Mês: julho 2014



Beleza que o nazismo não viu

Ratcheva Chaves 2

Por Wilame Prado 

O músico alemão Paul Hindemith (1895-1963) fugiu da Alemanha por ser genial. Uma de suas genialidades é a “Sonata Op. 11 nº 4”, uma das obras que compõem o programa musical do duo formado por Jairo Chaves (viola sinfônica ou viola de arco) e Irina Ratcheva (piano), atração de hoje pelo Convite à Música, no Teatro Luzamor, às 20h30. A entrada é franca.

“Os nazistas chamavam de arte degenerada tudo aquilo que era moderno. A ‘Sonata Op. 11 nº 4’, de Hindemith, fez parte de uma mostra de arte degenerada promovida pelos nazistas. Na oportunidade, um judeu executou a obra de Hindemith para que fosse dado o exemplo daquilo que seria proibido de ser tocado na Alemanha. Logo depois, o judeu foi levado para um campo de concentração. Hindemith foi para os EUA. A sonata é maravilhosa, no entanto”, explica Jairo Chaves, conhecido dos maringaenses por já ter se apresentado duas vezes por aqui com o Duo Jacarandá.

Agora, ao lado da pianista búlgara radicada em Londrina Irina Ratcheva, o primeiro violista da Orquestra Sinfônica da UEL executará no concerto apenas obras originalmente compostas para viola e piano.

No programa, um passeio que começa no Barroco até chegar ao Modernismo –, além de Hindemith, o duo tocará Bach, Vieuxtemps, Debussy e Guerra-Peixe, em comemoração aos 100 anos de um dos compositores brasileiros de maior expressão.

Chaves também tem uma história para contar sobre “Três Peças”, obra de Guerra-Peixe para viola e piano que poderá ser ouvida amanhã no Luzamor: “Um violista húngaro fugiu da guerra e veio para o Brasil. Por aqui, encontrou Guerra-Peixe, que entrou com o piano para compor ‘Três Peças’.”

Com um entrosamento de 28 anos de parceria, o duo já conquistou inúmeros prêmios, dentre os quais primeiro lugar no 9º Concurso Jovens Instrumentistas do Brasil, em 1987 e primeiro lugar no Concurso Internacional “Honorina Barra”, em 1999. Em 2001, Chaves e Irina gravaram o primeiro CD do duo: “A Viola, o Piano, o Tempo”, com obras de Piazzolla, Hindemith, Guerra Peixe e Debussy. Irina Ratcheva, que é pianista da Orquestra Sinfônica da UEL desde 1996, atua como produtora e coordenadora da Orquestra de Câmara Solistas de Londrina.

Para o violista, a sintonia entre ele e a pianista – aliado ao fato de que os dois instrumentos se complementam muito bem harmonicamente – propiciará uma boa estreia do duo em solos maringaenses. “A viola sozinha não faz chover, precisa de um acompanhamento, e o piano, desde o século 18, vem tradicionalmente acompanhando não só a viola mas todos os instrumentos melódicos, que só tem uma voz, como o violino, a flauta, o violoncelo e a viola.”

PARA OUVIR
DUO JAIRO CHAVES E
IRINA RATCHEVA
Quando: hoje
Horário: 20h30
Onde: Teatro Luzamor (Rua Neo Alves Martins, 1.704, Zona 1)
Entrada franca

PROGRAMA
Sonata para Viola e Piano (BWV 1029), em Sol menor, de Johann Sebastian Bach
Elegie (Op. 30), de Henri Vieuxtemps
Três Peças para Viola e Piano, de César Guerra-Peixe
Romance e Beau Soir, de Claude Debussy
Sonata para Viola e Piano (Op. 11 nº 4), de Paul Hindemith

*Reportagem publicada quarta-feira (30) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Ver para crer no museu de São Tomé

Moradores, pioneiros e autoridades em frente à Casa da Cultura, onde será instalado o primeiro museu de São Tomé

Moradores, pioneiros e autoridades em frente à Casa da Cultura, onde será instalado o primeiro museu de São Tomé – Fotos de Cláudio Santeja

Por Wilame Prado

Tomé precisava ver para crer. O são-tomeense também. E agora, após 53 anos de fundação, o município de São Tomé (a 90 quilômetros de Maringá) finalmente está prestes a ver o seu primeiro museu.

Na manhã do último sábado, a equipe do Museu da Família (MF) e a prefeitura municipal – com apoio do Instituto Cultural Ingá (ICI) e da Usina Santa Terezinha – fizeram o lançamento oficial do Programa Primeiro Museu na cidade, que hoje tem pouco mais de cinco mil habitantes.

Cerca de 150 moradores pioneiros foram até o salão paroquial para conhecer o projeto e também contar um pouco mais da história da comunidade e da família de cada um. Na visita, o MF conheceu a Casa da Cultura de São Tomé, local desativado e que passará por reformas para, ainda este ano, transformar-se no primeiro museu físico do município. Imagens aéreas com um drone foram registradas no momento em que os pioneiros deram um abraço coletivo no local que vai preservar a história da localidade.

Pioneira Maria Comprida participa do lançamento oficial do Primeiro Museu em São Tomé

Pioneira Maria Comprida participa do lançamento oficial do Primeiro Museu em São Tomé

O clima de emoção contagiou a todos, inclusive o prefeito Arlei Hernandes, filho de pioneiros de São Tomé e que não segurou as lágrimas quando o Grupo Harmonia – coral da terceira idade – cantou “Chico Mineiro”, de Tonico e Francisco Ribeiro, e “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense. “Vamos, finalmente, poder resgatar a nossa história. É inevitável não nos lembrarmos, neste momento, dos moradores que ajudaram a construir esta cidade e que hoje já não estão aqui conosco.”

A chefe de Cultura de São Tomé, Antonia de Moura, organizou uma espécie de mini museu no local, revivendo o cenário de uma casa simples de um morador do sítio de décadas passadas. O rádio de pilha, a enxada, o filtro de barro, o fogareiro e as ferramentas para a lida do campo propiciaram um clima de rememorações afetivas de um tempo que precisa ser preservado por meio da museologia. “Vi a alegria de cada pioneiro ao ser lembrado de que teria a chance de contar a sua história relacionada a São Tomé”, conta ela, que ainda contou com inúmeras fotografias antigas levadas pelos pioneiros para compor o cenário nostálgico.

O diretor do MF, Marcelo Seixas, explica que, dentro de um mês, os moradores de São Tomé poderão conferir uma página da internet com o museu virtual da cidade. Além disso, os moradores interessados em preservar a história de sua família receberão login e senha para abrirem uma página do Museu da Família. “A história de cada um é muito importante, mas não caberia em um só museu. Por isso, queremos atender ao direito da memória de cada um por meio do acesso de cada morador no Museu da Família.”

Famílias inteiras interagem com mini museu que retratou casa antiga do campo

Famílias inteiras interagem com mini museu que retratou casa antiga do campo

ONLINE
MUSEU DA FAMÍLIA
Conheça os projetos do Instituto Museu da Família no site:
www.museudafamilia.org.br

*Reportagem publicada nesta terça-feira (29) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Tristeza no jantar

Por Wilame Prado

O pai ficou triste na hora do jantar. Não era a primeira vez que a sua mulher e a sua filha desrespeitavam a mesa sem sequer perceberem tal atitude. Naquela noite de sábado em especial, veja só, ele estava se sentindo confortável com uma felicidade passageira que chegou como a poeira levada pelo vento e que também se vai ao primeiro olhar. Estava gostando do clima, da calmaria. Sentia vontade de agradecer a Deus por poder, em mais um final de semana, estar próximo da família, com comida na mesa, televisão para assistir mais tarde, uma boa cama para se deitar finalmente. Sensações desmanchadas quando notou o desdém que as duas dedicaram às esfihas de carne, queijo, frango e chocolate compradas por ele no disque entrega do bairro, com preço mais acessível que os praticados no centro, nos shoppings e nos restaurantes chiques.

Havia contas a pagar, afinal. A situação financeira da família estava difícil de ser controlada porque ele havia retornado ao mercado e se sujeitado – regras do jogo – a ganhar muito menos do que ganhava na empresa anterior, onde cumpriu expediente religiosamente ordeiro por mais de dez anos antes de ser dispensado. Sentia-se culpado. Percebia (ou seria paranoia?) o olhar de cobrança da mulher e o ar de desprezo da filha quando anunciou a “boa nova”: o fim do desemprego, o cargo de vendedor na loja de departamento e a necessidade de se acostumar a receber ordens e não o contrário, como fazia anteriormente quando era gerente de setor.

Na madrugada, sozinho na sala, permitindo-se uma dose ou duas, colocou em perspectiva tudo aquilo que aconteceu nas horas recentes e que o deixou para baixo: esfihas entregues, mesa posta, comida em cima da mesa, ele tardando alguns minutos para se sentar, a mulher e a filha já devorando pedaços de massa de farinha e água com carne e cebola em cima, as duas falando meio que com a boca cheia, criticando o gosto, a temperatura, a gordura, a imensa quantidade de cebola, a pouca quantidade de carne, e ele ali, ainda de pé, sem sequer ter se sentado à mesa para o jantar de sábado com a sua família, e ouvindo, “a esfiha lá de não sei onde é bem melhor”, “essa esfiha é horrível”, “está fria”, “pega o refrigerante para mim?”, “vou comer a doce já, porque não quero mais dessa salgada ruim”, “credo, que chocolate podre”, “parece manteiga”, “pai, não dá nem pra comer”, “pelo amor de Deus, por que inventou de comprar esfiha neste lugar?” etc.

Em dez ou quinze minutos, a filha foi escapando rapidamente em direção ao quarto, ao encontro do smartphone ou do computador (ele não sabe) e justificando a necessidade de prosseguir com os estudos para o vestibular que estava próximo. E a mulher, alegando cansaço e dor em algum lugar do corpo, foi para o sofá e até que se distraiu um pouco com o humorístico da TV antes de finalmente ir para a cama. E ele, ia perdendo a fome diante da mesa, solitário, esfihas espalhadas nos pratinhos de papelão, copos sujos, uma mancha de molho de pimenta bem ao lado da sua mão direita, na toalha quadriculada, e o fim, por completo, daquela breve sensação confortável de felicidade que havia sentido antes daquele jantar malfadado de sábado à noite.

Antes de se deitar, o triste pai pensou que não era assim que as coisas deveriam acontecer em um jantar de sábado à noite com a família. Antes das críticas, deveria haver agradecimentos, sorrisos fraternos e a reunião de todos iniciando e terminando juntos a nobre tarefa de saciar a fome, de receber os alimentos que propiciam forças e energias para se continuar vivendo e, mais que isso, prazer pelo ato de comer. Elas nem perceberam a tristeza do pai. E ele preferiu não fazer comentário algum, estava cansado. Ao fim da bebida, na calada da noite, prestes a encostar a cabeça no travesseiro, ele finalmente se lembrou do motivo que o fizera comprar esfihas para o jantar daquele sábado em família, em vez de requentar as sobras do almoço.

Caso elas tivessem esperado para que todos jantassem juntos diante da mesa, ele iria dizer para a sua mulher e para a sua filha que estava se esforçando muito no novo emprego, que havia sim dificuldades, que havia sim, por ora, menos dinheiro entrando como remuneração, mas que ele, pelo contrário, não havia perdido as forças, sequer as esperanças de que, com a ajuda da família, conseguiria sim superar as dificuldades, conseguiria crescer na nova empresa e que, não tenha dúvidas, voltaria a ser um gerente de setor, para que pudessem, ele, a mulher e a filha, retomarem rapidamente a qualidade de vida de outrora dentro daquele lar.

Às oito horas da manhã de segunda-feira, à espera dos clientes dentro da loja, ele já não tinha tanta certeza assim de que conseguiria se reerguer profissionalmente.

*Conto publicado terça-feira (22) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Vale bem mais que 2,99

Caricatura de Marcio Renato dos Santos que faz parte do projeto gráfico das Tulipas Negras para "2,99"

Caricatura de Marcio Renato dos Santos que faz parte do projeto gráfico das Tulipas Negras para “2,99”

Por Wilame Prado

O cotidiano das cidades é prato cheio para quem procura histórias a serem contadas por meio dos textos. O difícil é enxergá-las. Nem tanto para Marcio Renato dos Santos, 40 anos, que lançou recentemente em Curitiba “2,99” (Editora Tulipas Negras, R$ 30, 120 páginas). Para o seu terceiro livro de contos, o curitibano se apropriou do olhar treinado de repórter – profissão exercida por vários anos nas redações da revista Ideias (Travessa dos Editores) e no Caderno G (Gazeta do Povo) – para enxergar a ficção literária que o cotidiano revela.

Os 16 contos curtos do livro revelam personagens em práticas cotidianas atípicas, a exemplo dos Gattelli, do conto “Segredo de família”, que sabem da importância de se haver anões se relacionando com as mulheres da família para que haja prosperidade nos negócios; ou então dos bigodudos envolvidos no concurso semanal de imitadores de Paulo Leminski, no conto hilário “A noite está velha”, que, de uma maneira muito sutil, com as aventuras envoltas ao anti-Leminski, critica a cena, a pose, as modinhas literárias. O que dizer do conto tragicômico “O Souza da Ilha”, que narra a história do Souza, vendedor há 20 anos de batidinha no litoral e que diz, para o mesmo cliente, na beira da praia, a mesma frase, dez ou quinze anos depois do primeiro encontro: “A Mega está acumulada. Dessa vez eu ganho.”?

É como se Santos, que atualmente trabalha na equipe editorial da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, incorporasse seu lado repórter apenas para o deslocamento do olhar e, no momento em que finalmente coloca as histórias no papel, se deixasse levar pela liberdade de invenções que a prosa oferece. O resultado disso são contos sucintos, brilhantemente claros graças à facilidade que o autor tem de contar uma história por meio do texto e, em certa medida, engraçados. Certa medida porque, a depender da avaliação que se faz quando se olha um cotidiano aparentemente absurdo, pode-se concluir o quanto de loucura há na vida dos mais comuns dos homens que vivem nas cidades.

Tal qual um simples artigo do cotidiano vendido em lojas a preços fixos e populares – R$ 1,99, R$ 2,99, R$ 3,99 – o autor aparentemente oferece seus contos sem preocupações, sem ambições. E justamente pelo fato de conseguir ser simples ao contar histórias engraçadas envolvendo lugares comuns com pessoas estranhas, ele tem alcançado um grande – senão o maior – objetivo com os contos publicados: leituras. Além dos conhecidos, jornalistas, professores e um público que adquire o livro nos lançamentos e nas livrarias, “2,99” vem sendo recomendado como leitura em colégios da capital e de cidades próximas. Certamente auxiliará para que alguns jovens criem o hábito da leitura.

ISTO É MARCIO RENATO DOS SANTOS
“Enquanto o Alberto, o Bernardo, o César, o Daniel, o Ferdinando, o Gastão, o Hamilton e outros tantos devem ter vindo ao mundo com uma missão, talvez destinados a construir algo, aterrissei por aqui a passeio ou, com mais precisão, a descanso. Vim para beber, me embriagar e viver aquele estado no qual a razão não tem vez.

Beber todo dia, toda noite, me trouxe dor de cabeça. A sensação dos primeiros goles é prazerosa, mas nos minutos, horas, copos e garrafas seguintes o que se entende por raiva toma conta do que sou. Já perdi o controle e me envolvi em conflitos por causa do consumo de álcool. Briguei, bati, apanhei, mais apanhei do que bati, e os efeitos foram irreversíveis. Afastei-me de amigos, desfiz casamentos, inclusive o meu, e escapei de balas disparadas por armas de fogo contra o meu corpo.

O que me trouxe mais problemas foi a minha covardia no mundo físico, que se transformou em uma coragem relativa, na realidade da internet. Apesar de cordial, de sorrisos, bom dia, oi tudo bom? tudo bem? – ao beber, me transformo em um sujeito hostil, talvez o ser agressivo real, que eu camuflo e dissimulo para sobreviver.

Já havia lido, na internet mesmo que, se beber, não tecle; se beber, não entre nas redes sociais. Mas entrei, bêbado, por diversas vezes, na internet, em especial, no facebook.”
///Trecho do conto “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni”, do livro “2,99”, de Marcio Renato dos Santos

ESTANTE

JPG72 capa 2,99

2,99
Gênero: contos
Autor: Marcio Renato
dos Santos
Editora: Tulipas Negras
Páginas: 120
Preço: R$ 30
Onde comprar: www.livrariascuritiba.com.br

ENTREVISTA

Primeiramente, por que resolveu levar o “2,99” para várias escolas

MARCIO RENATO DOS SANTOS – Meu segundo livro de contos, o “Golegolegolegolegah!”, publicado pela Travessa dos Editores, em 2013, teve leitura em escolas, sobretudo em alguns colégios do Sesi, na unidade do bairro Boqueirão, em Curitiba, e na unidade de Araucária, na região metropolitana de Curitiba. Agora, a Ana Paula Galkowski, coordenadora do Colégio Sesi de Castro, apresentou o “2,99” aos alunos do Colégio Sesi de Castro. Sessenta alunos vão ler o “2,99” nas férias e, em agosto, devo bater um papo com eles. É sensacional, não é? Dia desses, um aluno que leu “Golegolegolegolegah!” me contou, pelo Facebook, que comprou, leu e gostou de “2,99”. Que tal? Isso é uma beleza. Os meus livros circulam entre escritores, jornalistas, professores e, enfim, não sei exatamente quem lê a minha ficção. Mas ter a oportunidade de ser lido por alunos do ensino médio e, em seguida, conversar com os alunos sobre a minha obra literária é algo sensacional. Para mim, é quase um milagre. E penso que a leitura de ficção contemporânea pode ser estimulante para esses alunos do ensino médio.

Uma curiosidade: como é a vida aí na capital plenamente envolvido em trabalhos envolvendo jornalismo e literatura? Produzir o Cândido, trabalhar na Biblioteca Pública do Paraná, tudo isso tem auxiliado ou atrapalhado sua produção de ficção?

Estreei na ficção com “Minda-au”, livro de contos publicado pela Record em 2010. Naquela época, eu trabalhava na Gazeta do Povo, no Caderno G. Os contos de “Minda-au” foram escritos de 2007 a 2008, período no qual eu já estava no jornalismo diário. Escrevo ficção desde 1986, quando comecei mesmo a ler ficção e poesia todo dia. Se teve um marco? Eu passava férias na casa do meu tio Luiz, que morava em Maringá — hoje ele mora em Camboriú. Naquelas férias de 1986, li, na casa dele, em Maringá, “Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva. Até então, eu lia os livros na escola, em casa, mas aquele livro do Marcelo Rubens Paiva me tocou muito. A dicção contemporânea, a prosa fluente e trama insinuante me pegaram. Em seguida, procurei outros livros. Continuo até hoje, 2014, em busca de mais livros. Leio todo dia. Mais de um livro ao mesmo tempo. E foi a partir das leituras que comecei a escrever. Em 2000, passei a colaborar, como resenhista, com o Rascunho e até 2010 escrevi uma resenha por mês, isso durante uma década, no Rascunho. Só parei de resenhar por que a Record lançou “Minda-au”, o meu primeiro livro. Demorei para procurar editora. De 1986 até 2008, 2009, escrevia todo dia, lia todo dia, sem pensar em publicar livro. Foi por volta de 2008, 2009, que pensei em enviar um original para uma editora. E escolhi a Record. Enviei “Minda-au” e a Luciana Vilas-Boas, então diretora-editorial, decidiu publicar o livro. Depois, publiquei o segundo livro, também de contos, “Golegolegolegolegah!”, pela Travessa dos Editores, em 2013. Este ano, publiquei, em maio, o “Dicionário Amoroso de Curitiba”, pela editora Casarão do Verbo, da Bahia — é um projeto no qual um escritor de cada uma das cidades-sedes da Copa 2014 escreve um livro com verbetes sobre a cidade. E, em junho, publiquei pela Tulipas Negras esse “2,99”. Tudo isso pra te dizer o seguinte: a vida segue, trabalho e leio e escrevo ficção. Até maio deste ano deu certo. Faço, entre outras atividades, as matérias para o Cândido, trabalho na Biblioteca Pública do Paraná e, em casa, à noite, e de madrugada, acontece a ficção. Pelo menos até maio deste ano. O resto eu conto em outra pergunta, aguarde.

Produz também prosas mais longas ou é um defensor convicto do conto, e por quê?

Somos frutos do meio no qual nascemos? Não sei. Sei que nasci dia 28 de abril de 1974 em Curitiba, a terra do conto. Paraná, terra de Newton Sampaio (1913-1938) – ele nasceu em Tomazina, o primeiro autor moderno do Paraná, contista, a respeito de quem fiz uma dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Paraná em 2005. O Dalton Trevisan foi leitor do Newton Sampaio, e fez menção ao autor na revista Joaquim, que o próprio Trevisan editou entre 1946 a 1948. Nasci e moro em Curitiba, cidade do Dalton Trevisan, um mestre do conto. Convivi com Jamil Snege (1939-2003), outro mestre do conto. Também convivi com Wilson Bueno (1949-2010), que foi um excelente contista. Leio romance, poesia, não ficção e leio conto. Talvez eu tenha começado, em 1986, a escrever conto por causa dos livros do Dalton Trevisan. Admiro muito os contos do Machado de Assis, do Antonio Carlos Viana, do Sergio Faraco e do André Sant’Anna. Dizem que conto não vende? Mentira. Claro que vende. Dizem que poucos leem conto? Mentira. Há muito público para o conto. Eu continuo a responder essa pergunta ao longo das próximas respostas, combinado?

O que almeja, ou pelo menos imagina almejar, com os textos publicados em “2,99”?

Eu gostaria que os textos de “2,99” fossem lidos. O livro está à venda nas lojas da Livrarias Curitiba, na Livraria Poetria Livros, em Curitiba, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba e no Sebo Kapricho II, em Curitiba. É possível adquirir por meio da internet, é bem fácil. O livro custa R$ 30. Essa matéria que você está fazendo vai proporcionar visibilidade ao “2,99”. O resto, você vai ver, respondo na próxima pergunta.

Pode me explicar o motivo do nome do livro, e peço perdão se essa informação estiver no release (estou longe dele).

O meu primeiro livro se chama “Minda-au”, foi publicado em 2010 pela Record. “Minda-au” teria sido, dizem os meus pais, a primeira palavra que pronunciei, ao olhar para um quadro de um dromedário, obra de minha avó Diva, já falecida. Depois, em 2013, lancei “Golegolegolegolegah!” pela Travessa dos Editores. “Golegolegolegolegah!” trata da incomunicabilidade e pensei num título impronunciável. Segui escrevendo e reuni alguns contos para o que seria o meu terceiro livro, o “2,99”. Nesse meio tempo, fui convidado, pelo Rosel Soares, da Casarão do Verbo, para escrever o livro “Dicionário Amoroso de Curitiba”, com verbetes sobre a capital do Paraná. Durante 2013, escrevi os verbetes para o “Dicionário Amoroso de Curitiba” e também os contos de “2,99”. Se você olhar a contracapa de “2,99”, vai ver o número 3. Esse livro de contos seria o meu terceiro livro, daí o número 3. Mas, também, escolhi “2,99” para fazer alusão às lojas de 1,99 e 2,99: os contos fazem alusão a situações do cotidiano. Às vezes, é um cotidiano no qual uma família prospera no comércio pelo fato de as esposas dos negociantes se entregarem a anões (confira o conto “Segredo de família”). À vezes, é um cotidiano no qual são realizados concursos de imitação do Paulo Leminski e o melhor candidato é o anti-Leminski (veja no conto “A noite está velha”). Às vezes, o sujeito trabalha na profissão mais feliz do mundo, autuário (isso de acordo com pesquisa recente), mas é infeliz (dê uma olhada no conto “Jimi Hendrix”). O cotidiano, mesmo que surreal, está recriado nos contos de 2,99. Por isso o título: para fazer alusão às lojas que vendem produtos do cotidiano.

Leio algumas informações sobre o livro na internet. E me deparo com este parágrafo, a respeito de um dos contos: “… Outros não conseguem sair do itinerário casa-trabalho, trabalho-casa”. Cara, a vida cotidiana, comum a várias pessoas, é algo que o motiva a escrever de maneira irônica, dramática ou escrachada?

O cotidiano pode parecer chato, pode parecer uma prisão, onde nada muda, mas tudo está em transformação, o tempo todo. O cotidiano é o melhor dos mundos. O trecho que você citou pode ser atribuído ao conto “Rastros”, no qual o personagem sua e o cheiro incomoda apenas a ele. O conto mostra um dia na vida do sujeito que se incomoda em suar, apesar de não fazer, em tese, quase nada. Não sei dizer se escrevo de maneira irônica ou dramática. Algumas pessoas que leram, me disseram que os contos de “2,99” são engraçados por causa da ironia, de um efeito de humor. O André Sant’Anna, um escritor brilhante, leu “2,99” e escreveu o texto que está na orelha. O texto dele ajuda a entender o livro. Eu não sei dizer algo sobre o que escrevo. Sei que “2,99” está sendo bem recebido, tem mais leitura dos que os livros anteriores. Já concedi entrevista para uma rádio de Minas Gerais. Pela primeira vez estou sendo entrevistado por um jornal de Maringá. Veja só! O livro circula. É uma alegria imensa tudo isso. Te agradeço, demais, por se interessar pelo meu livro, pela minha ficção. Obrigado, muito obrigado.

Situações cotidianas são inspirações para a literatura? E o que mais?

Um escritor, amigo, que mora em São Paulo leu “2,99” e disse que “2,99” é surreal, que eu flerto com o surrealismo. Será? Não sei. Mas se o escritor disse, talvez possa ser. Será? No conto “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni”, que foi traduzido para o alemão e está na coletânea Wir sind bereit, publicada na Alemanha no ano passado, e agora em “2,99”, o personagem vivia perdido por causa do consumo de álcool, até que desiste de beber e prospera — esse é o segredo dele. Mas, em seguida, ele está diante de um garçom e pode pedir um drink e, se beber, destruir a vida. Ele vai beber? Não vou contar mais nada, é o desfecho do texto. Esse conto é sobre o cotidiano? Ou surreal? Ou algo que dialoga com o mundo dos sonhos? Nos contos “Uma jornada particular”, “Caminho de Santiago”, “Jobs” e “Fantasmas”, os personagens não sabem mais qual o limite entre realidade, sonho e pesadelo. Nos últimos cinco anos, vejo toda noite um filme, sobretudo do Federido Fellini, mas também vejo e revejo filmes do Roberto Rosselini, do Vittorio De Sica, do Luchino Visconti, do Francis Ford Coppola. Música escuto todo dia desde pequeno. Frequento museus, principalmente o Museu Oscar Niemeyer, almoço em restaurantes por quilo, como em pastelarias, caminho pelas ruas de Curitiba. Isso tudo deve ter impacto no que escrevo.

O que esta Copa do Mundo, morando numa das cidades-sede, auxiliou em seu processo como escritor, jornalista e observador do mundo?

Torço para o Clube Atlético Paranaense. O fato de o estádio da Copa 2014 em Curitiba ser o do CAP é uma maravilha. Ainda não fui ao estádio novo, mas nesse Brasileirão de 2014, agora no segundo semestre, sem dúvida, estarei lá. Gosto muito de futebol. Em 2010, quando eu trabalhava na Gazeta do Povo, tirei férias em junho para acompanhar todos os jogos da Copa, pela televisão, em casa. Esse ano, vejo o que posso. Está sendo uma maravilha viver em Curitiba durante a Copa 2014. Tem turistas nas ruas, as pessoas, os locais, ficam mais leves e alegres, muitos assopram cornetas, tem gente com roupa verde e amarela, caminhar nas ruas em dia de jogo do Brasil é uma experiência única. Surgiram algumas ideias para contos durante esta Copa. Só não vou contar o que é por que acho que se contar, a ideia se esvazia e perde a força. Mas considero essa Copa 2014 muito inspiradora. Vou escrever sobre esse período. No próximo livro.

Quais livros gostaria de ter sido o autor? Quais escritores admira para sempre e quais estão, neste momento, em sua cabeceira, na mesa do computador, enfim…

Em geral, leio 10 ou mais livros ao mesmo tempo. Agora, estou lendo, entre outros, “Poesia Total”, do Waly Salomão; “As coisas de João Flores”, de Marco Aurélio Cremasco; “O beijo de Schiller”, de Cezar Trdapalli; “O Brasil é bom”, do Andre Sant’Anna; “Lado B”, de Sérgio Augusto; “O mais estranho dos países”, de Paulo Mendes Campos e “A origem do gênio”, de Dean Keith Simonton. Tem prosa, romance e conto, tem poesia, tem ensaio e tem crônica. Terminei de ler “Nu, de botas”, do Antonio Prata, uma obra-prima sobre a infância. Acompanho lançamentos, leio clássicos que ainda não li, releio Machado de Assis, Borges, Dalton Trevisan, Swift, Shakespeare, Drummond, Roberto Gomes, Bandeira, Guido Viaro, Guimarães Rosa, Melville, Cervantes etc. Um pouco de tudo, todo dia.

Eu quero escrever os meus próprios livros. Os livros que os outros escreveram, eu quero mesmo é ler.

Esta é uma pergunta que sempre faço, mais por curiosidade mesmo: como é o seu processo criativo? Curte escrever que horas? É cercado por manias? Por brancos criativos? Por necessidades desesperadas de por coisas no papel? Acorda no meio da noite em busca de uma caneta e papel? Enfim…

Desde 1986, quando comecei a ler e a escrever, e li e escrevi praticamente todos os dias, sem interrupção, em qualquer lugar, até abril, maio de 2014. Em casa? No computador. Em viagem? No caderno. Em férias? Caderno. Sem problemas, em qualquer lugar, em qualquer hora. Mas este ano aconteceu, pela primeira vez, um problema. Publiquei dois livros, o “Dicionário Amoroso de Curitiba”, com sessão de autógrafos dia 6 de maio e o “2,99”, lançado dia 3 de junho. Fiz a revisão e o fechamento dos livros quase ao mesmo tempo, desde o fim de abril. Veja só. Eu trabalho durante o dia na Biblioteca Pública do Paraná. Então, à noite, ao chegar em casa, a partir de abril, toda noite, me dediquei a reler e a rever esses dois livros por quase 40 dias. Fiquei e estou esgotado. Sabe o que aconteceu? Travei. Não consigo mais escrever ficção. Pela primeira vez na vida, desde 1986, estou sem escrever ficção. Ideias eu tenho, o tempo todo. Acordo para anotar sonhos. Ando e tenho ideias, paro e anoto. Almoço e tenho ideias. Tomo banho e surge uma ideia para um conto. Vou comer um pastel e tenho outra ideia. Sem parar. Só não estou escrevendo. Estou fraco, debilitado, de tanto trabalhar com os dois livros. Vamos ver se, ainda em 2014, eu consigo escrever ficção. Será? Por enquanto, quero apenas ler, dormir e anotar as ideias.

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Para matar a saudade de Laura Palmer

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Sonho memorável do agente Cooper no seriado “Twin Peaks”

Por Wilame Prado

Mesmo aparecendo morta já no primeiro capítulo de “Twin Peaks”, a bela loira Laura Palmer (Sheryl Lee) deixou saudades em toda uma geração que acompanhou as duas temporadas do seriado produzido por David Lynch e Mark Frost em 1990/1991. E não adiantou lançar, em 92, “Twin Peaks: os Últimos Dias de Laura Palmer”, filme que faz espécie de prólogo contando os últimos sete dias da jovem colegial antes de morrer. Os mistérios envolvendo praticamente todos os moradores daquela pequena cidade fictícia continuam instigando fãs espalhados pelo mundo todo.

Sabendo que esses fãs não se esqueceram do seriado hoje considerado cult, divisor de águas por misturar técnicas novelescas com técnicas cinematográficas e inspirador para toda uma leva de seriados de suspense produzidos até hoje nos EUA, a CBS e a Paramount lançam em 1º de agosto aqui no País o box “Twin Peaks: o Mistério – e as Peças que Faltam”, que contém em HD as duas temporadas completas, o longa-metragem recriado com um escâner 4K do negativo original e com partes perdidas da versão original e ainda cerca de 90 minutos só de cenas inéditas e alternativas, além de especiais nunca exibidos relacionados ao seriado e galerias que totalizam mais de 130 imagens de bastidores, vindas diretamente da coleção pessoal do próprio diretor.

Para quem nunca viu o seriado e estava quase se entregando aos episódios em péssima qualidade que podem ser vistos na internet, ou ainda às duas temporadas disponíveis no Netflix com boas imagens mas não em HD, convém aguardar mais alguns dias e aproveitar o box com cenas em alta definição e uma infinidade de informações que podem ajudar a entender o misterioso mundo de David Lynch e a sua proposta de investir em terror ao extremo, bizarrices e sonhos malucos contendo anões dançantes, gigantes aconselhadores e corujas noturnas.

O problema maior é o preço: o sugerido é de R$ 459,99 para conhecer mais de perto uma série de personagens exóticos de Twin Peaks, como o simpático agente do FBI Dale Cooper (Kyle MacLachlan) – que grava em voz tudo o que faz, o que fez ou o que viu em um gravador sempre à mão – ou então a Senhora do Tronco (Catherine Coulson) – que vive a segurar um pedaço de árvore, o qual afirma ter vida e que, vez ou outra, ouve ou vê detalhes no meio da floresta que podem ajudar nas investigações sobre a morte de Laura Palmer.

Suspense diferente
Em uma olhada desatenciosa, os aficionados por seriados sobre investigações – do tipo “Criminal Minds”, “Law & Order” e “CSI” – podem estranhar “Twin Peaks”, vencedor do Globo de Ouro de Melhor Série Televisiva – Drama em 1991. Embora seja cercado de mistérios à primeira vista não solucionáveis, o seriado de Lynch deixa em segundo plano os métodos científicos do FBI (o agente Cooper segue mais a intuição e revelações recebidas por sonhos) para atentar mais às estranhezas que envolvem o ser humano e que evidenciam as obscuridades de cada um, sempre com a lupa direcionada para o lugarejo fictício Twin Peaks – alegoria das relações corriqueiras em sociedade, nos lares, colégio, lanchonete central, hotel, casa noturna.

No seriado, a própria Laura Palmer é exemplo maior da intenção do seriado de querer mostrar aquilo que nem sempre é evidente. Se para pais e vizinhos ela não passa de uma jovem estudiosa e que pratica caridade, para o seu diário e alguns homens de Twin Peaks ela é a usuária de cocaína e cobiçada garota de programa do prostíbulo Jack Caolho. Mais que isso, Laura Palmer, no decorrer da trama, mostra-se uma garota atormentada pelas constantes investidas de Bob, personificação do diabo encarnado na pele de vários moradores, um dos personagens mais misteriosos e horripilantes já vistos em séries de TV.

Numa época em que os capítulos eram maiores – “Twin Peaks” conta com capítulos de 45 minutos, sem contar os especiais de mais de uma hora – assistir David Lynch é esperar pelo inusitado, pela ironia fina traduzida muitas vezes em bizarrices e, claro, casos de suspense e de terror da maior qualidade.

TWIN PEAKS: O MISTÉRIO
Pré-venda nas principais
livrarias onlines do País
Lançamento: 1º de agosto
Preço sugerido: R$ 459,99
Conteúdo: dez discos contendo as duas temporadas do seriado em HD, longa “Os Últimos Dias de Laura Palmer”, além de material inédito de cenas alternativas, documentários e fotos

*Reportagem publicada quarta-feira (9) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Os não-torcedores do Neymar

Por Wilame Prado

Há cinco anos, após começar a brilhar com a camisa do time profissional do Santos em plenos 17 anos de idade, Neymar Jr é assunto recorrente da mídia. De lá para cá, o jogador conquistou uma legião de fãs e desafetos também. Os rivais da equipe santista são detentores de torcidas populosas. Muitos destes, em especial, alimentam uma raiva doentia pela camisa 10 da Seleção Brasileira, e as causas dos sintomas podem ser facilmente explicadas por duas frentes: pela simulação de faltas que o atleta insiste em desempenhar, mas principalmente pela ousadia e alegria – bordão que ele eternizou em tatuagens e nas chuteiras – que resultam nos mais belos gols, nas mais belas jogadas.

Discussão velha, no entanto. Neymar já nem é o 11 do Peixe, disputou uma temporada com o Barcelona e, desde 2013, é a grande estrela do futebol brasileiro porque, ao contrário de Messi com a Argentina, chamou rapidamente para si a responsabilidade com a camisa amarela, foi peça fundamental na conquista da Copa das Confederações e, até onde pôde ajudar na Copa do Mundo deste ano, desempenhou papel crucial para que exatamente hoje, logo mais às 17 horas, possamos estar grudados à telinha assistindo a uma semifinal de copa, coisa que não víamos desde 2002, quando vimos ainda mais, um Brasil sendo brilhantemente campeão mundial.

Pensando bem, discussão velha, mas nem tanto. Tive a oportunidade de ver alguns jogos recentes do Brasil com pessoas que dizem não gostar do Neymar. Os olhos destas pessoas, quando a bola está nos pés do craque, aumentam de tamanho, assustados. Suam frio, mais do que o próprio adversário, temendo o pior, que, para eles, parece ser mesmo o êxito da jogada, o gol, a mágica, o futebol-arte. Os não-torcedores do Neymar implicam demais com ele, foram, talvez, acometidos por uma espécie de trauma após verem seus times tanto sofrerem com os pés deste menino de só 22 anos. Quando dribla genialmente, eles dizem que Neymar é fominha. Quando faz um gol – e só na copa foram quatro – olham de lado, comemoram com menos entusiasmo e geralmente dão crédito para quem passou a bola para ele concluir com bola na rede.

Chega a ser engraçada essa birra que há com o melhor jogador que despontou no País após a aposentadoria precoce de Ronaldo Fenômeno. São tão birrentos os não-torcedores do Neymar que, com a contusão dele no jogo contra a Colômbia, alguns chegaram a dizer que a sua ausência seria menos sentida que a suspensão do ótimo zagueiro e capitão do Brasil, Thiago Silva. Aí eu pergunto: quem está à altura para substituir Neymar naquele banco de reservas? Dante, ou até mesmo Henrique, podem jogar bem lá atrás, com a força que terão do simplesmente melhor jogador da copa, chamado David Luiz. Mas e lá na frente? Quem é que vai chamar o jogo, conduzir a bola, desestruturar o adversário, cobrar escanteios com maestria, bater faltas perigosas ao gol e – com ou sem exageros, com ou sem simulações – sofrer as faltas e dar chances reais de gol para um time que tem aproveitado bem as bolas paradas nas partidas? Vamos torcer para William ou o próprio Bernard entrar bem no jogo de hoje contra a Alemanha. Podem sim, fazer ótimas partidas, jogar até melhor do que o Neymar e, assim como fez Amarildo em 1962, suprir a ausência de um camisa 10 do Brasil.

Eles, os não-torcedores do Neymar, continuarão buscando justificativas absurdas para provar que ele não é craque, que ele é fominha, que ele deveria ser ator ao lado da namorada, que deveria nem estar usando a 10, que deveria mesmo é estar como está agora, machucado (“Vai fingir tanta falta! Deus castiga”, dizem os mais bizarros não-torcedores) e vendo do lado de fora o espetáculo do futebol que o próprio ajudou a se concretizar.

São raivosos estes não-torcedores, enfim. Um deles, jornalista que escreve para o Portal R7, expressou publicamente em redes sociais a sua torcida (isso em 23 de junho) para que o Neymar se contundisse, quebrando o fêmur, de preferência. Mas para o desespero de todo eles, Neymar tem idade – e futebol – para jogar mais umas três copas do mundo. Isso se a mandinga e a não-torcida deixarem.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Manhã atípica

Por Wilame Prado

O velho varria a calçada pela manhã. A camisa branca do velho estava com todos os botões fechados, até em cima. Em frente à casa onde mora, ele varria meio que desesperadamente, mais apressado do que em outras manhãs corriqueiras.

Os homens iniciavam seu meio expediente a contragosto. Fazia um vento gelado. Era de manhã, era inverno. Mas quase ninguém estava de blusa. Tempo fechado. A construção precisava continuar. Portanto, eles martelavam, batiam, quebravam e não viam o tempo passar. Muitos demonstraram no semblante uma cara séria, um ar de preocupação e expectativa.

Um senhor de bermuda e camiseta de manga demonstrava, no peito, certo orgulho enquanto segurava a coleira do cachorro no passeio público. O dono pouco atentava, na verdade, à felicidade do cão em sua matinal escapada. Olhava para frente com um ar de esperança, e a espera pela conclusão das necessidades básicas de seu cão se tornou momento ideal para reflexões, cara de sonhador.

Na fila do supermercado, um rapaz concluiu que era uma manhã boa para pensar na Letícia, que há tanto tempo não via. Eram divertidas as manhãs ao lado dela, os dois se permitindo tomarem café preto e pão com ovo, queijo e tomate na padaria mais próxima, justamente em manhãs como aquelas. Mas pagou rapidamente o valor cobrado pela caixa e, como num passe de mágica, esqueceu-se completamente de Letícia.

Uma mãe descascava tranquilamente batatas na cozinha quando considerou aquela manhã como muito boa hora para ligar para a filha que mora em SP e que certamente estava prestes a ir num mercado ou numa feira. Ela nem se importou com as possibilidades de não encontrar a filha em casa. Ligou do mesmo jeito, mas não podia, naquela manhã, ficar pendurada por mais de trinta minutos ao telefone como de costume.

Manhã ideal, pensou Letícia, para abrir a janela do pequeno quarto, no quarto andar do prédio simples e popular, e ver um pouco a paisagem cinza, sentir um friozinho, uma vontade de beber chá e se lembrar de que, naquele momento – em vários momentos –, não há ninguém dentro daquele apartamento para lhe aquecer, para dividir uma bebida quente em manhãs frias como aquela, para simplesmente pedir que feche logo a janela, “está tão frio e você pode pegar um resfriado, menina”. Ao contrário do rapaz da fila do supermercado, nem passou por sua cabeça lembranças de manhãs como aquelas em que se permitiam ir a uma padaria mais próxima tomar café preto e comer pão com ovo, queijo e tomate.

Quem olhava para o velho varrendo inevitavelmente visualizava também enormes bandeiras penduradas na sacada do sobrado onde morava, sede para um bom e velho churrasco que começaria em instantes. Os homens da construção, um deles com boné verde e amarelo, não participariam da confraternização, mas por estarem trabalhando ao lado da casa do velho, daqui a pouco sentiriam cheiro de carne assada e teriam mais vontade ainda de voltar para casa após o fim do expediente. O homem do cachorrinho ostentava a 10 da Seleção Brasileira no peito no meio da rua, mas, dentro de alguns minutos, precisaria voltar para casa e iniciar os trabalhos com sal grosso e carne encomendada no açougue. O jovem da fila do supermercado aproveitava a promoção e comprava boa quantidade de cerveja em lata para abastecer o churrasco que começaria antes, seguiria durante e perduraria depois do jogo. A mãe que ligou para a filha descascava batatas justamente para a maionese que seria servida no churrasco do filho que tinha ido ao supermercado comprar cervejas.

Letícia, que mora na mesma cidade onde todos aqueles aproveitariam os embalos de uma copa do mundo para comemorarem com churrasco não sabem certamente o quê, se esqueceria, naquela manhã atípica de sábado, que era dia de jogo do Brasil. Ela ficaria espantada ao ouvir comemorações de vizinhos pelo primeiro gol da partida, de David Luiz, aos 18 minutos do primeiro tempo, momento em que pensou em até ligar a TV para finalmente começar a ver o jogo, optando, entretanto, por ficar debaixo das cobertas, no quarto, agora com a janela bem fechada.

*Crônica publicada terça-feira (1º) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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