Mês: novembro 2014



Cine Horizonte na sucata

Sílvio Lima mostra película do longa canadense "O Segredo de Sangue", exibido no Cine Horizonte (Foto de João Cláudio Fragoso)

Sílvio Lima mostra película do longa canadense “O Segredo de Sangue”, exibido no Cine Horizonte (Foto de João Cláudio Fragoso)

Por Wilame Prado

É no presente que encontramos pistas ou pedaços do passado. E parte da história dos vários cinemas de rua que funcionaram em Maringá entre 1940 e os anos 2000 pode ser encontrada em um ferro-velho na Avenida Pedro Taques, local onde os irmãos Lima guardam, em meio a toneladas de objetos acumulados nos últimos 50 anos, projetores de filme em 8, 16 e 35 milímetros, peças dispersas desses projetores e latas com rolos de filmes antigos, todos pertencentes ao Cine Horizonte, ícone cultural da Vila Operária, um dos bairros mais tradicionais da cidade.

Sílvio Lima, 66, um dos proprietários do ferro-velho, explica que compraram há pouco tempo as peças do Cine Horizonte. Os filmes, diz, foram adquiridos de uma enormidade de películas guardadas por Valter Del Grossi, pioneiro da cidade que morreu no ano passado e que era conhecido como o “Valtinho do Cine Horizonte”. Para as fotos, Sílvio permitiu que a equipe de reportagem abrisse uma das latas. Dentro, um rolo de 35mm do longa-metragem canadense “O Segredo de Sangue”, do qual pouco se tem informações na internet.

Ao contrário dos pedaços de motores fundidos, rodas, panelas e outros infinitos metais que os sócios buscam para fazer girar o negócio com o ferro-velho, a opção de ter adquirido aqueles objetos do antigo cinema de rua maringaense em nada ter a ver com dinheiro, segundo Cecil Lima. “A molecada invadia o prédio abandonado do Cine Horizonte para estragar tudo. Eles não têm ideia da importância que isso tem para a história da cidade. Por isso, resolvemos comprar alguns desses objetos perdidos. E é difícil vender, a não ser que fosse para alguém do ramo, que saberíamos que faria algo para preservar a história do cinema”, afirma.

Em meio ao labirinto de ferro, espremido por entre pilhas com até três metros de altura de sucata, olhando para os projetores de filme, os irmãos relembram velhas histórias envolvendo o Cine Horizonte, cinema de rua inaugurado em 1951/52 em um barracão de madeira na Avenida Brasil e que, em 1966, mudou-se para um grande terreno de esquina na Avenida Riachuelo, na Operária. “Esse aqui é um projetor de vários filmes passados nesse projetor ali onde hoje funciona o Posto Maluf, na Brasil. Projetores como esses eram muito comuns em cineclubes da época, igrejas, associações e em salas de aula da universidade, principalmente nas décadas de 1960 e 70.”

Popular e resistente
O Cine Horizonte marcou época e funcionou como chamariz para moradores de outros bairros maringaenses irem até a Vila Operária não apenas para assistirem a filmes, mas também para se encontrar com outras pessoas. O historiador do Patrimônio Histórico de Maringá, João Laércio Lopes Leal, morou 27 anos no bairro e assistiu no Cine Horizonte uma infinidade de filmes. “Foi lá o meu ritual de iniciação de cinema, conheci cinema a partir dali. Além de ter sido um importante instrumento cultural, social e econômico, tenho uma relação afetiva e sentimental com o Cine Horizonte, que extrapolava a questão de apenas ver filmes. Mais que isso, era espaço de sociabilidade, reunião, encontro, uma referência que sem dúvida ajudou a transformar a Vila Operária em um dos bairros mais importantes de Maringá”, considera o historiador.

Com os outros cinco cinemas de rua – Cine Primor, Cine Ryan, Cine Maringá, Cine Peduti e Cine Teatro Plaza – encerrando suas atividades entre o decorrer das décadas 1950 e 1980, o Cine Horizonte ainda sucumbiu nos anos 90. Isso, graças ao apelo popular do cinema, que, com sua capacidade para até 1.600 lugares, em seu estágio final, repetia filmes já exibidos em outros cinemas a preços módicos, além das sessões de filmes eróticos.

Ao final, duas igrejas ainda tentaram exercer atividades no imóvel, mas logo foram fechadas. Antes do que ser o que é hoje – um canteiro de obras prevendo a construção de duas torres residenciais –, a invasão de mendigos no local incomodou vizinhos e proprietários, estimulando ainda mais a demolição do prédio. Filme triste, afinal, como tem sido o destino de quase todos os cinemas de ruas do País.

Colecionadores podem ajudar
Na opinião do historiador João Laércio Lopes Leal, é possível se achar, principalmente em residências de pioneiros da cidade, verdadeiras raridades envolvendo a história cultural, em especial a história dos cinemas de rua que um dia existiram por aqui.

Ele conta que o patrimônio detém alguns relatos históricos de antigos proprietários, fotos raras e documentos que poderiam ser o início de um projeto pensando na conservação histórica dos cinemas de rua que já funcionaram em Maringá. “Desde que estou aqui, algumas monografias de estudantes de Jornalismo e História já foram feitas sobre os antigos cinemas de rua da cidade”, conta Leal.

Para o geógrafo e diretor do Museu da Família (MF) Edson Pereira, as peças do Cine Horizonte encontradas recentemente no ferro-velho citado pela reportagem poderiam motivar o pensamento de se criar um museu cultural na cidade. Ele cita a Lei Municipal 904/2011, que institui o Inventário do Patrimônio Cultural de Maringá, como alternativa para se pensar em um museu físico que propiciasse a conservação histórica dos cinemas de rua.

“É necessário fazer um inventário cultural, envolvendo o município e colecionadores particulares, para que todos esses acervos sejam colocados em uma mesma base de dados. Acredito que pode ser elaborado um inventário cultural, mas também campanhas junto a colecionadores para que esse acervo, mesmo que dividido em diversas coleções, possa ser reunido, ainda que, inicialmente, de forma virtual”, sugere Pereira.

*Reportagem publicada em 29 de agosto de 2014 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Jazz também é Natal

Big Band Vitor Gorni, composta por músicos de Londrina e de Paranavaí, faz domingo, no Largo Jorge Amado, primeira apresentação pelo Natal em Jazz

Big Band Vitor Gorni, composta por músicos de Londrina e de Paranavaí, faz domingo, no Largo Jorge Amado, primeira apresentação pelo Natal em Jazz

Por Wilame Prado

Luzes piscam pelas ruas da cidade. Enfeites temáticos começam a brotar por todos os cantos. Na decoração de casas, escritórios, lojas e principalmente dos shoppings não pode faltar uma árvore com penduricalhos e bolas reluzentes. Então é Natal. Emoção contaminando os corações das pessoas (por que não somos bonzinhos o ano todo?) E a música natalina – a boa e velha música natalina – sendo fator predominante nesse sentimentalismo todo.

A diferença de outros natais para este, pelo menos em Maringá, é que música de qualidade entra para competir com alguns singles muitas vezes chatos e repetitivos nesses dias de dezembro. Pelo projeto Natal em Jazz (patrocinado, via Lei Rouanet, pela Rivesa, G10, Lowçucar e Biazam), apresentado de maneira inédita pelo Cottonet-Clube, a Big Band Vitor Gorni (Londrina/Paranavaí) fará apresentações gratuitas nos próximos quatro finais de semana, em diferentes locais, em pontos onde costuma haver um bom movimento de pessoas indo para lá e para cá (veja as datas e os locais nesta página).

Na tarde de ontem, em meio a um ensaio em Paranavaí, o músico e compositor Vitor Gorni, 59, comentou ao Diário, em entrevista por telefone, sobre a gostosa sensação de tocar na rua, algo, que, segundo ele, é bem mais comum em Londrina – cidade onde atuou por 35 anos após se aposentar pela Orquestra Sinfônica da UEL (Osuel). Por aqui, ele deixa de lado o clarinete ou o saxofone e, batuta em mãos, assume a regência de sua big band, composta por doze músicos, entre saxofonistas, trompetistas, trombonistas, contrabaixistas, bateristas, pianistas e um cantor.

“Uma big band no meio da rua atinge públicos inesperados. A pessoa está passando e, quando vê, depara com uma banda inteira tocando. Ele costuma parar para ouvir. E muitos, depois, vão ao teatro para voltar a ouvir esse tipo de música”, diz Gorni, que, sobre isso, aponta números: “No começo, eram cinco, seis nos concertos em teatro em Paranavaí. Hoje é casa cheia. Em Londrina, por 35 anos levamos a orquestra para as escolas. Hoje, aquelas crianças, já adultas, são nosso público.”

Nas quatro apresentações da banda ema Maringá, em concertos de 40 minutos, o programa será baseado em obras próprias para big bands, clássicos do jazz, da MPB e, claro, peças natalinas. “Posso citar, dentre as quais tocaremos, algumas como ‘Carinhoso’, de Pixinguinha, ‘Feitiço da Vila’, de Noel Rosa, e algumas de Frank Sinatra, como ‘New York, New York’. Algumas canções também serão cantadas por Ricardo Yupi, algo do Tim Maia. Sem falar em clássicas natalinas, com a roupagem da big band, em ‘Jingle Bells’, “We Wish You a Merry Christmas’.”

Para Paulinho Schoffen, organizador do Natal em Jazz, com a música boa sendo executada em praça pública, serão tempos de ressignificados sonoros, tempos de um Natal melhor musicalmente falando. “Natal combina com jazz, com o samba, com o choro e outros estilos de música, pois a música é parte significativa na vida da maioria das pessoas, assim como o espírito de confraternização e alegria nesse período. Queremos, com esse projeto, levar vários estilos musicais gratuitamente as pessoas e associar a música ao espírito natalino. Esse ano foi o jazz, a Big Band Vitor Gorni, ano que vem pode ser outro gênero musical”, diz o músico e produtor.

PROGRAMAÇÃO

Próximo domingo (30/11)
Onde: Largo Jorge Amado (ao lado do Mercadão Municipal)
Horário: 11h30

6 de dezembro (sábado)
Onde: Praça Raposo Tavares
Horário: 11h30

13 de dezembro (sábado)
Onde: Praça Renato Celidônio, ao lado do Paço Municipal
Horário: 19h30

20 de dezembro (sábado)
Onde: Terminal Urbano de Maringá
Horário: 11h30

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (26) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Reportagens
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Elas têm a palavra, e os prêmios também

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

Por Wilame Prado

É de se destacar a boa literatura que vem sendo produzida por escritoras brasileiras. Anunciado ontem pela Biblioteca Pública do Paraná, o resultado do Prêmio Paraná de Literatura 2014 revelou a superioridade delas em todas as categorias: a paulistana Vanessa Barbara venceu o prêmio Manoel Carlos Karam com o romance “Operação Impensável”; a carioca Adriana Griner é a vencedora do prêmio Newton Sampaio com a coletânea de contos “No Início”; e a paulista Sônia Barros venceu o prêmio Helena Kolody com os poemas do livro “Fios”.

Sem nem citar as muitas escritoras em atividade no País que vêm publicando livros elogiáveis mas sem receberem premiações, ressalte-se que, recentemente, o Prêmio São Paulo de Literatura teve, pela primeira vez, uma mulher como grande vencedora: Ana Luísa Escorel recebeu R$ 200 mil ao vencer na categoria Melhor Livro do Ano de 2013 com o romance “Anel de Vidro” (Editora Ouro Azul). Já no último Prêmio Sesc de Literatura, foi escrito por uma jovem de 27 anos o melhor romance na opinião dos jurados. “Enquanto Deus Não Está Olhando” é de autoria da pernambucana Débora Ferraz.

As três mulheres que terão direito a R$ 40 mil e uma tiragem de mil exemplares de seus livros graças à conquista do PR de Literatura não são fracas não: Vanessa, Adriana e Sônia deixaram para trás um total de 630 obras inéditas de autores de todo o País, inscritas sob pseudônimo, e que foram avaliadas por um júri com outras escritoras de prestígio, como Elvira Vigna, Regina Zilberman, Cíntia Moscovich e Luci Collin.

Elas também são persistentes. Em entrevista por e-mail, Sônia Barros – conhecida pela vasta obra de infanto-juvenis – diz que foi o segundo ano a tentar, com o mesmo “Fios”, o PR de Literatura. Para adultos ou crianças, os versos precisam existir, na opinião dela. “A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.”

Estrategistas, sem dúvida alguma, elas também são. Vanessa Barbara, em entrevista para o Estadão, diz que pensou no concurso literário como forma de se “obrigar” a escrever tendo um objetivo – o romance – e um prazo a cumprir – a data limite das inscrições. “É um incentivo tremendo para a produção literária”, opina.

E, por fim, por que não, ousadas em suas propostas literárias? Também para o Estadão, a professora de inglês e estreante na literatura Adriana Griner comenta sobre os diferenciais dos contos reunidos em “No Início”: “Para mim, o livro é, antes de tudo, sobre o amor. Em termos de linguagem, brinco com o primeiro capítulo do ‘Mimesis’, de Auerbach, quando ele compara a linguagem da Bíblia com a da Odisseia.”

Vai vendo!

3 perguntas para Vanessa Barbara

Mesmo autores já conhecidos como você ainda “precisam” dos concursos literários para alavancar a carreira e ganhar dinheiro?
Sim, principalmente pela parte financeira. Viver de literatura é bem difícil (eu, por exemplo, vivo de jornalismo), então um prêmio desses é muito bem-vindo até para quem tem algum reconhecimento na área. Em edições anteriores do prêmio, o José Roberto Torero, o Alexandre Vidal Porto e o Caetano Galindo foram vencedores. Isso diz muito sobre a pindaíba em que vivemos! :p

Conte o que puder contar sobre o processo de criação do romance “Operação Impensável”, sobre a história que o livro traz e também sobre o que pensa desse livro ainda inédito teu.
Já escrevi o romance pensando em mandar para o prêmio – queria submeter esse livro por outros caminhos, sob pseudônimo, para ver se ele realmente valia algo. Também queria ter um objetivo claro e um prazo que servissem de incentivo para trabalhar. O livro conta a história de amor entre uma historiadora especialista em Segunda Guerra Mundial (daí o título) e um programador de computadores que esconde segredos.

Sua versatilidade é invejável. Na crônica e nas reportagens, tem ótimas publicações. Para você, mais conhecida com as crônicas, quais são os desafios na hora de encarar um romance ficcional?
Acho bem difícil escrever ficção, acho que porque não tenho tanta prática… Também porque é um trabalho que exige fôlego, paciência, senso de estrutura… Enfim, é um desafio tremendo.

3 perguntas para Adriana Griner

Trabalha com literatura mesmo?
Trabalho como professora no ensino médio, e só indiretamente estou na área de literatura, através do ensino. Nunca publiquei um livro. Escrevi muito na vida, li mais ainda. Eu era daquelas crianças que atravessam a rua lendo um livro, vêm TV lendo, almoçam lendo. Aos quinze anos diminuí o ritmo de leitura, aos trinta me tornei semi-analfabeta e assim passei a ler bem menos.

O que pode nos contar sobre os contos de “No Início”?
É um livro de contos porque o livro pedia um livro de contos. Como eu reconto histórias do primeiro livro da Bíblia, não haveria outra forma de fazê-lo. Mas apesar de ser um livro de contos, é um livro em que diversos temas perpassam todas as histórias, então são contos independentes, mas que remetem uns aos outros.
O que faço no livro é criar ou recriar as histórias. Algumas histórias são apenas a reprodução da história original, mas com um ponto de vista distinto, pois tento dar voz às personagens femininas que eram tratadas apenas como paisagem ou como objeto da narração. Procuro ver como elas se sentiram ao passar por aquela situação. Em outras histórias a Bíblia é apenas o ponto de partida para eu narrar uma história que não foi contada.

Esperava vencer tão disputado prêmio?
Não, não esperava vencer. Fiquei com o maior jeito de boba ao saber do resultado. Acho que ninguém acredita muito que vai vencer um prêmio como esse, considerado um dos mais importantes do país. O reconhecimento tem um gosto bom.

3 perguntas para Sônia Barros

Atualmente vive só da literatura?
Sim, mas não vivo apenas dos direitos autorais dos meus livros (tenho 17 títulos infanto-juvenis publicados), também visito escolas e participo de feiras literárias, converso com alunos, pais e educadores.

De que maneira os versos e a poesia ajudam ou ajudaram em sua carreira como escritor de livros infanto-juvenis?
Eu não vivo sem poesia. Já na infância, me encantavam os poemas da Cecília Meireles, Mário Quintana, José Paulo Paes… Dos meus 17 títulos infanto-juvenis, vários são de poesia ou prosa poética. A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.

O que pode nos contar sobre os poemas de “Fios”?
Foram escritos ao longo dos últimos sete anos, de 2008 a 2014. O título acabou se impondo depois que percebi os muitos poemas retratando “fios” aparentemente distintos, mas, de certa forma, entrelaçados: do ofício, da infância, da velhice, da maternidade, do amor, da memória, da solidão, da morte, da própria poesia, da arte… enfim, os caminhos internos e externos da existência humana. Quem me mostrou isso foi o poeta Donizete Galvão, com quem conversava muito sobre poesia, e a quem o livro é dedicado. Infelizmente, o Doni faleceu em janeiro deste ano. Aliás, um grande poeta, que ainda não teve o merecido reconhecimento no País.

*Reportagem publicada nesta terça-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Quintais inabitados

Uma das fotografias de Marcos Trindade na exposição em cartaz no Calil: criança triste sente falta dos quintais

Uma das fotografias de Marcos Trindade na exposição em cartaz no Calil: criança triste sente falta dos quintais

Por Wilame Prado

Uma tarde chuvosa dentro da casa da mãe foi suficiente para o ator Marcos Trindade, 44, perceber o quanto é triste uma tarde chuvosa dentro de casa. Então, por que as crianças não vão mais tomar banho de chuva, pisar na terra molhada ou brincar com bolinhas de gude lá fora? Porque, em seu ponto de vista (corretíssimo), os quintais estão cada vez mais acinzentados pelo concreto, cercado pelos muros altos e muitos servindo apenas como depósito de coisas descartadas.

São assim, um tanto tristes mas fragorosamente saudosistas, as 20 fotografias que compõem a exposição “Quintal de Concreto”, aberta esta semana por Trindade no térreo do Teatro Calil Haddad, que, longe do teatro, permite-se ousar em outras artes, como a fotografia, uma de suas paixões. A exposição, que fica aberta a visitações gratuitas até 13 de dezembro, faz parte do projeto Convite às Artes Visuais, da Secretaria Municipal de Cultura.

Em sua maioria feitas em 2012 no quintal da casa da mãe, no Conjunto Residencial Parigot de Souza, as fotografias de Trindade foram inspiradas no tédio das crianças, que não podiam brincar lá fora, e também dos mais velhos, que hoje, nos quintais, já não veem a alegria das molecagens, tampouco têm o sabor das descompromissadas conversas entre vizinhos, amigos e parentes, todos sentados em confortáveis cadeiras de varanda.

Não há nada disso em “Quintal de Concreto”. Há, sim, o olhar para o vazio da senhora de idade, o desejo de mais diversão dos pequenos e os inevitáveis pregadores despojados nos varais, além das clássicas casinhas de cachorro, tábuas largadas num canto, ferramentas jogadas n’outro, a velha bicicleta (o pneu, murcho) encostada no muro.

Explorando um cenário urbano, cotidiano, mais cinza, menos colorido, Trindade mostra o seu trabalho com a fotografia que, mais que qualquer apuro técnico (ainda assim, vê-se nas fotos jogo de profundidade e trabalhos de campo e contracampo), destaca-se mesmo pela proposta temática. Por telefone, ele, que sequer tem quintal em sua residência, no Residencial Aeroporto, admite um lado pessimista na exposição, mas também saudosista. A saudade, diz ele, é de um tempo em que os quintais das casas de madeira eram sinônimo de diversão.

“Em meu tempo, brincávamos em quintais com cercas de balaústre. Rememorei esse tempo, investindo nas molduras rústicas das fotos, com esse tipo de ripa que, inclusive, era utilizada como mata-junta na construção das casas de madeira”, explica.

E finaliza, propondo uma reflexão: “Quem é que frequenta os quintais hoje? Praticamente, ninguém. Olhei para os quintais ao redor da casa da minha mãe, e, praticamente, todos serviam como depósito de coisas. Olhei para a minha sobrinha – que olhava para fora sem poder sair de casa – e senti que aquele pequeno quintal todo de concreto isolava a menina.”

VEJA
QUINTAL DE CONCRETO
Fotografias de
Marcos Trindade
Local: Museu de História e Artes Hélenton Borba Côrtes,
no Teatro Calil Haddad
Exposição prossegue até
13 de dezembro
Entrada gratuita

*Reportagem publicada quinta-feira (20) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Flávio Apro reencontra Maringá

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Após temporada na Europa, músico volta ao País em turnê no Paraná, SP e Rio

Por Wilame Prado

A sonoridade do violão de Flávio Apro, 41, é suave, contundente, séria e aprazível. Mas raramente pode ser apreciada ao vivo, pelo menos não aqui no Brasil. O músico paulistano que se mudou para Maringá e que, atualmente – além de instrumentista e pesquisador –, é professor adjunto da UEM, vem de uma longa temporada de concertos na Europa e Estados Unidos.

Apro se reencontrou ontem com Maringá. Na Loja Maçônica, fez recital de violão, com programa baseado no álbum “O Violão Brasileiro”, vendido no local pelo preço promocional de R$ 20, graças a recursos viabilizados pela Lei Rouanet, do Ministério da Cultura (MinC). Hoje, o músico se apresenta em Mandaguari e encerra, na sexta, a turnê paranaense em Rolândia.

O violonista aproveita o retorno à cidade para lançar outros três discos (R$ 50 cada): “Doce Estudios Para Guitarra de Francisco Mignone”, “The Brazilian Guitar” e “Nocturne, Romantic Guitar Miniatures”, este último o preferido do músico.

“Pessoalmente, ‘Nocturne’ é o disco do qual mais gosto. Faço uma homenagem póstuma à professora e violonista Monina Távora, que morreu há três anos. O repertório desse disco seria trabalhado com ela, numa turnê argentina que faria. ‘Nocturne’ tem peças lentas e meditativas, um repertório sem concessões, com peças difíceis”, diz Apro, que faz o pré-lançamento de “Nocturne” em Maringá, mas terá o lançamento oficial do disco só no mês que vem, nos EUA.

O músico comemora o recital desta noite não apenas pelo fato de poder reencontrar amigos, professores e alunos de música, mas também por gostar do auditório da loja maçônica. “Esse disco (‘Nocturne’) foi gravado à luz de velas, nessa sala do templo da loja de Maringá, um dos auditórios de melhor acústica de todos os lugares que eu já toquei no mundo.”

O mais novo disco de Flávio Apro, “O Violão Brasileiro”, transita por um amplo repertório de música brasileira para violão, unindo a qualidade das obras com a sofisticação da execução do concertista internacional, premiado e considerado como sendo dono da “mais aveludada sonoridade do violão brasileiro”.

Estão reunidos no CD, autores como Ary Barroso e Sérgio Assad. Entre tantos clássicos brasileiros, o músico interpreta em “O Violão Brasileiro” “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso), “Garoto” (Alvino Argollo), “Jongo” (Paulo Bellinati), “Suite Aquarelle: Divertimento” (Sérgio Assad), “Abismo de Rosas” (Canhoto), “Porto” (Dori Caymmi), “Num Pagode em Planaltina” (Marco Pereira) e outras.

*Reportagem publicada quarta-feira (19) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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A crueza do faroeste

Reedição de "Terra Crua" traz fotos históricas, como a do Hotel Campestre, inaugurado em 1942 na Av. Brasil

Reedição de “Terra Crua” traz fotos históricas, como a do Hotel Campestre, inaugurado em 1942 na Av. Brasil

Por Wilame Prado 

A história de uma Maringá que nascia em um verdadeiro cenário de faroeste entre 1938 e o fim da década de 1950 continuará sendo preservada. Naquele tempo e espaço, cuja “lei dos mais fortes” era predominante, viveu o advogado, dentista, piloto de avião e vereador Jorge Ferreira Duque Estrada, testemunha ocular da história local e autor de “Terra Crua”, um dos livros mais importantes da literatura historiográfica maringaense e que ganha hoje uma edição especial comentada.

O lançamento oficial acontece às 20 horas, na OAB – Subseção Maringá, com entrada franca. Essa versão do livro – que foi originalmente escrito em 1957 e editado em 1961 é organizada pelo professor de História da UEM Reginaldo Dias, pelo especialista em História e Sociedade do Brasil Miguel Fernando Perez e também pelo cientista político Sérgio Gini. A edição comentada de “Terra Crua” sai pela Eduem e tem 270 páginas. O projeto da reedição do livro é do Instituto Museu da Família e conta com o patrocínio cultural da Viapar, que destinou R$ 45 mil via Lei Rouanet.

Com poucos exemplares espalhados na cidade, o livro ganha agora outras três mil unidades, a serem distribuídas gratuitamente nas bibliotecas públicas municipais. Essa edição especial conta com fac-símile da obra original (tratando-o como documento histórico), posfácio de Fernando Duque Estrada (filho do autor), ensaio acadêmico assinado por José Henrique Rollo Gonçalves e Reginaldo Dias e uma seção com imagens que fazem algum tipo de ligação com o texto original.

Um verdadeiro Velho Oeste, ressalta o historiador Reginaldo Dias, era o que viu por aqui Jorge Ferreira Duque Estrada e que, posteriormente, foi documentado no livro. E para a tarefa intelectual de transformar os acontecimentos em fatos históricos, o autor de “Terra Crua” se fez valer de documentos oficiais (Câmara, cartórios, processos, fotos e até propaganda eleitoral), de uma facilidade que o advogado tinha em compor narrativas baseadas em papeis e, mais importante que tudo, um poder de morador observador e crítico que era.

“Ele escreve imerso nos acontecimentos ou com mínima distância. Ele narra tomando partido. Atualmente, chamamos isso de história do tempo presente, escrita no calor da hora”, explica Dias. Para o professor, que também é cronista, às quartas- feiras, deste caderno Cultura, na obra também é visível uma inspiração no cinema de faroeste, muito popular no período. “‘Terra Crua’ não é um lugar, mas um tempo, o tempo em que a civilização está chegando, mas não se instalou completamente. Algo como o Velho Oeste.”

Com a nova versão, ganha a história de Maringá e também a história sobre o importante personagem que foi Duque Estrada, morto em 1983 e que é lembrado no ensaio histórico e ainda no posfácio do livro. “É o livro mais influente da literatura histórica de Maringá. Ele funda essa literatura e influencia, pela qualidade de sua narrativa e por sua interpretação, a bibliografia posterior. Concordando ou não com o autor, é indispensável dialogar com o que ele escreveu. Trata-se de um clássico”, finaliza Dias.

REEDITAR ‘TERRA CRUA’ ERA SONHO ANTIGO

Não vem de hoje o sonho de reeditar o livro “Terra Crua”, de Jorge Ferreira Duque Estrada. Mas agora, passados 57 anos de sua primeira edição, finalmente o projeto sai do papel após a parceria de várias instituições. Essa nova edição, com comentários, fotos e posfácio e ainda o fac-símile da obra original tem patrocínio da Viapar, o Instituto Cultural Ingá como fomentador, o apoio da Acim, do jornal O Duque, Sinergia Mídia e Convergência e Sol Propaganda, além do Museu da Família (MF) como realizador.

“Como museu, entendemos que a história tem que ser contada. Percebendo que não havia sido viabilizado pela instância pública, dessa forma decidimos nos colocar como agentes privados para que pudéssemos, acessando os recursos, viabilizar a reedição. Além do livro, o mesmo projeto viabilizará um documentário e estamos abertos a novos patrocínios. As empresas de Maringá que quiserem apoiar o projeto podem nos procurar”, explica Marcelo Seixas, diretor executivo do MF.

O especialista em História Miguel Fernandes Perez, que agora comemora a reedição do livro após tentativas iniciadas ainda em 2007, considera “Terra Crua” uma obra de difícil definição, mas extremamente saborosa. “Duque Estrada escreveu uma história no olho do furacão dos acontecimentos, e ao mesmo tempo, sem rodeios. A verdade como ela é. É um livro de difícil definição, pois é uma crônica, literatura e outros formatos. Ele relata acontecimentos sangrentos que ocorreram nesta região, como embates entre grileiros e jagunços. Além, é claro, de situações pitorescas, como a surra que Américo Dias Ferraz levou de ‘Santão’, em dezembro de 1956, a mando de Aníbal Goulart Maia. Só por essa passagem, já entendemos que Maringá era bem diferente que muitos livros costumam relatar, como uma região pacata. Em verdade, até usando um termo do autor, aqui era literalmente ‘o velho oeste’.”

ESTANTE
TERRA CRUA
Autor: Jorge Ferreira Duque Estrada
Editora: Eduem
Número de páginas: 270
Lançamento: hoje, 20h, na OAB – Subseção Maringá

*Reportagem publicada terça-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Programa Primeiro Museu é finalista do Prêmio Brasil Criativo

Por Wilame Prado

A cidade tem um representante na final do Prêmio Brasil Criativo, organizado pelo Ministério da Cultura (MinC) e 3M e que acontecerá em dezembro no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. O Programa Primeiro Museu, idealizado pelo Museu da Família (MF) – instituição com sede em Maringá –, é um dos três projetos finalistas da categoria “Museus” e vai disputar o prêmio com o Museu do Videogame Itinerante (Campo Grande-MS) e o Museu da Maré (Rio de Janeiro-RJ).

A conquista se deu após votação online encerrada na sexta-feira da semana passada, contabilizando 71.180 votos, vindos do País inteiro. Agora, na etapa final do prêmio, um conselho de 30 curadores – entre pesquisadores, representantes públicos e líderes empresariais especializados em criatividade, cultura, empreendedorismo e inovação – vai escolher os projetos vencedores em 22 categorias que usam a criatividade como solução para o desenvolvimento da economia criativa.

Na opinião do diretor presidente do MF, Edson Pereira, um dos motivos que levou o Programa Primeiro Museu à final foi a mudança estrutural que o projeto se propõe a fazer no setor museológico brasileiro, estimulando a abertura de grande quantidade de museus em localidades onde jamais existiu qualquer processo que estimulasse a conservação e divulgação da história local.

“É um projeto que fala não somente de um museu, mas de muitos museus. Lembrando que, segundo dados do MinC, 92% dos brasileiros nunca foram a um museu e 77% dos municípios brasileiros também não contam com museus ou sala de memória”, considera Pereira, que diz estar confiante na conquista do prêmio. “Esperamos ganhar. Reconhecemos o mérito dos outros finalistas, entretanto cremos que o nosso programa é mais forte em função de sua abrangência nacional.”

Os vencedores do Prêmio Brasil Criativo levam premiação em dinheiro e um curso de 40 horas de capacitação sobre economia criativa. “O maior prêmio, no entanto, é o reconhecimento sendo escolhido como melhor dentre os três finalistas”, ressalta Marcelo Seixas, diretor-executivo do MF.

No Estado, além do Programa Primeiro Museu outros cinco projetos também chegaram à final do Prêmio Brasil Criativo. São eles: Tenda de Retalhos (Curitiba), na categoria “Expressões Culturais”; “Tributo a Charlie Chaplin”, espetáculo da Studio de Dança La Bayadère (Guarapuava), na categoria “Dança”; Legenda Sonora (Curitiba), na categoria “Audiovisual/do Livro, da Leitura e da Literatura”; Retraço Novo (Londrina), na categoria “Criações Culturais e Funcionais”; e Suiane Maria (Curitiba), na categoria “Design”.

ONLINE
Informações sobre o Prêmio Brasil Criativo:
www.premiobrasilcriativo.com.br

Conheça o Programa Primeiro Museu:
www.primeiromuseu.org.br/site

*Reportagem publicada neste terça-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Wanderléa canta na Virada Cultural

Wanderléa, feliz por voltar a cantar aqui: no show da virada, sucessos garantidos.

Wanderléa, feliz por voltar a cantar aqui: no show da virada, sucessos garantidos

Por Wilame Prado

Hoje e domingo são dias de ver bons shows musicais sem pagar nada por isso. Em via pública, acontece a Virada Cultural Paraná – promoção do Governo do Estado em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura –, que este ano traz a Maringá shows da cantora mineira radicada em São Paulo Wanderléa, do músico e compositor maranhense também radicado em SP Zeca Baleiro e ainda outras atrações locais, regionais e estaduais.

Não comparável às viradas culturais paulistanas – verdadeiras epopeias culturais com música ligada horas a fio sem parar noite, madrugada, manhã e tarde adentro – a virada paranaense este ano será, simultaneamente, em oito municípios do Estado. Em Maringá, dois palcos começaram a ser instalados quinta-feira, na Avenida Horácio Racanello e na Travessa Jorge Amado, ao lado do Mercadão Municipal.

No Palco Conexões, a atração principal de hoje sobe ao palco às 22h30. Wanderléa, a nossa eterna Ternurinha e dona de uma das vozes mais marcantes do País, retorna a Maringá após 14 anos. Em sua última passagem por aqui, em 2000, fez show em clube fechado no aniversário de 50 anos de um empresário local, data marcante para a cantora.

“Lembro até hoje do dia 17 de junho de 2000, quando um industrial chamado José Carlos dos Santos me chamou para cantar aí. Fã declarado, o que mais me chamou a atenção foram as surpresas que ele preparou para mim: tapete vermelho já no avião, banda tocando minhas canções no aeroporto e até carreata comigo em cima do carro do Corpo de Bombeiros, além dos fogos de artifício. Toda essa homenagem foi marcante porque me fez lembrar da época da Jovem Guarda, quando, em cada lugar por onde passávamos, a cidade inteira fazia uma festa”, conta Wanderléa, que, em mais de 50 anos de carreira, eternizou sucessos nacionais como “Ternura”, “Foi Assim”, “Para o Casamento” e “Prova de Fogo”.

De sua casa, no Jardim Paulista, ela concedeu entrevista por telefone, comentou sobre o que pensa das viradas culturais, disse que fará questão de rememorar os sucessos da carreira no show de amanhã e revelou algumas novidades: música em novela da Globo, autobiografia e, futuramente, um filme sobre a sua marcante história de vida.

Com ela e com a banda, conta a mãe orgulhosa, trará também a Maringá a artista plástica e compositora Jadd Flores, uma de suas duas filhas e que, por aqui, fará o backing vocal durante o show.

Wanderléa, o que pensa sobre esse formato de shows, o da Virada Cultural?
WANDERLÉA – Acho maravilhoso. É a possibilidade de trazer vários estilos e artistas para um mesmo local, sem falar da chance de estar mais próxima do grande público, pois é de graça. Enfim, uma ideia maravilhosa. Tenho feito bastante viradas por aqui em São Paulo, na capital e no interior.

Quais músicas cantará por aqui?
Foi justamente em outra virada, a de SP, em 2002, que fui convidada a reeditar em um show ao vivo o álbum “Wanderléa Maravilhosa”, de 1972, que, com a sua pegada mais pop, num momento pós-tropicália, algo totalmente diferente para a época, não foi muito bem aceito, mas que, hoje, é cultuado e considerado moderno. Esse show resultou num CD e DVD pelo Canal Brasil e compõe boa parte do repertório que levarei a Maringá. Além disso, logicamente, não faltarão os sucessos, pois sei que o público quer e sei também que não é todo dia que podemos tocar na cidade, assim como fazemos em SP, por exemplo. Eu particularmente adoro resgatar os sucessos porque tenho muito carinho por eles. Já é difícil marcar com uma música quatro anos, imagine então marcar durante 40 anos.

Embora tenha uma carreira longa, com experimentações de vários estilos, você ainda é mais conhecida pelas canções do tempo da Jovem Guarda. O que ficou musicalmente daquela época?
Uma infinidade de sucessos e que as vezes nem está no setlist, mas o público começa a cantar para mim. “Ternura”, “Para o Casamento”, “Prova de Fogo”, “É o Tempo do Amor”, “Foi Assim”, “Te amo”, “Eu Já Nem sei” etc. Fico muito feliz com isso, o show ao vivo para mim é fundamental, é para o alimento da minha alma. Na televisão, diante das câmeras, a gente sabe que está chegando nos lares, mas ao vivo é pensar que todas aquelas pessoas saíram de casa por sua causa, é uma comemoração. E sobre os sucessos, fiquei contente também porque recentemente regravei “Sentado à Beira do Caminho”, do Roberto e do Erasmo, para a novela “Alto Astral”, da Globo. Foi um convite do Silvio de Abreu e do Jorge Fernando. A música ficou maravilhosa. Penso que talvez seja a gravação mais bonita que eu já fiz em minha vida.

E o cinema? Tem feito algo? Em 1968, esteve em “Juventude e Ternura” e “Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa”.
Tenho tido convite para fazer um filme com a minha história, mas queria que o roteiro fosse baseado no livro que escrevi há dez anos. Este ano, finalmente, entreguei essa espécie de autobiografia para a Editora Record e já tenho produtora, um bom diretor e bom roteirista. Quando comecei a escrevê-lo, era terapia revisitar os fatos passados. Hoje, relendo, choro a cada capítulo. Ficou forte.

VIRADA CULTURAL
Palco Conexões – Avenida Horácio Racanello

Hoje
18h – Stone Ferrari
19h30 – Novo Trio
21h – Lemoskine
22h30 – Wanderléa
0h30 – Cadillac Dinossauros

Amanhã
17h – Grupo Celebrate Jazz Combo
18h30 – Gustavo Proença
20h – Zeca Baleiro

*Reportagem publicada sexta-feira (14) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Os louros de Marcos Peres

Marcos Peres na cerimônia do Prêmio SP de Literatura: autor maringaense lança segundo romance ano que vem

Marcos Peres na cerimônia do Prêmio SP de Literatura: escritor maringaense lança segundo romance pela Record ano que vem

Por Wilame Prado

Ao conquistar o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria Melhores livros do ano – autores estreantes com menos de 40 anos, o escritor Marcos Peres, 30, torna-se um dos escritores maringaenses de ficção mais laureados de toda a história da cidade. Com o romance “O Evangelho Segundo Hitler” (Editora Record), ele também venceu o Prêmio Sesc de Literatura no ano passado e foi finalista do Jabuti este ano. Na “disputa”, segue empatado Oscar Nakasato, escritor e professor maringaense radicado em Apucarana que, com o romance “Nihonjin” (Benvirá), conquistou o Prêmio Benvirá e o Jabuti em 2012, além do Prêmio Bunkyo de Literatura em Língua Portuguesa.

Foram anunciados, na noite de segunda-feira, no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo (SP), os melhores romances brasileiros na opinião dos jurados do Prêmio São Paulo de Literatura. Além de Peres – que leva R$ 100 mil em premiação –, a escritora paulistana Ana Luísa Escorel ganhou na principal categoria, Melhor livro do ano, com “Anel de vidro” (Editora Ouro Sobre Azul), faturando R$ 200 mil. A porto-alegrense Veronica Stigger venceu com “Opisanie swiata” (Cosac Naify) na categoria Melhores livros do ano – autores estreantes com mais de 40 anos, e também leva R$ 100 mil.

O SP de Literatura, promovido desde 2008 pelo Governo do Estado de São Paulo e exclusivo para o gênero romance, é o maior prêmio do País levando-se em consideração o dinheiro pago. Todos os anos são R$ 400 mil em premiações, divididos nas três categorias. Este ano, 153 obras entraram na competição. Dessas, foram escritas por 67 autores “veteranos” e 86 estreantes. Entre os autores premiados em outras edições, destacam-se Cristóvão Tezza, com “O filho eterno”, Ronaldo Correia de Brito, com “Galiéia” e Raimundo Carrero, com “Minha alma é irmã de Deus”.

TRÊS PERGUNTAS A MARCOS PERES

‘Este prêmio é de Maringá’

Prestes a embarcar para o vôo de volta a Maringá, na manhã de terça-feira, Marcos Peres respondeu por e-mail a algumas perguntas referentes à conquista do Prêmio São Paulo de Literatura. Em pouco tempo hospedado na maior cidade do País, ele revelou ter sentido os desafios da escassez da água, problema enfrentado em SP, mas, claro, tudo valeu a pena. Agora, volta para casa com mais uma conquista literária e R$ 100 mil no bolso. Com novo romance pronto, a ser lançado pela Record, Peres tem uma certeza: 2015 será ainda melhor que 2014.

1 O que fará com os R$ 100 mil?
— Ainda não pensei no dinheiro, a ficha não caiu completamente. O justo, penso, seria reinvesti-lo na literatura, que é o que me proporcionou toda essa alegria. No momento, só penso em voltar a Maringá e comemorar. Fico sempre muito feliz com o progresso da literatura na cidade, vibro com o lançamento de amigos, comemorei as vitórias do Oscar (Nakasato) como se fossem minhas. Este prêmio é de Maringá, portanto.

2 Qual é o tamanho dessa conquista?
— O prêmio SP é completamente diferente do Sesc, que é para autores inéditos – como todo o processo é sigiloso e todos concorrem com pseudônimo, não há a sensação da concorrência, não é possível saber os outros que estão no páreo. O Prêmio SP é entregue no Museu da Língua Portuguesa, dos 20 finalistas, 18 ou 17 estavam presentes, e senti um frio na barriga ao ver aqueles caras todos, alguns deles presentes em forma de livro na minha cabeceira. A quantia vultosa do prêmio é dada para legitimar a qualidade do romance vencedor, para mostrar que literatura pode ser exercida de uma maneira profissional no Brasil.

3 Há uma data de lançamento para o novo romance pela Record?
— Imagino que o romance “Que fim levou Juliana Klein?” será lançado no primeiro semestre de 2015. Mas não há uma data certa definida. Vou sentar com meus editores e dialogar sobre o processo de lançamento. O ano de 2014 acabou hoje para mim, com chave de ouro. Amanhã já começo a pensar em 2015. Tenho certeza que será outro ano maravilhoso.

ISTO É MARCOS PERES
Juliana sorriu e deu de ombros.
“Não sei bem. Há coisas incompreensíveis, mesmo dentro de nossa família”.
Sabia, mas não queria falar. Não desejava mencionar nada que os ligasse aos Koch, em outras épocas. Tinha 34 anos, a cintura fina, o quadril largo, os lábios carnudos vermelhos em contraste com sua pele e seus olhos claros. Guardava o viço e os arroubos da juventude que encantaram Salvador Scaciotto, e tantos estudantes, de tantos anos. E que, a cada segundo, parecia encantar mais o delegado de polícia maringaense. ///Trecho do romance inédito “Que fim levou Juliana Klein?”, que Marcos Peres pretende lançar em 2015 pela Record

*Reportagem publicada quarta-feira (12) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Sem despedida, sem Choros nº 11

Por Wilame Prado

Márcio Silva, 45,
deixa filho, ex-esposa
e um bilhete
Pede apenas para cuidar do filhote

Choros nº 11, de Villa-Lobos,
Como é bela a canção
Parece coisa do tipo
acordar no meio da manhã
fria
de sábado, e não estar
sozinho
tem cheiro de café
restos de amor no lençol
e aquele vento frio entrando
pela fresta da janela
Jornal, Facebook e goles de café preto

Márcio Silva nunca ouviu,
em 45 voltas do mundo ao redor do Sol,
Villa-Lobos
Não há erros ortográficos
No bilhete em cima da mesa
Zona 7 de Maringá, cheia de sol
e um morto que se faz notado
pelo cheiro forte na quitinete

Choros nº 11, que coisa mais linda
É como saber que sempre haverá
um novo dia
amor
sexo
café
companhia
solidão, às vezes
felicidade só de estar
relaxado num sofá, às seis e meia

Márcio, tensão,
sol quente,
nenhum amor
nenhum emprego
nenhum valor
nenhum dinheiro
nenhum olhar
feio, burro, manco,
asqueroso, viciado,
mal amado
mal sucedido
mal compreendido
nunca ouviu Villa-Lobos
Cerveja, remédios e a despedida

Quem quer dar cabo da vida,
não anuncia nas redes sociais,
não tenta sarar as feridas
Tampouco suplicar carinhos
Cerveja, remédios e a despedida
Silenciosa,
sem música solene,
sem uma salva de tiros,
sem uma salva de palmas,
sem palavras
Sem palavras
Aliás, apenas algumas:
“cuida bem do filhote”

Mas se ao menos houvesse Choros nº 11,
e todas aquelas ressurreições,
em meio à peça musical,
por perto,
quem sabe?
Perdoai-vos, Pai
assim como Villa-Lobos perdoou

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