Bonequinha de luxo

Por Wilame Prado

Viu que dirigia um Audi TT conversível. Sorria. A mulher ao lado era bela. Conversava com ela. Sorriam. Viu a felicidade, um sujeito feliz.

“Isso é felicidade, pai?”

“As posses. Os carros. Mulheres.” Só pensou.

“Vou te contar uma história: antigamente, pior do que hoje, não se tinha muita noção do que é felicidade, do que precisamos para ser felizes. Aí, para muita gente lá em casa e nas outras famílias também, felicidade era tomar tubaína quente no Natal”, contou o pai.

“Mas o que estou querendo dizer, pai, é que eu tenho uma forte impressão de que vi a felicidade plena no rosto de um sujeito ontem, trafegando com seu conversível na Avenida Laguna, ali na Operária, perto do Senadinho Pastel, sabe?”

“Sei.”

“Então. O carro dele estava limpo e, como o senhor deve se lembrar, ontem o clima estava agradável; aquela tarde de sábado parecia ser propícia para um sujeito, em seu carro bom, ao lado de uma mulher bonita, ser feliz”, continuou argumentando o filho.

“Interessante você dizer isso. É o imediatismo da sua geração, filho. Com um recorte, com uma imagem, com uma foto, com uma cena de um filme, vocês conseguem decretar a felicidade de um homem.”

O filho tomou um gole de tereré. E refletiu em voz alta: “Tá parecendo que sou um baita de um invejoso.”

Continuou: “E tem razão: fui imediatista. Mas veja só, pai: acredita em pressentimento?”

“Coisa de mulher.”

No que ele respondeu, rapidamente: “Usei a palavra errada. Enfim. Deixa pra lá esse papo. Você viu que o seu Palmeiras meteu goleada ontem e ergueu o troféu? Bi campeão. Parabéns velho! Agora vocês retornam à elite, de onde meu time nunca saiu”, alfinetou, dando risada sarcástica.

“Esquece isso, esquece o circo. Fiquei é intrigado com esse seu papo de felicidade. Poxa vida, filho: que educação que eu te dei? Você vê um cara com um carro que pode ser muito bem financiado ou roubado, com uma mulher linda ao lado, mas que pode ter sido alugada somente para aquela tarde, e me diz que isso é felicidade? Aquele sorriso que você descreve pode, inclusive, ter sido bem fugaz: sob efeito de droga ou após uma quantidade de cerveja ingerida em um boteco por aí. E, digo mais: se tudo isso ainda não for verdade, devo lembrá-lo que ‘por trás de toda grande fortuna há um crime’, como disse tão bem Balzac. É o preço que se paga, e caras como você e eu nunca estaremos dispostos a pagar tão caro para andar de conversível ao lado de uma bonequinha de luxo, filho.”

Algumas horas se passaram. O pai, ao lado da mãe, aproveitou o resto daquele domingo para ir à casa de parentes em uma cidade próxima a Maringá. E o filho passou o tempo todo sentado, sozinho e com uma sensação esquisita mesclando tristeza, solidão e serenidade. Não conseguia esquecer a cena do sábado ensolarado, um homem feliz, com seu carro limpo e bonito, com uma bela mulher ao lado, dirigindo ao léu, sem compromisso, sem precisar bater ponto, curtindo a vida e contente por saber que ainda faria daquele sábado mais um dia como se não houvesse amanhã; o mundo ainda presentearia aquele feliz rapaz com uma noite de sábado, saindo e entrando do seu Audi TT conversível, abrindo e fechando portas para uma (s) mulher (es).

“Quem era aquele cara?”, não conseguia parar de pensar.

“E quem ele pensava que era para ser ‘tão’ feliz ao lado de Emilly?”, questionava, um tanto raivoso.

Na conversa que tivera horas atrás com o pai não teve coragem de contar que conhecia aquela garota e que, um dia, o cara feliz ao lado daquela “bonequinha de luxo” tinha sido ele.

*Conto publicado nesta terça-feira (26) na coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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