Contos



Retardatário

 

Por Wilame Prado

A vida real é sua maior aventura. Diz o slogan do Jeep Renegade. Carro que persigo há algum tempo. Pelas ruas, avenidas, rodovias. Até em outras cidades. Minha maior aventura já foi a vida real. É que preciso te encontrar. Falar o que senti. Tira, então, o pé do acelerador. Nem de perto consigo chegar. Você desliza pelo asfalto. Com seu Jeep preto. Com as suas coisas no banco de trás. Com a sua musiquinha no volume nem tão alto assim. Posso ver seus olhos diante do retrovisor. Lembrar, pelo menos. Sua beleza era tanta para comprar pão na padaria. Nunca pude entender suas manias. Até que tive ousadia. Disse que seria minha. Simples assim. Logo, aprendi que objetificava uma vida. Não há laço, vínculo ou relação. Com quem só quer correr na pista. Ir para frente. Esperar o sinal abrir. E sumir. Sua maior aventura foi o caminho que seguia. Nunca te alcancei. Um azarão da corrida. Ruim de volante. Medroso no velocímetro. E você corria, corria. Hoje não corre mais. Não se mexe mais. Não volta mais. Sigo lhe procurando. Perseguindo Jeeps Renegades pretos. Alucinado no autoengano. Entrando em confusão. Sendo chamado de ladrão. Pedindo perdão. Com a cara no chão. Nunca pude entender acidentes de trânsito. A violência. A vida num segundo. O choque. Ferragens retorcidas. Design terrorista. A mais bela aventura. Lançamento do ano. Modelo amassado. Airbags já acionados. ABS desperdiçado. E sangue no asfalto. Vida real. Você não é mais real. Nunca foi. Ia além. Mãos no volante. Pé no acelerador. Olhos no retrovisor. A mais bela das motoristas. Sigo a procurar este seu olhar. Mas sempre estou atrasado.

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Estrela cadente

Por Wilame Prado

Na noite da última terça-feira, Osvaldo saiu de casa às duas horas da madrugada por causa de uma insônia que lhe estava proporcionando pensamentos muito ruins sobre a sua atual condição de vida: separado da mulher e sempre muito distante do filho, que, coincidentemente, passava alguns dias das férias em sua casa e dormia tranquilamente no quarto ao lado.

A pé, foi até o bosque bem próximo de sua casa e se sentou em um banco. Notou que, dali, era possível ter uma bela visão do céu, que, particularmente naquela noite, estava lindo, cheio de estrelas. De repente, viu uma estrela cadente riscando o horizonte. Entusiasmou-se, sentiu-se presenteado, fechou os olhos e fez um pedido.

Alguns segundos se passaram, mas Osvaldo permaneceu com os olhos fechados. Assustou-se quando ouviu uma voz feminina perguntando: “Moço, você está dormindo?”, disse Laura, jovem muito bonita que, com a sua máquina fotográfica, captava imagens da chuva de meteoros, vista naquela noite de qualquer localidade do País.

“Não, me desculpe. Vi uma estrela cadente, fiz um pedido e acabei me distraindo em pensamentos com os olhos fechados”, respondeu Osvaldo.

Os dois permaneceram sentados no banco do bosque por quase meia hora. Laura explicou para ele sobre a chuva de meteoros e as popularmente conhecidas estrelas cadentes. Comentou que, naquela noite em especial, estavam diante da chuva de meteoros Delta Aquarídeas, que propiciava a visibilidade dos detritos e poeiras deixados possivelmente pelo cometa 96P Machholz.

Ela fazia parte de um grupo de observação astronômica. E ele sofria de insônias.

Laura foi embora com a sua bicicleta, mochila e máquina fotográfica. “Será que havia uma luneta dentro daquela mochila?”, pensou Osvaldo, meio distraído, ao vê-la, tão bela, pedalar pelo bosque. Ela o achou interessante, um pouco mais velho que ela sim, mas um sujeito simpático, inteligente e que, em um rápido bate-papo, demonstrou que parecia ser um pai muito amoroso, um trabalhador esforçado. Mesmo assim, preferiu não convidá-lo para o grupo de observação astronômica, sentiu vergonha, talvez ele pensasse que fosse coisa de jovenzinhos com tempo para brincar de ver o céu.

Osvaldo levantou-se e se dirigiu tranquilamente para a casa. A partir daquele dia, Laura seria constantemente lembrada por ele com ternura, sempre associada à estrela cadente que viu cair e que lhe rendeu um pedido. Em casa, abriu devagar a porta do quarto do filho, beijou de leve a sua testa e sussurrou que ele continuasse dormindo com os anjos.

Já em sua cama, o motivo da insônia, agora, era outro. Não entendia por que não pediu, pelo menos, o telefone de Laura. Timidez? Enfim. Temia nunca mais vê-la nesta imensa cidade. E mesmo se a visse, o que diria? Teria coragem para puxar um papo ou apenas acenaria com a cabeça?

O dia começava a clarear e Osvaldo sabia que teria uma jornada difícil pela frente, já que não havia conseguido dormir nada naquela noite. Mas estava determinado a pelo menos tentar mudar de vida. Prometeu para ele mesmo que, se voltasse a encontrar Laura, revelaria para ela o pedido feito para a estrela cadente: uma mulher que botasse ordem na sua vida, que o fizesse parar de sofrer com as insônias e que gostasse de, junto dele, por o filho para dormir desejando “uma boa noite, dorme com os anjos” nos dias em que o garoto tivesse visitando o pai. (A coluna Crônico entra em férias a partir de hoje)

*Conto publicado nesta terça-feira (5) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Tristeza no jantar

Por Wilame Prado

O pai ficou triste na hora do jantar. Não era a primeira vez que a sua mulher e a sua filha desrespeitavam a mesa sem sequer perceberem tal atitude. Naquela noite de sábado em especial, veja só, ele estava se sentindo confortável com uma felicidade passageira que chegou como a poeira levada pelo vento e que também se vai ao primeiro olhar. Estava gostando do clima, da calmaria. Sentia vontade de agradecer a Deus por poder, em mais um final de semana, estar próximo da família, com comida na mesa, televisão para assistir mais tarde, uma boa cama para se deitar finalmente. Sensações desmanchadas quando notou o desdém que as duas dedicaram às esfihas de carne, queijo, frango e chocolate compradas por ele no disque entrega do bairro, com preço mais acessível que os praticados no centro, nos shoppings e nos restaurantes chiques.

Havia contas a pagar, afinal. A situação financeira da família estava difícil de ser controlada porque ele havia retornado ao mercado e se sujeitado – regras do jogo – a ganhar muito menos do que ganhava na empresa anterior, onde cumpriu expediente religiosamente ordeiro por mais de dez anos antes de ser dispensado. Sentia-se culpado. Percebia (ou seria paranoia?) o olhar de cobrança da mulher e o ar de desprezo da filha quando anunciou a “boa nova”: o fim do desemprego, o cargo de vendedor na loja de departamento e a necessidade de se acostumar a receber ordens e não o contrário, como fazia anteriormente quando era gerente de setor.

Na madrugada, sozinho na sala, permitindo-se uma dose ou duas, colocou em perspectiva tudo aquilo que aconteceu nas horas recentes e que o deixou para baixo: esfihas entregues, mesa posta, comida em cima da mesa, ele tardando alguns minutos para se sentar, a mulher e a filha já devorando pedaços de massa de farinha e água com carne e cebola em cima, as duas falando meio que com a boca cheia, criticando o gosto, a temperatura, a gordura, a imensa quantidade de cebola, a pouca quantidade de carne, e ele ali, ainda de pé, sem sequer ter se sentado à mesa para o jantar de sábado com a sua família, e ouvindo, “a esfiha lá de não sei onde é bem melhor”, “essa esfiha é horrível”, “está fria”, “pega o refrigerante para mim?”, “vou comer a doce já, porque não quero mais dessa salgada ruim”, “credo, que chocolate podre”, “parece manteiga”, “pai, não dá nem pra comer”, “pelo amor de Deus, por que inventou de comprar esfiha neste lugar?” etc.

Em dez ou quinze minutos, a filha foi escapando rapidamente em direção ao quarto, ao encontro do smartphone ou do computador (ele não sabe) e justificando a necessidade de prosseguir com os estudos para o vestibular que estava próximo. E a mulher, alegando cansaço e dor em algum lugar do corpo, foi para o sofá e até que se distraiu um pouco com o humorístico da TV antes de finalmente ir para a cama. E ele, ia perdendo a fome diante da mesa, solitário, esfihas espalhadas nos pratinhos de papelão, copos sujos, uma mancha de molho de pimenta bem ao lado da sua mão direita, na toalha quadriculada, e o fim, por completo, daquela breve sensação confortável de felicidade que havia sentido antes daquele jantar malfadado de sábado à noite.

Antes de se deitar, o triste pai pensou que não era assim que as coisas deveriam acontecer em um jantar de sábado à noite com a família. Antes das críticas, deveria haver agradecimentos, sorrisos fraternos e a reunião de todos iniciando e terminando juntos a nobre tarefa de saciar a fome, de receber os alimentos que propiciam forças e energias para se continuar vivendo e, mais que isso, prazer pelo ato de comer. Elas nem perceberam a tristeza do pai. E ele preferiu não fazer comentário algum, estava cansado. Ao fim da bebida, na calada da noite, prestes a encostar a cabeça no travesseiro, ele finalmente se lembrou do motivo que o fizera comprar esfihas para o jantar daquele sábado em família, em vez de requentar as sobras do almoço.

Caso elas tivessem esperado para que todos jantassem juntos diante da mesa, ele iria dizer para a sua mulher e para a sua filha que estava se esforçando muito no novo emprego, que havia sim dificuldades, que havia sim, por ora, menos dinheiro entrando como remuneração, mas que ele, pelo contrário, não havia perdido as forças, sequer as esperanças de que, com a ajuda da família, conseguiria sim superar as dificuldades, conseguiria crescer na nova empresa e que, não tenha dúvidas, voltaria a ser um gerente de setor, para que pudessem, ele, a mulher e a filha, retomarem rapidamente a qualidade de vida de outrora dentro daquele lar.

Às oito horas da manhã de segunda-feira, à espera dos clientes dentro da loja, ele já não tinha tanta certeza assim de que conseguiria se reerguer profissionalmente.

*Conto publicado terça-feira (22) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Manhã atípica

Por Wilame Prado

O velho varria a calçada pela manhã. A camisa branca do velho estava com todos os botões fechados, até em cima. Em frente à casa onde mora, ele varria meio que desesperadamente, mais apressado do que em outras manhãs corriqueiras.

Os homens iniciavam seu meio expediente a contragosto. Fazia um vento gelado. Era de manhã, era inverno. Mas quase ninguém estava de blusa. Tempo fechado. A construção precisava continuar. Portanto, eles martelavam, batiam, quebravam e não viam o tempo passar. Muitos demonstraram no semblante uma cara séria, um ar de preocupação e expectativa.

Um senhor de bermuda e camiseta de manga demonstrava, no peito, certo orgulho enquanto segurava a coleira do cachorro no passeio público. O dono pouco atentava, na verdade, à felicidade do cão em sua matinal escapada. Olhava para frente com um ar de esperança, e a espera pela conclusão das necessidades básicas de seu cão se tornou momento ideal para reflexões, cara de sonhador.

Na fila do supermercado, um rapaz concluiu que era uma manhã boa para pensar na Letícia, que há tanto tempo não via. Eram divertidas as manhãs ao lado dela, os dois se permitindo tomarem café preto e pão com ovo, queijo e tomate na padaria mais próxima, justamente em manhãs como aquelas. Mas pagou rapidamente o valor cobrado pela caixa e, como num passe de mágica, esqueceu-se completamente de Letícia.

Uma mãe descascava tranquilamente batatas na cozinha quando considerou aquela manhã como muito boa hora para ligar para a filha que mora em SP e que certamente estava prestes a ir num mercado ou numa feira. Ela nem se importou com as possibilidades de não encontrar a filha em casa. Ligou do mesmo jeito, mas não podia, naquela manhã, ficar pendurada por mais de trinta minutos ao telefone como de costume.

Manhã ideal, pensou Letícia, para abrir a janela do pequeno quarto, no quarto andar do prédio simples e popular, e ver um pouco a paisagem cinza, sentir um friozinho, uma vontade de beber chá e se lembrar de que, naquele momento – em vários momentos –, não há ninguém dentro daquele apartamento para lhe aquecer, para dividir uma bebida quente em manhãs frias como aquela, para simplesmente pedir que feche logo a janela, “está tão frio e você pode pegar um resfriado, menina”. Ao contrário do rapaz da fila do supermercado, nem passou por sua cabeça lembranças de manhãs como aquelas em que se permitiam ir a uma padaria mais próxima tomar café preto e comer pão com ovo, queijo e tomate.

Quem olhava para o velho varrendo inevitavelmente visualizava também enormes bandeiras penduradas na sacada do sobrado onde morava, sede para um bom e velho churrasco que começaria em instantes. Os homens da construção, um deles com boné verde e amarelo, não participariam da confraternização, mas por estarem trabalhando ao lado da casa do velho, daqui a pouco sentiriam cheiro de carne assada e teriam mais vontade ainda de voltar para casa após o fim do expediente. O homem do cachorrinho ostentava a 10 da Seleção Brasileira no peito no meio da rua, mas, dentro de alguns minutos, precisaria voltar para casa e iniciar os trabalhos com sal grosso e carne encomendada no açougue. O jovem da fila do supermercado aproveitava a promoção e comprava boa quantidade de cerveja em lata para abastecer o churrasco que começaria antes, seguiria durante e perduraria depois do jogo. A mãe que ligou para a filha descascava batatas justamente para a maionese que seria servida no churrasco do filho que tinha ido ao supermercado comprar cervejas.

Letícia, que mora na mesma cidade onde todos aqueles aproveitariam os embalos de uma copa do mundo para comemorarem com churrasco não sabem certamente o quê, se esqueceria, naquela manhã atípica de sábado, que era dia de jogo do Brasil. Ela ficaria espantada ao ouvir comemorações de vizinhos pelo primeiro gol da partida, de David Luiz, aos 18 minutos do primeiro tempo, momento em que pensou em até ligar a TV para finalmente começar a ver o jogo, optando, entretanto, por ficar debaixo das cobertas, no quarto, agora com a janela bem fechada.

*Crônica publicada terça-feira (1º) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Noite do casal

Por Wilame Prado

Prédio um tanto antigo, daqueles de cômodos maiores, zona 3 de Maringá, Rua Neo Alves Martins, lua cheia, leve chuva fina. O casal é casal pelo que se pode ver na visão dos dois na janela do alto do quarto andar. Faz alguns minutos, parecem preparar algo na cozinha. Um risoto suculento? Um rápido strogonoff? Alguma massa saborosa, quem sabe acompanhada de um bom tinto?

O casal se faz casal. Os dois se beijam, ficam abraçados, se mexem, se tocam, se dispõem ao contato físico e amoroso. Já passa das onze da noite e apostam na gastronomia, em plena segunda-feira. Mas é que é tão bela a lua cheia! Mesmo em fevereiro, o calor deu trégua, pelo menos à noite, e uns ventos batem obrigando-os a recorrer a um lençol fino, no sofá, após o vinho e a comida, juntinhos, assistindo a mais uma tola tela que se diz quente, não importa o filme, o importante é a companhia.

Recém-casados? Ou uma recém-formada em Farmácia – que ainda conta com mesada dos pais – recebendo a visita do namorado em plena segunda-feira simplesmente pelo fato de terem quase morrido de saudades após menos de 24 horas longe um do outro?

Tinham passado o domingo inteiro juntos, shopping, cinema, sorvete, champanhe e motel. Mas nada disso importa mais. O importante é que ela finalmente conseguiu o ponto certo do macarrão – al dente – e ele trouxe aquele vinho maravilhoso.

E ela pensa: deixe as 7h15 só para a manhã de amanhã, para depois o retrabalho levado para casa, para outra segunda a faxina do apê e para outra noite aquela boa pesquisa na internet em busca de uma pós-graduação decente.

E ele reflete: nesta noite, nada de academia, treino de Muay thai, programas na TV de discussões tolas sobre a última rodada do campeonato, futebol society com a turma de colegas do tio, pôquer com os amigos, Pro Evolution Soccer no videogame dos primos, cachorro-quente prensado na Colombo, conversa com pais e avós todos sentados em cadeiras de área ou, não menos importante, aulas chatas de Cálculo II na universidade.

O clima está gostoso, a lua está no céu e, ainda que recatada, ela até que gosta de se ver assediada por ele, que nem quer esperar o jantar para levantar a blusinha dela, na janela da cozinha mesmo, do alto do quarto andar, enquanto gente na sacada dos prédios ao redor vê tudo isso. E de tudo isso, nada importa. Afinal, acho que eles se amam.

Naquela noite choveu uma leve chuva fina em Maringá. E o casal de namorados nem imaginava, mas, por entre o fino lençol, no sofá da sala, sem nem perceber que o filme já tinha acabado, estavam os dois gerando aquele que seria o primeiro filho de uma linda família.

*Conto publicado nesta terça-feira (25) na coluna Crônico, do caderno Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Escada rolante

Por Wilame Prado

Um dia, parei pra contar: em uma hora de uma tarde qualquer de domingo, desceram pela escada rolante 357 pessoas. Foram 357 destinos que desceram do quarto andar do shopping direto pro terceiro andar. O que foram fazer? Entraram em outras lojas, compraram mais, comeram mais, usaram mais vezes o banheiro, usufruíram por mais tempo do ar-condicionado? Não sei. Muitos foram embora. Encararam o calor da Avenida São Paulo ou o dióxido de carbono detido no estacionamento subterrâneo. Durante toda aquela uma hora em que parei pra observar as pessoas se locomovendo pela escada rolante, apenas uma senhora encheu o saquinho transparente com 186 gramas de doces coloridos vendidos no quiosque onde trabalho.

Já estou acostumada ao trabalho de domingo. Pego a Biz, ando dezenas de quarteirões maringaenses e chego ao shopping. Tiro o tecido preto de cima do quiosque e visto, por cima da minha blusinha regata, a camiseta gola polo rosa e quente contendo no peito a logomarca da doceria. A dona quer que eu seja vista como um marshmallow rosa à disposição para o consumo dos clientes.

Mas não sou um doce que se pode mastigar facilmente. Nem um chiclete que nunca acaba e que perde o gosto rapidamente. Sou uma pessoa. E isso quase ninguém tem percebido ultimamente. O pessoal gosta de falar do sacrifício do trabalhador rural, do operário, dos pedreiros na construção civil. Mas poucos se lembram de mim: só uma garota de quase 30 anos, que almoça todos os domingos com os pais e que anda todos os dias com a sua pequena moto rumo a um quiosque que fede xarope de milho e açúcar. Das 357 pessoas que desceram a escada rolante naquele domingo, nenhuma olhou para mim.

Um dia, um moço casado olhou para mim. E permaneceu olhando. Não teve jeito: tive que procurar serviço para fazer e assim poder disfarçar. A situação estava embaraçosa. Quando a mulher dele olhava para o lanche que comia, ou então para o enorme copo de refrigerante em cima da mesa, ele me olhava. Sentia desejo, parecia. Uma pessoa, naquele instante, tinha percebido que, por trás de doces envelhecidos e camisetas ridículas, havia uma mulher. Gostei dele. Gostei da humildade em me reconhecer como gente. Era bonito e pouco importava se, na realidade, tinha segundas intenções. O dia estava salvo, e, às vezes, um olhar bastava para que eu pudesse chegar em casa um pouco menos infeliz.

O resto da história vocês já sabem. Vendo a reciprocidade do olhar, o homem voltou no dia seguinte. Encheu um saquinho de chocolates, balas e chicletes. Presenteou-me. Dar guloseimas para alguém que vende guloseimas é o pior presente que alguém pode dar. Resolvi não contar para ele quantas vezes vomitei ao me lembrar do cheiro daquelas verdadeiras borrachas envoltas no açúcar as quais preciso vender de segunda a segunda. Mas disse para ele duas verdades: eu odeio doces e não fico com caras casados. Ele parecia estar enfurecido descendo a escada rolante. Era apenas mais uma pessoa que descia aquela escada rolante sem sequer olhar para mim.

*Conto publicado nesta terça-feira (28) na Coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Telefone celular

Por Wilame Prado

Ele disse “window”, eu ouvi, ele cantou “window”, e estou numa janela.

Nada de anormal: ouvindo Thom Yorke numa janela.

Foi legal ouvir uma das únicas palavras que sei a tradução em inglês em plena window.

Hoje já é amanhã. Passa das zero horas. Na janela. Fones abraçam minhas orelhas. Digito em um pequeno teclado de aparelho celular que me permite ouvir música e escrever. Até ligação faz.

Odeio telefone, falar ao telefone, trocar telefones, por favor não me ligue mais, nem peça meu número. Fiquemos só com as palavras, com o vento, com o vinho. Calço 41, mais números, impossível dar, não posso me comprometer. O que é WhatsApp?

Não gosto de telefone, mas gosto de coisas que me permitem ler, escrever e ouvir música. No fim, é isso o que salva, que resta, que não cobra, que não chora nem grita, ao telefone, sempre o maldito telefone.

Todos reclamam bulas inteiras de remédio alegando a falta de sinal da operadora de telefonia. Eu rio. Eu gosto. Estava com um celular, antes desse, que não cantava música nem me deixava ser escritor de smartphone. Era singelo o celular antigo, capinha não tinha para proteger a bateria, o seu sangue vital. Acabou morrendo. Não ligava mais. Perdeu sangue. Eu nem ligava (literalmente). Ria sem bateria e sem sinal.

E então me enfiaram um novo telefone. Que canta, escreve e até fala de vez em quando. Mas eu não gosto dele não: ouvir aquela linda mulher – o meu amor – chorar do outro lado da linha não é mole, corta o coração da gente, silencia música, breca os dedos digitadores e cala minha voz; torço, então, para cair o sinal, para o “sanguinho” da bateria secar.

Ouço Thom Yorke cantando “window” – “Before Your Very Eyes” é a primeira canção do disco “Amok”, do grupo de rock norte-americano Atoms for Peace, cujo vocalista é o líder do Radiohead e que propõe, na letra da canção, que ela, “moça jovem e de boa aparência”, “olhe pela janela” e veja o que passa diante de seus olhos (o tempo, o tempo, “alma velha sobre ombros jovens”) – quando hoje já é amanhã e o vento refresca só a pele pelos buracos da camiseta e nada de abrandar as quenturas da alma.

Penso naquele choro da minha linda e amada mulher ao telefone. Jamais esquecerei aquele som. O barulho ensurdecedor das lágrimas caindo ao chão. Fecho a janela, deixo o smartphone de lado, tomo outro gole de vinho e vou dormir, aguardando o maldito celular me servir, daqui poucas horas, como despertador para mais um dia.

Como mágica, não há ressaca, não há janelas abertas, não há mais calor, Thom Yorke e nem despertador. Estou sonhando acordado, meu Deus? Aquele lá sou eu, ainda deitado na cama, nada de choro, nada de ligações pelo aparelho celular. Tudo está em paz. Ela está ao meu lado, e como fica linda dormindo! Até o gato garantiu um espaço na cama de casal. Tudo está em paz. Ainda bem. E, então, não há como não parafrasear o Vanguart, na bela canção “Meu Sol”, do último disco “Muito Mais que o Amor”: “A vida é tão mais vida de manhã.” Tomamos café e, a partir daquele dia, resolvemos que nunca mais atenderíamos as ligações de nossos aparelhos de telefone celular.

*Conto publicado nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Bonequinha de luxo

Por Wilame Prado

Viu que dirigia um Audi TT conversível. Sorria. A mulher ao lado era bela. Conversava com ela. Sorriam. Viu a felicidade, um sujeito feliz.

“Isso é felicidade, pai?”

“As posses. Os carros. Mulheres.” Só pensou.

“Vou te contar uma história: antigamente, pior do que hoje, não se tinha muita noção do que é felicidade, do que precisamos para ser felizes. Aí, para muita gente lá em casa e nas outras famílias também, felicidade era tomar tubaína quente no Natal”, contou o pai.

“Mas o que estou querendo dizer, pai, é que eu tenho uma forte impressão de que vi a felicidade plena no rosto de um sujeito ontem, trafegando com seu conversível na Avenida Laguna, ali na Operária, perto do Senadinho Pastel, sabe?”

“Sei.”

“Então. O carro dele estava limpo e, como o senhor deve se lembrar, ontem o clima estava agradável; aquela tarde de sábado parecia ser propícia para um sujeito, em seu carro bom, ao lado de uma mulher bonita, ser feliz”, continuou argumentando o filho.

“Interessante você dizer isso. É o imediatismo da sua geração, filho. Com um recorte, com uma imagem, com uma foto, com uma cena de um filme, vocês conseguem decretar a felicidade de um homem.”

O filho tomou um gole de tereré. E refletiu em voz alta: “Tá parecendo que sou um baita de um invejoso.”

Continuou: “E tem razão: fui imediatista. Mas veja só, pai: acredita em pressentimento?”

“Coisa de mulher.”

No que ele respondeu, rapidamente: “Usei a palavra errada. Enfim. Deixa pra lá esse papo. Você viu que o seu Palmeiras meteu goleada ontem e ergueu o troféu? Bi campeão. Parabéns velho! Agora vocês retornam à elite, de onde meu time nunca saiu”, alfinetou, dando risada sarcástica.

“Esquece isso, esquece o circo. Fiquei é intrigado com esse seu papo de felicidade. Poxa vida, filho: que educação que eu te dei? Você vê um cara com um carro que pode ser muito bem financiado ou roubado, com uma mulher linda ao lado, mas que pode ter sido alugada somente para aquela tarde, e me diz que isso é felicidade? Aquele sorriso que você descreve pode, inclusive, ter sido bem fugaz: sob efeito de droga ou após uma quantidade de cerveja ingerida em um boteco por aí. E, digo mais: se tudo isso ainda não for verdade, devo lembrá-lo que ‘por trás de toda grande fortuna há um crime’, como disse tão bem Balzac. É o preço que se paga, e caras como você e eu nunca estaremos dispostos a pagar tão caro para andar de conversível ao lado de uma bonequinha de luxo, filho.”

Algumas horas se passaram. O pai, ao lado da mãe, aproveitou o resto daquele domingo para ir à casa de parentes em uma cidade próxima a Maringá. E o filho passou o tempo todo sentado, sozinho e com uma sensação esquisita mesclando tristeza, solidão e serenidade. Não conseguia esquecer a cena do sábado ensolarado, um homem feliz, com seu carro limpo e bonito, com uma bela mulher ao lado, dirigindo ao léu, sem compromisso, sem precisar bater ponto, curtindo a vida e contente por saber que ainda faria daquele sábado mais um dia como se não houvesse amanhã; o mundo ainda presentearia aquele feliz rapaz com uma noite de sábado, saindo e entrando do seu Audi TT conversível, abrindo e fechando portas para uma (s) mulher (es).

“Quem era aquele cara?”, não conseguia parar de pensar.

“E quem ele pensava que era para ser ‘tão’ feliz ao lado de Emilly?”, questionava, um tanto raivoso.

Na conversa que tivera horas atrás com o pai não teve coragem de contar que conhecia aquela garota e que, um dia, o cara feliz ao lado daquela “bonequinha de luxo” tinha sido ele.

*Conto publicado nesta terça-feira (26) na coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Novembro

Por Wilame Prado

Aprecio os meses de novembro. Pelo menos aqui pelos lados do norte do Estado, os ventos noturnos acalmam a alma e refrescam aqueles que enfrentaram um intenso calor durante o dia.

Lembro-me que era novembro porque conversava com minha mãe sobre o aumento das temperaturas, a aproximação do verão e as dificuldades com os climatizadores que quebram justamente nesta época. “Entra o calor, e então as geladeiras e os aparelhos de ar-condicionado dão pau. No frio, é a vez de quebrar as máquinas de lavar”, replicava para ela as palavras ditas por um assistente técnico que havia consertado há alguns dias minha geladeira.

Havia voltado para casa, naquele novembro, na cidade interiorana onde minha mãe mora. Fazia calor, mas o sábado amanhecera chuvoso e então todos se sentiram um pouco melhor, podendo respirar melhor. De madrugada, os três climatizadores de ar daquela imensa casa pararam de funcionar com a queda da energia elétrica após anúncio da chuvarada feito por um raio que se fez estrondoso pelo barulho do trovão.

Na cidadela, a história se repetia nos últimos meses do ano: mais calor, mais seca, uma chuva exagerada de vez em quando, quedas de energia frequentes e a falta de água nas casas. Como em cidades litorâneas que não suportam – logisticamente falando – a invasão de turistas nas temporadas veraneias, aquela cidade pequena do interior sofria carência de serviços a partir de novembro – mais pelas condições climáticas do que pelo aumento de pessoas que chegam até a cidade para visitar os parentes, ir a casamentos e velórios.

“O ar está parado agora, mas tenho certeza que a noite será fresca”, pensava comigo mesmo andando pela cidade de minha mãe um dia antes daquela chuva boa que caiu no sábado. Mesmo com tanto calor, não me permiti vestir uma bermuda naquele dia. Julguei mais adequado vestir calça jeans para acompanhar o velório e enterro de uma tia que morreu dormindo. Era principalmente por causa da morte dela que havia regressado à cidade onde vivi boa parte de minha adolescência e que agora tanto sofria com a falta de água e com climatizadores pifando.

“Banho agora só depois das oito. A água volta de manhã e depois das oito”, explicava-me um velho amigo de infância que encontrei no sepultamento.

E finalmente a noite havia caído. E os ventos haviam chegado. E era chegada a hora em que as pessoas, naquela pequena cidade, colocam as cadeiras de área nas calçadas para conversar sobre tudo e sobre nada, sobre climatizadores que pifam e uma tia que finalmente descansa após 55 anos de uma vida meio deslocada. Almas que se acalmam em noites de novembro. Acho que nunca mais me esquecerei daqueles dias quentes e daquelas noites amenas em que passei na cidade pequena. Por lá, o tempo passa modorrento.

Jamais esquecerei. Era novembro. Enterramos a tia na tarde daquela sexta-feira de altas temperaturas. O suor escorrendo atrevidamente do rosto do coveiro lidando habilmente com tijolos e argamassa no lacre do túmulo. No sábado, a chuva limpando o ar para alegria de todos e, ao fundo, ao longe, ouvia-se o som de uma fanfarra que executava, na avenida da pequena cidade, uma música pop que havia feito sucesso há alguns anos. Naquela pequena cidade, de tempo modorrento, com tardes quentes e com ventos noturnos, climatizadores quebravam e parentes morriam. Era novembro, e disso eu me lembro bem.

*Conto publicado terça-feira (19) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Sonho bom

Por Wilame Prado

Foi difícil viver naquele dia. Não tinha acordado de sonhos intranquilos. Pelo contrário: acordou de um sonho bom, que deixou um gosto de nostalgia, saudade e uma vontade de nunca mais acordar. Acho que se sentiu como um bebê que nasce mas que quer voltar para o útero da mãe: acordou, mas não queria parar de dormir. Só assim poderia continuar vivendo no sonho.

Lembra-se bem. Era novembro. Fazia calor de tarde, ventos agradáveis à noite e temperaturas corretas pela manhã. Na noite passada, antes do sonho mais importante de sua vida, tinha feito samba e amor até mais tarde. Mentira: tinha apenas escutado blues regravado e reproduzido no som da TV do boteco que se vestia de barzinho chique e que servia porções de peixe com gosto de água suja de rio. Tilápias não sonham, pensou ele.

Ele se recorda bem, disse, olhando de soslaio pelos óculos escuros e quadrados, tentando esconder a ansiedade para o amigo que sorvia um café ao seu lado. Era novembro, repetia ele, tinha acabado de completar 30 anos e os ventos agradáveis da noite fizeram sua garganta raspar no dia em que teve aquele sonho. Acordou com pigarros excessivos na boca e um filme imaginário na cabeça que lhe pareceu realidade – ou hiper-realidade.

As mãos tocando o negro vácuo no quarto vazio e o cérebro enganando o sujeito que sentia o contato, o cheiro, o som. Um sonho bom. Tal qual a felicidade: existe, mas acaba. O sonho existiu. Mas acabou. E para ele – e isso eu posso lhes garantir porque estive por perto –, foi difícil viver naquele dia. Era como se ele tivesse se transformado em um simulacro de si próprio. Mais do que o normal, executava as tarefas cotidianas de maneira mecânica.

Estava avoado e ao mesmo tempo ansioso, com a cabeça nas nuvens dos sonhos. Só naqueles poucos minutos em que compartilhamos um encontro na padaria, foram dois cafés esfriados pelo tempo e diálogos entrecortados, terminados como se nem tivessem começado. Acho que cheguei até a ver um pouco de saliva deslizando do canto de sua boca: realmente estava dopado pelo sonho.

O sonho bom talvez devesse se chamar pesadelo. O sonho bom tem efeitos colaterais, e isso eu pude comprovar naquele dia. E como foi difícil viver naquele dia, isso eu sentia. Cheguei a ficar preocupado com o meu amigo. Resolvi não sair de perto dele, que queria, de alguma maneira ou de outra, voltar a viver dentro daquele sonho bom. A sua displicência me incomodava, mas quando quase foi atropelado ao atravessar a Avenida Brasil, reavaliei o seu quadro psicofísico. Só fiquei realmente mais aliviado naquele dia quando o vi entregue a mais uma noite de sono – e talvez uma noite de sonhos bons – todo desajeitado em seu sofá.

Algum tempo se passou. E vez ou outra trocamos algumas palavras por redes sociais.

Ele sempre se mostra agradecido por eu ter sido uma espécie de anjo para ele naquele dia, mas me alerta dizendo que nunca mais foi o mesmo após o “sonho bom”. Os dias, gosta de contar, continuam sendo difíceis para ele, mas, relata, acostumou-se com a anestesia geral que todos aprendemos a nos dar nos dias cotidianos. Além do que, a hiper-realidade do sonho bom jamais poderá ser alcançada em um simples dia comum da realidade.

Eu nunca contei para o meu amigo nem para ninguém: fui também vítima de sonhos bons que costumam acabar com os nossos dias subsequentes. Já faz tanto tempo, mas nunca me esqueço da noite em que tive um sonho bom, sabia que tinha sonhado e não conseguia me recordar o porquê de ele ter sido tão bom.

O sonho bom mas não lembrado é muito mais terrível e devastador de dias supostamente tranquilos.

*Conto publicado nesta terça-feira (5) na coluna Crônico do caderno Cultura, do Diário de Maringá

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