Retardatário

 

Por Wilame Prado

A vida real é sua maior aventura. Diz o slogan do Jeep Renegade. Carro que persigo há algum tempo. Pelas ruas, avenidas, rodovias. Até em outras cidades. Minha maior aventura já foi a vida real. É que preciso te encontrar. Falar o que senti. Tira, então, o pé do acelerador. Nem de perto consigo chegar. Você desliza pelo asfalto. Com seu Jeep preto. Com as suas coisas no banco de trás. Com a sua musiquinha no volume nem tão alto assim. Posso ver seus olhos diante do retrovisor. Lembrar, pelo menos. Sua beleza era tanta para comprar pão na padaria. Nunca pude entender suas manias. Até que tive ousadia. Disse que seria minha. Simples assim. Logo, aprendi que objetificava uma vida. Não há laço, vínculo ou relação. Com quem só quer correr na pista. Ir para frente. Esperar o sinal abrir. E sumir. Sua maior aventura foi o caminho que seguia. Nunca te alcancei. Um azarão da corrida. Ruim de volante. Medroso no velocímetro. E você corria, corria. Hoje não corre mais. Não se mexe mais. Não volta mais. Sigo lhe procurando. Perseguindo Jeeps Renegades pretos. Alucinado no autoengano. Entrando em confusão. Sendo chamado de ladrão. Pedindo perdão. Com a cara no chão. Nunca pude entender acidentes de trânsito. A violência. A vida num segundo. O choque. Ferragens retorcidas. Design terrorista. A mais bela aventura. Lançamento do ano. Modelo amassado. Airbags já acionados. ABS desperdiçado. E sangue no asfalto. Vida real. Você não é mais real. Nunca foi. Ia além. Mãos no volante. Pé no acelerador. Olhos no retrovisor. A mais bela das motoristas. Sigo a procurar este seu olhar. Mas sempre estou atrasado.

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