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Vinte minutos, uma vida

Por Wilame Prado

O escritor paulista Daniel Galera contribuiu satisfatoriamente com a história recente do Brasil no romance “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 34,90). Como poucos na literatura contemporânea, explorou o contexto online brasileiro, do advento da internet em 1995 até janeiro de 2014, tempo vivido pelos personagens do livro, a partir do assassinato de Andrei Dukelsky, conhecido por Duque.

Na trama, Duque fora um dos criadores do fanzine digital Orangotango (inspirado no verídico Cardosonline, o qual Galera fez parte), vindo a se tornar realmente escritor. Aurora, Emiliano e Antero – amigos dele, também colaboradores do fanzine nos idos de 1999 – são os narradores em primeira pessoa de “Meia-Noite e Vinte”, todos abismados com a morte banal daquele que prometia ser um dos grandes escritores brasileiros.

Em cada capítulo, uma voz diferente. Primeiro, Aurora: doutoranda em Biologia que conheceu o pessoal do fanzine quando fazia Jornalismo e que, principalmente após a morte de Duque e após uma negativa numa apresentação acadêmica, se vê inserida na espiral do pessimismo dos tempos de agora, a qual lhe faz pensar no fim do mundo. Depois, Emiliano, jornalista freelancer mais velho, gay e que está incumbido de escrever uma biografia do amigo escritor morto. Por fim, Antero, um exótico inteligente da área de Humanas que, mais velho, casado e com filho, acaba ficando rico com o passar dos anos após fazer sucesso com a sua agência de publicidade.

Daniel Galera consegue convencer ao propor três modos diferentes de contar uma história cheia de pontos em comum, sempre direcionada à vida e obra de Duque. O contexto do romance se destaca mais que a história principal: a de três amigos que se reencontram numa Porto Alegre real e terrível – verão escabroso, fedida e cheia de greves – para um velório.

“Meia-Noite e Vinte” não é sobre amizade, porém: é sobre internet, hábitos de uma geração que começou com o ICQ e chegou ao WhatsApp e aos chats pornográficos, os perigos da literatura em meio ao que é banal e principalmente sobre o tempo que escorre das mãos, todos ficando velhos e cansados, mas ainda tão próximos e nostálgicos da época da juventude, da virada do milênio, anos 2000.

A história se aproxima do leitor porque, arrisco dizer, o leitor de Galera viveu boa parte daquilo narrado por Aurora, Emiliano e Antero. Ler “Meia-Noite e Vinte” é como ler a sua própria história recente, sentindo saudosismo e ao mesmo tempo refletindo amargamente o quanto tudo parece estar cada vez pior – ainda que com as facilidades flagrantes de uma vida pós-moderna que se esgota quase que inteiramente olhando para uma tela de smartphone.

É como se tivéssemos perdido a noção do tempo e, também, a queima de fogos tradicional da virada de ano, na meia-noite. Passaram-se vinte minutos, uma vida se passou.

ESTANTE
MEIA-NOITE E VINTE
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço sugerido: R$ 34,90

*Resenha publicada no caderno Cultura do Diário em 24 de fevereiro de 2017

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Os sertões de ‘Outros Cantos’

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Por Wilame Prado

A escritora santista radicada em João Pessoa Maria Valéria Rezende, 73 anos, demonstra domínio da linguagem e um olhar diferenciado para com os excluídos do sertão brasileiro no livro “Outros Cantos” (Alfaguara, 152 páginas, R$ 29,90). A publicação se deu graças ao patrocínio da Petrobras Cultural.

Ela, que, além de escritora é também freira, volta a publicar após ter vencido, ano passado, o Prêmio Jabuti na categoria Romance e Melhor Livro de Ficção do Ano com “Quarenta Dias”.

Em “Outros Cantos”, a personagem Maria – deflagradamente inspirada na vida da própria autora – está dentro de um ônibus leito retornando à cidade fictícia de Olho d´Água, no Nordeste brasileiro.

Junto dela, nada além de reminiscências que transportam a história para décadas atrás, quando a personagem foi para o sertão graças ao programa Mobral disposta a auxiliar na alfabetização de um povo que não tinha quase nada, especialmente educação formal.

O relato se dá única e exclusivamente pelo olhar de Maria, ora no presente – com o sacolejar de um ônibus velho e percebendo que o sertão dos tempos de agora mudou radicalmente, como percebido no trecho instigante do livro: “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. Fecho os olhos e minha memória recupera e estiliza a beleza despojada daquele meu outro sertão. Desde quando, sem que eu me desse conta, as casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d ´Água?”; ora no passado, descrevendo as suas lembranças que permitem ao leitor imaginar o cotidiano de pessoas simples, que viviam em uma intensa luta de sobrevivência – para comer, beber água e em meio às rezas e festejos para santos pedindo chuva para plantar e colher.

Ela permite que o leitor só aos poucos consiga construir em seu imaginário quem realmente é Maria. Uma simples e jovem professora idealista e disposta a mudar o mundo com suas próprias mãos? Não somente. Há também as lembranças das andanças da personagem pelo mundo, na Argélia e no México, por exemplo, conhecendo povos, costumes e outros tipos de sertões.

E há ainda no romance uma curiosa característica da protagonista: sonhadora em seus pensamentos, ela no fundo busca sempre um olhar perdido de um homem que cruza com ela em diferentes momentos da história. Sempre atenta ao olhar deste ser masculino, ela enxerga os olhos dele em vários lugares, em várias situações. No fim, ao levar em consideração também a própria história de vida da autora, abre-se uma margem para se pensar que, talvez, aquele olhar é a figura de uma entidade protetora para Maria, onde quer que ela esteja, talvez os olhos de Deus.

“Outros Cantos”, conclui-se, é maduro, de uma autora madura e esclarecida quanto à estilística textual, ortografia e gênero. Maria Valéria Rezende emociona, denuncia e propõe reflexões acerca de uma região brasileira, a vibração de gente que ainda sonha com o poder transformador do ensino e também de um período histórico: mais para o fim da trama, percebe-se claramente algo que a autora quer mesmo eternizar com a proposta literária, que é uma relação histórica com os rompantes vividos em meio à ditadura militar no País e movimentos importantes na luta contra a opressão, isso em regiões praticamente esquecidas pela grande mídia, cinema, História e afins.

OutrosCantos_570OUTROS CANTOS
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
Número de páginas: 152
Preço sugerido: R$ 29,90
Avaliação: ótimo

*Comentário publicado quarta-feira (11) no caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Temporada triste de Helio Flanders

Hélio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Helio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Por Wilame Prado

Helio Flanders marcou 2015. Em um dos melhores trabalhos musicais lançados este ano no País, com o álbum “Uma Temporada Fora de Mim” ele apresenta pela primeira vez um trabalho solo, longe dos meninos e das meninas da boa banda cuiabana radicada em SP Vanguart.

Algumas vezes é preciso se desnudar para mostrar quem realmente é. Flanders parece estar completamente nu nas nove canções de “Uma Temporada Fora de Mim”. Sonoridade e letras do disco, intimista, permitem algumas revelações, dentre as quais pelo menos uma envolvendo o seu passado como frontman da banda de rock: a parte mais sensível e poética da Vanguart é mesmo gestada pelo jovem músico.

Flanders produziu o disco ao lado de Arthur de Faria (que também tocou piano na faixa “Cuyaba Tango”). No estúdio, mais que cantar tocou piano, trompete, violão e acordeon. E contou com o entrosamento de bons músicos: Bruno Serroni (violoncelo), Ignacio Varchausky (contrabaixo), Leo Mattos (bateria e percussão) e Martín Sued (bandoneon).

É importante destacar: no disco solo – sem uma música alegre sequer – ele demonstrou uma evolução sonora na voz. Em sua trajetória com a banda, ao longo dos anos ele se mostrou muitas vezes displicente, principalmente quando canta ao vivo.

Claro, há sim toda a licença poética e o lado cênico característico que o músico emplaca em suas apresentações, mas há que se ter mais zelo na cantoria, há que se deixar para trás a adolescência de um Vanguart que, nos becos alternativos, em idos de 2007, fez muita gente se esgoelar por aí cantando e gritando que acreditava no semáforo e no avião.

Alguns dizem que ele parece um bêbado desafinado cantando. Mas a verdade é que ele acaba exagerando nos falsetes, muitas vezes vexatórios.

Isso tudo parece fazer parte do passado.

Se ele viveu mesmo uma temporada em off, como cantado na faixa de abertura homônima ao disco, isso tudo fez muito bem. Exemplo disso é a canção “Dentro do Tempo que Eu Sou”, que talvez seja uma das coisas mais emocionantes para se escutar no Brasil neste 2015. Ao lado da ótima e tocante cantora Cida Moreira, Flanders ressuscita toda aquela tristeza necessária cantada por Antônio Marcos (das imperdíveis “Gaivotas” e “Como Vai Você”) no século passado.

Na faixa, os dois cantam sobre o desconforto de quem está sozinho nesta vida, mas com saudades de alguém. E então tudo fica deslocado. E, pela janela do automóvel, a gente olha para os lugares e sente nostalgia do que nem sequer viveu, parecendo já ter vivido ali.

Mas há esperança: se o velho lugar é ao lado dela ou dele, Flanders acertou num refrão de arrepiar: “Nada vai durar para sempre/eu tenho pressa em te ver/Nada vai durar pra sempre/Mas talvez eu e você/Ainda há tempo/Nós temos tempo”.

Em “Uma Temporada Fora de Mim”, tudo soa muito triste, mas amplamente acertado. É triste o piano em “Romeo” (composta por Thiago Pethit e Flanders), em letra cerebral, com um achado destes: “Baby, quando eu te vi eu não soube dizer/Se queria matar ou se queria meter.”

É triste também a milonga de “Cuyaba Tango”, com o choro do acordeon. E é triste, muito triste, a história que ele conta na canção “Um Grito”: um homem ouviu um grito de “amor!” em sua direção, mas depois percebeu que, ao lado dele, estava ali um outro rapaz, supostamente namorado da moça, situação que o fez lembrar do jeito que uma pessoa do passado o chamava.

No final da canção, o sufoco: “hoje a vida é olhar a janela e esperar”. Para quem se identificou com “Uma Temporada Fora de Mim”, a vida é sim olhar pela janela e esperar, mas pelo menos ouvindo Helio Flanders tocar e cantar.

*Texto publicado no caderno Cultura do Diário em 14 de outubro de 2015

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Elza Soares canta, até no fim do mundo

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Por Wilame Prado

Elza Soares foi ao fim do mundo e voltou com um de seus melhores trabalhos em seis décadas de carreira e quase oitenta de vida. “A Mulher do Fim do Mundo” é um grito rouco e sensual da voz feminina mais marcante da música brasileira ainda na ativa.

Pelo projeto Natura Musical, o disco novo de Elza é composto somente por músicas inéditas, todas compostas especialmente para a sua voz marcante. O seu 34º álbum foi idealizado e montado pelo produtor e baterista Guilherme Kastrup.

Ao lado dele, um time de primeira e que, cada um a seu modo, tem marcado a música contemporânea brasileira: Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (guitarra), Felipe Roseno (percussão), Celso Sim (direção artística) e Romulo Fróes (direção artística), nomes conhecidos na cena paulista.

“A Mulher do Fim do Mundo” tem onze faixas. É difícil defini-lo. Samba? MPB? Samba rock? A diversidade de gêneros chama a atenção. Pronta para o que der e vier, Elza vai de samba, rock, rap e eletrônico, no mínimo.

Ao lado da sua voz, que já é uma distorção perfeita por natureza, o trabalho conta com arranjos arrojados e ousados, com ruídos que nos lembram e muito também as marcas dos vários músicos envolvidos no projeto. É ouvir Elza e recordar de Passo Torto e principalmente dos “barulhos feios” que Fróes vem fazendo em sua meia dúzia de álbuns já lançados. A diferença é que essa beleza de música vem acompanhada do melhor brinde de todos: a voz forte daquela mulher.

É preciso sempre deixar Elza Soares cantar, deixá-la ir ao fim do mundo e soltar aquela rouquidão toda mais vezes. Os grandes artistas brasileiros envelhecem e muitos, infelizmente, vão sumindo, sumindo, resumindo-se, ao fim, em apenas uma citação no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Os meninos liderados por Kastrup não deixaram isso acontecer com Elza, que já não demonstra a mesma agilidade, por exemplo, em grandes entrevistas, como a concedida recentemente no Jô Soares. Ao contrário do que ocorre nos estúdios: bem assessorado e muito bem planejado, “A Mulher do Fim do Mundo” proporciona à cantora carioca a dignidade que ela sempre mereceu.

Graças a esse belo e tocante registro, ninguém cala mais Elza Soares. Ela pede e o Brasil atende: deixemos ela cantar, para sempre.

*Texto publicado no caderno Cultura no dia 20 de outubro de 2015

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Sobre amor, ‘Love’ se perde no sexo

Cena de "Love" com os atores

Cena de “Love” com os atores Karl Glusman e Aomi Muyock

Por Wilame Prado

Mesmo presente no cotidiano da maioria das pessoas, o sexo ainda é tabu. O sexo no cinema também é tabu. Quando um diretor de renome resolve apostar num filme com cenas de sexos explícitos, e principalmente com nu frontal masculino, causa desconforto em muita gente que ainda não consegue encarar o sexo como tema intrínseco à vida dos seres humanos.

“Love”, em cartaz em Maringá, inova ao propor um drama – e não apenas mais um filme pornográfico, cujo principal objetivo é causar excitação em quem está assistindo – regado a sexo, sem pudores, sem cortes. Mais: em 3D, com riqueza de detalhes, em relações sexuais corriqueiras de um casal, oral, vaginal, e também nem tão corriqueiras, em ménage à trois, grupal etc.

Algumas redes de cinema boicotaram o filme do elogiado diretor franco-argentino Gaspar Noé. Aqui em Maringá, continua em exibição no horário nobre da família: 21h50, no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

O filme é um eterno flash back de Murphy (Karl Glusman), que fica relembrando os bons anos em que viveu ao lado da namorada Electra (Aomi Muyock) – uma jovem atraente e disposta para absolutamente todos os prazeres que sejam possíveis de se obter por meio de sexo.

Casado e com filho pequeno, ele não se perdoa por ter deixado se distanciar da ex. É feriado de Ano Novo e uma ligação da ex-sogra faz o jovem temer o pior: talvez Electra tenha se matado. É quando começam as recordações regadas a sexo da melhor qualidade. O pior mesmo, no final, é ter deixado escapar o grande amor da vida em mais um vacilo da carne: ao ter relação sexual com a vizinha de 16 anos (que outrora participara de uma ménage com o casal), a camisinha estoura e vem a criança.

“Love” é sobre o amor verdadeiro que nem sempre se faz muito nítido em meio aos fluidos do sexo levado às últimas consequências. É também sobre os limites do corpo e da mente. Como experiência fílmica, é válido. Mas aos saudosistas do agressivo “Irreversível”, filme de 2002 do mesmo diretor, fica a impressão de que Noé poderia ter caprichado um pouco mais no roteiro. Talvez o próprio tenha se ludribriado também com as intermitentes e belas cenas de sexo explícito.

*Comentário publicado terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Woody Allen mais racional do que nunca

Cena de "Homem Irracional", com a bela e talentosa Emma Stone e com o barrigudo Joaquin Phoenix

Cena de “Homem Irracional”, com o barrigudo Joaquin Phoenix e com a bela e talentosa Emma Stone

Por Wilame Prado

Após o desastroso “Magia ao Luar”, exibido ano passado por aqui, Woody Allen volta à velha e boa forma. “Homem Irracional”, em cartaz em Maringá, mostra um diretor atento aos mínimos detalhes em absolutamente todos os diálogos do filme, recheados com filosofia, especialmente com os princípios morais de Kant, a vertigem da liberdade de Kierkegaard e o existencialismo de Sartre e Heidegger. Tudo válido em uma construção narrativa que leva a um desfecho perfeito.

O longa é mais drama que comédia – assim como os melhores filmes do diretor – e, mais uma vez, é cercado pelo universo dostoiévskiano (o diretor é fascinado pelo escritor russo), especialmente ligado à máxima de Raskólnikov, de “Crime e Castigo”: para se destoar dos homens comuns, para haver algum sentido na vida, há que se fazer grandes feitos, até, de repente, quem sabe, cometer assassinatos, para um bem maior.

Abe Lucas (um Joaquin Phoenix propositalmente barrigudo e desgostoso com a vida) é um professor de filosofia famosinho que acaba de chegar a um novo campus para trabalhar, numa pequena cidade dos Estados Unidos. Sua chegada é cercada por boatos envolvendo principalmente o seu uso excessivo de álcool e os seus relacionamentos fugazes com mulheres – especialmente com professoras e alunas. Entre aulas entediantes, goladas generosas em seu cantil de uísque e flertes, um dia ele põe na cabeça que precisa matar um juiz que está sendo injusto com uma mãe humilde, prestes a perder a guarda dos filhos.

Allen tem acertado também nas escolhas de suas musas. Não é a primeira vez que ele aposta no charme e na imensa capacidade cênica de Emma Stone, mais linda do que nunca, em papel irretocável. Ela é a aluna Jill, que, fatalmente, apaixona-se pelo professor tristonho e boêmio de filosofia. Lucas também arranca suspiros de Rita (Parker Posey), uma professora casada que tenta ter um caso com ele. A veia cômica fica reservada a ela, que se debruça em busca de sexo com o professor e em planos indecorosos de fuga com ele para a Europa.

O diretor estadunidense faz um filme por ano e costuma ser lacônico em seus roteiros: o desfecho dos filmes são estreitados para o limite da vida, meio que matar ou morrer. É assim também em “Homem Irracional”, longa que nos faz lembrar que, mesmo com tanta teoria já eternizada nos livros, a filosofia ainda não é capaz de alcançar a irracionalidade que envolve as pessoas, as suas relações pessoais e os seus eternos esforços para sobreviver, para respirar.

*Comentário publicado nesta terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Que Mal Eu Fiz a Deus?’ é para rir

Elenco completo do francês "Que Mal Eu Fiz a Deus?"

Elenco completo do francês “Que Mal Eu Fiz a Deus?”

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Wilame Prado

Não tem sido fácil rir no cinema. A penúltima vez, ainda me lembro, foi no ano passado, no ácido e irônico argentino “Relatos Selvagens”, que concorreu – mas não levou, injustamente – ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. As últimas e raras risadas aconteceram no último sábado, quando finalmente assisti ao francês duplamente estreado em Maringá (a primeira, no Festival Varilux de Cinema Francês) “Que Mal Eu Fiz a Deus?”, ainda em cartaz no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

A proposta do roteiro era arriscada: fazer as quatro filhas de um casal tradicional francês se casarem com homens de diferentes nacionalidades e religiões; mais especificamente falando, elas – quatro verdadeiras beldades caucasianas – se casam com um judeu, um árabe, um chinês e, finalmente, um africano. Poderia ter resultado num filme extremamente de mau gosto, xenofóbico, racista ou machista. Mas não. Deu muito certo.

O longa, dirigido por Philippe de Chauveron, prova – especialmente aos cineastas e dramaturgos brasileiros – que é possível tratar com humor o preconceito eminente que há no Ocidente, sem que com isso seja preciso apelar para o insuportável argumento do politicamente correto.

Mesmo sendo recordista absoluto de bilheteria nos cinemas franceses – e conquistando também bom público aqui no Brasil -, a crítica especializada brasileira não tem visto com bons olhos “Que Mal Eu Fiz a Deus?”. Entre, por exemplo, no site Adoro Cinema e tire sua prova: nas críticas reunidas em uma das páginas mais acessadas de cinema do País, descobrimos apenas uma estrelinha dada pela Folha de S. Paulo e também uma estrelinha do jornal O Globo, além de críticas negativas publicadas em sites especializados. O motivo? Acabou o bom humor e muitos acusaram o divertido longa como previsível e preconceituoso.

Discordo. Eu e a sala inteira do cinema rimos do absurdo, dos extremos, das situações impossíveis, da velha e boa comédia no cinema. Luiz Carlos Merten (ufa), do Estadão, também discorda. Para ele, “…deu a louca nos críticos. Não sintonizaram com o humor incorreto de Chauveron. Mas nem na cena hilária da missa?”

*Comentário publicado nesta quarta-feira (19), no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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O vinho de John Fante

Em "O Vinho da Juventude", John Fante prova que também é um bom contista

Em “O Vinho da Juventude”, John Fante prova que também é um bom contista

Por Wilame Prado

Detentor de um imenso poder narrativo, o escritor John Fante (1909-1983), por toda sua vida, fez uma literatura autobiográfica. Seu alter ego mais conhecido recebe a alcunha de Arturo Bandini, nome que estampa as páginas de excelentes livros como “Pergunte ao Pó”, “Sonhos de Bunker Hill”, “Espere a primavera, Bandini” e “O caminho de Los Angeles”.

Em seu livro de contos “O vinho da juventude” (José Olympio, 2010), que acaba de ser relançado, os leitores de Fante, acostumados com a saga de Bandini, poderão desfrutar uma série de histórias cândidas vividas por Jimmy Toscana – um garoto que mora num lar de ítalo-americanos e que recebe uma rígida educação católica num colégio de freiras.

Nos contos, mesmo tendo trocado o nome de seu personagem principal, Fante continua relatando acontecimentos reais de sua vida. Jimmy, portanto, nada mais é do que Arturo Bandini em sua meninice, período no qual começa a questionar as ordens autoritárias da igreja católica, a hierarquia familiar e os preconceitos para com os descendentes de italianos imigrantes nos Estados Unidos.

Narrados em primeira pessoa, os contos são relatos ingênuos do garoto Jimmy em suas aventuras no colégio, na igreja, em casa e nas ruas. Escritos na década de 1930, remetem a uma época em que o alicerce familiar, valores morais e o respeito eram premissas importantes e ainda praticadas na sociedade.

Mesmo em suas constantes traquinagens, percebe-se, lendo os contos, que há pureza nas atitudes de Jimmy. Quando ele é preso algumas horas por quebrar lâmpadas públicas, por exemplo, a justificativa apresentada para a freira, e posteriormente ao padre do colégio, é que teria apostado com um garoto para ver quem conseguia estourar mais lâmpadas: ele, o católico, ou o outro, que não era de sua religião.

Os contos são descritos de uma maneira tão simplificada que, facilmente, o leitor deixará enganar-se pensando que realmente é uma criança ou um adolescente quem está contando todas aquelas histórias. A destreza narrativa de Fante faz com que, após o início a leitura, queira-se saber ansiosamente o desfecho da história.

Uma época perdida
Em “Sequestro na família”, primeiro conto do livro, o jovem Jimmy demonstra muito orgulho e felicidade ao saber o quanto seus pais estavam apaixonados antes de se casarem. Pede insistentemente para a mãe contar as aventuras que passara com seu pai quando, antes de pedi-la em casamento, a sequestrou por três dias e três noites.

Quando sua mãe diz que, mesmo com muito medo, naquela ocasião, aceitara o pedido do casamento, o garoto se esbalda em emoção: “Isso era demais para mim. Joguei meus braços em torno dela e beijei-a, e em meus braços senti o travo pujante das lágrimas.”

Nas leituras de “O vinho da Juventude”, os mais velhos verão retratados o modo como funcionava os lares de seus pais antigamente. Já os leitores mais novos, é bem certo que se recordarão das agruras e regras conservadoras que existiam, ou existem até hoje, nos lares de seus avós.

O conto “O pedreiro na neve”, por exemplo, descreve de maneira perspicaz o âmago das regras da casa de Jimmy. A mulher, sua mãe, é uma eterna subordinada das tarefas domésticas e tem de conviver, calada, com as regras machistas impostas pelo marido bravo.

Jimmy Toscana vive numa época em que todos os garotos norte-americanos sonham em ser jogadores de beisebol e, quem sabe, entrar para a Liga dos Campeões. Garotos que, quando pecam, roubando doces ou distribuindo socos e pontapés no meio da rua, temem muito a Deus e se sentem renovados ao confessar e pagar as penitências determinadas pelo padre.

São garotos, assim como Jimmy (ou Fante ou Bandini), que, quando fazem algo pelo qual devem se envergonhar, são capazes de ficar o período escolar inteiro trancados no banheiro para evitar o olhar recriminador da freira.

Nessa época vivida por Jimmy, e muito bem descrita por Fante, os policiais conhecem muito bem o pai e a mãe dos garotos que aprontam pelas ruas. Não raro, na tentativa de intimidar os jovens baderneiros, esses policiais os deixam presos por pelo menos uma hora, prometendo para eles que ficarão detidos por quinze anos na penitenciária estadual caso aprontem novamente. No mais tardar, os pais desses jovens os buscam na delegacia e lhe aplicam surras, pelo menos para a época, muito merecidas.

Amadurecimento
A cada história, conforme as páginas vão sendo viradas, percebe-se que o cativante Jimmy Toscana vai deixando as ingenuidades infantis de lado para começar a enxergar questões que envolvem mais o mundo dos adultos. O conto “A odisséia de um carcamano”, por exemplo, é uma bela homenagem à comunidade ítalo-americana e reflete claramente uma consciência mais amadurecida do personagem principal.

Com perfeição, Fante narra o processo de aceitação própria, até chegar ao orgulho nacional, da descendência italiana de um dago (maneira desrespeitosa de se referir a um italiano nos Estados Unidos, traduzido no Brasil como “carcamano”).

São nos últimos contos da primeira parte do livro que o autor trará um Jimmy Toscana já com seus vinte e poucos anos de idade, que manda seus escritos para revistas literárias, que reza inúmeras Aves-marias torcendo para que aconteça um milagre e assim consiga pagar o aluguel de seu quarto, que namora por um tempo uma mulher bem mais velha que ele e que sente “A ira de Deus” (nome de um conto) quando a quitinete de seu affair estremece com um terremoto.

É quando o leitor começa a enxergar as características de Arturo Bandini na pele do menino Jimmy e finalmente se reencontra com o clássico e adoro personagem de Fante.

Tinto Carcamano
O escritor John Fante lançou “Dago Red” (é traduzido como “Tinto Carcamano” e refere-se ao vinho que os italianos do norte de Denver bebiam durante a época da Lei Seca), uma coletânea de treze contos que foi saudada pela revista Time como “talvez o melhor livro de contos de 1940”. Em 1985, dois anos depois da morte de Fante, os contos de “Dago Red” compuseram a primeira parte do livro “O Vinho da Juventude”, que ganhou uma segunda parte, denominada de “Contos Tardios”, incluindo mais sete contos na obra.

Trecho do conto “Lar, doce lar”
Estou cantando agora, pois em breve estarei em casa. Haverá uma grande recepção para mim. Haverá espaguete, vinho e salame. Minha mãe vai preparar uma grande mesa amontoada com as delícias da minha infância. Será tudo para mim. O amor da minha mãe estará sobre a mesa e meus irmãos e minha irmã ficarão felizes de me ver entre eles de novo, pois eu sou o irmão mais velho que nunca erra, e eles ficarão um pouco invejosos das boas-vindas despejadas sobre mim e vão rir muito das coisas que eu falo, e vão sorrir quando me virem engolindo aquelas garfadas enroscadas de espaguete e gritar pedindo mais queijo e trovejar o meu prazer. Pois são minha gente e voltei para eles e para o amor de minha mãe.

Vou passar meu copo para meu pai e dizer:

– Mais daquele vinho, pai.

E ele vai sorrir e servir o líquido vermelho de gosto doce na minha taça, e vou dizer “Aí, rapaz”, e vou beber lenta e profundamente, sentindo aquecer minha barriga, formigar meu coração, entoando uma canção em meus ouvidos. E minha mãe dirá “Não tão rápido, meu filho”, e vou olha para minha mãe e ver os mesmos olhos que eu fiz chorar tanto, tantas vezes, e meus ossos enfrentarão aquele sentimento obtuso de remorso, mas só vai durar um segundo e direi à minha mãe “Ora, mãe, não se preocupe com este sujeito, ele vai ficar bem”, e minha mãe vai sorrir com a felicidade que só minha mãe conhece e meu pai vai sorrir um pouco também, pois estará olhando para sua própria carne e sangue e vou sentir palpitação no peito e evitarei os olhos do meu pai, pois eles não conseguirão esconder sua felicidade.

imagemPara ler
O VINHO DA JUVENTUDE
Autor: John Fante
Editora: José Olympio
Nº de páginas: 336
Tradutor: Roberto Muggiati
Preço: R$ 42 nas principais livrarias
Avaliação: ótimo

 

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Pai e filho, vinho e cimento

Por Wilame Prado

Boa parte dos adoradores de obras como “Pergunte ao Pó” e “Sonhos de Bunker Hill” é feita de escritores e gente que sonha em ser escritor. O escritor norte-americano John Fante (1909-1983), como poucos, conseguiu em seus romances – com fortes traços autobiográficos – traduzir em palavras as angústias que cercam aqueles que preenchem laudas e mais laudas na máquina de escrever (hoje, nas páginas em branco de programas de texto em computadores). Não é o caso de “A Irmandade da Uva” (José Olympio, 224 páginas), último livro de Fante traduzido no País por Roberto Muggiati e que deixa de lado os fantasmas do universo particular da figura do escritor para uma atenção maior ao existencialismo envolvendo os laços de sangue.

No romance, lançado originalmente em 1977 (um ano antes de ficar cego em decorrência da diabetes), o escritor quebrou um hiato de 25 anos sem publicar livros para narrar os dramas envolvendo a família Molise e suas dificuldades com o patriarca Nick Molise, 75 anos, alcoólatra, jogador compulsivo, displicente marido e pai de Henry Molise, escritor de 50 anos que, tal qual como o clássico personagem Arturo Bandini, serviu de alter ego para Fante em algumas de suas obras.

No romance, é o escritor narrando em primeira pessoa as complicações familiares que obrigam-no a voltar para a pequena cidade de San Elmo após o anúncio de que os pais, casados há 51 anos, iriam se divorciar. Henry sai de Los Angeles para encontrar os pais em pé de guerra e os irmãos com suas típicas vidas interioranas regadas a picuinhas familiares. Ele passa algumas semanas por lá e percebe que, mais do que tentar evitar a separação de Nick e Maria Molise, precisará realizar o desejo de um pai já debilitado em razão dos excessos com a bebida: ajudá-lo – ele, um pedreiro orgulhoso da profissão que tem – a construir sua última obra.

Essa parceria entre pai e filho envolvendo argamassa e muito vinho é o mote para Fante destrinchar, com humor ácido e ironia, tudo o que precisava dizer sobre valores familiares, amizades verdadeiras, falta de dinheiro, questões ítalo-americanas, distanciamento entre a figura do filho que “escreve” com o pai que “trabalha” e o valor das mulheres fora do casamento. Para quem costuma se emocionar quando o assunto envolve questões familiares, “A Irmandade da Uva” – mais um cativante livro de John Fante – é capaz de fazer rir e chorar.

42111920A IRMANDADE DA UVA
John Fante
Editora: José Olympio
Número de páginas: 224
Avaliação: ótimo

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Sobre Breaking Bad

Protagonista Walter White em cena do último episódio da premiada série Breaking Bad

Protagonista Walter White em cena do último episódio da premiada série Breaking Bad

Por Wilame Prado

A cena de Breaking Bad (série de televisão dramática norte-americana criada por Vince Gilligan), ilustrada na foto acima, marcou-me muito.

É quando Walter White (ou Walt, ou Heisenberg), interpretado por Bryan Cranston, admite a Skyler, pela primeira vez, que “cozinhava” metanfetamina pelo bem próprio e não tanto assim para o futuro financeiro da família, justificativa que o personagem defende durante toda a série.

Na cena, ele admite que só vivendo os riscos com a fabricação da droga é que ele – mesmo sendo paciente terminal de câncer e tendo encarado tantas derrotas na vida calado – sentia-se vivo.

Profundo.

Essa reflexão – e a série como um todo – diz respeito a como convivemos com os nossos inevitáveis fracassos, e o quanto somos julgados quando “saímos da linha”. É sobre sonhos, atitudes, metas, objetivos, e o contrário disso tudo, fraqueza, preguiça, falta de sorte, desistência do querer, o velho ato de seguir levando porrada até morrer.

Breaking Bad é também sobre o modo como muitos líderes de famílias cometem verdadeiras loucuras para manter a ordem “dentro de casa”. Quantos Walt´s vivem espalhados por aí nesse mundo, se não cozinhando drogas, mas pilotando madrugada adentro uma motocicleta 125 cilindradas e pegando trampo também de manhã e de tarde, encarando dois empregos fixos, fora os freelas de final de semana, ou tendo que aturar o machismo das 8h às 18h num mundo corporativo sacana para, ainda, à noite, terminar de limpar a casa, passar a roupa e deixar o uniforme e o lanche dos filhos que vão à escola na manhã seguinte? E por aí vai.

Breaking Bad é sobre amizade, traições e família.

Fazer tudo isso, levar porrada, se lascar na vida, para, muitas vezes, não ter um reconhecimento sequer, ser eternamente julgado e criticado por gente de fora, e o mais dolorido, por gente que mora dentro da sua casa, por parentes, por amigos. O preço que se paga as vezes é alto demais. Mas fazer o quê? Poucos são audaciosos e mesmo egocentristas a ponto de catar uma mochila e sair por aí perseguindo única e exclusivamente os sonhos personalistas.

Não gosto de séries porque se perde muito tempo assistindo-as na íntegra. Fiz as contas: em vez de ter assistido aos 62 episódios da série que é dividida em cinco temporadas, poderia ter visto pelo menos 25 bons filmes com duração média de duas horas. Mesmo assim, valeu a pena.

Achei Breaking Bad primorosa, redonda, impecável. Texto invejável. Exercício de prosas mais longas. Prova que, com talento, tira-se as melhores fotografias até mesmo em meio a um deserto árido no Estado do Novo México e que atuações caprichadas não precisam necessariamente resultar em esteriótipos bobos, maniqueísmos infantis, a exemplo do que ocorre em muitas propostas teledramatúrgicas brasileiras.

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