Coluna Crônico



Estrela cadente

Por Wilame Prado

Na noite da última terça-feira, Osvaldo saiu de casa às duas horas da madrugada por causa de uma insônia que lhe estava proporcionando pensamentos muito ruins sobre a sua atual condição de vida: separado da mulher e sempre muito distante do filho, que, coincidentemente, passava alguns dias das férias em sua casa e dormia tranquilamente no quarto ao lado.

A pé, foi até o bosque bem próximo de sua casa e se sentou em um banco. Notou que, dali, era possível ter uma bela visão do céu, que, particularmente naquela noite, estava lindo, cheio de estrelas. De repente, viu uma estrela cadente riscando o horizonte. Entusiasmou-se, sentiu-se presenteado, fechou os olhos e fez um pedido.

Alguns segundos se passaram, mas Osvaldo permaneceu com os olhos fechados. Assustou-se quando ouviu uma voz feminina perguntando: “Moço, você está dormindo?”, disse Laura, jovem muito bonita que, com a sua máquina fotográfica, captava imagens da chuva de meteoros, vista naquela noite de qualquer localidade do País.

“Não, me desculpe. Vi uma estrela cadente, fiz um pedido e acabei me distraindo em pensamentos com os olhos fechados”, respondeu Osvaldo.

Os dois permaneceram sentados no banco do bosque por quase meia hora. Laura explicou para ele sobre a chuva de meteoros e as popularmente conhecidas estrelas cadentes. Comentou que, naquela noite em especial, estavam diante da chuva de meteoros Delta Aquarídeas, que propiciava a visibilidade dos detritos e poeiras deixados possivelmente pelo cometa 96P Machholz.

Ela fazia parte de um grupo de observação astronômica. E ele sofria de insônias.

Laura foi embora com a sua bicicleta, mochila e máquina fotográfica. “Será que havia uma luneta dentro daquela mochila?”, pensou Osvaldo, meio distraído, ao vê-la, tão bela, pedalar pelo bosque. Ela o achou interessante, um pouco mais velho que ela sim, mas um sujeito simpático, inteligente e que, em um rápido bate-papo, demonstrou que parecia ser um pai muito amoroso, um trabalhador esforçado. Mesmo assim, preferiu não convidá-lo para o grupo de observação astronômica, sentiu vergonha, talvez ele pensasse que fosse coisa de jovenzinhos com tempo para brincar de ver o céu.

Osvaldo levantou-se e se dirigiu tranquilamente para a casa. A partir daquele dia, Laura seria constantemente lembrada por ele com ternura, sempre associada à estrela cadente que viu cair e que lhe rendeu um pedido. Em casa, abriu devagar a porta do quarto do filho, beijou de leve a sua testa e sussurrou que ele continuasse dormindo com os anjos.

Já em sua cama, o motivo da insônia, agora, era outro. Não entendia por que não pediu, pelo menos, o telefone de Laura. Timidez? Enfim. Temia nunca mais vê-la nesta imensa cidade. E mesmo se a visse, o que diria? Teria coragem para puxar um papo ou apenas acenaria com a cabeça?

O dia começava a clarear e Osvaldo sabia que teria uma jornada difícil pela frente, já que não havia conseguido dormir nada naquela noite. Mas estava determinado a pelo menos tentar mudar de vida. Prometeu para ele mesmo que, se voltasse a encontrar Laura, revelaria para ela o pedido feito para a estrela cadente: uma mulher que botasse ordem na sua vida, que o fizesse parar de sofrer com as insônias e que gostasse de, junto dele, por o filho para dormir desejando “uma boa noite, dorme com os anjos” nos dias em que o garoto tivesse visitando o pai. (A coluna Crônico entra em férias a partir de hoje)

*Conto publicado nesta terça-feira (5) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Os não-torcedores do Neymar

Por Wilame Prado

Há cinco anos, após começar a brilhar com a camisa do time profissional do Santos em plenos 17 anos de idade, Neymar Jr é assunto recorrente da mídia. De lá para cá, o jogador conquistou uma legião de fãs e desafetos também. Os rivais da equipe santista são detentores de torcidas populosas. Muitos destes, em especial, alimentam uma raiva doentia pela camisa 10 da Seleção Brasileira, e as causas dos sintomas podem ser facilmente explicadas por duas frentes: pela simulação de faltas que o atleta insiste em desempenhar, mas principalmente pela ousadia e alegria – bordão que ele eternizou em tatuagens e nas chuteiras – que resultam nos mais belos gols, nas mais belas jogadas.

Discussão velha, no entanto. Neymar já nem é o 11 do Peixe, disputou uma temporada com o Barcelona e, desde 2013, é a grande estrela do futebol brasileiro porque, ao contrário de Messi com a Argentina, chamou rapidamente para si a responsabilidade com a camisa amarela, foi peça fundamental na conquista da Copa das Confederações e, até onde pôde ajudar na Copa do Mundo deste ano, desempenhou papel crucial para que exatamente hoje, logo mais às 17 horas, possamos estar grudados à telinha assistindo a uma semifinal de copa, coisa que não víamos desde 2002, quando vimos ainda mais, um Brasil sendo brilhantemente campeão mundial.

Pensando bem, discussão velha, mas nem tanto. Tive a oportunidade de ver alguns jogos recentes do Brasil com pessoas que dizem não gostar do Neymar. Os olhos destas pessoas, quando a bola está nos pés do craque, aumentam de tamanho, assustados. Suam frio, mais do que o próprio adversário, temendo o pior, que, para eles, parece ser mesmo o êxito da jogada, o gol, a mágica, o futebol-arte. Os não-torcedores do Neymar implicam demais com ele, foram, talvez, acometidos por uma espécie de trauma após verem seus times tanto sofrerem com os pés deste menino de só 22 anos. Quando dribla genialmente, eles dizem que Neymar é fominha. Quando faz um gol – e só na copa foram quatro – olham de lado, comemoram com menos entusiasmo e geralmente dão crédito para quem passou a bola para ele concluir com bola na rede.

Chega a ser engraçada essa birra que há com o melhor jogador que despontou no País após a aposentadoria precoce de Ronaldo Fenômeno. São tão birrentos os não-torcedores do Neymar que, com a contusão dele no jogo contra a Colômbia, alguns chegaram a dizer que a sua ausência seria menos sentida que a suspensão do ótimo zagueiro e capitão do Brasil, Thiago Silva. Aí eu pergunto: quem está à altura para substituir Neymar naquele banco de reservas? Dante, ou até mesmo Henrique, podem jogar bem lá atrás, com a força que terão do simplesmente melhor jogador da copa, chamado David Luiz. Mas e lá na frente? Quem é que vai chamar o jogo, conduzir a bola, desestruturar o adversário, cobrar escanteios com maestria, bater faltas perigosas ao gol e – com ou sem exageros, com ou sem simulações – sofrer as faltas e dar chances reais de gol para um time que tem aproveitado bem as bolas paradas nas partidas? Vamos torcer para William ou o próprio Bernard entrar bem no jogo de hoje contra a Alemanha. Podem sim, fazer ótimas partidas, jogar até melhor do que o Neymar e, assim como fez Amarildo em 1962, suprir a ausência de um camisa 10 do Brasil.

Eles, os não-torcedores do Neymar, continuarão buscando justificativas absurdas para provar que ele não é craque, que ele é fominha, que ele deveria ser ator ao lado da namorada, que deveria nem estar usando a 10, que deveria mesmo é estar como está agora, machucado (“Vai fingir tanta falta! Deus castiga”, dizem os mais bizarros não-torcedores) e vendo do lado de fora o espetáculo do futebol que o próprio ajudou a se concretizar.

São raivosos estes não-torcedores, enfim. Um deles, jornalista que escreve para o Portal R7, expressou publicamente em redes sociais a sua torcida (isso em 23 de junho) para que o Neymar se contundisse, quebrando o fêmur, de preferência. Mas para o desespero de todo eles, Neymar tem idade – e futebol – para jogar mais umas três copas do mundo. Isso se a mandinga e a não-torcida deixarem.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Manhã atípica

Por Wilame Prado

O velho varria a calçada pela manhã. A camisa branca do velho estava com todos os botões fechados, até em cima. Em frente à casa onde mora, ele varria meio que desesperadamente, mais apressado do que em outras manhãs corriqueiras.

Os homens iniciavam seu meio expediente a contragosto. Fazia um vento gelado. Era de manhã, era inverno. Mas quase ninguém estava de blusa. Tempo fechado. A construção precisava continuar. Portanto, eles martelavam, batiam, quebravam e não viam o tempo passar. Muitos demonstraram no semblante uma cara séria, um ar de preocupação e expectativa.

Um senhor de bermuda e camiseta de manga demonstrava, no peito, certo orgulho enquanto segurava a coleira do cachorro no passeio público. O dono pouco atentava, na verdade, à felicidade do cão em sua matinal escapada. Olhava para frente com um ar de esperança, e a espera pela conclusão das necessidades básicas de seu cão se tornou momento ideal para reflexões, cara de sonhador.

Na fila do supermercado, um rapaz concluiu que era uma manhã boa para pensar na Letícia, que há tanto tempo não via. Eram divertidas as manhãs ao lado dela, os dois se permitindo tomarem café preto e pão com ovo, queijo e tomate na padaria mais próxima, justamente em manhãs como aquelas. Mas pagou rapidamente o valor cobrado pela caixa e, como num passe de mágica, esqueceu-se completamente de Letícia.

Uma mãe descascava tranquilamente batatas na cozinha quando considerou aquela manhã como muito boa hora para ligar para a filha que mora em SP e que certamente estava prestes a ir num mercado ou numa feira. Ela nem se importou com as possibilidades de não encontrar a filha em casa. Ligou do mesmo jeito, mas não podia, naquela manhã, ficar pendurada por mais de trinta minutos ao telefone como de costume.

Manhã ideal, pensou Letícia, para abrir a janela do pequeno quarto, no quarto andar do prédio simples e popular, e ver um pouco a paisagem cinza, sentir um friozinho, uma vontade de beber chá e se lembrar de que, naquele momento – em vários momentos –, não há ninguém dentro daquele apartamento para lhe aquecer, para dividir uma bebida quente em manhãs frias como aquela, para simplesmente pedir que feche logo a janela, “está tão frio e você pode pegar um resfriado, menina”. Ao contrário do rapaz da fila do supermercado, nem passou por sua cabeça lembranças de manhãs como aquelas em que se permitiam ir a uma padaria mais próxima tomar café preto e comer pão com ovo, queijo e tomate.

Quem olhava para o velho varrendo inevitavelmente visualizava também enormes bandeiras penduradas na sacada do sobrado onde morava, sede para um bom e velho churrasco que começaria em instantes. Os homens da construção, um deles com boné verde e amarelo, não participariam da confraternização, mas por estarem trabalhando ao lado da casa do velho, daqui a pouco sentiriam cheiro de carne assada e teriam mais vontade ainda de voltar para casa após o fim do expediente. O homem do cachorrinho ostentava a 10 da Seleção Brasileira no peito no meio da rua, mas, dentro de alguns minutos, precisaria voltar para casa e iniciar os trabalhos com sal grosso e carne encomendada no açougue. O jovem da fila do supermercado aproveitava a promoção e comprava boa quantidade de cerveja em lata para abastecer o churrasco que começaria antes, seguiria durante e perduraria depois do jogo. A mãe que ligou para a filha descascava batatas justamente para a maionese que seria servida no churrasco do filho que tinha ido ao supermercado comprar cervejas.

Letícia, que mora na mesma cidade onde todos aqueles aproveitariam os embalos de uma copa do mundo para comemorarem com churrasco não sabem certamente o quê, se esqueceria, naquela manhã atípica de sábado, que era dia de jogo do Brasil. Ela ficaria espantada ao ouvir comemorações de vizinhos pelo primeiro gol da partida, de David Luiz, aos 18 minutos do primeiro tempo, momento em que pensou em até ligar a TV para finalmente começar a ver o jogo, optando, entretanto, por ficar debaixo das cobertas, no quarto, agora com a janela bem fechada.

*Crônica publicada terça-feira (1º) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O meu amigo Barba

Por Wilame Prado

Vi um cara parecido com o Barba. Será que o Barba entraria assim naquele bar? Será que ele paqueraria a moça bonita das pernas magrelas, sentada a quatro mesas, 23 cadeiras e aproximadamente três metros de distância de mim? Será que teria comemorado os dois gols do Neymar, um de Oscar, tacando cerveja pra cima, tal qual certamente fez o cidadão levemente alcoolizado, com camisa amarela falsa do Brasil, boné descaindo pelas orelhas, horroroso, na mesa 43, a mesma mesa que já pediu mais de doze vezes novas garrafas de cerveja, uma porção de batata frita com muito queijo e bacon jogados por cima e ainda algumas rosetas de sal e limão porque as duas moças gostam de misturar a bebida levemente salgada e azeda com goles generosos de bebida alcoólica enquanto não entendem muito bem porque houve tão rapidamente um gol contra do Marcelo, e também porque se deve colocar a bola na marca branca próxima ao gol quando alguém do Brasil cai na grande área?

Pego-me a imaginar o Barba dentro daquele bar que mais se parece uma jaula suja, lotada de animais que precisam de cerveja como uma espécie de água e comida vitais para as energias juvenis de gente que só quer ter a coragem de olhar por mais de três segundos para os olhos amendoados da menina que revela tristeza até mesmo quando sorri, ou então a ousadia de tecer comentários com começo, meio e fim para a roda de amigos, sempre com uma pitada de humor, sempre com uma pitada de sensualidade no ato de revelar os contos cotidianos da vida regados a mais mentiras ou superlativos do que a verdade propriamente dita.

Barba perceberia que a loira que chegou com o cara da corneta gosta mesmo é do amigo do cara da corneta – tamanho foi o beijo tascado no rosto desse amigo, beijo que quase chegou na boca do amigo, beijo que revela segredos, intimidades, vontades e desejos da loira acompanhada do cara da corneta? Estaria ele incomodado com tanto barulho, irritações, braços que se tocam, gente que se empurra, banheiros sujos, vômito, urina e fezes, calor e frio, carros que sobem a avenida, motocicletas que aceleram de propósito na avenida e que, pela execução de seus devidos motociclistas, produzem sons que se assemelham ao estourar de rojões (comemoremos, é o Brasil ganhando jogo de copa do mundo!)?

Gostaria de saber onde estava o Barba no exato momento em que, após uma abertura muito criticada e chata (valeu ver apenas o rebolado da Jennifer Lopez e a sua beleza que chega a nos agredir fisicamente), finalmente a bola começou a rolar numa das copas mais aguardadas de toda a minha vida. Estaria em Maringá, no Jardim Alvorada de Santa Fé, em Londres, Nova York, Pantanal ou mesmo lá dentro da Arena Corinthians, vaiando a Dilma ou torcendo para que aqueles rapidíssimos 90 minutos não se esgotassem jamais, tamanha é a festa, tamanha é a alegria representada pelo futebol, tamanha é a emoção de viver, estar vivo e ter alguns dinheiros a mais a ponto de poder sim, o próprio Barba, hoje estar vendo com os próprios olhos da cara, sem filtros, sem televisões, sem replays, sem a voz do Galvão Bueno, o primeiro jogo da seleção em plena Copa do Mundo Fifa – Brasil 2014.

Lembro-me da última vez em que vi o Barba. Ele estava daquele jeito de sempre, lento caminhar, olhar distante, mão no ombro da mãe, bengala na outra mão, dando passos nas calçadas daquela pequena cidade como forma de exercício fisioterápico para, a conta-gotas, ir recuperando os movimentos da perna, perdidos após um trágico e besta acidente de moto. Se não fosse uma imensa placa que o impediu de continuar acelerando a sua moto, e que, por pouco, não gerou uma tragédia ainda maior para toda a sua família, Barba poderia estar aqui neste bar, comemorando feito idiota, assim como eu, mais uma “vitória” da Seleção Brasileira. Poderia, quem sabe, até chutar um placar para o próximo jogo, para o próximo espetáculo de circo, para a próxima palhaçada, cujos atores em cima do palco estariam uns vestidos com o amarelo do Brasil e outros vestidos com o verde do México. Viva o futebol. Viva o bar. Viva a cerveja, a festa e viva as pessoas que podem usufruir disso tudo sem precisar escorar numa bengala e no ombro de uma forte e guerreira mãe, assim como o meu amigo Barba precisa.

*Crônica publicada nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Lição da juventude

Por Wilame Prado

Que pessoas saudáveis! Que gente bonita! Jovens e mais jovens. Peles claras – sem maltrato –, olhos que brilham. Moças com cabelos sedosos e lisos, extremamente lisos. Homens com cabeçorras, barbas por fazer, na moda, e uma pele que denuncia uma vida de infinitas horas de videogame no apartamento, que lazer, vida mansa, tudo na paz. Geração 2000.

Eles, esses jovens que invadem inevitavelmente o universo de minha visão mediada pelas lentes dos óculos contra miopia, já estão no boteco, já descobrindo os prazeres causados por alguns copos inocentes de cerveja, talvez um baseado e até algumas carreiras para mais tarde. Uma juventude bonita e equipada, alguns já com a posse de veículos, outros com caronas garantidas de volta para casa. Eles parecem se divertir à beça.

Daqui do boteco, vê-se gente pobre, classe média e gente rica. Não importa, a democracia chegou: todos têm Instagram e Whatsapp. A noite é singela. O bar, lotado. A luz do refletor ilumina de laranja um momento único, parecido com o pôr do sol. Mas ninguém percebe. A democracia é cega perante aos fatos poéticos da vida. Não há poesia dentro da tela de um celular. Eles estão na busca pelo selfie perfeito, na pose, sendo poser, todos têm amigos, afinal, e ainda bem, todos têm histórias para contar, todos são engraçados, e bonitos.

Quantas aventuras e peripécias ainda narrarão na mesa do bar? E como eles riem, como são brancos os dentes deles, como é ingênua a felicidade deles, mas eles estão certos, todos certos. Querem mais é extravasar. Mas, então, não me aguento. Chamo o garçom. Pergunto para ele, que parece ter vivido um pouco mais de anos de vida – assim como eu, um, naquele local, velho de 42 anos esperando um pouco do passar de vida na mesa do bar –, e faço a seguinte indagação: “É ou não é tudo isso muito engraçado?”

Sorriso amarelo, ele pergunta se vou querer outra beer. Digo que sim, e digo mais, digo que quero todas as cervejas do estoque dele, e todas as cervejas que ainda restam em cada uma daquelas mesas vermelhas do bar que recebe, gratuitamente, a atmosfera da lua e o ar fresco que deve chegar com a força do vento marítimo, eu sei lá. Finalmente admito a brincadeira, e o garçom sai de perto de mim, sério e espantado. Tenho certeza de algumas coisas: ninguém daquele boteco percebeu a lua mais bonita dos últimos dias e o vento mais refrescante da última estação que se faziam presentes naquele local. Era espetacular, e aquela sensação, uma espécie de beira-mar em pleno bar numa cidade onde jamais existiu praia, também nunca foi registrada em rede social alguma.

Então eu me levanto. Rio comigo mesmo. Soa sarcástico, mas está tudo bem, ninguém percebe a presença do tio ali, pensava eu, transformei-me num ser invisível, o que pode ser bom, dependendo da situação. Só que, inesperadamente, um rapaz muito forte e jovem – daqueles que se aproveitam das tardes amenas para malhar, tomar suplementos e treinar lutas marciais – andou a passos largos e rápidos em minha direção. Parecia furioso, e olhou poucos segundos bem no fundo dos meus olhos. Sem reação alguma, apenas senti uma ardência em meu rosto e um medo muito grande de ficar cego por conta das lentes dos óculos estraçalhadas e engalfinhadas por toda a minha face. Devo ter levado uns sete ou nove socos até ter dado o tempo de garçons e jovenzinhos ao redor conseguirem segurar aquele brutamontes enraivecido.

Ainda ao chão, roupa empoeirada, cara lavada de sangue, uns 30% da visão não comprometida pelas lágrimas, sangue, suor e lente em cacos, finalmente pude encarar o cidadão que se viu no direito de me espancar em praça pública, tal qual o escravo no tronco aguardando a ardência do açoite. E então finalmente entendi o acontecido: ele, sentindo-se um representante desta juventude bonita e de cabelo liso, deve ter percebido tudo. Ao contrário do garçom, o fortinho notou que eu denunciava toda aquela comédia que é a vida em cena, em falsete, naquele boteco carregado de jovens com pele sem maltrato, cheios de dentes brancos e prontos para o manuseio correto de smartphones. Quis ele, o moço da academia e das lutas, fazer justiça com as próprias mãos.

Não pude conter o riso, mesmo com as dores, mesmo com toda aquela aparente humilhação, que, estranhamente, não sentia. Só que quando ele me viu sorrindo novamente, óculos destruído ao chão, garçom dando guardanapo para limpar sangue da boca e do nariz, aí, meu amigo, ninguém conseguiu segurar a fúria desta juventude bem alimentada, principalmente pelos suplementos vendidos na academia. Foi soco e pontapés para todo lado. Acordei na Santa Casa, na manhã do dia seguinte, rodeado por alguns familiares, aparentemente assustados.

*Conto publicado terça-feira (3) na Coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Dinheiro não compra a metafísica do futebol

Por Wilame Prado

Futebol tem dessas coisas. E é por isso que é mágico. É por isso que deve ser respeitado, goste-se ou não do esporte bretão responsável pela emoção de milhões de torcedores pelo mundo afora, e duelado, em média, duas vezes por semana, ou, como diz o técnico Muricy Ramalho, jogado quarta e domingo quarta e domingo quarta e domingo.

O Figueirense é um horrível time, um “catado” de Santa Catarina e que fatalmente cairá para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro no final deste 2014. Sei disso. Sei da ausência de qualidade do time catarinense. Vi, com meus próprios olhos, Figueirense 0 x 2 Santos domingo retrasado, em jogo disputado no péssimo gramado do Estádio do Café, em Londrina. Admitamos, pois: o Peixe está devendo futebol desde que perdeu o estadual para o Ituano, mas perder para o fraquíssimo Figueira, aí seria demais.

O time de Florianópolis colecionava quatro derrotas e zero gol, em quatro jogos, quando chegou, anteontem, à monumental Arena Corinthians para enfrentar o dono do estádio Padrão Fifa em jogo válido pela quinta rodada do nacional. Os barriga-verdes foram para não perder de W.O. Foram para cumprir tabela. Foram para evitar, ao menos, um vexame maior. E saíram vitoriosos. Um a zero para o azarão. E fim de papo, ficou para história: lembraremos para sempre que, na inauguração do estádio de abertura da Copa do Mundo Fifa 2014, plantado graças a muita grana vinda nem sei de onde na zona leste de São Paulo-SP, o Corinthians perdeu.

Mas, que loucura: era derrota na certa para o Figueira. Por lá, o primeiro jogo de um time que, por mais de 100 anos, esperou para ter um estádio. Mas futebol tem dessas coisas, como sabemos. No mundo futebolístico, não há cavalo premiado para apostar. Não tem bilhete marcado, salvo exceções, quando resolvem comprar os juízes ou quando um time se presta a perder de propósito só para azucrinar rivais. Caso contrário – talvez tirando também aquele desastroso e arranjado França 3 x 0 Brasil na final da Copa do Mundo de 1998 –, futebol é imprevisível, é mágico e nos atiça a dizer o famoso slogan do cartão de crédito: “Existem coisas que o dinheiro não compra”.

Dinheiro não paga uma vitória e os gols de uma partida bem jogada. Dinheiro não paga o toque metafísico que há em diversas disputas entre as quatro linhas do gramado, quando Davi vence Golias, quando o mais fraco surpreende o mais forte, quando um jogador retorna de lesão, chega a sonhar com o tento da vitória e sacramenta o êxito para o seu time marcando um gol em chute cruzado nas redes de Cássio, no começo do segundo tempo. Estamos falando de Giovanni Augusto, o “craque da camisa número 10” do alvinegro catarinense, e que merecia uma placa. E, ainda que, com a arrecadação recorde no jogo graças aos 36.694 pagantes e o rendimento de R$ 3.029.801,70, dinheiro não paga o Figueirense vencendo o Corinthians em plena inauguração de seu estádio, após angustiante espera de 104 anos de um time por uma casa própria.

Mas, fora tudo isso, no fim das contas, passada a euforia envolvendo o jogo atípico, todos sabemos que muitas vitórias corintianas acontecerão naquele belo estádio e que, mais do que no Pacaembu, aquele bando de loucos gritará mais forte que nunca e continuará estimulando os jogadores a buscarem a vitória, custe o que custar. E como bem conheço tantos amigos corintianos, tenho certeza de que a derrota na inauguração da Arena Corinthians, no fundo, já era aguardada. Afinal, confessam-se sempre como sendo os maiores sofredores do futebol planetário.

*Crônica publicada terça-feira (20) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Pesos do passado

Por Wilame Prado

Mais da metade do Brasil está acima do peso. Maringá também, segundo pesquisa realizada pela JGV em parceria com o Diário sobre o famoso Índice de Massa Corpórea (IMC). Na pesquisa, 54,2% dos entrevistados maringaenses apresentam sobrepeso ou obesidade. Eu estou acima do peso. Por baixo, uns sete quilos que precisam sumir de minha existência física para que eu não seja mais enquadrado como alguém pesado em excesso. Hora, então, de falar sobre o meu pai.

Era ele quem dizia que eu precisava comer mais, quando criança, para deixar de ser esquelético. Quando ele morreu, há sete anos, eu ainda era magro. O oposto de agora. Certamente, se tivesse medido meu IMC em 2007, o índice seria de magreza ou má-nutrição. Eu era um ser humano com a mesma altura, só que com 20 quilos a menos. Muitos desafios diários envolvendo estágio, faculdade, transporte coletivo e caminhadas. Não havia moto, não havia carro, não havia casamento e, sobretudo, não havia sequer dinheiro para almoçar direito.

Meu pai era gordo. Tinha as pernas finas e uma barriga enorme. Quando a vida ficou bem mais difícil para ele, emagreceu bastante. Mas a barriga nunca sumiu completamente. É estranho pensar sobre a imagem de um pai. Acho que sempre veremos nossos pais como fôssemos crianças e eles uns adultos enormes, cheios de razão, cheios de direitos para com você. Gigantescos. Mas como se apequenam os velhos pais deitados numa cama de hospital… a imagem das mais difíceis para um filho ver.

Ayrton Senna era magrinho. Pudemos ver diversas imagens dele nesses últimos dias. Chorei com rúculas (não estou de regime) na boca enquanto almoçava e assistia, ao mesmo tempo, imagens de um documentário sobre o piloto de Fórmula 1 que nos deixou há 20 anos. Senna parecia ser uma pessoa um tanto especial. Parecia ter urgência de viver, parecia saber que era um missionário e que a sua missão teria um prazo curto de validade. Ele morreu aos 34 anos sem deixar filhos, mas deixando inúmeros fãs e um enorme legado.

Em 1º de maio de 1994, com 8 anos de idade, dei uma dica para a minha família do que seria quando crescesse: jornalista. Sabia o quanto meu pai gostava do Ayrton Senna, e a minha grande missão naquele dia, pelo menos em minha cabeça, seria dar a notícia em primeira mão para ele. Ficaria contente, independentemente da morte do ídolo, quando revelasse a trágica notícia para o meu pai. Corri, então, rapidamente, as quadras que separavam minha casa da de um amigo, local onde havia ficado sabendo do desastre envolvendo o piloto. E, como sempre, meu pai não estava em casa. Nem me lembro do que aconteceu depois, se realmente cheguei a dar a notícia da morte do Ayrton Senna para alguém.

O tempo passou. O tempo passa bem rápido. E, tirando os pesos que costumam se acumular em nosso corpo, as coisas tendem a desaparecer. Os amigos, os ídolos e os nossos pais costumam ir embora, muitos deles para sempre. Há 20 anos, Senna morreu. Há sete anos, meu pai morreu, também em 1º de maio. As lágrimas, no final das contas, sempre cairão no prato de rúcula, assistindo a um documentário ou sentindo a ausência do pai, estando ele vivo ou não. Só que este ano fiz diferente, ou pelo menos quis pensar diferente: sete é um número forte, sete anos é tempo demais, e a data pode pressagiar (tudo depende do seu próprio pensar) novos tempos.

Inicio, então, as despedidas das sombras. A morte do pai fica no passado (essa história que escrevemos todos os dias, para nós mesmos), opto apenas pela vida dele, pela lembrança boa, pela saudade gostosa. Assim, quem sabe, consiga até me reencontrar com as vitórias seguindo os exemplos de determinação e força do nosso querido Ayrton Senna. A primeira batalha? Contra a balança.

*Crônica publicada nesta terça-feira (7) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Gabo faz falta, ou a câimbra na alma de Esteban

Por Wilame Prado

Um dia, nos livros de história, falarão do nosso tempo e da insistência que os habitantes do Velho Mundo tiveram em tentar nos rebaixar, nós, os latino-americanos. Assim como hoje tendemos a ficar chocados com a escravidão ou com as coisas da Idade Média, por exemplo, os habitantes do futuro, até mesmo os que moram na Europa (que talvez nem seja mais a Europa), sentirão asco do preconceito que insistiu em existir na Terra por muito tempo, inclusive no século 21.

O espetáculo do futebol é o espelho da vida real. Daniel Alves, lateral-direito do Barcelona e da Seleção Brasileira, comeu a banana que jogaram no picadeiro do gramado verde e contribuiu para que o mundo todo discutisse as formas de racismo. Atendeu a Cristo, que diz para darmos também o lado esquerdo da face para bater, mas dotado de ironia fina: em vez de se abalar com o ato de racismo, comeu, agradecido, a banana, fruto que tem potássio e com isso combate as tão comuns câimbras no esporte bretão.

Só por causa daquele pedacinho de fruta saborosa e madura, o brasileiro nascido na Bahia conseguiu, sem sentir câimbras, um cruzamento dentro da área que resultou no gol contra de Musacchio. Final da partida: Villarreal 2 x 3 Barcelona (com, veja só, dois gols contra do time que tem torcida racista e uma banana que se tornou símbolo de protesto no mundo todo).

Alimento saboroso, banana engorda e faz crescer, conforme cantou Raul Seixas. Com mel e aveia é uma delícia. Batida com leite, as bananas resultam em boa vitamina. Pseudobaga da bananeira, ou seja, uma pseudofruta, a banana é uma planta herbácea da família Musaceae que é produzida em 130 países.

A Espanha produz banana? Não importa se era ou não importada a banana tacada em Daniel Alves. Pesquiso, então, um nome comum no país da Península Ibérica. Esteban é meu personagem. Esteban sai de sua casa na cidade de Villarreal, Província de Castellón, e leva consigo uma banana madura. Não a come. Não se nutre. Tem apenas o plano maligno e “genial”, conforme confessa para os amigos, de arremessá-la no gramado justamente quando Daniel Alves fosse cobrar um escanteio.

“Por que fez isso Esteban?”, pergunta o mundo, pergunta a consciência do próprio. Após ter alimentado o adversário com o rico fruto, Esteban volta para o lar cabisbaixo, triste com a derrota do time fazedor de gols contra e com medo de ter sido flagrado pelas câmeras no momento em que tacava a banana, talvez sorrindo de seu ato boçal e rapidamente sentindo todos os dentes podres se amarelarem ao se surpreender com a comilança do nosso Daniel Alves apreciador de bananas. Certamente Esteban teve câimbras terríveis já deitado na cama, em meio a pesadelos em que morria afogado em tonéis gigantescos onde se preparava um saboroso doce de banana.

Esteban, aliás, não leu “Cem Anos de Solidão”, clássico livro do nosso querido e agora saudoso escritor colombiano Gabriel García Márquez – porta-voz da América Latina e detentor de alta obra literária que cala qualquer escritorzinho catalão de meia tigela. No romance que apresenta a saga da família Buendía na mítica Macondo, publicado originalmente em 1967 e que já vendeu mais de 30 milhões de exemplares, a Companhia Bananeira é metáfora da América Latina exportadora de matéria-prima no sistema capitalista.

Exportamos sim bananas e jogadores para o espanhol e o mundo todo comer e ver. E só recebemos em troca ofensas por meio de gestos que traduzem fatos alarmantes: bons índices educacionais não significa dizer que os europeus são educados e a falta de bondade no coração para com o próximo – independentemente de raça, país, cor ou fruta preferida – continua sendo um desafio a ser encarado pela maioria dos seres humanos. García Márquez já está fazendo falta.
*Na tarde de ontem, o Villarreal informou que identificou o torcedor atirador de banana e decidiu retirar seu carnê de sócio, além de proibir seu acesso ao estádio El Madrigal pelo resto da vida.

*Crônica publicada nesta terça-feira (29) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Maringá FC, um time de respeito

Por Wilame Prado

Mesmo com a derrota no jogo dramático do último domingo no Estádio Regional Willie Davids para o Londrina Esporte Clube, afirmo sem medo de errar que o Maringá Futebol Clube é também um campeão. Não leva o caneco, mas merece os parabéns pelo jogo jogado tanto dentro das quatro linhas como fora – uma bela campanha de um time que, em pouco tempo, pulou da terceira para a primeira divisão do estadual, perdendo poucas partidas neste período, desempenhando um futebol elogiável e que se estende nestes quatro anos de fundação do clube.

Dito isto, revelo: fiz uma promessa para mim mesmo na noite do último sábado, vendo uma garoa fina molhar o chão do pátio aqui do jornal, pensando na grande final do Paranaense, que só escreveria esta crônica em caso de derrota do Maringá FC. Fui, durante pouco mais de um mês, assessor de imprensa do time e, em caso de título, evitaria escrever para que não pensassem que estivesse eu me incluindo – justo nos festejos – como parte integrante daquela que foi, e continua sendo, uma verdadeira família capitaneada pelos irmãos Regini (Zebrão e João Batista), gerenciada pelo diretor de futebol, Paulinho Regini, e orquestrada pelo técnico Claudemir Sturion.

Durante o pouco tempo em que convivi com funcionários, comissão técnica e elenco do Maringá FC, percebi o tamanho da pressão que envolve aqueles que trabalham com algo intimamente relacionado à paixão das pessoas. É bem mais fácil torcer do que trabalhar com o futebol. Corre nos sangue dos maringaenses o esporte bretão. Homem, mulher, criança. Não importa o nome do clube nem as cores do brasão: o que importa, para a maioria dos moradores desta cidade, é o melão rolando no gramado verde do Willie Davids.

Por tudo isso e muito mais, sinto uma vontade danada de parabenizar o pessoal lá do time, a começar pelo roupeiro Eli Lima, lenda viva do futebol maringaense desde os anos 1970, até o boa gente João Regini, presidente que está sempre escalado para a pelada descontraída nas manhãs de sábado junto ao plantel, no CT Vale da Zebra, e que não se importa nem mesmo de ajudar um assessor sem jeito a pregar no alambrado do estádio um painel, com a logo do time e patrocinadores, servindo de fundo nas entrevistas para a TV.

Essa campanha do Maringá FC, que resultou num vice-campeonato com sabor de título – o time demonstrou uma evolução impressionante até chegar às finais e, afora as penalidades, jogou melhor no Estádio do Café e também em casa –, ficará guardada em minha memória em relances de quando trabalhei para o time, em especial os momentos em que fiquei na beira do gramado do Willie Davids. Momentos de bastidores que, talvez, digam mais do que as arrancadas de Reginaldo, os lançamentos de Léo Maringá, os dribles de Max, o oportunismo de Gabriel Barcos, os gols de Cristiano, a raça de Zé Leandro, as defesas de Ney e depois de Ednaldo, a seriedade de Fabiano na zaga e tanta entrega dos demais do elenco.

Nas entrelinhas da assessoria para o Maringá FC, entre uma anotação e outra no caderninho, entre uma informação e outra repassada para os colegas de imprensa, entre um pedido e outro de declarações para jogadores, comissão e diretoria, entre uma crítica e outra de jornalistas querendo água, querendo lanche, querendo entrevistas, querendo informações exclusivas, querendo tudo (!), certamente o que mais me marcou foi o término das partidas, momento em que, exaustos, todos os envolvidos nessa guerra benigna que é o futebol, saíam pelos fundos do velho Willie Davids e iam embora para o descanso merecido. Uns, rodeados por filhos em festa e mulher carinhosa. Outros, solitários, rumando ao alojamento onde provavelmente sentiriam saudades da família que ficou longe. Outros, ainda, acelerando seus automóveis para passarem pelo menos um dia ao lado daqueles que o amam e que ficaram em casa. Todos, sem exceção, humildes, determinados e felizes por fazerem aquilo que mais gostam nesta vida, que é viver em função do futebol e que foi (pelo menos até então) ter vivido pela honra e glória do Maringá FC, um time de respeito.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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