Mês: setembro 2014



Cultura local em pauta

Por Wilame Prado

Pouco mais de 50 participantes, entre artistas e produtores culturais da cidade, participaram da 2ª Audiência Pública de Cultura, organizada na última quarta-feira, na Câmara Municipal. A pauta principal das discussões da audiência – organizada por um Grupo de Trabalho (GT) hoje composto por 13 membros – , foi a necessidade da organização da categoria artística e da importância da formatação do Plano Municipal de Cultura.

Como fruto da primeira audiência organizada pelo grupo, no ano passado, a principal conquista foi um aporte de 85% no montante destinado ao Prêmio Aniceto Matti, que hoje serve como principal incentivo cultural para a classe artística local. De R$600 mil, o Prêmio passou a R$ 1.100.000.

Este ano, diz a atriz e mestre em Políticas Públicas Laura Chaves, os esforços dos envolvidos estão voltados para o entendimento de que é preciso pensar nas artes locais como produto cultural minimamente rentável para que os artistas tenham condição de trabalhar e morar em Maringá. E isso depende de esforços, segundo ela, do poder público. “Que tenhamos as propostas cumpridas, pois os artistas, agentes e produtores culturais que lá estiveram esperam poder continuar vivendo na cidade, como trabalhadores que somos, do produto cultural que a arte de cada um pode oferecer para a apreciação da comunidade e o sustento de nossas vidas”, diz Laura.

O ator e servidor da Câmara Joaquim Santos, também membro do GT, lamenta a ausência de alguns representantes de setores na audiência. “Houve diálogo, desabafo e reivindicações. Faltaram representantes de instituições importantes da cidade como universidades, Sesc e a própria Secretaria de Cultura”, observa.

Em viagem a Curitiba, a secretária de Cultura de Maringá, Olga Agulhon, confirma que recebeu convite para participar da audiência, mas não pôde ir porque já havia se inscrito em um curso sobre produção, cultura e desenvolvimento, promovido pela Caixa Econômica Federal na capital. “As pessoas têm direito de fazer audiência sobre temas diversos e conversar sobre assuntos importantes”, considera. “Quando respondi para o presidente da Câmara (Ulisses Maia) explicando minha ausência, comentei que gostaria de receber o resultado e as propostas da audiência via documento.”

Joaquim Santos explica que os resultados serão relatados em ata, a ser enviada ao Executivo, à Secretaria de Cultura, aos vereadores e disponibilizada no site da Câmara. “Em resumo, os resultados apresentam um diagnóstico de como artistas e produtores culturais veem a cultura na cidade e como o GT tem se articulado no cenário.”

Pós-audiência
Além da elaboração e implementação imediata do Plano Municipal de Cultura em conformidade com o Sistema Nacional de Cultura, o GT definiu uma série de reivindicações que comporão a ata da 2ª Audiência Pública de Cultura.

Laura Chaves enumera: “A devolução do Cine Teatro Plaza à população para fins culturais; a revisão e consequentemente a aplicação da Lei de Incentivo à Cultura (6411/2003); planejamento e execução de ações do projeto Céu das Artes; a desburocratização dos editais de fomento; que o orçamento para 2015 contemple com recursos os projetos propostos e que sua execução seja transparente e abrangente; endosso das propostas entregues por ocasião da I Audiência Pública e que parte está contida também na Agenda Maringá; avaliação da cenotécnica dos teatros Barracão e Reviver, que se encontram em estado de ‘perigo’, entre outras.”

*Reportagem publicada sábado (27) no caderno Cultura

Comente aqui


Palco contemporâneo

“Marias da Luz”, da Cia As Graças (SP), será apresentado na Travessa Jorge Amado. FOTO: JOÃO CALDAS

“Marias da Luz”, da Cia As Graças (SP), será apresentado na Travessa Jorge Amado. FOTO: JOÃO CALDAS

Por Wilame Prado

Começa quarta-feira (1º), no Maringá Park Shopping, a venda de ingressos para “O Fantástico Circo-Teatro de Um Homem Só” (Cia Rústica/RS), “Bouleversement” (Novos Curitibanos) e “Três Movimentos” (Cia Ocamorana/SP) – os três únicos espetáculos que serão cobrados na 4ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá 2014, marcada para vários espaços da cidade, de 7 a 18 de outubro, com 24 atrações confirmadas, entre espetáculos em Maringá e na região, além de atividades formativas em todos os dias da mostra.

Marcio Alex Pereira visitou a redação na quinta-feira para contar que considera a quarta edição da mostra como sendo uma retomada daquelas duas primeiras edições, que ganharam elogios inclusive de gente de fora, como o do crítico de teatro Valmir Santos, que mora em São Paulo e que este ano assina a curadoria da Mostra.

“Maringá já conviveu com três edições de espetáculos e atividades formativas e reflexivas em torno de formas e conteúdos que instigam o espectador a ampliar sua percepção de mundo. A quarta jornada abre-se à autorreflexão sobre novos caminhos, exercendo autocrítica e tateando perspectivas de formato e de pensamento plausíveis no vínculo com a cidade e a cidadania”, escreveu Santos, que também é jornalista e pesquisador.

“Considero a terceira edição, do ano passado, equivocada em alguns sentidos. O público sempre comparece, mas sentimos que a discussão acerca da temática ‘teatro contemporâneo’ não ficou a contento, a programação, principalmente das atividades formativas, foi equivocada”, lamenta Pereira, que organiza a mostra ao lado de Murilo Lazarin, ambos da Companhia Teatro & Ponto.

Recursos
Até agora, a Mostra conta com um recurso captado via Lei Rouanet de R$ 85 mil, e os principais patrocinadores são a Viapar e a Rivesa – Volvo. Na programação, estão confirmadas companhias do Rio Grande do Sul, São Paulo e Paraná. Representarão Maringá o Coro Cênico do Sesc, que faz o infantil “Saltimbancos a 4 Vozes” em Marialva no dia 12 de outubro, e a “ATua Companhia”, que estreia a “Balada de Um Palhaço” em Alto Paraná, no dia 13 de outubro. Além das duas cidades citadas, a Mostra chega este ano também a Paranavaí.

“Este ano, a Mostra circula mais pela região com espetáculos e atividades, isso é bom porque atende ao objetivo de formação de público e também de disseminação conceitual do teatro contemporâneo. Outro destaque fica para as questões a serem levantadas nas mesas e palestras das atividades formativas: o teatro e a ditadura, o teatro e a sociedade, o teatro e os festivais, teatro dialético, contemporâneo etc”, diz o organizador.

Segundo Pereira, a 4ª Mostra de Teatro Contemporâneo também chega para reparar um erro cometido no passado: o de não olhar para os pequenos. “Se queremos levantar a discussão e a reflexão do teatro contemporâneo, precisamos começar pelos pequenos. Na mostra deste ano, pela primeira vez, contaremos com bons espetáculos infantis”, diz ele, que, aliás, parece mesmo não ter se esquecido de nada este ano: o teatro épico também ganha citação durante a Mostra e Chico Buarque, que chegou aos 70 este ano, é homenageado.

“Chico Buarque é um dos maiores dramaturgos brechtianos do País, senão o maior. Teremos na Mostra ‘Os Saltimbancos’ e as discussões sobre o teatro no período da ditadura militar – que completou 50 anos do golpe em 2014 – também como forma de homenageá-lo”, diz.

Programação completa no Facebook da Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá

*Reportagem publicada domingo (28) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


‘Riocorrente’: SP (ou o mundo) em chamas

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de "Riocorrente": niilista e provocador

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de “Riocorrente”: niilista e provocador

Por Wilame Prado

São Paulo (SP), século 21. Um rio enegrecido segue lentamente o seu caminho. A imensidão traduzida em vidro, concreto e metal. Asfaltos quilométricos parecem levar para além do horizonte. Madrugada quieta. Um garoto negro avaria um veículo luxuoso estacionado na rua. Uma jam session rola solta em uma casa noturna quase vazia. Som maravilhoso. Homens solitários, devidamente armados com suas long necks em mãos, apenas escutam. Um desses sujeitos – com cara de mal –, entoja-se facilmente e sai acelerando a sua potente motocicleta pelas ruas paulistanas, até finalmente recolher o moleque solitário e descalço que, há pouco, riscara a lataria do carro preto estacionado.

É assim, como um conto bem escrito, que começa o filme “Riocorrente”. Em apenas uma hora e dezenove minutos, Paulo Sacramento, que dirigiu e escreveu o longa-metragem, traçou um retrato fidedigno da maior cidade brasileira com uma competente fotografia e tendo como enredo os encontros e desencontros de um triângulo amoroso encenado pelos atores Lee Taylor, Simone Iliescu e Roberto Audio, todos desconhecidos do cinema, porém elogiados nos palcos do teatro. Personagens todos – cada qual a seu modo – asfixiados na metrópole.

Exu (Vinicius dos Anjos) é só mais um (como tantos outros) menino órfão de São Paulo. Ele chama Carlos (Lee Taylor) de pai. Carlos, no entanto, é um típico paulistano fulo da vida, descontente com o que vê pelas ruas da cidade grande, completamente embrutecido e autocrítico com as alternativas que encontrou para ganhar dinheiro – roubando carros para o desmanche, por exemplo. Em cima da sua moto, a câmera vai seguindo o olhar dele pelas ruas de São Paulo, tal qual um Travis Bickle (Robert de Niro) com seu táxi amarelo em Nova York, em “Taxi Driver” (Martin Scorsese).

Carlos apenas segue vivendo – ou seguindo o seu caminho, como um rio corrente –, mas percebe uma chama se aquecer em seu pensamento após Renata (Simone Iliescu) – com quem tem um caso amoroso – ler para ele um trecho de um livro. A ideia de que tudo está errado, e que apenas as pessoas é quem pode fazer algo para mudar o mundo, gruda na cabeça do motociclista até o desfecho do conto urbano cinematográfico. O pensamento humano, filosofa os personagens com livro em mão ou após uma sessão de cinema, é como uma bomba atômica, que se expande somente depois de explodir.

Do outro lado da cidade, Marcelo (Roberto Audio) é a representação do cabeça pensante, figura fácil paulistana. Entendido de artes plásticas, ele é colunista de um famoso jornal impresso que tem circulação nacional, guia turístico em cemitérios paulistanos – onde palestra sobre arquitetura e arte – e, como também grande parte dos chamados “entendidos” de alguma coisa, extremamente pacífico, sujeito que vive no mundo das abstrações, teorias, livro e jornais. Marcelo também tem um caso com Renata.

Renata é o personagem que representa a figura feminina nos tempos de hoje. Cada vez mais resolvida com seus desejos sexuais, independente financeiramente e culta. Mulher que, entendendo os anseios de se envolver com homens extremados – Marcelo é calmaria, Carlos é explosão – não se intimida em, por exemplo, após dormir na casa de um, acordar e ir diretamente para a casa do outro, em busca de sexo. Mas, assim como seus dois homens, ela também padece de incertezas, também sofre a pressão da cidade grande, a pressão da vida contemporânea e suas fugacidades, e chora copiosamente numa das cenas mais belas do filme, na plateia de um concerto intimista de Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, cantando desafinada e lindamente atrás de um piano de caldas.

“Riocorrente” demonstra a maturidade de Paulo Sacramento, que foi elogiado com o documentário “Prisioneiro da Grade de Ferro” e que coleciona trabalhos como montador em filmes importantes, a exemplo de “Quanto Vale ou é Por Quilo” e “Amarelo Manga”. Não à toa, “Riocorrente” foi selecionado para o Festival de Rotterdam (Holanda), venceu o Prêmio Abbracine na Mostra Internacional de São Paulo e ainda nas categorias Melhor Fotografia e Melhor Montagem no Festival de Brasília.

Em seu último longa, Sacramento mistura drama e suspense e tem capacidade de criar situações em que a cena não se esgota por ela apenas, autorizando o espectador a pensar sobre ou completá-la. É o caso de cenas memoráveis, como a da ninhada de ratos que destrói pilhas e mais pilhas de jornais impressos dispostos em um galpão; o flagra da briga do casal com a câmera se aproximando devagar até enquadrar a tela exatamente na janela do apartamento; ou ainda quando Exu se encanta, mas não se espanta, com o leão dentro de uma jaula, chega pertinho e, com toda a calma do mundo, tira da boca um dente que estava mole.

O filme “Riocorrente”, extremamente crítico, perturbador, niilista, estimula o choque, o atrito, é mais Carlos (inconsequente e prático) e menos Marcelo (consciente e estagnado), trata da loucura que é São Paulo, que é o mundo, e faz um alerta: a bomba pode explodir a qualquer momento. Homens incendiários podem finalmente entender que, assim como a frase do ativista Zack de la Rocha e incorporada em voz over no filme, “Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Que lugar melhor que esse? Que momento melhor que agora?” No longa, a hora para agir é sim agora. E a destruição pode ser disseminada com a velocidade da correnteza de um rio sujo, ou no simples pedido feito por um menino após jogar seu dente que acabou de cair.

EM CARTAZ
SEMANA TUPINIQUIM
Assista “Riocorrente”
no Cineflix Cinemas,
no Maringá Park Shopping,
domingo (28) às 14 horas,
segunda-feira (29) às 21h40
e terça-feira (30) às 16h30

Trailer:

Comente aqui


Woody Allen é o mesmo de sempre em ‘Magia ao Luar’

Colin Firth e Emma Stone em cena de "Magia ao Luar": ceticismo colocado à prova

Colin Firth e Emma Stone em cena de “Magia ao Luar”: ceticismo colocado à prova

Por Wilame Prado

Woody Allen continua o mesmo em “Magia ao Luar”, filme em cartaz em Maringá: focado nos imensos diálogos entre personagens inteligentes e sarcásticos, atento na criação de cenários e figurinos fidedignos a uma época cuja trilha sonora é o jazz e extremamente conciso em sua sequência fílmica que, via de regra, costuma ter a duração de uma hora e meia.

A comédia romântica, como em quase todas as comédias de Allen, é para poucas risadas, nesse caso dedicadas ao azedume de Stanley, mágico que se veste de chinês e desmascarador de charlatões bem interpretado por Colin Firth – vencedor do Oscar em “O Discurso do Rei”. Ele divide a maior parte das cenas na Riviera Francesa dos anos 1920 com Sophie (Emma Stone), jovem norte-americana que se passa por médium na propriedade de uma família milionária inglesa.

No filme estão em jogo as questões entre razão e emoção, ciência e religião, real e metafísico. Para isso, Allen tem o suporte narrativo da história do mágico cético e da bela garota que se diz medium. A história de amor (como de praxe no universo de Allen, entre uma garota mais nova com um homem mais velho) é pouco ou quase nada explorada. O humor fica mesmo na sinceridade crua e amarga de Stanley no trato com as pessoas e no seu declarado amor-próprio, e também nas cenas pitorescas do jovem apaixonado Brice (Hamish Linklater), em sofríveis serenatas dedicadas a Sophie com seu ukelele desafinado em mãos.

Por fim, tem-se uma sugestão suavizada, leve e delicada para se pensar no dualismo entre crença e ceticismo. “Magia ao Luar” não encanta, não enche os olhos, mas é bem articulado por Allen, que não sai de sua própria cartilha. Sem ousar em nada, parece estar ciente de que alcançou a fórmula certa para um filme que não comprometerá o seu posto de diretor cultuado. Até a cena que pudesse ser pensada como a principal do filme – a dos dois protagonistas vendo a lua num planetário – é ligeira e preguiçosamente escasseada de qualquer aprofundamento.

Também, como em quase todos os longas em que resolve não dar para si o papel principal, é impossível não imaginar em Stanley o próprio diretor, em suas típicas rabugices e questionamentos filosóficos. Culpa da direção e não do ator Colin Firth, que parece ter se esforçado para que “Magia ao Luar” não ficasse chato.

CARTAZ
MAGIA AO LUAR
Direção: Woody Allen
Duração: 1h38min.
Classificação: 12 anos

*Comentário publicado nesta terça-feira (23) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


‘Lucy’ é ação viajandona, mas tem lá os seus valores

Scarlett Johansson é Lucy em ficção científica/ação que continua em cartaz nos cinemas

Scarlett Johansson é Lucy em ficção científica/ação que continua em cartaz nos cinemas

Por Wilame Prado

“Lucy”, filme de Luc Besson e estrelado por Scarlett Johansson ainda em cartaz em alguns cinemas da cidade, é uma ação bem diferente das demais. Une ficção científica, o charme da loira mais requisitada em Hollywood e algumas reflexões acerca da imensa capacidade que um cérebro humano pode ter.

Nas devidas proporções e desconsiderando os exageros de impossibilidades humanas inaceitáveis até para uma ficção científica, o filme é envolvente do início ao fim.

Após cair numa armadilha, Lucy (Scarlett Johansson) se vê obrigada a transportar drogas pesadas dentro do estômago. Envolvida com uma espécie de máfia coreana das mais sanguinolentas, acaba sendo espancada. Os chutes que leva de um coreano no estômago acabam estourando os pacotes da droga, que propicia em Lucy poderes sobre-humanos, desde telecinesia e ausência de dor, até a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente.

Ao lado do professor Norman (Morgan Freeman), Lucy acompanha o seu martírio de ter que fugir da máfia – que perderá milhões sem as drogas – e de ver a sua capacidade cerebral vertiginosamente aumentar para os 100%, fato acompanhado por uma infinidade de efeitos colaterais mortíferos.

“Lucy” homenageia o ser humano e ressalta uma importante mensagem: a de que podemos sempre mais e mais. No entanto, joga na mesa também uma analogia sutil e perigosa: dependendo da quantidade ingerida, substâncias químicas ilícitas poderão agir em prol da inteligência humana.

*Comentário publicado na sexta-feira (19) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

2 Comentários


‘Se Eu Ficar’ é fraco e cansativo

Chlöe Grace Moretz em cena do filme "Se Eu Ficar", em cartaz  nos cinemas

Chlöe Grace Moretz em cena do filme “Se Eu Ficar”, em cartaz nos cinemas

Por Wilame Prado

O filme “Se Eu Ficar” (R.J. Cutler, EUA, 1h46min.), em cartaz nos cinemas da cidade, é extremamente cansativo e chato de se ver. O recurso do flashback, tão desgastado no cinema mas ainda usado com dignidade por alguns diretores, foi utilizado à exaustão no longa-metragem, em cenas do antes e depois do acidente sofrido por Mia Hall (Chlöe Grace Moretz) e toda sua família.

Mia é uma talentosa violoncelista. Infantil e doce, ela se apaixona por Adam, líder de uma banda de rock que, por trás das roupas de preto, tem um bom coração. O namoro juvenil é colocado à prova quando ele começa a viajar demais com a banda em franco sucesso e quando ela está prestes a ser aprovada na Juilliard School, em Nova York – uma das melhores escolas para músicos nos EUA -, distante da pacata cidade dos dois.

No meio dessa história de amor um tanto sem sal nem açúcar, a jovem perde toda a família em um acidente de carro. Ela, em coma no hospital, sai do seu corpo e, em forma de espírito, presencia a morte da mãe, do pai e do pequeno irmãozinho. Mia depende da vontade de viver para ela resistir aos ferimentos e acordar do coma, ou então se entregar à morte.

Mesmo com a falta de qualidade do filme, “Se Eu Ficar” conta com alguns elementos que podem resultar em sucesso de bilheteria: tem a temática romântica e ingênua apreciada por um público juvenil e é baseado em um romance homônimo que, aqui no País, está em primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos de ficção. Ainda assim, tenderá a decepcionar aqueles que, por exemplo, se envolveram demasiadamente nos cinemas com a dramática história do filme “A Culpa É das Estrelas”.

Em “Se Eu Ficar”, não há nada além de uma menina andando descalça de um lado para o outro dentro de um hospital, ou em lembrança dos dias em que tocava sem parar um violoncelo e ouvia o namoradinho roqueiro cantar.

*Comentário publicado na quinta-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


Semelhanças literárias

Cíntia Moscovich, autora de “Essa Coisa Brilhante que É a Chuva”; Moacyr Scliar afirmara há 14 anos: “Uma contista completa” —FOTO: CLEBER PASSUS

Cíntia Moscovich, autora de “Essa Coisa Brilhante que É a Chuva”; Moacyr Scliar afirmara há 14 anos: “Uma contista completa” —FOTO: CLEBER PASSUS

Por Wilame Prado

Uma sacola de antagonismos poderia ser imaginada quando se pensa na última mesa de bate-papos da 33ª Semana Literária do Sesc, que acontece às 20 horas de hoje. De um lado, a escritora Cíntia Moscovich, gaúcha que mora em Porto Alegre; de outro o escritor Sidney Rocha, cearense radicado no Recife. Mas, pelo contrário, os escritores convidados para o encerramento da semana literária na cidade têm mais pontos em comum do que se imagina: contistas de mãos cheias e conquistadores de prêmios literários.

As questões regionais ou de gênero são, na opinião dos dois, coisas que fazem parte do passado da literatura produzida no País. A boa literatura brasileira já não precisa ficar olhando mais para o endereço da residência; eixo Rio-SP é algo que não significa muita coisa. “Vamos falar sobre isso (uma escritora gaúcha e um escritor cearense na mesma mesa). Mas não há extremos nisso, no sentido de oposições. Estaremos falando sobre as mesmas coisas, sob ângulos certamente diferentes, mas será sempre a literatura em primeiro plano”, diz Rocha, vencedor do Jabuti 2012 na categoria Contos com o livro “O Destino das Metáforas” (Iluminuras).

Sobre a literatura de gênero, Cíntia relembra um caso ocorrido no começo do século e que serve como representação de um possível sepultamento quanto à insistência de separação entre homens e mulheres escritores. “Na coletânea de contos ‘Geração 90: Manuscritos de Computador’, organizada por Nelson de Oliveira, eram 17 contistas convidados, sendo apenas uma mulher, no caso, eu. Anos depois, Luiz Ruffato resolveu essa questão ao lançar ‘25 Mulheres Que Estão Fazendo a Nova Literatura’. Acho que a literatura de gênero é algo superado. Eu e o Sidney falaremos sobre outros assuntos”, comenta ela, que, com o livro de contos “Essa Coisa Brilhante que É a Chuva” (Record), conquistou o Prêmio Portugal Telecom e o Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional.

A autora de sete livros, dentre os quais os também premiados “Anotações Durante o Incêndio” e “O Reino das Cebolas”, refere-se especialmente ao tema proposto parta a discussão no Sesc, que é a violência na literatura, em alusão a Rubem Fonseca, escritor homenageado da semana literária que ocorre em 21 cidades paranaenses. “A violência na literatura é sedutora sim. As vezes, o autor escreve com tanta propriedade e realismo que consegue nos provocar asco. Cito o conto ‘Feliz Ano Novo’, do Rubem. Coisa que jamais consegui fazer em minha literatura, mas que admiro quem consiga.”
No desenvolvimento dos contos de Cíntia, a violência é implícita. Para ela, há uma violência silenciosa no cotidiano de todos. “A maior violência é o ato de matar o outro. Mas o dia a dia normal é violento também: não respeitar o outro, não ver o outro, são atos violentos praticados diariamente.”

Sidney Rocha concorda e lembra de toda uma geração que foi marcada pela violência da ditadura militar. “A violência afeta a todos. É como uma epidemia. Se alguém sofre violência por preconceitos de qualquer ordem, isso atinge a mim e a você, nos fere a todos ao mesmo tempo.”

*Reportagem publicada na quinta-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


Fragmentos de Monteiro

NA MADEIRA. Obra "Terceiro Membro", de Marcelo Monteiro: exposição Fragmentos, com 12 esculturas do artista, fica aberta no Calil até 5 de outubro . —FOTO: RICARDO LOPES

Obra “Terceiro Membro”, de Marcelo Monteiro: exposição Fragmentos, com 12 esculturas do artista, fica aberta no Calil até 5 de outubro . —FOTO: RICARDO LOPES

Por Wilame Prado

Na exposição Fragmentos, que fica aberta até 5 de outubro no Museu de História e Arte Héleton Borba Cortes, no térreo do Teatro Calil Haddad, o artista Marcelo Monteiro, 33, faz uma ode ao ser humano em 12 obras esculpidas na madeira. Um tanto figurativa no primeiro plano, os visitantes veem na exposição traços de rostos humanos, mãos, braços, corpos e uma curiosa mala – na obra “Mala: objeto de transportar referência” – que parece carregar vida humana dentro dela. As formas do ser humano estão ali, na madeira, mas estão incompletas, propositalmente desfalcadas, numa clara demonstração de sensibilidade, de ausência, de fraqueza.

O figurado perde força quando se pensa na significação da escultura. São mesmo fragmentos do homem, da mulher, do ser humano e suas tantas formas: formas de rosto, mãos, corpos. Nesse quesito, o artista – que mora e mantém um ateliê no distrito de Iguatemi – dá uma chance de análise e criticidade ao observador. Afinal, o que pode representar uma escultura com apenas metade de um rosto e, na outra metade, um buraco transpassado na madeira, assim como na obra “Identidade”? A ambiguidade humana entra em cena e enfraquece a forma de um rosto supostamente perfeito. A velha história do jargão: “quem vê cara, não vê coração”. Ou mais: quem vê só cara, não vê coração, tampouco essência. Vê-se, e olhe lá, somente fragmentos.

As demais obras, muito bem espalhadas pelo hall reformado do museu no Calil e devida e individualmente iluminadas, mostram, como um todo, aquilo que foi alertado pelo crítico de arte Oscar D´Ambrósio e replicado no texto de abertura da exposição: “A escultura tem em si mesma um grande desafio para o artista plástico. Ela lida com a tridimensionalidade, ou seja, é preciso pensar nas peças não apenas para serem vistas de uma posição frontal, mas em todo seu potencial”, considera o crítico.

Monteiro, em suas doze obras em madeira, soube trabalhar com a tridimensionalidade citada por D´Ambrósio. Até porque – e isso a foto do jornal não pode demonstrar, só quem está in loco pode sentir – , as esculturas possuem um atípico poder de sensualidade e atração: dá vontade de tocar naqueles pedaços de madeira que um dia foram troncos de árvores condenados e que, após o trato do escultor, virou obra de arte.

Recomenda-se também, na exposição, um duplo passeio: veja bem de perto primeiro e, depois, afaste-se alguns metros da obra para visualizá-las: e então perceberá que as obras de Monteiro são mutáveis e cheias de movimento, mesmo em se tratando de duras madeiras.

PARA VER
FRAGMENTOS
Exposição com 12 esculturas de Marcelo Monteiro
Onde: Térreo do Calil Haddad
Quando: de segunda a sexta, das 8h às 17h, até 5/10
Entrada franca

*Texto publicado nesta terça-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Comente aqui


‘Sex Tape’ é engraçado e vem em boa hora

Cameron Diaz tentando seduzir o marido em cena de “Sex Tape”: 42 anos de boa forma

Cameron Diaz tentando seduzir o marido em cena de “Sex Tape”: 42 anos de boa forma

Por Wilame Prado

Na lista com mais de vinte celebridades hollywoodianas – encabeçadas por Jennifer Lawrence (“Jogos Vorazes” e “O Lado Bom da Vida”) – que tiveram fotos íntimas espalhadas na rede por um hacker, não se vê o nome de Cameron Diaz. Sorte a dela, que, recentemente, afirmou em entrevista que isso jamais aconteceria pois ela não se arrisca jamais.

A entrevista da atriz, famosa por protagonizar blockbusters como “As Panteras” e “Quem Vai Ficar com Mary”, fazia referência ao filme “Sex Tape: Perdido na Nuvem”, comédia de Jake Kasdan em cartaz em Maringá e que nada tem a ver com erotismo via fotos ou vídeos encontrados no mar de (im)possibilidades que é a internet.

“Sex Tape” é comédia para se ver em casal, ou até em família. Cameron Diaz, aliás, costuma ser engraçada, e só, em suas performances como atriz. Reconhecendo a ausência de dramaticidade em seus papeis – são vinte anos de carreira e pouquíssimos filmes bons no portfólio da loira – ela, no entanto, não tem do que reclamar financeiramente falando: a atriz é a sexta mais bem paga de Hollywood, segundo levantamento da Forbes, com R$ 40 milhões.

Ao lado do também engraçado por ser tipicamente estranho Jason Segel, 34, eles vivem Annie e Jay, um casal que, após a chegada dos filhos, entrega-se ao cansaço do cotidiano a ponto de deixar o sexo sempre para depois. A vida dos dois vira de cabeça para baixo quando resolvem apimentar a relação filmando com um tablet a relação sexual. O épico pornô protagonizado pelo casal acaba indo parar em outros tablets, num efeito viral, e a dupla agora tem que achar e deletar o material.

“Sex Tape” tem um começo sensual, com as primeiras e curtas cenas de nudez encaradas por Cameron Diaz em sua carreira – apenas um nu de costas. E pode-se afirmar: ela continua bela em seus 42 anos de idade muito bem distribuídos. Mas o apelo erótico que a nudez poderia extrair logo vira motivo de humor. As caretas da loira são engraçadas e, mais para o final, quando são reveladas parte das cenas do vídeo caseiro de mais de três horas de sexo, as risadas se transformam em gargalhadas: caras, bocas e pernas para todos os lados, demonstrando que, em meio às trapalhadas de um casal destreinado na cama, a risada pode servir como remédio contra o tédio e a falta de criatividade.

A sequência mais engraçada do filme, porém, fica reservada para Jay (Segel), ator que também assina o roteiro. Buscando encontrar um tablet numa casa enorme de um empresário que poderá dar uma chance profissional ao blog da sua mulher, ele se vê em apuros com um pastor alemão bizarramente imortal que o segue e o ataca implacavelmente. É realmente hilário ver a briga desmedida e com toques de exageros entre um cão raivoso e um homem em apuros.

Em tempos de atrizes desesperadas em deletar logo suas fotos em poses sensuais que vazaram para o mundo, “Sex Tape” é alternativa para se aprender a dar risada até nos momentos mais constrangedores possíveis. Ver-se em apuros numa nuvem virtual, afinal, tem sido algo mais recorrente do que muitos imaginam.

*Comentário publicado nesta quinta-feira (4) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

1 Comentário