Mês: agosto 2017



Sonhei com o Chico Xavier

Por Wilame Prado

queria fazer literatura
pós-moderna
mas leio no meio&mensagem que
não existe cara foda no stories
com mais de 30
nunca soube mexer no Snap
há um choque de geração
nasci em 1985
uma menina do ano de 1995
já não liga mais a TV
como a gente
fica no escuro
deixando-se iluminar
pela tela do celular
pelo mundo na palma da mão
o passado parece mais
não valer um tostão
voltemos às cadeiras de balanço
alpendres frescos numa tarde outonal
e sonecas de duas horas após
o almoço
e ela atualiza
comunica
se trumbica
convivências assépticas
e distante dos
dramas existenciais
graças a Deus
sonhei com relógios
que precisam ter
os ponteiros alterados
e agora o tempo mudou
histórias que se apagam
em vinte e quatro horas
vídeos de quinze segundos
mais de duzentas visualizações
uma curiosidade
também sonhei com Chico Xavier
o que isso significa?
talvez apenas mais um vulto
do passado
invadindo o presente
só em sonho
passados não têm futuro
a menina de 1995
pouco tinha ouvido falar
de Chico Xavier.

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Astronauta americano

Por Wilame Prado

757 estão assistindo agora a live
do astronauta americano
filmando o Planeta Terra.
Tá no Youtube
Passo o link se quiser
Tem trilha sonora boa
Calma
Tipo o som do útero da mãe
Das baleias dos oceanos mais distantes
Cavernas nunca habitadas no Mediterrâneo
Pessoas compartilham opiniões no chat
Mandam good vibes para o homem que está só
E pedem informações do Espaço
Ou então dizem da onde são
Dizem hi, mandam emojis
Sorrisos, Mundo, Coração
O astronauta americano virou a câmera
E mostrou o seu lustroso capacete,
de astronauta
Uma bandeira norte-americana
Na manga da camisa
Droga: um anúncio invadiu a conexão
Universo dos gamers
Propaganda da Vivo
De internet rápida
Para simular a imensidão
Que é ser só num quarto
Brincando de interatividade
Com games que não medem
o tamanho da solidão
A live voltou
A música calma também
O astronauta americano
não está só
No Espaço
Agora, 696 pessoas estão assistindo
No chat, o Youtube pede
Wilame Prado diga alguma coisa
Prefiro não dizer (escrever) nada
Um novo anúncio invade a tela
Não existe almoço grátis
Thiago Leifert prometendo
que a Claro faz milagre na comunicação
pulei o anúncio, claro
para voltar a ficar olhando a branquidão
Tons azul embaixo das nuvens
Água céu mar
O nosso mundão
Equipamentos de uma nave sideral
Um astronauta fanfarrão
Só mais um americano que gosta de selfies
Só mais um representante da nossa geração
Passaria a vida olhando para o Planeta Terra
Para o homem que já não se assusta com a solidão
Mas e a gente, aqui na Terra?
Perdidos na multidão de sete bilhões de seres
Meio estranhos, com sorrisos amarelos,
Forçando amizades
E combatendo sempre a solidão
A gente alimentando stories no Instagram
Para provar que a vida é mesmo muito boa
Provar apenas para nós mesmos
Piscina, academia, gatos, corpos, shakes, músicas, baladas, bebidas, mulheres, cigarros, pornografia, celebridades, subcelebridades, pseudocelebridades, gente tentando virar celebridade, vida, movimento, viagem, cada canto do mundo, frio, calor, chuva, sol, lua, estrelas, beijos, gatos novamente, roupas, perfumes, eletrônicos, acessórios “recebidos”, todos querem aparecer, filhos, avós, trabalho, trânsito, Neymar em Paris, gols, golaços, boomerang, imagem em câmera lenta, layouts, filtros, aberrações, políticos, propaganda, propaganda, propaganda, e notícias, e propagandas disfarçadas de notícias, mortes, nascimentos, mais um copo de cerveja, café, hambúrgueres, uma mensagem para empreender, mulheres, mulheres, mulheres…
Tudo isso na telinha
Na bolinha da historieta
Tudo isso e tão pouco,
Somente uma tradução:
relação de humanos e aparelhos inumanos
Estamos sozinhos na multidão
Wifi não garante afagos
É apenas uma simples conexão
Com o Espaço e,
infelizmente,
com o vazio
da vida
Lá em cima,
o astronauta americano nunca mais ficou só
E preferiu
Nunca mais voltar.

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