Mês: março 2014



Para Belchior voltar

SUMIU. Belchior em foto antiga: cantor/compositor não se apresenta há anos. —FOTO: CLÉO VELLEDA/FOLHAPRESS

SUMIU. Belchior em foto antiga: cantor/compositor não se apresenta há anos. —FOTO: CLÉO VELLEDA/FOLHAPRESS

Por Wilame Prado

Bandas fazem releitura contemporânea de “Alucinação” (1976), álbum clássico de Belchior

É hoje lançamento de “Ainda Somos os Mesmos”, organizado pelo jornalista Jorge Wagner

“Quem são os loucos? Nós, que chegamos às nove da manhã e ficamos até as sete da noite em redações, agências etc pra ganhar salários destinados, na maior parte, a pagar dívidas e nos permitir continuar acordando cedo, indo pro trabalho, comendo, pagando dívidas… nesse ciclo eterno, ou alguém que decide romper com isso?”

A indagação é do jornalista carioca Jorge Wagner, quando perguntado o que achava do sumiço de Belchior. Ele, que organizou em outubro de 2012 “Jeito Felindie”, um tributo ao Raça Negra, é idealizador e curador do projeto “Ainda Somos os Mesmos”, releitura do disco “Alucinação” (1976), um dos grandes trabalhos do músico cearense e que reúne, entre suas dez ótimas canções, sucessos retumbantes como “Apenas Um Rapaz Latino Americano”, “Como Nossos Pais” e “A Palo Seco”.

“Ainda Somos os Mesmos”, que, além das faixas de “Alucinação”, conta com bônus de outras cinco músicas de Belchior, tem lançamento previsto para esta quarta-feira (26), no site Scream & Yell. O trabalho, segundo Jorge Wagner, não tem fins lucrativos. As faixas e o streaming estarão disponíveis gratuitamente pelo site.

Para o disco, o jornalista convidou bandas e artistas da cena independente e que, por uma via ou outra, assumem ter influências “belchioranas” na hora de compor. Participam do trabalho, em ordem de faixas: Dario Julio & Os Franciscanos, Manoel Magalhães, Phillip Long, Nevilton, Lucas Vasconcellos, Bruno Souto, Lemoskine, Fábrica, Transmissor, Marcelo Perdido, Nana, Jomar Schrank, Ricardo Gameiro, João Erbetta e The Baggios.

“Fui, a princípio, em busca de artistas que eu mesmo gostasse e que, de alguma forma, fosse pela poética ou pela sonoridade, se identificassem com o trabalho do cearense. Não queria que o trabalho do Belchior fosse um mundo estranho pra nenhum deles”, diz.

Para a reportagem, o organizador do disco disponibilizou a faixa “Fotografia 3×4”, tocada pela banda Transmissor, e um teaser com pequenos trechos de outras três canções do disco. Pela sonoridade, o que se percebe é um respeito absoluto com as canções de Belchior por parte dos músicos, que, no entanto, dão roupagem nova às clássicas canções, apostando nas características sonoras da própria banda.

Em “Fotografia 3×4”, por exemplo, se Belchior faz introdução com coro, violão e teclado, os músicos da Transmissor já iniciam, em ritmo mais acelerado, a canção de ótima letra com um destaque para riffs da guitarra e bateria suave; no entanto, reconhece-se facilmente ali a linguagem poética de Belchior.

Gênio
Para o músico curitibano Dary Jr. (ex-Terminal Guadalupe), Belchior é um gênio. Ele participa de “Ainda Somos os Mesmos” tocando com a banda Dario Julio & Os Franciscanos nada mais nada menos que “Apenas Um Rapaz Latino Americano”.

“‘Alucinação’ é um álbum clássico. Regravá-lo é mexer em vespeiro, mas as novas gerações precisam conhecê-lo. Ouvir Belchior é quase um dever cívico. Suas canções, assim como o rock de Brasília dos anos 1980, abriram muitas portas para mim. Para além do prazer estético, Belchior te faz pensar sobre as relações afetivas, sociais e políticas em tempos bicudos. Ele é um gênio”, decreta o músico.

Rodrigo Lemos participa do tributo ao lado de sua banda, a Lemoskine. Ele, que também é guitarrista d´A Banda Mais Bonita da Cidade, fala sobre poder interpretar no disco “Não Leve Flores”, outra grande canção de Belchior: “Há uma perspectiva muito interessante e irônica em torno do ‘envelhecer e permanecer jovem’ e do ‘novo, que sempre vem’. Identifico-me totalmente.”

Mais do que homenagear o músico Belchior, os envolvidos com o projeto torcem também para que o disco chegue, de uma maneira ou de outra, nas mãos do cearense, onde quer que ele esteja neste momento. Quem sabe, rememorando “Alucinação” em vozes novas – assim como um dia já se arriscaram em seu cancioneiro Elis Regina, Los Hermanos, Engenheiros do Hawaii e tantos outros – o bigodudo resolva voltar a cantar.

“Se o próprio Belchior não chegar a ver, alguém entre as pessoas que sabem onde ele está vai acabar contando. Sobre o que ele vai pensar: espero que entenda o sentido de homenagem e acredito que algumas versões, como a do Phillip Long, por exemplo, possam agradá-lo bastante”, diz, esperançoso, Jorge Wagner.

Vida paralela
O músico Belchior deixou de se apresentar publicamente em 2009, quando foi considerado desaparecido após ter se separado da mulher, com quem estava casado há 35 anos, não dar notícias para os amigos e abandonado os palcos e as gravações musicais.

Segundo reportagem publicada na revista Época em dezembro do ano passado, assinada pelo jornalista Marcelo Bortoloti, Belchior abandonou a tudo e a praticamente todos para viver uma vida paralela ao lado da namorada, a produtora cultural Edna Assunção de Araújo, 46.

De acordo com a reportagem, passados cinco anos do sumiço, o músico nordestino de 67 anos atualmente vive escondido com Edna em Porto Alegre-RS e não pode sair em público porque é procurado pela polícia. Pesam contra Belchior, informa Bortoloti, dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias.

Belchior também é cobrado na Justiça por um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão, sem possibilidade de recorrer. Segundo a Época, as contas de Belchior estão bloqueadas, e os imóveis que tinha, comprometidos.

Por causa da falta de dinheiro, Belchior e Edna já se abrigaram numa instituição de caridade e moraram de favor na casa de fãs desconhecidos.

ALTA_Ainda_Somos_Os_MesmosBELCHIOR POR ELES
AINDA SOMOS OS MESMOS
Curador: Jorge Wagner
Lançamento: terça-feira (26)
Onde: Scream & Yell (screamyell.com.br)
Download e streaming gratuito

*Reportagem publicada em 22 de março no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Existem protestos e protestos

Por Wilame Prado

Guarde estes números: 216 mortos e 140 desaparecidos.

Tirando toda a babaquice, a mesquinhez e a crueldade humana refletida nas mais variadas formas de expressão comunicacional (textos, vídeos, artes, fotos) nas redes sociais, aplaudo as alternativas que hoje temos, graças à internet, de reunir pessoas, compartilhar informações importantes, defender direitos e relembrar os deveres. Faz nem um ano que finalmente o brasileiro aprendeu a apertar os botões e, democraticamente, protestar contra aquilo que considera estar errado.

Em uma sociedade recheada por descontentes (o ser humano é descontente em essência), isso tudo tem incentivado a união dos iguais a protestarem contra aquilo que acham que está errado e também para reivindicar o que consideram ser o correto, sempre com uma semente plantada na rede social “virtual” e que cresce rapidamente até virar uma gigantesca rede social “real” de adeptos.

A receita é simples: pense em algo que é contra – vale tudo, desde ser contra gatos albinos até contra caminhonetes na garagem do prédio que dificultam o árduo trabalho de manobrar seu pequeno veículo sem direção hidráulica; depois, articule um protesto, já pensando em itinerário dos participantes e frases a serem escritas em cartazes; dispare a ideia numa rede social e aguarde milhares de pessoas que têm pavor só de ver a orelha rosa dos gatos albinos ou detestam a imponência desmedida de para-choques exuberantes daqueles veículos que, na realidade, deveriam estar na zona rural.

O último protesto noticiado nos principais jornais brasileiros foi a Marcha da Família com Deus, ocorrido simultaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, uma reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu meio milhão de pessoas e que aconteceu em 19 de março de 1964, antes do golpe militar.

Nesta última marcha, marcharam 700 em SP e 150 no Rio. Os envolvidos nada comentaram sobre gatos albinos ou caminhonetes potentes. Querem mesmo é a retomada do poder pelos militares em uma resposta contra uma ameaça comunista que eles dizem o País estar sofrendo com o PT representado pela presidente da República, Dilma Rousseff. No meio dos protestos, uns ainda manifestaram serem contra a desmilitarização da polícia; outros gritaram “Bolsonaro para presidente”.

O próprio deputado federal Jair Bolsonaro participou da reedição da Marcha da Família com Deus no último sábado, no Rio. Em um vídeo que circula pela internet, ele afirma, enquanto marchava, referindo-se às centenas (ou milhares?) de brasileiros torturados durante o regime militar: “A maioria se fazia de vítima, a maioria era vagabundo que estava a serviço de Cuba aqui dentro.”

Estão lembrados dos números? Foram 216 mortos e 140 desaparecidos durante a ditadura e tem gente que ainda protesta pedindo o retorno das Forças Armadas ao poder. Como eu disse, aplaudo as redes sociais, que podem servir para o pleno exercício da democracia no País.

Todos têm direito de se reunirem e protestarem, até mesmo pedindo o extermínio de gatos albinos, a expulsão das caminhonetes nos condomínios residenciais e ainda a volta dos militares ao poder. Mas, em se tratando deste último e mais absurdo caso de insanidade humana – esta suposta Marcha da Família com Deus – pede-se, apenas, um pouco mais de respeito na hora de escolher o nome do protesto ou das marchas. “Família” e “Deus” são palavras muito maiores do que essa tentativa tacanha de tentar garantir privilégios para uma pequena e estúpida parcela da sociedade, a de gente que não gosta de gente e que, pela conservação dos costumes reacionários e cruéis, é capaz de tudo.

Que Deus e que famílias gostam de mortes e de desaparecidos? Segundo a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, o governo reconheceu a responsabilidade do Estado pela morte de 216 pessoas e pelo desaparecimento de outras 140 na ditadura militar. A maioria, aponta a pesquisa, morreu nos anos 1970, quando o regime decidiu eliminar as organizações de esquerda engajadas na luta armada.

*Crônica publicada nesta terça-feira (25) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Mais uma chance para ‘Ela’, senhorita K.

Por Wilame Prado

Senhorita K., serei franco e direto com você: peço que dê mais uma chance ao filme “Ela”, ou, como gosta de pronunciar, ao filme “Her”, do nosso prodigioso diretor norte-americano Spike Jonze, do nosso adorável ator Joaquin Phoenix e da nossa musa insuperável Scarlett Johansson, que, no longa-metragem, nos brinda com sua voz rouca e sensual. Isso sem falar da trilha sonora arrebatadora do filme, a qual não tem me deixado ouvir outra coisa nos últimos dias, assinada pelos garotos William Butler e Owen Pallett, da banda indie Arcade Fire.

Sei que os tempos são de correria e de energias poucas para aguentar assistir a um filme com baixa resolução em plena noite de terça-feira (“Ela” não estreou por essas terras). Há tantas outras coisas para se pensar e, no mínimo, duas horas a mais de sono podem muito bem ajudar a aguentar o tranco do outro dia que a espera. Mas, insisto, senhorita K.: deixe para mais tarde o trabalho, o descanso, a redação da monografia e o verão. Assista “Her”, garanto satisfação no entretenimento, emoção e reflexão sobre o que estamos fazendo em tempos contemporâneos.

As vezes olho para você e penso se tratar de um espelho: vejo-me em sua melancolia, senhorita K. Justamente por isso, não me conformo com a sua desistência – talvez acomodada no sofá, talvez com uma xícara de chá em uma das mãos – pelo filme e a entrega desmedida para o sono que, desta vez, agiu com ingratidão ao lhe oferecer sonhos tranquilos a uma trégua que seria muito bem-vinda para o êxito no projeto “ver ‘Her’ até o final”.

Percebo como, às vezes, está fixamente olhando para o chão, melancólica. Fiz uma rápida pesquisa de seus gostos musicais, e nada mais vi a não ser nostalgia. Descobri qual o seu livro predileto e ele trata de saudade daquilo que ainda nem foi vivido. Concluo, então, que “Her” foi escrito e filmado para você, senhorita K. Foi escrito e filmado para gente como a gente. Gente esquisita, mas do bem. Gente confusa, mas não tola.

E se me permite um spoiler ou outro (veja a que ponto cheguei para convencê-la de ver o filme), “Ela” – desculpe-me, “Her” – é sobre um futuro onde todos assumiram de vez o seu lado triste de ser. Para você ter uma ideia, Theodoro (Joaquin Phoenix) é um exímio escritor de cartas a mão, encomendadas por pessoas que estão declarando seu amor para outras ou então dando um feliz aniversário. Me diz, senhorita K., há quanto você não lê uma carta feita de próprio punho? Claro que, no filme, a tecnologia da época dá literalmente uma mão para os funcionários, que só precisam ditar o que será escrito na carta para o computador transformar em texto de mão a carta narrada.

Quando estiver finalmente convencida, peço que, em algumas cenas, deixe de olhar apenas para a legenda ou então para o rosto de Theo enquanto nutre o seu amor por Samantha – um sistema operacional com voz de mulher. Perceba o mundo ao redor. Note que, na realidade, aquele já é o mundo o qual vivemos. Só que maravilhosamente aceitável.

Certo: soa a alienação as pessoas andando pelas ruas e nutrindo suas relações de amizade ou amorosa com aparelhos cheios de chips, plásticos e placas, como se estivessem falando sozinhas. Mas o mundo construído por Spike Jonze é fantástico, se formos parar para pensar bem. É como se o complexo “Ele é louco, ele fala com as plantinhas” finalmente tivesse sido superado e que a ditadura da felicidade finalmente houvesse sido exterminada. “Her” retrata uma época em que ninguém tem vergonha por ser triste, por usar as calças na altura do umbigo, por nutrir um bigode démodé e usar óculos.

Mais uma chance para “Her” seria dar mais uma chance para todos nós. Como na letra de “The Moon Song”, canção de Karen O e do próprio Spike Jonze – cantada por Samantha e tocada por Theo – podemos estar a um milhão de quilômetros da lua, ou dela, da voz, do contentamento por meio da relação entre seres humanos, mas, afinal, tudo não passa de um filme, duas horinhas para sonhar, com Ela, com a lua, com Scarlett, com cenários limpos, prédios altos, elevadores frios, com vozes roucas e sem mau hálito de manhã, com camisas rosas e com a melancolia assumida, num tempo para não ter medo de ser “feliz” (triste).

“As vezes eu acho que já senti tudo que eu deveria. E que não sentirei nada a partir de agora. Só versões menores do que já senti” é uma das falas mais marcantes do protagonista de “Her”, na madrugada, na pior, após mais um encontro “físico” fracassado. Por isso, novamente eu insisto senhorita K.: dê mais uma chance para “Her”. Afinal, Theo pode sim ter razão quando confessa para Samantha aquilo que, na verdade, amedronta a todos nós, que é a possibilidade de que o melhor faz parte apenas do passado.

*Crônica publicada nesta terça-feira (18) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)
**Hoje a coluna Crônico completa seis anos (nesse meio tempo – entre 18 de março de 2008 e 18 de março de 2014 – fiquei sem escrever a coluna do dia 12 de julho de 2011 até 28 de maio de 2013)

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Os mesmos de sempre

Oscar Nakasato e Marcos Peres: produção literária continua após premiações. —FOTO: DIVULGAÇÃO

Marcos Peres e Oscar Nakasato: produção literária continua após premiações. —FOTO: DIVULGAÇÃO

Por Wilame Prado

Coincidentemente, os escritores maringaenses Oscar Nakasato, 50 anos, e Marcos Peres, 29, estrearam na literatura após a conquista de prêmios literários. Em 2011, após vencer o disputado Prêmio Literário Benvirá, Nakasato publicou “Nihonjin” (Benvirá – Saraiva), que viria a ganhar, um ano depois, o prêmio Jabuti na categoria Romance. Marcos Peres, ano passado, também precisou vencer o elogiado Prêmio Sesc de Literatura na categoria Romance para ver o seu “O Evangelho Segundo Hitler” (Record) disponível nas principais livrarias do País.

O tempo passou. E continuam existindo aspectos em comum nas iniciantes – mas já gloriosas – carreiras dos dois principais ficcionistas da cidade: estão escrevendo (ainda bem!), ainda não lançaram o segundo livro e ambos não desistiram de suas profissões – Nakasato é professor em Apucarana; Peres é concursado na Vara de Execuções Penais de Maringá.

Mas há também diferenças entre os dois literatos. Nakasato, com a sua aparente cautela oriental, admite continuar em seu ritmo lento com a escrita. “Estou escrevendo um novo romance, ainda sem título”, limita-se a dizer. “As palavras não dizem tudo, e muitas vezes essa ausência me angustia. É uma espécie de mudez. Outras vezes, o silêncio é da própria história, que não quer continuidade, que se recusa a qualquer desdobramento. Por isso, leio muito mais que escrevo. A leitura me consola da minha mudez, a palavra do outro me conduz a experiências novas.”

Peres, pelo contrário, parece continuar em sua inesgotável proficuidade literária e, em uma recente postagem no Facebook, anunciou já ter escrito 88.888 toques (ou 205 páginas) em um documento de processador de texto – e isso só nos dois primeiros meses deste 2014. “Escrevo diariamente. É uma necessidade, de fato. Prefiro a parte da manhã, que minha cabeça está descansada. Tomo uma xícara de café enorme e escrevo umas duas, três horas”, disse ele, em entrevista concedida anteriormente ao Diário.

Sobre o novo livro, Peres conta que no início seria só um conto, mas não conseguiu segurar os dedos. “Quando acabei o ‘O Evangelho…’, comecei a escrever uma trilogia de romances. No meio do caminho, no entanto, uma revista curitibana me pediu um conto, com a exigência que este conto se passasse lá, na capital. Por mais que eu podasse, o resultado final era gigantesco. Desisti da publicação na revista e das podas e transformei o conto em um romance. Foi um processo exaustivo, porém gratificante. Estudei outro personagem famoso, histórico, da mesma maneira que havia estudado Borges e Hitler para a confecção d´’O Evangelho…’. Logo, teremos novidades.”

Com a qualidade das obras e com o crescimento da literatura nacional pelo mundo, Nakasato já vem sendo lido em outro país: a revista “Brasil Nikkei Bungaku” traduziu “Nihonjin” para a língua japonesa e está publicando um capítulo a cada número lançado. Peres ainda negocia traduções, mas prefere deixar esse trabalho para a MTS, agência literária contratada por ele. “Sei que meu livro foi submetido a editoras alemãs e argentinas desde a Feira de Frankfurt, ano passado. Mas sei que é um processo lento, cheio de negociações e não tenho pressa”, revela.

De um modo geral, os dois escritores continuam levando as suas vidas normalmente, com a diferença que, por causa das estatuetas literárias na estante, hoje são mais conhecidos e têm acesso facilitado em suas respectivas editoras.

Pergunto a Nakasato o que fez com os R$ 30 mil do Prêmio Benvirá, e ele, como em todas as simpáticas entrevistas concedidas, é sincero: “Quando ganhei o prêmio, eu estava construindo a minha casa, então usei o dinheiro para comprar tijolos, areia e cimento.”

Pergunto a Peres se pensa em abandonar a carreira de funcionário público para se dedicar somente à literatura. E ele insiste em seu sempre agradável bom humor em forma de entrevistas atenciosas e completas: “Penso, como penso em ganhar um Nobel ou levantar a taça da Copa do Mundo, com a braçadeira de capitão. No entanto, infelizmente, são sonhos.”

Os dois escritores premiados da cidade continuam os mesmos de sempre; prêmio algum ou participações em disputados eventos literários para além-Maringá afetaram o modo como encaram a vida e a literatura: eles precisam escrever, caso contrário, não sobreviveriam. Por essas e outras, aguardemos: bons novos livros publicados por Oscar Nakasato e Marcos Peres devem pintar por aí.

NIHONJIN

Nihonjin

Autor: Oscar Nakasato
Idade: 50 anos
Editora: Benvirá (Saraiva)
Ano de publicação: 2011
Preço sugerido: R$ 19,90
Número de páginas: 176
Prêmios: Prêmio Benvirá (2011) e Prêmio Jabuti – Romance (2012)
Tiragem inicial: 25 mil exemplares
Segunda tiragem: 5 mil exemplares

Uma pergunta: Ganhar prêmios literários faz bem para a sua escrita?
“Não. O que faz bem para a minha escrita é a leitura, a que me dedico cada vez mais.”

O EVANGELHO SEGUNDO HITLER
O Evangelho Segundo HitlerAutor: Marcos Peres
Idade: 29 anos
Editora: Record
Ano de publicação: 2013
Preço sugerido: R$ 38
Número de páginas: 352
Prêmio: Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013 na categoria Romance
Tiragem: dois mil exemplares
Uma pergunta: Ganhar prêmios literários faz bem para a sua escrita?
“De um ponto de vista subjetivo, um prêmio é um reconhecimento, é a chancela de um trabalho bem feito…Sob outro ponto de vista, mais objetivo, as consequências do prêmio e as necessidades do escritor dar a cara à tapa em eventos literários diminui consideravelmente seu tempo para escrever.”

*Reportagem publicada em 8 de março de 2014 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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As pessoas fazem falta, ou nem tanto assim

Por Wilame Prado

As pessoas fazem falta. Relembrei essa sensação de vazio causada pela ausência de pessoas por causa de uma pedra no rim que afastou-a de casa por dois dias seguidos. O gato – em sua greve de fome – também sentiu falta dela, já não miava mais e vivia escondido atrás de uns colchões, no canto menos habitado do lar. Nenhuma conversa entre seres humanos foi ouvida durante aquelas quase 50 horas de uma semana fria.

Os lençóis da cama ficaram intactos até ela voltar para casa: o cheiro de amaciante de roupas que exalava ao abrir a porta do quarto não me deixa mentir. As plantas que nunca existiram dentro daquele apartamento morreriam ou, pelo menos, a esta hora, estariam murchas, assim como eu fiquei.

Então ela voltou e, aos poucos, um quadro pintado em PB retratando aquele ambiente caseiro foi ganhando toques coloridos. Depois do retorno, com um dia todo ao lado dela, as paredes imaginárias do imóvel já estavam pintadas de amarelo e azul. O teto se fez vermelho. Senti-me um chefe de cozinha particular dela fazendo arroz de micro-ondas e empanados no forno. Lavei toneladas de louças como se estivesse apenas molhando a mão no mar do Caribe, em cima de uma caravela, sentindo a temperatura da água. O gato voltou a sorrir.

Então, para celebrar a companhia de pessoas, assistimos juntos “Ela”, filme escrito e dirigido por Spike Jonze (de “Quero Ser John Malkovich”), que conquistou o Oscar, este ano, de melhor roteiro original. No filme estrelado por Joaquin Phoenix pessoas fazem falta também, mas muitos suprem esta falta com a tecnologia. Assim como o escritor solitário Theodore (Phoenix), que se apaixona por um sistema operacional.

Scarlett Johansson, atriz mais desejada do cinema contemporâneo, é Samantha no filme. Ela empresta a sua bonita voz rouca e sensual para um programa informático que acaba se transformando em namorada do protagonista. Agora estamos apaixonados também pela voz de Johansson. Melhor atriz não há para esse papel. Dublagens neste filme não funcionarão, jamais. Quase dá vontade de namorar uma voz também, desde que seja a dela.

Mesmo assim, é um tanto deprimente aquilo tudo que se passa no filme, sempre em seus tons avermelhados, sempre mostrando seres humanos frios e dominados pela tecnologia. Em “Ela”, trabalho que talvez retrate uma realidade de um futuro nem tão distante, as pessoas ficam sem jeito para um abraço, para um beijo no rosto. As relações se resumem a encontros inconvenientes no elevador. Ao contrário do que aconteceu comigo e com o gato por causa de uma pedra no rim dela, as pessoas não fazem assim tanta falta no cotidiano criado por Spinke Jonze.

Convidei uma prima para ver “Ela” – o filme mais aguardado por mim nos últimos meses. Ela topou ver com a gente. Sábado à noite, nada para fazer. Dez anos mais nova do que eu, geração 1990. Sabe mexer no Whatsapp e vive respondendo a perguntas num obscuro (para mim) site chamado ask.fm. Pensei: tudo a ver o romance dos hiperconectados de “Ela” com os dela, a prima. “Só que não”, como prega a irritante gíria que começou no mundo virtual e que foi parar nas conversas “reais”. Ela passou o filme inteirinho olhando e apertando uma tela de um smartphone.

Talvez as pessoas nem façam tanta falta assim. Assim como faz Theodore em “Ela”, talvez as pessoas já namorem um sistema operacional contendo voz e sentimento e eu nem saiba disso.

*Crônica publicada nesta terça-feira (11) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Afinal, uma palhaça de negócios

Palhaça Pipoca em apresentação no Rio de Janeiro; Raquel Cruz empreende construindo sorrisos

Palhaça Pipoca em apresentação no RJ; Raquel Cruz empreende construindo sorrisos

Por Wilame Prado

Raquel Aparecida da Cruz, 38 anos, sempre preferiu rir a chorar. E descobriu o tamanho da força de um sorriso ao optar trabalhar com a arte circense e ser uma palhaça profissional. Mais do que a recompensa que tem de poder, trabalhando, dar felicidade para crianças, jovens e adultos, a conhecida palhaça Pipoca, de Campo Mourão (a 90 quilômetros de Maringá), vem conquistando também prêmios que revelam o seu lado empreendedor e que a legitimam como uma mulher de negócios.

No final do mês passado, Pipoca – uma das poucas palhaças negras do País – gargalhou mais do que a plateia, em Brasília, ao representar o Paraná no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios na categoria Microempreendedora Individual ao conquistar o Troféu Bronze. A participação de Pipoca no prêmio nacional se deu após ter conquistado o primeiro lugar na etapa estadual, que aconteceu, no ano passado, em Curitiba-PR.

Mesmo sendo, hoje, uma das vencedoras da premiação do Sebrae, que visa reconhecer, divulgar e premiar histórias de empreendedorismo feminino, Raquel conta, em entrevista por telefone ao Diário, que nunca tinha parado para pensar em assuntos relacionados ao desempenho feminino à frente dos negócios.

Ela só se inscreveu no prêmio após muita insistência por parte de uma consultora do Sebrae de Maringá. “Muita gente tem história parecida com a minha, que venceu mesmo com as adversidades. Talvez o que tenha chamado a atenção seja o fato de eu ter escolhido a área do circo e não áreas mais comuns no setor feminino, como costura, beleza e cozinha”, diz.

Acostumada a sempre correr com mais de uma tarefa diária, Raquel começou a trabalhar aos 12 anos em Campo Mourão. Foi cortadora de cana e cozinheira, mas nunca deixou de lado o sonho de ser artista, fazendo cursos na área e já se apresentando para pequenas plateias. Após passar algum tempo nessa dupla jornada, conta, um dia apostou todas as fichas na arte, dispôs-se a entender todos os processos envolvendo um espetáculo circense – desde a maquiagem, luz e cenário, até a parte cênica envolvendo a atuação do palhaço – deu vida à Pipoca e, atualmente, se divide entre o fazer rir e também o ensinar a fazer rir.

“Uma das inspirações para desenvolver a Pipoca, sem dúvida, foi o palhaço Saca-Rolha, de Curitiba”, conta Raquel, recordando-se de uma época boa da sua vida, quando morava na capital e passava os dias ao lado da mãe adotiva – camareira de circo – acompanhando os ensaios, trabalhos e apresentações de uma trupe circense liderada pelo palhaço Saca-Rolha. Nascia ali, diz ela, a certeza de que queria trabalhar com arte. “Em outra reencarnação eu devia trabalhar em circo, só pode.”

Hoje, ensina os “truques” da palhaça Pipoca para cerca de 500 crianças que recebem aulas gratuitas de circo no contra turno em três municípios da região. Além do trabalho desenvolvido com as crianças, explica Raquel/Pipoca, sua Microempresa Individual (MEI) desenvolve cursos de artes circenses e maquiagem artística, animações e performances em eventos, monta coreografias circenses e ainda desenvolve cenários, figurinos e adereços.

“Sou palhaça, mas não sou besta”, diverte-se ela ao comentar que, mesmo seguindo a carreira artística, precisa alertar muita gente de que, nos bastidores, não pode haver bagunça.

Ela conta que, com as dores da alma, palhaço também chora (muitas vezes até atrás das cortinas, com o show prestes a começar), isso sem contar com as exigências físicas da profissão, com afazeres dobrados nos finais de semana e desafios envolvendo acrobacias, presepadas e traquinagens em cima do palco. Toda essa vivência, diz ela, serve como matéria-prima para repassar aos alunos e clientes.

Ao olhar para trás, ela prefere o sorriso, a gargalhada, a palhaçada, a se recordar das dificuldades que já passou nesta vida – ainda bebê, foi adotada por outros pais, que, depois, separaram-se, o que a obrigou a trabalhar na infância para ajudar com as contas dentro de casa. Mesmo assim, não sei se Raquel, não sei se Pipoca, não titubeia em dizer que é melhor ser alegre que ser triste.

“Sempre preferi sorrir do que chorar, encarar as coisas do que reclamar. E isso eu passo para os meus alunos. Se as lágrimas insistem em cair antes do espetáculo, aí o palhaço precisa ir pela técnica e entrar sempre sorrindo. Independentemente do que acontece na sua vida, o espectador espera o seu melhor. Ninguém paga para ouvir coisa ruim e a nossa missão é fazer as pessoas mais felizes”, ensina.

*Agradecimentos a Edilaine Castro, diretora da empresa Espaço Sou Arte (Campo Mourão), que auxiliou com a produção na reportagem

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Carnaval em cinco atos divagantes

Por Wilame Prado

1
Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia. E eu não acreditei. Tanta graça, tanta praça. Que gata. Fiquei bobo, alegre, adolescente. Então estufei o peito, saí do carro, abri a porta, dei um sorriso, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, acorrentei a sua mão na minha e atravessamos a rua, no verde; íamos a um baile de carnaval. Íamos. Caminhão acelerado. Desespero. Dois corpos pedestres no chão, em cima da faixa branca, que se fez vermelha. Borrão. Antes de entrar na ambulância, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, mas estava misturado com o ocre metal. Vi dentes meus pelo chão. Nunca mais a vi com vida. Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia.

 2
Mexo a cabeça. O ouvido há muito entupido. Onde está? Olhando para um chão sujo de mijo e coliformes fecais. Banheiro público. Carnaval. E ele, o outro eu, maldito, está olhando, pela janela suja, a avenida movimentada. Braços que se sujam encostados na janela, cinzas podres de cigarros. Calma. Calma que a calmaria vai chegar. Calma que ainda, eu e eu, iremos nos encontrar. O outro eu saiu feito louco, escada desabando abaixo, um pé desnudo para fora do lençol se despede – a última imagem humana. Morreu atropelado na Brasil. Ônibus coletivo, o ouvido entupido não ouviu, e o receio de me contaminar no sujo banheiro público, enquanto descarrego necessidades corpóreas, pensando naquele pé descoberto para fora do lençol – reminiscências na pré-morte, já na ambulância. Eu e eu ainda iremos nos encontrar.

3
Tudo isso vale (u) a pena mesmo? Pena leve. Pena branda. Peso pena. Peso que não pesa. O carnaval foi com minúscula. E as ruas estavam tão quietas. E, acreditem, garoou ridícula e imensamente. Deprimente. Gotas peso pena – fisicamente falando. Gotas peso pesado – nostalgicamente falando. Insisto, o que vale (u) a pena? Até que ponto compensa? Ela passou do ponto, o ônibus não parou no ponto, você nunca quer o ponto final. Crimes não se apagam com castigos. Qual será a sua pena? Uma apendicite? Um ouvido entupido? Uma síndrome do intestino irritável? Ou um se sentir sozinho, tomando coca lata, indo pra casa, na chuva? Agora já é (C)arnaval. Crimes, castigos. Vale (u) a pena?

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Ruas que andam. Vida que passa. Sentado. As ruas andam. A vida passa. O carro passa. O avião passa. A moto passa. A banda passa. O bloco passa. E a moça passa. Sentado, a vida passa. A árvore respira. O homem traga. O tênis se gasta. As paredes se desgastam. E gastam o asfalto. A moça passa. Sentado, a vida passa. E, de repente, coisa de centésimo de segundo, olha-se por entre o buraco do alargador na orelha de um jovem e delicado rapaz e ali se vê e se prevê uma vida inteira, sentado, vendo a moça, a vida e o bloco passar.

5
Uma forte sensação de abandono. Todos sumiram neste Carnaval. Tinham outros afazeres. Uns precisavam morrer. Outros queriam viver mais intensamente. Uma forte chuva caiu, mas, de dentro daquele pequeno apartamento na Rua K., ela nem pôde ver o movimento das águas, nem mesmo sentir o cheiro da terra. Tudo parecia tão distante do alto daquele oitavo andar. Todos estão distantes. Se tudo isso tivesse acontecido há, sei lá, uns quatro anos, reflete ela, certamente botaria tudo a perder. Mas hoje não. Agora não. Talvez não, nunca mais. Passou a acreditar em propósitos. Levou a sério aquela história de se escrever certo por linhas tortas. A maior provação? O afastamento das pessoas. A maior alegria? Ana, a pequena filha de sete meses e meio. Junto dela, pode cair o mundo em águas, e as pessoas podem se mudar até de país. Enquanto prepara a mamadeira na cozinha, olhando para os miúdos olhos abertos e suaves de Ana, ela se deixa levar pelo pensamento e sente uma nostalgia ao contrário, uma já saudade do que nem aconteceu: pensa com carinho no dia em que, depois de uma torrencial chuva e chegada do sol, talvez num feriado de Carnaval, levará a sua filha até lá fora para explicar que aquele cheiro é cheiro de terra molhada.

*Parte dos atos foi remanejada de divagações anteriores, já publicadas no blog
*Texto publicado nesta terça-feira (4) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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