Mês: agosto 2014



Estrela cadente

Por Wilame Prado

Na noite da última terça-feira, Osvaldo saiu de casa às duas horas da madrugada por causa de uma insônia que lhe estava proporcionando pensamentos muito ruins sobre a sua atual condição de vida: separado da mulher e sempre muito distante do filho, que, coincidentemente, passava alguns dias das férias em sua casa e dormia tranquilamente no quarto ao lado.

A pé, foi até o bosque bem próximo de sua casa e se sentou em um banco. Notou que, dali, era possível ter uma bela visão do céu, que, particularmente naquela noite, estava lindo, cheio de estrelas. De repente, viu uma estrela cadente riscando o horizonte. Entusiasmou-se, sentiu-se presenteado, fechou os olhos e fez um pedido.

Alguns segundos se passaram, mas Osvaldo permaneceu com os olhos fechados. Assustou-se quando ouviu uma voz feminina perguntando: “Moço, você está dormindo?”, disse Laura, jovem muito bonita que, com a sua máquina fotográfica, captava imagens da chuva de meteoros, vista naquela noite de qualquer localidade do País.

“Não, me desculpe. Vi uma estrela cadente, fiz um pedido e acabei me distraindo em pensamentos com os olhos fechados”, respondeu Osvaldo.

Os dois permaneceram sentados no banco do bosque por quase meia hora. Laura explicou para ele sobre a chuva de meteoros e as popularmente conhecidas estrelas cadentes. Comentou que, naquela noite em especial, estavam diante da chuva de meteoros Delta Aquarídeas, que propiciava a visibilidade dos detritos e poeiras deixados possivelmente pelo cometa 96P Machholz.

Ela fazia parte de um grupo de observação astronômica. E ele sofria de insônias.

Laura foi embora com a sua bicicleta, mochila e máquina fotográfica. “Será que havia uma luneta dentro daquela mochila?”, pensou Osvaldo, meio distraído, ao vê-la, tão bela, pedalar pelo bosque. Ela o achou interessante, um pouco mais velho que ela sim, mas um sujeito simpático, inteligente e que, em um rápido bate-papo, demonstrou que parecia ser um pai muito amoroso, um trabalhador esforçado. Mesmo assim, preferiu não convidá-lo para o grupo de observação astronômica, sentiu vergonha, talvez ele pensasse que fosse coisa de jovenzinhos com tempo para brincar de ver o céu.

Osvaldo levantou-se e se dirigiu tranquilamente para a casa. A partir daquele dia, Laura seria constantemente lembrada por ele com ternura, sempre associada à estrela cadente que viu cair e que lhe rendeu um pedido. Em casa, abriu devagar a porta do quarto do filho, beijou de leve a sua testa e sussurrou que ele continuasse dormindo com os anjos.

Já em sua cama, o motivo da insônia, agora, era outro. Não entendia por que não pediu, pelo menos, o telefone de Laura. Timidez? Enfim. Temia nunca mais vê-la nesta imensa cidade. E mesmo se a visse, o que diria? Teria coragem para puxar um papo ou apenas acenaria com a cabeça?

O dia começava a clarear e Osvaldo sabia que teria uma jornada difícil pela frente, já que não havia conseguido dormir nada naquela noite. Mas estava determinado a pelo menos tentar mudar de vida. Prometeu para ele mesmo que, se voltasse a encontrar Laura, revelaria para ela o pedido feito para a estrela cadente: uma mulher que botasse ordem na sua vida, que o fizesse parar de sofrer com as insônias e que gostasse de, junto dele, por o filho para dormir desejando “uma boa noite, dorme com os anjos” nos dias em que o garoto tivesse visitando o pai. (A coluna Crônico entra em férias a partir de hoje)

*Conto publicado nesta terça-feira (5) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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A morte ronda a literatura

Escritor Ariano Suassuna se foi em 23 de julho; obra magnífica fica

Escritor Ariano Suassuna se foi em 23 de julho; obra magnífica fica

Por Wilame Prado

Nos últimos três meses, a literatura se enfraqueceu. O mundo perdeu nomes como o do colombiano Gabriel García Márquez, Nobel da Literatura em 1982, e Ariano Suassuna. O recriador do Sertão brasileiro nas páginas de livros e nos palcos foi enterrado no Recife na tarde do dia 24 de julho. Além deles, morreram nesse curto espaço de tempo o poeta carioca Ivan Junqueira, a romancista sul-africana Nadine Gordimer, o baiano radicado no Rio João Ubaldo Ribeiro e o educador mineiro radicado em Campinas (SP) Rubem Alves. Pelo menos, as obras ficam. E esse fato seja talvez o que de maior valor as artes podem propiciar para o mundo. A boa literatura nunca morre. Há todo momento, jovens e velhos leitores descobrem novas leituras, novos mundos imaginários por meio das páginas dos livros.

Até mesmo aqueles que já leram tudo o que foi escrito por García Márquez, por exemplo, ganharão e muito ao reler a obra de um dos principais nomes do realismo mágico. Quem quer informações sobre o que ocorreu na África do Sul durante o Apartheid, pode muito bem iniciar a leitura dos romances deixados por Nadine Gordimer, que ressaltou com maestria a deterioração social ocorrida naquele país após o regime de segregação social tão fortemente combatido por Nelson Mandela.

A morte é algo inesperado, como todos sabem. Inclusive para o mercado editoral. Quando os escritores morrem – a depender da sua importância e reconhecimento mundial –, ocorrem reviravoltas editoriais. Em abril, quem encontrou algum exemplar à venda de “Cem Anos de Solidão”, do escritor colombiano, poderia ser considerado um sujeito de sorte. Quem estava deixando, por exemplo, sempre para depois a leitura de “Sargento Getúlio”, obra-prima de João Ubaldo Ribeiro, agora poderá ter mais dificuldade para encontrar um exemplar em qualquer livraria.

Após a morte de Ubaldo, a editora Objetiva precisou fazer reposições emergenciais de suas obras em grandes livrarias paulistas. Na semana que passou, o ebook do romance “Viva o Povo Brasileiro”, de Ubaldo, foi o mais vendido pela editora (433 unidades), seguido de “A Casa dos Budas Ditosos” (200). “‘Viva o Povo Brasileiro’, e isso já se disse muito por aí, talvez tenha sido a última tentativa do grande romance de identidade nacional, e numa forma épica”, considerou Leandro Sarmatz, editor da Companhia das Letras. “Ubaldo foi um grande. E foi o último de uma linhagem”, disse.

No caso de Ariano Suassuna, o maior lamento é saber que o autor parecia estar escrevendo e reescrevendo uma espécie de continuação sem fim do seu grande romance, o “Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”. Quem ainda não leu o épico romance autobiográfico narrado por Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, o auto-proclamado “Rei do Quinto Império e do Quinto Naipe, Profeta da Igreja Católico-Sertaneja e pretendente ao trono do Império do Brasil”, precisará gastar um bom dinheiro. Na Livrarias Saraiva, um exemplar novo custa R$ 70, fora o frete. Na Estante Virtual – que reúne livros de centenas de sebos por todo o País – um exemplar usado custa entre R$ 50 e R$ 250.

Para Anco Márcio Tenório Vieira, professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco, a obra “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, é “impregnada de verdade”, desde a descrição da terra e dos que lá habitam, até as cenas de Guerra de Canudos e seus protagonistas. Mas a verdade sobre o Sertão de Ariano Suassuna é mais “literária”, menos “científica”.

“Há um Sertão antes e depois de Ariano Suassuna e do Movimento Armorial. Afora muitas das suas posições polêmicas e não raras vezes reacionárias sobre arte e cultura, creio que é esse Sertão ‘fantasioso’, lúdico, mágico, maravilhoso, colorido e alegre, como se fosse um eterno espetáculo circense, que foi a maior contribuição de Suassuna para a literatura de língua portuguesa. A imagem do Sertão dilatou-se e se enriqueceu com a sua obra e, principalmente, se coloriu no ‘Reino Encantado da Literatura’, escreveu Vieira, em artigo publicado recentemente no portal UOL.

*Reportagem publicada no domingo (27) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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