Mês: dezembro 2014



Sobre Breaking Bad

Protagonista Walter White em cena do último episódio da premiada série Breaking Bad

Protagonista Walter White em cena do último episódio da premiada série Breaking Bad

Por Wilame Prado

A cena de Breaking Bad (série de televisão dramática norte-americana criada por Vince Gilligan), ilustrada na foto acima, marcou-me muito.

É quando Walter White (ou Walt, ou Heisenberg), interpretado por Bryan Cranston, admite a Skyler, pela primeira vez, que “cozinhava” metanfetamina pelo bem próprio e não tanto assim para o futuro financeiro da família, justificativa que o personagem defende durante toda a série.

Na cena, ele admite que só vivendo os riscos com a fabricação da droga é que ele – mesmo sendo paciente terminal de câncer e tendo encarado tantas derrotas na vida calado – sentia-se vivo.

Profundo.

Essa reflexão – e a série como um todo – diz respeito a como convivemos com os nossos inevitáveis fracassos, e o quanto somos julgados quando “saímos da linha”. É sobre sonhos, atitudes, metas, objetivos, e o contrário disso tudo, fraqueza, preguiça, falta de sorte, desistência do querer, o velho ato de seguir levando porrada até morrer.

Breaking Bad é também sobre o modo como muitos líderes de famílias cometem verdadeiras loucuras para manter a ordem “dentro de casa”. Quantos Walt´s vivem espalhados por aí nesse mundo, se não cozinhando drogas, mas pilotando madrugada adentro uma motocicleta 125 cilindradas e pegando trampo também de manhã e de tarde, encarando dois empregos fixos, fora os freelas de final de semana, ou tendo que aturar o machismo das 8h às 18h num mundo corporativo sacana para, ainda, à noite, terminar de limpar a casa, passar a roupa e deixar o uniforme e o lanche dos filhos que vão à escola na manhã seguinte? E por aí vai.

Breaking Bad é sobre amizade, traições e família.

Fazer tudo isso, levar porrada, se lascar na vida, para, muitas vezes, não ter um reconhecimento sequer, ser eternamente julgado e criticado por gente de fora, e o mais dolorido, por gente que mora dentro da sua casa, por parentes, por amigos. O preço que se paga as vezes é alto demais. Mas fazer o quê? Poucos são audaciosos e mesmo egocentristas a ponto de catar uma mochila e sair por aí perseguindo única e exclusivamente os sonhos personalistas.

Não gosto de séries porque se perde muito tempo assistindo-as na íntegra. Fiz as contas: em vez de ter assistido aos 62 episódios da série que é dividida em cinco temporadas, poderia ter visto pelo menos 25 bons filmes com duração média de duas horas. Mesmo assim, valeu a pena.

Achei Breaking Bad primorosa, redonda, impecável. Texto invejável. Exercício de prosas mais longas. Prova que, com talento, tira-se as melhores fotografias até mesmo em meio a um deserto árido no Estado do Novo México e que atuações caprichadas não precisam necessariamente resultar em esteriótipos bobos, maniqueísmos infantis, a exemplo do que ocorre em muitas propostas teledramatúrgicas brasileiras.

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Fim do Projeto Um Outro Olhar: ‘Estou cansado’, desabafa Campagnolo

Campagnolo em cena: mesmo com os trabalhos nos palcos, revela poder voltar com projeto de cinema

Campagnolo: 2015 será teatral, mas ele revela poder voltar com projeto de cinema (Foto de Ademir Kimura)

Por Wilame Prado

Mesmo longuíssimo, o filme “Satantango” (exibido em Maringá em 2011 graças ao Projeto Um Outro Olhar), do húngaro Bela Tárr e que tem sete horas e meia de duração, tem um fim.

Uma das iniciativas envolvendo cinema mais marcantes de toda a história da cidade, o Projeto Um Outro Olhar, foi assim também: longo, mas com começo, meio e fim. No último dia 8 de novembro, quando o projeto completava 14 anos, no Sítio Kimura, o idealizador Paulo Campagnolo, 50, natural de Cascavel e radicado há alguns anos na Zona 7 de Maringá, abaladamente emocionado, comunicou o fim daquele que foi um dos programas mais “cabeças” que Maringá já viu nos últimos anos, por sábados a fio.

Ver a mais um cultuado filme na sessão noturna do projeto – que já percorreu por cinemas de shoppings e que, nos últimos anos, era exibido no Auditório Hélio Moreira – sempre sob curadoria de Campagnolo – amante da sétima arte, ator, diretor e escritor – era programa certo para um bom público. Após a exibição, que procurava ser pontual (poderia até ser filho do prefeito, mas, se chegasse atrasado, simplesmente não entrava), havia uma palestra do próprio coordenador do projeto, que, após optar por este ou aquele filme, munia-se de muito estudo acerca da obra e do autor, não sem antes ter assistido a uma infinidade de filmes para a sua escolha.

O cansaço pelo árduo trabalho com o projeto por anos ininterruptos, aliado a uma declarada decepção com o cinema contemporâneo, foram alguns dos principais motivos pelos quais Campagnolo, em quase uma semana de bate-papo via e-mail, declarou ter encerrado o Projeto Um Outro Olhar. No total, calcula ele, foram mais de 100 mil participantes, cerca de 1.200 filmes exibidos, centenas de resenhas publicadas neste caderno Cultura, algumas amizades alicerçadas e a honra de ter exibido verdadeiras preciosidades cinematográficas: “Cito dois filmes que me arrebentam emocionalmente: o clássico ‘Dois Destinos’, de 1962 (do italiano Valerio Zurlini), e o contemporâneo ‘Bom Dia, Noite’, de 2005 (também do italiano Marco Bellocchio).”

Na entrevista, a reportagem aproveitou para indagá-lo sobre os projetos que certamente consumirão a maior parte de seu tempo em 2015, quase todos relacionados à labuta teatral. E ao público que ficou órfão de cinema de qualidade com o fim do projeto, uma notícia boa e outra ruim. Primeiro, a boa: Campagnolo pode voltar com novos projetos de cinema; e agora a ruim: ele não divide por nada a sua invejável coleção de seletos quatro mil filmes devidamente guardados dentro de casa. Abaixo, a entrevista:

Após 14 anos, por que resolveu encerrar o projeto de cinema Um Outro Olhar?
PAULO CAMPAGNOLO – O Projeto Um Outro Olhar começou, no ano 2000, de uma forma muito inesperada para mim. Nem se tratava de um sonho, porque na verdade jamais sonhei com a possibilidade de que pudesse acontecer. Mas aconteceu, graças ao empenho do Gilmar Leal Santos (na época, um dos sócios dos cinemas do Shopping Aspen Park, que, depois, se transformou no Cinesystem e, enfim, no Cineflix hoje). E ele me pediu um projeto de exibição de filmes “alternativos” e a coisa toda aconteceu de uma maneira muito rápida e, devo dizer, profundamente transformadora para a minha vida. De repente, vi-me cercado de latas de película (portanto, verdadeiras, palpáveis, concretas) de filmes que fizeram parte da minha infância e adolescência e que, ainda por cima, fazem parte da história do cinema. Filmes como “Gritos e Sussurros”, do Bergman (o filme inaugural do Projeto, com uma sala lotada por mais de 200 pessoas que, é claro, jamais voltaram – com a exceção de algumas poucas); “O Leopardo” e “Rocco e Seus Irmãos”, do Visconti; “A Malvada”, do Joseph L. Mankiewicz; “Casablanca”, do Michael Curtiz; “Noites de Cabiria” e “Ensaio de Orquestra”, do Fellini; “O Morro dos Ventos Uivantes” (numa cópia péssima, mas que arrebatou todo mundo), no William Wyler; “Saló”, do Pasolini (que fez muita gente sair correndo da sessão), e tantos outros. E sem contar os filmes contemporâneos, distribuídos bravamente por pequenas empresas e que, aqui em Maringá, pouca gente viu, lamentavelmente. Quer dizer, era uma coisa de louco. E o louco era eu. Eu mal me aguentava nas pernas ao fazer os debates. Mal sabia do que estava falando. Achava mesmo que nem era preciso falar. Mas a proposta assim era. Então, os tempos mudaram. E quando penso nessas mudanças, a impressão que tenho é que foram tão violentas e abruptas que mal tive tempo de assimilá-las. E o cinema mudou tanto. Hoje creio ser possível contar nos dedos os cineastas que realmente realizam obras de relevância. Então o tempo foi passando e essa perspectiva nada agradável de que o cinema “incorporava” alguns desses sintomas tão precários da “experiência contemporânea” foi me dando nos nervos. E isso provocou um cansaço enorme porque, em alguns momentos (muitos, na verdade), eu acabava por assistir a uma penca de filmes (uns 40 ou 50, por vezes) para escolher apenas um para ser exibido. Esse trabalho foi ficando árduo principalmente porque com o tempo o Projeto foi assumindo um caráter muito político e ficava difícil, ou impossível, exibir qualquer coisa. E, depois, a vida, os outros projetos (teatro, literatura), acabaram por pedir mais a minha participação e, enfim… O cansaço. O Projeto acabou por tomar por demais o meu tempo. E como já não sou mais jovem, acabei por pedir “um tempo” nessa relação tão conturbada, tão difícil e, ao mesmo tempo, que me deu tantos momentos absolutamente loucos e maravilhosos.

Em todo esse tempo, tem ideia de quantas pessoas passaram por suas sessões? E o público mais fiel, aquele que você chegou a marcar rostos e nomes, era formado por quantos bravos?
Sempre fiz cálculos arredondando para menos. Porque o Projeto passou por fases bem complicadas. Mas, segundo esses cálculos, penso que mais de 100 mil pessoas frequentaram o Projeto. Quanto ao público fiel é muito difícil precisar o número. O Projeto sempre teve fluxos e muita gente frequentou durante muito tempo, depois sumiram e vieram outros. Porém, alguns muito loucos tiveram uma frequência mais regular. Alguns tornaram-se meus amigos em vida, muitos outros tornaram-se afetos conquistados e pelos quais tenho uma tremenda admiração e respeito.

Ainda sobre números, tem ideia de quantos filmes no total foram exibidos? Consegue imaginar a quantidade de horas dedicadas à apreciação e discussão fílmica?
No total, foram quase 1.200 filmes – alguns, hoje, eu nem exibiria. Não por serem ruins, mas trata-se desse caráter que o Projeto assumiu ao longo dos anos. Quanto ao tempo dedicado a isso tudo, é melhor que eu nem saiba mesmo. Muito tempo. Mas os debates, por mais que em muitos momentos eu quisesse “tomar conta”, sempre foram muito divertidos e muitas coisas alucinantes aconteceram nesses debates. Creio que daria um belo livro essa coisa dos “bastidores do Projeto”. Estou pensando nisso.

Qual o melhor e o pior filme exibidos durante o projeto, em seu ponto de vista?
Essa é uma pergunta muito complicada. Como você elege uma coisa como sendo a melhor ou a pior assim, de supetão? Como você compara filmes como “Aurora”, do Murnau, “O Ano Passado em Marienbad”, do Resnais, “A Marca da Maldade”, do Orson Welles, e mesmo um contemporâneo fabuloso como o gigantesco (7 horas e meia de duração) “Satantango”, do húngaro Bela Tárr, ou o “Berlin Alexanderplatz” (com mais de 15 horas), do Fassbinder, e o “Decálogo” (com quase dez horas) do Kieslówski? Talvez uma maneira de responder a essa pergunta seja apelando para questões como “honestidade”, importância histórica, relevância formal e tantas outras coisas. Em alguns momentos, é claro, tive de fazer certas concessões, mas não saberia dizer realmente qual foi o pior filme. Quanto ao melhor, tudo não passa de uma questão pessoal e muito emocional, penso. Então cito dois filmes que me arrebentam emocionalmente: o clássico “Dois Destinos”, de 1962 (do italiano Valerio Zurlini), e o contemporâneo “Bom Dia, Noite”, de 2005 (também do italiano Marco Bellocchio).

Nesse tempo, algo lhe aborreceu? Se arrepende de alguma coisa?
Todo aborrecimento acabou se transformando em mitologia. Aconteceram coisas muito estranhas. Pessoas que reagiram muito mal a alguns filmes e que, até mesmo, quiseram me bater. Acho isso tão engraçado hoje. Sobre arrependimentos, talvez se eu tivesse feito de outra forma… talvez se tivesse exibido tal e tal filme… talvez se não tivesse tanta insegurança. E assim vai. Mas, no fundo, é aquela velha história: você tem de tentar fazer o seu melhor.

Qual a lembrança mais bonita de algum acontecimento durante todos esses anos de projeto?
Tantas lembranças incríveis e que eu considero muito loucas. Por exemplo: quando eu fazia a programação e colocava alguns filmes eu pensava “porra, nesse aqui não vai ninguém!” E, então, acabava acontecendo justamente o contrário. Era uma coisa muito estranha e eu nunca entendi ao certo. Tenho as mais lindas emoções guardadas para certas exibições que eu julgava que não “funcionariam”. Eis que programo “O Atalante”, de Jean Vigo – um filme de 1934, uma maravilha para o qual as palavras talvez resultem em tremendas bobagens. E, naquela noite, não para de chegar gente. A sala ficou lotada e aquilo foi me dando uma coisa e eu queria perguntar pra cada uma daquelas pessoas (muitas eu jamais havia visto no Projeto): por que você veio ver este filme, justo este filme? E assim foi com a primeira exibição, também, do descomunal “A Palavra”, do Carl Dreyer. Talvez esse tenha me dado o maior dos arrepios que já senti na minha vida e quem conhece o filme vai me entender. Quando está chegando o final do filme e teremos, então, uma das cenas mais belas e emocionantes de toda a história do cinema, eu entrei na sala. E pude, assim, “sentir” a reação do público a essa tão milagrosa cena. Foi uma das coisas mais belas da minha vida. Aquele “ahhhh” em uníssono, na sala lotada. Senti um orgulho tão grande de pertencer a essa raça, a humana, capaz de tantos horrores, mas capaz de tantas coisas belas que podem mesmo nos dar uma dimensão do nosso lugar no mundo. Mas foram tantos momentos bonitos que minha vontade, agora, é curvar-me ao público para agradecer pelo mais elementar dos gestos: esse, de se fazer humano na sua inegável possibilidade de ser gentil, afetuoso, apto para o humanismo e a ética num mundo tão devastado pelo egoísmo.

Qual o legado deixado pelo Projeto Um Outro Olhar a Maringá?
Penso que, em primeiro lugar, foi uma oportunidade das pessoas darem uma “bisbilhotada” nas cinematografias chamadas “periféricas” e de assistirem alguns dos maiores clássicos do cinema. Alguns não sabiam exatamente o que estavam fazendo ali e jamais voltaram – esses eu tenho de considerar uns imbecis, lamentavelmente. Os outros, de alguma forma, foram “percebendo” coisas e, quando se deram conta, já estavam “entregues”, ou “debruçados” sobre este “novo” universo cinematográfico que se mostrava diante deles. Muita gente, com o tempo, chegou pra mim e disse: “Paulo, não consigo mais ver esses filmes comerciais que eu assistia antes”. E eu ficava apavorado, é claro. Pensava: “Cara, o que você está fazendo com essas pessoas?” Mas, depois, me tranquilizava: “não é você, são os filmes”.
Mas creio que quem deva falar mesmo sobre o legado do Projeto tenha de ser o público.

Mesmo com tantos projetos engatilhados ou sendo executados na área do teatro, o cinema continua sendo a grande paixão?
O cinema nunca foi uma paixão. O cinema é um AMOR imenso. É a minha primeira referência, na infância quando eu via na TV (vejam, eu tenho 50 anos) os filmes com a Greta Garbo, o Marlon Brando, a Bette Davis (eu adorava a Bette Davis), e o Hitchcock, o Sean Connery, o Errol Flynn (meu deus, que homem lindo! Eu pensava), o Clark Gable, os westerns, os melodramas do Douglas Sirk. Depois veio a literatura. Quando eu tinha 14 anos eu li “Crime e Castigo” e juro que pensei: que m… é essa? Tão louco eu fiquei. E no cinema fui pela primeira vez aos 6 anos de idade ver “Era Uma Vez no Oeste”, do Leone. Aquilo me deixou louco. Tinha um cinema na minha cidade que exibia, em matinée, os clássicos. Eu ficava encantado com aquilo, com os filmes em preto e branco, com a Ingrid Bergman e o Humphrey Bogart em “Casablanca”, o James Stewart e a Kim Novak em “Um Corpo Que Cai” – cheguei a ver “Lolita”, do Kubrick, e “Psicose”, do Hitchcock no cinema… quem poderia imaginar isso hoje? Então, é uma coisa sobre a qual nem posso falar direito. Claro que vi muita besteira. Eu vivia no cinema. Assistia tudo. Minha mãe achava estranho, mas mesmo assim eu insistia. Fiquei numa fila quilométrica para ver o “Guerra nas Estrelas”, do George Lucas, e “Tubarão”, do Spielberg, e “Lúcio Flávio”, do Babenco. E, quando a ditadura militar arrefeceu e pudemos ver, finalmente, os “filmes proibidos”, quase enlouqueci. Imagina ver, no cinema “O Último Tango em Paris”, do Bertolucci, “O Império dos Sentidos”, do Oshima, os filmes políticos do Costa-Gravas, o “Saló” do Pasolini, “O Porteiro da Noite” da Liliana Cavani, o maravilhoso “Iracema, Uma Transa Amazônica” do Jorge Bodanzky e Orlando Senna e “Laranja Mecânica” do Kubrick (com as infames bolinhas pretas nas genitálias dos atores, num primeiro momento), entre tantos outros. Que festa! Depois vieram os filmes de sexo explícito. E eu e algumas amigas do colégio de freiras onde estudávamos, pulávamos os muros e íamos nos “divertir”. Aquela “abertura” foi tão libertária. O cinema passava a ser “a liberdade”. Foi um momento lindo da minha vida. Um momento que só posso mesmo comparar com o Projeto Um Outro Olhar. Porque com o Projeto pude compartilhar dessa “experiência” tão devastadora e bela – a de ver filmes que nos colocam numa posição diante do mundo. E não há como fugir disso. É preciso estabelecer essa posição. Quem não faz isso eu só posso mesmo chamar de imbecil.

Almeja um dia participar de algum projeto na área do cinema, seja como ator, diretor ou roteirista?
Isso não passa pela minha cabeça. O cinema é uma coisa muito complicada, difícil.

O que gostaria de ver retratado nas cenas de um filme e que ainda não viu?
Se analisarmos bem, toda a condição humana já está presente em filmes extraordinários. Toda a percepção desse “estar no mundo” e de “pertencer” a este mundo já foi trabalhada de forma magistral por inúmeros cineastas.Tanto na forma quanto no conteúdo. Tenho, é claro, minhas predileções. Mas não desprezo o trabalho daqueles que, porventura, ainda tentam se aventurar nesse dilema. Quando penso em cineastas como o tailandês Apichatpong Weerasethakul (de “Mal dos Tropicos”, “Síndromes e Um Século” e “Tio Boonmee”), no húngaro Bela Tárr (de “Danação”, “Satantango”, “Werckmeister Hamóniák e “O Cavalo de Turim” – que encerrou sua carreira como diretor) e no português Pedro Costa (de “O Quarto de Vanda”, “Juventude em Marcha” e “Cavalo Dinheiro) – só para citar três -, então penso que eles trilharam um caminho tão prodigioso que faz com que eu pense: bem, nem tudo está perdido. Eu, seguramente, deixo a “bola” com eles.

Tem ideia de quantos filmes já assistiu em toda a sua vida?
Não tenho a menor ideia. Mas parece que foram muitos.

O que pode nos adiantar sobre os projetos para 2015, e aqui eu cito o possível Convite ao Cinema, ou então uma espécie de continuidade do Um Outro Olhar.
Creio que há uma possibilidade com o Convite ao Cinema, projeto da Secretaria de Cultura. Seria um projeto de cunho muito social, levando cinema para os bairros de Maringá. Mas nada ainda está “finalizado” quanto a isso. Sobre uma volta do Projeto Um Outro Olhar, creio que pode ser possível, mas num outro formato. Não tenho condições de pensar nisso agora. Ainda estou na ressaca do término do Projeto e isso é uma coisa que me dá muita tristeza.

Quais projetos no teatro serão executados em 2015?
Ah, os projetos… Toda vez que penso nos projetos logo em seguida me vem essa tenebrosa indagação: pra que tudo isso? Mas, enfim, deve ser, talvez, um desejo de falar sobre as coisas, as pessoas, essas inerências apavorantes que dizem respeito a todos nós. Tenho encontrado no teatro uma via de acesso a esses desconfortos, às dificuldades, ao que mais me aflige. Então eu tento. É um processo deveras difícil, principalmente quando você não pode depender disso para “movimentar” a sua vida. Porém, devo dizer, que tudo no qual me empenho em relação ao teatro vem de uma vontade de transformar em “prática”, em concretude de corpos e vozes, a “literatura” dos meus textos. E quando coloco a palavra literatura entre aspas é porque ainda não tenho certeza de nada… se aquele amontoado de palavras (das quais eu gosto, de uma forma geral – chego a ficar espantado com algumas coisas e penso: “porra, eu escrevi isso?”) significam algo que deva mesmo ser nomeado como literatura. Talvez, ainda, porque não tenho certeza de que as pessoas chegam mesmo a apreender, da maneira como “eu penso que deve ser apreendido” (que fique bem claro isso) tudo o que quero dizer. Bem, mas falávamos sobre os projetos.
Há uma coisa linda acontecendo comigo lá em Mandaguari, no trabalho de teatro que desenvolvo na Comunidade Social Cristã Beneficente. Num mundo de absurdo cinismo, lá encontro, com quatro garotas adolescentes, um “lugar” que eu julgava perdido, um “lugar” onde o afeto tem um papel predominante e, mais ainda, um “lugar” onde eu aprendo – porque essa convivência com as meninas (a Bruna, a Andressa, a Vanessa Lara e a Vanessa Carolina) faz eu me sentir melhor como pessoa, como artista. E elas, num despojamento assombroso, devolvem a emoção que sinto ao estar com elas com sagacidade, vontade e muito talento. Em 2015 vamos apresentar o “Barricada”, texto que eu já montei anteriormente e, ainda, um trabalho novo com as quatro e que deverá ter um humor negro daqueles que sempre pensei com adolescentes. Uma mistura de Godard com “South Park”. Creio que pode ficar bem politicamente incorreto.
Com o Teatro de Câmera, vamos montar “Puta!”, um trabalho que eu penso ser de ruptura do grupo e que terá Jucélia Cadamuro, Joaquim dos Santos, Fabrício Machado, Elizabety Barbosa, Mariana Scalassara e Amanda Podanoscki no elenco.
Em Campo Mourão estou dirigindo outro trabalho, “Desaparecimentos”, que é um texto meu com um grupo de lá. Estamos começando, mas a ideia é apresentar no segundo semestre de 2015. Um trabalho, no mais, bem difícil e que trata de um questionamento sobre o próprio ato de encenar, de fazer teatro, e do papel do ator.
Também quero montar um trabalho baseado na breve vida do tcheco Jan Palach que, em 1969, contra a invasão dos soviéticos na antiga Tchecoslováquia, se auto imolou em praça pública, em Praga, aos 20 anos de idade. A peça fará parte de uma trilogia sobre personagens históricos do Leste Europeu em tempos de autoritarismo político. Outro trabalho será sobre o ator polonês Zbigniew Cybulski (que fez o clássico “Cinzas e Diamantes”, do Andrzej Wajda, e era considerado o James Dean da Polônia). Nesse trabalho vou dirigir Donizeti Mazonas que este ano fez muito sucesso em São Paulo com a peça “Osmo”, baseado em Hilda Hilst. Mas não sei se conseguiremos finalizar para o próximo ano. Vamos começar, ao menos.
Portanto, muito trabalho pela frente e muita chicotada nos atores – essa é a parte que eu mais gosto.

Por que lutou tanto tempo pela vida do projeto Um Outro Olhar? Chegou a ganhar dinheiro, fama, amigos, amores ou, pelo menos, uma coleção de filmes (quantos? É um acervo físico? Virtual?)
Agora, pensando com tanto distanciamento sobre o Projeto, imagino que a “luta” tenha sido apenas porque eu achava bonito isso de compartilhar um gosto adquirido. E tinha um público e as coisas foram acontecendo. Esse “dar-se conta” de como tudo ocorreu é estranho e, ao mesmo tempo, tremendamente delicado. Eu nunca parei pra pensar que “se eu fizer assim“ ou “se eu fizer assado” isso poderia ser mais “interessante”. As coisas simplesmente aconteceram. Nunca ganhei dinheiro (ao menos nada que pudesse “solucionar” algumas questões elementares da vida cotidiana. E com isso não estou desprezando, é claro, dois patrocinadores corajosos que ajudaram o Projeto nos últimos anos), nunca foi meu foco – aliás, sou péssimo nisso de ganhar dinheiro.
Sobre a fama, creio que aconteceu alguma coisa. Algo que me faz rir hoje em dia porque isso é uma tremenda bobagem.
Amigos foram muitos e continuam sendo. Isso é o tipo de coisa que a gente costuma chamar de “impagável”.
Amores, nenhum… infelizmente. Porque no fundo o Projeto, como eu já disse publicamente, sempre foi uma tentativa de “arranjar” um namorado. Mas isso nunca deu certo. Acho que os rapazes tinham medo de mim.
Já a coleção de filmes (físicos, todos eles) bem razoável. Creio que uns 4 mil.
Sem contar os que já joguei fora – nossa, quantas bobagens são feitas!

Qual é a sua cidade natal e qual o bairro onde mora em Maringá? A idade já revelou, né? 50 anos bem vividos!
Eu nasci em Cascavel, mas saí de lá aos 20 anos e perambulei por aí. Moro, aqui em Maringá, na Zona 7, perto do Teatro Barracão. Lamentavelmente, 50 anos. Isso porque sou absolutamente incompetente no quesito suicídio. Tentei três vezes. Depois, tive que me conformar. Mas como muitos casos famosos, creio que ainda é uma possibilidade. Nunca esqueço a emoção que senti quando o diretor italiano Mario Monicelli (de filmes como “A Grande Guerra” e “Os Companheiros”) se atirou do quarto andar do hospital onde estava internado para tratar de um câncer na próstata. E isso aos 95 anos de idade. Pra mim, foi uma grande demonstração de que ele tinha direito à liberdade. Parece-me, na verdade, um tremendo gesto político, se pensarmos que a única maneira, hoje, de encararmos essa palavra é como um gesto absolutamente político. O meu corpo é político. A minha vida é política. O que eu faço dele, do corpo, e dela, da vida, é de interesse meu e apenas meu. Eu, inevitavelmente, sou um ser político. Como diria o Kirilov, em “Os Demônios”, do Dostoiévski: “suicidar-se é dar provas da própria liberdade”. Há quem não concorde, e eu sou muito compreensivo quanto a isso, na medida em que cada um cuida do que é seu e faz de sua vida o que bem entender. Adoro o Maiakóvski quando ele diz: “Para o júbilo, o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro. Nesta vida, morrer não é difícil. Difícil é a vida e seu ofício”.

Como era a sua relação com as distribuidoras de filmes e como você encarou a mudança radical do 35mm (película) para o digital?
Quando o Projeto começou, as coisas eram bem complicadas. Por mais que as distribuidoras de filmes de arte soubessem que seu produto não iria vender como um blockbuster, queriam um retorno razoável. E nem sempre isso foi possível, devido ao público inicial bastante escasso. Depois, com o tempo – e tanta vontade de desistir – as coisas foram mudando e a relação basicamente se inverteu: era a própria distribuidora que pedia para que exibíssemos seus filmes. Chegamos a deixar em cartaz o “Nossa Música”, do Godard, durante quatro semanas – mais tempo do que em São Paulo. E chegamos mesmo a exibir a cópia restaurada do “Passion”, também do meu querido Godard, antes mesmo de São Paulo. Foram muitas coisas lindas que aconteceram e das quais tenho muita saudade.
A mudança para o digital foi uma coisa triste, para mim. Como eu disse, a emoção de receber aquelas latas de filmes era inigualável. Quando chegaram as dez latas (três horas de duração) do “Rocco e Seus Irmãos”, do Visconti, eu juro: beijei todas as latas. Apalpei a película. Queria sequestrar o filme. Foi quase um orgasmo.

Na entrevista também comentou o lado divertido dos debates, mas já ouvimos casos de pessoas que se sentiram constrangidas durante as discussões pelo fato de ter demonstrado autoritarismo quanto aos seus pontos de vista. Isso tudo fazia parte de uma cena, do jogo, ou realmente, como também afirmou na entrevista, teve gente que quis acertar as contas no braço?
Essa questão do autoritarismo, eu penso agora, sempre foi uma defesa. Era o meu jeito de me defender de algumas coisas, de algumas pessoas, de algumas colocações que eu, por vezes, pensava serem ingênuas demais, tolas demais e, ainda, imbecis demais. E era, ainda, uma maneira de me defender daquilo que eu ainda não compreendia, das coisas que eu ainda não detinha (e, talvez, ainda não detenho). Mas é a velha história: o Projeto era eu, ficava difícil fugir de alguns “princípios”, digamos assim, adquiridos com o tempo. De qualquer forma, jamais disse que eu era o dono da verdade. Aqueles que se sentiram vilipendiados pelo meu autoritarismo, na verdade, talvez, não tiveram culhões para encarar de forma mais ostensiva a minha argumentação. Inclusive, uma dessas pessoas, algum tempo depois de um “arranco rabo”, num debate, chegou a vir a óbito. E eu pensei: “tá vendo Paulo, pra que tanto estresse?” Achei engraçado. O meu pensamento, não a morte do cara, por favor! A morte é uma coisa natural, não é mesmo? Considero a morte uma beleza. A última beleza. Calma (caro leitor), cuidado para não simplificar as coisas.
E depois, se pensarmos bem, tudo é cena, tudo é jogo de controle – não há como escapar disso. Contudo, teve gente que, julgando que eu era “culpado” por aquilo que (ele) havia acabado de assistir, chegou mesmo a dar de dedo na minha cara dizendo coisas do tipo: “você não tinha o direito de fazer isso”. Ora, se isso não é engraçado, então eu devo mesmo ser louco. Eu acho muito divertido quando lembro de certas coisas, de certas cenas bizarras – como, por exemplo, pessoas chegando até a bilheteria do cinema e apontando para um cartaz de um filme do Projeto e perguntando: “aquele filme é pra pensar?” Ou então o cara que entrou nada sala exatamente no momento de uma cena de sexo oral explícita, entre dois homens, no polêmico “O Fantasma” (2001), do português João Pedro Rodrigues. Foi muito engraçado, porque eu estava assistindo também ao filme, junto com o público. E ele se sentou na mesma fileira de poltronas que eu, só que do lado oposto. E ele começou a se masturbar, tranquilamente, como se estivesse na sua própria casa. E dava pra ouvir o barulho do cinto dele. Quando terminou a cena, ele se levantou, fechou o zíper da calça e o cinto e foi embora. Eis o mundo, eis o ser humano. Como diria o Melville, no “Bartleby”: “Oh, humanidade!”

Já pensou em disponibilizar essa sua coleção (4 mil títulos!) para o público de alguma maneira? Fazendo empréstimos remunerados, de repente…Assim como já existe em sebos de SP, você poderia ser uma espécie de locador-guia, sugerindo os filmes certos para cada um…
Acho que teria de abrir uma empresa. Acho que daria muito trabalho. Acho que teria de dizer não para muitas pessoas com as quais não tenho a menor afinidade. Acho que acabariam estragando os filmes. Acho que as pessoas são muito mal-educadas e não cuidam direito das coisas dos outros. Acho que não quero não. Acho até que vou vender os meus filmes e me tornar mendigo. Eu e meus três cachorros, que eu amo mais do que tudo neste mundo. Mais até, inclusive, que o cinema. E viveríamos até o dinheiro acabar. Depois, a escuridão e o silêncio da floresta. “E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos”. Sempre amei isso do Pessoa. Ou, então: “Vivi, amei, estudei e até cri. E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”. O Pessoa ainda é o cara.

*Parte desta entrevista foi publicada nesta terça-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Poesia cênica de Hermsdorff

Lucas Fiorindo estuda texto de Hermsdorff; ao fundo, atores ensaiam para a estreia do espetáculo "Florescerro"

Lucas Fiorindo estuda texto de Hermsdorff; ao fundo, atores ensaiam para a estreia do espetáculo “Florescerro”

Por Wilame Prado

Já aos 19 anos, pulsava poesia nas veias do jornalista Gustavo Hermsdorff, hoje com 23, nascido em Campinas e radicado em Maringá desde pequeno. Em 2010, após participar do Núcleo de Dramaturgia do Sesi, ele conquistou ferramentas teóricas suficientes para transformar as suas intuições e inquietações poéticas na peça dramatúrgica “Um Erro que Vive”, que, montada sob o nome “Florescerro”, estreia às 20h30 de amanhã, no Teatro de Oficina da UEM, pela Temporada Universitária. A entrada é franca.

Dono de um texto lírico e arrebatador, Hermsdorff transformou poesia em uma proposta dramatúrgica dividida em seis cenas e que consiste em um diálogo – simples, na forma, e denso, no conteúdo – entre os falantes A e B, interpretados pelos atores André Fabrício e Vinicius Huggy. A direção da montagem é assinada por Lucas Fiorindo.

A vida, nesse mundo construído pelo autor, consiste numa espécie de duelo – sem dualismos, pois há mudanças de pontos de vista das personagens a todo momento – entre o realismo de alguém que, sempre disposto a apontar e solucionar (voz da razão?), prevê cuidados com o cão raivoso, com o tempo e com os erros, e o otimismo de alguém que enxerga a alegria do cão que persegue a carroça ou de quem viu num gesto errado e cheio de medos o milagre da vida em flor.

A existência, para Hermsdorff, é atrofiadora: “Estamos todos presos do lado de fora de um abraço”, profere um dos falantes, em dado momento.

“A primeira fala, por exemplo, é ‘A alegria do cão que persegue a carroça’. O que dá pra entender por isso? É a simplicidade do sorriso despercebido ou despretensioso, de um ser de amor gratuito que, mesmo podendo perseguir uma Ferrari ou outro carro, prefere aquele que mais lhe parece carinhoso. É sobre isso (a peça), acima de tudo”, diz .

Da teoria à prática
Junto do autor havia primeiro o poder da observação, a sensibilidade poética, um texto e o conhecimento teórico. Faltava dar vida a isso tudo. É quando entram “em cena” os amigos do teatro maringaense, gente disposta a estudar e a fazer teatro de pesquisa.

A proposta de Hermsdorff era contemporânea, delicada, sujeita a errâncias, a depender da maneira como seria transportada aos palcos. Para Lucas Fiorindo, ator que estreia na direção, conduzir o processo criativo de “Florescer” era chance de compartilhar experiências e conhecimentos.

O diretor, então, tinha em mãos algumas problematizações, chaves para o êxito do espetáculo, a enumerar: a lida com um texto subjetivo e poético; uma necessidade interpretação relevante (atores e atuações em primeiro plano por conta do diálogo denso); e a suma importância da voz como ferramenta de imprevisibilidade e verdade no texto. Para isso, sugeriu a todo o grupo alguns ensinamentos partidos de Antonin Artaud, Antunes Filho e Roberto Alvim.

“Tínhamos, a princípio, a vontade e a obrigação (pela característica da dramaturgia) de pesquisar e desenvolver um teatro ontológico-metafísico. De Artaud, a visão profunda do teatro como uma poesia para os sentidos. De Antunes Filho, as técnicas ‘sagradas’ para o ator. De Alvim, a ênfase na fala e em uma dramaturgia que funciona como ‘máquina desejante’ via procedimentos inventivos que trazem imprevisibilidade e tensionamento (a opsis e não o mitos)”, conceitua o diretor.

Noite de estreias
O resultado disso tudo poderá ser visto no palco do Teatro de Oficina da UEM, quando teremos, na sexta, uma verdadeira noite de estreias. Além de Hermsdorff debutando na dramaturgia e Fiorindo na direção teatral, será a primeira vez de Vinicius Huggy como ator e figurinista e a primeira também de Rachel Coelho na produção. André Fabrício, que embora faça teatro desde o fim dos anos 1990, monta seu primeiro espetáculo totalmente maringaense. E Ana Paula Siste assina o cenário.

“O ponto fundamental e mais potente desse formato é aproveitar o conhecimento, o trabalho e a inspiração de todos os envolvidos, afunilando as diversas influências, através do debate, para um resultado denso”, opina Fiorindo. E completa Hermsdorff: “O que o público deve ter em mente é que não há uma lição ou mensagem a ser passada, mas sim uma experiência. Se conseguirmos 170 experiências diferentes (o número de cadeiras do teatro), então nós fizemos um bom trabalho.”

PARA VER
FLORESCERRO
Pela Temporada Universitária da UEM
Quando: amanhã
Horário: 20h30
Onde: Oficina de Teatro da UEM
Entrada franca

Ficha técnica
Texto: Gustavo Hermsdorff
Direção: Lucas Fiorindo
Elenco: André Fabrício e
Vinicius Huggy
Cenário: Ana Paula Siste
Figurino: Vinicius Huggy
Confecção de figurino: Ana Brás Furlan
Produção: Rachel Coelho
Arte gráfica e assessoria de Imprensa: Vila Ópera
Fotografia: Rafael Saes

*Reportagem publicada na terça-feira (9) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Oração performática em NY

Atriz maringaense Dai Fiorati performando na Union Square Park, em Nova York: "Realizei a performance como uma celebração desse novo momento que estou vivendo" (Foto de Marta Grasso)

Atriz maringaense Dai Fiorati performando na Union Square Park, em Nova York: “Realizei a performance como uma celebração desse novo momento que estou vivendo” (Foto de Marta Grasso)

Por Wilame Prado 

Após a perda, após a dor, há pelos menos dois caminhos a seguir: o da eterna lamentação ou o do enfrentamento corajoso, que tende a resultar na fortificação do ser. Depois de perder uma grande amiga de infância num fatídico 30 de novembro de onze anos atrás, Dai Fiorati, 28, atriz de Maringá radicada no Rio, resolveu caminhar em busca do seu maior sonho, que era seguir os tortuosos – mas muito bonitos – caminhos da arte.

E para homenagear a amiga querida que se foi, exatamente às 14h30 deste último 30 de novembro, encarou pela primeira vez uma atuação performática em plena Union Square Park, Nova York, cidade onde passou quase três meses e da qual se despede amanhã, quando retorna ao País.

“Protegida” e coordenada pelo amigo e mestrando em Performance Marcelo Asht, Dai estrelou a performance “StarPath with Butterflies and Flowers or Amor(te)”, ficando em meio ao passeio público nova-iorquino sem visão (olhos vendados) e ouvidos (equipada com fones), desenvolvendo uma série de ações, entre dança, mudrás e leitura de partitura física. Enquanto isso, o público – mantido totalmente alheio pela atriz – podia ouvir um texto que estava escrito e gravado em áudio em inglês (voz e tradução de Patrícia Almeida).

“Construí uma estrutura estético-visual com base no movimento brasileiro da Tropicália, por ser um movimento tipicamente antropofágico e brasileiro, e estrutura poético-narrativa inspirada no universo da poeta brasileira Ana Cristina César, da qual tenho trabalhado há quase três anos em um espetáculo teatral com base em profundas pesquisas poéticas e biográficas”, diz.

Debutante em performances, o desafio havia sido lançado. E tudo conspirava a favor, diz Dai: a bela cidade visitada para descanso e para conhecimentos acerca do cinema, a eterna lembrança afetiva da amiga hoje moradora em outras paragens e algumas certezas no peito, sendo a principal delas a de que, há muitos anos, quando desistiu do curso de Psicologia na UEM, havia seguido as placas corretas em busca da carreira como atriz.

Em meio a um público pacífico e acostumado a intervenções artísticas no meio da rua, no centro do mundo, sentada, sozinha, sem ouvir nada, sem ver absolutamente nada, a homenagem estava posta, e foi em oração que Dai se recordou com o mesmo carinho de sempre da amiga e de como ter tido tamanha perda na vida foi dolorosamente essencial para que se tornasse forte, se tornasse mulher, já aos 17, disposta a não temer os desafios vindouros.

“Realizei a performance como uma celebração desse novo momento que estou vivendo, de profundas mudanças, crescimento e evolução artística, e como uma oração a essa amiga, que em sua tão breve passagem, me proporcionou um encontro forte e sincero o suficiente para gerar desdobramentos e caminhos definitivos em minha vida”, diz a atriz, que, agora, com data marcada para voltar, já pensa em 2015, quando, em janeiro, entra em cartaz no Teatro Poeirinha, em Botafogo, no Rio, com a peça “Antiga”, dirigida por Charles Asevedo, dramaturgia assinada por Gustavo Damasceno e que tem como consultora a consagrada atriz Vera Holtz.

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (10) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Missão ‘sorrir’ na África

Em Burkina Faso, pessoas acompanham espetáculo de palhaços da Cia Teatro Expressão do Amor, de Maringá

Em Burkina Faso, pessoas acompanham espetáculo de palhaços da Cia Teatro Expressão do Amor, de Maringá

Por Wilame Prado

A vida é dura em Burkina Faso, país localizado na região norte do subcontinente africano, classificado entre os dez mais pobres do mundo (segundo a ONU) e que tem 76% de analfabetismo, o maior índice neste planeta. Mesmo assim, a Cia Teatro Expressão do Amor – grupo cristão que atua com as artes cênicas há 19 anos em Maringá – conseguiu arrancar sorrisos de pessoas que, em sua maioria, nunca tinham visto antes um espetáculo de teatro.

Os atores Alexandre Penha, Hudson Zanoni, Renata França e Weglison Cavalaro percorreram cerca de dois mil quilômetros em solos africanos entre os dias 18 e 27 de novembro levando teatro para plateias carentes não apenas de sorrisos, mas dos mais ínfimos recursos básicos e vitais para a sobrevivência.

Eles fizeram parte da Missão Desafio e Missão Integral para Promoção da Infância – organização religiosa que há sete anos trabalha em Burkina Faso, levando medidas educativas para as crianças e melhorias da qualidade de vida com saneamento, alimentação e abertura de poços artesianos. Diante disso tudo, os quatro palhaços maringaenses queriam mesmo é dar um pouco de alegria por meio da arte do clown, um sorriso de um ou outro, no mínimo, uma gargalhada sincera de outros tantos, quem sabe.

Na opinião de Alexandre Penha, que, ao lado de sua trupe, desembarcou de volta a Maringá no último domingo, a missão foi concluída com êxito. Afinal, rir é uma expressão humana existente em qualquer lugar do mundo, independentemente das adversidades nas cercanias. “Para a arte do palhaço, o fator acrescentador foi a certeza de que ele é um arquétipo de uma das condições humanas, que é o riso. Sua disponibilidade sacrificial para uma brincadeira, uma queda, uma dança ou apenas um sorriso é presente em todo ser humano, independente de sua cultura, história ou geografia”, diz ele.

Hospedados na capital Ouagadougou, percorreram inúmeras cidades, do norte e do leste do país. Para a missão artística e humanitária, o ator ressalta a importância do patrocínio de amigos, igrejas, empresários e anônimos. Na África, Penha e os demais palhaços entenderam – talvez pela primeira vez em suas vidas – que a vida de ator pode estar cercada por perigos. Para ir a alguns vilarejos, conta ele, a trupe teve que se valer de escolta do exército de Burkina Faso, pois havia perigo de serem atacados por piratas do deserto.

Em meio a tantas aventuras, por que tudo isso realmente valeria a pena? Há perigo de vida, dificuldades com a língua (os espetáculos recebiam tradução do português para o francês e depois para a língua de cada tribo, em um país onde há 74 dialetos tribais), completo desconhecimento da questão cômica do palhaço e sua maquiagem e uma óbvia escassez de retorno para aqueles que estão no “palco” (a maioria das cenas eram improvisadas em cima de um chão batido de terra e embaixo de um sol escaldante). Apenas com um argumento dramatúrgico, Penha já tem a resposta do porquê tudo isso valeu sim a pena: o teatro é a arte do encontro.

“A afetividade corporal africana é muito forte e presente. Esse detalhe foi muito bem assimilado pelos artistas brasileiros e um caminho para a interação artística. Objetivamente, a experiência promoveu a consolidação do conceito já pesquisado por diversos teóricos do teatro, como Grotowski, que caracteriza o teatro como a arte do encontro. Acima da cultura, o encontro que o teatro produz é de certa maneira universal. A conclusão desses encontros entre palhaços brasileiros e diversas tribos africanas reforçou esse conceito, acima do entendimento da máscara, está o jogo, a troca, a disposição, a presença de uma artista diante de um espectador”, ensina o ator.

E finaliza, evidenciando aquilo que sempre acaba acontecendo com quem se propõe a fazer o bem por meio da arte: o bem maior acaba ficando mesmo do outro lado das cortinas. “A visão sobre a África, depois da viagem, foi a certeza da força do povo africano, extremamente hospitaleiro, simpático e auxiliador. Trouxemos na bagagem mui tas histórias de encontros de seres humanos, que perpassam a cultura e a distância, alcançando a essência que é se relacionar com o outro apenas com o desejo de conhecer o outro.”

*Reportagem publicada na quarta-feira (3) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Incentivo cultural do Paraná

Por Wilame Prado

Segunda-feira que passou, 1º de dezembro, pode ser considerada uma data histórica para o setor cultural do Estado do Paraná. É que foi lançado, no Palácio do Iguaçu, em Curitiba, o primeiro edital do Programa de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná, o Profice. Participaram da solenidade o governador Beto Richa, o secretário estadual da Cultura, Paulino Viapiana, além de representantes de entidades paranaenses ligadas à cultura.

Os mais variados projetos culturais poderão contar, em 2015, com um valor calculado em R$ 30 milhões que virão do Profice, que, de acordo com a resolução número 125/2014 da Secretaria Estadual da Fazenda, utiliza recursos provenientes do Incentivo Fiscal. As áreas previstas pelo Profice são: Artes Visuais; Audiovisual; Circo; Dança; Literatura, Livro e Leitura; Música; Ópera; Patrimônio Cultural Material e Imaterial, Povos, Comunidades Tradicionais e Culturas Populares e Teatro.

Os produtores culturais terão quase dois meses para inscreverem seus projetos no Profice, que terá inscrições abertas em 15 de dezembro, com término dia 13 de fevereiro de 2015. Lembrando que só poderão apresentar projetos os agentes culturais domiciliados ou estabelecidos no Estado do Paraná há no mínimo dois anos, além de pessoas jurídicas de direito privado que tenham como objeto atividades artísticas e culturais, domiciliadas ou estabelecidas no Estado há no mínimo dois anos.

Podem ser incentivadores culturais as pessoas jurídicas – contribuintes do Estado do Paraná -que, com o edital, agora podem optar pela aplicação de parcelas do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) no incentivo a projetos culturais, assim como já acontece em outros Estados brasileiros, a exemplo de São Paulo.

De acordo com a Secretaria Estadual de Cultura (Seec), os projetos culturais inscritos no Profice deverão observar os objetivos de promover a criação, a formação, a produção, a manutenção, a difusão e a circulação artística e cultural; a preservação, a pesquisa e a difusão do patrimônio histórico, artístico e cultural; e, ainda, o estímulo ao acesso dos bens e valores culturais.

Descentralização
De acordo com o governador, uma das metas do Profice é que haja uma descentralização do incentivo cultural. Ou seja, que o dinheiro não fique apenas em Curitiba, mas também para as demais cidades paranaenses, inclusive as localizadas no interior. “Com este programa, faremos um trabalho ainda mais evidente e vigoroso em prol da cultura paranaense, contribuindo com projetos e produções culturais de todos os municípios do Estado”, afirmou Richa, em entrevista concedida para a Agência Estadual de Notícias (AEN).

Viapiana, que, sempre na pasta da Cultura, está ao lado de Richa desde o início de seu primeiro mandato, afirmou que o Profice é sonho antigo do Governo Estadual. “A elaboração do programa foi bastante discutida, principalmente com a classe artística. O Profice vai transformar o perfil da cultura do Paraná, ao descentralizar esse processo e beneficiar todas as regiões do Estado”, enfatizou o secretário estadual da Cultura.

Para corroborar esse desejo de descentralização, o secretário comenta sobre as três faixas de abrangência do Profice: em municípios com até 20 mil habitantes; em cidades com até 100 mil habitantes, e com mais de 100 mil habitantes. Dentro do edital, estão previstas seis faixas orçamentárias que variam de R$ 25mil a R$ 750 mil.

SAIBA +
Acesse o edital do Profice
na íntegra neste link: http://zip.net/brqlFm
Outras informações, pelo telefone e e-mail:
(41) 3321-4733 e [email protected]

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (3) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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Final do Prêmio Brasil Criativo é em SP

Por Wilame Prado

A partir das 20h30 de amanhã, no Auditório do Ibirapuera (SP), será entregue o Prêmio Brasil Criativo, uma iniciativa da 3M, do Project Hub e do Ministério da Cultura que vai premiar projetos inovadores na área da economia criativa do Brasil.

O Programa Primeiro Museu, desenvolvido pela instituição maringaense Museu da Família, concorre ao prêmio na categoria “Museus”. O Prêmio Brasil Criativo será entregue em 22 categorias, todas do setor criativo.

Os vencedores serão anunciados em cerimônia que reunirá artistas, intelectuais e empresários, com apresentação de Renata Simões e Leo Madeira.

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