Mês: dezembro 2013



Malvada e correta consciência*

Por Wilame Prado

Quem deve, tem vontade de correr, sem parar, sem nem olhar para trás. Tem desejo de se esconder, eternamente, embaixo de uma coberta, bem grossa. Mas não estou falando sobre dever uma pinguinha no bar, ou alguns pães na padaria. Não é dever uma grana para o colega, assim como eu devo R$ 200 para o Vinícius (um dia eu pago). A dívida que estou falando é muito além de qualquer aspecto material, não envolve dinheiro e nem troca de favores. Estou me referindo à dívida que se tem para com a consciência – uma malvada, porém quase sempre muito correta.

Acho que a conheci, a malvada, muito pequeno, talvez quando me toquei de que fazer necessidades fisiológicas na calça era incorreto. Desde então, ela, a consciência, a que não mede as palavras, a que diz sem medo a verdade para o seu eu, vem atuando ativamente, fazendo com que, muitas vezes, eu não tenha coragem de fazer algo. O arrependimento (irmão da consciência) pode, a qualquer momento, chutar as bolas da dignidade.

Um dia, eu pratiquei um roubo. Devia ter uns onze anos, morava em São Paulo (capital) e estava, gradualmente, sob influência de amizades suspeitas, prestes a me tornar um moleque travesso, do tipo que gosta de caçar briga com a turma da rua de baixo, que fuma escondido em casarão abandonado e que taca camisinha cheia de urina no carro do delegado vizinho.

Chega de detalhes e voltemos ao maldito roubo. Era uma noite quente de verão. Devia estar quase na hora de começar a novela das oito, mas eu e um monte de amigos ainda estávamos na rua, de pés sujos e fazendo alguma traquinagem. De repente, e isso era normal naquela época, faltou energia elétrica em todo o bairro. Então, no auge da minha insanidade, pensei que, naquele breu, se pegasse uns picolés no freezer da Kibon, na padaria da esquina, o dono português e bigodudo não perceberia. Realmente, o português não percebeu. Mas o cearense, que estava no balcão, sim.

Saí correndo feito louco para casa, com medo de apanhar. O magricela e testudo do balcão gritava “devolve o sorvete moleque”, mas já era tarde. A vergonha de assumir o crime não me permitiu voltar atrás. Na correria sem fim, meus calcanhares encardidos batiam em minhas nádegas. Por fim, e para não ficar com a prova do crime em mãos, joguei os picolés para as únicas duas meninas que brincavam com a gente na rua.

Cheguei em casa branco. Minha mãe estava na calçada, conversando com a vizinha, já que, sem energia elétrica, era impossível assistir a novela. O calor era insuportável e ainda não tinha tomado banho. Mesmo assim, suado e sujo, fui buscar abrigo debaixo das cobertas. Que sufoco.

Como a padaria ficava na rua de casa, o funcionário me reconheceu. Então, ainda na mesma semana, em pleno almoço, na frente de toda a família, minha mãe me obrigou a pedir desculpas e a pagar o valor dos picolés surrupiados na noite escura. Ao entregar a grana ao cearense na padaria, a vergonha (irmã da consciência e do arrependimento) veio vestida de vermelho nas maçãs do rosto.

Naquele dia, ao roubar os picolés, não liguei para as advertências da consciência. Só que tinha me esquecido de um detalhe: ela, a malvada, nunca morre e, depois do ato consumado, vem bruta e pesada. Tivesse lido “Crime e Castigo” antes disso, teria consciência (no sentido de conhecimento) do quanto a consciência (no sentido de moralidade) pesou na vida de Rodion Românovitch Raskólnikov.

*Crônica publicada dia 25 de novembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná, e também no blog A Poltrona

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Telefone celular

Por Wilame Prado

Ele disse “window”, eu ouvi, ele cantou “window”, e estou numa janela.

Nada de anormal: ouvindo Thom Yorke numa janela.

Foi legal ouvir uma das únicas palavras que sei a tradução em inglês em plena window.

Hoje já é amanhã. Passa das zero horas. Na janela. Fones abraçam minhas orelhas. Digito em um pequeno teclado de aparelho celular que me permite ouvir música e escrever. Até ligação faz.

Odeio telefone, falar ao telefone, trocar telefones, por favor não me ligue mais, nem peça meu número. Fiquemos só com as palavras, com o vento, com o vinho. Calço 41, mais números, impossível dar, não posso me comprometer. O que é WhatsApp?

Não gosto de telefone, mas gosto de coisas que me permitem ler, escrever e ouvir música. No fim, é isso o que salva, que resta, que não cobra, que não chora nem grita, ao telefone, sempre o maldito telefone.

Todos reclamam bulas inteiras de remédio alegando a falta de sinal da operadora de telefonia. Eu rio. Eu gosto. Estava com um celular, antes desse, que não cantava música nem me deixava ser escritor de smartphone. Era singelo o celular antigo, capinha não tinha para proteger a bateria, o seu sangue vital. Acabou morrendo. Não ligava mais. Perdeu sangue. Eu nem ligava (literalmente). Ria sem bateria e sem sinal.

E então me enfiaram um novo telefone. Que canta, escreve e até fala de vez em quando. Mas eu não gosto dele não: ouvir aquela linda mulher – o meu amor – chorar do outro lado da linha não é mole, corta o coração da gente, silencia música, breca os dedos digitadores e cala minha voz; torço, então, para cair o sinal, para o “sanguinho” da bateria secar.

Ouço Thom Yorke cantando “window” – “Before Your Very Eyes” é a primeira canção do disco “Amok”, do grupo de rock norte-americano Atoms for Peace, cujo vocalista é o líder do Radiohead e que propõe, na letra da canção, que ela, “moça jovem e de boa aparência”, “olhe pela janela” e veja o que passa diante de seus olhos (o tempo, o tempo, “alma velha sobre ombros jovens”) – quando hoje já é amanhã e o vento refresca só a pele pelos buracos da camiseta e nada de abrandar as quenturas da alma.

Penso naquele choro da minha linda e amada mulher ao telefone. Jamais esquecerei aquele som. O barulho ensurdecedor das lágrimas caindo ao chão. Fecho a janela, deixo o smartphone de lado, tomo outro gole de vinho e vou dormir, aguardando o maldito celular me servir, daqui poucas horas, como despertador para mais um dia.

Como mágica, não há ressaca, não há janelas abertas, não há mais calor, Thom Yorke e nem despertador. Estou sonhando acordado, meu Deus? Aquele lá sou eu, ainda deitado na cama, nada de choro, nada de ligações pelo aparelho celular. Tudo está em paz. Ela está ao meu lado, e como fica linda dormindo! Até o gato garantiu um espaço na cama de casal. Tudo está em paz. Ainda bem. E, então, não há como não parafrasear o Vanguart, na bela canção “Meu Sol”, do último disco “Muito Mais que o Amor”: “A vida é tão mais vida de manhã.” Tomamos café e, a partir daquele dia, resolvemos que nunca mais atenderíamos as ligações de nossos aparelhos de telefone celular.

*Conto publicado nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Patacoadas da Black Friday Brasil

Por Wilame Prado

Faz poucos anos que o comércio varejista brasileiro resolveu imitar a Black Friday – tradicional última sexta-feira do mês de novembro em que os norte-americanos aproveitam para limpar os estoques das lojas e iniciar as loucuras consumistas envolvendo os festejos natalinos e de fim de ano. Aqui, nunca funcionou ou funciona de maneira bem amadora. Nos EUA, funciona para o comércio (só pela internet, as compras da Black Friday alcançaram US$ 3 bilhões este ano) e muita gente – entre safanões, voadoras no peito e trocação de socos na cara – até consegue levar aquela grande tela Full HD por um preço camarada. Mas, quanto vale a vida?

Quanto vale a vida em uma fila gigantesca, na porta de uma loja de eletrodomésticos? Para alguns, vale uma televisão de LED; para outros, vale uma máquina de lavar roupas. Aqui no Brasil ainda não vi gente chegando às vias de fato – como gostam de dizer os policiais – por causa de um sofá. Nos EUA, o individualismo do cidadão consumista assumido fala mais alto: é porrada até em criança e em mulher grávida, dependendo da promoção.

A explicação pela passividade brasileira pode se dar pelo simples fato de que, no País, a Black Friday ainda é mais popularmente conhecida como Black Fraude – o site Reclame Aqui (espécie de Procon da rede virtual) recebeu em um dia 8,5 mil reclamações envolvendo sites que participaram da chamada Black Friday Brasil. Mesmo assim, segundo dados da ClearSale, entre sites que não carregavam e promoções de produtos já esgotados, a Black Friday Brasil movimentou R$ 424 milhões no e-commerce brasileiro, montante 95% superior ao registrado na mesma data do ano passado.

O assunto é mais polêmico do que se pensa. Não é apenas um smartphone com 50% de descontos em questão. Para aqueles que criticam o consumismo desenfreado, é difícil não cair em armadilhas envolvendo falsos moralismos na hora de escorraçar uma Black Friday da vida. Gostaria muito de perguntar aos pescadores de liquidações se estariam dispostos a deslocar tamanha energia e empenho – assim como em uma fila de loja ou horas esperando um site carregar – em uma causa humanitária. Mas logo eu, que nunca me envolvi em causa alguma? Portanto, pelo menos para mim, fica difícil criticar.

Difícil também porque, consumistas somos todos hoje em dia. É difícil resistir aos sonhos plantados pelas mídias, pelo mundo, de que devemos ter sim aquele carro novo, aquela casa boa e um Iphone 5S. Quando a gente nem vê, já se passou uma tarde toda pensando de que maneira gastaremos a primeira parcela do 13º. A vida vale muito, mas é difícil viver. Algumas “coisas” não têm preço: amor, boas amizades e um acordar em paz na cama sabendo que, “ok, é difícil viver, é difícil começar mais uma semana de muito trabalho, mas vamos pra cima, vamos com energia e saúde, afinal, como diz o velho sábio Sebastião Lino – pai de um amigo meu – a vida só é dura pra quem é mole.”

O que mais chama atenção nesse papo de Black Friday Brasil – e aí dá para criticar sem medo – é o escancarado e tão criticado “jeitinho brasileiro” tentando abrasileirar aquilo de mais tosco que vem das terras de Barack Obama. Não bastasse a falta de criatividade brasileira em se criar datas que representem um pouco mais do que uma desculpa para girar a economia e estimular a venda e compra de objetos (nos EUA, rola uma desculpinha envolvendo a sexta-feira de compras desenfreadas com o feriado de Ação de Graças, comemorado um dia antes), nós, brasileiros, não temos capacidade nem de assumir uma Sexta-Feira Negra ou outro nome sequer dito em nossa língua.

Também não nos contentamos em respeitar o sentido da compra toda e, no afã de se continuar enganando o povo brasileiro com pseudo-promoções fantasiosas, criamos uma Black Friday que dura, no mínimo, uma semana: temos a antecipação da Black Friday às quintas; a continuação dos descontos no final de semana – também apelidada por aqui de Ressaca Black Friday; as irritantes propagandas jurando que o dono da loja ficou louco e que por isso esticou os dias em que poderemos comprar a preço de banana; e, um dos últimos absurdos que vi na internet dia desses, a chamada Cyber Monday. É muita patacoada para um País só.

*Crônica publicada nesta terça-feira (10), na coluna Crônico do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Crimes, castigos e penas

tudo isso vale (u) a pena mesmo
pena leve
pena branda
peso pena
peso que não pesa

o natal foi com minúscula
e as ruas estavam tão quietas
e, acreditem, garoou
ridícula e imensamente
deprimente
gotas peso pena – fisicamente falando
gotas peso pesado – nostalgicamente falando

insisto, o que vale (u) a pena
até que ponto compensa
ela passou do ponto
o ônibus não parou no ponto
você nunca quer o ponto final
castigos não apagam os crimes
crimes não se apagam com castigos

Qual será sua pena?
Uma apendicite
Um ouvido entupido
Uma síndrome do intestino irritável
Ou um se sentir sozinho
Tomando coca lata
Comendo um lanche de forno
Indo pro jornal
Na chuva
Já é (N)atal
Sentindo pena de si

Crimes, castigos
Vale (u) a pena?

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