Mês: maio 2015



O brilho e a simpatia de Aline Luz

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Por Wilame Prado

A cidade terá a chance de ver brilhar pela primeira vez uma nova compositora maringaense a partir das 21 horas deste sábado (30), quando Aline Luz, 26 anos, subirá ao palco do Teatro Barracão para fazer o seu primeiro show. Todo mundo da plateia terá em mãos o primeiro CD dela “Aline Luz”, contendo doze faixas de canções simpáticas, que mesclam pop rock, folk, MPB e uma voz doce, como a própria cantora. Show e disco são de graça.

Contemplada na categoria Artistas Iniciantes do Prêmio Aniceto Matti, Aline tem cinco datas de shows confirmadas em Maringá e a tiragem de mil cópias do álbum, que será distribuído para cada um que for aos shows. Além de sábado, ela cantará no Barracão no domingo, no mesmo horário. Em junho, apresenta-se nos dias 6 no Teatro de Oficina da UEM e 13 e 14, retornando ao Barracão.

Aline deu entrevista quinta-feira, no térreo do Teatro Calil Haddad. Ao seu lado, o inseparável violão, que começou a tocar aos 12, meio que a contragosto da mãe, pianista que sugeria às filhas (Aline tem uma irmã gêmea que também toca e canta)um bom curso de piano. Fez as duas coisas, e ainda participou de grupos de corais. O tempo passou. Todos sempre elogiaram o timbre e a facilidade com que Aline tem quando coloca as mãos nas seis cordas de aço de um violão.

Nos churrascos, não tinha tempo para sequer tomar água, quiçá uma cervejinha. Todos queriam vê-la cantar o cancioneiro consagrado do pop rock anos 1980 e 90, Kid Abelha, Skank, Titãs, Pato Fu e por aí vai. As ambições profissionais nunca a distanciaram da música: hoje, formada em Psicologia na UEM e residente no Observatório Social, os churrascos e as cantorias continuam, até mesmo onde mora,numa república na Zona 7, onde divide apartamento com duas amigas.

Mas algo mudou na vida de Aline há aproximadamente oito anos. Uma tragédia pessoal fez com que ela ultrapassasse a barreira que separa a interpretação da composição. Mais precisamente em 17 de julho de 2007, ela viu na lista das vítimas do fatídico acidente com uma aeronave da TAM, em São Paulo, o nome de sua tia, incentivadora do seu talento, e, curiosamente, dona daquele primeiro violão com que teve contato e que possibilitou a entrada da música em sua vida. Aline precisava compor para pelo menos tentar expulsar a a dor.

“Queria saber fazer um samba pra você/Mas meu coração só quer saber de blues”, são os versos iniciais da canção “Samba Blues”, primeira composição e que foi dedicada à memória da tia. “Não imaginava que levaria em frente a música. Estava na faculdade, recebi a notícia do acidente de avião. Compus pela primeira vez demonstrando ali a minha tristeza e a minha incapacidade de fazer qualquer coisa em meio ao luto. Minha tia era minha mãe também. Três dias antes do acidente, estávamos todos juntos de férias, em Foz. Não dava pra acreditar”.

Apreciadora da poesia, Aline conta que, antes, tentava cometer alguns poemas. E nada mais. A composição veio como luz, sem trocadilhos. Não parou mais. E hoje, ao apresentar o seu primeiro disco, percebe-se uma artista ainda em evolução, mas com duas joias raras em mãos: uma bonita voz, que se assemelha a vozes femininas da moda (Malu Magalhães, Uyara Torrente, Tiê, Clarice Falcão), e uma interessante maturidade nas letras.

Graça e leveza
À primeira vista, pode-se pensar que Aline Luz faz música romântica. Não é bem por aí. Há história de amor sim, mas há leveza e graça. Em “Cicatriz”, primeira faixa do CD e vencedora na categoria Aclamação Popular no 5º Festival Nacional Acorde Universitário, ela fala de um certo João que a deixa “sem chão” enquanto um tal Rafael a deixa só com seu “véu”.

Ela é também “família” na hora de compor. Além da canção dedicada à tia, o avô ganhou música também. A circense “Palhaço Mudo” – outra música premiada em festival – é homenagem ao avô, que a ensinou a ver filmes do Chaplin. “Hoje sou meio cinéfila graças a ele”, diz Aline, que, recentemente, compôs uma música inspirada pelo filme “Selma”, produção indicada ao Oscar e que narra a trajetória do pastor protestante e ativista social Martin Luther King. Percebe-se aqui também o lado social da psicóloga Aline Luz. O trabalho também é inspiração musical, diz ela. “Na música ‘Estação’, falo da alienação do trabalho. ‘Cantiga Urbana’ é a história de um menino de rua.”

Ainda trabalhando sua timidez, ela revela que o palco não a amedronta, mas se trata de experiência nova para quem nunca fez questão de tocar na noite maringaense. Para controlar as provações em meio ao público, as forças de Aline vêm do esporte. “Este ano quero ver se tiro minha faixa preta no karatê. Já joguei futsal, basquete e nadei. A competição esportiva ajuda a aprender lidar com a plateia”, diz.

Hoje, no Barracão, ao lado da banda formada especialmente para o projeto (Ronaldo Gravino no teclado e violão, Walter Batera na bateria, Luciano Blues nos solos de guitarra e na gaita, Ribeiro no contrabaixo e Luane Pedroso na percussão), Aline Luz pegará em seu violão e talvez se lembrará de muita coisa vivida desde que escreveu a sua primeira canção. Nada em vão, a estrada só está começando para uma jovem que já começa a ficar atenta aos editais do Convite à Música e da Virada Cultural. “Quero que a minha música tenha o poder de inspirar as pessoas e que as faça refletir, como qualquer tipo de arte.”

*Reportagem publicada sexta-feira (29) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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O vinho de John Fante

Em "O Vinho da Juventude", John Fante prova que também é um bom contista

Em “O Vinho da Juventude”, John Fante prova que também é um bom contista

Por Wilame Prado

Detentor de um imenso poder narrativo, o escritor John Fante (1909-1983), por toda sua vida, fez uma literatura autobiográfica. Seu alter ego mais conhecido recebe a alcunha de Arturo Bandini, nome que estampa as páginas de excelentes livros como “Pergunte ao Pó”, “Sonhos de Bunker Hill”, “Espere a primavera, Bandini” e “O caminho de Los Angeles”.

Em seu livro de contos “O vinho da juventude” (José Olympio, 2010), que acaba de ser relançado, os leitores de Fante, acostumados com a saga de Bandini, poderão desfrutar uma série de histórias cândidas vividas por Jimmy Toscana – um garoto que mora num lar de ítalo-americanos e que recebe uma rígida educação católica num colégio de freiras.

Nos contos, mesmo tendo trocado o nome de seu personagem principal, Fante continua relatando acontecimentos reais de sua vida. Jimmy, portanto, nada mais é do que Arturo Bandini em sua meninice, período no qual começa a questionar as ordens autoritárias da igreja católica, a hierarquia familiar e os preconceitos para com os descendentes de italianos imigrantes nos Estados Unidos.

Narrados em primeira pessoa, os contos são relatos ingênuos do garoto Jimmy em suas aventuras no colégio, na igreja, em casa e nas ruas. Escritos na década de 1930, remetem a uma época em que o alicerce familiar, valores morais e o respeito eram premissas importantes e ainda praticadas na sociedade.

Mesmo em suas constantes traquinagens, percebe-se, lendo os contos, que há pureza nas atitudes de Jimmy. Quando ele é preso algumas horas por quebrar lâmpadas públicas, por exemplo, a justificativa apresentada para a freira, e posteriormente ao padre do colégio, é que teria apostado com um garoto para ver quem conseguia estourar mais lâmpadas: ele, o católico, ou o outro, que não era de sua religião.

Os contos são descritos de uma maneira tão simplificada que, facilmente, o leitor deixará enganar-se pensando que realmente é uma criança ou um adolescente quem está contando todas aquelas histórias. A destreza narrativa de Fante faz com que, após o início a leitura, queira-se saber ansiosamente o desfecho da história.

Uma época perdida
Em “Sequestro na família”, primeiro conto do livro, o jovem Jimmy demonstra muito orgulho e felicidade ao saber o quanto seus pais estavam apaixonados antes de se casarem. Pede insistentemente para a mãe contar as aventuras que passara com seu pai quando, antes de pedi-la em casamento, a sequestrou por três dias e três noites.

Quando sua mãe diz que, mesmo com muito medo, naquela ocasião, aceitara o pedido do casamento, o garoto se esbalda em emoção: “Isso era demais para mim. Joguei meus braços em torno dela e beijei-a, e em meus braços senti o travo pujante das lágrimas.”

Nas leituras de “O vinho da Juventude”, os mais velhos verão retratados o modo como funcionava os lares de seus pais antigamente. Já os leitores mais novos, é bem certo que se recordarão das agruras e regras conservadoras que existiam, ou existem até hoje, nos lares de seus avós.

O conto “O pedreiro na neve”, por exemplo, descreve de maneira perspicaz o âmago das regras da casa de Jimmy. A mulher, sua mãe, é uma eterna subordinada das tarefas domésticas e tem de conviver, calada, com as regras machistas impostas pelo marido bravo.

Jimmy Toscana vive numa época em que todos os garotos norte-americanos sonham em ser jogadores de beisebol e, quem sabe, entrar para a Liga dos Campeões. Garotos que, quando pecam, roubando doces ou distribuindo socos e pontapés no meio da rua, temem muito a Deus e se sentem renovados ao confessar e pagar as penitências determinadas pelo padre.

São garotos, assim como Jimmy (ou Fante ou Bandini), que, quando fazem algo pelo qual devem se envergonhar, são capazes de ficar o período escolar inteiro trancados no banheiro para evitar o olhar recriminador da freira.

Nessa época vivida por Jimmy, e muito bem descrita por Fante, os policiais conhecem muito bem o pai e a mãe dos garotos que aprontam pelas ruas. Não raro, na tentativa de intimidar os jovens baderneiros, esses policiais os deixam presos por pelo menos uma hora, prometendo para eles que ficarão detidos por quinze anos na penitenciária estadual caso aprontem novamente. No mais tardar, os pais desses jovens os buscam na delegacia e lhe aplicam surras, pelo menos para a época, muito merecidas.

Amadurecimento
A cada história, conforme as páginas vão sendo viradas, percebe-se que o cativante Jimmy Toscana vai deixando as ingenuidades infantis de lado para começar a enxergar questões que envolvem mais o mundo dos adultos. O conto “A odisséia de um carcamano”, por exemplo, é uma bela homenagem à comunidade ítalo-americana e reflete claramente uma consciência mais amadurecida do personagem principal.

Com perfeição, Fante narra o processo de aceitação própria, até chegar ao orgulho nacional, da descendência italiana de um dago (maneira desrespeitosa de se referir a um italiano nos Estados Unidos, traduzido no Brasil como “carcamano”).

São nos últimos contos da primeira parte do livro que o autor trará um Jimmy Toscana já com seus vinte e poucos anos de idade, que manda seus escritos para revistas literárias, que reza inúmeras Aves-marias torcendo para que aconteça um milagre e assim consiga pagar o aluguel de seu quarto, que namora por um tempo uma mulher bem mais velha que ele e que sente “A ira de Deus” (nome de um conto) quando a quitinete de seu affair estremece com um terremoto.

É quando o leitor começa a enxergar as características de Arturo Bandini na pele do menino Jimmy e finalmente se reencontra com o clássico e adoro personagem de Fante.

Tinto Carcamano
O escritor John Fante lançou “Dago Red” (é traduzido como “Tinto Carcamano” e refere-se ao vinho que os italianos do norte de Denver bebiam durante a época da Lei Seca), uma coletânea de treze contos que foi saudada pela revista Time como “talvez o melhor livro de contos de 1940”. Em 1985, dois anos depois da morte de Fante, os contos de “Dago Red” compuseram a primeira parte do livro “O Vinho da Juventude”, que ganhou uma segunda parte, denominada de “Contos Tardios”, incluindo mais sete contos na obra.

Trecho do conto “Lar, doce lar”
Estou cantando agora, pois em breve estarei em casa. Haverá uma grande recepção para mim. Haverá espaguete, vinho e salame. Minha mãe vai preparar uma grande mesa amontoada com as delícias da minha infância. Será tudo para mim. O amor da minha mãe estará sobre a mesa e meus irmãos e minha irmã ficarão felizes de me ver entre eles de novo, pois eu sou o irmão mais velho que nunca erra, e eles ficarão um pouco invejosos das boas-vindas despejadas sobre mim e vão rir muito das coisas que eu falo, e vão sorrir quando me virem engolindo aquelas garfadas enroscadas de espaguete e gritar pedindo mais queijo e trovejar o meu prazer. Pois são minha gente e voltei para eles e para o amor de minha mãe.

Vou passar meu copo para meu pai e dizer:

– Mais daquele vinho, pai.

E ele vai sorrir e servir o líquido vermelho de gosto doce na minha taça, e vou dizer “Aí, rapaz”, e vou beber lenta e profundamente, sentindo aquecer minha barriga, formigar meu coração, entoando uma canção em meus ouvidos. E minha mãe dirá “Não tão rápido, meu filho”, e vou olha para minha mãe e ver os mesmos olhos que eu fiz chorar tanto, tantas vezes, e meus ossos enfrentarão aquele sentimento obtuso de remorso, mas só vai durar um segundo e direi à minha mãe “Ora, mãe, não se preocupe com este sujeito, ele vai ficar bem”, e minha mãe vai sorrir com a felicidade que só minha mãe conhece e meu pai vai sorrir um pouco também, pois estará olhando para sua própria carne e sangue e vou sentir palpitação no peito e evitarei os olhos do meu pai, pois eles não conseguirão esconder sua felicidade.

imagemPara ler
O VINHO DA JUVENTUDE
Autor: John Fante
Editora: José Olympio
Nº de páginas: 336
Tradutor: Roberto Muggiati
Preço: R$ 42 nas principais livrarias
Avaliação: ótimo

 

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Pai e filho, vinho e cimento

Por Wilame Prado

Boa parte dos adoradores de obras como “Pergunte ao Pó” e “Sonhos de Bunker Hill” é feita de escritores e gente que sonha em ser escritor. O escritor norte-americano John Fante (1909-1983), como poucos, conseguiu em seus romances – com fortes traços autobiográficos – traduzir em palavras as angústias que cercam aqueles que preenchem laudas e mais laudas na máquina de escrever (hoje, nas páginas em branco de programas de texto em computadores). Não é o caso de “A Irmandade da Uva” (José Olympio, 224 páginas), último livro de Fante traduzido no País por Roberto Muggiati e que deixa de lado os fantasmas do universo particular da figura do escritor para uma atenção maior ao existencialismo envolvendo os laços de sangue.

No romance, lançado originalmente em 1977 (um ano antes de ficar cego em decorrência da diabetes), o escritor quebrou um hiato de 25 anos sem publicar livros para narrar os dramas envolvendo a família Molise e suas dificuldades com o patriarca Nick Molise, 75 anos, alcoólatra, jogador compulsivo, displicente marido e pai de Henry Molise, escritor de 50 anos que, tal qual como o clássico personagem Arturo Bandini, serviu de alter ego para Fante em algumas de suas obras.

No romance, é o escritor narrando em primeira pessoa as complicações familiares que obrigam-no a voltar para a pequena cidade de San Elmo após o anúncio de que os pais, casados há 51 anos, iriam se divorciar. Henry sai de Los Angeles para encontrar os pais em pé de guerra e os irmãos com suas típicas vidas interioranas regadas a picuinhas familiares. Ele passa algumas semanas por lá e percebe que, mais do que tentar evitar a separação de Nick e Maria Molise, precisará realizar o desejo de um pai já debilitado em razão dos excessos com a bebida: ajudá-lo – ele, um pedreiro orgulhoso da profissão que tem – a construir sua última obra.

Essa parceria entre pai e filho envolvendo argamassa e muito vinho é o mote para Fante destrinchar, com humor ácido e ironia, tudo o que precisava dizer sobre valores familiares, amizades verdadeiras, falta de dinheiro, questões ítalo-americanas, distanciamento entre a figura do filho que “escreve” com o pai que “trabalha” e o valor das mulheres fora do casamento. Para quem costuma se emocionar quando o assunto envolve questões familiares, “A Irmandade da Uva” – mais um cativante livro de John Fante – é capaz de fazer rir e chorar.

42111920A IRMANDADE DA UVA
John Fante
Editora: José Olympio
Número de páginas: 224
Avaliação: ótimo

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Oito livros traduzidos de John Fante

Ilustração inspirada no romance "Pergunte ao Pó"

Ilustração inspirada no romance “Pergunte ao Pó”

Por Wilame Prado

“1933 Foi Um Ano Ruim”: No fundo do estado norte-americano do Colorado, Dominic Molise, 17 anos, filho de um pedreiro e uma dona de casa temente a Deus, ambos imigrantes italianos, sonha em fugir do frio, ir para a Califórnia e tornar-se um grande arremessador de baseball.

“Espere a Primavera, Bandini”: Romance de estreia do autor, nesta obra ele retrata a vida de um adolescente em uma pequena cidade do Meio-Oeste americano, e mergulha na revolta dos que vivem à margem do sonho americano. Filho de imigrantes italianos, o alter ego do escritor, Arturo Bandini, faz-se presente.

“O Caminho de Los Angeles”: Arturo Bandini é um sensível e temperamental ítalo-americano que procura de todas as formas atingir o propósito máximo de sua vida: se tornar um escritor de prestígio. Mas, após a morte do pai, ele precisa sustentar a família e se vê forçado a trabalhar.

“Pergunte ao Pó”: Filho de imigrantes, Arturo Bandini é um jovem pretenso a escritor que se sente excluído da sociedade. Ele quer escrever sobre a vida e o amor, mesmo não tendo muita experiência sobre ambos, e se apaixona por uma linda garota. O romance se passa na Los Angeles da década de 1930.

“Sonhos de Bunker Hill”: Em uma Los Angeles frenética, que vive a explosão de Hollywood, na década de 30, Arturo Bandini ganha a vida como auxiliar de garçom. Com 21 anos, dinheiro nenhum no bolso e uma ingenuidade típica do interior americano, tenta embrenhar-se entre os roteiristas, atores, produtores e agentes do mundo cinematográfico, em busca de um lugar ao sol. O livro, ditado por Fante já cego e escritor por Joyce, sua mulher, fecha o “Quarteto Bandini”

“O Vinho da Juventude”: Nesta coletânea de contos de Fante estão seu pai, sua mãe, os irmãos, a irmã. O colégio católico, o beisebol, os mistérios das freiras, o pecado. Os imigrantes, os Estados Unidos das décadas de 30 e 40

“A Oeste de Roma”: Livro com duas novelas de Fante. Uma delas é sobre um cachorro, de cauda peluda, patas espalmadas, olhos oblíquos, meio akita, meio chow. De hábitos sexuais “muito estranho”, que já causaram confusões ímpares na sua família de humanos. Atende pelo nome de Estúpido. A outra novela é sobre uma mina de ouro desativada, cujo nome, Diabo Vermelho, já diz tudo: cenário e desculpa perfeitos para furtivos encontros etílico-amorosos.

“A Irmandade da Uva”: Personagem Henry Molise, 50 anos, escritor de sucesso, retorna à casa da família para ajudar com o mais recente drama dos pais já idosos: um divórcio. O pai de Henry, tirânico e alcoólatra, ainda desperta o medo em seus filhos, todos já na faixa dos 50 anos. A mãe, doente e devota ao catolicismo, tenta sempre amenizar as situações dramáticas dentro do lar, consolando e até confundindo os filhos.

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Uvas de John Fante

"A Irmandade da Uva", último livro de John Fante publicado no País, foi lançado originalmente em 1977

“A Irmandade da Uva”, último livro de John Fante publicado no País, foi lançado originalmente em 1977

Por Wilame Prado

Em 2012, fez 80 anos que o escritor norte-americano John Fante (1909-1983) publicou seu primeiro conto na revista The American Mercury. E a comemoração veio em forma de livro: a José Olympio Editora publicou, em 2013, o romance “A Irmandade da Uva”, lançado originalmente em 1977 por Fante.

No romance, o personagem Henry Molise, 50 anos, escritor de sucesso, retorna à casa da família para ajudar com o mais recente drama dos pais já idosos: um divórcio. O pai de Henry, tirânico e alcoólatra, ainda desperta o medo em seus filhos, todos já na faixa dos 50 anos. A mãe, doente e devota ao catolicismo, tenta sempre amenizar as situações dramáticas dentro do lar, consolando e até confundindo os filhos.

Costumeiramente revelando uma ponta autobiográfica em seus livros, os seguidores de Fante podem perceber que, em mais esta obra, o escritor continua com as premissas sempre requisitadas e que tanto encantam aos leitores: a vida de quem sai do lar extremamente tradicional e católico para tentar ser escritor, dramas de família, as dificuldades de imigrantes e descendentes italianos nos Estados Unidos, o vinho tomado além da conta, o poder e os questionamentos sobre religião e as manifestações de amor que, para o escritor, ainda resta nas pessoas.

Os finais dos livros de Fante costumam ser tocantes, sempre com uma espécie de salvação oferecida ao errante ser humano.

Mais de Fante
Atualmente, os fãs aqui do Brasil têm em mãos oito obras traduzidas de Fante. Pela José Olympio Editora, o penúltimo livro lançado foi a coletânea de contos “O Vinho da Juventude”, lançado originalmente nos Estados Unidos em 1985 e que chegou traduzido em 2010 nas livrarias do Brasil.

A mesma editora também já lançou “O caminho de Los Angeles”, “Espere a primavera, Bandini” e “Pergunte ao Pó”. Do autor, a editora L&PM Editores lançou por aqui “Sonhos de Bunker Hill” e “1933 foi um ano ruim”.

“A Oeste de Roma”, livro lançado em 1990 pela Editora Brasiliense com duas novelas, é também outra alternativa traduzida no País. O problema é encontrar o livro, esgotado nas livrarias e hoje considerado artigo de luxo em sebos.

A distância que me separava de Oeste de Roma
John Fante que me perdoe, mas faltou-me grana para pagar mais de R$ 40 por “A Oeste de Roma” (Editora Brasiliense, 180 páginas) usado em um dos poucos sebos que ainda têm o exemplar. Para os fãs ardorosos, pode ser a única alternativa. Para quem tem o dinheiro, vale cada centavo investido naquela que considero uma das melhores obras escritas por ele.

Mas tive sorte na busca pela leitura obrigatória de “A Oeste de Roma”. Digo obrigatória porque era o último livro que me faltava para finalizar a leitura de todas as obras de Fante já traduzidas no País. Precisava consumir aquelas páginas tal qual uma criança diz precisar do doce, do brinquedo.

Minha sorte veio em nome de uma até então desconhecida moradora de Osasco-SP. Na busca ensandecida pelo livro, cheguei ao ponto de digitar o nome da obra na rede social de literatura Skoob e comecei a perguntar para cada um que afirmava ter o exemplar se poderia me emprestar a obra.

Claro, muitos ignoraram ou disseram não para o fã louco de Fante. Menos Priscila Costa, que me respondeu: “Será um prazer te emprestar o livro. Passe os dados para que eu possa te enviar via correio”. Antes, porém, de me enviar o seu raro “A Oeste de Roma”, a simpática garota, hoje minha amiga virtual, sugeriu me mandar também uma caixa de lenços tamanha era minha emoção ao agradecer o empréstimo.

Em “Meu Cão Estúpido” – uma das duas novelas do livro, Fante parece estar mais maduro do que em qualquer outro relato. Ele descreve com maestria e de maneira irônica as situações envolvendo uma família típica da Califórnia que se vê diante de um problema quando, sem explicações, um cachorro estúpido, preguiçoso e com hábitos sexuais constrangedores passa a morar em seu quintal.

O cachorro, no texto, acaba mesmo ficando em segundo plano. O que fica evidente é a maneira que Fante enxergava a mediocridade que reina os hábitos familiares de filhos mesquinhos, mimados e folgados, mulheres consumistas e histéricas e homens sempre levemente alcoolizados em uma vida que, às vezes, só mesmo a presença de um inocente bicho de estimação parece dar um pouco de paz de espírito em um lar.

Em “A Orgia”, a outra novela do livro, Fante retoma as velhas questões familiares e autobiográficas de um menino que vive no dilema entre a mãe fervorosamente católica e o pai, que, ainda que trabalhador, acompanhado de um amigo, vai atrás de mulheres e bebidas. Outra texto imperdível de Fante.

É por essas e outras que só tenho a agradecer por tudo o que Fante já escreveu e, claro, à amiga Priscila Costa, que, sabendo do tamanho do valor da literatura feita pelo criador do eterno Arturo Bandini, reconheceu a importância de se propagar isso tudo emprestando um raro e ótimo livro para mim.

*Parte de reportagem publicada em 10 de junho de 2012 no extinto caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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John Fante não era um cara legal

John Fante: segundo o filho, resumia-se a roteiros de cinema, literatura e muito álcool

John Fante: segundo o filho, resumia-se a roteiros de cinema, literatura e muito álcool

Por Wilame Prado

Com uma trajetória inicial de pouco sucesso e poucas publicações, o que se dizia é que Fante passou a ser mais reconhecido quando o escritor Charles Bukowski (1920-1994) se declarou fã da saga de Arturo Bandini, o alter ego de Fante que quase sempre aparece em seus livros. Em “Mulheres” (1978), Henry Chinaski, alter-ego de Bukowski, diz que seu ator preferido se chama “John Fante”, “F-A-N-T-E”, enfatiza o personagem.

No entanto, Dan Fante, 68, filho de John Fante, em entrevista concedida à Folha de S. Paulo, disse que não foi Bukowski quem redescobriu a literatura produzida por seu pai. Quem recuperou as obras de Fante na década de 70, segundo Dan, foi Ben Pleasants, editor de poesia do jornal Los Angeles Times.

Dan Fante, escritor igual ao pai e autor de 11 obras publicadas, revela que a relação com o pai nunca foi das melhores. Suas memórias foram publicadas em “Fante – A Family´s Legacy of Writing, Drinking and Surviving” (“Legado de Escrita, Bebida e Sobrevivência”, em tradução livre), ainda inédito no País.

Na obra, o filho revela um John Fante que mesclava a rotina como roteirista de cinema (o que lhe dava retorno financeiro) e as tentativas literárias, tudo isso em meio a um consumo excessivo de álcool, algo menos glamoroso e mais triste do que as histórias vividas por Arturo Bandini nas páginas de seus romances.

Dan Fante, que só veio a ter uma relação de amizade com o pai após os 30 anos de idade, afirma à reportagem da Folha de S. Paulo: “John Fante não era um cara legal”.

Em 1955, Fante descobre a diabetes, que o tornaria cego em 1978. Antes de morrer, aos 74 anos em 1983, dita sua última obra literária, “Sonhos de Bunker Hill”, para Joyce, sua mulher. Boa parte de sua obra foi publicada postumamente. Dan Fante, filho dele, escreveu um romance sobre a morte do pai: “Chump Change”, ainda inédito no Brasil. Em 2000, Stephen Cooper publicou “Full of Life” – biografia de John Fante, também inédita no País.

Em 2006 foi lançado no Brasil o filme “Pergunte ao Pó”, uma adaptação do romance mais famoso de Fante, publicado originalmente em 1939. Curiosamente, na época do lançamento foram vendidos apenas cerca de três mil exemplares do livro.

Só na década de 80, quando Charles Bukowski assina o prefácio da reedição de “Pergunte ao Pó”, é que o livro se torna um grande sucesso de venda e críticas pelo mundo. O filme mostra a paixão do aspirante a escritor Arturo Bandini (Colin Farrell) pela garçonete Camilla (Salma Hayek). Enquanto ela tem o sonho de arrumar um bom marido e sair da vida de garçonete, ele vive num quarto de hotel barato sonhando com a vida de escritor.

*Parte de reportagem publicada no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná em 10 de junho de 2012

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Entrevistão com Laurentino Gomes

Laurentino Gomes, em Itu (SP): "A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e  encará-lo mais a fundo"

Laurentino Gomes, em Itu (SP): “A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje”

Por Wilame Prado

A história que começa com a transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, e que culmina com a Proclamação da República Brasileira, em 1889, também desperta imenso interesse ao público leitor de Portugal. Foi do país-irmão que, gentilmente, o escritor maringaense radicado em Itu (SP) Laurentino Gomes – best-seller com a trilogia que narra boa parte do século derradeiro de colonização portuguesa – concedeu entrevista contando sobre o seu novo e ousado projeto: dissecar a escravidão no Brasil em uma nova trilogia de livros-reportagem, a ser publicada a partir de 2019.

Entre um lançamento e outro, uma palestra e outra, percorrendo por Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte, Gomes encerrará a sua expedição lusitana em 28 de maio, retornando ao País no dia 30. Pretende começar imediatamente o seu novo projeto literário. E pode parecer um tempo longo (quatro anos) para lançar o primeiro dos três livros sobre escravidão, mas quando o escritor e jornalista comenta sobre o seu processo criativo e de pesquisa, há de se entender o motivo pelo prazo esticado.

“Começarei pela vasta bibliografia sobre o assunto. São centenas de livros já publicados, no Brasil e no exterior, o que me obriga a ser muito seletivo para não correr o risco de passar o resto da vida só na pesquisa, sem nunca escrever nada. Depois vem a fase da reportagem, com visitas aos locais relacionados à história da escravidão, o que inclui os portos negreiros na África e os pontos de desembarque, comercialização e trabalho dos escravos no Brasil. Também pretendo entrevistar historiadores e outros estudiosos em museus e centros de pesquisas sobre o tema”, explica ele.

Para o maringaense, que confirmou a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim) em outubro – quando será um dos homenageados – a escravidão é o acontecimento mais marcante da história brasileira, mas ainda mal explorado pela historiografia. Por meio da linguagem acessível e do aprofundamento dos fatos permitidos pelo livro-reportagem, Gomes pretende, mais uma vez, fazer jus aos fatos históricos desse capítulo que explica consideravelmente as injustiças irrecuperáveis para com os negros no País.

Como está sendo a recepção de “1889” aí em Portugal, país totalmente envolvido nesta história? Lançou o livro em quais cidades e quando retornará ao País?

LAURENTINO GOMES – A repercussão tem sido a melhor possível. Já havia lançado aqui os dois primeiros livros, “1808” e “1822”, mas nunca a acolhida tinha sido tão calorosa quanto agora, com “1889”. Tenho observado muito entusiasmo e uma torcida muito grande entre os leitores portugueses com os quais me relaciono nas redes sociais. O circuito de lançamentos inclui palestras, entrevistas e bate-papos com leitores em quatro cidades portuguesas: Lisboa, Vila Real, Porto e Belmonte. Começa com um evento de apresentação na Casa da América Latina, em Lisboa, e termina também em Lisboa com uma sessão de autógrafos na Feira do Livro, no dia 28 de maio. Retorno ao Brasil no dia 30.

Por que escolheu Itu para morar?
Moro em Itu há seis anos. Escolhi essa cidade pela localização, próxima a São Paulo, Campinas e Sorocaba, e também pela qualidade de vida. Minha casa fica em um condomínio muito bonito e arborizado, na zona rural do município. É uma paisagem que, em muitos aspectos, me lembra a região de Maringá, onde nasci. Além disso, Itu é uma cidade histórica, com mais de quatrocentos anos de fundação e papel decisivo em alguns episódios como a Independência e a Proclamação da República. É, portanto, um bom lugar para viver e escrever.

Por que resolveu investir, agora, em reportagens sobre a escravidão?
Essa é uma ideia que foi crescendo ao longo da trilogia “1808”, “1822” e “1889”. Nos três livros eu tratei bastante da escravidão. Quando a corte de Dom João chegou ao Rio de Janeiro, em 1808, de cada três brasileiros um era escravo. O tráfico negreiro era na época o maior negócio do Brasil e, talvez, até de Portugal, mobilizando milhares de pessoas e centenas de navios nas costas nos dois lados do Oceano Atlântico. Os homens mais ricos do Rio de Janeiro eram todos traficantes de escravos e foram os que mais deram contribuições à corte portuguesa, tanto com dinheiro quanto com apoio político. Na Independência, o Brasil rompeu os vínculos com Portugal mas manteve inalterada a situação social até então vigente. Uma tentativa de José Bonifácio de Andrada e Silva de acabar com o tráfico negreiro foi um dos motivos para o fechamento da Constituinte, em 1823. Há uma sensação de orfandade da Independência brasileira porque os escravos viram que as ideias libertárias defendidas pelos brancos na época não os incluíam. O Brasil foi o último País do hemisfério ocidental a acabar com o tráfico, em 1850, e o também o último a abolir a escravidão, em 1888. A principal consequência foi a queda da monarquia e a Proclamação da República no ano seguinte. Tudo isso foi me convencendo de que era preciso escrever uma nova trilogia tratando a escravidão.

Em seu ponto de vista, a historiografia brasileira peca nas pesquisas sobre escravidão?
Acredito que sim. Esse é um tema ainda muito mal tratado na historiografia brasileira, repleto de preconceitos e distorções. Eu acredito que esse seja o tema mais importante de toda a História do Brasil. Tudo o que nós já fomos, somos hoje e seremos no futuro gira em torno das nossas raízes africanas e do uso da mão de obra cativa. Sem a escravidão o Brasil de hoje simplesmente não existiria. Foi a maneira encontrada por Portugal para ocupar e explorar uma colônia 91 vezes maior, em extensão geográfica, do que a pequenina metrópole. As consequências são profundas. Joaquim Nabuco dizia que não bastava abolir a escravidão, era preciso também educar, dar terras e oportunidades para os ex-escravos, de modo a incorporá-los na sociedade brasileira como cidadãos de plenos direitos. Isso jamais aconteceu. Basta ver as estatísticas atuais sobre as diferenças de tratamento e oportunidade entre negros e brancos em todos os níveis e aspectos da sociedade brasileira, e também a polêmica que envolve políticas públicas como as cotas para estudantes negros nas escolas e universidades. A escravidão é, portanto, um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e encará-lo mais a fundo.

O que poderia citar da bibliografia e mesmo de filmes que tratam este tema?
O Brasil foi o maior território escravagista do hemisfério ocidental. Recebeu entre 40% e 45% de todos os doze milhões de escravos que, segundo as melhores estimativas, foram trazidos para a América nos primeiros 350 anos da colonização. Apesar disso, a produção cultural brasileira relacionada a escravidão é ainda relativamente modesta quando comparada, por exemplo, com a dos Estados Unidos. O número de filmes, minisséries, documentários e obras literárias sobre a escravidão no mercado norte-americano é enorme, embora os Estados Unidos tenham recebido somente 7% dos cativos africanos. É hora de tentar corrigir essa desproporção. Há uma produção acadêmica razoável no Brasil sobre o tema, e também cultural – como o celebrado filme “Chica da Silva”, com Zezé Mota – mas ainda há muito o que fazer. Meu objetivo, com essa nova trilogia, é menos abrir novas frentes de pesquisas e mais tornar esse assunto mais popular e acessível a leitores que nunca se interessaram muito por ele.

Assistiu “Doze Anos de Escravidão”? Gostou? Acredita encontrar histórias interessantes como aquelas em sua pesquisa?
Gostei muito de “Doze Anos de Escravidão”, mas no Brasil nós temos histórias ainda melhores, que poderiam ter rendido bons filmes e, quem sabe, até um Oscar. Um exemplo é a biografia do abolicionista Luis Gama. Filho de uma negra livre com um fidalgo português, o mulato Luiz Gama viveu na pele as injustiças da escravidão. Era ainda uma criança de dez anos quando seu pai, às voltas com dificuldades financeiras, não teve pudores de vendê-lo como escravo para um comerciante do Rio de Janeiro. Levado mais tarde para Campinas, interior de São Paulo, fugiu do cativeiro, estudou Letras como um autodidata e tornou-se um rábula – praticante da advocacia sem diploma universitário. Era um homem ousado e corajoso. Sozinho conseguiu libertar mais de mil escravos. Em um famoso processo de 1870, defendeu um escravo que matara o seu senhor. Seu argumento assustou os fazendeiros: todo cativo que mata o seu dono age em legítima defesa. Por defender posições como essa, Gama recebia ameaças de morte e andava armado. Faleceu vítima de diabetes em 1882, aos 52 anos, sem ver a sua obra coroada. Para mim, essa história é melhor do que a do personagem de “Doze Anos de Escravidão”.

Você é a favor de cotas raciais? O que pensa sobre o argumento de quem é a favor das cotas, afirmando de que se trata de uma dívida do País para com os negros?
Sou a favor das cotas raciais, ainda que não sejam a solução ideal nem a mais popular para o problema. Acredito que a escravidão é um passivo que o Brasil não conseguiu até hoje corrigir. A escravidão foi oficialmente abolida em pela Lei Áurea de 13 de maio de 1888, mas os ex-cativos acabaram abandonados à própria sorte. O Brasil nada fez para promovê-los à condição de cidadãos. O resultado é uma tragédia humana e social de dimensões gigantescas. O cinturão de pobreza e de violência que hoje se observa na periferia das metrópoles brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, é ainda herança do nosso passado escravocrata. Uma sociedade nacional é um pacto que se projeta no futuro. Se uma geração não faz o que deve ser feito, as gerações seguintes terão de assumir a tarefa de corrigir os problemas. Portanto, mesmo hoje, mais de um século após a Lei Áurea, está em nossas mãos enfrentar a tarefa de corrigir esse passivo. A política das cotas raciais pode ser polêmica e até injusta em muitos aspectos, mas é talvez a primeira tentativa séria e concreta que o Brasil faz para enfrentar essa herança mal resolvida.

Sobre terminologia, qual a correta ou qual prefere: negro, preto, afrodescendente?
Para mim, tanto faz. Tenho certa aversão aos modismos politicamente corretos que tentam resolver passivos históricos por meio da semântica e do vocabulário em lugar de políticas públicas concretas. O que adianta ser bacaninha no vocabulário e chamar os negros de afrodescendentes se, na prática, eles continuam a ser discriminados e violentados todos os dias? Eu uso nos meus textos a expressão negros, que, acredito, seja de aceitação mais geral, mas realmente não me preocupo muito com terminologias, desde que elas tenham significado real para os meus leitores.

Pretende focar na macro-história ou na micro-história da escravidão?
As duas coisas. Nos três livros vou explicar como nasceu o tráfico de escravos da África para as Américas no Século 16, qual a diferença da escravidão no período colonial dos tempos antigos em Roma e na Grécia, também vou descrever como era o negócio do tráfico, as viagens dentro de um navio negreiro e o trabalho dos escravos nas lavouras de açúcar e café. Tudo isso é macro-história. Mas, obviamente, vou jogar luz em personagens e acontecimentos muito particulares, como a história de Zumbi dos Palmares, e contribuição dos africanos para as nossas raízes culturais, como o Carnaval, o Samba e o Candomblé, com seus astros da música pop e seus pais de santo, o que já resvala na micro-história. A fórmula é, portanto, muito semelhante aquela que já usei nos três livros anteriores.

É verdade que nos brindará com a sua presença na 2ª Festa Literária de Maringá (Flim), a ser realizada em outubro na cidade?

Sim, estou muito honrado com a decisão dos organizadores da Flim de me incluir entre os escritores homenageados da edição deste ano. Existe um velho ditado, extraído das Escrituras, segundo o qual ninguém faz sucesso na própria terra em que nasceu. Felizmente, isso não acontece comigo. Desde que lancei o livro “1808”, Maringá tem me prestado todas as homenagens possíveis, incluindo o título de Cidadão Benemérito do Município. Então, nada tenho que reclamar. Estarei aqui todos os dias da Flim 2015 e procurarei participar com alegria e gratidão de todos os eventos programados pelos organizadores.

Vem muita a Maringá, ou é difícil?
Vou sempre que posso a Maringá. Dois dos meus quatro irmãos ainda moram aí. Geralmente passo o Natal na casa de um deles. Meu programa favorito, quando estou na cidade, é caminhar de manhã em volta ao Parque do Ingá. É onde aproveito para rever amigos e ex-colegas de escola ou de trabalho.

Pretende escrever ficção um dia?
Por enquanto, não me animei a escrever ficção. Maringá tem excelentes romancistas, como os premiados Marcos Peres e Oscar Nakasato. Eu não sei se teria talento para me aventurar nesse gênero literário. Prefiro ficar nos livros-reportagem, um termo que eu conheço e domino relativamente bem.

E voltar ao jornalismo, em revistas, impressos?
Eu já trabalhei mais de trinta anos em redações de jornais e revistas e fiz quase tudo que era possível experimentar nesse ambiente. Aprendi muito como repórter e editor. O que sei fazer isso no mundo dos livros vem dessa época. Agora prefiro continuar sendo escritor. Na verdade, eu não deixei de ser jornalista. Apenas mudei de formatos. Antes fazia jornais e revistas. Agora, faço livro-reportagens. Mas a profissão e também o meu amor por ela continuam os mesmos.

O sucesso ensina alguma coisa aos escritores? Pergunto isso fazendo referência ao tremendo sucesso que a sua primeira trilogia fez e continua fazendo.
Sim, hoje eu encaro o meu trabalho com um senso de humildade que não tinha antes. Quando o primeiro livro entrou na lista dos best-sellers e começou a vender centenas de milhares de exemplares, confesso que fui tomado por uma mistura de susto e vaidade. Isso felizmente passou. Agora entendo que todos nós temos vocações e missões que precisam ser assumidas e exercitadas com respeito, dedicação e também gratidão. Ser escritor é, para mim, uma grande graça recebida de Deus. Continuar a escrever é uma forma de me curvar a sua vontade, em benefício dos outros seres humanos que me acompanham nessa jornada. Não por acaso, os livros têm tido um papel importante na área de educação. Portanto, já não me assusto nem me envaideço mais. Apenas caminho.

Há algum fundamento nas críticas partidas principalmente de historiadores, que dizem haver pouca profundidade em suas propostas de livro-reportagem?
Essa crítica já foi mais forte no passado. Hoje, uma boa parte dos historiadores, especialmente aqueles que eu mais admiro, já entenderam que o meu papel não é banalizar ou desqualificar o estudo de História, mas contribuir para o aumento do interesse por essa disciplina. Acredito também (e acho que já disse isso em uma entrevista ao Diário) que historiadores e jornalistas têm muito a aprender uns com os outros. Historiadores podem ensinar aos jornalistas método e disciplina na pesquisa. Os jornalistas, por sua vez, tem contribuição de linguagem e estilo a dar no ensino e na divulgação do conhecimento da história. O Brasil está mudando rapidamente, para melhor, em quase todas as áreas – e isso não é mérito individual de nenhum governo. É resultado do exercício continuado da democracia por quase três décadas, uma experiência inédita em nossa história. Estamos colhendo, finalmente, os frutos da participação de todos os brasileiros na construção da nossa própria história. Hoje temos, entre outras melhorias, mais renda, mais empregos, mais educação e oportunidades do que trinta anos atrás. Uma das consequências é o aumento no número de leitores e o crescimento do mercado editorial brasileiro. Há novos leitores entrando nesse mercado, o que impõe novas responsabilidades para nós, escritores, editores e distribuidores de livros. Temos de ser generosos com esse novo leitor, de modo a atrai-lo definitivamente para o fascinante mundo dos livros. O grande desafio é ampliar o interesse do público pela História sem banalizar o conteúdo. Essa é uma linha tênue e perigosa. Se o autor ficar só na superfície e na banalidade, o livro não oferecerá contribuição alguma, será irrelevante. Se, ao contrário, der um mergulho muito profundo, não conseguirá prender a atender desse leitor menos especializado. Mas entendo também que esse é o desafio permanente do bom jornalista.

Após pesquisar tanto o nosso Brasil, consegue encontrar algumas respostas para o que acontece hoje especialmente na política e no modo como a corrupção parece ser sistêmica no País?
Basta ler o noticiário todos os dias para perceber que o Brasil tem uma república mal-amada. Os brasileiros não se reconhecem na sua república porque o regime, ao longo de mais de um século, falhou em cumprir muitas de suas promessas, incluindo o combate à corrupção. Muito do que ocorre hoje no Brasil, incluindo as manifestações de rua, tem raízes nessa distância entre as promessas e os sonhos republicanos. O brasileiro participou pouco da construção do Estado Nacional. Por isso, essa sensação de estranheza entre Estado e sociedade que se observa hoje. Os brasileiros não se reconhecem no que está em Brasília. Querem um País melhor, mais eficiente, mais ético e menos corrupto. Acredito que isso seja também resultado de uma experiência inédita na nossa história, que são os quase trinta anos de democracia, sem rupturas. A Campanha das Diretas de 1984 poderia ser considerada uma segunda Proclamação da República, promovida não pelos quartéis mas pelas ruas. As manifestações de rua fazem parte dessa nova equação política em que o povo brasileiro reivindica, finalmente, o direito de participar ativamente da organização do futuro, incluindo o combate à corrupção. É uma jornada difícil e tortuosa, às vezes até assustadora, mas não existe outra forma de construir um País no qual todos os seus cidadãos se reconheçam.

Após conhecer tanto do nosso passado, consegue encontrar algumas possíveis respostas para a resolução de nossos problemas?
Acho que não devemos perder as esperanças em um Brasil melhor. As pessoas estão, de fato, muito frustradas e chateadas com os rumos atuais da política brasileira. Duas grandes tentações nos ameaçam no futuro próximo. A primeira é o cinismo que diz ‘tudo mundo rouba, então eu também posso roubar’ ou, em outra versão, ‘no passado todos roubaram, por que eu não posso roubar agora?’ Esse tipo de argumento é inaceitável porque nos leva a segunda tentação, segundo a qual ‘o Brasil seria ruim por natureza, corrupto, violento e desigual. Por isso, não adianta lutar porque o País não tem jeito’. Então, o melhor seria nos acomodarmos na situação atual e seguir em frente. Isso seria jogar a toalha e abrir mão dos nossos próprios sonhos. Não podemos desistir. A jornada rumo a um Brasil melhor, mais justo e mais honesto será longo e difícil, mas nós temos de fazer parte dela com todas as nossas forças e convicções. Esse esforço começa dentro de casa, nas escolas, nas empresas, nos relacionamentos pessoais e em todos os aspectos das nossas vidas públicas e privadas. Acredito que o Brasil tem jeito, sim, e pode melhorar. A maioria das pessoas que conheço são honestas, corretas, trabalhadoras e bem intencionadas. Se somos assim na maioria por que o País também não poderia ser?

*Parte da entrevista publicada nesta terça-feira no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Causos do cantador Boldrin

Rolando Boldrin, em momento do show "Causos & Canto": ingressos esgotados em Maringá

Rolando Boldrin, em momento do show “Causos & Canto”: ingressos esgotados em Maringá

Por Wilame Prado

A vinda de Rolando Boldrin a Maringá para a apresentação do show “Causos & Canto” (ingressos esgotados), às 21 horas de amanhã, no Teatro Calil Haddad, destoa da maioria dos shows ditos sertanejos e tão em voga na cidade. O Sr. Brasil despreza esse suposto estilo musical. Informado sobre a contabilidade de mais de 300 duplas sertanejas por essas redondezas, ele prontamente interrompe a pergunta e clama: “Vamos falar de Brasil”.

“Eu não trabalho com esse tipo de produto, meu trabalho é brasileiro. Além do que, se trata de um título mentiroso: sertanejo, pra começar, é música nordestina, portanto essa nomenclatura está errada. Eu não gosto desse tipo de trabalho, ele sofre muita influência do country norte-americano, e eu trabalho com Brasil. É uma pena que o Paraná esteja infestado de música sertaneja, não considero isso como um produto nacional, respeito os intérpretes e os grandes cantores, mas não me agrada nenhum pouco o ritmo, a temática e o visual”, diz, ao telefone, Boldrin, 78 anos, ator, contador de “causos”, músico, compositor e apresentador de televisão.

Para o show de amanhã, como faz há vários anos percorrendo em várias regiões do País, ele vem só. As histórias que coleciona desde menino, em São Joaquim da Barra, interior de São Paulo, o acompanham, falam por si. “Como digo na canção: sou eu, a viola e Deus. Para o show de amanhã, vou só, mas com Deus e com um violão. Chego para contar e cantar causos, para cantar o Brasil. E fico muito contente de saber que há um público grande no Paraná, é gostoso saber que sou reconhecido por meu trabalho. Venho cantando esse meu País há muito tempo, e essa é a nossa recompensa”, diz.

Sobre a preferência por cantar ou contar, Boldrin esclarece: não se considera um cantor e sim um cantador. Tem diferença. “Cantor é Cauby Peixoto. Eu sou um ator que canta. Eu faço com muito carinho, mas não sou cantor, sou cantador, um ator que canta. Cantar é também um ato de representar. Sou um cantador.”

Não será a primeira vez do artista na cidade. Entre idas e vindas, ele se recorda de um festival do qual participou em Maringá nos anos 1960 e de um detalhe que o tocou intensamente. “De Maringá, não tenho nenhum causo para contar, infelizmente. Mas me referencio sempre à cidade com a música de mesmo nome (de Joubert de Carvalho). Lembro-me, inclusive, de um show em um clube na cidade, acho que em 1967, em que fiquei profundamente tocado quando o Poly – um artista que já foi embora deste plano – pegou a sua guitarra havaiana (novidade, à época) e tocou ‘Maringá’. Foi uma comoção geral.”

Não é só samba
Em meio à entrevista, concedida pelo telefone fixo, Boldrin precisava de pausas a todo o momento. Era o telefone celular tocando. Para poder vir a Maringá, conta ele, antecipara gravações do programa “Sr. Brasil”, que está comemorando dez anos de TV Cultura. “Vim da Globo e estamos prestes a fazer um especial sobre os dez anos de TV Cultura. É lá que eu realizo meu sonho, o sonho de mostrar a nossa brasilidade através da música. No começo, queria provar que o Brasil não era só samba, futebol e mulata. Achava injusto com outros ritmos, com as coisas de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Caymmi, João do Vale, Chico Maranhão, Dércio Marques”, conta.

Sobre o programa, explica como hoje consegue encontrar tanta coisa boa para ser mostrada e apreciada. “Minha equipe é pequena, trabalho praticamente sozinho nessa busca pela brasilidade, mas é que venho de um trabalho antigo. E se no começo procurava principalmente os amigos da música, hoje recebo material do País todo, assim como ocorreu, por exemplo, com Almir Sater, Quinteto Violado, Caju e Castanha, todo esse tipo de trabalho começou a vir naturalmente.”

‘Credita’ no Brasil
O trocadilho é conhecido: Rolando Boldrin, assim como no mote de uma campanha publicitária protagonizada por ele em 1989 para um grande banco, continua “creditando” no Brasil e no brasileiro. Sobre os políticos, como o caboclo diz, ele se diz “desacorçoado”. “Nos políticos, continuo desacreditando, nem mexo muito com política, não. Acredito fazer minha parte com meu trabalho artístico. Não dá para se ter ânimo e nem enaltecer político, a corrupção está generalizada.”

Boldrin, por fim, mostra-se um otimista. “O brasileiro é bom, a índole do brasileiro é muito boa, é um povo maravilhoso. Para representá-lo, cito sempre Érico Verissimo: ‘E vendo e ouvindo este campeiro tão íntimo da terra e da vida tão iluminado pela sabedoria do coração, você compreenderá que o homem brasileiro é milagrosamente um só de Norte a Sul de Leste a Oeste, a despeito de suas distâncias geográficas, um só no que possui de essencial: a cordialidade, o horror à violência, a capacidade de dar-se e também de rir da vida dos outros e de si mesmo.'”

Esgotados
O cantador, que lotou um Guairão (Curitiba) no domingo passado, em pleno Dia das Mães, chega a Maringá de maneira gratuita graças a esforços coletivos. Sabendo do prestígio que Boldrin tem com o público daqui, como presente à cidade no mês de seu aniversário, a Ben-Hur Produções Artísticas e o Instituto Cultural Ingá (ICI) viabilizaram o show “Causos & Canto” com recursos do Ministério da Cultura (MinC), via isenção fiscal das empresas Fertipar e Ferrari & Zagatto, com mecanismos da Lei Rouanet.

Além da cidade, Boldrin ainda percorrerá com seu show neste mês as cidades de Londrina, Toledo e Ponta Grossa. Para o show de amanhã no Calil, o empresário e artista Ben-Hur Prado lamenta o fato de não haver mais ingressos para algum dos mais de 750 lugares que o teatro dispõe. Mas dá uma dica para quem não quer perder de jeito nenhum os causos e a cantoria de Boldrin: “Mesmo sem ingressos, dê uma passada no Calil meia hora antes de começar o show. Após o terceiro sinal, se houver lugares vagos no teatro, vamos liberar para quem está esperando lá fora.”

*Reportagem publicada nesta sexta-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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