Gênio Hermeto Pascoal domingo aqui

Hermeto Pascoal: músico mora em Curitiba há onze anos, mas ainda acha estranho o pessoal não dar 'bom dia'

Hermeto Pascoal: músico mora em Curitiba há onze anos, mas ainda acha estranho o pessoal não dar ‘bom dia’

Por Wilame Prado

O compositor e multi-instrumentista alagoano Hermeto Paschoal, 78 anos, está mais perto de Maringá do que muitos imaginam. Morador de Curitiba há onze anos, conheceu Aline Morena (sua mulher) em Londrina e foi em um hotel maringaense, antes de seu único show por aqui em 2002, que o gênio convidou a cantora a fazer parte de seu grupo musical. “Aline veio até meu quarto mostrar como ela cantava. Pensei que fosse uma outra cantora, uma ruinzinha, por isso disse que não havia instrumento nenhum por perto. Mas quando ela comentou que já havia dado uma canja comigo, eu me recordei e disse: ‘Deve haver uma escaleta aqui embaixo da cama'”, diz ele por telefone, em entrevista concedida de sua casa, no bairro Santa Felicidade, onde mora com Aline.

Hermeto Paschoal e Grupo se apresentam em Maringá no domingo, 26 de outubro, às 20h30, no Teatro Calil Haddad. Imperdível show, que tende a durar duas horas ou mais. Hermeto só para de tocar se os organizadores pedirem, e o pedido deve ser feito antes de o show começar. A vinda do músico brasileiro mundialmente conhecido é uma realização do Cottonet-Clube com patrocínio de várias empresas da cidade. Simpático ao telefone, já foi logo dizendo que as expectativas é das melhores para o show aqui na cidade e que sente saudades daqui. “O que gravamos em estúdio é diferente do que tocamos ao vivo. Não digo que o show é 100% de improvisação, mas todos os músicos têm liberdade e competência para serem eles próprios. Fico feliz porque todos eles têm seus próprios trabalhos. Considero-me um pai dessa família, mas um pai não gosta de ser imitado. Quando vejo alguém me imitando, digo assim: ‘você existe, Deus não fez nada igual, não confunda semelhança com imitação'”, conta Hermeto, que vem acompanhado de Itiberê Zwarg (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Fábio Pascoal (percussão), Vinicius Dorin (saxes e flautas), André Marques (piano) e Aline Morena (voz e viola caipira).

Conversar com Hermeto Pascoal é ter a chance de entender um pouco mais sobre a simplicidade da vida e de ficar ainda mais perplexo com o tamanho da humildade que há em um dos maiores instrumentistas e compositores da história da música brasileira. É difícil explicar como o gênio “comete” as suas genialidades. No caso dele – que já tocou com Miles Davis e que já foi convidado para compor e tocar com John Lennon, Tom Jobim, Taiguara,Elis Regina, Fagner e Roberto Carlos – chega-se à conclusão que gênio nasce gênio; no caso dele, em Olho d´Água das Flores, Alagoas.

Ele comenta, sério, que os primeiros sons – já no nascimento, em 22 de junho de 1936 – foram predominantes para a habilidade que tem de “ver” música em tudo, desde os incontáveis tipos de instrumentos que toca, até objetos comuns do cotidiano, como caixa de fósforo, bandejas, chaleira etc. “Lembro do meu nascimento, do som da Maria Mãe – parteira que morreu aos 145 anos e que, à época, foi considerada a pessoa mais velha do mundo – dando um tapinha de leve em meu bumbum. Depois me lembro da imensidão do mato, todos os bichos, a natureza e de como tudo aquilo era cercado por sons, por música. Essa inocência na infância, em Lagoa da Canoa (AL), foi essencial.”

Depois, aos 14, conheceu a cidade grande. Recife. Por lá, Sivuca foi o seu primeiro padrinho. “Sivuca, maravilhoso, amigão de todos os tempos, meu irmão de som eterno. Depois que comecei a tocar com ele, não parei mais de fazer música, amar a música e, através da música, amar tudo o que é lindo”, diz. A determinação de Hermeto, claro, deu-se também pela coragem que ele teve em se distanciar da família para, ainda adolescente, viver de música. Ele sabia, desde muito pequeno, que havia nascido para as canções, que tanto propiciam sensações boas aos humanos e também para os bichos. “Ainda no mato, percebi que já tinha um público para a minha música. Os pássaros se aproximavam, o cavalo parava de trotar, até os sapinhos se aproximavam de mim para me ouvirem tocar. Gansos também chegavam, e os peixes, quando fazia meu som com a água da lagoa, vinham rapidamente para perto”, rememora.

E hoje, longe do silêncio, Hermeto também não reclama, enxerga música em tudo. “Considero o barulho da cidade como música. Não tenho medo do trânsito, para mim é como se fosse uma boiada. E consigo fazer música com outros barulhos acontecendo ao meu redor, até com o rádio ligado, mas hoje precisa ser em rádio de notícia porque só tem música ruim. Tenho o maior respeito pelas pessoas, mas não gosto da música que fazem. Hoje, o pessoal está fazendo só jingles, e dos ruins, é comercial, apelativo, ainda bem que não dura. Esse negócio de rap mesmo, isso tudo é embolada do Nordeste que o americano copiou dando 30 dólares para os caras entregarem o ouro.”

PARA OUVIR
HERMETO PASCOAL
E GRUPO
Quando: 26 de outubro (domingo)
Horário: 20h30
Onde: Teatro Calil Haddad
Preço: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia)
À venda na Genko Mix, do Maringá Park Shopping

*Reportagem publicada em 9 de outubro no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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