que, em 1971, durante a ditadura militar e já conhecido por ser o criador do Teatro do Oprimido, foi preso, torturado e condenado ao exílio. Essas experiências inspiraram o diretor e dramaturgo a escrever a peça, considerada um de seus melhores trabalhos.

Paulo José declama poesia
Devido ao seu estado de saúde, Paulo José, que sofre há vinte anos do Mal de Parkinson, já não tem acompanhado a trupe do espetáculo que assina como diretor. Pelo menos não de corpo e alma. “Murro em Ponta de Faca” é brilhantemente aberto com a declamação do poema “Lusíada Exilado”, do poeta português Manuel Alegre, feita pelo ator que em 2011 brilhou nos cinemas com o premiado filme “O Palhaço”, de Selton Mello.

“No poema, ele fala sobre pertencimento, sobre a pátria que ele não tem mais, o pai, a mãe, o lugar. Um jornalista escreveu em uma matéria que, só pelo fato de ouvir Paulo José declamando, já vale a pena assistir ao espetáculo”, diz, entusiasmada, Nena.

Atual
Para ela, que diz continuar dando murro em ponta de faca – mas evidenciando, de maneira metafórica e esperançosa, o fato de que um dia o sangue das mãos poderá enferrujar a faca – o mais importante na montagem é o fato de que, mesmo tendo sido escrita na década de 1970, o texto de Augusto Boal continua extremamente atual.

“A Comissão da Verdade está aí, os torturados da Guerrilha do Araguaia estão aí, o Amarildo está aí. ‘Murro em Ponta de Faca’ continua emocionando na plateia aqueles que viveram o período de ditadura e também fazendo jovens de 20 anos chorarem por finalmente ficarem a par deste terrível episódio da história de nosso País”, afirma Nena.

PARA VER
MURRO EM PONTA DE FACA
Espaço Cênico Produções Artísticas (Curitiba)
Quando: domingo (20)
Onde: em Marialva, no Cine Teatro Sonia Silvestre (Av. Cristovão Colombo, nº 285)
Horário: 20h
Entrada gratuita – ingressos retirados no local a partir das 19h
Na segunda-feira (21), apresentação única em Apucarana, no Cine Teatro Fênix, às 19h30

*Matéria publicada neste domingo (20) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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