Fatos



Julgamento do século na Netflix

Grande elenco em “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story”

Por Wilame Prado

A série estreante mais assistida de 2016 chegou semana passada na Netflix. “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story” (do canal pago FX) narra, em dez capítulos, aquele que foi intitulado pela mídia como o julgamento do século.
O ano era o de 1994 e o caso é do ex-jogador de futebol americano Orenthal James Simpson, acusado de ser o responsável pelo brutal assassinato da ex-mulher e de um amigo dela.
Composta por atores brilhantes – como Cuba Gooding Jr., Sarah Paulson, Courtney B. Vance e John Travolta –, a série surpreende pela capacidade de dinamismo. Em meio a incontáveis cenas de tribunal, em capítulos longos, com cerca de uma hora, em nenhum momento leva quem está assistindo ao tédio.
A típica série em que não se consegue parar de ver até o desfecho.
Com a proposta de narrar casos reais e famosos no mundo todo, os criadores de “American Crime Story” corria um grande risco: afastar o público em razão dos spoilers. Pelo menos nesta primeira temporada, isso não ocorreu: talvez tirando os espectadores mais jovens, muita gente ainda se lembra do desfecho do julgamento de Simpson, concluído apenas em 1995, após mais de 350 dias de julgamento. No entanto, não é o fim que importa e sim o desenrolar dos fatos, além dos fascinantes bastidores do poder.
Direito e mídia
Assistir a esta primeira temporada é exercício para se tecer sérias reflexões sobre o Direito, o Jornalismo, a “espetacularização” dos julgamentos e a criação de heróis envoltos à fama alcançada pelos esportes e pela televisão.
Além disso, “The People v. O. J. Simpson: American Crime Story” relembra o racismo contra negros nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, a força da coletividade da comunidade negra daquele país. Enfim, série muita bem produzida e que trata de assuntos importantes da história recente mundial.
A série recebeu 22 indicações no Emmy, levando cinco estatuetas na premiação. No Globo de Ouro, foi indicada cinco vezes, vindo a faturar dois prêmios. Outras três temporadas de “American Crime Story” estão garantidas pelos produtores.
O segundo ano da série vai focar nos acontecimentos do furação Katrina, o qual gerou quase duas mil mortes em Nova Orleans e no sul da Flórida em 2005. A terceira temporada focará em Gianni Versace, estilista da alta costura italiana que foi assassinado pelo gigolô Andrew Cunanan em 15 de julho de 1997. E a quarta temporada contará a famosa história do escândalo envolvendo o ex-presidente dos EUA Bill Clinton e a estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky.

*Texto publicado em 10 de fevereiro no caderno Cultura, do Diário

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Final do Prêmio Brasil Criativo é em SP

Por Wilame Prado

A partir das 20h30 de amanhã, no Auditório do Ibirapuera (SP), será entregue o Prêmio Brasil Criativo, uma iniciativa da 3M, do Project Hub e do Ministério da Cultura que vai premiar projetos inovadores na área da economia criativa do Brasil.

O Programa Primeiro Museu, desenvolvido pela instituição maringaense Museu da Família, concorre ao prêmio na categoria “Museus”. O Prêmio Brasil Criativo será entregue em 22 categorias, todas do setor criativo.

Os vencedores serão anunciados em cerimônia que reunirá artistas, intelectuais e empresários, com apresentação de Renata Simões e Leo Madeira.

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Programa Primeiro Museu está com inscrições abertas em todo o País

Lançamento do Programa Primeiro Museu em Campo Bonito, município localizado na região de Cascavel. Foto: Fortunato Fávero

Lançamento do Programa Primeiro Museu em Campo Bonito, município localizado na região de Cascavel. Foto: Fortunato Fávero

Por Wilame Prado

O Museu da Família (MF) e o Instituto Cultural Ingá (ICI) abriram nacionalmente as inscrições para o Programa Primeiro Museu, que viabiliza a implantação nas localidades interessadas de um museu comunitário de tipologia virtual e ainda um projeto cultural para implantação de um museu físico enquadrado nos instrumentos de renúncia fiscal existentes. As inscrições vão até 15 de dezembro, pelo site: www.primeiromuseu.org.br/site/inscricao.

No site, os interessados poderão preencher uma ficha de inscrição com dados básicos, contrato, ata ou estatuto social da instituição (prefeitura, associações, câmaras municipais, empresas privadas etc), comprovante de endereço e documentos pessoais. As dúvidas podem ser sanadas por telefone ou e-mail: (44) 3025-1666 e [email protected]

Há dois meses, o Programa Primeiro Museu começou a ser implantado em diversas cidades localizadas nas regiões norte, noroeste e centro-oeste do Estado do Paraná. De lá para cá, diversas famílias moradoras destes municípios – encorajadas pelas secretarias culturais e de educação – estão resgatando suas fotos e documentos pessoais importantes para alimentar as páginas de cada família e que vão ajudar a compor o museu comunitário destas localidades.

Entendendo que a carência de museus e até mesmo de dados históricos não é exclusividade apenas das pequenas cidades paranaenses, o Programa estende o serviço para qualquer município brasileiro que ainda não tenha museu e que se interesse por um. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), os municípios brasileiros com menos de dez mil habitantes, de maneira geral, continuam perdendo moradores e, consequentemente, parte de sua história.

Pertencimento
Para o geógrafo e presidente do MF, Edson Pereira, isso se deve ao suposto sonho de uma vida melhor na cidade grande, fato comprovado pelo aumento populacional em municípios com população entre 200 e 500 mil habitantes. “O Programa Primeiro Museu atua não apenas no resgate e conservação da memória local. Mais que isso, estimula o sentimento de pertencimento nos moradores, que, ao se sentirem representados na história do local onde moram, recuperam a autoestima e encontram mais sentido em continuar morando lá”, explica.

A preocupação do MF está relacionada também à ausência de museus na maioria dos pequenos e médios municípios brasileiros. No Paraná, 95% das cidades com menos de 100 mil habitantes não possuem museus ou mesmo salas de memória. O Plano Nacional Setorial de Museus (PNSM) trás como meta o estímulo à criação de um museu em cada município brasileiro até 2020, o que totalizaria a criação de mais 4.295 museus até lá.

Direito à memória
Marcelo Seixas, diretor de projetos do MF, ressalta que, conforme previsto na Constituição Federal, o direito à memória é algo que deve ser garantido pelo Estado, com a cooperação da comunidade. “Museus comunitários devem se comprometer na garantia deste direito, o que certamente age não só nessa preservação da memória, mas também na integração maior entre moradores, elevação da autoestima da população e uma necessidade automática de preservação dos bens públicos daquele local.”

Entenda
O Programa Primeiro Museu prevê a viabilização de um museu comunitário de tipologia virtual implantado; um projeto cultural para implantação de museu físico, enquadrado nos instrumentos de renúncia fiscal existentes; e a capacitação de agentes locais na gestão das unidades museológicas do projeto.

Com isso a comunidade recebe um museu virtual contendo informações textuais e fotográficas da história local, que pode inclusive ser implantado no site da prefeitura, dependendo do caso. Depois, inicia-se um processo de capacitação de pessoas que morem na cidade e que se interessem pela memória local para atuarem, sob coordenação de profissionais da museologia contratados pelo MF, na efetivação do primeiro museu físico do município.

Com a contrapartida de R$ 6.300 para custear gastos logísticos iniciais, podem participar do Programa Primeiro Museu prefeituras, câmaras municipais, associações civis sem fins lucrativos, entidades filantrópicas, instituições de ensino, clubes esportivos, igrejas e cooperativas vinculadas à comunidade a ser beneficiada.

O projeto do futuro museu físico será modelado de acordo com as exigências do Fundo Nacional de Cultura do Ministério da Cultura (MinC). Assim, a ideia é que, até 2015, o programa viabilize o primeiro museu para pelo menos 60 municípios, nos quais os recursos via Lei Rouanet podem chegar até R$ 600 mil para cada um deles.

Visite o site do Programa Primeiro Museu: primeiromuseu.org.br
E a página do Museu da Família no Face: facebook.com/museudafamilia

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Paraíba faz a vontade de Brecht

Por Wilame Prado

O dramaturgo alemão Bertolt Brecht argumentou em seus diários de trabalho que tinha interesse em escrever uma peça sobre Zhao Gongming, o Deus da Fortuna da mitologia chinesa. Fato mais que suficiente para que o Coletivo de Teatro Alfenim (João Pessoa-PB) resolvesse criar uma parábola cômica utilizando os anseios de Brecht como ponto de partida para “O Deus da Fortuna”, espetáculo deste domingo (10 da 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá que será apresentado na Oficina de Teatro da UEM, às 20h30.

A peça, que tem texto de Márcio Marciano criado em processo colaborativo com os atores do grupo, mostra alegoricamente o Deus da Fortuna, entidade totalmente identificada ao capital especulativo e que surge na propriedade de um capitalista à moda antiga, o Senhor Wang.

Afundado em dívidas, Senhor Wang ergue um altar em honra ao Deus da Fortuna, mas, para evitar a falência, vê-se obrigado a ofertar a própria filha para amortizar dívidas. “O Deus da Fortuna” ironiza o capital especulativo e as relações humanas completamente dependentes – inclusive metafisicamente – com as coisas do dinheiro.

No elenco estão Adriano Cabral, Daniel Araújo, Lara Torrezan, Paula Coelho, Vitor Blam e Wilame AC. Ingressos custam R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). A classificação é para 10 anos.

SAIBA+
Programação completa da 3ª Mostra de Teatro Contemporâneo – Maringá no site: mtcontemporaneo.art.br

*Reportagem publicada neste domingo (10) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Professora da UEM lança livro sobre cultura indígena

Nessa sexta feira (1º), às 10h, acontece no Museu Kre Porã, localizado no Centro Cultural Indígena de Maringá, o lançamento do livro “Arte e Cultura Indígena: Povos Guarani e Kaingang na Associação Indigenista – Assindi – Maringá”.

O livro foi realizado com patrocínio da Caixa Econômica Federal, por meio do Projeto Kre Porã, elaborado pela Assindi – Maringá e aprovado no Programa Caixa de Apoio ao Artesanato Brasileiro. A publicação foi organizada pela professora Sheilla Souza, docente no curso de Artes Visuais da UEM.

Por meio do projeto apoiado pela Caixa o livro teve uma tiragem de mil exemplares, distribuídos gratuitamente nas escolas indígenas do Paraná, em escolas públicas e instituições culturais e educativas em Maringá. O livro teve também uma tiragem anterior de mil exemplares, realizada com recurso do Prêmio Aniceto Mati, recebido da Secretaria de Cultura de Maringá, nesse ano.

Além do lançamento do livro, o Centro Cultural Indígena apresenta até o mês de dezembro a exposição Kre Porã, com objetos de arte indígena Guarani e Kaingang. O horário de visitação é de 13:30 às 17 horas.

Local: Centro Cultural Indígena de Maringá – Rodovia BR 376 Km 170 – Gleba Patrimônio Maringá (Depois da Coca-Cola, após o Contorno Norte – 100 metros à direita).

Informações: (44) 3224 -7117

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Para alimentar a alma

Na sexta-feira passada, em pronunciamento exibido em rede nacional, a presidenta Dilma Rousseff anunciou a desoneração de todos os produtos da cesta básica, que passarão a ser isentos de impostos federais. O governo aproveitou a oportunidade para também ampliar o número de itens que compõem a cesta básica, que passará a ter: carnes (bovina, suína, aves e peixe), arroz, feijão, ovo, leite integral, café, açúcar, farinhas, pão, óleo, manteiga, frutas, legumes, sabonete, papel higiênico e pasta de dentes.

Para os idealizadores da campanha Leitura Alimenta, lançada oficialmente em São Paul (SP) há cerca de 15 dias, faltou um item básico e essencial na cesta básica brasileira: livros.

Olhando para o lastimável e sempre pouco lembrado setor da educação no País e amparados em estatísticas que revelam a falta do hábito da leitura por parte da maioria dos brasileiros, eles resolveram não esperar por um decreto ou projeto de lei para arregaçar as mangas e fazer algo para que os livros cheguem até as famílias brasileiras. Em parceria com a Livraria da Vila e com a empresa Cesta Nobre, a agência de propaganda Leo Burnett Tailor Made vem encabeçando essa campanha, que consiste em inserir um livro para cada cesta básica entregue.

Inicialmente, serão dois meses de campanha. Para conseguir acoplar um conservado livro dentro de cada uma das três milhões de cestas básicas entregues anualmente pela Cesta Nobre em vários Estados brasileiros, há sete pontos de coletas espalhados por lojas da Livraria da Vila, todas em São Paulo. Mas o Leitura Alimenta espera contar também com doações vindas de outras cidades. Para isso, disponibiliza no site do projeto duas alternativas para quem está longe e queira doar livros: a caixa postal para o envio das obras ou a compra simbólica de ebooks no valor de R$ 1 a R$ 200 e que será totalmente revertida na compra de livros novos (com 30% de desconto na Livraria da Vila) para a campanha.

Conheça o projeto no site: www.leituraalimenta.com.br

E leia matéria completa no D+, do Diário de Maringá.

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Cantor gospel Fernandinho manda mensagem aos fãs de Maringá

Após cancelamento do show na sexta-feira (8) em Maringá, o cantor gospel Fernandinho postou em seu site uma mensagem direcionada aos fãs maringaenses. Na mensagem, ressaltou que ninguém foi irresponsável com o cancelamento em cima da hora do show, defendeu o produtor do evento e ainda alegou motivos de saúde pelo fato de fretar voos particulares para os shows marcados pelo País.

No texto, Fernandinho ainda não confirmou a nova data para o show em Maringá, oportunidade em que o público que já pagou pelo show cancelado poderá entrar de graça apresentando o ingresso que foi devolvido (para quem conseguiu pegar de volta; na página do Facebook da Melodia FM 99,3, que divulgou o show, há uma mensagem falando para os fãs que não conseguiram pegar de volta o ingresso ligar na rádio e deixar o nome).

Leia na íntegra a mensagem de Fernandinho:

“Irmãos de Maringá, paz!

Só agora estou em condições de enviar esta mensagem. Estive durante horas em função de outra viagem. Quero esclarecer aqui o fato ocorrido ontem em sua cidade, no evento promovido pela Adonai Produções.

Nesses anos de ministério nunca agi por desrespeito a qualquer um que seja, principalmente à Igreja. Mesmo com a saúde debilitada, até sem condições de me deslocar, para não comprometer ou desonrar a ninguém, já estive em lugares em que ministrei sentado pela situação em que estava na ocasião. Tenho fortes dores na coluna por um problema de hérnia de disco que já trato ha alguns anos. Depois de um bom tempo sem crise, os últimos dias têm sido difíceis pra mim.

Moramos a quase 300 km do Rio e pelas circunstâncias resolvi fretar um vôo por MINHA CONTA que pudesse me levar da minha cidade direto a Maringá. Não poderia ir um dia antes, como alguns imaginam, porque tenho outros compromissos, inclusive com minha família. Marcamos nossa saída com tudo programado para estarmos no evento como agendado. Não podemos prever nada. Quantos aeroportos são fechados por mau tempo e pessoas não conseguem sair de onde estão, muitas vezes aguardando desde a madrugada.

Em nossa viagem nos deparamos com uma tempestade inesperada que nos fez retornar, infelizmente, sem nenhuma condição de prosseguirmos.

Quero deixar claro que o Nelson Gavetti, responsável pela organização do evento, é um dos melhores produtores e não pode ser responsabilizado por algo que está além de sua competência, assim como eu. Ele é uma das pessoas que realiza evento pensando no aperfeiçoamento da vida espiritual das pessoas.

Penso que, por conveniência, a informação no evento foi dada no momento adequado. Quero lembrar aos irmãos que a situação dele ficou naquele momento muito delicada. Sei da mobilização de muita gente que saiu de suas casas e até de suas cidades, caravanas de irmãos preciosos, por isso peço perdão e compreensão.

Imagino a inquietação de muitos, dos que se manifestam e outros não, mas queremos ter outra oportunidade de estar com vocês. Faço um pedido a todos que guardem o coração da injúria e das criticas. NÃO existe nenhum irresponsável nisto!

Deixo uma palavra: “Bem-aventurados os pacificadores… Bem-aventurados os mansos.” Estou certo de que Deus tem algo especial reservado pra Maringá e cidades próximas e prometo oferecer algo que ainda não fiz em nenhum outro lugar. Nada poderá impedir o agir de Deus.

Paz seja sobre sua vida! Aguardem e fiquem com Deus!

No amor de Cristo, Fernandinho.”

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Rubem Braga: crônicas de caráter

Com as entrevistas que coletei para produzir a reportagem sobre o centenário de Rubem Braga, comemorado sábado passado (12), pude conhecer outros lados, muitíssimos interessantes, diga-se, do Velho Braga, que, para mim, um leitor doentio de crônicas e que tento me arriscar também nesse gênero literário, é o maior de todos, o que conseguiu nas poucas linhas de uma crônica transmitir prosa refinada, sensibilidade poética e sempre algo marcante para mim, coisa que não conseguia explicar direito quando discorria com amigos sobre o eterno filho de Cachoeiro do Itapemirim-ES.

Graças à bela entrevista concedida por Augusto Massi, 54 anos, doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, pude conseguir traduzir em palavras, definidas pelo entrevistado, o que talvez sempre quis dizer sobre a obra de Rubem Braga. No trecho a seguir, Massi, que é o organizador do livro “Retratos Parisienses”, com 31 crônicas do Velho Braga inéditas em livro e que deverá ser lançado no próximo mês pela José Olympio, disse tudo o que um dia eu queria ter dito: “Rubem Braga é uma espécie de reserva ética. Suas crônicas têm caráter. Ao mesmo tempo, dentre todos os nossos escritores é um dos que tem maior senso da beleza. Trata-se de um prosa de voltagem poética.” Leia a entrevista completa:

Qual sua relação com a obra de Rubem Braga?

Augusto Massi – A mais civilizada possível: sempre fui um leitor. De uns cinco anos pra cá passei a condição de pesquisador neurótico e estudioso nervoso de sua obra. Vou ter que fazer análise por muitos anos.

Como foi a temporada de Rubem Braga na Europa como correspondente e que resultou em vários textos, reunidos em “Retratos Parisienses”, livro organizado pelo senhor?

A medida que comecei organizar o livro, fui adquirindo a certeza de que 1950 foi um dos melhores anos da vida do jovem cronista. Ele estava com 37, novamente solteiro, vivendo confortavelmente na capital francesa, rodeado de amigos e pintores brasileiros. Gente como Cícero Dias, Clóvis Graciano, Portinari, Antonio Bandeira etc. Dito isso, trabalhou duro como correspondente do Correio da Manhã, o principal jornal da época. Escrevia uma crônica diária, “Recado de Paris”, publicada sempre na página 2, e entrevistas ou reportagens especiais para o suplemento cultural.

Como conseguiu esse material?

Eu coleciono jornais e revistas antigas. Tempos atrás comprei uma coleção do Literatura e Arte, suplemento cultural do Correio da Manhã. Os números que me faltavam, consultei a Hemeroteca Digital Brasileira, uma ótima ferramenta disponibilizada pela Fundação Biblioteca Nacional-RJ.

Quais suas conclusões após ter reunido o material sobre o olhar do Velho Braga sobre a Europa e sobre os grandes artistas e pensadores que teve a oportunidade de entrevistar?

Este material, inédito em livro, ajuda a compor uma nova imagem do cronista. Primeiro, oferece uma noção mais concreta dos seus interesses literários, fornece pistas sobre sua formação política, por fim, nos permite reavaliar a sua relação com as artes plásticas. “Retratos Parisienses” pode relativizar certa mitologia que vem sendo construída em torno do homem solitário, que não era dado a leituras etc. Ora, as 31 crônicas e entrevistas que compõem o volume mostram, na verdade, que ele tinha uma consciência muito aguda do que caracterizava a cena cultural do pós-guerra. Também sabia perfeitamente que a vanguarda representada por Jean Cocteau e André Breton estava entrando em declínio, que Jean-Paul Sartre e Thomas Mann eram dois dos principais intelectuais europeus da época, que Picasso e Matisse eram mais importantes do que Chagall e De Chirico.

Por que é importante ler Rubem Braga até hoje, na sua opinião?

Ele representa o amadurecimento e a consolidação das principais conquistas modernistas. Num certo sentido, ajudou a modelar a língua brasileira atual, conferiu poesia ao cotidiano e soube valorizar aquelas coisas que a maioria das pessoas ainda considera desprezíveis e insignificantes. Rubem Braga é uma espécie de reserva ética. Suas crônicas têm caráter. Ao mesmo tempo, dentre todos os nossos escritores é um dos que tem maior senso da beleza. Trata-se de um prosa de voltagem poética.

Qual a importância dele para a crônica brasileira?

A linha evolutiva da crônica vai de Machado de Assis a Rubem Braga. É o ponto de chegada. Penso que todo um ciclo da nossa experiência, principalmente, a passagem da roça pra cidade, está entranhada e sedimentada em sua prosa. Talvez, por isso, ele é o único cronista que libertou a crônica do jornal, conferindo a ela a dimensão de um clássico moderno. Não é pouca coisa. Em outras palavras: é para poucos.

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Rubem Braga e seu amor humilde à natureza

Ao lado da também jornalista Leusa Araujo, Januária Cristina Alvesibi organizou o livro “Rubem Braga, o Lavrador de Ipanema”, com 14 crônicas “verdes” de Rubem Braga. O livro deverá ser lançado até março pela Record. Januária, em entrevista concedida, comentou sobre os 100 anos do Velho Braga, sobre seu amor “humilde” pela natureza e também sobre a importância das crônicas dele para a história da literatura brasileira:

Por que resolveram organizar “Rubem Braga, o Lavrador de Ipanema”, seleção de 14 crônicas de amor à natureza?

Janurária Cristina Alvesibi – Desejo de apresentar a obra de Rubem Braga aos jovens leitores brasileiros. Foi este “amor humilde à natureza” – além da paixão pela obra do autor – que animou esta seleção de crônicas. O livro reúne 14 crônicas de amor à natureza escritas entre os anos de 1930 e 1980 e comemora o aniversário do nosso maior cronista que completaria cem anos em 2013. Ecologista avant la lettre – Rubem Braga defende as causas ambientais movido a sentimentos do mundo e não a discursos. É assim, por exemplo, que lamenta o destino do Córrego Amarelo, em Cachoeiro do Itapemirim, sua terra natal: “(…) Não. Esta crônica não pretende salvar o Brasil. Vem apenas dar testemunho perante a História, a Geografia e a Nação, de uma agonia humilde: um córrego está morrendo. E ele foi o mais querido, o mais alegre, o mais terno amigo de minha infância” “(Chamava-se Amarelo” – uma das 14 crônicas selecionadas para homenagear o centenário de Rubem Braga.)

Rubem Braga se utiliza das árvores, do seu amor à natureza, como uma metáfora para falar de determinados momentos históricos – como fala da 2ª. Guerra mundial na crônica “Essas Amendoeiras” de 1948 (em O Homem Rouco) e das coisas da vida. Suas crônicas possuem subtextos e devem ser lidas sob diferentes pontos de vista. Daí a riqueza de apresentá-las aos jovens leitores que, além de terem acesso a um texto irretocável, conhecerão, pelos olhos do “Velho Braga”, um outro universo de informações e sentimentos.

Como conseguiram o material?

A Editora Record e a família de Rubem Braga disponibilizaram as crônicas publicadas pela editora para esse trabalho. A seleção foi nossa, com a anuência de ambos, numa parceria que resultou num belíssimo livro, um verdadeiro legado à literatura e à causa da preservação da natureza.

Como é a história do lavrador de Ipanema, apelidado dado a Braga pelo amigo Paulo Mendes Campos?

Que outro brasileiro formou um verdadeiro telhado verde na cobertura de um grande edifício? Pois Rubem Braga plantou no alto do edifício da rua Barão da Torre, em Ipanema, um sem número de espécies de plantas e árvores frutíferas, como pitangueiras, goiabeiras, pés de romã e até uma mangueirinha carlota! Contou com ajuda do paisagista Roberto Burle Marx e de outro amigo jardinista, o baiano José Zanine Caldas. Rubem Braga fez uma espécie de “resistência humilde” diante do enorme poder destruidor dos homens sobre a natureza. Atitude do lavrador urbano hoje tão valorizada pelos ambientalistas. Não foi à toa que seu amigo, o paisagista Augusto Ruschi, eternizou o cronista numa espécie de orquídea descoberta em 1970: a Physosiphon Bragae Ruschi. E seu amigo Paulo Mendes Campos, frequentador da casa do amigo e ciente dessa sua paixão pela natureza, carinhosamente o apelidou de “o lavrador de Ipanema”.

Qual a importância do Velho Braga para a crônica brasileira?

Rubem Braga é mestre em escrever verdades universais como se fossem coisas passageiras e sem importância. Este é o traço que o marca na literatura brasileira. Nenhum outro escritor brasileiro abraçou a crônica – esse gênero entre a prosa e a poesia – como lugar ideal, onde se está bem à vontade para fazer a ficção do cotidiano. Nunca pensou em outro gênero. Parecia sempre um escritor sem outra pretensão: “confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido” – declarou certa vez. É dele também a célebre descrição sobre o trabalho do cronista. Até hoje, no imaginário de qualquer candidato ao posto, segue a lição: “Mas o cronista de jornal é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha e sai.” (Manifesto, 1951). Não há dúvida que Rubem Braga continua a ser o mais importante cronista brasileiro, tanto a crítica acadêmica quanto o público reconhecem. Mas é preciso manter viva a obra, despertar o interesse de novos leitores – especialmente para o seu lado “verde”.

Por que ler Braga?

Considerado o “Príncipe da Crônica”, Rubem Braga é um autor primordial do gênero no Brasil e deve ser lido com uma referência. Sobre seu trabalho escreveu o crítico Domício Proença Filho (em “Ao Leitor”, em “Rubem Braga Aventuras”, Record, RJ, 2002): “A crônica se faz, normalmente, do relato de fatos próximos ou distantes, acompanhados de comentários do autor, sempre a partir de um olhar autorizado e crítico: o cronista parte de um fato qualquer, de uma paisagem, de uma pessoa, de uma sensação, de um pensamento e, num texto curto, apresenta suas considerações pessoais. (…) O cronista permite-se viajar na imaginação e nas impressões subjetivas, nutrientes eficazes de um discurso em que se configuram dimensões literárias e não literárias.”

Embora Rubem Braga tenha passado a maior parte de sua vida como “o medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever” (mais de 15 mil crônicas, dos 14 aos 62 anos), o leitor terá sempre a impressão de que o Velho Braga (como ele se autodenominava desde jovem) é um velho contador de histórias, humilde, com as mãos calejadas pela lida na terra, deitado na rede, à sombra de uma árvore centenária, e com o vento soprando ao fundo. De fato, em toda a sua obra podemos encontrar esta tensão entre o homem urbano, preso num apartamento, no bonde, ou numa redação de jornal, olhando as amendoeiras, sentindo o barulho da chuva, comemorando o nascimento de um pé de milho no seu jardim, e pressentindo a chegada do outono “vinha talvez do mar e, passando pelo nosso reboque, dirigia-se apressadamente ao centro da cidade, ainda ocupado pelo verão.”

Ou seja, cada árvore, cada córrego, cada mudança de tempo leva o autor – este “bicho do asfalto” – para o seu lugar de origem: a natureza. Assim, as árvores remetem tanto às lembranças da infância, ao conhecimento do mundo, quanto ajudam a refletir sobre a ordem da vida social e a desordem natural. Na crônica, “O Mato”, por exemplo, Rubem Braga expressa este desejo de ser apenas o homem do mato: “(…) sentiu vontade de deitar e dormir entre a erva úmida, de se tornar um confuso ser vegetal, num grande sossego, farto de terra e de água; ficaria verde, emitiria raízes e folhas, seu tronco seria um tronco escuro, grosso, seus ramos formariam copa densa, e ele seria, sem angústia nem amor, sem desejo nem tristeza, forte, quieto, imóvel, feliz.”

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