Divagações



Novembros

Por Wilame Prado

Novembros são excêntricos
Pesam toneladas de essência
São decisivos como os pênaltis
Errantes como canhotos,
nos pênaltis
Não são meses
…seculares, milenares…
Fodem no tarô, traem na rotina
Chove, e faz sol (e faz arco-íris)
casamento de espanhol
Sabe-se da doença
Anuncia-se matrimônio
Divórcios, então
Teste deu positivo
Conta está no negativo
Multas remetidas
Cartas nunca recebidas
Aniversários sem convidados
Aniversários jamais anunciados
Aniversários nos finados
Peçonhentos ambulantes
signo dos amantes
Saiu na pesquisa
Andarilhos são de escorpião
em sua maioria
Um mês qualquer
mês de bola, samba e vodka
ventou absurdamente
no dia onze do onze
a árvore caiu
na casa atingiu
ninguém se feriu
soltaram os bichos do canil
piedade nunca existiu
novembros, vão pra puta que pariu
no dia doze do onze
não ventou absurdamente
varrição das besteiras da mente
dia após dia
sempre em frente
fez sol, havia esperança
de consertar a mente da gente
pé pelado no asfalto quente
o suor escorrendo da testa
miragem nos faz sonhar
existir, até sorrir
engano, erro, inocência, seu demente
ainda há todo um mês pela frente
novembros são todos os meses
de que se possa imaginar
em vida existente
o sepultamento se deu
em trinta de novembro
daquele ano vigente
Nem vai notar que,
ainda bem,
dezembros também são sempre
ineloquentes.

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Sonhei com o Chico Xavier

Por Wilame Prado

queria fazer literatura
pós-moderna
mas leio no meio&mensagem que
não existe cara foda no stories
com mais de 30
nunca soube mexer no Snap
há um choque de geração
nasci em 1985
uma menina do ano de 1995
já não liga mais a TV
como a gente
fica no escuro
deixando-se iluminar
pela tela do celular
pelo mundo na palma da mão
o passado parece mais
não valer um tostão
voltemos às cadeiras de balanço
alpendres frescos numa tarde outonal
e sonecas de duas horas após
o almoço
e ela atualiza
comunica
se trumbica
convivências assépticas
e distante dos
dramas existenciais
graças a Deus
sonhei com relógios
que precisam ter
os ponteiros alterados
e agora o tempo mudou
histórias que se apagam
em vinte e quatro horas
vídeos de quinze segundos
mais de duzentas visualizações
uma curiosidade
também sonhei com Chico Xavier
o que isso significa?
talvez apenas mais um vulto
do passado
invadindo o presente
só em sonho
passados não têm futuro
a menina de 1995
pouco tinha ouvido falar
de Chico Xavier.

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Astronauta americano

Por Wilame Prado

757 estão assistindo agora a live
do astronauta americano
filmando o Planeta Terra.
Tá no Youtube
Passo o link se quiser
Tem trilha sonora boa
Calma
Tipo o som do útero da mãe
Das baleias dos oceanos mais distantes
Cavernas nunca habitadas no Mediterrâneo
Pessoas compartilham opiniões no chat
Mandam good vibes para o homem que está só
E pedem informações do Espaço
Ou então dizem da onde são
Dizem hi, mandam emojis
Sorrisos, Mundo, Coração
O astronauta americano virou a câmera
E mostrou o seu lustroso capacete,
de astronauta
Uma bandeira norte-americana
Na manga da camisa
Droga: um anúncio invadiu a conexão
Universo dos gamers
Propaganda da Vivo
De internet rápida
Para simular a imensidão
Que é ser só num quarto
Brincando de interatividade
Com games que não medem
o tamanho da solidão
A live voltou
A música calma também
O astronauta americano
não está só
No Espaço
Agora, 696 pessoas estão assistindo
No chat, o Youtube pede
Wilame Prado diga alguma coisa
Prefiro não dizer (escrever) nada
Um novo anúncio invade a tela
Não existe almoço grátis
Thiago Leifert prometendo
que a Claro faz milagre na comunicação
pulei o anúncio, claro
para voltar a ficar olhando a branquidão
Tons azul embaixo das nuvens
Água céu mar
O nosso mundão
Equipamentos de uma nave sideral
Um astronauta fanfarrão
Só mais um americano que gosta de selfies
Só mais um representante da nossa geração
Passaria a vida olhando para o Planeta Terra
Para o homem que já não se assusta com a solidão
Mas e a gente, aqui na Terra?
Perdidos na multidão de sete bilhões de seres
Meio estranhos, com sorrisos amarelos,
Forçando amizades
E combatendo sempre a solidão
A gente alimentando stories no Instagram
Para provar que a vida é mesmo muito boa
Provar apenas para nós mesmos
Piscina, academia, gatos, corpos, shakes, músicas, baladas, bebidas, mulheres, cigarros, pornografia, celebridades, subcelebridades, pseudocelebridades, gente tentando virar celebridade, vida, movimento, viagem, cada canto do mundo, frio, calor, chuva, sol, lua, estrelas, beijos, gatos novamente, roupas, perfumes, eletrônicos, acessórios “recebidos”, todos querem aparecer, filhos, avós, trabalho, trânsito, Neymar em Paris, gols, golaços, boomerang, imagem em câmera lenta, layouts, filtros, aberrações, políticos, propaganda, propaganda, propaganda, e notícias, e propagandas disfarçadas de notícias, mortes, nascimentos, mais um copo de cerveja, café, hambúrgueres, uma mensagem para empreender, mulheres, mulheres, mulheres…
Tudo isso na telinha
Na bolinha da historieta
Tudo isso e tão pouco,
Somente uma tradução:
relação de humanos e aparelhos inumanos
Estamos sozinhos na multidão
Wifi não garante afagos
É apenas uma simples conexão
Com o Espaço e,
infelizmente,
com o vazio
da vida
Lá em cima,
o astronauta americano nunca mais ficou só
E preferiu
Nunca mais voltar.

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plástico

no que eu me tornei?
não toco mais violão
não faço gols
não leio mais que três páginas de uma vez só.
não vou ao cinema.
não vejo parentes.
tenho poucos e distanciados amigos.
eu passo um dia todo sem sequer pensar nas pessoas que amo.
eu brigo com os números de contas bancárias.
eu plastifiquei as relações.
eu nem beijo mais.

tudo é um jogo.
estratégias de sobrevivência.
noites que passam num piscar de olhos, fechados, dormindo.
dias que duram séculos.
o trabalho nunca acaba.

a vida acaba.
o amor pode acabar.
as pessoas podem acabar com você.
ou, pior: ignorarem você.
Afastarem-se de vez.
o mundo não está a seus pés.
ninguém está nem aí para você.

e quando a doença vier?
quem estará ao teu lado?
um amontoado de notas e moedas não fazem companhia.

Pense no melhor momento da sua vida.
Pense naquela lágrima mais sincera.
Naquele sorriso mais encantador.
Em um abraço que você nunca mais recebeu.
Pense naquelas pessoas.
E então refletirá que nunca trabalho e dinheiro fizeram parte disso.

Ok. Você precisou ouvir novamente Radiohead com legenda no YouTube para descobrir isso.
Mas se você parou e pensou, isso quer dizer que está vivo.
Quando nada mais emocionar, é a morte da alma.

Então é melhor assim?
Enrole-se num plástico bolha e saia rolando escada abaixo.
Coloque uma sacola de mercado na cabeça e erre na multidão.
Vista a armadura de plástico.
Voe com a capa de plástico.
Coma plástico com sal.
Depois ingira plástico com açúcar.

Do jeito que vai
Vão achar que você é de plástico.

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Sem despedida, sem Choros nº 11

Por Wilame Prado

Márcio Silva, 45,
deixa filho, ex-esposa
e um bilhete
Pede apenas para cuidar do filhote

Choros nº 11, de Villa-Lobos,
Como é bela a canção
Parece coisa do tipo
acordar no meio da manhã
fria
de sábado, e não estar
sozinho
tem cheiro de café
restos de amor no lençol
e aquele vento frio entrando
pela fresta da janela
Jornal, Facebook e goles de café preto

Márcio Silva nunca ouviu,
em 45 voltas do mundo ao redor do Sol,
Villa-Lobos
Não há erros ortográficos
No bilhete em cima da mesa
Zona 7 de Maringá, cheia de sol
e um morto que se faz notado
pelo cheiro forte na quitinete

Choros nº 11, que coisa mais linda
É como saber que sempre haverá
um novo dia
amor
sexo
café
companhia
solidão, às vezes
felicidade só de estar
relaxado num sofá, às seis e meia

Márcio, tensão,
sol quente,
nenhum amor
nenhum emprego
nenhum valor
nenhum dinheiro
nenhum olhar
feio, burro, manco,
asqueroso, viciado,
mal amado
mal sucedido
mal compreendido
nunca ouviu Villa-Lobos
Cerveja, remédios e a despedida

Quem quer dar cabo da vida,
não anuncia nas redes sociais,
não tenta sarar as feridas
Tampouco suplicar carinhos
Cerveja, remédios e a despedida
Silenciosa,
sem música solene,
sem uma salva de tiros,
sem uma salva de palmas,
sem palavras
Sem palavras
Aliás, apenas algumas:
“cuida bem do filhote”

Mas se ao menos houvesse Choros nº 11,
e todas aquelas ressurreições,
em meio à peça musical,
por perto,
quem sabe?
Perdoai-vos, Pai
assim como Villa-Lobos perdoou

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Carnaval em cinco atos divagantes

Por Wilame Prado

1
Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia. E eu não acreditei. Tanta graça, tanta praça. Que gata. Fiquei bobo, alegre, adolescente. Então estufei o peito, saí do carro, abri a porta, dei um sorriso, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, acorrentei a sua mão na minha e atravessamos a rua, no verde; íamos a um baile de carnaval. Íamos. Caminhão acelerado. Desespero. Dois corpos pedestres no chão, em cima da faixa branca, que se fez vermelha. Borrão. Antes de entrar na ambulância, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, mas estava misturado com o ocre metal. Vi dentes meus pelo chão. Nunca mais a vi com vida. Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia.

 2
Mexo a cabeça. O ouvido há muito entupido. Onde está? Olhando para um chão sujo de mijo e coliformes fecais. Banheiro público. Carnaval. E ele, o outro eu, maldito, está olhando, pela janela suja, a avenida movimentada. Braços que se sujam encostados na janela, cinzas podres de cigarros. Calma. Calma que a calmaria vai chegar. Calma que ainda, eu e eu, iremos nos encontrar. O outro eu saiu feito louco, escada desabando abaixo, um pé desnudo para fora do lençol se despede – a última imagem humana. Morreu atropelado na Brasil. Ônibus coletivo, o ouvido entupido não ouviu, e o receio de me contaminar no sujo banheiro público, enquanto descarrego necessidades corpóreas, pensando naquele pé descoberto para fora do lençol – reminiscências na pré-morte, já na ambulância. Eu e eu ainda iremos nos encontrar.

3
Tudo isso vale (u) a pena mesmo? Pena leve. Pena branda. Peso pena. Peso que não pesa. O carnaval foi com minúscula. E as ruas estavam tão quietas. E, acreditem, garoou ridícula e imensamente. Deprimente. Gotas peso pena – fisicamente falando. Gotas peso pesado – nostalgicamente falando. Insisto, o que vale (u) a pena? Até que ponto compensa? Ela passou do ponto, o ônibus não parou no ponto, você nunca quer o ponto final. Crimes não se apagam com castigos. Qual será a sua pena? Uma apendicite? Um ouvido entupido? Uma síndrome do intestino irritável? Ou um se sentir sozinho, tomando coca lata, indo pra casa, na chuva? Agora já é (C)arnaval. Crimes, castigos. Vale (u) a pena?

4
Ruas que andam. Vida que passa. Sentado. As ruas andam. A vida passa. O carro passa. O avião passa. A moto passa. A banda passa. O bloco passa. E a moça passa. Sentado, a vida passa. A árvore respira. O homem traga. O tênis se gasta. As paredes se desgastam. E gastam o asfalto. A moça passa. Sentado, a vida passa. E, de repente, coisa de centésimo de segundo, olha-se por entre o buraco do alargador na orelha de um jovem e delicado rapaz e ali se vê e se prevê uma vida inteira, sentado, vendo a moça, a vida e o bloco passar.

5
Uma forte sensação de abandono. Todos sumiram neste Carnaval. Tinham outros afazeres. Uns precisavam morrer. Outros queriam viver mais intensamente. Uma forte chuva caiu, mas, de dentro daquele pequeno apartamento na Rua K., ela nem pôde ver o movimento das águas, nem mesmo sentir o cheiro da terra. Tudo parecia tão distante do alto daquele oitavo andar. Todos estão distantes. Se tudo isso tivesse acontecido há, sei lá, uns quatro anos, reflete ela, certamente botaria tudo a perder. Mas hoje não. Agora não. Talvez não, nunca mais. Passou a acreditar em propósitos. Levou a sério aquela história de se escrever certo por linhas tortas. A maior provação? O afastamento das pessoas. A maior alegria? Ana, a pequena filha de sete meses e meio. Junto dela, pode cair o mundo em águas, e as pessoas podem se mudar até de país. Enquanto prepara a mamadeira na cozinha, olhando para os miúdos olhos abertos e suaves de Ana, ela se deixa levar pelo pensamento e sente uma nostalgia ao contrário, uma já saudade do que nem aconteceu: pensa com carinho no dia em que, depois de uma torrencial chuva e chegada do sol, talvez num feriado de Carnaval, levará a sua filha até lá fora para explicar que aquele cheiro é cheiro de terra molhada.

*Parte dos atos foi remanejada de divagações anteriores, já publicadas no blog
*Texto publicado nesta terça-feira (4) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Nirvana Unplugged no apartamento

Por Wilame Prado

Praticaram o desapego na mudança.
Mas o MTV Unplugged in New York com o Nirvana ficou.
O CD tocará no drive do not (sem internet)
enquanto eles tomarão bebidas geladas na sacada.
A vida é nova n´uma sacada.
Verão maringaense.
Ouvirão então,
entre o intervalo das faixas “Pennyroyal Tea” e “Dumb”,
Os novos sons do novo lar.
Estalos de móveis remanejados.
Cigarras em árvores tão próximas do 1º andar.
Silêncios de um prédio ainda pouco habitado.
Quando o CD terminar, terão olhado muito para trás,
esquecendo-se de que, a partir daquele momento,
só o futuro é que interessa.

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Crimes, castigos e penas

tudo isso vale (u) a pena mesmo
pena leve
pena branda
peso pena
peso que não pesa

o natal foi com minúscula
e as ruas estavam tão quietas
e, acreditem, garoou
ridícula e imensamente
deprimente
gotas peso pena – fisicamente falando
gotas peso pesado – nostalgicamente falando

insisto, o que vale (u) a pena
até que ponto compensa
ela passou do ponto
o ônibus não parou no ponto
você nunca quer o ponto final
castigos não apagam os crimes
crimes não se apagam com castigos

Qual será sua pena?
Uma apendicite
Um ouvido entupido
Uma síndrome do intestino irritável
Ou um se sentir sozinho
Tomando coca lata
Comendo um lanche de forno
Indo pro jornal
Na chuva
Já é (N)atal
Sentindo pena de si

Crimes, castigos
Vale (u) a pena?

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No banheiro sujo e/ou morrendo atropelado na Brasil

Por Wilame Prado

mexo a cabeça
o ouvido há muito entupido
onde está
olhando para um chão sujo
de mijo e coliformes fecais
banheiro público

e ele, o eu maldito,
está olhando pela janela suja
a avenida movimentada
braços que se sujamencostados na janela
cinzas podres de cigarros

calma
calma que a calmaria vai chegar
calma que ainda,
eu e eu,
iremos nos encontrar

sai feito louco
escada desabando abaixo
um pé desnudo para fora do lençol
se despede
a última imagem humana
morri atropelado na Brasil

maldito ônibus coletivo
ouvido entupido
e o receio de me contaminar
no sujo banheiro público
enquanto descarrego necessidades corpóreas
pensando naquele pé descoberto
para fora do lençol
eu e eu ainda não podemos nos encontrar

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Socorro nunca foi Maria

Socorro nunca foi dado.
Ela nunca deixou.
Quis e soube andar
– ainda que por caminhos tortos –
desde muita nova,
em ritmo embalado.

Deixa a mãezinha, filhas e netos
Deixa parte da família
para se reencontrar
com outros lá em cima

Ninguém socorreu
E foi-se sozinha, dormindo.
Em uma noite que não estava fria.
14 ou 15 de novembro de 2013?
Qual a data da ausência de socorro?
Qual o dia ou a noite da escuridão maior,
da solidão incomparável?
Morrer é um ato solitário.

Ela nunca quis socorro,
gostava de andar sozinha.
Sempre em vielas, em becos,
entrando numa fria.
A verdade é que Socorro nunca foi Maria.
Adeus, tia.
Manda um beijo pro pai e pro vô.
E saiba que nunca estará sozinha.

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