Mês: junho 2014



O meu amigo Barba

Por Wilame Prado

Vi um cara parecido com o Barba. Será que o Barba entraria assim naquele bar? Será que ele paqueraria a moça bonita das pernas magrelas, sentada a quatro mesas, 23 cadeiras e aproximadamente três metros de distância de mim? Será que teria comemorado os dois gols do Neymar, um de Oscar, tacando cerveja pra cima, tal qual certamente fez o cidadão levemente alcoolizado, com camisa amarela falsa do Brasil, boné descaindo pelas orelhas, horroroso, na mesa 43, a mesma mesa que já pediu mais de doze vezes novas garrafas de cerveja, uma porção de batata frita com muito queijo e bacon jogados por cima e ainda algumas rosetas de sal e limão porque as duas moças gostam de misturar a bebida levemente salgada e azeda com goles generosos de bebida alcoólica enquanto não entendem muito bem porque houve tão rapidamente um gol contra do Marcelo, e também porque se deve colocar a bola na marca branca próxima ao gol quando alguém do Brasil cai na grande área?

Pego-me a imaginar o Barba dentro daquele bar que mais se parece uma jaula suja, lotada de animais que precisam de cerveja como uma espécie de água e comida vitais para as energias juvenis de gente que só quer ter a coragem de olhar por mais de três segundos para os olhos amendoados da menina que revela tristeza até mesmo quando sorri, ou então a ousadia de tecer comentários com começo, meio e fim para a roda de amigos, sempre com uma pitada de humor, sempre com uma pitada de sensualidade no ato de revelar os contos cotidianos da vida regados a mais mentiras ou superlativos do que a verdade propriamente dita.

Barba perceberia que a loira que chegou com o cara da corneta gosta mesmo é do amigo do cara da corneta – tamanho foi o beijo tascado no rosto desse amigo, beijo que quase chegou na boca do amigo, beijo que revela segredos, intimidades, vontades e desejos da loira acompanhada do cara da corneta? Estaria ele incomodado com tanto barulho, irritações, braços que se tocam, gente que se empurra, banheiros sujos, vômito, urina e fezes, calor e frio, carros que sobem a avenida, motocicletas que aceleram de propósito na avenida e que, pela execução de seus devidos motociclistas, produzem sons que se assemelham ao estourar de rojões (comemoremos, é o Brasil ganhando jogo de copa do mundo!)?

Gostaria de saber onde estava o Barba no exato momento em que, após uma abertura muito criticada e chata (valeu ver apenas o rebolado da Jennifer Lopez e a sua beleza que chega a nos agredir fisicamente), finalmente a bola começou a rolar numa das copas mais aguardadas de toda a minha vida. Estaria em Maringá, no Jardim Alvorada de Santa Fé, em Londres, Nova York, Pantanal ou mesmo lá dentro da Arena Corinthians, vaiando a Dilma ou torcendo para que aqueles rapidíssimos 90 minutos não se esgotassem jamais, tamanha é a festa, tamanha é a alegria representada pelo futebol, tamanha é a emoção de viver, estar vivo e ter alguns dinheiros a mais a ponto de poder sim, o próprio Barba, hoje estar vendo com os próprios olhos da cara, sem filtros, sem televisões, sem replays, sem a voz do Galvão Bueno, o primeiro jogo da seleção em plena Copa do Mundo Fifa – Brasil 2014.

Lembro-me da última vez em que vi o Barba. Ele estava daquele jeito de sempre, lento caminhar, olhar distante, mão no ombro da mãe, bengala na outra mão, dando passos nas calçadas daquela pequena cidade como forma de exercício fisioterápico para, a conta-gotas, ir recuperando os movimentos da perna, perdidos após um trágico e besta acidente de moto. Se não fosse uma imensa placa que o impediu de continuar acelerando a sua moto, e que, por pouco, não gerou uma tragédia ainda maior para toda a sua família, Barba poderia estar aqui neste bar, comemorando feito idiota, assim como eu, mais uma “vitória” da Seleção Brasileira. Poderia, quem sabe, até chutar um placar para o próximo jogo, para o próximo espetáculo de circo, para a próxima palhaçada, cujos atores em cima do palco estariam uns vestidos com o amarelo do Brasil e outros vestidos com o verde do México. Viva o futebol. Viva o bar. Viva a cerveja, a festa e viva as pessoas que podem usufruir disso tudo sem precisar escorar numa bengala e no ombro de uma forte e guerreira mãe, assim como o meu amigo Barba precisa.

*Crônica publicada nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Geração Kichute no País do Futebol

Crianças brincam de ferrorama em “Meninos de Kichute”

Crianças brincam de ferrorama em “Meninos de Kichute”

Por Wilame Prado

A espera valeu a pena. Em ano de Copa no Brasil, “Meninos de Kichute” – longa-metragem dirigido por Luca Amberg, baseado no romance homônimo do londrinense Márcio Américo – estreou semana passada em algumas salas de cinema do País, incluindo uma aqui em Maringá, que exibe até semana que vem o longa nacional.

Filme tocante, sensível e que certamente vem emocionando principalmente aqueles que passaram a infância nos anos 70 e ainda aqueles que amam futebol, “Meninos de Kichute” retrata fielmente uma época em que as principais diversões da molecada eram jogar bola no campinho de terra, jogar bafo e trocar figurinhas, ver mulher pelada na revista, ir à matinê do cinema e infernizar os pais com as mais variadas travessuras. No longa, Beto (Lucas Alexandre) sonha em ser goleiro da Seleção Brasileira, mas é atrapalhado pelo rigoroso pai, o pintor evangélico Lázaro (Werner Schünemann), que, no final, acaba sendo o “vilão” da história por ter se encarregado de representar a hipocrisia e o machismo corriqueiras da época.

No filme preferido do público na 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é aquela velha história, conhecida pelos meninos brasileiros que hoje são homens barbados: uma partida de futebol é uma batalha, e os inimigos são os moleques da rua de baixo. Na rua Ivaí, Beto e seus amigos têm um time competente e com uma característica marcante: todos usam Kichute. Cria-se, então, o clubinho Meninos de Kichute, e a nostalgia sentida pela melhor época da vida rende comparações a clássicos do tipo como “Os Batutinhas” (Penelope Spheeris, 1994) e “Conta Comigo” (Rob Reiner, 1986).

Na cativante e divertida história que não se limita a contar as coisas que acontecem dentro das quatro linhas do campo – as alegrias e as tristezas vividas por uma família humilde de um bairro do interior do Brasil são brilhantemente interpretadas por Beto, pelo pai, irmãos e pela mãe (Vivianne Pasmanter) – o destaque fica para as crianças em pleno trabalho de atuar. Lucas Alexandre e uma pancada de crianças (a maioria, meninos) dão o toque ingênuo e incrivelmente real às tramas de um tempo em que era normal cantar o Hino Nacional antes das aulas de Educação Moral e Cívica começarem, colecionar figurinhas do álbum Brasil Pátria Amada, ver as “reportagens” ufanistas do programa do Amaral Netto e ter de encarar as gracinhas dos colegas de classe por ter um tio bicha ou um pai alcoólatra, tempos em que ninguém usava palavras como gay ou bullying.

O trabalho de pesquisa para compor a cenografia, figurinos e trilha sonora também é digno de nota. Soou muito natural, em “Meninos de Kichute”, a casa velha de madeira – com fogãozinho vermelho na cozinha, local onde a família precisava improvisar também a beliche para dois irmãos dormirem –, o colégio, o campinho, as roupas simples e curtas e os próprios Kichutes nos pés da meninada. É uma delícia assistir ao filme ao som embalado também daquela época, iniciado por “Fio Maravilha”, de Jorge Ben, e que conta ainda com “Que Fim Levaram Todas as Flores”, dos Secos e Molhados, “Giramundo”, d´Os Incríveis, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, do gênio Sérgio Sampaio, “Eu Vou Rifar Meu Coração”, de Lindomar Castilho, e “Marcas do Que Se Foi”, dos The Fevers.

Por fim, a história de Beto sonhando em ser apenas um goleiro acaba sendo a história de uma geração brasileira, de garotos que, ainda que pobres, ainda que de família humilde, viveram extremamente felizes a sua infância. Entre os ligeiros cem minutos de duração de “Meninos de Kichute”, ainda cabe pontuar a atuação competente de Arlete Salles no papel de Leonor (vizinha que toca sanfona, toma cachaça e dá dinheiro para Beto comprar figurinhas), as pontas hilárias de Mário Bortolotto, Paulo César Pereio e do próprio Márcio Américo, e ainda uma cena inesquecível, a de quando Beto está internado no hospital após quebrar a perna num atropelamento, momento em que divide quarto com o Velho Goleiro, ex arqueiro do Londrina, Juventus, Vitória e outros times, que tece ensinamentos para o menino do kichute.

“Se você quiser ser goleiro, não pode ter medo e ser diferente. Se quiser ser igual, vai pra linha, tem mais nove feito você. Goleiro tem a sua própria área, uniforme único, número um. E só o goleiro pode voar”, diz o Velho Goleiro, interpretado pelo ator e professor de teatro Luthero de Almeida. Simplesmente um brinde para os amantes do futebol em plena Copa do Mundo.

MENINOS DE KICHUTE
O filme fica em cartaz na cidade até quarta-feira da semana que vem, sempre às 13h45, no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping

*Texto publicada quarta-feira (11) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Lição da juventude

Por Wilame Prado

Que pessoas saudáveis! Que gente bonita! Jovens e mais jovens. Peles claras – sem maltrato –, olhos que brilham. Moças com cabelos sedosos e lisos, extremamente lisos. Homens com cabeçorras, barbas por fazer, na moda, e uma pele que denuncia uma vida de infinitas horas de videogame no apartamento, que lazer, vida mansa, tudo na paz. Geração 2000.

Eles, esses jovens que invadem inevitavelmente o universo de minha visão mediada pelas lentes dos óculos contra miopia, já estão no boteco, já descobrindo os prazeres causados por alguns copos inocentes de cerveja, talvez um baseado e até algumas carreiras para mais tarde. Uma juventude bonita e equipada, alguns já com a posse de veículos, outros com caronas garantidas de volta para casa. Eles parecem se divertir à beça.

Daqui do boteco, vê-se gente pobre, classe média e gente rica. Não importa, a democracia chegou: todos têm Instagram e Whatsapp. A noite é singela. O bar, lotado. A luz do refletor ilumina de laranja um momento único, parecido com o pôr do sol. Mas ninguém percebe. A democracia é cega perante aos fatos poéticos da vida. Não há poesia dentro da tela de um celular. Eles estão na busca pelo selfie perfeito, na pose, sendo poser, todos têm amigos, afinal, e ainda bem, todos têm histórias para contar, todos são engraçados, e bonitos.

Quantas aventuras e peripécias ainda narrarão na mesa do bar? E como eles riem, como são brancos os dentes deles, como é ingênua a felicidade deles, mas eles estão certos, todos certos. Querem mais é extravasar. Mas, então, não me aguento. Chamo o garçom. Pergunto para ele, que parece ter vivido um pouco mais de anos de vida – assim como eu, um, naquele local, velho de 42 anos esperando um pouco do passar de vida na mesa do bar –, e faço a seguinte indagação: “É ou não é tudo isso muito engraçado?”

Sorriso amarelo, ele pergunta se vou querer outra beer. Digo que sim, e digo mais, digo que quero todas as cervejas do estoque dele, e todas as cervejas que ainda restam em cada uma daquelas mesas vermelhas do bar que recebe, gratuitamente, a atmosfera da lua e o ar fresco que deve chegar com a força do vento marítimo, eu sei lá. Finalmente admito a brincadeira, e o garçom sai de perto de mim, sério e espantado. Tenho certeza de algumas coisas: ninguém daquele boteco percebeu a lua mais bonita dos últimos dias e o vento mais refrescante da última estação que se faziam presentes naquele local. Era espetacular, e aquela sensação, uma espécie de beira-mar em pleno bar numa cidade onde jamais existiu praia, também nunca foi registrada em rede social alguma.

Então eu me levanto. Rio comigo mesmo. Soa sarcástico, mas está tudo bem, ninguém percebe a presença do tio ali, pensava eu, transformei-me num ser invisível, o que pode ser bom, dependendo da situação. Só que, inesperadamente, um rapaz muito forte e jovem – daqueles que se aproveitam das tardes amenas para malhar, tomar suplementos e treinar lutas marciais – andou a passos largos e rápidos em minha direção. Parecia furioso, e olhou poucos segundos bem no fundo dos meus olhos. Sem reação alguma, apenas senti uma ardência em meu rosto e um medo muito grande de ficar cego por conta das lentes dos óculos estraçalhadas e engalfinhadas por toda a minha face. Devo ter levado uns sete ou nove socos até ter dado o tempo de garçons e jovenzinhos ao redor conseguirem segurar aquele brutamontes enraivecido.

Ainda ao chão, roupa empoeirada, cara lavada de sangue, uns 30% da visão não comprometida pelas lágrimas, sangue, suor e lente em cacos, finalmente pude encarar o cidadão que se viu no direito de me espancar em praça pública, tal qual o escravo no tronco aguardando a ardência do açoite. E então finalmente entendi o acontecido: ele, sentindo-se um representante desta juventude bonita e de cabelo liso, deve ter percebido tudo. Ao contrário do garçom, o fortinho notou que eu denunciava toda aquela comédia que é a vida em cena, em falsete, naquele boteco carregado de jovens com pele sem maltrato, cheios de dentes brancos e prontos para o manuseio correto de smartphones. Quis ele, o moço da academia e das lutas, fazer justiça com as próprias mãos.

Não pude conter o riso, mesmo com as dores, mesmo com toda aquela aparente humilhação, que, estranhamente, não sentia. Só que quando ele me viu sorrindo novamente, óculos destruído ao chão, garçom dando guardanapo para limpar sangue da boca e do nariz, aí, meu amigo, ninguém conseguiu segurar a fúria desta juventude bem alimentada, principalmente pelos suplementos vendidos na academia. Foi soco e pontapés para todo lado. Acordei na Santa Casa, na manhã do dia seguinte, rodeado por alguns familiares, aparentemente assustados.

*Conto publicado terça-feira (3) na Coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Conversas sobre contos e novos autores

Gallo: contista vencedor do Sesc de Literatura

Gallo: contista vencedor do Sesc de Literatura

Por Wilame Prado

Aos poucos, Maringá e outras cidades do interior do Estado vão conhecendo de perto quem são os autores em plena atividade no País. Agora, chegou a vez de saber quem é o contista paulista Rafael Gallo, 32 anos, autor de “Révellion e Outros Dias” (Record, 160 páginas, R$ 30), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2012.

Com a proposta, este ano, de apresentar vencedores do Sesc de Literatura, o Autores & Ideias chega à sua segunda rodada esta semana, trazendo, às 20 horas de hoje, no Sesc, um bate-papo entre Gallo e um outro contista, o jornalista curitibano Luís Henrique Pellanda, autor de “O Macaco Ornamental” (contos). O encontro literário esta semana irá também para Paranavaí, Londrina e Cornélio Procópio.

Gallo conta que já está trocando e-mails com Pellanda para afinar os encontros no interior paranaense. E adianta: não fará nenhum maringaense sair de casa – em mais uma noite possivelmente fria de Outono – para ouvir abobrinha. “Acho que as conversas poderão ser muito divertidas, mas também embasadas e substanciais. Acho que quem for assistir não vai se decepcionar com balelas chatas ou palhaçadas vazias; nós dois nos preocupamos em realizar algo que faça valer o tempo que as pessoas dedicaram a nos ouvir. ”

Ele falou ao Diário sobre aquilo que mais lhe dá prazer na literatura: ler e escrever contos. A começar por “Révellion e Outros Dias”, coletânea de dez contos laureada no prêmio do Sesc, automaticamente agraciada com uma publicação na maior editora do País e, consequentemente, elogiada por outros escribas.

Marcelo Coelho, cronista da Folha de S. Paulo, por exemplo, teceu: “(Gallo) não tem medo de temas difíceis. (…) As palavras não ditas, as possibilidades que nunca se realizam. As palavras que não podem ser pronunciadas, as possibilidades que nunca deveriam ter-se realizado. Temas como estes constituem o fugitivo fundamento dos contos; palavras e possibilidades não faltam, todavia, a seu autor, no caminho para construir uma obra literária de notável sensibilidade.”

As relações humanas, vinculadas pelos laços familiares ou amorosos, são obsessões do contista que atualmente trabalha na capital paulista como professor universitário de produção musical, mas que mora em Bauru-SP, onde é casado. No livro de estreia, conta, a ideia foi aproximar o olhar, por meio da prosa curta, e tentar desmitificar muito daquilo que se passa entre o envolvimento de pessoas. “É um livro que perpassa desde situações mais dramáticas, como nos contos ‘Espiral’ ou ‘Violentada’, que tratam de temas delicados como incesto e estupro; até contextos mais bem-humorados como, em ‘O vendedor’, em que o protagonista vende e troca seus próprios órgãos em um comércio constante de si mesmo”, explica Gallo, que, assim como Pellanda, trará livros para vender aos interessados, devidamente autografados.

Prestes a concluir a segunda obra, a ser lançada em 2015, o contista defende o conto com argumentos consistentes, algo que concluiu não apenas escrevendo, mas lendo muita narrativa breve de Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Julio Cortázar, e, mais recentemente, de José Luís Peixoto e João Anzanello Carrascoza. “Contos possibilitam criar histórias com alto poder de concentração dramática, com um ritmo e um nível de foco com o qual me sinto à vontade. Além disso, gosto de poder colocar em prática a criação de várias histórias bastante diferentes entre si, em um tempo menor do que o levado para consumar um romance.”

PAPO
AUTORES & IDEIAS

2ª RODADA
Bate-papo com Rafael Gallo
e Luís Henrique Pellanda
Onde: Sesc (Avenida Duque de Caxias, 1.517, Zona 7)
Quando: hoje
Horário: 20h
Entrada franca
Informações: (44) 3262-3232

*Reportagem publicada domingo (1º) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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