Mês: abril 2016



Dignidade

Por Wilame Prado

Fico pensando no conforto que a gente tem. No frio é que se dá o devido valor a uma blusa. E não importam marcas e nomes. Conforto é a palavra certa para descrever o que de mais valioso conquistamos trabalhando por tantos anos. A nossa lida continua.

Hoje eu me sinto um sujeito agradecido. Parei de esquentar a cabeça com a conta no vermelho e me sinto até abençoado quando o trabalho acumula um pouco: isso nada mais quer dizer que, ainda bem, tem gente que confia no profissional que sou.

Os dias passam. Os anos voam. Uma década rapidamente se completa. Quanto tempo passei sem me olhar direito no espelho? Hoje vejo outra pessoa. Os cabelos brancos estão aqui, alguns quilos a mais foram inevitáveis: a boa e velha sexta-feira da pizza.

E então, olho no olho (olhando no espelho), reavalio o meu passado e percebo que as batalhas nunca se cessaram e que, também, as derrotas foram inevitáveis.

Emociono-me. Mais uma ruga brotou em meu rosto. E as costas acusam um cansaço que só se abranda um pouco quando existe a paz em um fim de semana com o time retirado de campo.

Teimo em olhar-me. O olho. A lágrima anuncia. Tantos arrependimentos. Tantos erros. Tantos caminhos tortuosos enfrentados em meio ao inebriante pensamento turvo.

Parece ser quase um milagre ainda estar aqui, de corpo presente. Parece ser uma dádiva o simples ato de ir e vir. Há misericórdia no espaço. Existem segundas chances. Feito bobo em frente ao espelho, olhando uma biografia que se constrói errantemente, visualizando um sujeito que tenta, mas muitas vezes não consegue, rememorar aquele alegre menino que tinha o mundo inteiro pela frente, eu nada mais consegui enxergar a não ser uma urgente necessidade de perdão e – talvez – redenção, renascimento.

A água límpida e fria cai da torneira, lava minha mão e alcança os poros do meu rosto. A vida ainda está lá fora, e aqui dentro de mim também.

Perdão, meu pai. Perdão, pessoas. Perdão, mundo. Eu errei, e continuando errando. Mas quero muito mudar. Voltar a sorrir e caminhar. Quero viver com dignidade. Ser um sujeito digno. A vida precisa de mais dignidade.

Termino de enxugar o rosto. Saio de casa. Faz frio e a queda na temperatura foi brusca e repentina.

Volto a pensar no conforto proporcionado por minhas roupas macias e quentes. Egoísmo ou gratidão? O conforto conquistado. A vida precisa de mais dignidade, para todos que habitam esse mundo enlouquecido.

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Temporada triste de Helio Flanders

Hélio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Helio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Por Wilame Prado

Helio Flanders marcou 2015. Em um dos melhores trabalhos musicais lançados este ano no País, com o álbum “Uma Temporada Fora de Mim” ele apresenta pela primeira vez um trabalho solo, longe dos meninos e das meninas da boa banda cuiabana radicada em SP Vanguart.

Algumas vezes é preciso se desnudar para mostrar quem realmente é. Flanders parece estar completamente nu nas nove canções de “Uma Temporada Fora de Mim”. Sonoridade e letras do disco, intimista, permitem algumas revelações, dentre as quais pelo menos uma envolvendo o seu passado como frontman da banda de rock: a parte mais sensível e poética da Vanguart é mesmo gestada pelo jovem músico.

Flanders produziu o disco ao lado de Arthur de Faria (que também tocou piano na faixa “Cuyaba Tango”). No estúdio, mais que cantar tocou piano, trompete, violão e acordeon. E contou com o entrosamento de bons músicos: Bruno Serroni (violoncelo), Ignacio Varchausky (contrabaixo), Leo Mattos (bateria e percussão) e Martín Sued (bandoneon).

É importante destacar: no disco solo – sem uma música alegre sequer – ele demonstrou uma evolução sonora na voz. Em sua trajetória com a banda, ao longo dos anos ele se mostrou muitas vezes displicente, principalmente quando canta ao vivo.

Claro, há sim toda a licença poética e o lado cênico característico que o músico emplaca em suas apresentações, mas há que se ter mais zelo na cantoria, há que se deixar para trás a adolescência de um Vanguart que, nos becos alternativos, em idos de 2007, fez muita gente se esgoelar por aí cantando e gritando que acreditava no semáforo e no avião.

Alguns dizem que ele parece um bêbado desafinado cantando. Mas a verdade é que ele acaba exagerando nos falsetes, muitas vezes vexatórios.

Isso tudo parece fazer parte do passado.

Se ele viveu mesmo uma temporada em off, como cantado na faixa de abertura homônima ao disco, isso tudo fez muito bem. Exemplo disso é a canção “Dentro do Tempo que Eu Sou”, que talvez seja uma das coisas mais emocionantes para se escutar no Brasil neste 2015. Ao lado da ótima e tocante cantora Cida Moreira, Flanders ressuscita toda aquela tristeza necessária cantada por Antônio Marcos (das imperdíveis “Gaivotas” e “Como Vai Você”) no século passado.

Na faixa, os dois cantam sobre o desconforto de quem está sozinho nesta vida, mas com saudades de alguém. E então tudo fica deslocado. E, pela janela do automóvel, a gente olha para os lugares e sente nostalgia do que nem sequer viveu, parecendo já ter vivido ali.

Mas há esperança: se o velho lugar é ao lado dela ou dele, Flanders acertou num refrão de arrepiar: “Nada vai durar para sempre/eu tenho pressa em te ver/Nada vai durar pra sempre/Mas talvez eu e você/Ainda há tempo/Nós temos tempo”.

Em “Uma Temporada Fora de Mim”, tudo soa muito triste, mas amplamente acertado. É triste o piano em “Romeo” (composta por Thiago Pethit e Flanders), em letra cerebral, com um achado destes: “Baby, quando eu te vi eu não soube dizer/Se queria matar ou se queria meter.”

É triste também a milonga de “Cuyaba Tango”, com o choro do acordeon. E é triste, muito triste, a história que ele conta na canção “Um Grito”: um homem ouviu um grito de “amor!” em sua direção, mas depois percebeu que, ao lado dele, estava ali um outro rapaz, supostamente namorado da moça, situação que o fez lembrar do jeito que uma pessoa do passado o chamava.

No final da canção, o sufoco: “hoje a vida é olhar a janela e esperar”. Para quem se identificou com “Uma Temporada Fora de Mim”, a vida é sim olhar pela janela e esperar, mas pelo menos ouvindo Helio Flanders tocar e cantar.

*Texto publicado no caderno Cultura do Diário em 14 de outubro de 2015

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Elza Soares canta, até no fim do mundo

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Por Wilame Prado

Elza Soares foi ao fim do mundo e voltou com um de seus melhores trabalhos em seis décadas de carreira e quase oitenta de vida. “A Mulher do Fim do Mundo” é um grito rouco e sensual da voz feminina mais marcante da música brasileira ainda na ativa.

Pelo projeto Natura Musical, o disco novo de Elza é composto somente por músicas inéditas, todas compostas especialmente para a sua voz marcante. O seu 34º álbum foi idealizado e montado pelo produtor e baterista Guilherme Kastrup.

Ao lado dele, um time de primeira e que, cada um a seu modo, tem marcado a música contemporânea brasileira: Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (guitarra), Felipe Roseno (percussão), Celso Sim (direção artística) e Romulo Fróes (direção artística), nomes conhecidos na cena paulista.

“A Mulher do Fim do Mundo” tem onze faixas. É difícil defini-lo. Samba? MPB? Samba rock? A diversidade de gêneros chama a atenção. Pronta para o que der e vier, Elza vai de samba, rock, rap e eletrônico, no mínimo.

Ao lado da sua voz, que já é uma distorção perfeita por natureza, o trabalho conta com arranjos arrojados e ousados, com ruídos que nos lembram e muito também as marcas dos vários músicos envolvidos no projeto. É ouvir Elza e recordar de Passo Torto e principalmente dos “barulhos feios” que Fróes vem fazendo em sua meia dúzia de álbuns já lançados. A diferença é que essa beleza de música vem acompanhada do melhor brinde de todos: a voz forte daquela mulher.

É preciso sempre deixar Elza Soares cantar, deixá-la ir ao fim do mundo e soltar aquela rouquidão toda mais vezes. Os grandes artistas brasileiros envelhecem e muitos, infelizmente, vão sumindo, sumindo, resumindo-se, ao fim, em apenas uma citação no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Os meninos liderados por Kastrup não deixaram isso acontecer com Elza, que já não demonstra a mesma agilidade, por exemplo, em grandes entrevistas, como a concedida recentemente no Jô Soares. Ao contrário do que ocorre nos estúdios: bem assessorado e muito bem planejado, “A Mulher do Fim do Mundo” proporciona à cantora carioca a dignidade que ela sempre mereceu.

Graças a esse belo e tocante registro, ninguém cala mais Elza Soares. Ela pede e o Brasil atende: deixemos ela cantar, para sempre.

*Texto publicado no caderno Cultura no dia 20 de outubro de 2015

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