Mês: março 2015



Contos do futebol

Por Wilame Prado

Júlio Cortázar professorou: no conto se ganha por nocaute e no romance se ganha por pontos. O escritor argentino – que era apaixonado por boxe – dizia que o futebol é “altamente entediante”. O autor do clássico O Jogo da Amarelinha que nos perdoe, mas ele talvez tenha assistido aos jogos errados.

No esporte bretão vale gol de barriga e de bicicleta, vitória por meio a zero e por doze a um. A narrativa do futebol é inenarrável, praticamente ilegível, convém-se apenas assistir, e de preferência torcer por um dos dois times que traçam o duelo dentro das quatro linhas brancas que delimitam o retângulo de gramado verde mais cobiçado do mundo. José Roberto Torero, 51, escritor nascido em Santos (SP) e torcedor famoso do Santos Futebol Clube, sabe muito bem destas coisas: sobre romances, contos e também sobre futebol.

Torero – cerca de 30 livros publicados – esteve por aqui durante a 1ª Festa Literária de Maringá (Flim). Vencedor da primeira edição do Prêmio Paraná Literatura na categoria contos com o livro “Papis et Circenses”, em 2012, foi convocado para uma mesa cujos assuntos debatidos foram o conto, a inspiração e o processo criativo. Nada de futebol…

Dividiu a mesa com o escritor de Jundiaí (SP) André Kondo, 39, espécie de maratonista de concursos literários: após a mesa, dando uma carona para os dois escritores rumando a um bar decente maringaense que servisse comida, bebida e exibição de mais uma rodada de futebol em telas gigantes de TV, o autor de “Contos do Sol Nascente” calculava ter conquistado prêmios em mais de cem concursos literários. “Foi a forma que eu encontrei de me bancar apenas vivendo da literatura”, defendeu o torcedor – hoje não fanático, jura – do Sport Clube Corinthians Paulista.

Diferenças à parte, Kondo, sempre educado, muito polido, tardou em revelar para qual time torcia. Estava diante de dois santistas roxos (eu e Torero) e uma são-paulina (minha mulher) na mesa. A questão envolvendo a preferência por times paulistas em pleno interior paranaense fica para outra história.

Em vez de defender com unhas e dentes – como todo corintiano faz – a trupe atualmente liderada por Paolo Guerreiro no ataque, Elias no meio e Gil na defesa – o contista resolveu contar, já na mesa do bar, sobre a final da Copa do Mundo de 2002 entre Brasil e Alemanha no Japão. Kondo estava no Estádio Internacional de Yokohama no dia em que Ronaldo e Rivaldo deram o pentacampeonato à seleção brasileira, mas curiosamente nem viu os gols, estava mesmo é curtindo a festa. Não há palavras, segundo ele, para explicar a emoção de estar num estádio em final de copa do mundo. Mas pelo menos deixou a experiência registrada em forma de crônica, em algum jornal de cidade pequena, recordou-se.

Torero, já devorando a porção de tilápia no palito e o seu suco de goiaba com água, não conseguia prestar muita atenção na gente: através do smartphone, aguardava notícias sobre o filho recém-nascido passando pela primeira febre alta de sua vida e também sobre alguns quiproquós gerados na produção da próxima entrevista que realizaria para o Super Libris – programa que está desenvolvendo para ser exibido, no ano que vem, no Sesc TV, só entrevistando escritores brasileiros, de variadas localidades.

No lugar privilegiado em que estávamos naquele bar, curtindo um vento que se fazia ainda mais refrescante naquela noite quente graças aos bons ares vindos do Parque do Ingá – bem ali ao lado – uma TV de 50 polegadas, a três metros de distância da mesa, não conseguia chamar a atenção dos santistas, ainda que, como atração principal, jogavam, na Vila Belmiro, Santos x Fluminense, partida válida pela trigésima rodada do Brasileirão. Jogo fraco, mesmo contando com o nosso eterno Pedalada (o Robinho) e o Gabi Gol (a nova esperança criada no celeiro do Alvinegro Praiano) dentro de campo.

Momentos antes, desta vez na mesa literária, a qual mediei, lembro-me de ter tido o atrevimento de perguntar para o Torero se escritor santista costumava ser craque nas linhas, tal qual Pelé, Robinho e Neymar foram e são nos gramados. “Pelé é insuperável, é praxe, e, acredite, não há assim tantos santistas vivos por aí, torcendo ou escrevendo”, brincou o modesto escritor, que considerou como um “golpe de sorte” a conquista do disputado prêmio literário paranaense, há dois anos. Não foi apenas sorte: “Papis et circenses” – um conto para cada papa, de Pedro a Francisco – é uma das maiores críticas já feitas sobre o papado. Ironia fina, sarcasmo puro e a concisão em forma de contos que estamos acostumados a ler em textos de Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela.

Durante a mesa literária, quase não encontro brechas para falar de futebol. Na verdade, é momento para falar do conto, que, para Kondo, deve ser algo como um abraço no leitor, já para Torero, a depender da ocasião, deve ser sim um murro bem dado no estômago. Criou-se ali, interessantemente, uma espécie de embate saudável entre as diferentes formas de se contar uma breve história: abraço, soco, vitória por pontos, por nocaute, contos com finais felizes e motivadores, contos sobre papas sacanas…

No boteco, sim, encontramos finalmente a descontração necessária para falar das banalidades da vida, futebol, gols e a ‘não literatura’ envolvendo o esporte considerado paixão nacional. Foi quando o Torero – que há alguns anos abandou a crônica esportiva, a coluna na Folha de S. Paulo e até o blog no UOL – admitiu ter ensaiado algumas tentativas futebolísticas in loco, todas frustradas. “Eu ficava muito irritado em campo. Fui um mediano meia”, confessou ele, hoje um crítico do futebol feio – a la Leandro Damião – praticado no País. “Nestes últimos anos, o futebol foi enfeando tanto que me desinteressei. O Santos ainda consegue certos lances de beleza, mas são um tanto raros”, havia afirmado o escritor dias antes, numa entrevista concedida por e-mail.

“Futebol não rende literatura. O futebol fala por si só, não precisa ficar escrevendo muito sobre. A pessoa já consumiu aquilo ali assistindo ao jogo, que muitas vezes é meio mágico, meio literário. Para quê escrever depois sobre?”, filosofou, por fim, na mesa do bar, Torero, autor de “Santos, um time dos céus”, “Futebol é bom pra cachorro”, “Dicionário Santista, de A a Z, mas sem X”, “Uma história de futebol”, “Pelé 70”, “Nove contra o 9”, “Futebologia” etc.

Replico citando “O Drible”, romance elogiado, publicado em 2013 por Sérgio Rodrigues e finalista do Prêmio Jabuti em 2014. “Eu li, é bom. Mas não é um romance especificamente sobre futebol, mas há futebol ali”, explicou o escritor santista, que, em meio ao bate-papo com a gente e com as batalhas no aparelho celular, nem viu que (a velha caixinha de surpresas), aos 45 minutos do segundo tempo, o pouco habilidoso volante Edson empurrou de carrinho (o típico gol feio) a bola para as redes do goleiro Aranha, dando a vitória para o Flu e afastando de vez a chance de o Santos alcançar o G4 no Brasileirão e, consequentemente, obter uma vaga para a Libertadores do ano que vem. Coisas do futebol, e que fazem qualquer escritor deixar a mesa do bar extremamente aborrecido de volta para o seu hotel, em outro bairro de Maringá.

Também retornando para o mesmo hotel, o corintiano Kondo segurou o riso e a comemoração com a derrota de seu rival, mas penso que, por dentro, lavou a alma. O conto que abraça o leitor venceu.

*Texto publicado em dezembro de 2014 no jornal O Duque

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Plantações sonoras de Miguel Proença

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Miguel Proença está em Maringá desde terça-feira: hoje o pianista encerra o projeto Piano Brasil com um recital no Calil (Foto de Dudu Leal)

Por Wilame Prado

Mais do que executar disputados recitais, o renomado pianista Miguel Proença, 76 anos, hoje tem como principal meta plantar sementes. É assim que ele metaforiza o trabalho que realiza com o projeto Piano Brasil, que teve na terça-feira, no Teatro Calil Haddad, a abertura de sua sétima edição, patrocinada pelo BNDES e Caixa Econômica Federal e que faz parte da programação da 2ª Semana Cultural de Maringá.

Por telefone, Proença revela ter ficado encantado com a cidade. “Organizada, limpa e com moradores que a amam. Quase não dá para ver o sol por causa da imensidão do verde”, diz ele, que espera colher também por aqui os bons frutos que só a música pode oferecer ao ser humano, de qualquer idade.

As crianças foram seu primeiro “alvo”. Quase 500 alunos da rede de ensino público tiveram o privilégio de receber das mãos, da voz e do piano do gaúcho radicado no Rio de Janeiro uma aula-show baseada em cartilha escrita pelo maestro Ricardo Prado e belamente ilustrada por Bruna Assis Brasil.

Na tarde de ontem, foi a vez dos estudantes e professores da área de música conhecerem o pianista e ainda participarem de uma master class, também com entrada franca.

Mas o ato principal da vinda de Proença a Maringá está marcado para hoje, às 20h30, também no Calil. É lá que ele executará recital com programa escolhido a dedo. “O programa, eu escolho as que eu toco bem; bom, pelo menos as que eu acho que faço bem. Toco aquilo que gosto, aquilo que consigo comunicar melhor com o público, aquilo que também faz me sentir melhor, com mais confiança tecnicamente e sonoramente.”

Com a proposta nacionalista do projeto – feita pelo pianista que executou toda a famosa coletânea “Piano Brasileiro” (2005), considerada pela Unesco como Patrimônio da Música Brasileira –, Proença não deixa de tocar no recital algo de Alberto Nepomuceno e Heitor Villa-Lobos. Mas diz ser um confesso apreciador dos românticos. Por isso, há também na apresentação interpretações de peças assinadas por Frédéric Chopin, além de canções de Gluck-Kempff, Debussy e Nazareth.

Com o Piano Brasil, diz ele, a intenção é pelo menos uma aproximação do que ocorre, por exemplo, na Alemanha, país onde morou por muito tempo e que a educação musical é uma realidade. “Não existe uma tradição de ensinar música clássica, de se ouvir música clássica, está tudo muito voltado para a televisão e o computador. É um alívio para os pais deixarem as crianças brincando com os tablets. Eu carrego pedra com esse projeto, mas não desisto. Sonho com o dia em que ele se oficialize, que se institucionalize, que eu possa ir para 40 e não somente para 15 cidades por ano. Mas para isso dependo do apoio político.”

Educação da alma
Tal qual Villa-Lobos – na opinião do pianista, o compositor mais importante da história da música brasileira e que percorreu Brasil afora levando a sua música durante oito anos –, Proença (com o projeto, já chegou a quase 150 municípios), quer levar música para o máximo de gente possível, sonhando com fartas colheitas musicais, que, para ele, consiste em algo aparentemente simples, mas ainda muito distante da realidade brasileira: o ensino da audição para a música de qualidade.

“Quem já gosta de música clássica, aprecia o projeto. Quem descobre a música clássica depois do projeto, tende a agradecer. Interpretação, pesquisa e imaginação sonora é educação para a alma, aprender a ouvir música é poder sentir o prazer de uma manifestação fantástica, que emociona, que transporta a outras atmosferas, que tira a pessoa dos problemas mais sérios, e não como fuga, não como o álcool ou as drogas, mas como uma forma de cultivar a sensibilidade”, reflete o pianista.

Sem roupa e sem um Steinway
O pianista Miguel Proença chegou ontem a Maringá considerando tudo muito bonito, tudo muito charmoso, mas não poupou algumas críticas por dois motivos: o extravio da mala no aeroporto – que o obrigaria a comprar roupas novas para executar as atividades durante os três dias de estada na cidade – e o mal conservado piano Essenfelder do Teatro Calil Haddad.

“Ter um enorme e bonito teatro como esse sem um bom e competente piano é como investir numa mansão sem colocar móveis dentro da casa. O piano Essenfelder, no Calil, ideal para apresentação de concertos, está bastante usado e com perda de qualidade sonora. Mas faço essa ressalva oferecendo o meu intermédio junto aos órgãos competentes caso queiram investir em um bom piano de nível internacional Steinway, vindo diretamente de Hamburgo, na Alemanha”, diz Proença, que, não sem méritos, hoje figura no “Wall of Fame” da Steinway&Sons junto aos maiores pianistas de todos os tempos.

Ironicamente , se as atividades do projeto Piano Brasil tivessem sido marcadas no Auditório Luzamor – mais acanhado, com capacidade para 400 pessoas sentadas, contra as mais de 700 do Calil -, o pianista teria ao seu dispor um legítimo piano Steinway, sempre requisitado por músicos que se apresentam na casa.

Pianos à parte, o intérprete se recorda com saudades do projeto que fez com Bibi Ferreira, os dois interpretando bons tangos, para afirmar que pianista clássico também costuma gostar de música popular, mas desde que tenha qualidade. “Gosto e toco música popular brasileira, a verdadeira, aquela feita com melodia, ritmo e inspiração dos nossos grandes compositores brasileiros. As canções eternas de Tom Jobim e das grandes vozes brasileiras. Sertanejo eu gosto também, do sertanejo bonito, vivo, aquilo que por tanto lutou a Inezita Barroso e outros nomes. Agora, o funk eu detesto. E o que é aquele Rock in Rio? Um bando de cabeludo escutando e fazendo barulho.”


RECITAL DE PIANO
COM MIGUEL PROENÇA
Quando: hoje
Onde: Teatro Calil Haddad
Horário: 20h30
Entrada franca

*Reportagem publicada quarta-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Ana Paula, 14, sonha publicar romance

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Ana Paula Fernandes, em casa, no Jardim Imperial II: escreve no smartphone e depois apenas revisa no PC (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Escrever pode até ser um dom, mas requer prática. Como todos sabem, a maior ferramenta de um escritor é a leitura. E isso a estudante Ana Paula Fernandes, 14, faz desde muito pequena. “Um dos primeiros presentes que ela ganhou foi uma coleção de livros. Eu lia para ela. Ela decorava as histórias e, quando chegava visita em casa, fingia ler a história que já estava guardada na memória”, relembra Nice Fernades da Silva, a mãe da jovem que escreveu a obra “Após o Ponto Final”, romance de estreia que aguarda publicação.

Ana Paula, que mora com os pais no bairro Jardim Imperial II e que cursa o primeiro ano do ensino médio, cotou a publicação em algumas editoras, mas se assustou com o preço. Finalmente, fechou negócio na Editora All Print, de São Paulo, para lançar em maio o seu primeiro livro (que terá cerca de 200 páginas), com uma tiragem de 250 exemplares. Falta agora arrumar os R$ 4 mil para acertar as contas. Para isso, amigos da família sugeriram a realização de um bazar com roupas novas e usadas, acessórios e calçados.

“Não deixaremos ir para gaveta o sonho dela”, diz Nice, que se orgulha da elogiável destreza para as letras que tem a filha única. Professores fizeram questão de revisar o texto do romance, elogiaram e apostam no sucesso da jovem escritora.

No livro “Após o Ponto Final”, a adolescente trata de assuntos de gente grande. Alice, a sua protagonista, de 13 anos, sofre com os abusos sexuais do padrasto, em Belém do Pará. A motivação do tema se deu após Ana Paula conhecer uma ONG que auxilia adolescentes e mulheres vítimas de abusos em Maceió, numa viagem que fez com a família.

Mesmo com o tema pesado escolhido, ela garante não ter escrito uma história triste. Há esperança para Alice, há esperança para a humanidade, na opinião da estudante. “Já penso numa possível continuação da história, talvez em um novo romance. Tenho também um livro de poesia praticamente pronto. Poesia é meu hobby. Poesia, para mim, é aquilo que me toca, não precisa de rima necessariamente, mas é algo que me obriga a falar sobre aquilo”, diz.

No romance de estreia, ela sentiu a necessidade de falar do ponto final. “Muita coisa acaba na vida de Alice: a vida do pai, da mãe, a liberdade, mas acaba também a sua ingenuidade.” Para Ana Paula, pelo contrário, a história com a literatura só está começando, e o ponto final não está no horizonte.

AJUDE
BAZAR DE ROUPAS
Quando: 29 de março
Onde: Centro Comunitário do Jardim Alvorada
Informações: 9815-8321/3346-8538

ISTO É ANA PAULA FERNANDES
“Realmente, deixar de ser criança é difícil. Tudo bem eu já iria completar quatorze anos, quando me tornei ‘adulta’. Mas mesmo assim é muito estranho, de um dia para o outro você ver tudo diferente. Eu só não sabia realmente, quem tinha mudado. Eu ou o mundo? Talvez os dois.

Já fazia um ano e meio que minha mãe havia morrido. Minha relação com Geraldo não era das melhores mas dava para levar na água morna, sem discussões. Minhas notas estavam até que boas. Tinha dois amigos, que as vezes iam em casa, a Marcela e o Bruno. Eles me faziam companhia, algumas vezes.

Do mesmo modo como me intitulei “Alice, apenas”. Agora, me coloco como ” A Alice”, por que do ‘A’? Parei de ver o mundo com olhos de criança e me legitimei Mulher.

O cuidado obsessivo de Geraldo por mim, já havia se tornado ofensivo. E de uma hora para outra ele havia se tornado ciumento, proibiu que Bruno entrasse na ‘minha casa’ dizia ele. /// Trecho do romance “Após o Ponto Final”

*Reportagem publicada sábado (21) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Chico Xavier cai na dança

"Entre Dois Muros Marchemos": no palco, tango e ballet (Foto de Marquinhos Oliveira)

“Entre Dois Muros Marchemos”: no palco, tango e ballet (Foto de Marquinhos Oliveira)

Por Wilame Prado

“Há mistérios peregrinos/Nos mistérios dos destinos/Que nos mandam renascer:/Da luz do Criador nascemos,/Múltiplas vidas vivemos,/Para a mesma luz volver.” Assim começa o poema “Marchemos”, psicografado pelo falecido médium Francisco Cândido Xavier e atribuído ao espírito de Castro Alves. A professora e coreógrafa Nara Dutra diz ter sido tocada pela mensagem de força existencial que há em todos os versos do poema. E, então, transformou poesia em dança.

“Entre Dois Muros, Marchemos”, espetáculo do Ballet Nara Dutra livremente inspirado no poema, tem a sua estreia oficial hoje, a partir das 20h30, no Teatro Reviver. Atração do Convite à Dança, a entrada é franca. Nara Dutra assina a coreografia que será executada por sete bailarinos: Anderson Assumpção, Beatriz Scabora, Bruna Vieira, Isadora Prado, Loraine Dutra, Natália Almeida e Tainara Bizoto.

O espetáculo, que usa trilha sonora de Astor Piazzolla, não é apenas um ballet, e também não é apenas um tango. “Astor Piazzolla é uma preciosidade, desde o estudo de sua metodologia para composição até a maneira singular de interpretação e desenvolvimento do trabalho. ‘Entre Dois Muros, Marchemos’ é um tango no ballet, e um ballet no tango. Até mesmo por ter uma influência da dança contemporânea fortíssima no trabalho, mesmo com o uso de sapatilhas de pontas, algo associado por muita gente unicamente ao ballet clássico “, explica Nara.

A concepção da dança – alicerçada na mensagem do espiritismo e da poesia psicografada – é uma clara mensagem de esperança, ainda que em meio às dificuldades da luta, da marcha habitual da vida. Os desafios da arte, ou, mais especificamente, as barreiras comuns na vida de um bailarino, são representadas pelos muros, pelas dificuldades existenciais como um todo na relação entre as pessoas e o mundo.

Para traduzir tudo isso em dança, a coreógrafa desenvolveu seis cenas, ou seis passos intrínsecos à caminhada humana. Há, nessas etapas, o peso da existência, o conflito com os pensamentos negativos, o desejo de luta, as indecisões pelos caminhos a seguir e, finalmente, o progresso, a marcha para o infinito. Afinal, diz Nara, é preciso sempre seguir, na dança e na vida.

“Se não for assim, de que adianta marchar?”

CARTAZ
ENTRE DOIS MUROS, MARCHEMOS
Ballet Nara Dutra
Pelo Convite à Dança
Quando: hoje
Onde: Teatro Reviver (Avenida Cerro Azul, Zona 2)
Horário: 20h30
Entrada franca

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (18) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Para jamais esquecer Juliane Moore

Juliane Moore, em "Para Sempre Alice": Oscar demorou mas chegou, para coroar grande atuação da carreira

Juliane Moore, em “Para Sempre Alice”: Oscar demorou mas chegou, para coroar grande atuação da carreira

Por Wilame Prado

Personagens acometidos por doenças dão trabalho em dobro para os atores. Mas, quando bem compostos, geralmente são reconhecidos e recompensados.

Além de Eddie Redmayne – premiado ao fazer o cientista Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo” – a bela Juliane Moore ganhou, pela primeira vez, o Oscar de Melhor Atriz pelo papel da linguista Alice Howland, no filme “Para Sempre Alice” (Richard Glatzer e Wash Westmoreland, 1h39min.), em cartaz em Maringá. O desafio foi interpretar uma mulher que passa a sofrer do Mal de Alzheimer precocemente, já aos 50 anos de idade. Pelo feito, foi reconhecida também no Globo de Ouro e na Bafta.

O peso da contradição é um dos pontos altos do filme. Logo a Dra. Howland, conhecida pela inteligência e perspicácia na pesquisa na área da linguística, vê-se surpreendida por repentinos golpes de esquecimentos, a começar de maneira mais corriqueira, em meio a uma palestra ou se perdendo pelas ruas de Manhattan, e se agravando quando esquece atos cotidianos que acabam de acontecer, como quando é apresentada à sua mais nova nora na cozinha e, já na mesa do jantar, demonstra nunca ter visto a moça. Até mesmo aquela receita predileta, até então muito bem guardada na memória da protagonista, deve ser revista na internet para, assim, evitar constrangimentos culinários.

Os conflitos familiares são fatalmente jogados em primeiro plano em “Para Sempre Alice”. Mãe de três filhos adultos e com um casamento aparentemente em ordem, Alice vira pivô de relações extremamente embaraçosas. No elenco, destaque também para o trabalho de Alec Baldwin como o Dr. John Howland, o marido de Alice; e também para a jovem Kristen Stewart, que vive Lydia Howland, filha caçula do casal e peça chave do longa-metragem já que representa a figura rebelde que acaba cedendo aos caprichos e desejos por conta de dilemas familiares.

No drama, a rotina familiar precisa ser revista. E no plano profissional, o que resta para a doutora é a aposentadoria precoce. As pessoas ao redor vivem situações delimitantes entre a vontade de ajudar, o desespero ao ver os rompantes de uma amnésia ingrata e gradualmente aumentada e a consequente lástima por ver um ser adulto brilhante e exemplar se tornar, aos poucos, uma simples criança dependente, esquecida, muitas vezes, até mesmo de que deve se lembrar de segurar a vontade de urinar.

Juliane Moore esperou tanto pela estatueta dourada – chegou perto em “Boogie Nights – Prazer sem Limites” (1998) e em “Fim de Caso” (2000) – mas fez valer a pena ao dar vida a um filme duro, tenso e que, como poucos, retrata a força que as pessoas acabam por encontrar somente na família. Ao vencer o Oscar, a atriz dedicou a estatueta aos portadores da doença degenerativa. Nada mais apropriado.

CARTAZ
PARA SEMPRE ALICE
Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Gênero: drama
Duração: 1h39min.
Classificação: 12 anos
Confira no Viva Maringá a programação dos filmes em cartaz na cidade

*Comentário publicado em 12 de março no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Shopping Cidade recebe feira de vinil

Colecionadores conferem as opções de discos dos expositores na última Feira do Vinil; feira de hoje é no Shopping Cidade (Foto de Andye Iore)

Colecionadores conferem as opções de discos dos expositores na última Feira do Vinil; feira de hoje é no Shopping Cidade (Foto de Andye Iore)

Por Wilame Prado

No mês passado, durante a Sacola Alternativa – feira que reuniu 18 selos musicais independentes em São Paulo –, provou-se o seguinte fato: com a queda vertiginosa do faturamento da indústria fonográfica (de US$ 27,8 bilhões em 1999 para US$ 15 bilhões em 2013), é preciso seguir por outros caminhos. Além da proposta independente, com lançamentos de álbuns para downloads se tornando a cada dia mais comuns, o discos de vinil, que crescem em vendas nos últimos anos, também é outra saída para as bandas. Somente em 2014 foram comercializados 8,3 milhões de discos de vinil nos Estados Unidos, o que representou um aumento de 38% em relação a 2013.

As feiras que reúnem colecionadores dispostos a trocar, comprar e vender os famosos bolachões são exemplos da força que tem o vinil atualmente, e não apenas nos grandes centros. O Clube do Vinil de Maringá, um grupo do Facebook que já tem 150 membros, realiza neste sábado a quinta edição da Feira do Vinil, no Shopping Cidade, a partir das 10 horas, com entrada franca. Serão 20 expositores (de Maringá, Londrina, Cianorte e Santo Anastácio-SP) abrindo a tampa de suas caixas repletas de discos e oferecendo aos amantes da música um acervo de milhares de títulos de rock, MPB, reggae, eletrônico, rap, entre outros, além de acessórios ligados à cultura do vinil.

Para o jornalista Andye Iore, colecionador de discos e idealizador do projeto cultural Zombilly, os números demonstram um crescimento da Feira do Vinil, que já pode ser considerada regional. “Temos feito contato com colecionadores de discos da região e sempre tem gente pedindo para participar do Clube do Vinil”, diz ele. Bruno Gehring, responsável pela Vila Cultural Kinoarte, é um dos representantes londrinenses na feira. Ele chega a Maringá, ao lado de Gustavo Veiga (Na Agulha Discos) e Lucas Ricardo Silva (Lucas Discos), com cerca de 600 discos vindos diretamente de Londrina para o público maringaense.

“É a nossa primeira participação na feira do vinil em Maringá. Não sabemos ao certo o gosto do público, mas ouvimos dizer que vinis de rock têm bastante saída. Mas somos ecléticos: da minha coleção, ofereço mais groove e black music, tenho uns raros do Michael Jackson; o Gustavo mostra a sua coleção de MPB e o Lucas aposta mesmo no rock”, diz Gehring.

Já em sua quinta edição em apenas um semestre, a Feira do Clube do Vinil de Maringá também tem mexido com gente da cidade. O produtor cultural e colecionador Paulo Petrini faz a sua estreia neste sábado. “O Clube do Vinil é a criação de um espaço cultural importante na cidade. Fiquei emocionado logo na primeira feira realizada e, desde então, não parei de pensar em minha participação”, afirma.

Com as participações na feira de vinil, o empresário Robespierre Tosatti, que mantém o atuante sebo Fonte do Livro na área central de Maringá, também repensou o seu relacionamento com os LP´s. “Antes, só vendia e comprava, pensando no sebo. Depois da feira, me tornei também um colecionador. Adquiri uma vitrola usada – uma Sanyo muito boa, toda automatizada – e hoje tenho uma coleção pequena, de uns 400 discos. Aqui no sebo, tenho um espaço reservado para ouvir meus discos, os quais não coloco à venda de jeito nenhum.”

Desenhos de Agostini no vinil
A popularidade da Feira do Vinil maringaense extrapolou as fronteiras paranaenses e chegou ao Estado de São Paulo, mais precisamente a Santo Anastácio. É lá que mora o artista plástico Zeca Agostini, 52, que utiliza o spray de grafite e a tinta acrílica para criar desenhos em cima da mídia do vinil. “Fica a critério das pessoas, mas muitos enquadram ou penduram o próprio vinil na parede”, conta Agostini, que participa hoje da quinta edição da Feira do Vinil apresentando a sua arte.

Para esta edição, ele programava trazer uns 20 trabalhos, alguns pensados especialmente para a feira. “Levarei quatro discos, cada qual com o retrato pintado de cada um dos quatro integrantes dos Beatles”, exemplifica.

PARTICIPE
5ª FEIRA DO VINIL
Onde: Shopping Cidade (Avenida Tuiuti, 710)
Horário: das 10h às 18h
Participam 20 expositores para compra, venda e troca
Entrada franca

*Reportagem publicada neste sábado (14) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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A viola está na moda; valeu Inezita

Inezita Barroso; documentário de Reinaldo Volpato é dedicado à dama da música caipira e ao programa "Viola, Minha Viola"

Inezita Barroso; documentário de Reinaldo Volpato é dedicado à dama da música caipira e ao programa “Viola, Minha Viola”

Por Wilame Prado

“Inezita Barroso foi a primeira, a mais forte e a mais dedicada defensora da música de origem rural brasileira, que é a moda de viola, a viola caipira, a catira, o cateretê. Será eternamente a nossa heroína e nossa musa”, comentou o diretor de ficção (“Abrasasas”) e documentarista Reinaldo Volpato , durante o velório daquela que apresentou por quase 35 anos o programa “Viola, Minha Viola”, da TV Cultura, e que morreu no último domingo, aos 90 anos, em São Paulo.

Além de amigo de Inezita e diretor do programa “Viola, Minha Viola” no ano 2000, Volpato é autor do documentário “A Moda É Viola” (105 minutos, 2013), baseado no livro “A Moda É Viola – Ensaio do Cantar Caipira”, de Romildo Sant’Anna. O filme, que estava previsto para ter uma estreia em rede nacional pela TV Cultura ainda este ano, deverá agora entrar mais rapidamente na programação da emissora como forma de homenagem a Inezita.

Já disponível em DVD, “A Moda É Viola” é sobre a moda caipira, a verdadeira música sertaneja do sudeste e centro-oeste do País, sobre sua estética e o contexto sociocultural em que o gênero se insere. O documentário explora, com a apresentação do próprio Romildo Sant´Anna, as origens da música e do instrumento, os cantadores e poetas e principalmente a moda caipira como manifestação oral-popular e sua realidade enquanto expressão etnocultural.

“A moda de viola existe na memória de todos os brasileiros. Vivemos num país de tradição agropastoril. Meu livro demonstra, segundo o IBGE, que em 1940 éramos 68,8% vivendo no ambiente rural. No ano 2000, 81,2% da população vive nas cidades. Somos uma cultura impregnada do tradicionalismo camponês e nem o êxodo rural conseguiu nos desenraizar. Ficou evidente que a plateia do cinema e os leitores do meu livro lidam com a tradição caipira e suas músicas como um relicário e uma chama que não se apagou. Por isto, se emociona com o filme”, relatou Sant´Anna.

Volpato dedicou o filme especialmente a Inezita Barroso e também ao programa “Viola, Minha Viola”. E explica o porquê: “São emblemas dessa cultura exponencial. É inegável o valor da Inezita como agente de uma política cultural independente e atuante. E seu programa é testemunha ocular desta história, além de ser criador dela própria. Todo artista do meio sertanejo tem grande apreço por esses dois monumentos vivos. E dedicar o filme a eles foi um gesto de amor e carinho, de consideração e respeito, de consciência e valorização desse trabalho sistemático de valorização da cultura caipira.”

Bem ao modo de Inezita Barroso, o documentário é também uma espécie de musical. Mais do que sínteses informativas, ilustrações musicais de proeminentes intérpretes (registradas em desempenhos especiais para o documentário e fontes de arquivos) e cenas do cotidiano que permeiam a existência rural caipira e sua projeção no mundo urbano, o documentário apresenta quase 100 modas de viola.

“Tivemos acesso ao acervo da TV Cultura, co-produtora do filme: vários programas, mas principalmente do ‘Viola, Minha Viola’, que detém um arquivo vivo do que se produziu nos últimos 33 anos. Outra ousadia caipira, capitaneada pela gigante e maravilhosa Inezita Barroso. Penso que foi uma utilização interessante desses arquivos, porque pudemos dar um caráter narrativo às canções, mais do que descritivo. São apresentadas 93 modas, a maioria trechos, mas algumas inteiras como as belíssimas ‘Cabocla Tereza’ e ‘Triste Berrante'”, afirmou.

Segunda-feira triste
Se hoje a viola chora ainda mais doída na alma dos amantes da boa e velha música caipira devido à perda de Inezita, restam os discos, o cinema, a TV e o Youtube para se aprender um pouco do que é o folclore brasileiro graças ao legado grande dama da música de raiz.

“Muitos cantores, muitas duplas e muitos compositores puderam espelhar na Inezita a força, o poder e a beleza intrínseca da produção da moda de viola e da música de origem rural “, disse Volpato, durante o velório de Inezita, enterrada no cemitério Gethsêmani, na zona sul de São Paulo, no fim da tarde de uma segunda-feira triste.

DVD
A MODA É VIOLA
Diretor: Reinaldo Volpato
Gênero: documentário
Ano: 2013
Classificação: livre
Duração: 105 minutos
Informações para adquirir o DVD, no blog:
amodaeviola.blogspot.com.br

*Reportagem publicada quarta-feira (11) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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A poética feminina de Joseane Bornelli

Joseane Bornelli em meio às esculturas da exposição "A Poética de Eva", no Calil (Foto de Ricardo Lopes)

Joseane Bornelli em meio às esculturas da exposição “A Poética de Eva”, no Calil (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Clarice Lispector escreveu uma vez que “fazia do amor um cálculo matemático errado”. Em uma frase, uma das maiores escritoras do País simbolizou pontualmente uma das características marcantes de toda mulher: elas são enigmáticas.

Com as 17 esculturas da exposição “A Poética de Eva”, aberta desde quinta-feira no térreo do Teatro Calil Haddad pelo Convite às Artes Visuais, a artista plástica Joseane Bornelli tratou de desvendar pelo menos parte deste universo feminino, além de homenagear a mulher no mês em que comemora o seu dia, 8 de março (domingo). As suas mulheres – com curvas insinuantes, quadris largos e desprendidas da ditadura da magreza – são sensuais, são mães que amamentam, são carinhosas com bichanos, são vigorosas em sua prática de exercícios físicos e são, também, sofredoras da fatalidade de um mal praticamente só delas: o câncer de mama.

Joseane explora em sua arte as facetas ao redor de uma vida feminina. Se houvesse uma personagem na exposição dela, esta seria uma mulher forte, no relaxamento ao lado do gato e disposta a demonstrar o quanto é sensual, e forte também mesmo com a fatalidade da doença, sem um seio, sem cabelos, mas ainda passando o batom.

“Há um ano o câncer de mama levou uma amiga minha. E a arte é tradução de tudo aquilo que estamos sentindo. Comecei a desenvolver as esculturas pensando também nessa temática. Quando terminei a obra ‘Força’, com a mulher somente com um seio, chorei, pude sentir um pouco dessa angústia que essa doença representa”, diz a artista, que mantém um ateliê no fundo de casa, na Zona 4.

Pelas andanças ministrando oficinas de arte por vários bairros da cidade, Joseane tem conhecido mulheres de todo tipo. E percebeu que com a arte da cerâmica na argila (grês com chamote e terracota), acabada com vidrado especial em meio às altas temperaturas do forno, elas, as alunas, viviam numa espécie de arte terapêutica. Para “A Poética de Eva”, Joseane pensou em todas elas, retratando-as nesse universo. “Quero conscientizar, sensibilizar e, talvez como Clarice em suas frases sempre à frente de seu tempo, tocar no ser feminino, dizer algo sobre a delicadeza da mulher.”

VISITE
A POÉTICA DE EVA
Artista: Joseane Bornelli
17 esculturas em cerâmica
Exposição vai até 29 de março,
Onde: Teatro Calil Haddad
A entrada é franca

*Reportagem publicada domingo (8) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Eduardo Siqueira lança ‘Cidade Fantasma’

Eduardo Siqueira andando pelas ruas do Centro: "Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta"

Eduardo Siqueira andando pelas ruas do Centro: “Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta” (Foto de Ricardo Lopes)

Por Wilame Prado

Cidades tendem a oprimir os seres que nelas habitam. Muitas vezes, só lhe restam a poesia. O funcionário público e escritor Eduardo Siqueira, 30 anos, prefere chamá-las de cidades fantasmas. Maringá é uma delas. E a poesia foi também a opção contra o vazio existencial por entre ruas e avenidas, prédios e casas, shoppings e parques. Ele lança às 21 horas de hoje, no Badulaque Estúdio Bar, o livro “Cidade Fantasma” (Editora Multi Foco, 80 páginas, R$ 35).

“O título se refere a uma cidade arquetípica, universal, com contradições, desigualdades e aquele vazio existencial que, na minha opinião, jaz sob todas as coisas do mundo. Ando por aí e vejo as pessoas como gente natimorta, sem propósito algum para estarem aqui vivenciando as injustiças e atrocidades da vida urbana. Observo homens e mulheres indo de lá pra cá, com seus ‘importantíssimos’ afazeres e dou risada por dentro, porque, no fim das contas, assim como eu, parecem fantasmas resolvendo problemas pendentes enquanto flutuam pela terra”, explica o autor.

Siqueira lança o livro de estreia reunindo poemas datados a partir de 2007, após publicações esparsas no meio virtual, entre blogs e revistas eletrônicas. Formado em Letras pela UEM, diz estar influenciado pelas vanguardas do começo do século 20. “Dadaísmo, Surrealismo, Expressionismo e Futurismo estão presentes no que escrevo”, define, afirmando ainda que, nos poemas, segue uma linha temática, no entanto fragmentada, com colagens.

“Cidade Fantasma” reúne poemas urbanos e suburbanos, sem definições métricas, aproximados da prosa e que se apropriam do cotidiano contemporâneo, das coisas do cotidiano, dos homens e mulheres do cotidiano, para apenas uma mensagem existencial e um tanto pessimista: somos fantasmas, em uma estúpida cidade fantasma. “Gosto de escrever sobre morte, solidão, tempo, absurdo, relações humanas, trabalho, cidade, ou seja, temas universais. Vou anotando coisas que passam pela cabeça durante o dia. Coisas que vi, ouvi, senti. Geralmente, carrego aqueles blocos de papel reciclado na bolsa. Ou anoto no caderno.”

Não à toa, o poema preferido de Siqueira é “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, de T. S. Eliot, com versos angustiados, angustiantes, que revelam o medo da existência em meio ao tédio, à impotência, ao envelhecimento, a tudo isso no mundo urbano. Há os mesmos dramas em “Cidade Fantasma”.

ISTO É EDUARDO SIQUEIRA

VITRAIS
olho-me
no espelho
e vejo
Deus

mosaico de todos os homens
eu-estilhaço

inteiro

EVOLUÇÃO
homem-pássaro
desalado

tão coloridinho na gaiola

não sai do facebook
não voa sem motor

LANÇAMENTO
CIDADE FANTASMA
Autor: Eduardo Siqueira
Quando: hoje
Horário: 21 horas
Onde: Badulaque Estúdio Bar
Preço do livro: R$ 35
Entrada franca

*Reportagem publicada na sexta-feira (6) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Poesia sim, dentro e fora do livro

Laércio Souto Maior, ontem, na UEM: hoje, noite de autógrafos no Sesc (Foto de João Cláudio Fragoso)

Laércio Souto Maior, ontem, na UEM: hoje, noite de autógrafos no Sesc (Foto de João Cláudio Fragoso)

Por Wilame Prado

“Será Que É Poesia?” (Editora Banquinho, 100 páginas, R$ 50), do advogado, jornalista e escritor pernambucano radicado em Curitiba Laércio Souto Maior, 76 anos, é um livro para se apreciar como um todo. Além do conteúdo – poemas escritos entre 1962 e 2014 -, o apuro editorial resultou em uma publicação que vale também pelo que está do “lado de fora”, a começar pela capa, dura revestida em tecido, encadernada artesanalmente e com serigrafia assinada por Júlian Imayuki Duarte.

Sobre o processo como um todo da obra, a reportagem conversou, ontem, com o autor e também com o filho dele, Téo Souto Maior, diretor de redação da Banquinho Publicações. Os dois chegaram há alguns dias na cidade para o lançamento de “Será Que É Poesia?”, marcado para hoje, às 20 horas, no Sesc.

O livro, com tiragem de 200 exemplares numerados, foi lançado, primeiramente, em Curitiba, no ano passado. Na noite de autógrafos desta noite, em Maringá, o violonista clássico Antônio Mendes faz um pocket show. A entrada é franca, e o lucro resultante das vendas dos livros será revertido para o fundo da Associação dos Amigos do Arquivo Manoel Jacinto Correia.

“Eu nunca tinha visto um livro assim”, destaca Souto Maior, demonstrando ter aprovado a edição feita no primeiro livro de poesia dele. Autor de obras da área de Política, História e Sociologia, ele resolveu tirar do baú, pela primeira vez, os versos guardados, por cinco décadas, em cadernetas, guardanapos e rascunhos. “Eu deveria ter sido arquivista. Guardo muita coisa”, ressalta.

Mais do que pedaços de papel escritos, Souto Maior guarda as lembranças de toda uma vida cercada pela luta na militância política contra o regime militar e também os anos em que, antes de iniciar carreira jurídica, foi jornalista, inclusive aqui no jornal O Diário do Norte do Paraná, quando, nos anos 1970, chefiou a redação durante oito meses.

Na entrevista, ele contou histórias de bastidores instigantes envolvendo a prática de um jornalismo que prezava, sobretudo, pela liberdade dos brasileiros, em plena ditadura. “Na época, fui demitido três vezes a pedido de governadores de Estado”, revela. Momentos marcantes e traduzidos também em poesia.

Segundo o poeta Alexei Bueno, que assina uma das apresentações da obra, há, pelo menos três linhas poéticas em “Será Que É Poesia?”. Uma é a política, mas Souto Maior também se aventura na vertente filosófica e ainda na figura feminina, segundo Bueno. “A Literatura é algo maior e é tão importante para mim como toda a minha luta política”, define o escritor, que deixou para transformar em poesia apenas os momentos mais marcantes da vida dele.

Para Ademir Demarchi, escritor e cronista do Diário, Souto Maior traz uma novidade ao revelar as poesias, tal qual o menino da capa do livro, que parece voar enquanto deixa a maleta se abrir para inúmeros papéis se perderem no ar. “… só não é uma novidade total na biografia dele porque nos poemas encontramos impregnado o mesmo sentimento humanista de luta e de indignação com a miséria e a exploração”, opina.

A poeta e professora Norma Shirakura aponta a poesia de Souto Maior como “crônicas em versos”. “Quanto à forma, são apresentadas algumas regularidades que me parecem despontar nelas o nascedouro de seu estilo próprio, com tendência para construção de narrativas em poema longo, tendo como matéria básica a memória. Entrelaçados por esse fio condutor, o poeta e o historiador não se separam”, avalia.

Envaidecido com as palavras dos amigos, Souto Maior, aposentado há dois anos da carreira jurídica no Governo do Estado, ainda tende ao questionamento: “Será que é poesia?” Sendo ou não, comemora o tempo maior que hoje tem para as letras. Alguns dos últimos poemas foram escritos na merecida paz do descanso litorâneo, em Balneário Camboriú e no Pontal do Paraná.

E se, como o próprio diz, talvez não haja um segundo livro de poesia, outros gêneros literários estão garantidos: em primeira mão, Souto Maior anuncia que, no segundo semestre, lança “O Levante Anarquista da Vila de Trancoso”, o primeiro romance dele, também pela Banquinho Publicações.

banq_capaESTANTE
SERÁ QUE É POESIA?
Autor: Laércio Souto Maior
Editora: Banquinho Publicações
Noite de autógrafos
Quando: Hoje
Onde: Sesc Maringá, às 20h
Preço do livro: R$ 50

*Reportagem publicada nesta quinta-feira (5) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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