Divagações



plástico

no que eu me tornei?
não toco mais violão
não faço gols
não leio mais que três páginas de uma vez só.
não vou ao cinema.
não vejo parentes.
tenho poucos e distanciados amigos.
eu passo um dia todo sem sequer pensar nas pessoas que amo.
eu brigo com os números de contas bancárias.
eu plastifiquei as relações.
eu nem beijo mais.

tudo é um jogo.
estratégias de sobrevivência.
noites que passam num piscar de olhos, fechados, dormindo.
dias que duram séculos.
o trabalho nunca acaba.

a vida acaba.
o amor pode acabar.
as pessoas podem acabar com você.
ou, pior: ignorarem você.
Afastarem-se de vez.
o mundo não está a seus pés.
ninguém está nem aí para você.

e quando a doença vier?
quem estará ao teu lado?
um amontoado de notas e moedas não fazem companhia.

Pense no melhor momento da sua vida.
Pense naquela lágrima mais sincera.
Naquele sorriso mais encantador.
Em um abraço que você nunca mais recebeu.
Pense naquelas pessoas.
E então refletirá que nunca trabalho e dinheiro fizeram parte disso.

Ok. Você precisou ouvir novamente Radiohead com legenda no YouTube para descobrir isso.
Mas se você parou e pensou, isso quer dizer que está vivo.
Quando nada mais emocionar, é a morte da alma.

Então é melhor assim?
Enrole-se num plástico bolha e saia rolando escada abaixo.
Coloque uma sacola de mercado na cabeça e erre na multidão.
Vista a armadura de plástico.
Voe com a capa de plástico.
Coma plástico com sal.
Depois ingira plástico com açúcar.

Do jeito que vai
Vão achar que você é de plástico.

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Sem despedida, sem Choros nº 11

Por Wilame Prado

Márcio Silva, 45,
deixa filho, ex-esposa
e um bilhete
Pede apenas para cuidar do filhote

Choros nº 11, de Villa-Lobos,
Como é bela a canção
Parece coisa do tipo
acordar no meio da manhã
fria
de sábado, e não estar
sozinho
tem cheiro de café
restos de amor no lençol
e aquele vento frio entrando
pela fresta da janela
Jornal, Facebook e goles de café preto

Márcio Silva nunca ouviu,
em 45 voltas do mundo ao redor do Sol,
Villa-Lobos
Não há erros ortográficos
No bilhete em cima da mesa
Zona 7 de Maringá, cheia de sol
e um morto que se faz notado
pelo cheiro forte na quitinete

Choros nº 11, que coisa mais linda
É como saber que sempre haverá
um novo dia
amor
sexo
café
companhia
solidão, às vezes
felicidade só de estar
relaxado num sofá, às seis e meia

Márcio, tensão,
sol quente,
nenhum amor
nenhum emprego
nenhum valor
nenhum dinheiro
nenhum olhar
feio, burro, manco,
asqueroso, viciado,
mal amado
mal sucedido
mal compreendido
nunca ouviu Villa-Lobos
Cerveja, remédios e a despedida

Quem quer dar cabo da vida,
não anuncia nas redes sociais,
não tenta sarar as feridas
Tampouco suplicar carinhos
Cerveja, remédios e a despedida
Silenciosa,
sem música solene,
sem uma salva de tiros,
sem uma salva de palmas,
sem palavras
Sem palavras
Aliás, apenas algumas:
“cuida bem do filhote”

Mas se ao menos houvesse Choros nº 11,
e todas aquelas ressurreições,
em meio à peça musical,
por perto,
quem sabe?
Perdoai-vos, Pai
assim como Villa-Lobos perdoou

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Carnaval em cinco atos divagantes

Por Wilame Prado

1
Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia. E eu não acreditei. Tanta graça, tanta praça. Que gata. Fiquei bobo, alegre, adolescente. Então estufei o peito, saí do carro, abri a porta, dei um sorriso, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, acorrentei a sua mão na minha e atravessamos a rua, no verde; íamos a um baile de carnaval. Íamos. Caminhão acelerado. Desespero. Dois corpos pedestres no chão, em cima da faixa branca, que se fez vermelha. Borrão. Antes de entrar na ambulância, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, mas estava misturado com o ocre metal. Vi dentes meus pelo chão. Nunca mais a vi com vida. Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia.

 2
Mexo a cabeça. O ouvido há muito entupido. Onde está? Olhando para um chão sujo de mijo e coliformes fecais. Banheiro público. Carnaval. E ele, o outro eu, maldito, está olhando, pela janela suja, a avenida movimentada. Braços que se sujam encostados na janela, cinzas podres de cigarros. Calma. Calma que a calmaria vai chegar. Calma que ainda, eu e eu, iremos nos encontrar. O outro eu saiu feito louco, escada desabando abaixo, um pé desnudo para fora do lençol se despede – a última imagem humana. Morreu atropelado na Brasil. Ônibus coletivo, o ouvido entupido não ouviu, e o receio de me contaminar no sujo banheiro público, enquanto descarrego necessidades corpóreas, pensando naquele pé descoberto para fora do lençol – reminiscências na pré-morte, já na ambulância. Eu e eu ainda iremos nos encontrar.

3
Tudo isso vale (u) a pena mesmo? Pena leve. Pena branda. Peso pena. Peso que não pesa. O carnaval foi com minúscula. E as ruas estavam tão quietas. E, acreditem, garoou ridícula e imensamente. Deprimente. Gotas peso pena – fisicamente falando. Gotas peso pesado – nostalgicamente falando. Insisto, o que vale (u) a pena? Até que ponto compensa? Ela passou do ponto, o ônibus não parou no ponto, você nunca quer o ponto final. Crimes não se apagam com castigos. Qual será a sua pena? Uma apendicite? Um ouvido entupido? Uma síndrome do intestino irritável? Ou um se sentir sozinho, tomando coca lata, indo pra casa, na chuva? Agora já é (C)arnaval. Crimes, castigos. Vale (u) a pena?

4
Ruas que andam. Vida que passa. Sentado. As ruas andam. A vida passa. O carro passa. O avião passa. A moto passa. A banda passa. O bloco passa. E a moça passa. Sentado, a vida passa. A árvore respira. O homem traga. O tênis se gasta. As paredes se desgastam. E gastam o asfalto. A moça passa. Sentado, a vida passa. E, de repente, coisa de centésimo de segundo, olha-se por entre o buraco do alargador na orelha de um jovem e delicado rapaz e ali se vê e se prevê uma vida inteira, sentado, vendo a moça, a vida e o bloco passar.

5
Uma forte sensação de abandono. Todos sumiram neste Carnaval. Tinham outros afazeres. Uns precisavam morrer. Outros queriam viver mais intensamente. Uma forte chuva caiu, mas, de dentro daquele pequeno apartamento na Rua K., ela nem pôde ver o movimento das águas, nem mesmo sentir o cheiro da terra. Tudo parecia tão distante do alto daquele oitavo andar. Todos estão distantes. Se tudo isso tivesse acontecido há, sei lá, uns quatro anos, reflete ela, certamente botaria tudo a perder. Mas hoje não. Agora não. Talvez não, nunca mais. Passou a acreditar em propósitos. Levou a sério aquela história de se escrever certo por linhas tortas. A maior provação? O afastamento das pessoas. A maior alegria? Ana, a pequena filha de sete meses e meio. Junto dela, pode cair o mundo em águas, e as pessoas podem se mudar até de país. Enquanto prepara a mamadeira na cozinha, olhando para os miúdos olhos abertos e suaves de Ana, ela se deixa levar pelo pensamento e sente uma nostalgia ao contrário, uma já saudade do que nem aconteceu: pensa com carinho no dia em que, depois de uma torrencial chuva e chegada do sol, talvez num feriado de Carnaval, levará a sua filha até lá fora para explicar que aquele cheiro é cheiro de terra molhada.

*Parte dos atos foi remanejada de divagações anteriores, já publicadas no blog
*Texto publicado nesta terça-feira (4) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Nirvana Unplugged no apartamento

Por Wilame Prado

Praticaram o desapego na mudança.
Mas o MTV Unplugged in New York com o Nirvana ficou.
O CD tocará no drive do not (sem internet)
enquanto eles tomarão bebidas geladas na sacada.
A vida é nova n´uma sacada.
Verão maringaense.
Ouvirão então,
entre o intervalo das faixas “Pennyroyal Tea” e “Dumb”,
Os novos sons do novo lar.
Estalos de móveis remanejados.
Cigarras em árvores tão próximas do 1º andar.
Silêncios de um prédio ainda pouco habitado.
Quando o CD terminar, terão olhado muito para trás,
esquecendo-se de que, a partir daquele momento,
só o futuro é que interessa.

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Crimes, castigos e penas

tudo isso vale (u) a pena mesmo
pena leve
pena branda
peso pena
peso que não pesa

o natal foi com minúscula
e as ruas estavam tão quietas
e, acreditem, garoou
ridícula e imensamente
deprimente
gotas peso pena – fisicamente falando
gotas peso pesado – nostalgicamente falando

insisto, o que vale (u) a pena
até que ponto compensa
ela passou do ponto
o ônibus não parou no ponto
você nunca quer o ponto final
castigos não apagam os crimes
crimes não se apagam com castigos

Qual será sua pena?
Uma apendicite
Um ouvido entupido
Uma síndrome do intestino irritável
Ou um se sentir sozinho
Tomando coca lata
Comendo um lanche de forno
Indo pro jornal
Na chuva
Já é (N)atal
Sentindo pena de si

Crimes, castigos
Vale (u) a pena?

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No banheiro sujo e/ou morrendo atropelado na Brasil

Por Wilame Prado

mexo a cabeça
o ouvido há muito entupido
onde está
olhando para um chão sujo
de mijo e coliformes fecais
banheiro público

e ele, o eu maldito,
está olhando pela janela suja
a avenida movimentada
braços que se sujamencostados na janela
cinzas podres de cigarros

calma
calma que a calmaria vai chegar
calma que ainda,
eu e eu,
iremos nos encontrar

sai feito louco
escada desabando abaixo
um pé desnudo para fora do lençol
se despede
a última imagem humana
morri atropelado na Brasil

maldito ônibus coletivo
ouvido entupido
e o receio de me contaminar
no sujo banheiro público
enquanto descarrego necessidades corpóreas
pensando naquele pé descoberto
para fora do lençol
eu e eu ainda não podemos nos encontrar

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Socorro nunca foi Maria

Socorro nunca foi dado.
Ela nunca deixou.
Quis e soube andar
– ainda que por caminhos tortos –
desde muita nova,
em ritmo embalado.

Deixa a mãezinha, filhas e netos
Deixa parte da família
para se reencontrar
com outros lá em cima

Ninguém socorreu
E foi-se sozinha, dormindo.
Em uma noite que não estava fria.
14 ou 15 de novembro de 2013?
Qual a data da ausência de socorro?
Qual o dia ou a noite da escuridão maior,
da solidão incomparável?
Morrer é um ato solitário.

Ela nunca quis socorro,
gostava de andar sozinha.
Sempre em vielas, em becos,
entrando numa fria.
A verdade é que Socorro nunca foi Maria.
Adeus, tia.
Manda um beijo pro pai e pro vô.
E saiba que nunca estará sozinha.

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Tweets, ‘Cavalo’, Rodrigo Amarante, Tardei

Por Wilame Prado e Rodrigo Amarante

Hoje é o seguinte: “Cavalo” e só. Como tem sido há alguns dias. //Quando eu vejo você/ Me olhando assim/ Vendo em mim/ O que eu vejo em ti//.

Milagre seria não ver, Irene.

Foi meu professor/Foi meu cúmplice/Sua mente, eu sei/Só chego ao índice. De Amarante para o poeta morto Ericson Pires.

“The Ribbon” mostra o melhor de Amarante, o melhor! Assim como em “O Vento”, “O Moço e o Velho”, “Primeiro Andar” e “Os Pássaros”.

Quem na rua se perde/Encontra o que pede/Acerta o que mede/E conta até errar/Que o erro é onde a sorte está. >>>Estamos prontos para o fim.

Por fim, “Tardei” (Amarante) e “Tardei”:

Tardei

Por Wilame Prado

Tardei, no lado oeste da cidade de pequeno porte
o sol caía
o moleque recolhia o par de chinelo-trave
o shortinho curto da moça tapava o paraíso
a senhora terminava de varrer a sujeira do mundo
e eu,
enquanto deixava a máquina automobilística me levar para mais próximo das nuvens,
tardei

Tardei porque não queria te ouvir, ver ou sentir
Tardei porque são desesperadoras as tardes de domingo
Assim como são desesperadoras qualquer tarde, de qualquer dia
Tardei para evitar a fadiga
Apaziguar os ânimos
Esfriar a cabeça
Amenizar a situação
Tardei para ver se, longe de mim, a casa ficasse em ordem

Lembro-me bem
Estava, sentido aos céus, no lado oeste da cidade de pequeno porte,
Quando tardei
E lá fui deixando a máquina me levar,
Marcha macia, brisa na cara, paraíso escondido, brincadeira acabada, sujeira varrida

No tardar, subi
Vi poeira leve e inofensiva pelo retrovisor
E estava mais determinado que nunca: o mundo ficou para trás
Cenário e gente serviam de retardatários
Tardei enquanto o sol caía, enquanto a tarde caía e tardava também
Subi em linha reta e notei que havia chegado a hora de parar
Dois pontos, uma linha, ponto de partida, ponto de chegada

Uma cerca, afinal, impedia-me de seguir adiante
Tardei mais um pouco por ali
Era voltar para trás ou tardar
Era encarar a sobrevivência ou me perder de vez
Em pensamentos, em frases soltas, em parágrafos imaginários,
Em sonhos daquilo que já foi e não foi e nunca será

Tardei e deixei, aos poucos,
não as obrigações
As saudades sim
Levarem-me para trás
Regredir nem sempre é sinônimo de fraqueza
Pode ser sintoma de experiência, pode ser fortificação

E hoje continuo tardando
Mais sereno
Sem tanto sacolejar as pernas
Olhando até mesmo as tardes de domingo passar
Azulejos refrescantes do alpendre da casa grande
Cadeiras de área, na área
Em outros pontos cardeais da cidade de pequeno porte

E sem me esquecer jamais do dia em que deixei o carro me levar até o ponto final
Tendo na memória o chinelo-trave, o shortinho e a vassoura, e as pessoas
Os caminhos, as pessoas e os cenários nunca são iguais, retardatários

De vez em quando, retomo os trajetos de outrora, sempre mudados
Em tardes de domingo, feriados, dias atípicos de semana
No lado oeste da cidade de pequeno porte,
Onde tardei

E continuarei tardando
O sol caindo e tudo
Mas eu voltando

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A moça que passa

Por Wilame Prado

Ruas que andam
Vida que passa
Sentado
as ruas andam
a vida passa

O carro passa
O avião passa
A moto passa
E a moça passa

Sentado a vida passa

A árvore respira
O homem traga
O tênis se gasta
As paredes se desgastam
E gastam o asfalto

A moça passa
Sentado, a vida passa

E de repente
Coisa de centésimo de segundo
Olha-se por entre o buraco do alargador
na orelha de um jovem e delicado rapaz
e ali vê-se e prevê-se uma vida inteira sentado
vendo a moça a vida passar

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Sofá

Por Wilame Prado

Ela viu um sofá

jogado no terreno

baldio.

Eu vi verde do tecido,

vermelho da terra e azul logo adiante

no céu.

Pensávamos sobre o dali pra frente.

Desafios prestes a serem encarados.

Ela então se lembrou de querer um novo sofá.

E eu me lembrei da decadência aceita

em tardes de domingo sentado,

olhando pra TV.

Então ela foi dar um jeito de pagar as contas.

Eu eu permaneci no velho sofá,

pensando no verde, vermelho e azul

lá de fora.

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