Mês: março 2016



plástico

no que eu me tornei?
não toco mais violão
não faço gols
não leio mais que três páginas de uma vez só.
não vou ao cinema.
não vejo parentes.
tenho poucos e distanciados amigos.
eu passo um dia todo sem sequer pensar nas pessoas que amo.
eu brigo com os números de contas bancárias.
eu plastifiquei as relações.
eu nem beijo mais.

tudo é um jogo.
estratégias de sobrevivência.
noites que passam num piscar de olhos, fechados, dormindo.
dias que duram séculos.
o trabalho nunca acaba.

a vida acaba.
o amor pode acabar.
as pessoas podem acabar com você.
ou, pior: ignorarem você.
Afastarem-se de vez.
o mundo não está a seus pés.
ninguém está nem aí para você.

e quando a doença vier?
quem estará ao teu lado?
um amontoado de notas e moedas não fazem companhia.

Pense no melhor momento da sua vida.
Pense naquela lágrima mais sincera.
Naquele sorriso mais encantador.
Em um abraço que você nunca mais recebeu.
Pense naquelas pessoas.
E então refletirá que nunca trabalho e dinheiro fizeram parte disso.

Ok. Você precisou ouvir novamente Radiohead com legenda no YouTube para descobrir isso.
Mas se você parou e pensou, isso quer dizer que está vivo.
Quando nada mais emocionar, é a morte da alma.

Então é melhor assim?
Enrole-se num plástico bolha e saia rolando escada abaixo.
Coloque uma sacola de mercado na cabeça e erre na multidão.
Vista a armadura de plástico.
Voe com a capa de plástico.
Coma plástico com sal.
Depois ingira plástico com açúcar.

Do jeito que vai
Vão achar que você é de plástico.

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