Mês: fevereiro 2015



Painel do Café para todo mundo ver

Bar Colúmbia lotado na década de 1950; ao fundo, o imenso painel, encomendado pelo segundo prefeito de Maringá, Américo Dias Ferraz

Bar Colúmbia lotado na década de 1950; ao fundo, o imenso painel, encomendado pelo
segundo prefeito de Maringá, Américo Dias Ferraz

Por Wilame Prado

Na década de 1950 em Maringá, fazendeiros, cerealistas, empresários e políticos bebericavam e petiscavam no Bar Colúmbia, na antiga Avenida Ipiranga (hoje, Av. Getúlio Vargas), podendo ao mesmo tempo contemplar uma bela obra de arte ao fundo do salão: o “Painel do Café”, concebido em 1956 pelo artista plástico Waldemar Moral Sendin, um dos mais requisitados na época para pinturas em cerâmicas e azulejos.

A obra – um painel de azulejos que mede 2,4 metros de altura (16 azulejos) por 7,95 metros de largura (53 azulejos), totalizando 848 peças – foi encomendada pelo proprietário do bar e do imóvel, o então cerealista de café Américo Dias Ferraz, que, no mesmo ano, viera a se tornar o segundo prefeito da cidade.

Quase 60 anos depois, o bar já não existe mais, o prefeito e o artista já morreram, o imóvel, hoje, é locado para comércio em geral em uma das avenidas da região central da cidade, mas, surpreendentemente, o “Painel do Café” permanece praticamente intacto, com apenas alguns azulejos danificados. Pelo valor histórico e cultural, há quatro anos a obra foi tombada e, no começo deste mês, os proprietários do imóvel (as famílias Bruder e Maimone) oficializaram a doação da obra para o poder público.

A secretária de Cultura, Olga Agulhon, adianta que, ainda este ano, conversas serão iniciadas com equipes especializadas em restauração e mobilidade de obras de arte. “Queremos que a obra seja, oficialmente, instalada em um local público e de amplo movimento. Pensamos, inicialmente, no aeroporto, mas pela possível mudança do local de embarque, ainda não definimos o local. O mais importante é que isso se realize até no ano que vem, quando a bela obra completa sessenta anos”, destaca.

Para João Laércio Lopes Leal, historiador da Gerência de Patrimônio Histórico de Maringá, mudar o local do “Painel do Café” é algo que estimula a conservação da memória local. “O painel retrata uma colheita de café em uma propriedade provavelmente localizada em Minas Gerais (há montanhas ao fundo), onde nasceu o Américo Dias Ferraz. Mas retrata um importante momento para Maringá também, que é o ciclo do café”, ressalta.

O mantenedor do blog Maringá Histórica, Miguel Fernando Perez, comemora a decisão de se transferir o “Painel do Café” para um local de fácil acesso: “Um produto clássico de nossa história. Interessante que o local que o abrigou se alterou, mas o painel, por algum milagre incontestável – vide a falta de interesse na preservação de nossa história – resistiu. Agora, a obra precisa ser instalada em local fechado (pois foi concebido assim) e com grande circulação de público”, diz.

*Reportagem publicada em 24 de fevereiro no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Sérgio Tavares Filho lança ‘Capricórnia’

Sérgio Tavares Filho: mesmo longe, cidade natal não é esquecida em livro

Sérgio Tavares Filho: mesmo longe, cidade natal não é esquecida em livro

Por Wilame Prado

Sérgio Tavares Filho andava sumido. Maringaense de 32 anos que atuava na área da comunicação por aqui, foi estudar fora do País e acabou conhecendo em Helsinque, na Finlândia, a sua mulher. Por lá ficou e hoje mora com ela em um pequeno apartamento na capital finlandesa, prossegue com os estudos em um doutorado na área da cultura e cumpre expediente, “para o ganha-pão”, numa agência de mídia. Sua forma de reaparecer por aqui vem nas páginas de um livro. Tavares Filho lançou recentemente “Capricórnia” (Patuá, 136 páginas, R$ 32), à venda no site da editora.

O romance de estreia do maringaense conta a história de uma arquiteta que se envolve em um acidente e que, após este acontecimento, convence-se de que é uma outra mulher. Enlouquecida, viaja aos trópicos para descobrir quem realmente é. De maneira indireta (no livro a palavra “Maringá” não aparece), ela vem parar justamente aqui na cidade – local propício, segundo o autor, para refletir com a arte do romance sobre a espécie de bolha que vive a classe média, muito aproximada da pobreza, mas também muito temerosa por aquilo que está do outro lado da margem.

Sobre o livro, inspirações, literatura, personagens femininos e a vida longe da cidade natal, ele falou nesta entrevista:

E a vida em Helsinki?
SÉRGIO TAVARES FILHO – O dia a dia é calmo: o transporte funciona de forma exemplar, a burocracia é reduzida e há uma sensação forte de segurança. Apenas o idioma é que faz sofrer!

Qual é a história do livro?
É a história de uma arquiteta que enlouquece depois de atropelar uma mulher na estrada. Ela se convence de que é outra pessoa e vai atrás de descobrir quem é. Para isso, vai de encontro até “o Trópico” — e é ali que ela encontra os pobres, à beira da estrada e seus próprios limites. Isso é tudo muito inspirado na nossa classe média de Maringá, que vive numa espécie de bolha: clube, igreja, casamento, design de interiores. Existe um medo terrível de tudo que vem do outro: a margem da cidade, o filho da empregada, ou até ficar pobre. Lidei com esses desconhecidos para fazer o livro.

Como foi para você dar voz a uma personagem feminina?
O texto surgiu como ensaio de uma briga entre marido e mulher. Foi se expandindo até virar o livro todo, sempre como uma torrente de pensamento. Acho que isso foi possível porque minha família é muito matriarcal. O livro é também uma coletânea de histórias que ouvia quando criança, algumas delas muito perturbadoras. São histórias desse Paraná mais profundo, e sempre chegaram a mim depois de gerações, através das mulheres da família.

É um romance psicológico?
Sim. Tudo se passa na cabeça da personagem, e o ritmo da narrativa segue muito também as próprias tensões da arquiteta. Queria fazer uma personagem forte, mas vulnerável. Para mim, o drama nunca é ser forte ou fraco, mas sim a transição entre uma coisa e outra.

Acredita que, na literatura, é ajudado por suas bases teóricas, levando em conta os estudos sobre “paratextos”, videoinstalações e tagnovels?
Acho que sim. Em especial os estudos de símbolos e algumas coisas sobre narrativa. O Umberto Eco me ajudou, por exemplo, a não criar efeitos ou sensações, e sim sentido e propósito. Vivemos numa cultura muito cheia de estímulos fáceis, e eles são geralmente de mau gosto. Basta pensar no Big Brother, nas mulheres-objeto que permeiam a TV, e afins. Da mesma forma, os melodramas, os sentimentalismos.

Chamou a atenção a dedicatória à memória de sua mãe e o fato de o livro ser protagonizado por uma mulher. 
Minha família passou, de forma difusa, por eventos narrados no livro. É uma coletânea. Minha mãe sofreu um acidente quando era jovem, por exemplo, e perdeu a irmã. Sempre foi dramático na família, isso. E há outras histórias, também. Dediquei o livro a ela em especial porque, há um ano e meio, ela faleceu, vítima de um aneurisma. Foi súbito e ainda sinto enormemente sua falta. O livro fecha alguns ciclos na nossa vida psíquica também.

A questão do duplo é recorrente na literatura. Como foi a construção dessa personagem?
O duplo é sempre assustador, porque é um estranho que é ao mesmo tempo familiar. Há muita teoria em torno desse conceito. Queria a ideia de que a narradora aos poucos passasse a se tornar a arquiteta em quem “encarnou”. E tinha que ser aos poucos. Foi um processo interessante, em especial porque quando a narradora se refere a “ela”, essa mulher em que ela passou a habitar, o livro passa a ser narrado em terceira pessoa. E ao mesmo tempo, é em primeira pessoa. Então essa confusão acabou sendo uma escolha estilística interessante.

E com relação ao espaço? Essa cidade média brasileira sobre o Trópico de Capricórnio?
Pois é! Não há como negar que é amplamente inspirado em Maringá. E o trópico é apenas um símbolo de tantas divisões que fazemos: nós e a empregada doméstica.

E as negociações com a Patuá?
Foi demorado, mas o importante foi ter paciência. O Eduardo Lacerda está fazendo algo importante. É uma nova maneira de curadoria, livre de hábitos editoriais que ficaram obsoletos ou que não podiam existir antes. Acho que ele está na ponta da inovação. Sinceramente eu fiquei impressionado com a baixa qualidade de livros publicados em editoras menos conhecidas. A Patuá consegue publicar uma quantidade alta de bons livros, que ganham prêmios. É diferente de outros editores tradicionais, como a 7Letras, que publicam poucos e bons. Estou muito feliz.

ISTO É SÉRGIO TAVARES FILHO
“Quando já fazia um ano que brincávamos, minha mãe começou a se incomodar com o tempo que eu passava no corredor. Às vezes só o que eu ouvia era a reclamação dela, ainda que eu ficasse em frente à fresta e tentasse me concentrar na vozinha dele. Eu sabia que ele queria minha companhia, e eu queria a dele, também.
Um dia eu dei a ele um pedaço maior de pão que minha mãe havia acabado de assar. Ele disse que nunca havia experimentado aquele tipo de pão. Era de novo um dia muito azul e ele me confessou uma coisa que ele só dizia a quem confiava: ele estava lá, na fresta, porque ele guardava um tesouro. Eu fiquei surpresa, mas da maneira como as crianças ficam quando surpresas: poderia ser um tesouro ou uma nova conta de vidro, não fazia diferença. O simples fato de que ele tinha algo que não podia deixar de ser guardado já era fascinante e eu estava muito curiosa para saber o que era. Se eu quisesse vê-lo, ele disse, eu precisava trocar de lugar com ele. Será que eu iria conseguir deixar minha mãe e meu pai e meus amigos para viver lá? Não estava claro para mim, mas eu tive, então, pela primeira vez na vida, uma dúvida verdadeira diante de uma escolha. Eu não pude dar para ele uma resposta imediata, e pensei nela por muito tempo.” ///Trecho do romance “Capricórnia”, de Sérgio Tavares Filho

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CAPRICÓRNIO
SÉRGIO TAVARES FILHO
Editora: Patuá
Número de páginas: 136
Preço: R$ 32 + frete
Onde comprar: www.editorapatua.com.br

*Reportagem publicada em 15 de fevereiro no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Nem tudo são flores para elas

Giovana Lago, Caroline Toffanelli, Tayene Elize e Joyce Rezende; atrizes revivem grandes personagens femininos do teatro

Giovana Lago, Caroline Toffanelli, Tayene Elize e Joyce Rezende; atrizes revivem grandes personagens femininos do teatro

Por Wilame Prado

De maneira poética, o compositor e maestro alemão Richard Strauss comparou mulheres e flores no ciclo de canções “Mädchenblumen”. Ele se lembra da flor do campo, da papoula, da hera e do lírio d’água em uma beleza sonora incontestável. No entanto, nem tudo são flores para o Coletivo de Fingidores, grupo de teatro maringaense que estreia hoje, às 20h30, no Teatro Barracão, pelo Convite ao Teatro, o espetáculo “Metamorfoses” (50 minutos, classificação de 14 anos). A entrada é franca.

Em contraponto às flores e às mulheres de Strauss, Márcio Alex Pereira e Giovana Lago escreveram a peça recordando-se de grandes figuras femininas que marcaram a dramaturgia mundial. No palco, portanto, as atrizes Caroline Toffanelli, Tayene Elize, Joyce Rezende e Giovana Lago revivem, respectivamente, a Branca de “O Santo Inquérito” (Dias Gomes), a Nora, de “Casa de Bonecas” (Ibsen), a Lucília, de “A Moratória” (Jorge Andrade), e a Margarida, de “Fausto” (Goethe).

“Quando optamos por partir desse ciclo para dar forma ao espetáculo, decidimos que usaríamos personagens que fizessem um contraponto às descrições de feminilidade presentes nos poemas musicados por Strauss. O ciclo é de grande beleza, mas sentimos a necessidade de problematizar um pouco a visão sobre as mulheres que ele apresenta”, explica Giovana.

Marcará também a trilha e o cenário uma verdadeira entidade feminina, a máquina de costura, objeto que fatalmente corrobora para uma ligação entre épocas e mundos diferentes vividos pelas mulheres no decorrer da história. “A máquina de costura está ali, sempre em cena, para nos lembrar sobre como essa atividade mudou historicamente”, destaca Giovana.

Com teatro, os Fingidores se voltam às questões sociais. É a necessidade de falar, por meio da arte crítica, sobre a sociedade, os seres e o tanto de problema que existe nessa relação. Não à toa, já montaram peças sobre abandono infantil e violência no trânsito. Em “Metamorfoses”, a terceira montagem do coletivo que atua em parceria com o Grupo Teatro e Ponto Produções Artísticas, o olhar é voltado ao universo feminino.

Giovana cita o caso da iraniana Reyhaneh Jabbari, vítima de estupro que matou o algoz dela, na tentativa de se defender e que, posteriormente, foi condenada à morte pelo ato. “Sem entrar em toda uma questão complicada do que é para nós ocidentais discutir um caso desses, percebemos que, é claro, temos casos de violência sutil e escancarada contra a subjetividade feminina em todas as atmosferas ao nosso redor”, ressalta.

As mudanças, as ‘não-mudanças’, as metamorfoses femininas em si foram determinantes para se pensar na montagem. “Tentamos mostrar que essas metamorfoses (no caso, mulheres tendo atitudes que de certa forma não eram esperadas delas) não ocorrem momentaneamente, e sim, historicamente. Essas são as transformações que nos interessam em cena. Quanto a mudanças mais subjetivas, acredito que cada mulher teria mil histórias pra contar”, frisa Giovana.

EM CARTAZ
METAMORFOSES
Coletivo de Fingidores
Quando: hoje
Horário: 20h30
Onde: Teatro Barracão
Entrada franca
*Convites, na bilheteria, meia hora antes de começar

FICHA TÉCNICA
Elenco: Caroline Tofanelli, Giovana Lago, Joyce Rezende e Tayene Elize
Sonoplastia: Eloísa Lacerda
Vídeos: Giovana Lago
Direção de Arte: o grupo
Iluminação e direção de Ator: Márcio Alex Pereira

*Reportagem publicada nesta sexta-feira (6) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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