Mês: fevereiro 2014



Sollado maringaense Groove

Por Wilame Prado

O MaracaTrutas – banda que garantiu alguns anos de contentamento sonoro principalmente para o público universitário em Maringá – voltou reformulado e bem mais maduro. Agora sob a alcunha de Sollado Brazilian Groove, o sexteto liderado por Valter Rosini (vocal e efeitos) vive a expectativa do lançamento do primeiro disco, “Para Todos os Efeitos”, previsto para esta semana em produção independente.

Para a reportagem, Rosini liberou três faixas: “Vai Chover”, “Real Estrado” e “Fio da Navalha”. Talvez o vocalista de 30 anos formado na UEM em Engenharia Agronômica tenha escolhido a dedo as três canções. Talvez. De todo modo, o que se pode dizer é que esse 1/3 do disco com dez faixas que está prestes a sair demonstra uma banda que sabe exatamente o que quer dizer e tocar, apostando em misturas que deram certo.

Frases que fazem o ouvinte parar para pensar em algumas coisas da vida na voz com sotaque nordestino carregado de Rosini – um apucaranense radicado em Mandaguari – estão contidas nas músicas do Sollado Brazilian Groove, bem como uma bateria marcante de Leandro Benavide e uma competente percussão de Caio Emílio; o som da batida é sempre predominante nas canções, o que parece mesmo ser a personalidade da banda, ou pelo menos desse disco de estreia.

Em “Fio da Navalha”, faz-se notar o violonista Fernando Morete, em interessante introdução tocada por ele, que também assume voz e scaleta em cima do palco. Na mesma canção e em “Vai Chover”, fica realçada a atmosfera pretendida pelo grupo maringaense principalmente com alguns solos do baixo de Lucas Trabuco e os riffs da guitarra de Pipo Cisneros, que, particularmente em “Real Estrado”, acompanha interessantemente a marcha acelerada da bateria e percussão.

Em entrevista concedida ao Diário, Rosini preferiu não falar em referências musicais. “Influências temos de A-Z, mas, na hora de compor, às vezes nem sabemos de onde vêm. Acreditamos que existem apenas dois tipos de som: o bom e o ruim, e tentamos sempre o primeiro”, diz . Ainda assim, fica difícil desvencilhar Sollado Brazilian Groove de Chico Science e Nação Zumbi, O Rappa, Otto e até Los Hermanos em (bom) começo de carreira com o disco homônimo.

Nas canções liberadas de “Para Todos os Efeitos” para a audição, ouve-se maracatu, forró, ska e até o brega. Mais que isso, percebe-se uma intensidade, energia e pulsação de uma banda que parece ter surgido para ficar. Algo parecido com que os rapazes cantaram em uma das canções: “Atiça o fio da navalha”.

Psicodália
Será em Santa Catarina, mais precisamente em Rio Negrinho, onde o Sollado Brazilian Groove fará o seu primeiro show ede lançamento do CD.. Por lá, a banda maringaense é uma das atrações confirmadas no Psicodália, festival de música independente, voltado principalmente para o rock e suas vertentes, que, desde 2004, tem servido de opção cultural para quem não curte pular Carnaval, mas quer se divertir.

Com atrações de peso confirmadas como Tom Zé, Moraes Moreira, Almir Sater e Yamandu Costa, o Psicodália deste ano começa na próxima sexta-feira e se estende até a quinta-feira da semana que vem.

“Psicodália parece ser uma parada meio surreal, é outro mundo literalmente, som, liberdade, natureza, boas energias, pessoas que querem interagir”, diz Rosini, lembrando também que a Sollado vem de outros festivais, como o Chácara Chackra, Maringá Rock, Grito Rock, além das tradicionais calouradas da UEM.

Se conseguirem “voltar do Psicodália”, Rosini prevê a estreia do disco “Para Todos os Efeitos” em abril, no Tribo´s Bar e planeja turnê por Londrina, Presidente Prudente, Umuarama, Jandaia do Sul, Apucarana e Mandaguari. Mesmo traçando alguns planos, o músico deixa claro: “Não temos muitas ambições. Tentamos fazer nosso som com amor para que, em primeiro lugar, seja satisfatório a nós. Se isso atingir da mesma forma o público, ótimo.”

DISCO
PARA TODOS OS EFEITOS
Sollado Brazilian Groove
Lançamento: hoje
Preço: R$ 10
Compre na Hurricane Skates

*Reportagem publicada quarta-feira (26) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Noite do casal

Por Wilame Prado

Prédio um tanto antigo, daqueles de cômodos maiores, zona 3 de Maringá, Rua Neo Alves Martins, lua cheia, leve chuva fina. O casal é casal pelo que se pode ver na visão dos dois na janela do alto do quarto andar. Faz alguns minutos, parecem preparar algo na cozinha. Um risoto suculento? Um rápido strogonoff? Alguma massa saborosa, quem sabe acompanhada de um bom tinto?

O casal se faz casal. Os dois se beijam, ficam abraçados, se mexem, se tocam, se dispõem ao contato físico e amoroso. Já passa das onze da noite e apostam na gastronomia, em plena segunda-feira. Mas é que é tão bela a lua cheia! Mesmo em fevereiro, o calor deu trégua, pelo menos à noite, e uns ventos batem obrigando-os a recorrer a um lençol fino, no sofá, após o vinho e a comida, juntinhos, assistindo a mais uma tola tela que se diz quente, não importa o filme, o importante é a companhia.

Recém-casados? Ou uma recém-formada em Farmácia – que ainda conta com mesada dos pais – recebendo a visita do namorado em plena segunda-feira simplesmente pelo fato de terem quase morrido de saudades após menos de 24 horas longe um do outro?

Tinham passado o domingo inteiro juntos, shopping, cinema, sorvete, champanhe e motel. Mas nada disso importa mais. O importante é que ela finalmente conseguiu o ponto certo do macarrão – al dente – e ele trouxe aquele vinho maravilhoso.

E ela pensa: deixe as 7h15 só para a manhã de amanhã, para depois o retrabalho levado para casa, para outra segunda a faxina do apê e para outra noite aquela boa pesquisa na internet em busca de uma pós-graduação decente.

E ele reflete: nesta noite, nada de academia, treino de Muay thai, programas na TV de discussões tolas sobre a última rodada do campeonato, futebol society com a turma de colegas do tio, pôquer com os amigos, Pro Evolution Soccer no videogame dos primos, cachorro-quente prensado na Colombo, conversa com pais e avós todos sentados em cadeiras de área ou, não menos importante, aulas chatas de Cálculo II na universidade.

O clima está gostoso, a lua está no céu e, ainda que recatada, ela até que gosta de se ver assediada por ele, que nem quer esperar o jantar para levantar a blusinha dela, na janela da cozinha mesmo, do alto do quarto andar, enquanto gente na sacada dos prédios ao redor vê tudo isso. E de tudo isso, nada importa. Afinal, acho que eles se amam.

Naquela noite choveu uma leve chuva fina em Maringá. E o casal de namorados nem imaginava, mas, por entre o fino lençol, no sofá da sala, sem nem perceber que o filme já tinha acabado, estavam os dois gerando aquele que seria o primeiro filho de uma linda família.

*Conto publicado nesta terça-feira (25) na coluna Crônico, do caderno Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Felizes e bonitos

NA CIDADE. A Banda Mais Bonita da Cidade: lançamento em Maringá do elogiado “O Mais Feliz da Vida”, segundo disco do grupo. —FOTO: BETO BOLLIGER

NA CIDADE. A Banda Mais Bonita da Cidade: lançamento em Maringá do elogiado “O Mais Feliz da Vida”, segundo disco do grupo. —FOTO: BETO BOLLIGER

Por Wilame Prado

A perceptível evolução d´A Banda Mais Bonita da Cidade com o segundo álbum “O Mais Feliz da Vida”, lançado ano passado, poderá ser conferida ao vivo amanhã em Maringá. A banda curitibana liderada pela cantora paranavaiense Uyara Torrente volta à cidade com o show marcado para as 21h de sábado no Teatro Calil Haddad.

Os quase cinco anos de estrada e a rápida conquista de público após o fenômeno viral da música “Oração” – com suas mais de 13 milhões de visualizações do clipe no Youtube – fizeram bem para Uyara (voz), Vinícius Nisi (teclados), Diego Plaça (baixo), Rodrigo Lemos (guitarras) e Luís Bourscheidt (bateria).

“O Mais Feliz da Vida”, ousado porque se propõe conceitual – a perenidade da vida é posta em prova no movimento das faixas do CD, conceito que tem início na faixa 1, homônima, e término na faixa 11, “Reza Para Um Querubim” – traduz o crescimento musical dos integrantes d´A Banda Mais Bonita da Cidade, grupo cada vez menos “só” um intérprete de bons compositores curitibanos e cada vez mais voz ativa da cena contemporânea da música independente brasileira.

O segundo álbum cheio dos paranaenses – o primeiro, “A Banda Mais Bonita da Cidade” é de 2011; em 2012 lançaram o vinil compacto “Canções que Vão Morrer No Ar” com cinco faixas – está recheado de novidades e características elogiáveis, assim como a curiosa proposta gráfica com a foto da Dona Júlia na capa – uma senhorinha moradora de um asilo em Curitiba – e toda a preocupação sonora na produção assinada pelo tecladista Vinicius Nisi.

O disco continua contendo músicas “fofas”, como “Nunca” e “Canção Para Não Voltar” do primeiro CD, as quais o público cativo da banda gosta e está acostumado, mas tem também introspecção, mais espaço para o instrumental nas faixas e uma acertada escolha de regravações, a exemplo de “Que Isso Fique Entre Nós”, do músico paulistano Pélico, e “Olhos da Cara”, bela canção de Nuno Ramos que ficou marcada pela inenarrável versão de Dona Inah na abertura do álbum “Um Labirinto Em Cada Pé”, de Romulo Fróes.

Comentando sobre a volta a Maringá, sobre o disco novo, Uyara, em entrevista por telefone ao O Diário, demonstrou não ter perdido ainda aquele deslumbramento meio inocente, delicado, pela arte, pela música e, claro, pelo cênico – no palco, e também nas interpretações musicais, percebe-se que ela veio do teatro. Os fãs adoram.

Uyara e toda a turma d´A Banda Mais Bonita da Cidade são inteligentes, talentosos, bonitos e felizes. Já conversavam com um monte de gente interessante do meio artístico na capital paranaense. Agora conversam com gente do País inteiro, principalmente de São Paulo. E vão absorvendo toda esta boa experiência e levando para a música. Acostumados com os elogios daqueles que adoram escutar as músicas da banda, desde o ano passado os músicos começam a se acostumar também com o elogio da crítica especializada por causa de “O Mais Feliz da Vida”.

E sobre tudo isso, Uyara, sempre com aquele jeitinho meigo de ser, apenas dá risada e diz: “a repercussão tem sido muito bonita.”

Ela, que se emocionou bastante no show do ano passado na cidade, no Teatro Barracão, porque os pais estavam em meio à pequena plateia do teatro, diz que será um prazer voltar, agora, ao palco do Calil. “Eu me apresentei por duas vezes no Calil, participando do Femucic. Meu pai tocou nas primeiras edições do Femucic”, conta.

ENTREVISTA
Como tem recebido a crítica e público de “O Mais Feliz da Vida”?
UYARA TORRENTE –
Tem sido muito positivo, a repercussão está muito bonita, muito mais do que a gente esperava. Mas a gente não pensa na repercussão, a gente quer se divertir, fazer o disco e pronto. O primeiro disco foi muito rápido, e, neste tivemos um tempo maior para fazer, com mais calma. Então é muito bonito ver essa repercussão e acho que tudo tem a ver com a nossa felicidade e diversão em cima dele. O disco saiu em quase todas as listas de discos de destaque independentes em 2013. Para mim, particularmente, foi incrível porque, na verdade, sou atriz, vim das artes cênicas, e quando estouramos precisei bancar como cantora, de estúdio, ao vivo, mas dois anos depois, acho que estou com mais cancha, mais segura.

Um disco mais contemporâneo, talvez nem tão “bonitinho” como “Oração” e as demais do passado. Acha que um outro fã se saiu decepcionado?
Não acho não. Entendo o que quer dizer; “Oração” e outras mais fofinhas estão no primeiro disco, mas também já tínhamos umas mais pesadas, como “Ótima”. Enfim. Acho que as pessoas continuam se identificando e acho que a gente agregou um público maior, um público mais ligado às críticas de música.

Como foi gravar canções de Pélico e “Olhos da Cara”, conhecida de Nuno Ramos em projeto de Romulo Fróes?
Quando ouvi pela primeira vez a música “Olhos da Cara”, no disco do Romulo, na voz da Dona Inah, me faltou ar, achei enorme, me tocou de um jeito enorme e disse para mim: preciso cantar essa música um dia, mas sempre ficava com receio, a gravação da Dona Inah é uma coisa insuperável, mas pensei que não devia pensar que devesse provar nada para ninguém e sim com a minha história, com a minha verdade. O Pélico é um grande amigo e querido, já tinha algumas coisas juntos, vídeos juntos, a paquera tava rolando há um tempo e então finalmente gravamos “Que Isso Fique Entre Nós”.

Nos primeiros trabalhos, sentíamos uma banda legitimamente curitibana, paranaense. Com o segundo álbum, isso não fica tão claro. A proposta é alcançar novos horizontes em todo o Brasil?
Na verdade foi um processo muito natural porque eu queria cantar os cantores curitibanos. Resolvi fazer uma banda para cantar aquelas coisas dos curitibanos. Mas esse processo foi natural, principalmente depois do rolê pelo País, depois de conhecer tanta gente bacana, como o Pélico, como o Tibério Azul (Recife). No disco, a música “Maré Alta” é do Rodrigo Lemos e dele. A gente vai viajando e se encantando com as coisas, mas foi natural, não foi como em um jogo de War, em que precisamos ficar planejando conquistas de territórios.

Explique o projeto gráfico ousado com fotos de pessoas mais velhas.
A gente juntou duas coisas: o rosto muito velho na capa acabou calhando com o conceito, sonoramente falando, que nascesse na primeira música e que no final fosse para morrer e ter redenção. A gente achou que essa capa tinha a ver com esse conceito, com a história contada por um rosto, com as rugas, manchas e marcas. Na capa, a foto é da Dona Júlia, moradora de um asilo em Curitiba onde fomos tocar uma vez. No encarte de dentro, as pessoas das fotos são os nossos pais, em uma espécia de photoshop ao contrário, com um filtro que realça manchas e marcas impossíveis de se ver a olho nu.

Tal qual “Oração”, a canção “O Mais Feliz da Vida” gruda como chiclete. Foi intencional
Cara, nada é intencional. A gente não faz as coisas pensando, isso é coisa para publicitário. Mas se gruda, ótimo, legal.

A mesma pergunta de sempre: como é poder voltar à terrinha, não exatamente em Paranavaí mas bem perto?
A gente sempre gosta muito de voltar a Maringá. E o Paulinho (Schoffen), que sempre dá uma força pra gente, é um batalhador cultural aí. Quando eu era mais nova, com 13 anos, participei do Femucic aí no Calil. A cidade me traz muito isso, a coisa do festival e tal. Meu pai tem um grupo de música que participou do primeiro Femucic, quando ainda era FemuSesc.

Seguem até quando com a turnê?
A gente vai ficar o ano todo e não em turnê e sim em uma espécie de microcirculação. Agora tocamos em Campinas, depois Paranavaí, Maringá, Apucarana e Campo Mourão. Aí voltamos pra Curitiba, e depois fazemos outras microcirculações, e por aí vai. Nesse meio tempo, estamos sempre pensando e separando coisas, ideias, para o terceiro disco. Na verdade, a gente nem separa muito vida e criação artística, as coisas acabam puxando a gente.

SHOW D´A BANDA MAIS BONITA DA CIDADE
Quando: amanhã
Horário: 21h
Onde: Teatro Calil Haddad
Valor: R$ 25 (antecipado)
Pontos de venda:
Genko Mix, no Maringá Park Shopping
Café Literário (UEM)
Badulaque Estúdio Bar

*Reportagem publicada nesta sexta-feira (21) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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O caminhar é mais belo quando de bicicleta

Por Wilame Prado

Um colega pagou R$ 4.999 em uma linda bicicleta e é um dos que ajudaram na estatística surpreendente em prol do ciclismo: houve um aumento de 300% no mercado de bicicletas no País nos últimos cinco anos, segundo a Associação Brasileira da Indústria, Comércio, Importação e Exportação de Bicicletas (Abradibi). E valeu cada centavo, segundo ele e segundo quem viu a bike de perto. Cintilam o preto e o vermelho das cores do quadro. Coroas e catracas brilham e se mostram prontas para aguentar o eterno trocar das marchas, claro, todas coordenadas pelo cérebro pensante de um câmbio Shimano dos mais competentes. As rodas com aro de tamanho 29 polegadas dão imponência à magrela, que de fraquinha não tem nada, principalmente quando se repara nos pneus grossos ostentadores de um meio de transporte bravo, imponente, pronto para os desafios citadinos, off road e até rodoviários.

Quando ele chegou ao trabalho com sua bicicleta nova, foi uma festa. As meninas paravam para olhar o seu pedalar charmoso e os mais chegados cercaram o ciclista e o seu meio de transporte para sabatiná-lo: “quanto pagou?”, “é melhor de pedalar do que a bicicleta antiga?” Há alguns anos, quando ele chegava ao serviço pedalando bicicleta, os olhares eram de desconfiança. Alguns chegaram a dizer que se tratava de fogo de palha, tendo a certeza de que as pedaladas servindo como meio de transporte entre casa e trabalho não perdurariam por mais de uma semana. Que nada: hoje, no marcador de quilometragem instalado na magrela, os números surpreendem. Assim como ele, segundo a Abradibi, 50% daqueles que compram bicicletas as usam como meio de transporte.

Além do que, o jogo se reverteu rapidamente. A bike caiu no gosto de vários funcionários. Poucos, é verdade, se atrevem a ir trabalhar pedalando bicicleta, por uma infinidade de motivos: se sentem incomodados com as roupas, com o suor e muitos precisam do carro para fazer uma rotina agitada cuja chegada ao trabalho é apenas um dos milhares de compromissos profissionais e pessoais diários. Então, para esses muitos, a alternativa é praticar o ciclismo assim que as luzes do escritório finalmente se desligam e se pode então retornar ao lar, reencontrar-se com a magrela esperando na garagem, ao lado do carro, ao lado da moto, estacionados, quietos.

Algo no ar parece estar bem claro: é mais legal falar que comprou uma bike do que anunciar a “conquista” de um carro zero-quilômetro. Os rapazes chegam ao ambiente de trabalho e torcem para que ninguém veja o seu carro zero estacionado na rua. As moças tratam logo de tirar os plásticos dos bancos. O emplacamento do carro novo do patrão é feito no mesmo dia. E, também no primeiro dia, muitos têm apelado para as estradas de terra e a consequente sujeira de lama na lataria para amenizar os possíveis efeitos negativos de algum conhecido ver a tinta impecável, o brilho denunciador de que aquele pagador de impostos é só mais um que se deixou enganar pelas propagandas das concessionárias na TV, no intervalo da novela.

Com a bike é diferente. Mais do que anunciar a compra de uma magrela, todos ficam mesmo felizes sabendo quando a pessoa vira uma adepta das pedaladas, independentemente de marca, modelo, cor. O ato de pedalar é nobre, seja numa Barra Circular, seja numa Aurumania Gold Bike Crystal Edition (R$ 249 mil). Acontece um tipo de celebração quando se diz “estou pedalando”: os que já pedalavam antes passam a minar o iniciante do ciclismo com uma infinidade de informações importantes para que não seja atropelado, não sofra com subidas muito íngremes em determinados trechos da cidade ou então que não sofra com tombos tolos. Ao lado de uma bicicleta, há mais socialização, novos casais se encontram e amizades se fazem.

Destinos mais nobres são alcançados quando se trocam os pedais de acelerar e frear de um carro por um pedal que promove o atrito com a corrente, o estímulo do girar das duas rodas e, consequentemente, o movimento de uma bela bicicleta a trafegar por aí, pelas ruas da cidade. O caminhar é mais belo quando de bicicleta. E que bom seria se houvesse mais ciclovias e políticas que estimulassem o uso das bikes nas cidades. Que bom seria.

*Crônica publicada nesta terça-feira (18) na Coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Uma criança condenada e abandonada

MAU CAMINHO. Atores Felipe Fabri e Thayse Mochi em foto de divulgação do espetáculo “Little People”: abandono e prostituição infantil, temas urgentes e atuais. —FOTO: GIOVANA LAGO

MAU CAMINHO. Atores Felipe Fabri e Thayse Mochi em foto de divulgação do espetáculo “Little People”: abandono e prostituição infantil, temas urgentes e atuais. —FOTO: GIOVANA LAGO

Por Wilame Prado

Uma propriedade malcuidada pode ser invadida por cupins, rachaduras e vazamentos. Triste é quando a propriedade somos nós, assim como em “Essa Propriedade Está Condenada”, peça escrita pelo dramaturgo norte-americano Tennessee Williams (1911-1983) e que inspirou “Little People”, espetáculo da recém-formada companhia maringaense Coletivo de Fingidores que estreia hoje, com entrada franca, no Teatro Barracão, pelo Convite ao Teatro. A direção é de Marcio Alex Pereira.

Em cena, a jovem atriz Thayse Mochi (de “Cidade Menina”) é Willie, garota de 13 anos abandonada pelos pais e que tem como referência de vida as memórias de sua bela irmã Alva, já morta e que se prostituía para sobreviver.

Isso tudo em uma casa de pensão falida, a propriedade literalmente condenada pela prefeitura local após quebra da bolsa de valores em 1929, falência da ferrovia que passava por perto e abandono total dos moradores daquele vilarejo.

Como “herança” da irmã, o corpo da pequena também serve de mercadoria aos homens e tudo isso ela vai contar, descompromissadamente, para o também jovem Tom (Felipe Fabri, da Cia Palco), em uma conversação que traz à tona temas como abandono e prostituição infantil, tão urgentes e atuais, mesmo tendo sido escritos na década de 1970 pelo consagrado dramaturgo norte-americano. Apenas os dois atores contracenando sobre um trilho da ferrovia desabitada e por onde os trens já não passam mais.

Willie, afinal, é a “little people”, a “propriedade condenada” em sua essência, infeliz e ingenuamente, como acontece com crianças que ficam à margem, abandonadas, de banquete, e que Tennessee Williams fazia questão de focar o olhar pretendendo, talvez, criticar a humanidade que, de modo geral, tem suas podridões. Para os integrantes do Coletivo de Fingidores, um tema social que merece sempre ser retratado no teatro, mas com a preocupação de não aplicar julgamentos precipitados nem falsos moralismos.

“Eu acredito na função social da arte. Uma das preocupações do grupo, na concepção da peça, era a de não transformar a performance dos atores em moralismos. Não queremos julgar aquele ou outro tipo de trabalho, como é a prostituição, e sim tentar ver de que forma as pessoas chegam a tal ponto, ver como uma criança chega ao ponto de ser abandonada, de se prostituir”, afirma Pereira, conhecido principalmente por ser um dos organizadores da Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá e que também é ator e professor de teatro na cidade.

Fingidores e estudiosos
O Coletivo de Fingidores é uma espécie de extensão do Teatro & Ponto Produções Artísticas, companhia que responderá judicialmente em futuros editais pelo grupo.

Marcio Alex Pereira revela que a intenção dos atores, produtores e diretores envolvidos no coletivo recém-formado é estudar teatro e, após dedicação na teoria, também aprender muita coisa na prática, montando e apresentando espetáculos.

“Little People” contou com pré-estreia em Campo Mourão no ano passado, na grade de extensão da 3º Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá. Após a estreia de hoje no Teatro Barracão, a ideia é excursionar por cidades da região, como Paranavaí, Londrina e Marialva.

Pereira revela que o projeto envolvendo os estudos da obra de Tennessee Williams está só começando. Finalizando a turnê do espetáculo inspirado no texto curto “Essa Propriedade Está Condenada”, o coletivo – que hoje conta com quase dez pessoas – vai se embrenhar nas obras “Fala Comigo Doce Como a Chuva” e “O Matadouro Municipal”, ambas do mesmo dramaturgo estadunidense.

LITTLE PEOPLE
COLETIVO DE FINGIDORES
Quando: hoje
Horário: 20h30
Onde: Teatro Barracão
Duração: 40 minutos
Classificação: 16 anos
Entrada franca
Texto: Tennessee Williams
Direção: Marcio Alex Pereira
Elenco: Thayse Mochi e Felipe Fabri

*Reportagem publicada nesta sexta-feira (14) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Última viagem

Por Wilame Prado

De que adiantam os sermões? Os aconselhamentos? As propagandas? O respeito com as leis de trânsito? Em muitos casos, de nada adiantam. O asfalto é palco para as mortes, é como marchar em cinzas fúnebres daqueles que morrem diuturnamente, é se aventurar numa metralhadora automobilística, numa roleta russa sobre rodas.

Não bastam as curvas e o perigo da ultrapassagem na faixa contínua. Quando se propõe a ir para guerra, ou seja, conduzir um veículo pelas nossas rodovias federais, estaduais, mortais, corre-se o risco até mesmo de se ter a vida tomada por um “carro perdido”, uma versão da bala perdida substituída por um trambolho de metal, vidro e plástico que pesa toneladas e que pode atingir a sua cara, corajoso motorista das nossas estradas quase sempre esburacadas.

Diante de um volante, antes da partida, a sugestão é válida para os homens de fé e até para os homens de pouca ou nenhuma fé: reze, ore, acenda velas, destrinche terços, faça a oração que o próprio pai nos ensinou, agradeça por tudo e peça para viver mais, ainda que, a partir daquele momento, ligando o carro, ajeitando o retrovisor e engatando a marcha, a sorte estará lançada e a morte pode infelizmente acompanhá-lo naquela que poderá ser a última viagem em terra.

Todas as histórias envolvendo mortes no trânsito respigam no drama. A morte é dramática, eu sei, mas as mortes no asfalto quente ou no asfalto molhado pela chuva sempre são piores. As pessoas que pegam as rodovias para se locomoverem de um ponto a outro quase sempre estavam topando aquele risco em prol de algo melhor: um trabalho a se fazer em outra cidade, um final de semana no resort, o início de umas férias na casa de cunhados que moram próximo ao litoral, uma ida até o país vizinho para as compras ou uma visita pontual ao amigo, ao irmão, ao tio, que, deitado numa cama de hospital, precisa da sua companhia, nem que for por poucos instantes.

Mãe e pai deixam filhos. Ciclista perde a mão, que desaparece em meio à leve correnteza do córrego sujo da cidade grande. Bêbado estraçalha pedreiro e bicicleta e percorre quilômetros com o pobre coitado preso no vidro estourado da frente do carro. Famílias inteiras se vão. Homem que faria aniversário amanhã perde a vida um dia antes após ser mais uma vítima do violento trânsito.

Moça que ia para a lua de mel deixa marido viúvo no primeiro dia de casamento após colisão frontal com um caminhão em ultrapassagem perigosa. Após entregar convite de casamento para amigos que moram em cidade vizinha, homem perde a direção do veículo numa curva e o casal não se salva a tempo de dizer sim no altar.

Isso sem dizer nos sobreviventes, sem uma perna, sem um braço, sequelado, que têm pesadelos todos os dias com lembranças terríveis do barulho da batida, da dor, do susto, da luz forte na cara, do conhecido morto no banco ao lado.

Quem aí está pronto para a guerra? Quem se sujeita a talvez fazer a última viagem? O sangue vermelho que escorre no asfalto cinza será rapidamente lavado. Os destroços automotores serão recolhidos. Corpos passam pelo Instituto Médico-Legal antes do enterro para as últimas lágrimas de parentes e amigos. Mas a guerra continuará: os carros estarão cada vez mais potentes, as propagandas de cerveja cada vez mais atraentes e mais frágeis serão as nossas vidas.

*Crônica publicada nesta terça-feira (11) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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