Memória Crônica



Malvada e correta consciência*

Por Wilame Prado

Quem deve, tem vontade de correr, sem parar, sem nem olhar para trás. Tem desejo de se esconder, eternamente, embaixo de uma coberta, bem grossa. Mas não estou falando sobre dever uma pinguinha no bar, ou alguns pães na padaria. Não é dever uma grana para o colega, assim como eu devo R$ 200 para o Vinícius (um dia eu pago). A dívida que estou falando é muito além de qualquer aspecto material, não envolve dinheiro e nem troca de favores. Estou me referindo à dívida que se tem para com a consciência – uma malvada, porém quase sempre muito correta.

Acho que a conheci, a malvada, muito pequeno, talvez quando me toquei de que fazer necessidades fisiológicas na calça era incorreto. Desde então, ela, a consciência, a que não mede as palavras, a que diz sem medo a verdade para o seu eu, vem atuando ativamente, fazendo com que, muitas vezes, eu não tenha coragem de fazer algo. O arrependimento (irmão da consciência) pode, a qualquer momento, chutar as bolas da dignidade.

Um dia, eu pratiquei um roubo. Devia ter uns onze anos, morava em São Paulo (capital) e estava, gradualmente, sob influência de amizades suspeitas, prestes a me tornar um moleque travesso, do tipo que gosta de caçar briga com a turma da rua de baixo, que fuma escondido em casarão abandonado e que taca camisinha cheia de urina no carro do delegado vizinho.

Chega de detalhes e voltemos ao maldito roubo. Era uma noite quente de verão. Devia estar quase na hora de começar a novela das oito, mas eu e um monte de amigos ainda estávamos na rua, de pés sujos e fazendo alguma traquinagem. De repente, e isso era normal naquela época, faltou energia elétrica em todo o bairro. Então, no auge da minha insanidade, pensei que, naquele breu, se pegasse uns picolés no freezer da Kibon, na padaria da esquina, o dono português e bigodudo não perceberia. Realmente, o português não percebeu. Mas o cearense, que estava no balcão, sim.

Saí correndo feito louco para casa, com medo de apanhar. O magricela e testudo do balcão gritava “devolve o sorvete moleque”, mas já era tarde. A vergonha de assumir o crime não me permitiu voltar atrás. Na correria sem fim, meus calcanhares encardidos batiam em minhas nádegas. Por fim, e para não ficar com a prova do crime em mãos, joguei os picolés para as únicas duas meninas que brincavam com a gente na rua.

Cheguei em casa branco. Minha mãe estava na calçada, conversando com a vizinha, já que, sem energia elétrica, era impossível assistir a novela. O calor era insuportável e ainda não tinha tomado banho. Mesmo assim, suado e sujo, fui buscar abrigo debaixo das cobertas. Que sufoco.

Como a padaria ficava na rua de casa, o funcionário me reconheceu. Então, ainda na mesma semana, em pleno almoço, na frente de toda a família, minha mãe me obrigou a pedir desculpas e a pagar o valor dos picolés surrupiados na noite escura. Ao entregar a grana ao cearense na padaria, a vergonha (irmã da consciência e do arrependimento) veio vestida de vermelho nas maçãs do rosto.

Naquele dia, ao roubar os picolés, não liguei para as advertências da consciência. Só que tinha me esquecido de um detalhe: ela, a malvada, nunca morre e, depois do ato consumado, vem bruta e pesada. Tivesse lido “Crime e Castigo” antes disso, teria consciência (no sentido de conhecimento) do quanto a consciência (no sentido de moralidade) pesou na vida de Rodion Românovitch Raskólnikov.

*Crônica publicada dia 25 de novembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná, e também no blog A Poltrona

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Sobre amor e piano*

Por Wilame Prado

Dinheiro era o que precisava para conseguir por em prática um sonho que contaminava seus pensamentos diariamente, antes de dormir, desfocado no trabalho ou fumando cigarros. Em lágrimas, vendeu a humilde moto 125 cilindradas e ajuntou um pouco de dinheiro optando em comer prato feito à R$ 3,50 em vez de almoçar em restaurantes que cobram por quilo. Ainda vendeu o velho violão Eagle preto, de cordas de aço, e conseguiu outro punhado de reais.

Tinha, agora, certo ordenado na poupança. Tinha também lembranças de momentos bons – vento na cara, velocidade, mão dela em sua cintura, mentiras para ele mesmo de que estava pilotando uma Harley, ovo frito e bisteca de sexta-feira, canções românticas mal cantadas e tocadas, dedicadas a ela. Nostálgico, quase se arrependeu do que fez, mas o amor e a vontade de surpreender o impulsionava.

Digitou no Google “Piano”, em aspas para apurar melhor a pesquisa. Sem norte, acabou pagando fortuna em um Fritz Dobbert, castanho escuro, usado, sujo e quebrado, de uma velha professora de piano (igual àquelas que sempre têm nos filmes) que queria se desfazer do instrumento musical (móvel da sala) para comprar passagem de ida sem volta rumo à Europa, em casas de tias-avós.

Acabou ganhando, de brinde, um tapete mofado para que o instrumento não riscasse o chão. O segundo e maior desafio, que também custaria dinheiro, era o de aprender a tocar piano. Tarefa árdua para alguém que “malemá” tirava um Raul Seixas no violão e tinha dificuldades atenuantes para conseguir tocar qualquer canção de Chico Buarque.

Teve de voltar ao prato feito por mais algum tempo para conseguir pagar as duas aulas semanais, de uma hora cada, com uma outra senhora que parecia a dos filmes. O terceiro e último desafio, que, lógico, também custaria dinheiro, era o de viajar a praia, nem que fosse um final de semana, para finalmente realizar seu sonho, cultivado há anos. Dessa vez, teve de fazer empréstimo e matou saudade do velho e bom boleto bancário.

Enquanto isso, conseguiu a façanha de esconder da amada, não só sua falta de talento, como também o próprio piano. Amoitou-o em república de amigos meio loucos, meio beberrões, que nem se importavam quando, em madrugadas a fio, ele insistia em tentar tirar, irritantemente, um “Dó-Ré-Mi-Fá Fá-Fá Dó-Ré Dó-Ré Ré-Ré”. Com cerveja em mãos, os amigos sempre pensavam que estava tocando a música da propaganda do Danoninho.

Em um agitado sábado de fim de ano, em uma praia movimentada, crianças tiravam sarro e velhos se assustavam ao vê-lo deitando um velho tapete mofado nos grãos de areia fofa, a alguns metros de distância de sua amada, que tomava sol, distraída, com casal de amigos. A multidão começou a se formar quando um sujeito encostou uma camionete à beira da praia e, com ajuda de alguns salva-vidas, descarregou o velho piano Fritz Dobbert sobre o tapete.

Suado, não apenas pelo nervosismo, mas também pelo sol de meio-dia escaldante, começou, desajeitado e errante, a tocar uma canção de amor – a mesma que fez trilha sonora para o primeiro beijo do casal, na cantina da universidade. Continuou errando, mas nem se importava mais, pois logo viu que ela reconhecera a música e, correndo, aproximou-se do piano, empurrando gente, enxugando lágrimas.

Ao final, pediu-a em casamento e, ao ver tamanho sorriso de criança em seu rosto, chorou de alegria e de alívio por finalmente ter conseguido realizar seu sonho. Ao som de palmas da multidão, beijaram-se.

*Conto publicado dia 18 de novembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná, e também no livro “Charlene Flanders, que Voava em Seu Guarda-Chuva Roxo, Mudou Minha Vida” (Muti Foco, 2011)

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Obama, espelhe-se no Carlinhos

 *Crônica publicada dia 11 de novembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Ultimamente, o assunto principal da rodinha diz respeito a um homem negro que se tornou presidente dos Estados Unidos, chamado Barack Obama. Legal estar vivendo este momento. Gostoso ligar a tevê e ver o Jô Soares dando um gritinho de vitória quando do resultado nas eleições daquele país. Até o nosso querido cronista Antônio Roberto de Paula relatou, em sua última crônica, no domingo, sobre um amigo que chora de emoção pelo ocorrido.

Este fato marcante foi o pontapé inicial para a abertura de debates acalorados sobre racismo e outras questões de pele. Muitos dizem que Obama não ganhou as eleições só por ser negro. Outros temem que, com a chegada de um negro a um dos cargos mais importantes do mundo, a premissa de que a cor não impende ninguém de alcançar seus anseios profissionais (querer é poder) seja utilizada em discursos de racistas camuflados, que escondem sua doença mental com papo furado de meritocracia progressista.

Nas imagens transmitidas diretamente dos Estados Unidos para nós, brasileiros, Obama parece ser uma pessoa legal. Mas não vai ser a semiótica da tevê, construtora de uma imagem carismática de um político, que vai me fazer acreditar num mundo melhor só porque um negro assumiu pela primeira vez a direção de um país imperialista, consumista, poluidor ao extremo e encrenqueiro.

E já que não posso dizer mais nada sobre o “Obaminha”, gostaria de lembrar de outra pessoa negra, pela qual sinto um enorme carinho. Esta sim, eu sei, pode e já está construindo um mundo melhor, com sua honestidade e trabalho. É o Carlinhos, meu primo, morador da pequena Santa Fé. Na escola, só tirava notas boas. Meio tímido, é aquele tipo de pessoa que espera você conversar para abrir a boca.

O tempo passou, ele continua indo à missa aos domingos, casou-se e faz pouco tempo que se mudou para sua casa própria. Trabalha desde pequeno com meu tio e padrinho, o Zé Preto, na roça. Aprendeu a dirigir também ainda moleque, mas, correto que só, não conduzia a Pampa (alguém se lembra deste carro?) na cidade, mesmo com a insistência do pai, apenas no trabalho, na área rural.

Desconheço algum inimigo seu, assim como não conheço alguém que tenha raiva dele. Carlinhos não fala mal de ninguém, não tem vícios e é adorado pelos primos menores e pela minha avó. Um exemplo de vida. Se a maioria das pessoas fosse igual ao meu primo Carlinhos, aí sim acreditaria que poderia haver um mundo melhor.

Sei que não existe desvio de caráter, para mais ou para menos, pelo fato de a pessoa ser negra, branca, amarela ou verde. Mas, posso afirmar, sem medo de errar, que todos os negros que eu conheço são honestos, trabalhadores e íntegros. Portanto, fico feliz pela vitória de Obama. Se ele for pelo menos parecido com o Carlinhos, pode ser que haja esperança.

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Cigarros

Hoje, às 11h25, estava na Praça Raposo Tavares, ao lado da Rodoviária Velha. Um senhor de meia-idade fumava seu Dallas tranquilamente. Um morador de rua, que já vi várias vezes naquela praça, em outros lugares pedindo dinheiro e até como flanelinha, pediu um cigarro ao senhor de meia-idade. A resposta foi não.

Segundos depois, passou um jovem com um Marlboro vermelho novinho, no plástico. Acho que estava vindo do tradicional estabelecimento Rei do Fumo. Não deu outra. O morador de rua abordou o jovem e conseguiu tranquilamente um cigarro, e de marca melhor do que a do senhor de meia-idade.

Não satisfeito com as tragadas, o morador de rua começou a difamar publicamente o senhor, o chamando de miserável, lazarento, idiota e outros palavrões que prefiro não mencionar. O senhor de meia-idade sentiu-se acuado. Disfarçou, entrou na circular amarelinha, voltou, mas não aguentou os impropérios e disse: “o cigarro é meu, eu que comprei e não quero dar para você”.

O senhor de meia-idade entrou na amarelinha e foi em direção a Mandaguari, em pé. O morador de rua continuou em sua casa, ou seja, na rua, fumando vagarosamente seu Marlboro. Parecia, naquele momento, nem estar ligando para o fato ocorrido há pouco, o de ter xingado um homem em praça pública.

*Texto escrito no blog A Poltrona em 21 de janeiro de 2008.

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Arrependimentos da infância*

Eu quero voltar a ser criança! Chega de responsabilidades. Chega de trabalho. Vou pegar o relógio do tempo, atrasar alguns anos e jogar as pilhas no mato. Vou voltar à época em que comia sucrilhos de manhã assistindo Pica-pau, Tom & Jerry, Ursinhos Carinhosos e Fantástico Mundo de Bob.

Só que, dessa vez, tudo vai ser diferente. Vou fazer todas as lições de casa, prometo mãe. Não vou jogar bola no corredor e assim manchar as paredes. Nem videogame a madrugada inteira para depois, no outro dia, colocar alho debaixo do braço, simular uma febre e assim não ir à aula. Eu prometo pai. De terça e quinta, darei o sangue na escolinha de futsal. Quem sabe, no próximo jogo, eu consiga vaga no time titular. De quarta e sexta, vou sorrindo para as aulas de natação, sem reclamar do cloro da água. Prometo a vocês.

No colégio, vou tomar coragem e entregar aquela cartinha de amor, em que tanto me dediquei caçando palavras difíceis no dicionário, para a Gabriela, minha primeira namorada. Assim, acho que terei mais chances de não ser trocado por um moleque três anos mais velho do que eu.

Sei como deve se sentir, professora Roseli. Um aluno igual a mim, que até tira notas e até faz umas redações legais, não deveria bagunçar no fundão da sala. Saiba que isso não se repetirá. Sentarei na primeira carteira e não vou desperdiçar folhas de caderno com bolinhas e aviõezinhos.

Juliana, minha querida irmãzinha, pode ficar despreocupada. Nunca mais vou mexer nas suas coisas. Mas, só uma pergunta: quem é Alexandre que te mandou um cartão apaixonado?

Poxa vó! Fico tanto tempo sem ver a senhora e quando chego em sua casa, só quero saber de tomar seu iogurte caseiro e brincar com os primos de balança caixão na lajota. Isso não está certo. Senta aqui do meu lado. Conta para mim como foi que você conheceu o vô. Ele sempre foi bravo assim? Aposto que se encantou pelos olhos verdes dele.

Mãe, dessa vez, nem toquei na lata de leite condensado para fazer brigadeiro no microondas. Pode preparar seu bolo tranquila. Mas, posso rapar a panela que a senhora utilizou para fazer a cobertura, pelo menos?

Poxa mãe, o bolo é pra mim! Só porque é o Dia das Crianças! Não precisava. Até presente você comprou! É muita bondade sua! Obrigado! Mas, espera um pouco: o que eu vou fazer com um este monte de pilhas recarregáveis que você me deu? Está bem. Já sei. Vou botar pra funcionar o relógio do tempo de novo. Afinal, você tem razão, ninguém merece uma criança tão sem graça como eu.

*Crônica narrada em homenagem ao Dia das Crianças no dia 11 de outubro de 2008, no programa RUC Revista, da RUC FM (94,3)

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Quis não ficar triste nesse Dia dos Pais *

Ontem, domingo, Dia dos Pais, como não fazia há muito tempo, trabalhei. Em uma época amarga da minha vida, tinha de trabalhar quase todos os sábados e domingos fazendo atendimento por telefone para o corpo técnico de uma operadora de telefonia.

Foram naqueles dias, quando tinha de trabalhar no domingo, voltar para a casa e ficar sozinho esperando a segunda-feira chegar, sem crédito no celular, sem telefone fixo, sem internet e sem companhia, extremamente só em um apartamento sujo, com um carpete mais que sujo, que, exatamente em uma noite de domingo, meio fria, meio quente, olhei para uma estrela e quis acreditar que, conversando com ela, poderia perfeitamente traçar uma comunicação com o meu velho e distante pai.

Acho que foi em 2006. O velho ainda não tinha morrido, mas era como se estivesse morto, já que ele, perdido nas noites sujas da grande São Paulo, quase não dava notícias suas. E como eu queria, naquela noite de domingo, dizer para o meu pai que eu odiava ficar sozinho enquanto passava o Fantástico na TV. Como eu queria convidá-lo para irmos a um bar qualquer e, como nos velhos tempos, ele pedir uma cerveja e eu, uma coca-coca bem gelada e um Suflair para mais tarde. Como eu queria vê-lo abrir a porta da sala, ir para a cozinha, cortar fatias de salame, jogar um limãozinho em cima e dizer assim: “come Jr., que tá gostoso”.

Neste último Dia dos Pais, neste último domingo, quando finalmente voltei a trabalhar em um domingo, quase não me lembrei do velho. Estava feliz por estar aprendendo coisas novas, um tipo de trabalho novo. Neste domingo, indo para o trabalho, percebi que estava quente, clima agradável, sol amigo, crianças brincando no parque, pais e filhos andando juntos, atletas jogando bola na quadra e uma Avenida Brasil absolutamente vazia.

Neste domingo, indo para o trabalho, vendo os filhos de Maringá comemorando a data festiva com os pais de Maringá, não fiquei triste, pelo menos não quis ficar triste. É que, justamente por estar trabalhando, pensei que, talvez, da onde estivesse, meu pai devia estar orgulhoso de mim, um cara indo indo trabalhar em pleno horário de jogo de domingo.

Quis não ficar triste no último Dia dos Pais porque sei que, mesmo aquelas pessoas que sempre destacaram os defeitos do meu velho, mesmo seus inimigos ou aqueles que acabaram sofrendo com algumas atitudes dele, absolutamente todos sempre disseram que uma de suas maiores virtudes era a sua plena disposição para o trabalho – podia ser sábado, domingo, feriado, na semana, qualquer dia que fosse, se tivesse trabalho, meu pai trabalhava, e isso ele fez dos 11 ou 12 anos até os 49, quando veio a falecer, curiosamente no Dia do Trabalho, em primeiro de maio de 2007.

Por isso mesmo, quis não ficar triste no Dia dos Pais, em que passei trabalhando e tentando, pelo menos nesse aspecto, seguir os passos do meu velho, sempre trabalhando. Afinal, é isso o que me resta: trabalhar e, graças a Deus, trabalhar com aquilo que realmente gosto de fazer, que é escrever. E, vez ou outra, também olhar para a estrela e tentar conversar com as pessoas que eu amo tanto, mas que insistem em viver a anos-luz de distância de mim.

*Crônica publicada dia 9 de agosto de 2010.

**E estou cá no trabalho em mais um domingo, em mais um Dia dos Pais, graças a Deus.

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O meu amigo Oswaldo

Quando cheguei ao Teatro Marista, sexta-feira passada, o meu amigo Oswaldo estava comendo bolacha de água e sal e vestia roupas claras, com predominância de cor parecida com a cor do seu cabelo e da sua barba. Comprei o CD “Canções de Amor”, saquei a caneta do bolso da camisa e, quase como um pedido de assalto, abordei o meu amigo Oswaldo, que terminava de mastigar sua bolacha, solicitando sua assinatura no encarte e dedicar tal feita à mulher que estava ao meu lado e que tanto gosta dele e das suas canções suaves.

Assim que o meu amigo Oswaldo terminou seu rabisco subentendido no encarte do CD, ele não sorriu muito para mim não. Continuou sua impaciente caminhada para algum lugar, parecia agitado, mas, na verdade, creio ser só o jeito de ele eliminar um pouco a adrenalina pré-show. Só porque o Oswaldo é meu amigo, ele achou que estaria no direito de levar consigo minha caneta, que tem detalhes em dourado, que tem meu nome escrito Wilame com i no final e, acima de tudo, um valor sentimental muito grande, já que a ganhei de presente da minha madrinha no dia em que colei grau.

Não deixei por menos essa suposta tática do meu amigo Oswaldo, a de querer surrupiar minha humilde caneta minutos antes do seu show começar. Permaneci ao seu lado com a mão estirada, esperando o eterno retorno da minha caneta e finalmente poder vesti-la novamente com o bolso da minha camisa nova. Mas uma fã, vendo minha angústia provocada pela espera, suplicou-me com olhinhos que só as mulheres conseguem ter quando estão diante de um grande músico esperando um sugestivo rabisco no encarte do mais novo CD adquirido na barraquinha montada no interior do teatro pela bagatela de R$ 25. Deixei o Oswaldo, mas só porque ele é meu amigo, fazer o bendito rabisco no CD da senhora com a minha caneta, e só.

Praticamente tomei minha caneta de suas mãos, mas sem ressentimentos de ambas as partes. Finalmente nos adentramos ao teatro, indo em direção das primeiras e confortáveis poltronas; assim poderíamos ficar bem pertinho dos dedilhados que o Oswaldo gosta de fazer em seu violão. Ainda não era 21 horas, e o meu amigo, já no palco, espantou-se de ver um teatro, até certo ponto, cheio. Ele disse que os maringaenses são pontuais.

O meu amigo quis começar o show pontualmente às 21 horas para terminá-lo 22h30. Por isso, como sempre faz em seus shows, até dar o horário exato de o espetáculo começar, desandou a conversar com o público, abrindo espaço para perguntas relacionadas às suas músicas. Descobrimos que o chato de uma música realmente existe, realmente é chato e mora no Rio de Janeiro. Oswaldo também contou que foi bom perder no festival de música de 1985, pois acha que o brasileiro gosta daqueles que perdem e, justamente por isso, fez bastante sucesso com a música “Condor”.

Antes de começar o show, perguntaram para Oswaldo se ele já tinha feito algumas músicas para sua ex, a atriz Paloma Duarte. Ele disse que sim e aproveitou para pronunciar um aforismo interessante: “a ex é a única coisa eterna da vida”. O meu amigo Oswaldo gosta de se arriscar nas águas turvas da filosofia vez ou outra.

Depois de mais uma retumbante apresentação musical, dividindo palco com a divina flautista Madalena Salles, o meu amigo Oswaldo reapareceu e fez um bis cantando “Metade”. Ao final do show, ele prometeu assinar o CD do pessoal na saída, bastando aos fãs fazerem uma fila decente. Talvez por isso ele quisesse minha caneta, vai saber.

Quase chegando ao carro, percebi o quanto ficamos à flor da pele quando ouvimos o meu amigo Oswaldo Montenegro cantar. Aliás, todos que saem do seu show, automaticamente se tornam seus amigos. O cara é simpático mesmo. Percebi também que maior e mais bonito sorriso no mundo não havia igual ao da mulher que estava ao meu lado, feliz e emocionada por ouvir “Cigana”, “A lista” e tantos outros sucessos dele. E pensei comigo mesmo: “amigo é pra essas coisas”.

*Crônica publicada dia 17 de agosto de 2010 na coluna Crônico, no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

**Republico a crônica esta semana, na seção “Memória Crônica”, por saber que Oswaldo Montenegro está voltando a Maringá com seu novo show, também lá no Teatro Marista, no dia 4 de agosto, sábado.

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Política burra

A reunião finalmente fora marcada: dia 18 de setembro, às 19h10. Só faltava, agora, o apoio necessário dos discentes. E, para surpresa de muitos, alunos do curso de Comunicação Social (Jornalismo e Publicidade e Propaganda), de uma faculdade de Maringá, lotaram a sala e participaram ativamente da assembléia de fundação do Centro Acadêmico de Comunicação Social (CACS). Pelo fato de não haver registros de centros acadêmicos fundados por alunos, os boatos contados pelos corredores eram de que sempre existira uma forte repressão por parte da instituição, que não apóia e nunca apoiou este tipo de organização política na academia.

Mesmo assim, o CACS nasceu. Reclamações a parte, fato é que os alunos devem comemorar esta conquista política. Afinal, reivindicar ou simplesmente se abstrair do processo é fácil. Difícil mesmo é conseguir se organizar e lutar por seus direitos dentro de uma instituição de ensino, ainda mais sendo particular. Como foi bonito ver aqueles estudantes interessados em mudar o que consideram errado no curso. Muitos deles, escolhidos democraticamente por meio do voto, disponibilizaram-se a atuar na gestão provisória do CACS, que ficará no pleito até abril de 2009, período em que haverá eleições para a escolha de uma nova chapa.

Ter consciência política talvez seja um dos maiores desafios do nosso País. Só assim, finalmente escolheremos os candidatos sérios e compromissados em atender as demandas da população, esquecendo-se dos interesses individuais ou de pequenos grupos privilegiados da sociedade. Mas, infelizmente, percebe-se que há, por parte das pessoas, um verdadeiro deboche quando o assunto é política. E a culpa desse descaso vem da maioria dos administradores públicos que, no palanque, é hipócrita, e no cargo, é corrupto.

Esse desinteresse pela política não acontece apenas em classes mais desfavorecidas. Quando do surgimento do CACS, na faculdade, em que grande parte das pessoas tem poder aquisitivo médio ou alto, não foram poucos os alunos que simplesmente ignoraram ou desmereceram o centro acadêmico. Até professores pareciam estar desacreditados com o êxito dessa luta. Seria um reflexo do momento pobre das campanhas políticas exercidas pelos prefeituráveis de Maringá?

A escassez de debates, as propostas utópicas, a lengalenga nos discursos, os “laranjas”, a demagogia, os processos judiciais nas costas, tudo isso não estaria desmotivando de maneira geral a população? Certo estava Bertold Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo alemão, ao escrever o excelente texto “Analfabeto Político”:

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.

*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 23 de setembro de 2008, na coluna Crônico.

**Até onde sei, o CACS não foi para frente. Houve apenas uma reunião inicial, um entusiasmo inaugural e nada mais naquele projeto que seria inovador para Maringá: um centro acadêmico atuante no curso de Comunicação Social em uma faculdade privada na cidade.

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A memória do 11 de setembro

Era uma terça-feira comum. Logo pela manhã, um sol agradável batia nas janelas da sala de aula, no colégio Gastão Vidigal. Eu e meus amigos estávamos divididos entre assistir uma aula chata de Química, com uma professora esquisita, ou, como era de costume, matar aula e ir andando até uma padaria próxima ao Colégio Nobel, só para comer as famosas baguetes de frango que vendiam por lá, acompanhadas de cocas-cola daquelas com embalagens de vidro, bem geladas.

A fome falou mais alto do que os alcalóides e os grupos de carbono. De barriga cheia, nos dirigimos ao ônibus fretado, que mais tarde nos levaria de volta para Santa Fé, cidade próxima de Maringá. Ainda demoraria pelo menos mais uma hora para dar o horário da saída, por isso, e como também era de costume, estávamos já arrumando o baralho para jogar truco com o Cidão, motorista do ônibus.

Mas, as imagens transmitidas pela televisãozinha do ônibus fizeram com que as deliciosas baguetes de frango se transformassem em indisposição intestinal. Parecia filme, mas era, na verdade, o plantão de notícias da Globo mostrando um prédio altíssimo, lá nos Estados Unidos, desabando. Tinha um menino dentro do ônibus, desesperado, dizendo que, com certeza, aquilo seria o início da 3ª Guerra Mundial. Mais tarde, descobri que estava assistindo, ao vivo, ao ataque nas torres gêmeas, o famoso Desastre de 11 de setembro.

E hoje, nesta crônica, lembrando que na quinta-feira passada completaram-se sete anos (a crônica foi escrita em 2008) desse dia terrível, em que mais de 3.000 pessoas morreram, venho a refletir sobre nossa posição neste mundo como agentes sociais, transformadores e gerentes dos fatos históricos. O desastre de 11 de setembro será matéria da prova de História para muita gente, durante sabe-se lá quantos anos. Talvez, até no dia em que os arquivos audiovisuais das tevês serem queimados e novos historiadores dizerem que tudo não passou de uma lenda.

O fato é que presenciamos e fazemos parte deste desastre marcante, ocorrido nos Estados Unidos, pois, invariavelmente, o mundo todo sofreu as conseqüências com a ira de Bush e seus comparsas, na suposta luta imbecil contra o terrorismo. Talvez, na época, por ser ainda um adolescente meio voado, minha maior preocupação era simplesmente com a partida de truco adiada. E, junto da incrível imagem daquelas torres infinitas indo ao chão, em minha mente, a azia daquela baguete de frango e o garoto desesperado anunciando a 3ª Guerra Mundial são lembranças que não irão se apagar tão cedo.

Mas, e você? Já parou para pensar o que estava fazendo justamente no momento em que a soberania norte-americana foi abalada com o desabamento das torres?

*Crônica publicada dia 16 de setembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Particularidades do transporte público

Até mesmo crianças aparentam estar tristes e enrugadas. Pessoas feias, solitárias, cansadas e fedidas. Outras, desesperadas, sem educação e deprimidas. Algumas são dignas e estão inseridas no protótipo de normal, ou seja, assistem novela das oito, compram cd pirata da novela das oito e comem, de vez em nunca, no Mc´ Donald´s.

A briga por assentos é acentuada por muita rivalidade e dores nas varizes. Não obtendo êxito na dança das cadeiras, as chances são grandes de passar uma hora em pé, segurando em algum apoio, que te provoca asco, por lembrar que inúmeras pessoas já colocaram as mãos ali, não se importando se nelas continham coliformes fecais, restos orgânicos, ou respingos de uma masturbação mau sucedida no banheiro público.

Tem gente que faz questão de deixar o celular na maior capacidade sonora e ainda com aquela linda canção que retrata uma festa em um ap. Sem falar nos que passam o trajeto inteiro conversando pelo mesmo aparelho, muitas vezes futilidades, como a compra de pães para o jantar, ou coisas mais fúteis ainda, como o fechamento de negócios ligados à sua medíocre empresa.

Não me lembro bem do nome de quem inventou o IPod, mesmo assim o agradeço pela invenção. Embora quase ninguém use o IPod propriamente dito, e sim o pen drive que toca música, importado da China, ele tem contribuído pela paz nos transportes públicos, pois o sujeito que está ouvindo mp3 fica quieto em um canto e não atrapalha ninguém, exceto quando perde o limite de decibéis produzidos pelo aparelho e acaba compartilhando com vários ao seu redor a sua música, que nem sempre é de qualidade.

Há também várias pessoas que, assim como eu, preferem ler revista, livro ou jornal, sempre se debatendo, metade do caminho, para virar as páginas, a ponto de desistir da idéia de ler. O espaço é curto e, em pé, o ato de ler é crucificante. O engraçado é que muita gente não dá um real para comprar jornal, mas quando senta ao lado de alguém que comprou um exemplar, não tira os olhos das notícias. Elas passam pelas bancas e ficam minutos lendo manchetes das capas. Mesmo assim, não adquirem o mísero pedaço de papel sujo.

Não se contentando com fétido cheiro de suas axilas, cujo desodorante foi passado, pela última vez, ontem, depois do banho, para assistir, limpinho, a novela, o cidadão ainda tem a coragem de trazer consigo um pacotão de chips, sabor isopor e aroma chulé. O adesivo do transporte público diz não fume, mas era melhor alguém fumando ali dentro do que comendo um chips desse ao seu lado.

Nada contra a terceira idade, mas chego a conclusão de que a maioria não tem nada para fazer a não ser ficar andando de ônibus para lá e para cá. A senhora sai de seu município, de circular intermunicipal, para comprar duas latas de massa de tomate, que estão na promoção na cidade ao lado. Eles podiam, pelo menos, deixar para zoar em horários que não sejam de picos, pois, embora a classe trabalhadora, como um todo, seja jovem e cheia de energia, ficar um dia inteiro costurando em uma fábrica ou atendendo clientes na loja de roupas do shopping, cansa em demasiado.

Quando você entra no ônibus, sobram uns lugares pingados para sentar, mas assim que você se senta, chega uma senhora de 70 anos, com um monte de sacolas e com aquela cara de: “o que tá esperando para deixar eu sentar moleque?”. Geralmente, nem um ‘obrigado’ você recebe.

Esse é o cenário de, pelo menos, três horas do meu dia. Quando desço da circular, um frio de fim de tarde arrepia os pelos de meu braço. A noite está enluarada e um cheiro de bife acebolado exala de muitos lares. Amanhã é outro dia, mas a rotina prossegue e os infortúnios do transporte público me esperam. Nem que for financiado, mas dia desses farei posse de um carro.

Crônica publicada em 2008 no blog A Poltrona.

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