Crônicas



Urubus na Zona 3

Wilame Prado
Agosto de 2015

Nunca saberemos ao certo de onde viemos e para onde vamos. Talvez seja melhor assim. Somos um pacote mal engendrado de costumes, tradições, culturas, rituais e manias. Viver é colecionar acontecimentos e sentimentos para, depois, no fim, morrer sem tirar muito proveito desta experiência.
Meu pai morreu aos 49 anos, em 2007. Descobri também que não sou pai. Perdi meu filho, que havia completado três semanas de vida dentro da barriga da mãe dele. Voltei para casa enquanto ela realizava um procedimento de curetagem. Uma espécie de colher metálica tirando do útero o resto de vida. Estava na sacada quando voltei a ver aquele enorme urubu pairando no ar. Ele insiste em trafegar pelo meu bairro, distante das zonas rurais, mas próximo de um parque ecológico. Não sei o que leva aquele urubu sobrevoar por entre prédios e casas da Zona 3 de Maringá.
A carniça, no entanto, está em todo lado. No jeito como as pessoas tratam as outras. Na política. Na CBF. E muito provavelmente na Zona 3 de Maringá. O urubu vai embora e preciso voltar ao hospital, onde visitarei uma paciente sem flores nas mãos, sem parabéns a desejar. Perdemos nosso filho, mesmo sem nunca sequer ter ouvido o batimento de seu coração.
Na primeira ultrassonografia, vi no semblante do médico que algo havia dado errado. Massas de cores acinzentadas foram as únicas imagens geradas num vexatório exame cujo outro homem introduz em sua mulher um objeto fálico, devidamente encapado com preservativo.
Naquele dia as temperaturas caíram no fim da tarde. Depois do exame, tive de voltar ao trabalho. Sem conseguir sequer olhar para os lados, com uma enorme pressão que parecia macetar meu cérebro, conclui rapidamente meus compromissos profissionais. No caminho de volta, senti o frio mais horripilante da minha vida: o frio da solidão dos derrotados. As lágrimas jorraram de minha face. Algumas pessoas testemunharam aquela cena grotesca: um homem barbado, em cima de uma moto, chorando copiosamente e seguindo o caminho.
É isso o que fazemos quando perdemos um filho: continuamos caminhando. Não tem o quê fazer. A depressão invade até a mais ínfima teia de aranha que se formou num canto obscuro do apartamento. Nessas horas, todos as pessoas do mundo – menos você – recebem a notícia de que serão pais, todas as propagandas são sobre xampus para bebês lindos que se divertem no banho.
Os conhecidos tentam um consolo. Procuram elencar os vários casos que têm conhecimento sobre gravidez interrompida por amigos, pais, parentes, irmãos, colegas, vizinhos, personagens de televisão. Poxa vida. Não é igual. Obrigado pelo consolo, mas não é igual, não é comum.
Não adianta, senhora obstetra, vir me dizer que, hoje em dia, 20% das gestações sofrem aborto espontâneo. O sofrimento individual não se ameniza com estatísticas.
Que se dane o mundo, a CBF, a Lava Jato, o urubu, a Zona 3. O sofrimento do mundo inteiro é menor que o meu. Eu perdi um filho. Eu perdi um pai. Os dias passam. A gente vai morrer. Todo mundo. Nunca saberemos ao certo de onde viemos e para onde vamos. Somos um pacote mal engendrado de costumes, tradições, culturas, rituais e manias. Talvez seja melhor assim.

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Dignidade

Por Wilame Prado

Fico pensando no conforto que a gente tem. No frio é que se dá o devido valor a uma blusa. E não importam marcas e nomes. Conforto é a palavra certa para descrever o que de mais valioso conquistamos trabalhando por tantos anos. A nossa lida continua.

Hoje eu me sinto um sujeito agradecido. Parei de esquentar a cabeça com a conta no vermelho e me sinto até abençoado quando o trabalho acumula um pouco: isso nada mais quer dizer que, ainda bem, tem gente que confia no profissional que sou.

Os dias passam. Os anos voam. Uma década rapidamente se completa. Quanto tempo passei sem me olhar direito no espelho? Hoje vejo outra pessoa. Os cabelos brancos estão aqui, alguns quilos a mais foram inevitáveis: a boa e velha sexta-feira da pizza.

E então, olho no olho (olhando no espelho), reavalio o meu passado e percebo que as batalhas nunca se cessaram e que, também, as derrotas foram inevitáveis.

Emociono-me. Mais uma ruga brotou em meu rosto. E as costas acusam um cansaço que só se abranda um pouco quando existe a paz em um fim de semana com o time retirado de campo.

Teimo em olhar-me. O olho. A lágrima anuncia. Tantos arrependimentos. Tantos erros. Tantos caminhos tortuosos enfrentados em meio ao inebriante pensamento turvo.

Parece ser quase um milagre ainda estar aqui, de corpo presente. Parece ser uma dádiva o simples ato de ir e vir. Há misericórdia no espaço. Existem segundas chances. Feito bobo em frente ao espelho, olhando uma biografia que se constrói errantemente, visualizando um sujeito que tenta, mas muitas vezes não consegue, rememorar aquele alegre menino que tinha o mundo inteiro pela frente, eu nada mais consegui enxergar a não ser uma urgente necessidade de perdão e – talvez – redenção, renascimento.

A água límpida e fria cai da torneira, lava minha mão e alcança os poros do meu rosto. A vida ainda está lá fora, e aqui dentro de mim também.

Perdão, meu pai. Perdão, pessoas. Perdão, mundo. Eu errei, e continuando errando. Mas quero muito mudar. Voltar a sorrir e caminhar. Quero viver com dignidade. Ser um sujeito digno. A vida precisa de mais dignidade.

Termino de enxugar o rosto. Saio de casa. Faz frio e a queda na temperatura foi brusca e repentina.

Volto a pensar no conforto proporcionado por minhas roupas macias e quentes. Egoísmo ou gratidão? O conforto conquistado. A vida precisa de mais dignidade, para todos que habitam esse mundo enlouquecido.

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Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Os não-torcedores do Neymar

Por Wilame Prado

Há cinco anos, após começar a brilhar com a camisa do time profissional do Santos em plenos 17 anos de idade, Neymar Jr é assunto recorrente da mídia. De lá para cá, o jogador conquistou uma legião de fãs e desafetos também. Os rivais da equipe santista são detentores de torcidas populosas. Muitos destes, em especial, alimentam uma raiva doentia pela camisa 10 da Seleção Brasileira, e as causas dos sintomas podem ser facilmente explicadas por duas frentes: pela simulação de faltas que o atleta insiste em desempenhar, mas principalmente pela ousadia e alegria – bordão que ele eternizou em tatuagens e nas chuteiras – que resultam nos mais belos gols, nas mais belas jogadas.

Discussão velha, no entanto. Neymar já nem é o 11 do Peixe, disputou uma temporada com o Barcelona e, desde 2013, é a grande estrela do futebol brasileiro porque, ao contrário de Messi com a Argentina, chamou rapidamente para si a responsabilidade com a camisa amarela, foi peça fundamental na conquista da Copa das Confederações e, até onde pôde ajudar na Copa do Mundo deste ano, desempenhou papel crucial para que exatamente hoje, logo mais às 17 horas, possamos estar grudados à telinha assistindo a uma semifinal de copa, coisa que não víamos desde 2002, quando vimos ainda mais, um Brasil sendo brilhantemente campeão mundial.

Pensando bem, discussão velha, mas nem tanto. Tive a oportunidade de ver alguns jogos recentes do Brasil com pessoas que dizem não gostar do Neymar. Os olhos destas pessoas, quando a bola está nos pés do craque, aumentam de tamanho, assustados. Suam frio, mais do que o próprio adversário, temendo o pior, que, para eles, parece ser mesmo o êxito da jogada, o gol, a mágica, o futebol-arte. Os não-torcedores do Neymar implicam demais com ele, foram, talvez, acometidos por uma espécie de trauma após verem seus times tanto sofrerem com os pés deste menino de só 22 anos. Quando dribla genialmente, eles dizem que Neymar é fominha. Quando faz um gol – e só na copa foram quatro – olham de lado, comemoram com menos entusiasmo e geralmente dão crédito para quem passou a bola para ele concluir com bola na rede.

Chega a ser engraçada essa birra que há com o melhor jogador que despontou no País após a aposentadoria precoce de Ronaldo Fenômeno. São tão birrentos os não-torcedores do Neymar que, com a contusão dele no jogo contra a Colômbia, alguns chegaram a dizer que a sua ausência seria menos sentida que a suspensão do ótimo zagueiro e capitão do Brasil, Thiago Silva. Aí eu pergunto: quem está à altura para substituir Neymar naquele banco de reservas? Dante, ou até mesmo Henrique, podem jogar bem lá atrás, com a força que terão do simplesmente melhor jogador da copa, chamado David Luiz. Mas e lá na frente? Quem é que vai chamar o jogo, conduzir a bola, desestruturar o adversário, cobrar escanteios com maestria, bater faltas perigosas ao gol e – com ou sem exageros, com ou sem simulações – sofrer as faltas e dar chances reais de gol para um time que tem aproveitado bem as bolas paradas nas partidas? Vamos torcer para William ou o próprio Bernard entrar bem no jogo de hoje contra a Alemanha. Podem sim, fazer ótimas partidas, jogar até melhor do que o Neymar e, assim como fez Amarildo em 1962, suprir a ausência de um camisa 10 do Brasil.

Eles, os não-torcedores do Neymar, continuarão buscando justificativas absurdas para provar que ele não é craque, que ele é fominha, que ele deveria ser ator ao lado da namorada, que deveria nem estar usando a 10, que deveria mesmo é estar como está agora, machucado (“Vai fingir tanta falta! Deus castiga”, dizem os mais bizarros não-torcedores) e vendo do lado de fora o espetáculo do futebol que o próprio ajudou a se concretizar.

São raivosos estes não-torcedores, enfim. Um deles, jornalista que escreve para o Portal R7, expressou publicamente em redes sociais a sua torcida (isso em 23 de junho) para que o Neymar se contundisse, quebrando o fêmur, de preferência. Mas para o desespero de todo eles, Neymar tem idade – e futebol – para jogar mais umas três copas do mundo. Isso se a mandinga e a não-torcida deixarem.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O meu amigo Barba

Por Wilame Prado

Vi um cara parecido com o Barba. Será que o Barba entraria assim naquele bar? Será que ele paqueraria a moça bonita das pernas magrelas, sentada a quatro mesas, 23 cadeiras e aproximadamente três metros de distância de mim? Será que teria comemorado os dois gols do Neymar, um de Oscar, tacando cerveja pra cima, tal qual certamente fez o cidadão levemente alcoolizado, com camisa amarela falsa do Brasil, boné descaindo pelas orelhas, horroroso, na mesa 43, a mesma mesa que já pediu mais de doze vezes novas garrafas de cerveja, uma porção de batata frita com muito queijo e bacon jogados por cima e ainda algumas rosetas de sal e limão porque as duas moças gostam de misturar a bebida levemente salgada e azeda com goles generosos de bebida alcoólica enquanto não entendem muito bem porque houve tão rapidamente um gol contra do Marcelo, e também porque se deve colocar a bola na marca branca próxima ao gol quando alguém do Brasil cai na grande área?

Pego-me a imaginar o Barba dentro daquele bar que mais se parece uma jaula suja, lotada de animais que precisam de cerveja como uma espécie de água e comida vitais para as energias juvenis de gente que só quer ter a coragem de olhar por mais de três segundos para os olhos amendoados da menina que revela tristeza até mesmo quando sorri, ou então a ousadia de tecer comentários com começo, meio e fim para a roda de amigos, sempre com uma pitada de humor, sempre com uma pitada de sensualidade no ato de revelar os contos cotidianos da vida regados a mais mentiras ou superlativos do que a verdade propriamente dita.

Barba perceberia que a loira que chegou com o cara da corneta gosta mesmo é do amigo do cara da corneta – tamanho foi o beijo tascado no rosto desse amigo, beijo que quase chegou na boca do amigo, beijo que revela segredos, intimidades, vontades e desejos da loira acompanhada do cara da corneta? Estaria ele incomodado com tanto barulho, irritações, braços que se tocam, gente que se empurra, banheiros sujos, vômito, urina e fezes, calor e frio, carros que sobem a avenida, motocicletas que aceleram de propósito na avenida e que, pela execução de seus devidos motociclistas, produzem sons que se assemelham ao estourar de rojões (comemoremos, é o Brasil ganhando jogo de copa do mundo!)?

Gostaria de saber onde estava o Barba no exato momento em que, após uma abertura muito criticada e chata (valeu ver apenas o rebolado da Jennifer Lopez e a sua beleza que chega a nos agredir fisicamente), finalmente a bola começou a rolar numa das copas mais aguardadas de toda a minha vida. Estaria em Maringá, no Jardim Alvorada de Santa Fé, em Londres, Nova York, Pantanal ou mesmo lá dentro da Arena Corinthians, vaiando a Dilma ou torcendo para que aqueles rapidíssimos 90 minutos não se esgotassem jamais, tamanha é a festa, tamanha é a alegria representada pelo futebol, tamanha é a emoção de viver, estar vivo e ter alguns dinheiros a mais a ponto de poder sim, o próprio Barba, hoje estar vendo com os próprios olhos da cara, sem filtros, sem televisões, sem replays, sem a voz do Galvão Bueno, o primeiro jogo da seleção em plena Copa do Mundo Fifa – Brasil 2014.

Lembro-me da última vez em que vi o Barba. Ele estava daquele jeito de sempre, lento caminhar, olhar distante, mão no ombro da mãe, bengala na outra mão, dando passos nas calçadas daquela pequena cidade como forma de exercício fisioterápico para, a conta-gotas, ir recuperando os movimentos da perna, perdidos após um trágico e besta acidente de moto. Se não fosse uma imensa placa que o impediu de continuar acelerando a sua moto, e que, por pouco, não gerou uma tragédia ainda maior para toda a sua família, Barba poderia estar aqui neste bar, comemorando feito idiota, assim como eu, mais uma “vitória” da Seleção Brasileira. Poderia, quem sabe, até chutar um placar para o próximo jogo, para o próximo espetáculo de circo, para a próxima palhaçada, cujos atores em cima do palco estariam uns vestidos com o amarelo do Brasil e outros vestidos com o verde do México. Viva o futebol. Viva o bar. Viva a cerveja, a festa e viva as pessoas que podem usufruir disso tudo sem precisar escorar numa bengala e no ombro de uma forte e guerreira mãe, assim como o meu amigo Barba precisa.

*Crônica publicada nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Lição da juventude

Por Wilame Prado

Que pessoas saudáveis! Que gente bonita! Jovens e mais jovens. Peles claras – sem maltrato –, olhos que brilham. Moças com cabelos sedosos e lisos, extremamente lisos. Homens com cabeçorras, barbas por fazer, na moda, e uma pele que denuncia uma vida de infinitas horas de videogame no apartamento, que lazer, vida mansa, tudo na paz. Geração 2000.

Eles, esses jovens que invadem inevitavelmente o universo de minha visão mediada pelas lentes dos óculos contra miopia, já estão no boteco, já descobrindo os prazeres causados por alguns copos inocentes de cerveja, talvez um baseado e até algumas carreiras para mais tarde. Uma juventude bonita e equipada, alguns já com a posse de veículos, outros com caronas garantidas de volta para casa. Eles parecem se divertir à beça.

Daqui do boteco, vê-se gente pobre, classe média e gente rica. Não importa, a democracia chegou: todos têm Instagram e Whatsapp. A noite é singela. O bar, lotado. A luz do refletor ilumina de laranja um momento único, parecido com o pôr do sol. Mas ninguém percebe. A democracia é cega perante aos fatos poéticos da vida. Não há poesia dentro da tela de um celular. Eles estão na busca pelo selfie perfeito, na pose, sendo poser, todos têm amigos, afinal, e ainda bem, todos têm histórias para contar, todos são engraçados, e bonitos.

Quantas aventuras e peripécias ainda narrarão na mesa do bar? E como eles riem, como são brancos os dentes deles, como é ingênua a felicidade deles, mas eles estão certos, todos certos. Querem mais é extravasar. Mas, então, não me aguento. Chamo o garçom. Pergunto para ele, que parece ter vivido um pouco mais de anos de vida – assim como eu, um, naquele local, velho de 42 anos esperando um pouco do passar de vida na mesa do bar –, e faço a seguinte indagação: “É ou não é tudo isso muito engraçado?”

Sorriso amarelo, ele pergunta se vou querer outra beer. Digo que sim, e digo mais, digo que quero todas as cervejas do estoque dele, e todas as cervejas que ainda restam em cada uma daquelas mesas vermelhas do bar que recebe, gratuitamente, a atmosfera da lua e o ar fresco que deve chegar com a força do vento marítimo, eu sei lá. Finalmente admito a brincadeira, e o garçom sai de perto de mim, sério e espantado. Tenho certeza de algumas coisas: ninguém daquele boteco percebeu a lua mais bonita dos últimos dias e o vento mais refrescante da última estação que se faziam presentes naquele local. Era espetacular, e aquela sensação, uma espécie de beira-mar em pleno bar numa cidade onde jamais existiu praia, também nunca foi registrada em rede social alguma.

Então eu me levanto. Rio comigo mesmo. Soa sarcástico, mas está tudo bem, ninguém percebe a presença do tio ali, pensava eu, transformei-me num ser invisível, o que pode ser bom, dependendo da situação. Só que, inesperadamente, um rapaz muito forte e jovem – daqueles que se aproveitam das tardes amenas para malhar, tomar suplementos e treinar lutas marciais – andou a passos largos e rápidos em minha direção. Parecia furioso, e olhou poucos segundos bem no fundo dos meus olhos. Sem reação alguma, apenas senti uma ardência em meu rosto e um medo muito grande de ficar cego por conta das lentes dos óculos estraçalhadas e engalfinhadas por toda a minha face. Devo ter levado uns sete ou nove socos até ter dado o tempo de garçons e jovenzinhos ao redor conseguirem segurar aquele brutamontes enraivecido.

Ainda ao chão, roupa empoeirada, cara lavada de sangue, uns 30% da visão não comprometida pelas lágrimas, sangue, suor e lente em cacos, finalmente pude encarar o cidadão que se viu no direito de me espancar em praça pública, tal qual o escravo no tronco aguardando a ardência do açoite. E então finalmente entendi o acontecido: ele, sentindo-se um representante desta juventude bonita e de cabelo liso, deve ter percebido tudo. Ao contrário do garçom, o fortinho notou que eu denunciava toda aquela comédia que é a vida em cena, em falsete, naquele boteco carregado de jovens com pele sem maltrato, cheios de dentes brancos e prontos para o manuseio correto de smartphones. Quis ele, o moço da academia e das lutas, fazer justiça com as próprias mãos.

Não pude conter o riso, mesmo com as dores, mesmo com toda aquela aparente humilhação, que, estranhamente, não sentia. Só que quando ele me viu sorrindo novamente, óculos destruído ao chão, garçom dando guardanapo para limpar sangue da boca e do nariz, aí, meu amigo, ninguém conseguiu segurar a fúria desta juventude bem alimentada, principalmente pelos suplementos vendidos na academia. Foi soco e pontapés para todo lado. Acordei na Santa Casa, na manhã do dia seguinte, rodeado por alguns familiares, aparentemente assustados.

*Conto publicado terça-feira (3) na Coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Dinheiro não compra a metafísica do futebol

Por Wilame Prado

Futebol tem dessas coisas. E é por isso que é mágico. É por isso que deve ser respeitado, goste-se ou não do esporte bretão responsável pela emoção de milhões de torcedores pelo mundo afora, e duelado, em média, duas vezes por semana, ou, como diz o técnico Muricy Ramalho, jogado quarta e domingo quarta e domingo quarta e domingo.

O Figueirense é um horrível time, um “catado” de Santa Catarina e que fatalmente cairá para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro no final deste 2014. Sei disso. Sei da ausência de qualidade do time catarinense. Vi, com meus próprios olhos, Figueirense 0 x 2 Santos domingo retrasado, em jogo disputado no péssimo gramado do Estádio do Café, em Londrina. Admitamos, pois: o Peixe está devendo futebol desde que perdeu o estadual para o Ituano, mas perder para o fraquíssimo Figueira, aí seria demais.

O time de Florianópolis colecionava quatro derrotas e zero gol, em quatro jogos, quando chegou, anteontem, à monumental Arena Corinthians para enfrentar o dono do estádio Padrão Fifa em jogo válido pela quinta rodada do nacional. Os barriga-verdes foram para não perder de W.O. Foram para cumprir tabela. Foram para evitar, ao menos, um vexame maior. E saíram vitoriosos. Um a zero para o azarão. E fim de papo, ficou para história: lembraremos para sempre que, na inauguração do estádio de abertura da Copa do Mundo Fifa 2014, plantado graças a muita grana vinda nem sei de onde na zona leste de São Paulo-SP, o Corinthians perdeu.

Mas, que loucura: era derrota na certa para o Figueira. Por lá, o primeiro jogo de um time que, por mais de 100 anos, esperou para ter um estádio. Mas futebol tem dessas coisas, como sabemos. No mundo futebolístico, não há cavalo premiado para apostar. Não tem bilhete marcado, salvo exceções, quando resolvem comprar os juízes ou quando um time se presta a perder de propósito só para azucrinar rivais. Caso contrário – talvez tirando também aquele desastroso e arranjado França 3 x 0 Brasil na final da Copa do Mundo de 1998 –, futebol é imprevisível, é mágico e nos atiça a dizer o famoso slogan do cartão de crédito: “Existem coisas que o dinheiro não compra”.

Dinheiro não paga uma vitória e os gols de uma partida bem jogada. Dinheiro não paga o toque metafísico que há em diversas disputas entre as quatro linhas do gramado, quando Davi vence Golias, quando o mais fraco surpreende o mais forte, quando um jogador retorna de lesão, chega a sonhar com o tento da vitória e sacramenta o êxito para o seu time marcando um gol em chute cruzado nas redes de Cássio, no começo do segundo tempo. Estamos falando de Giovanni Augusto, o “craque da camisa número 10” do alvinegro catarinense, e que merecia uma placa. E, ainda que, com a arrecadação recorde no jogo graças aos 36.694 pagantes e o rendimento de R$ 3.029.801,70, dinheiro não paga o Figueirense vencendo o Corinthians em plena inauguração de seu estádio, após angustiante espera de 104 anos de um time por uma casa própria.

Mas, fora tudo isso, no fim das contas, passada a euforia envolvendo o jogo atípico, todos sabemos que muitas vitórias corintianas acontecerão naquele belo estádio e que, mais do que no Pacaembu, aquele bando de loucos gritará mais forte que nunca e continuará estimulando os jogadores a buscarem a vitória, custe o que custar. E como bem conheço tantos amigos corintianos, tenho certeza de que a derrota na inauguração da Arena Corinthians, no fundo, já era aguardada. Afinal, confessam-se sempre como sendo os maiores sofredores do futebol planetário.

*Crônica publicada terça-feira (20) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Pesos do passado

Por Wilame Prado

Mais da metade do Brasil está acima do peso. Maringá também, segundo pesquisa realizada pela JGV em parceria com o Diário sobre o famoso Índice de Massa Corpórea (IMC). Na pesquisa, 54,2% dos entrevistados maringaenses apresentam sobrepeso ou obesidade. Eu estou acima do peso. Por baixo, uns sete quilos que precisam sumir de minha existência física para que eu não seja mais enquadrado como alguém pesado em excesso. Hora, então, de falar sobre o meu pai.

Era ele quem dizia que eu precisava comer mais, quando criança, para deixar de ser esquelético. Quando ele morreu, há sete anos, eu ainda era magro. O oposto de agora. Certamente, se tivesse medido meu IMC em 2007, o índice seria de magreza ou má-nutrição. Eu era um ser humano com a mesma altura, só que com 20 quilos a menos. Muitos desafios diários envolvendo estágio, faculdade, transporte coletivo e caminhadas. Não havia moto, não havia carro, não havia casamento e, sobretudo, não havia sequer dinheiro para almoçar direito.

Meu pai era gordo. Tinha as pernas finas e uma barriga enorme. Quando a vida ficou bem mais difícil para ele, emagreceu bastante. Mas a barriga nunca sumiu completamente. É estranho pensar sobre a imagem de um pai. Acho que sempre veremos nossos pais como fôssemos crianças e eles uns adultos enormes, cheios de razão, cheios de direitos para com você. Gigantescos. Mas como se apequenam os velhos pais deitados numa cama de hospital… a imagem das mais difíceis para um filho ver.

Ayrton Senna era magrinho. Pudemos ver diversas imagens dele nesses últimos dias. Chorei com rúculas (não estou de regime) na boca enquanto almoçava e assistia, ao mesmo tempo, imagens de um documentário sobre o piloto de Fórmula 1 que nos deixou há 20 anos. Senna parecia ser uma pessoa um tanto especial. Parecia ter urgência de viver, parecia saber que era um missionário e que a sua missão teria um prazo curto de validade. Ele morreu aos 34 anos sem deixar filhos, mas deixando inúmeros fãs e um enorme legado.

Em 1º de maio de 1994, com 8 anos de idade, dei uma dica para a minha família do que seria quando crescesse: jornalista. Sabia o quanto meu pai gostava do Ayrton Senna, e a minha grande missão naquele dia, pelo menos em minha cabeça, seria dar a notícia em primeira mão para ele. Ficaria contente, independentemente da morte do ídolo, quando revelasse a trágica notícia para o meu pai. Corri, então, rapidamente, as quadras que separavam minha casa da de um amigo, local onde havia ficado sabendo do desastre envolvendo o piloto. E, como sempre, meu pai não estava em casa. Nem me lembro do que aconteceu depois, se realmente cheguei a dar a notícia da morte do Ayrton Senna para alguém.

O tempo passou. O tempo passa bem rápido. E, tirando os pesos que costumam se acumular em nosso corpo, as coisas tendem a desaparecer. Os amigos, os ídolos e os nossos pais costumam ir embora, muitos deles para sempre. Há 20 anos, Senna morreu. Há sete anos, meu pai morreu, também em 1º de maio. As lágrimas, no final das contas, sempre cairão no prato de rúcula, assistindo a um documentário ou sentindo a ausência do pai, estando ele vivo ou não. Só que este ano fiz diferente, ou pelo menos quis pensar diferente: sete é um número forte, sete anos é tempo demais, e a data pode pressagiar (tudo depende do seu próprio pensar) novos tempos.

Inicio, então, as despedidas das sombras. A morte do pai fica no passado (essa história que escrevemos todos os dias, para nós mesmos), opto apenas pela vida dele, pela lembrança boa, pela saudade gostosa. Assim, quem sabe, consiga até me reencontrar com as vitórias seguindo os exemplos de determinação e força do nosso querido Ayrton Senna. A primeira batalha? Contra a balança.

*Crônica publicada nesta terça-feira (7) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Gabo faz falta, ou a câimbra na alma de Esteban

Por Wilame Prado

Um dia, nos livros de história, falarão do nosso tempo e da insistência que os habitantes do Velho Mundo tiveram em tentar nos rebaixar, nós, os latino-americanos. Assim como hoje tendemos a ficar chocados com a escravidão ou com as coisas da Idade Média, por exemplo, os habitantes do futuro, até mesmo os que moram na Europa (que talvez nem seja mais a Europa), sentirão asco do preconceito que insistiu em existir na Terra por muito tempo, inclusive no século 21.

O espetáculo do futebol é o espelho da vida real. Daniel Alves, lateral-direito do Barcelona e da Seleção Brasileira, comeu a banana que jogaram no picadeiro do gramado verde e contribuiu para que o mundo todo discutisse as formas de racismo. Atendeu a Cristo, que diz para darmos também o lado esquerdo da face para bater, mas dotado de ironia fina: em vez de se abalar com o ato de racismo, comeu, agradecido, a banana, fruto que tem potássio e com isso combate as tão comuns câimbras no esporte bretão.

Só por causa daquele pedacinho de fruta saborosa e madura, o brasileiro nascido na Bahia conseguiu, sem sentir câimbras, um cruzamento dentro da área que resultou no gol contra de Musacchio. Final da partida: Villarreal 2 x 3 Barcelona (com, veja só, dois gols contra do time que tem torcida racista e uma banana que se tornou símbolo de protesto no mundo todo).

Alimento saboroso, banana engorda e faz crescer, conforme cantou Raul Seixas. Com mel e aveia é uma delícia. Batida com leite, as bananas resultam em boa vitamina. Pseudobaga da bananeira, ou seja, uma pseudofruta, a banana é uma planta herbácea da família Musaceae que é produzida em 130 países.

A Espanha produz banana? Não importa se era ou não importada a banana tacada em Daniel Alves. Pesquiso, então, um nome comum no país da Península Ibérica. Esteban é meu personagem. Esteban sai de sua casa na cidade de Villarreal, Província de Castellón, e leva consigo uma banana madura. Não a come. Não se nutre. Tem apenas o plano maligno e “genial”, conforme confessa para os amigos, de arremessá-la no gramado justamente quando Daniel Alves fosse cobrar um escanteio.

“Por que fez isso Esteban?”, pergunta o mundo, pergunta a consciência do próprio. Após ter alimentado o adversário com o rico fruto, Esteban volta para o lar cabisbaixo, triste com a derrota do time fazedor de gols contra e com medo de ter sido flagrado pelas câmeras no momento em que tacava a banana, talvez sorrindo de seu ato boçal e rapidamente sentindo todos os dentes podres se amarelarem ao se surpreender com a comilança do nosso Daniel Alves apreciador de bananas. Certamente Esteban teve câimbras terríveis já deitado na cama, em meio a pesadelos em que morria afogado em tonéis gigantescos onde se preparava um saboroso doce de banana.

Esteban, aliás, não leu “Cem Anos de Solidão”, clássico livro do nosso querido e agora saudoso escritor colombiano Gabriel García Márquez – porta-voz da América Latina e detentor de alta obra literária que cala qualquer escritorzinho catalão de meia tigela. No romance que apresenta a saga da família Buendía na mítica Macondo, publicado originalmente em 1967 e que já vendeu mais de 30 milhões de exemplares, a Companhia Bananeira é metáfora da América Latina exportadora de matéria-prima no sistema capitalista.

Exportamos sim bananas e jogadores para o espanhol e o mundo todo comer e ver. E só recebemos em troca ofensas por meio de gestos que traduzem fatos alarmantes: bons índices educacionais não significa dizer que os europeus são educados e a falta de bondade no coração para com o próximo – independentemente de raça, país, cor ou fruta preferida – continua sendo um desafio a ser encarado pela maioria dos seres humanos. García Márquez já está fazendo falta.
*Na tarde de ontem, o Villarreal informou que identificou o torcedor atirador de banana e decidiu retirar seu carnê de sócio, além de proibir seu acesso ao estádio El Madrigal pelo resto da vida.

*Crônica publicada nesta terça-feira (29) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Maringá FC, um time de respeito

Por Wilame Prado

Mesmo com a derrota no jogo dramático do último domingo no Estádio Regional Willie Davids para o Londrina Esporte Clube, afirmo sem medo de errar que o Maringá Futebol Clube é também um campeão. Não leva o caneco, mas merece os parabéns pelo jogo jogado tanto dentro das quatro linhas como fora – uma bela campanha de um time que, em pouco tempo, pulou da terceira para a primeira divisão do estadual, perdendo poucas partidas neste período, desempenhando um futebol elogiável e que se estende nestes quatro anos de fundação do clube.

Dito isto, revelo: fiz uma promessa para mim mesmo na noite do último sábado, vendo uma garoa fina molhar o chão do pátio aqui do jornal, pensando na grande final do Paranaense, que só escreveria esta crônica em caso de derrota do Maringá FC. Fui, durante pouco mais de um mês, assessor de imprensa do time e, em caso de título, evitaria escrever para que não pensassem que estivesse eu me incluindo – justo nos festejos – como parte integrante daquela que foi, e continua sendo, uma verdadeira família capitaneada pelos irmãos Regini (Zebrão e João Batista), gerenciada pelo diretor de futebol, Paulinho Regini, e orquestrada pelo técnico Claudemir Sturion.

Durante o pouco tempo em que convivi com funcionários, comissão técnica e elenco do Maringá FC, percebi o tamanho da pressão que envolve aqueles que trabalham com algo intimamente relacionado à paixão das pessoas. É bem mais fácil torcer do que trabalhar com o futebol. Corre nos sangue dos maringaenses o esporte bretão. Homem, mulher, criança. Não importa o nome do clube nem as cores do brasão: o que importa, para a maioria dos moradores desta cidade, é o melão rolando no gramado verde do Willie Davids.

Por tudo isso e muito mais, sinto uma vontade danada de parabenizar o pessoal lá do time, a começar pelo roupeiro Eli Lima, lenda viva do futebol maringaense desde os anos 1970, até o boa gente João Regini, presidente que está sempre escalado para a pelada descontraída nas manhãs de sábado junto ao plantel, no CT Vale da Zebra, e que não se importa nem mesmo de ajudar um assessor sem jeito a pregar no alambrado do estádio um painel, com a logo do time e patrocinadores, servindo de fundo nas entrevistas para a TV.

Essa campanha do Maringá FC, que resultou num vice-campeonato com sabor de título – o time demonstrou uma evolução impressionante até chegar às finais e, afora as penalidades, jogou melhor no Estádio do Café e também em casa –, ficará guardada em minha memória em relances de quando trabalhei para o time, em especial os momentos em que fiquei na beira do gramado do Willie Davids. Momentos de bastidores que, talvez, digam mais do que as arrancadas de Reginaldo, os lançamentos de Léo Maringá, os dribles de Max, o oportunismo de Gabriel Barcos, os gols de Cristiano, a raça de Zé Leandro, as defesas de Ney e depois de Ednaldo, a seriedade de Fabiano na zaga e tanta entrega dos demais do elenco.

Nas entrelinhas da assessoria para o Maringá FC, entre uma anotação e outra no caderninho, entre uma informação e outra repassada para os colegas de imprensa, entre um pedido e outro de declarações para jogadores, comissão e diretoria, entre uma crítica e outra de jornalistas querendo água, querendo lanche, querendo entrevistas, querendo informações exclusivas, querendo tudo (!), certamente o que mais me marcou foi o término das partidas, momento em que, exaustos, todos os envolvidos nessa guerra benigna que é o futebol, saíam pelos fundos do velho Willie Davids e iam embora para o descanso merecido. Uns, rodeados por filhos em festa e mulher carinhosa. Outros, solitários, rumando ao alojamento onde provavelmente sentiriam saudades da família que ficou longe. Outros, ainda, acelerando seus automóveis para passarem pelo menos um dia ao lado daqueles que o amam e que ficaram em casa. Todos, sem exceção, humildes, determinados e felizes por fazerem aquilo que mais gostam nesta vida, que é viver em função do futebol e que foi (pelo menos até então) ter vivido pela honra e glória do Maringá FC, um time de respeito.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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