Não vá embora

Por Wilame Prado

Pai, entre em nossa casa. Deixe esta malinha aí de lado e fique à vontade. Não trouxe shorts? Eu pego uma bermuda minha para você vestir. Sente-se aqui no sofá. Mas, por favor, não repare a bagunça.

Hoje quero te contar sobre as coisas que temos vivido. É uma correria grande, mas feita com muita vontade e carinho. Finalmente nos mudados para o nosso apartamento. Corremos todos os dias, mas com energia, por saber que estamos correndo ao encontro da nossa felicidade. Estamos cansados, mas contentes. A maciez da nossa cama é como um gole de água no deserto. Não tenho tido, ultimamente, energia nem mesmo para sonhar. Minhas noites de sono são utilizadas exclusivamente para descansar.

Aí então acordo, pai, e fico algum tempo olhando ao meu redor. Fico com vontade de agradecer por tudo, por todos, fico feliz por ser teu filho, por ser irmão da minha irmã, por ser filho da minha mãe, por ser marido da minha mulher e por ser amigo dos meus amigos. Vivo momentos de deslumbres, mas que duram pouco. Há sempre alguma coisa para resolver, para ser feita. Dedico poucos, mas preciosos, minutos para pensar em tanta gente que já me ajudou, que passaram em minha vida e que deixaram marcas positivas no meu viver. Penso muito em você, pai.

E lamento o fato de, aliando fobia social com a falta de tempo, não ter visto e nem sequer falado ultimamente com as pessoas que eu amo. Vivo momentos em que a praticidade deve predominar. A máquina não pode parar. Só que as engrenagens precisam de manutenção. O ser humano precisa dos outros, precisa amar e viver momentos felizes compartilhados. Vivemos um tanto isolados, só que a ilha, agora, mudou de endereço.

Sei que essa fase vai passar e que teremos calmaria. Mas há que se ter cuidado, pai. As ondas do mar podem esticar demasiadamente uma reta que liga dois pontos. O senhor sabe bem disso. E preferiu se isolar. É um milagre, na verdade, o senhor estar hoje aqui do meu lado, sentado neste sofá, conhecendo minha casa nova e se divertindo com a minha falta de jeito, com a minha ânsia de querer contar tanta coisa de uma vez só. Logo eu, que nem sou muito de falar. Só pode ser um milagre.

Fique tranquilo, não vá embora tão já. Eu pego um par de chinelos para o senhor se sentir mais confortavelmente bem, assim como fazia quando eu era pequeno e você chegava cansado do trabalho. Não tenha medo. Não contarei para ninguém que o senhor me visitou, mas, por favor, não vá embora novamente. Sei que as suas despedidas costumam ser para sempre, para a eternidade. Não vá embora, eu te imploro: aprendi a cozinhar, gosta de strogonoff? Tome um banho, as toalhas são novas e macias, descanse na minha cama, se precisar usar o computador, a internet já foi instalada. Pagamos um absurdo, mas olha quantos canais nessa televisão, vários em HD. Não vá embora, fique mais, podemos fazer um churrasquinho na área social do prédio amanhã quando eu voltar do trabalho, compro carne de primeira e cerveja gelada. Na mesa de sinuca, a gente duela mesmo sabendo que, mais uma vez, não terá coragem de vencer o próprio filho e fará corpo mole com o taco na mão. Podemos fazer várias coisas ainda, pai. Não vá embora. Não vá embora.

*Crônica publicada nesta terça-feira (21) na Coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

9 comentários sobre “Não vá embora

  1. JÚLIA 21 de janeiro de 2014 08:31

    QUE SAUDADE DO MEU PAI QUE SE FOI A 20 ANOS!
    QUEM AINDA TEM, APROVEITE O TEMPO COM ELE, POIS PASSA RÁPIDO DEMAIS.

  2. Gabriel 21 de janeiro de 2014 17:06

    Me emocionei.
    Parabéns pelo texto

  3. Wilame Prado 21 de janeiro de 2014 17:35

    Obrigado, Gabriel, pela leitura.
    Volte sempre!
    Abraço.

  4. Wilame Prado 21 de janeiro de 2014 17:36

    Tem toda razão Júlia. O tempo passa rápido demais.
    Fico feliz com sua leitura e comentário aqui no blog.
    Abraço.

  5. Leo 24 de janeiro de 2014 07:45

    O duro que muitas vezes não falamos o que sentimos para nossos Pais, quando paramos para pensar me falar é tarde demais.

  6. Marília 29 de janeiro de 2014 11:54

    Nossa Wilame me emocionei muito!!
    Que lindo!
    Pode ter certeza que ele sabe de tudo isso que escreveu para nós leitores!
    Ele está muito orgulhoso pela conquista de vocês!

  7. Wilame Prado 29 de janeiro de 2014 13:20

    Olá Marília. Que bom ler seu comentário, fico feliz! Obrigado pela leitura!
    E a nossa casa estará sempre aberta para visita de vocês, amigos queridos!
    Abração!

  8. JOÃO pereira 8 de agosto de 2014 20:55

    Ola. Me lembro de você qdo.criança. frequentava sua casa, eu e seu pai eramos primos.
    Parabéns pelo texto toca profundamente as pessoas, principalmente quem eh pai, e assim como Vc, o meu TB.não esta mais entre nos.
    Abracos

  9. Rosania Marques 8 de agosto de 2014 21:21

    Parabéns pelo texto… Sou Rosania prima de Gardenia Leite, e sobrinha da Tia Geralda.Conheci seu pai, meu primo e fui visitá-lo uma vez no Banco Itaú, em Sao Paulo, quando vocês moravam numa Rua perto da Av.Brigadeiro Luiz Antonio.
    Felcidades e parabéns pela mensagem. escreve muitíssimo bem.
    Rosania

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