Tristeza no jantar

Por Wilame Prado

O pai ficou triste na hora do jantar. Não era a primeira vez que a sua mulher e a sua filha desrespeitavam a mesa sem sequer perceberem tal atitude. Naquela noite de sábado em especial, veja só, ele estava se sentindo confortável com uma felicidade passageira que chegou como a poeira levada pelo vento e que também se vai ao primeiro olhar. Estava gostando do clima, da calmaria. Sentia vontade de agradecer a Deus por poder, em mais um final de semana, estar próximo da família, com comida na mesa, televisão para assistir mais tarde, uma boa cama para se deitar finalmente. Sensações desmanchadas quando notou o desdém que as duas dedicaram às esfihas de carne, queijo, frango e chocolate compradas por ele no disque entrega do bairro, com preço mais acessível que os praticados no centro, nos shoppings e nos restaurantes chiques.

Havia contas a pagar, afinal. A situação financeira da família estava difícil de ser controlada porque ele havia retornado ao mercado e se sujeitado – regras do jogo – a ganhar muito menos do que ganhava na empresa anterior, onde cumpriu expediente religiosamente ordeiro por mais de dez anos antes de ser dispensado. Sentia-se culpado. Percebia (ou seria paranoia?) o olhar de cobrança da mulher e o ar de desprezo da filha quando anunciou a “boa nova”: o fim do desemprego, o cargo de vendedor na loja de departamento e a necessidade de se acostumar a receber ordens e não o contrário, como fazia anteriormente quando era gerente de setor.

Na madrugada, sozinho na sala, permitindo-se uma dose ou duas, colocou em perspectiva tudo aquilo que aconteceu nas horas recentes e que o deixou para baixo: esfihas entregues, mesa posta, comida em cima da mesa, ele tardando alguns minutos para se sentar, a mulher e a filha já devorando pedaços de massa de farinha e água com carne e cebola em cima, as duas falando meio que com a boca cheia, criticando o gosto, a temperatura, a gordura, a imensa quantidade de cebola, a pouca quantidade de carne, e ele ali, ainda de pé, sem sequer ter se sentado à mesa para o jantar de sábado com a sua família, e ouvindo, “a esfiha lá de não sei onde é bem melhor”, “essa esfiha é horrível”, “está fria”, “pega o refrigerante para mim?”, “vou comer a doce já, porque não quero mais dessa salgada ruim”, “credo, que chocolate podre”, “parece manteiga”, “pai, não dá nem pra comer”, “pelo amor de Deus, por que inventou de comprar esfiha neste lugar?” etc.

Em dez ou quinze minutos, a filha foi escapando rapidamente em direção ao quarto, ao encontro do smartphone ou do computador (ele não sabe) e justificando a necessidade de prosseguir com os estudos para o vestibular que estava próximo. E a mulher, alegando cansaço e dor em algum lugar do corpo, foi para o sofá e até que se distraiu um pouco com o humorístico da TV antes de finalmente ir para a cama. E ele, ia perdendo a fome diante da mesa, solitário, esfihas espalhadas nos pratinhos de papelão, copos sujos, uma mancha de molho de pimenta bem ao lado da sua mão direita, na toalha quadriculada, e o fim, por completo, daquela breve sensação confortável de felicidade que havia sentido antes daquele jantar malfadado de sábado à noite.

Antes de se deitar, o triste pai pensou que não era assim que as coisas deveriam acontecer em um jantar de sábado à noite com a família. Antes das críticas, deveria haver agradecimentos, sorrisos fraternos e a reunião de todos iniciando e terminando juntos a nobre tarefa de saciar a fome, de receber os alimentos que propiciam forças e energias para se continuar vivendo e, mais que isso, prazer pelo ato de comer. Elas nem perceberam a tristeza do pai. E ele preferiu não fazer comentário algum, estava cansado. Ao fim da bebida, na calada da noite, prestes a encostar a cabeça no travesseiro, ele finalmente se lembrou do motivo que o fizera comprar esfihas para o jantar daquele sábado em família, em vez de requentar as sobras do almoço.

Caso elas tivessem esperado para que todos jantassem juntos diante da mesa, ele iria dizer para a sua mulher e para a sua filha que estava se esforçando muito no novo emprego, que havia sim dificuldades, que havia sim, por ora, menos dinheiro entrando como remuneração, mas que ele, pelo contrário, não havia perdido as forças, sequer as esperanças de que, com a ajuda da família, conseguiria sim superar as dificuldades, conseguiria crescer na nova empresa e que, não tenha dúvidas, voltaria a ser um gerente de setor, para que pudessem, ele, a mulher e a filha, retomarem rapidamente a qualidade de vida de outrora dentro daquele lar.

Às oito horas da manhã de segunda-feira, à espera dos clientes dentro da loja, ele já não tinha tanta certeza assim de que conseguiria se reerguer profissionalmente.

*Conto publicado terça-feira (22) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

7 comentários sobre “Tristeza no jantar

  1. Aniceia 22 de julho de 2014 20:41

    Cara adorei isso que voce escreveu: é realidade pura!

  2. Wilame Prado 23 de julho de 2014 09:24

    Olá Aniceia, tudo bem? Obrigado pela leitura e comentário!
    Volte sempre por aqui.
    Abço.

  3. Armando 23 de julho de 2014 15:20

    Gosto muito de seus textos. Toda terça os leio. Este em especial ficou ótimo. Continue assim. Parabéns!

  4. Wilame Prado 24 de julho de 2014 10:23

    Muito obrigado, Armando! Fico imensamente feliz quando descubro esses meus raros leitores!
    Abraço!

  5. Armando 24 de julho de 2014 15:22

    É nois! Abraço.

  6. José Luiz Boromelo 24 de julho de 2014 22:43

    Mais um ótimo conto, Wilame. Como sempre, você consegue transmitir os sentimentos do ser humano em poucas palavras, mas carregadas de emoção. De uma forma simples mas direta, nos estimula a refletir sobre a estrutura familiar e os desatinos a que todos estamos sujeitos, em algum momento de nossas vidas. É de se imaginar a tristeza de um chefe de família que subitamente se vê diante de uma situação como aquela, tão fielmente retratada no texto. Da insensibilidade dos familiares ao debitar a culpa pela inesperada e repentina queda no padrão de vida ao provedor da casa, Muitas vezes busca-se proporcionar conforto e bem-estar aos integrantes do núcleo familiar, esquecendo-se de vivenciar o amor, o carinho, o respeito e o acatamento aos valores morais. Privilegia-se o apego indiscriminado às futilidades, deixando de lado a salutar prática do diálogo em que se sobressaem os conselhos paternos. As famílias estão gradativamente perdendo seus vínculos afetivos. A onda avassaladora da modernidade vai deixando marcas profundas nas famílias, fazendo novas vítimas a cada dia. A individualidade, a arrogância e a busca incessante por modismos passageiros tende a minar o que resta da célula mater da sociedade. Temo pelas famílias que vivem o mesmo drama da que tão fielmente retratou no texto. Nesses momentos, o melhor a fazer é buscar auxílio nas palavras daquele que tudo sabe e tudo vê. Mesmo que ultimamente estejamos deixando-o de lado, atarefados com alguma futilidade qualquer.

  7. Wilame Prado 28 de julho de 2014 14:44

    Seu comentário, caro Boromelo, poderia se transformar facilmente numa crônica de desdobramento com os olhos para esta ficção, que se quis simbolizar um fato familiar existencial. Muito obrigado pelas suas sempre atenciosas leituras!
    Abço!

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