Mês: janeiro 2014



Leda no País das Maravilhas

Leda Lacintra, em um "auto-clique"; fantasia e beleza

Leda Lacintra, em um “auto-clique”; fantasia e beleza

Por Wilame Prado

Leda Lacintra, 21 anos, jovem estudante de Geografia pela UEM, resolveu que não teria medo das pulsações artísticas que invadiam o seu ser todas as vezes em que assistia a grandes filmes e atores no cinema, como “Alice no País das Maravilhas” (Tim Burton) com Johnny Depp em cena, ou então quando se deleitava com as propostas estimulantes da imaginação encontradas em qualquer bom livro. Resolveu que poderia também criar. E encontrou na fotografia artística uma maneira de abrir a mente.

“Open Your Mind” (“Abra Sua Mente”), primeira exposição fotográfica de Leda, acontece desde quarta-feira no hall de entrada da Câmara de Maringá, Zona 2, e fica até 14 de fevereiro, sempre com entrada franca. São 105 fotografias de 20cm x 30cm que misturam lirismo, fantasia, arte e muito improviso. A exposição é o suprassumo daquilo que ela produziu durante um ano só seguindo o que a intuição artística lhe dizia.

“Passava o domingo inteiro fotografando, ou dentro de casa ou em sítios na região. Idealizava as fotos, fotografava e depois editava, tudo na base do improviso. Minhas amigas, muitas vezes, serviram como modelos para as fotos. Em algumas situações, usei recursos do Photoshop, mas em várias outras é a perspectiva dos atores com os objetos e cenários que dá a sensação de arte e fantasia”, explica Leda, que chegou a ser citada em um curso de Fotografia na UEM como autora de boas imagens cujo recurso da perspectiva na produção fotográfica havia sido bem explorado.

Detalhe: tudo isso, conforme pode ser visto em imagens espalhadas nesta página, apenas com uma compacta digital Canon PowerShot SX50 HS. “Não sou fotógrafa e nem tenho equipamento. Mas quero mostrar, com as fotos, que a arte é acessível para todo mundo. Fotografando, eu mesmo tive a abertura da minha mente, eu evoluí nesse um ano de fotografia, e espero, com a exposição, que possa servir de inspiração para outras pessoas a produzirem arte, a verem a vida de maneira mais artística. Não é só em um filme feito nos grandes estúdios ou em fotos feitas com equipamentos de ponta que saem as boas imagens”, diz Leda.

Despedida
A cada produção fotográfica que ela ia desenvolvendo e divulgando nas redes sociais durante todo o ano passado, a repercussão aumentava. Até que chamou a atenção do jornalista Diniz Neto, autor da fanpage “Maringá em Fotos” e da arquiteta Daniele Mattos. Os dois idealizaram e atuam como curadores da exposição “Open Your Mind”.

Para Leda, a exposição também tem tons de despedida e de fechamento de um ciclo. É que justamente ontem ela se casou e está de malas prontas para Florianópolis (SC), onde se muda em fevereiro. “O pessoal disse que eu não poderia ir embora de Maringá sem antes fazer uma exposição. E vai ser bom para finalizar uma etapa desse projeto e para começar outros, desta vez em Santa Catarina, local onde ainda poderei divulgar melhor meu trabalho graças à exposição.”

PARA VER
OPEN YOUR MIND
Exposição fotográfica
Onde: Câmara de Maringá
Endereço: Avenida Papa João XVIII, 239, Zona 2
Horário de funcionamento: Das 8h às 18h
Entrada franca

*Reportagem publicada quarta-feira (29) no Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Sobre ‘O Lobo de Wall Street’, DiCaprio e Scorsese

Margot Robbie e Leonardo DiCaprio em cena de "O Lobo de Wall Street"; sexo, drogas e dólares

Margot Robbie e Leonardo DiCaprio em cena de “O Lobo de Wall Street”; sexo, drogas e dólares

Por Wilame Prado

Martin Scorsese é um dos grandes cineastas em atividade nos Estados Unidos. E bons diretores costumam apostar em bons atores para estrelarem suas produções. Scorsese vem apostando em Leonardo DiCaprio desde 2002, quando ambos trabalharam juntos em “Gangues de Nova Iorque”. Não que antes não tenha dado certo – a parceria se estendeu em “O Aviador”, “A Ilha do Medo” e “Os Infiltrados” –, mas agora a dobradinha deu mais do que certo: em “O Lobo de Wall Street”, filme em cartaz nos cinemas de Maringá, DiCaprio está endiabrado e o diretor dos clássicos “Touro Indomável” e “Os Bons Companheiros”, revigorado.

Fosse só pelo roteiro de Terence Winter (das séries “Friends” e “Família Soprano”) – uma adaptação de dois livros com as memórias de Jordan Belfort, escritas pelo próprio –, poder-se-ia dizer que não há nada de novo em “O Lobo de Wall Street”. É que a comédia dramática politicamente incorreta é mais um daqueles filmes que jogam luz nas loucuras que envolvem o trabalho alucinado de corretores de ações em uma empresa de Wall Street, dinheiro fácil, mulheres, drogas e FBI. Hollywood está cheia de filmes com tudo isso. Mas há duas diferenças no longa que recebeu cinco indicações ao Oscar: Scorsese e DiCaprio.

As cenas do ator que ficou famoso por “Titanic” (1997) e que, inicialmente, sofria uma espécie de bullying por aqueles que o acusavam de ser só mais um rostinho bonito para o cinema, são às vezes hilárias e às vezes estimulantes em “O Lobo de Wall Street”. DiCaprio interpreta Jordan Belfort, jovem promissor que se acostuma fácil aos abusos de quem quer vencer na vida sendo corretor de ações da bolsa de valores.

Dura apenas uma cena um DiCaprio-Belfort zeloso com as consequências de suas atitudes e orgulhoso por estar casado com a costureira Teresa (Cristin Milioti). Ele se torna rapidamente um bom aluno de Mark Hanna (Matthew McConaughey), que professora: para se dar bem na profissão, passe os clientes para trás e seja ágil nos telefonemas, apropriando-se sempre dos poderes estimulantes da cocaína, do sexo fácil e, por que não, da masturbação.

Belfort não tem limites. E encontra rapidamente um parceiro para acompanhá-lo nas tramoias aprontadas para se conseguir dinheiro e, consequentemente, prazeres: carros, mansões, iates, bebidas, festas, sexo e drogas, muitas drogas, de todos os tipos, tamanhos e cores. O Sancho Pança de DiCaprio no filme é o talentoso e promissor Jonah Hill, indicado ao Oscar na categoria “Ator Coadjuvante” e que no longa de Scorsese é Donnie Azoff, vice-presidente da Stratton Oakmont, empresa fundada por Belfort que gera lucros exorbitantes em tempo recorde.

E se o riso é fácil vendo as presepadas hedonistas desses dois completamente alucinados e sob efeito de drogas, as cenas mais marcantes do filme se passam de manhã, dentro da empresa, quando Belfort injeta ânimo em toda a equipe de trabalho com o seu irresistível poder de persuasão.

DiCaprio se transforma, grita até ficar rouco e vermelho, enviesa os olhos, sobe na mesa, dispara dólares e relógios de 40 mil dólares e contrata stripers e promove orgias para deleite dos funcionários. DiCaprio convence no papel e, um pouco como o Belfort da vida real, chega a dar tons motivacionais – ainda que pelos caminhos mais esdrúxulos – para o ambiente corporativo.

Passam-se três horas e o filme não se torna cansativo. Scorsese está mesmo revigorado, sabendo dar continuidade às cenas do filme como ninguém, apostando no imaginário ocidental masculino e propiciando um conto de fadas principalmente aos homens, que passam a sonhar com aquela vida cheia de loiras peitudas, baratos inconsequentes e dólares a rodo.

Experiente e sabedor de que todo bom filme tem a sua musa, Scorsese ainda merece aplausos pela escolha de Margot Robbie, belíssima atriz que empresta seu corpo – e só (só ?) – para o personagem Naomi Lapaglia, segunda mulher de Belfort na trama.

É verdade que “O Lobo de Wall Street” se limita à visão de um homem que já aprontou de tudo nesta vida e que, mesmo após ter sido preso, continua ganhando seus dólares, hoje “vendendo” fórmulas mágicas para as empresas faturarem mais. As milhares de vítimas que perderam centenas de milhões de dólares com o astuto Belfort não têm vez no filme de Scorsese. E é por isso mesmo que assistir Scorsese é tão bom, um contador de histórias que deixa o julgamento para os outros.

PARA VER
O LOBO DE WALL STREET
(EUA, 2013)
Diretor: Martin Scorsese
Classificação: 16 anos
Duração: 2h59min.

*Comentário publicado nesta quinta-feira (30), no Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Escada rolante

Por Wilame Prado

Um dia, parei pra contar: em uma hora de uma tarde qualquer de domingo, desceram pela escada rolante 357 pessoas. Foram 357 destinos que desceram do quarto andar do shopping direto pro terceiro andar. O que foram fazer? Entraram em outras lojas, compraram mais, comeram mais, usaram mais vezes o banheiro, usufruíram por mais tempo do ar-condicionado? Não sei. Muitos foram embora. Encararam o calor da Avenida São Paulo ou o dióxido de carbono detido no estacionamento subterrâneo. Durante toda aquela uma hora em que parei pra observar as pessoas se locomovendo pela escada rolante, apenas uma senhora encheu o saquinho transparente com 186 gramas de doces coloridos vendidos no quiosque onde trabalho.

Já estou acostumada ao trabalho de domingo. Pego a Biz, ando dezenas de quarteirões maringaenses e chego ao shopping. Tiro o tecido preto de cima do quiosque e visto, por cima da minha blusinha regata, a camiseta gola polo rosa e quente contendo no peito a logomarca da doceria. A dona quer que eu seja vista como um marshmallow rosa à disposição para o consumo dos clientes.

Mas não sou um doce que se pode mastigar facilmente. Nem um chiclete que nunca acaba e que perde o gosto rapidamente. Sou uma pessoa. E isso quase ninguém tem percebido ultimamente. O pessoal gosta de falar do sacrifício do trabalhador rural, do operário, dos pedreiros na construção civil. Mas poucos se lembram de mim: só uma garota de quase 30 anos, que almoça todos os domingos com os pais e que anda todos os dias com a sua pequena moto rumo a um quiosque que fede xarope de milho e açúcar. Das 357 pessoas que desceram a escada rolante naquele domingo, nenhuma olhou para mim.

Um dia, um moço casado olhou para mim. E permaneceu olhando. Não teve jeito: tive que procurar serviço para fazer e assim poder disfarçar. A situação estava embaraçosa. Quando a mulher dele olhava para o lanche que comia, ou então para o enorme copo de refrigerante em cima da mesa, ele me olhava. Sentia desejo, parecia. Uma pessoa, naquele instante, tinha percebido que, por trás de doces envelhecidos e camisetas ridículas, havia uma mulher. Gostei dele. Gostei da humildade em me reconhecer como gente. Era bonito e pouco importava se, na realidade, tinha segundas intenções. O dia estava salvo, e, às vezes, um olhar bastava para que eu pudesse chegar em casa um pouco menos infeliz.

O resto da história vocês já sabem. Vendo a reciprocidade do olhar, o homem voltou no dia seguinte. Encheu um saquinho de chocolates, balas e chicletes. Presenteou-me. Dar guloseimas para alguém que vende guloseimas é o pior presente que alguém pode dar. Resolvi não contar para ele quantas vezes vomitei ao me lembrar do cheiro daquelas verdadeiras borrachas envoltas no açúcar as quais preciso vender de segunda a segunda. Mas disse para ele duas verdades: eu odeio doces e não fico com caras casados. Ele parecia estar enfurecido descendo a escada rolante. Era apenas mais uma pessoa que descia aquela escada rolante sem sequer olhar para mim.

*Conto publicado nesta terça-feira (28) na Coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Cidade Verde vai para a Jamaica

REGGAE. Dub Mastor e Adonai, músicos que compõem o duo Cidade Verde Sounds; energias positivas na Jamaica. —FOTO: DIVULGAÇÃO

REGGAE. Dub Mastor e Adonai, músicos que compõem o duo Cidade Verde Sounds; energias positivas na Jamaica. —FOTO: DIVULGAÇÃO

Wilame Prado

Uma ponta de Maringá será muito bem representada na Jamaica em março. O Cidade Verde Sounds – duo maringaense de reggae composto pelos jovens e competentes músicos Adonai e Dub Mastor – está de viagem marcada para a terra do reggae.

Os dois músicos ficarão de 11 a 27 de março em um hotel em Kingston, capital e maior cidade da Jamaica, e que fica na costa sudeste do país. Por lá, onde, segundo eles, estão localizados os melhores estúdios musicais, objetivos nobres: compor novas canções, gravar um novo videoclipe, produzir um minidocumentário sobre a viagem e, claro, curtir a brisa do mar das Caraíbas sentindo as energias positivas indo a favor da música deles. Os fãs agradecem.

“Estaremos hospedados em um hotel no centro de Kingston nestes 17 dias. Ficaremos por lá durante as gravações e aproveitaremos para conhecer lugares importantes para a cultura do reggae, como a casa onde Bob Marley vivia”, conta Adonai.

Com a viagem, o vocalista e letrista do Cidade Verde diz haver uma necessidade intrínseca de se conhecer as terras de onde o reggae brotou pela primeira vez. “A ideia de conhecer a Jamaica existe em nós desde que começamos a tocar reggae, ritmo que surgiu na ilha. Buscamos algo como o beber da fonte, sentir a energia e a vivência do lugar onde nasceu Bob Marley, Dennis Brown, entre outros grandes artistas que mudaram a história da música para sempre.”

Ele explica que, embora não esteja prevista uma turnê do Cidade Verde Sounds no exterior, a viagem vai o permitir aos fãs – hoje a página no Facebook do duo tem quase 130 mil curtidas – uma aproximação grande com os dois músicos.

A ideia, diz Adonai, é transmitir tudo em tempo real, e esse tudo, obviamente, estará recheado de muito reggae. “Quem quiser ficar por dentro de toda a viagem, pode participar de nossas redes sociais.”

Baseado no sucesso que a dupla faz na rede, Dub Mastor, que se encarrega dos arranjos, bases e mixagens ao vivo do duo, ressalta a importância da internet como principal meio de divulgação do trabalho musical do Cidade Verde.

“Nossa expansão se dá através da internet, nosso principal meio de comunicação e contato com o público. Temos várias parcerias com artistas consagrados da Jamaica, Costa Rica e Brasil. Sempre trocamos ideia com os fãs e como fazemos muitos shows e viajamos muito, conseguimos sentir as vertentes e estilos do reggae que estão caindo no gosto da galera”, revela o músico.

Para Dub Mastor, que diz ter em Alborosie, Damian Marley, Tarrus Riley, King Tubby e King Jammy as principais referências para o som do duo, a influência jamaicana é predominante e conversa bem com a brasilidade de berço dos dois maringaenses. Por isso, decreta Dub Mastor, a Jamaica fará um bem danado e será ponto de referência para a carreira dos músicos e para a trajetória do Cidade Verde, que foi formado em 2005 e que, atualmente, percorre todo o País tocando as músicas do álbum “Missão de Paz”, segundo trabalho do duo que foi lançado no ano passado.

Não há dúvidas para Adonai que serão gestadas na Jamaica boa parte das canções para os próximos projetos musicais. Os ares jamaicanos certamente ventilarão agradavelmente o processo de criação do duo. Ainda assim, garante o compositor e cantor, o Cidade Verde já tem o seu estilo e continuará apostando naquilo que vem dando certo. “Podemos adiantar que, no próximo trabalho, teremos pegadas bem roots, com timbres e sonoridades clássicas do reggae raiz, e teremos também sons mais modernos, com a ‘vibe’ do que rola na Jamaica hoje em dia. Mas a cara e o estilo Cidade Verde é o mesmo, não pretendemos fugir do que viemos fazendo desde o início”, conta Adonai.

*Reportagem publicada domingo (26) no Caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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NINFOMANÍACA CHEGOU

“Ninfomaníaca” narra epopeia sexual de Joe, da perda da virgindade à vida adulta

“Ninfomaníaca” narra epopeia sexual de Joe, da perda da virgindade à vida adulta

Por Wilame Prado

Dois fatores tornam “Ninfomaníaca” um dos filmes mais aguardados deste ano que nem bem começou: sexo e Lars von Trier.

O fator “sexo” é fundamental para atrair a curiosidade não só de quem curte cinema. Um dos temas mais procurados nos sites de busca no mundo todo, questões sobre sexo ainda são cercadas por tabus. As pessoas – a maior parte delas – gostam de sexo e a indústria cultural sabe se aproveitar muito bem disso.

O fator “Lars von Trier” diz mais para quem acompanha aquilo que de importante vem sendo produzido no cinema mundial contemporâneo. O cineasta dinamarquês há anos é cultuado principalmente após trabalhos insuperáveis no cinema como “Dançando no Escuro”, “Dogville”, “Manderlay”, “Anticristo” e “Melancolia”.

A soma dos fatores – sexo e Lars von Trier – portanto, tende a ser explosiva. E todos – desde os cinéfilos aos que nem ligam muito para ver filme no cinema – querem saber dos resultados cataclísmicos dessa junção, que pode ser conferida desde ontem em Maringá. “Ninfomaníaca” estreia em dois horários (19h55 e 22h15), com classificação de 18 anos e legendado no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

Nesta primeira parte do filme, a ninfomaníaca Joe (Stacy Martin quando novinha, e Charlotte Gainsbourg na maturidade) é encontrada, machucada, em um beco por um estranho (Stellan Skarsgård). Após receber ajuda, vai para casa desse homem mais velho, descansa, recupera-se e finalmente começa a narrar, com detalhes, a sua história de vida e de seu autodiagnosticado vício em sexo, motivo que faz com ela se martirize e a autoavalie como uma pessoa extremamente má.

O longa-metragem, que, por ser tão longo, foi dividido em duas partes (o volume II estreia em março; a versão sem cortes e com 5h30min de duração deve ser lançada no Festival de Berlim, em fevereiro) vem recebendo classificações generosas como filme erótico cult. Nada de pornografia, embora haja cenas de sexo explícito. Tudo pela arte.

Lars von Trier gosta e costuma chocar as pessoas com cenas profundas e descarnadas de qualquer pudor. Em “Anticristo”, por exemplo, temos cenas de mutilações que espantam qualquer fã de carteirinha dos filmes de terror.

O diretor de cinema só não tem o perdão quando escorrega na língua: em entrevista coletiva de “Melancolia”, no Festival de Cannes de 2011, perdeu fãs e prestígio ao dizer que “compreendia Hitler”.

PARA VER
NINFOMANÍACA
Título original: Nymphomaniac : Volume 1
Direção: Lars von Trier
Gênero: Drama
Duração: 1h58min.
(2013/Din/Ale/Fr/Bel.)
Classificação: 18 anos
Estreia do Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping

*Texto publicado na sexta-feira (24), no Caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Dramas da lona

Atores do Circo Teatro Sem Lona ensaiando na Oficina de Teatro da UEM, local da estreia do espetáculo “O Drama de Nely e Alberto” (Foto de João Cláudio Fragoso)

Atores do Circo Teatro Sem Lona ensaiando na Oficina de Teatro da UEM, local da estreia do espetáculo “O Drama de Nely e Alberto” (Foto de João Cláudio Fragoso)

Por Wilame Prado

Circo é sinônimo de alegria. Mas nem só de felicidade viveram os espetáculos circenses. Nas décadas de 1950, 60 e 70, principalmente no Brasil, fez sucesso o chamado circo-teatro e que tinha no melodrama a receita principal para emocionar a plateia no segundo ato dos espetáculos circenses, após as tradicionais palhaçadas, mágicas e malabares.

O ator e dramaturgo Pedro Ochôa, 49 anos, recorda-se da época de infância, quando, na região sul-paranaense – Pato Branco, Clevelândia e Francisco Beltrão – ia com a família ao circo. A primeira peça que ele se lembra ter visto – sentado em uma humilde cadeira, debaixo de uma lona -, foi o sucesso “E o Céu Uniu Dois Corações”, do paulista Antenor Pimenta, um dos mais conhecidos autores de circo-teatro, nascido e vivido em Ribeirão Preto (SP), onde morreu em 1994, em pleno dia de jogo do Brasil pela Copa do Mundo.

Inspirando-se em “E o Céu Uniu Dois Corações” e unindo as reminiscências infantis com as pesquisas sobre o circo-teatro, Ochôa criou o espetáculo “O Drama de Nely e Alberto”, que o Circo Teatro Sem Lona estreia hoje, no Teatro de Oficina da UEM, às 21h, com entrada franca. O novo trabalho da trupe de clowns maringaenses – que completa 15 anos em 2014 – se apropria do dramalhão escrito por Pimenta para apresentar um espetáculo tragicômico, unindo histórias de família, ironia, palhaços bufões e música.

O lado dramático da coisa é assim: Nely e Alberto se amam, mas vivem em mundos opostos. Um é rico, o outro é pobre. No final das contas, por causa da distância entre os dois e também pela ganância dos vilões da história, quase todo mundo morre no decorrer do enredo. Mas é no céu o local onde o amor sempre fala mais alto. É no céu que Nely e Alberto se reencontram e onde dois corações se unem.

Bonito e triste. Coisas de Antenor Pimenta e sua memória fértil na criação de peças para entreter um público que prestigiava o circo também pelas gargalhadas, mas muito também pelas lágrimas, algo hoje parecido com as novelas na televisão: o público ri e chora, torcendo pelos personagens.

O Circo Teatro Sem Lona suavizou o melodrama, carregou na vestimenta, no tom de voz e nas músicas tocadas e cantadas pelos clowns e pretende arrancar da plateia gargalhadas com “O Drama de Nely e Alberto”, recheado, sim, de mortes e mais mortes – do jeito que gostava Pimenta – mas tudo com muita ironia e inteligência.

É o que almeja Ochôa e toda sua trupe, que está há quase dois anos trabalhando na pesquisa e na dramaturgia do novo espetáculo. Os ensaios começaram em agosto do ano passado, confirma o diretor da peça. Mas nestes primeiros dias de 2014, a ralação com os ensaios tem sido maior. Ele calcula estarem ensaiando pelo menos dez horas por dia nesta semana de estreia.

Ochôa diz que a proposta com o novo espetáculo é levar à plateia algo menos naturalista que as peças apresentadas antigamente nos circos e fazer uma leitura mais expressionista. Uma conexão entre o universo clown do Circo Teatro Sem Lona com o circo-teatro – enfraquecido na década de 1980, sendo apenas algo trabalhado por companhias de teatro e não por circos itinerantes, que hoje preferem os leões, o Globo da Morte e os imbatíveis palhaços, mágicos e malabaristas.

“Ver a morte de uma maneira irônica, com os exageros de palhaços bufônicos, talvez faça a gente rir um pouco mais da vida. Os dramas – principalmente os dramas familiares – não precisam ser tão dramalhões assim. É o que queremos levar no espetáculo: uma história cheia de mortes, mas mortes sendo mostradas por palhaços que cantam e que são engraçados”, diz o autor e diretor.

Aniceto Matti
Para a criação, estreia e turnê do espetáculo “O Drama de Nely e Alberto”, o Circo Teatro Sem Lona conta com o recurso de R$ 50 mil conquistado no edital de 2012 do Prêmio Aniceto Matti, na categoria Artes Cênicas. O espetáculo, adaptado e dirigido por Pedro Ochôa, tem no elenco Mateus Moscheta, Ester Bello, Andressa Costa Curta, Bruna Carvalho, Flavio Cardoso e o próprio Ochôa. A cenografia e Figurinos são de Nágela Souza. A produção é de Rafael Ochôa.

Além da estreia de amanhã no Teatro de Oficina da UEM, “O Drama de Nely e Alberto” segue em temporada no Teatro Barracão (de 25 a 29 de janeiro, às 21h) e no Teatro Reviver (de 30 de janeiro a 2 de fevereiro, também às 21h), sempre com entrada franca. A classificação é de 14 anos.

PALCO
O DRAMA DE NELY E ALBERTO
Circo Teatro Sem Lona
Quando: hoje
Onde: Oficina de Teatro (UEM)
Horário: 21h
Entrada franca
Em cartaz no Teatro Barracão (25 a 29 de janeiro) e no
Teatro Reviver (30/01 a 02/02)

*Reportagem publicada quinta-feira (23) no Caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Não vá embora

Por Wilame Prado

Pai, entre em nossa casa. Deixe esta malinha aí de lado e fique à vontade. Não trouxe shorts? Eu pego uma bermuda minha para você vestir. Sente-se aqui no sofá. Mas, por favor, não repare a bagunça.

Hoje quero te contar sobre as coisas que temos vivido. É uma correria grande, mas feita com muita vontade e carinho. Finalmente nos mudados para o nosso apartamento. Corremos todos os dias, mas com energia, por saber que estamos correndo ao encontro da nossa felicidade. Estamos cansados, mas contentes. A maciez da nossa cama é como um gole de água no deserto. Não tenho tido, ultimamente, energia nem mesmo para sonhar. Minhas noites de sono são utilizadas exclusivamente para descansar.

Aí então acordo, pai, e fico algum tempo olhando ao meu redor. Fico com vontade de agradecer por tudo, por todos, fico feliz por ser teu filho, por ser irmão da minha irmã, por ser filho da minha mãe, por ser marido da minha mulher e por ser amigo dos meus amigos. Vivo momentos de deslumbres, mas que duram pouco. Há sempre alguma coisa para resolver, para ser feita. Dedico poucos, mas preciosos, minutos para pensar em tanta gente que já me ajudou, que passaram em minha vida e que deixaram marcas positivas no meu viver. Penso muito em você, pai.

E lamento o fato de, aliando fobia social com a falta de tempo, não ter visto e nem sequer falado ultimamente com as pessoas que eu amo. Vivo momentos em que a praticidade deve predominar. A máquina não pode parar. Só que as engrenagens precisam de manutenção. O ser humano precisa dos outros, precisa amar e viver momentos felizes compartilhados. Vivemos um tanto isolados, só que a ilha, agora, mudou de endereço.

Sei que essa fase vai passar e que teremos calmaria. Mas há que se ter cuidado, pai. As ondas do mar podem esticar demasiadamente uma reta que liga dois pontos. O senhor sabe bem disso. E preferiu se isolar. É um milagre, na verdade, o senhor estar hoje aqui do meu lado, sentado neste sofá, conhecendo minha casa nova e se divertindo com a minha falta de jeito, com a minha ânsia de querer contar tanta coisa de uma vez só. Logo eu, que nem sou muito de falar. Só pode ser um milagre.

Fique tranquilo, não vá embora tão já. Eu pego um par de chinelos para o senhor se sentir mais confortavelmente bem, assim como fazia quando eu era pequeno e você chegava cansado do trabalho. Não tenha medo. Não contarei para ninguém que o senhor me visitou, mas, por favor, não vá embora novamente. Sei que as suas despedidas costumam ser para sempre, para a eternidade. Não vá embora, eu te imploro: aprendi a cozinhar, gosta de strogonoff? Tome um banho, as toalhas são novas e macias, descanse na minha cama, se precisar usar o computador, a internet já foi instalada. Pagamos um absurdo, mas olha quantos canais nessa televisão, vários em HD. Não vá embora, fique mais, podemos fazer um churrasquinho na área social do prédio amanhã quando eu voltar do trabalho, compro carne de primeira e cerveja gelada. Na mesa de sinuca, a gente duela mesmo sabendo que, mais uma vez, não terá coragem de vencer o próprio filho e fará corpo mole com o taco na mão. Podemos fazer várias coisas ainda, pai. Não vá embora. Não vá embora.

*Crônica publicada nesta terça-feira (21) na Coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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No quintal de Madinho – Parte 2

Por Wilame Prado

Na partida daquele domingo, sobrinho, enteado e filho faziam companhia para Madinho, apoiados no muro baixo e dividindo as atenções entre a rodada do Brasileirão que passava na televisão e o jogo local. Além deles, cerca de 700 torcedores do Colorado Atlético Clube (CAC) e pouco mais de 50 torcedores da Fúria Alvinegra (torcida organizada do time maringaense) viram Cristiano, camisa 9 do Metropolitano (hoje, Maringá Futebol Clube), marcar de cabeça o gol solitário da partida, aos quarenta minutos do primeiro tempo. A vitória garantiu por antecipação, após cinco anos de ostracismo, um time de Maringá na primeira divisão do campeonato paranaense de 2014. Ao final do torneio, três semanas depois da partida realizada no “quintal de Madinho”, o time maringaense viria a ser campeão da Divisão de Acesso. O time de Colorado ficou a um ponto do segundo colocado do torneio e por pouco também não subiu.

Decepções no campo, nem tanto na manutenção da casa. Em quase três décadas de habitação dentro do estádio municipal, Madinho garante: jamais teve uma janela ou telha quebradas com casuais boladas de jogadores com supostas pernas tortas. Pelo menos na partida daquele domingo, realmente a bola não invadiu em uma oportunidade sequer o lar do zelador aposentado. Sorte do papagaio na gaiola e das flores de Dona Alzira Gonçalves da Rocha, mulher dele.

Nem mesmo os gandulas, em partida decisiva da divisão de acesso, tiveram trabalho para buscar eventuais bolas chutadas para fora do estádio e que possivelmente desceriam ladeira abaixo pelas ruas do bairro Vale do Sol. Árvores grandiosas de sibipiruna que cercam parte do estádio fazem o papel de amortecedoras dos chamados “balões” mais comumente executados nas partidas por zagueiros de habilidade suspeita.

Com poucas chances de gol presenciadas, a torcida do CAC não perdia a chance de festejar em aprazível tarde de sol. Se não era vibrando com o time da casa em campo, a zorra se armava todas as vezes em que a bola do jogo se enroscava por breves segundos nos galhos das árvores do estádio com ares bucólicos. E ao contrário do que acontece em jogos do Brasileirão – em que a venda e o consumo de bebida alcoólica dentro dos estádios são proibidos –, a festa da torcida colorada contava ainda com a ajuda das latinhas de cerveja oferecidas a R$ 3,50 em uma lanchonete improvisada estrategicamente entre uma sibipiruna e outra.

Na frente de casa, olhando para o campo e contando um pouco da sua história, Madinho não estava bebendo, mas, a princípio, quem o avistasse naquela tarde vestindo a camisa do Junior Team (equipe da cidade de Londrina que também brigava por uma das vagas à primeira divisão do campeonato paranaense de futebol) certamente pensaria que a lenda viva do CAC estivesse bêbado, ou então maluco. Que nada: segundo Felipe Rocha, seu enteado, ele usa aquela camisa é para “fazer moral com os parentes”. “O dono do Junior Team é meu sobrinho, por isso, às vezes, uso a camisa do time dele”, confessa Madinho, que, talvez já prevendo a amargurada espera por mais um ano sem ver o time do Colorado Atlético Clube na primeira divisão, não titubeia em revelar qual é o seu verdadeiro clube de coração. “Portuguesa de Desportos! Tenho duas camisas da Portuguesa. Quer ver?”

*Texto publicado nesta terça-feira (14) na coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Silencioso Pereira

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Por Wilame Prado

Como em suas crônicas que eram publicadas semanalmente no site Vida Breve, o silêncio predomina “na escuridão, amanhã” (Editora Cosac Naify, 128 páginas, R$ 32), livro de estreia de Rogério Pereira, 41 anos, catarinense radicado em Curitiba conhecido principalmente por seu trabalho como idealizador e editor do jornal literário Rascunho. Atualmente, Pereira também é diretor da Biblioteca Pública do Paraná.

Com inspirações autobiográficas, Pereira precisou de dez anos para compor seu primeiro livro. Ele se inspira na saga silenciosa e lastimável da família que, quando ele ainda era pequeno, se mudou da zona rural de uma pequena cidade em Santa Catarina para Curitiba, nos anos 1970. Lastimável pelo menos aos olhos do menino que demoniza o pai e suas atitudes autoritárias e deploráveis – chegando ao fato de abusar sexualmente da filha – e, sem antagonismos, não santificar a mãe, culpando-a também pela complacência, idiotice e catolicismo exacerbado.

Os personagens de Pereira não falam. Parecem apenas sussurrar em eternas lamentações em um cotidiano sufocante, cujos laços de família em nada ajudam na convivência humana, pelo contrário, prejudicam a vida do casal, da filha menina e dos dois filhos moleques, que, pelo menos, conseguem se distrair vez ou outra jogando futebol ou paquerando em festinhas de aniversário e após as aulas de catequese. O sofrimento de cada membro daquela família mata-os sem alarde, apenas mata-os. Deus não tem piedade alguma em “na escuridão, amanhã”. Pereira, a todo momento, mostra-se um sujeito ressentido, amargurado e que encontra na literatura uma alternativa para não definhar tão rapidamente tal qual os personagens inspirados na vida real.

O livro, ainda que curtíssimo – 128 páginas, em formato que se parece um pocket e com as propostas gráficas caprichadas da Cosac Naify que deixam grandes espaços em branco nas páginas do livro – estende-se numa leitura aflita, sufocante e perturbadora. Mas quem acompanhou principalmente a saga literária de Pereira, com suas crônicas moribundas que revelaram a cruz de uma mãe acometida por um câncer em seus últimos anos de vida, sabe e está até acostumado: literatura, para ele, é sofrimento puro. Dá-se a impressão que, para o autor, é escrever tudo aquilo sobre os dramas de sua família ou morrer. Para o leitor, há duas escolhas: repúdio ou fazer associações que remetem a dramas também próximos vividos no seio familiar. Todas famílias são cercadas por histórias tristes e dramáticas, afinal.

O autor surpreende pela maturidade com o livro de estreia. Em tempos de jovens apressados para publicar seus livros, os muitos anos acompanhando o andar dos lançamentos literários no País em razão dos trabalhos com o jornal Rascunho fizeram bem para Pereira e para seu texto de ficção, há tanto postergado sob forma de livro.

Não há objetividade tampouco estilo rebuscado no texto dele. Mas, intimista, Pereira conseguiu apresentar, logo no primeiro livro, seriedade e dotes existencialistas que fazem do livro de estreia um retrato cru de uma geração – essa que participou do chamado êxodo rural – que sofreu com a ausência de valores éticos, educacionais, culturais e – ainda que com os costumes católicos – o abandono de Deus. O destino daquela família, amanhã, é a escuridão, a morte.

Não é simples acordo de cavaleiros aquilo que escreveu Luiz Ruffatto na orelha de “na escuridão, amanhã”: a escrita de Pereira se aproxima da poesia, emula os arroubos dostoievskianos e faz lembrar da pequena obra deixada, até então, por Raduan Nassar. Vale a pena acompanhar, daqui para frente, o que escreverá o silencioso Rogério Pereira.

ISTO É ROGÉRIO PEREIRA

Nascemos amaldiçoados. Uma maldição caseira. A tapera de fendas obscenas insinuava que ali a felicidade demoraria a chegar. Ou nunca ousaria ultrapassar os limites dos pés de milho, mandioca e feijão. A velha não nos olhava, preferia os porcos que engordavam com dificuldade soltos no terreiro. A cada parto, nas ranhuras da terra esquecida, ouvia-se a maldição: “Nasceu mais um diabinho”. Fomos três pequenos demônios a rasgar a carne tenra, saudável e sagrada da mãe.

Quando o pai disse que a avó viria passar uns dias em C., senti medo e raiva. Após a chegada, sentiria também pena e desejo de vingança. Até o dia em que ela seria depositada no caixão e lançada à terra para sempre. Tínhamos a companhia de samambaias e azaleias. Estropiávamos os dedos chutando a bola de plástico no terreiro. Não éramos vermelhos, não tínhamos rabo, tampouco chifres. A maldição parecia ter falhado. No fim, acredito, ainda tentará nos alcançar. Eu nunca quis encará-la. Durante três dias, revirei-me na escuridão. Lá fora, uma tempestade. Minha queria dar-me à luz. Cheguei em meio a trovões, relâmpagos e um maldizer. Da parteira, não sei o nome. Não havia energia elétrica, a água vinha da serra ou do açude. Espíritos nos rondavam. Quando, enfim, abandonei o corpo lasso da mãe, a voz estridente da avó paterna me amaldiçoava. Às vezes, ainda rezo antes de dormir. ///Trecho do livro “na escuridão, amanhã”, de Rogério Pereira

PARA LER
NA ESCURIDÃO, AMANHÃ
Autor: Rogério Pereira
Editora: Cosac Naify
Gênero: ficção brasileira
Número de páginas: 128
Preço: R$ 32

*Comentário publicado domingo (12) no Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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No quintal de Madinho – Parte I

Por Wilame Prado

Em uma tarde ensolarada de um domingo de agosto, Amadori Higino da Costa, 84 anos, conhecido por todos como Madinho, assistia, acomodado e encostado no muro de sua casa, a vitória que daria matematicamente o acesso à primeira divisão do Campeonato Paranaense de Futebol para o Metropolitano Maringá (que teve o nome mudado para Maringá Futebol Clube). Zelador aposentado, por 28 anos ele cortou grama e passou a cal no campo do Estádio Municipal Dr. Francisco Borges de Campos, local onde teve sua moradia popular construída pela prefeitura de Colorado-PR (a 88 quilômetros de Maringá) na década de 1980.

No intervalo do primeiro tempo da partida entre Colorado Atlético Clube (CAC) e Metropolitano, ele estava preocupado com a derrota parcial do time de sua cidade, que ainda tinha chances de subir para a elite do futebol paranaense pela primeira vez. “O Colorado quase subiu uma vez, há muitos anos. Ficou em quarto e só não conseguiu a vaga porque empatou no último jogo com o Jandaia”, lamenta. Nascido em Irapuã (SP), Madinho chegou em 1957 para trabalhar com lavoura em Colorado – terra da cana-de-açúcar e da tradicional Festa do Peão de Boiadeiro – e fez do futebol sua paixão e meio de trabalho; ele prefere falar de bola na rede a comentar qualquer coisa sobre o famoso rodeio que acontece anualmente na cidade, oportunidade em que, para angariar beijos e outros possíveis contatos físicos, jovens apreciadores do chamado sertanejo universitário costumam, no meio da rua, laçar mulheres como se elas fossem vacas no meio do pasto.

Antes de se aposentar, Madinho era daqueles que não escolhiam função para ajudar à equipe de futebol da cidade. Após ser campeão com o time juvenil e de chegar à semifinal com o time profissional atuando como técnico, em 1985 o então prefeito de Colorado, Olívio Dias, chegou a nomeá-lo presidente do CAC. Mas ele, que treinou praticamente todos os times formados nos sítios e chácaras do município desde a década de 1960, preferia mesmo é o contato mais próximo com o gramado.

“O pai já foi de tudo aqui no Colorado, jogou muita bola no time. O pessoal na cidade fala que ele entende tanto de futebol porque começou a jogar desde os tempos em que a bola era quadrada (risos)”, conta Valentim Higino, um dos seis filhos de Madinho, que fazia uma visita dominical à casa do pai no mesmo dia em que dois times da segunda divisão do campeonato estadual duelavam por uma vaga de acesso à elite do futebol paranaense no gramado verde ao lado da casa. “Fui ponteiro esquerdo”, revela o ex-jogador, sem esconder um leve sorriso nostálgico no rosto, enquanto aguardava o segundo tempo da partida começar.

De vez em quando, Madinho não resiste e pega um banquinho para assistir ao jogo do lado de fora da casa. Na maioria das vezes, no entanto, em seus não mais que 1,60m de altura, apoia os braços em cima do muro e observa as partidas de futebol de pé mesmo, de dentro do território onde pode dizer tranquilamente que é seu lar. De “camarote”, garante ter jogo para ver ao vivo e presencialmente quase todas as quartas e domingos, mas prefere não abusar da boa vontade dos dirigentes do time, ainda mais quando tem parente em casa. “Aqui não pode vir muito parente não, vai que o presidente acha ruim? E se vem muita gente em casa e quer ver jogo, o certo é ir na arquibancada e pagar ingresso, oras.” Confira a parte final do texto na semana que vem.

*Texto publicado nesta terça-feira (7) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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