Mês: novembro 2013



No banheiro sujo e/ou morrendo atropelado na Brasil

Por Wilame Prado

mexo a cabeça
o ouvido há muito entupido
onde está
olhando para um chão sujo
de mijo e coliformes fecais
banheiro público

e ele, o eu maldito,
está olhando pela janela suja
a avenida movimentada
braços que se sujamencostados na janela
cinzas podres de cigarros

calma
calma que a calmaria vai chegar
calma que ainda,
eu e eu,
iremos nos encontrar

sai feito louco
escada desabando abaixo
um pé desnudo para fora do lençol
se despede
a última imagem humana
morri atropelado na Brasil

maldito ônibus coletivo
ouvido entupido
e o receio de me contaminar
no sujo banheiro público
enquanto descarrego necessidades corpóreas
pensando naquele pé descoberto
para fora do lençol
eu e eu ainda não podemos nos encontrar

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Bonequinha de luxo

Por Wilame Prado

Viu que dirigia um Audi TT conversível. Sorria. A mulher ao lado era bela. Conversava com ela. Sorriam. Viu a felicidade, um sujeito feliz.

“Isso é felicidade, pai?”

“As posses. Os carros. Mulheres.” Só pensou.

“Vou te contar uma história: antigamente, pior do que hoje, não se tinha muita noção do que é felicidade, do que precisamos para ser felizes. Aí, para muita gente lá em casa e nas outras famílias também, felicidade era tomar tubaína quente no Natal”, contou o pai.

“Mas o que estou querendo dizer, pai, é que eu tenho uma forte impressão de que vi a felicidade plena no rosto de um sujeito ontem, trafegando com seu conversível na Avenida Laguna, ali na Operária, perto do Senadinho Pastel, sabe?”

“Sei.”

“Então. O carro dele estava limpo e, como o senhor deve se lembrar, ontem o clima estava agradável; aquela tarde de sábado parecia ser propícia para um sujeito, em seu carro bom, ao lado de uma mulher bonita, ser feliz”, continuou argumentando o filho.

“Interessante você dizer isso. É o imediatismo da sua geração, filho. Com um recorte, com uma imagem, com uma foto, com uma cena de um filme, vocês conseguem decretar a felicidade de um homem.”

O filho tomou um gole de tereré. E refletiu em voz alta: “Tá parecendo que sou um baita de um invejoso.”

Continuou: “E tem razão: fui imediatista. Mas veja só, pai: acredita em pressentimento?”

“Coisa de mulher.”

No que ele respondeu, rapidamente: “Usei a palavra errada. Enfim. Deixa pra lá esse papo. Você viu que o seu Palmeiras meteu goleada ontem e ergueu o troféu? Bi campeão. Parabéns velho! Agora vocês retornam à elite, de onde meu time nunca saiu”, alfinetou, dando risada sarcástica.

“Esquece isso, esquece o circo. Fiquei é intrigado com esse seu papo de felicidade. Poxa vida, filho: que educação que eu te dei? Você vê um cara com um carro que pode ser muito bem financiado ou roubado, com uma mulher linda ao lado, mas que pode ter sido alugada somente para aquela tarde, e me diz que isso é felicidade? Aquele sorriso que você descreve pode, inclusive, ter sido bem fugaz: sob efeito de droga ou após uma quantidade de cerveja ingerida em um boteco por aí. E, digo mais: se tudo isso ainda não for verdade, devo lembrá-lo que ‘por trás de toda grande fortuna há um crime’, como disse tão bem Balzac. É o preço que se paga, e caras como você e eu nunca estaremos dispostos a pagar tão caro para andar de conversível ao lado de uma bonequinha de luxo, filho.”

Algumas horas se passaram. O pai, ao lado da mãe, aproveitou o resto daquele domingo para ir à casa de parentes em uma cidade próxima a Maringá. E o filho passou o tempo todo sentado, sozinho e com uma sensação esquisita mesclando tristeza, solidão e serenidade. Não conseguia esquecer a cena do sábado ensolarado, um homem feliz, com seu carro limpo e bonito, com uma bela mulher ao lado, dirigindo ao léu, sem compromisso, sem precisar bater ponto, curtindo a vida e contente por saber que ainda faria daquele sábado mais um dia como se não houvesse amanhã; o mundo ainda presentearia aquele feliz rapaz com uma noite de sábado, saindo e entrando do seu Audi TT conversível, abrindo e fechando portas para uma (s) mulher (es).

“Quem era aquele cara?”, não conseguia parar de pensar.

“E quem ele pensava que era para ser ‘tão’ feliz ao lado de Emilly?”, questionava, um tanto raivoso.

Na conversa que tivera horas atrás com o pai não teve coragem de contar que conhecia aquela garota e que, um dia, o cara feliz ao lado daquela “bonequinha de luxo” tinha sido ele.

*Conto publicado nesta terça-feira (26) na coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Novembro

Por Wilame Prado

Aprecio os meses de novembro. Pelo menos aqui pelos lados do norte do Estado, os ventos noturnos acalmam a alma e refrescam aqueles que enfrentaram um intenso calor durante o dia.

Lembro-me que era novembro porque conversava com minha mãe sobre o aumento das temperaturas, a aproximação do verão e as dificuldades com os climatizadores que quebram justamente nesta época. “Entra o calor, e então as geladeiras e os aparelhos de ar-condicionado dão pau. No frio, é a vez de quebrar as máquinas de lavar”, replicava para ela as palavras ditas por um assistente técnico que havia consertado há alguns dias minha geladeira.

Havia voltado para casa, naquele novembro, na cidade interiorana onde minha mãe mora. Fazia calor, mas o sábado amanhecera chuvoso e então todos se sentiram um pouco melhor, podendo respirar melhor. De madrugada, os três climatizadores de ar daquela imensa casa pararam de funcionar com a queda da energia elétrica após anúncio da chuvarada feito por um raio que se fez estrondoso pelo barulho do trovão.

Na cidadela, a história se repetia nos últimos meses do ano: mais calor, mais seca, uma chuva exagerada de vez em quando, quedas de energia frequentes e a falta de água nas casas. Como em cidades litorâneas que não suportam – logisticamente falando – a invasão de turistas nas temporadas veraneias, aquela cidade pequena do interior sofria carência de serviços a partir de novembro – mais pelas condições climáticas do que pelo aumento de pessoas que chegam até a cidade para visitar os parentes, ir a casamentos e velórios.

“O ar está parado agora, mas tenho certeza que a noite será fresca”, pensava comigo mesmo andando pela cidade de minha mãe um dia antes daquela chuva boa que caiu no sábado. Mesmo com tanto calor, não me permiti vestir uma bermuda naquele dia. Julguei mais adequado vestir calça jeans para acompanhar o velório e enterro de uma tia que morreu dormindo. Era principalmente por causa da morte dela que havia regressado à cidade onde vivi boa parte de minha adolescência e que agora tanto sofria com a falta de água e com climatizadores pifando.

“Banho agora só depois das oito. A água volta de manhã e depois das oito”, explicava-me um velho amigo de infância que encontrei no sepultamento.

E finalmente a noite havia caído. E os ventos haviam chegado. E era chegada a hora em que as pessoas, naquela pequena cidade, colocam as cadeiras de área nas calçadas para conversar sobre tudo e sobre nada, sobre climatizadores que pifam e uma tia que finalmente descansa após 55 anos de uma vida meio deslocada. Almas que se acalmam em noites de novembro. Acho que nunca mais me esquecerei daqueles dias quentes e daquelas noites amenas em que passei na cidade pequena. Por lá, o tempo passa modorrento.

Jamais esquecerei. Era novembro. Enterramos a tia na tarde daquela sexta-feira de altas temperaturas. O suor escorrendo atrevidamente do rosto do coveiro lidando habilmente com tijolos e argamassa no lacre do túmulo. No sábado, a chuva limpando o ar para alegria de todos e, ao fundo, ao longe, ouvia-se o som de uma fanfarra que executava, na avenida da pequena cidade, uma música pop que havia feito sucesso há alguns anos. Naquela pequena cidade, de tempo modorrento, com tardes quentes e com ventos noturnos, climatizadores quebravam e parentes morriam. Era novembro, e disso eu me lembro bem.

*Conto publicado terça-feira (19) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Socorro nunca foi Maria

Socorro nunca foi dado.
Ela nunca deixou.
Quis e soube andar
– ainda que por caminhos tortos –
desde muita nova,
em ritmo embalado.

Deixa a mãezinha, filhas e netos
Deixa parte da família
para se reencontrar
com outros lá em cima

Ninguém socorreu
E foi-se sozinha, dormindo.
Em uma noite que não estava fria.
14 ou 15 de novembro de 2013?
Qual a data da ausência de socorro?
Qual o dia ou a noite da escuridão maior,
da solidão incomparável?
Morrer é um ato solitário.

Ela nunca quis socorro,
gostava de andar sozinha.
Sempre em vielas, em becos,
entrando numa fria.
A verdade é que Socorro nunca foi Maria.
Adeus, tia.
Manda um beijo pro pai e pro vô.
E saiba que nunca estará sozinha.

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Cavalo

Por Wilame Prado

Faz alguns meses que a palavra “cavalo” não sai de minha cabeça. Culpa de “Cavalo”, tão aguardado disco solo de estreia de Rodrigo Amarante, lançado recentemente. Um dos barbudos de Los Hermanos, amado e odiado pela inconsistência vocal e pela emoção transbordada em canções e dancinhas em cima do palco, voltou cheio de vazios, letras e sons que pegam a gente de jeito: estamos mais reflexivos com as coisas do amor e da vida, e isso é culpa de “Cavalo”.

Pensar na palavra “cavalo” com mais frequência é culpa também de meia dúzia de afirmações consideráveis dadas por Amarante, que, com seu jeito nonsense e metafísico, acaba sempre dizendo algumas coisas que ficam, depois, martelando na cabeça. Sim, estamos mais reflexivos. O compositor, multi-instrumentista e cantor deu para falar com jornalistas e explicar sobre o porquê do nome “Cavalo” e tantos outros porquês. Quem ganha é o fã. Ou não: estamos pensando muito na palavra “cavalo” e também sobre as canções deste novo trabalho.

Quero falar sobre cavalos – não só do disco, mas também do animal. Posso neste momento estar meio que plagiando Rodrigo Amarante. Li algumas coisas e assisti a algumas de suas entrevistas. Não importa. Gostaria apenas de convidar o leitor para que imagine um belo e lustroso cavalo. Nobre, como se traduz a estética do cancioneiro de Amarante. Um bicho cheio de significações – para o bem e para o mal –, tal qual este disco que tocará talvez eternamente em minha vitrola imaginária traduzida em arquivos de MP3 com pouca qualidade.

Chamar alguém de cavalo pode ser xingamento ou elogio. No futebol, cavalo é aquele que comete muitas faltas. No trabalho, um cavalo pode ser aquela pessoa que encara os desafios com a força de um cavalo, com energia extravasada. Um carro veloz tem bastantes cavalos. Um marido que enche a sua mulher de pancadas é chamado de cavalo covarde. Uma das cenas mais marcantes da trilogia The Godfather é composta por uma cabeça de cavalo ensanguentada posta sobre os lençóis caros de seda, em cima da cama de seu dono. Cavalos marinhos, cavalos no jogo de xadrez e cavalos mitológicos: unicórnios, pegasus e centauros. Cavalo do culto afro-brasileiro.

O cavalo é a continuação do cavaleiro e, posto assim, torna-se um dos animais mais humanos que se tem notícia. Um cavalo pode tornar um homem milionário. Um homem que tem quase nenhum dinheiro por vezes conta com a ajuda e amizade do cavalo na lida com os papelões entre as lixeiras ou então transportando lavagens para o chiqueiro dos porcos. Ali, estará o homem. Ao seu lado, um cavalo. E assim se conta boa parte da história das civilizações. O homem ao lado de seu cavalo. Rodrigo Amarante é um cavalo da música brasileira. “No olho do cavalo/Espelho imaculado/O duplo e eu”, afirma o próprio na letra da música “Cavalo”. Um cavalo da MPB no bom sentido, claro: relincha Tom Zé (“Cometa”), Caetano Veloso (“Irene”), Vinicius e Baden Powell (“Maná”).

Muitos podem utilizar “Tardei”, uma de suas belas canções, para exemplificar a demora do músico para finalmente se lançar em carreira solo. Talvez ele tenha visto os tombos nos trotes acelerados em que muitos têm se arriscado na carreira musical. É difícil não cair do cavalo. Por isso, vem em galope suave e sereno para com as suas propostas artísticas. Montado no cavalo, olha o horizonte distante e talvez nem saiba aonde quer chegar, apenas que precisa continuar a caminhar. Amarante é um estrangeiro vindo de um canteiro, onde as berinjelas se roxeiam ao amanhecer, segundo a deliciosa canção “Mon Nom”.

Nas galopadas, canta em inglês, francês e português. A língua não importa. O que vale é a poesia. E a amizade com o cavalo, já que los hermanos ficaram para trás.

*Crônica publicada nesta terça-feira (12) na coluna Crônico do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Tweets, ‘Cavalo’, Rodrigo Amarante, Tardei

Por Wilame Prado e Rodrigo Amarante

Hoje é o seguinte: “Cavalo” e só. Como tem sido há alguns dias. //Quando eu vejo você/ Me olhando assim/ Vendo em mim/ O que eu vejo em ti//.

Milagre seria não ver, Irene.

Foi meu professor/Foi meu cúmplice/Sua mente, eu sei/Só chego ao índice. De Amarante para o poeta morto Ericson Pires.

“The Ribbon” mostra o melhor de Amarante, o melhor! Assim como em “O Vento”, “O Moço e o Velho”, “Primeiro Andar” e “Os Pássaros”.

Quem na rua se perde/Encontra o que pede/Acerta o que mede/E conta até errar/Que o erro é onde a sorte está. >>>Estamos prontos para o fim.

Por fim, “Tardei” (Amarante) e “Tardei”:

Tardei

Por Wilame Prado

Tardei, no lado oeste da cidade de pequeno porte
o sol caía
o moleque recolhia o par de chinelo-trave
o shortinho curto da moça tapava o paraíso
a senhora terminava de varrer a sujeira do mundo
e eu,
enquanto deixava a máquina automobilística me levar para mais próximo das nuvens,
tardei

Tardei porque não queria te ouvir, ver ou sentir
Tardei porque são desesperadoras as tardes de domingo
Assim como são desesperadoras qualquer tarde, de qualquer dia
Tardei para evitar a fadiga
Apaziguar os ânimos
Esfriar a cabeça
Amenizar a situação
Tardei para ver se, longe de mim, a casa ficasse em ordem

Lembro-me bem
Estava, sentido aos céus, no lado oeste da cidade de pequeno porte,
Quando tardei
E lá fui deixando a máquina me levar,
Marcha macia, brisa na cara, paraíso escondido, brincadeira acabada, sujeira varrida

No tardar, subi
Vi poeira leve e inofensiva pelo retrovisor
E estava mais determinado que nunca: o mundo ficou para trás
Cenário e gente serviam de retardatários
Tardei enquanto o sol caía, enquanto a tarde caía e tardava também
Subi em linha reta e notei que havia chegado a hora de parar
Dois pontos, uma linha, ponto de partida, ponto de chegada

Uma cerca, afinal, impedia-me de seguir adiante
Tardei mais um pouco por ali
Era voltar para trás ou tardar
Era encarar a sobrevivência ou me perder de vez
Em pensamentos, em frases soltas, em parágrafos imaginários,
Em sonhos daquilo que já foi e não foi e nunca será

Tardei e deixei, aos poucos,
não as obrigações
As saudades sim
Levarem-me para trás
Regredir nem sempre é sinônimo de fraqueza
Pode ser sintoma de experiência, pode ser fortificação

E hoje continuo tardando
Mais sereno
Sem tanto sacolejar as pernas
Olhando até mesmo as tardes de domingo passar
Azulejos refrescantes do alpendre da casa grande
Cadeiras de área, na área
Em outros pontos cardeais da cidade de pequeno porte

E sem me esquecer jamais do dia em que deixei o carro me levar até o ponto final
Tendo na memória o chinelo-trave, o shortinho e a vassoura, e as pessoas
Os caminhos, as pessoas e os cenários nunca são iguais, retardatários

De vez em quando, retomo os trajetos de outrora, sempre mudados
Em tardes de domingo, feriados, dias atípicos de semana
No lado oeste da cidade de pequeno porte,
Onde tardei

E continuarei tardando
O sol caindo e tudo
Mas eu voltando

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Paraíba faz a vontade de Brecht

Por Wilame Prado

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht argumentou em seus diários de trabalho que tinha interesse em escrever uma peça sobre Zhao Gongming, o Deus da Fortuna da mitologia chinesa. Fato mais que suficiente para que o Coletivo de Teatro Alfenim (João Pessoa-PB) resolvesse criar uma parábola cômica utilizando os anseios de Brecht como ponto de partida para “O Deus da Fortuna”, espetáculo deste domingo (10 da 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá que será apresentado na Oficina de Teatro da UEM, às 20h30.

A peça, que tem texto de Márcio Marciano criado em processo colaborativo com os atores do grupo, mostra alegoricamente o Deus da Fortuna, entidade totalmente identificada ao capital especulativo e que surge na propriedade de um capitalista à moda antiga, o Senhor Wang.

Afundado em dívidas, Senhor Wang ergue um altar em honra ao Deus da Fortuna, mas, para evitar a falência, vê-se obrigado a ofertar a própria filha para amortizar dívidas. “O Deus da Fortuna” ironiza o capital especulativo e as relações humanas completamente dependentes – inclusive metafisicamente – com as coisas do dinheiro.

No elenco estão Adriano Cabral, Daniel Araújo, Lara Torrezan, Paula Coelho, Vitor Blam e Wilame AC. Ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). A classificação é para 10 anos.

SAIBA+
Programação completa da 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá no site: mtcontemporaneo.art.br

*Reportagem publicada neste domingo (10) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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A moça que passa

Por Wilame Prado

Ruas que andam
Vida que passa
Sentado
as ruas andam
a vida passa

O carro passa
O avião passa
A moto passa
E a moça passa

Sentado a vida passa

A árvore respira
O homem traga
O tênis se gasta
As paredes se desgastam
E gastam o asfalto

A moça passa
Sentado, a vida passa

E de repente
Coisa de centésimo de segundo
Olha-se por entre o buraco do alargador
na orelha de um jovem e delicado rapaz
e ali vê-se e prevê-se uma vida inteira sentado
vendo a moça a vida passar

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Repertório contemporâneo na mostra de teatro

Por Wilame Prado

Ainda restam ingressos para o espetáculo “Nada de Novo”, do grupo paulistano Parlapatões, que abre a 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá hoje no Teatro Marista, às 20h30. A bilheteria fica aberta do meio-dia às 19h no 4º piso do Maringá Park Shopping. Os ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia).

A procura pelos espetáculos e os elogios feitos em redes sociais após a divulgação oficial da programação da mostra têm animado o coordenador Marcio Alex Pereira, da Teatro & Ponto Produções Artísticas – companhia que realiza a o evento com apoio do Ministério da Cultura. Até o dia 17 de novembro, a mostra principal ocupará vários teatros da cidade, além das atividades formativas (mesas redondas, palestras, leituras dramáticas, exibição de filmes e oficinas) e extensões com espetáculos em Londrina e Campo Mourão.

“Além dessa abertura elogiável com a comédia dos Parlapatões, a expectativa é grande para ver a reação do público nas peças que estamos trazendo do Coletivo de Teatro Alfenim, de João Pessoa-PB, e também nas seis peças do projeto ‘Peep Classic Ésquilo’, do Club Noir (São Paulo-SP), com espetáculos durante os três dias da mostra”, revela Pereira.

Segundo Pereira, há muitos curiosos também para ver o que as companhias de teatro de Maringá, Mandaguari, Londrina e Campo Mourão farão nos palcos maringaenses durante a Mostra de Teatro Contemporâneo deste ano. A exemplo do espetáculo “O Primeiro Golpe”, da mandaguariense Saindo da Coxia – capitaneada pelo dramaturgo, diretor e ator Paulo Campagnolo –, que, pela mostra e em parceria com o Convite ao Teatro, é atração amanhã, 20h30, no Teatro Barracão. A entrada é franca.

Teatro de repertório
Mesmo com novidades, Pereira diz que não muda a principal característica da Mostra de Teatro Contemporâneo: o oferecimento ao público local de teatro de repertório. “Estamos proporcionando teatro de repertório com grupos de fora do eixo Rio-SP, com o pessoal da Paraíba, com os curitibanos, enfim. Esse ano foi possível também fazer uma espécie de proposta temática com alguns espetáculos, de diferentes lugares, que tratam temas sobre a velhice, como a solidão e o Mal de Alzheimer. É o caso de ‘Brevidades’, do Coletivo de Teatro Alfenim, ‘Correntes’, dos maringaenses da LC Produções Cênicas, e ‘Yolanda Calaboca’, dos londrinenses da Casa das Fases”, diz.

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (7) no caderno Cultura, do Diário de Maringá
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Parlapatões abrem Mostra de Teatro Contemporâneo

Por Wilame Prado

A ironia fina dos Parlapatões (São Paulo-SP) transcendeu os palcos e contaminou a própria história desse que é considerado um dos mais importantes grupos de teatro em atividade no País. Pode parecer mentira, mas “Nada de Novo”, com suas sempre elogiadas ácidas palhaçadas, está em cartaz há 22 anos, mesmo tempo de fundação do grupo. A comédia política é a atração de abertura da 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá amanhã, às 20h30, no Teatro Marista (ingressos a R$ 10 e R$ 5 no Maringá Park Shopping).

“Apesar do nome, sempre estamos encontrando algo novo nesse espetáculo que vem prevalecendo no tempo graças às suas constantes mutações e também pela resposta do público. Se fôssemos colocar todos os quadros que já fizemos para a peça, seria um espetáculo de mais de cinco horas”, anuncia Hugo Possolo, dramaturgo, ator e um dos fundadores dos Parlapatões.

Realizada pela Teatro & Ponto Produções Artísticas e apresentada pelo Ministério da Cultura, Sanepar e Zacarias Veículos, a terceira edição da Mostra de Teatro Contemporâneo ousa ao propor uma comédia na abertura. Uma comédia contemporânea, segundo o coordenador da mostra Marcio Alex Pereira. “O espetáculo de abertura é diferente, é uma comédia que está dentro de uma estética de assuntos contemporâneos, uma comédia política, não deixa de ser teatro contemporâneo”, diz ele.

Possolo divide palco com Raul Barretto, Fabek Capreri e Hélio Pottes em “Nada de Novo”, espetáculo com linguagem clown que reúne brincadeiras, números circenses e quadros debochados. O espírito do grupo se revela com o rompimento dos limites de comunicação entre atores e plateia. Em meio a tudo isso, a comédia tem declarada inspiração no humor categórico de grandes mestres como Karl Valentin e Groucho Marx ou nos quadros clássicos dos Três Patetas e o Gordo e o Magro.

Dos 50 espetáculos já realizados pelos Parlapatões, “Nada de Novo” é recordista de longevidade. Um dos segredos é a aceitação do papel de ridículo em meio ao picadeiro imaginário, diz ele. “Para trazer o público para a história, a gente aceita o nosso papel de ridículo, compartilha esse ridículo e então tudo fica mais fácil.”

Talvez como ironia do destino, na opinião de Possolo infelizmente nada de novo – ou pelo menos nada que mereça destaque – aconteceu na comédia nacional e internacional durante essas duas últimas décadas. Por essas e outras, para a constante manutenção de “Nada de Novo”, as inspirações humorísticas continuam sendo as mesmas.

“Nos anos 90, a figura do palhaço se massificou e, então, multiplicaram-se os palhaços muito ruins. Depois disso, veio a safra do stand up, e a moda acaba arrastando também gente muito fraca para os palcos. Nesse meio tempo, tirando talvez trabalhos de Sacha Baron Cohen, do filme ‘Borat’, não visualizo nada de mais”, diz ele.

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (6) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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