Reportagens



‘O leitor é um grande mistério’, diz Hatoum

Estreia segunda-feira (9) a minissérie da Globo “Dois Irmãos”, inspirada em romance homônimo de Milton Hatoum. Um dos autores em atividade mais respeitados do País respondeu três perguntas sobre a série, o livro e leitores:

Por que “Dois Irmãos” tem atraído tantos projetos artísticos que extrapolam as páginas do livro?
Não sei dizer o que motivou adaptações para o teatro, HQ e minissérie, mas deve ter algo a ver com a trama do romance, o modo de narrar e a linguagem. Um drama familiar em contraponto com a decadência de Manaus num período de brutalidade da história brasileira recente. O mais relevante numa ficção é a forma de narrar. E o narrador do “Dois irmãos” não pertence à família de imigrantes libaneses. Nael é um agregado, um personagem que veio de baixo, filho de uma empregada, uma índia que trabalha para sobreviver. Ele consegue estudar graças ao avô (Halim) e os estudos dão a ele a capacidade de refletir e escrever sobre o passado. O narrador não sabe quem é seu pai. Talvez esse drama moral, a paixão de Zana (mãe dos dois irmãos) por um dos filhos e outros conflitos tenham atraído a atenção dos leitores. Mas o leitor é também um grande mistério.

Essas possibilidades que cercam a literatura aproximam as pessoas dos livros?
Acho que aproximam. Sei que vários leitores da adaptação do Fábio Moon e do Gabriel Bá leram também o “Dois irmãos”. Certamente isso está acontecendo ou vai acontecer com os espectadores da minissérie.

Como o senhor se sente quando vê a sua obra sendo utilizada em outras artes, como a dos quadrinhos e da teledramaturgia?
Foi um golpe de sorte ou uma feliz fatalidade. Os artistas gráficos são excelentes, assim como a direção de Luiz Fernando Carvalho, o roteiro da Maria Camargo, os atores, figurinistas e toda a equipe da minissérie. Fico contente em compartilhar com esses artistas a história e a linguagem de um romance a que dediquei quase dez anos da minha vida. Na verdade, eles não adaptaram, e sim recriaram a essência do romance em outra linguagem. Penso que meus leitores gostaram dos quadrinhos e vão apreciar a beleza visual da minissérie.

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Cinuem retorna em grande estilo

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Por Wilame Prado

Maringá volta a ter mais uma opção que oferece cinema de qualidade longe dos circuitos comerciais das redes localizadas nos shoppings. O projeto Cinuem, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM, retomou as atividades após alguns meses sem oferecer sessões de cinema dentro do campus.

Com a Mostra Cinema Brasileiro Contemporâneo: Emergências da Política, iniciada há uma semana, o Cinuem volta a exibir filmes todas as quartas-feiras, pontualmente às 19 horas, na Sala 1 do Bloco A34, na UEM, sempre com entrada franca. O projeto é aberto a toda comunidade e não apenas a estudantes universitários.

O cartaz de hoje do Cinuem é o filme brasileiro “Orestes”, dirigido pelo mineiro Rodrigo Siqueira (“Terra deu, terra come”) e vencedor do Prêmio APCA como melhor documentário de 2015.

“Orestes” combina elementos documentais e ficcionais para jogar luz a dois problemas atuais da sociedade brasileira: a memória e a herança do regime militar de 1964 e a violência policial sentida principalmente pelos pobres e pelos negros. Quando do lançamento, ano passado, a crítica relacionou o filme aos ataques ocorridos em Osasco, na grande São Paulo.

Siqueira recorre à mitologia grega – mais precisamente às peças teatrais de Ésquilo – para criar analogias no documentário. Na tragédia grega, Orestes mata a mãe para vingar a morte do pai, o rei Agamemnon, e ganha um voto de minerva após decisão do júri formado por cidadãos atenienses.

No Brasil contemporâneo do diretor mineiro, Orestes é um personagem fictício que mata o pai – um torturador brasileiro anistiado em 1979 e assassino da mãe do seu filho – e que será submetido a um julgamento simulado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Entre os casos reais citados em “Orestes”, algumas vítimas da ditadura militar são entrevistadas, como Ñasaindy Barrett Araújo, filha da guerrilheira comunista Soledad Barrett Viedma que foi assassinada em 1973 após emboscada tramada por José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, ex-companheira de Soledad.

A crítica de cinema Eleonora de Lucena descreveu “Orestes” como um filme original e provocativo. “Mesclando documentário, psicodrama e encenação, o diretor mexe com a plateia: cria tensão, incômodo”, escreveu ela, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2015.

Retomada
A retomada do Cinuem sempre foi desejo da PEC da UEM, mas estava parado desde que a professora Fátima Neves havia se desligado do projeto, no ano passado. Com a chegada da professora Cristiane Lima à universidade, o Cinuem ganhou sobrevida.

Ela, que veio de Belo Horizonte (MG), chegou como professora colaboradora para lecionar no curso de Comunicação e Multimeios. Com mestrado e doutorado na área de Cinema, definiu com o setor cultural da UEM o retorno do projeto.

Cristiane diz pretender aproximar o Cinuem dos alunos do curso de Comunicação e Multimeios. “A ideia é que eu coordene um grupo de curadoria, composto por alunos e ex-alunos do curso, para definir a programação dos filmes no projeto e também colaborar durante os encontros com explanações acerca das obras apresentadas”, diz ela.

Outro desafio será conseguir os filmes para as exibições, já que, agora, a proposta do Cinuem é levar ao público filmes recentes e premiados. Para isso, Cristiane se utilizará de seus contatos, amigos e conhecidos da área.

“Nesta primeira mostra de filmes brasileiros, consegui autorização dos próprios diretores para conseguir o filme ou então baixá-los”, conta ela, que finaliza: “O Cinuem permite essa abertura da universidade para a comunidade externa, e a gente acha que, desta maneira, promovemos a cultura no âmbito da cidade de Maringá.”

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (25) no caderno Cultura, do Diário

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Cultura que se constrói com êxitos

O jornalista Rogério Recco e o escritor Laurentino Gomes durante a Flim do ano passado: festa reflete o bom momento cultural da cidade

O jornalista Rogério Recco e o escritor Laurentino Gomes durante a Flim do ano passado: festa reflete o bom momento cultural da cidade (Foto: Divulgação)

Por Wilame Prado

Quando chegam a uma nova localidade, pioneiros planejam construir casa, igreja e armazém. Ruas, avenidas, praças e bosques. Mas nem sempre se lembram da cultura, dos teatros, dos cinemas e de locais em que pessoas compartilham a arte e o lazer para, simplesmente, serem mais feliz.

Maringá nasceu planejada, principalmente urbanisticamente falando. Com a cultura não foi assim. Aliás, com a cultura geralmente não é assim. Cultura é intrínseca ao ser humano e as manifestações culturais certamente acontecem em sociedades organizadas.

“Maringá nasceu calcada no espírito do trabalho e do labor. Muitos vieram em busca de fazer fortuna, trabalhar para crescer. Não havia um planejamento cultural e artístico. Mas o homem não é só trabalho. Ele precisa de algo para cultuar, ter os seus momentos de contemplação”, diz o historiador João Laércio Lopes Leal, da Gerência de Patrimônio Histórico de Maringá.

Em razão disso, fez-se, então, a cultura em Maringá, desde os primórdios. Como exemplo, cita-se o livro de autoria do próprio Leal, o recém-lançado “História Artística e Cultural de Maringá”, que começa a sua narrativa apontando acontecimentos datados já de 1939, quando Maringá era apenas um distrito de Londrina.

No começo eram apenas quermesses, bailes na roça, festinhas na cidade e os pequenos circos mambembes.

Depois, veio o primeiro cinema, que chegou já em 1947; as fotografias de Shizuma Kubota, Tutumo Sanuki e Kenji Ueta; e um talentoso Edgar Werner Ostenrroht dando seus primeiros traços nos anos 1950 e dando à historiografia um olhar a mais por meio da pintura.

Havia ainda um inquieto artista chamado Calil Haddad fazendo a cena dramatúrgica acontecer na cidade com a criação do Teatro Maringaense de Comédia (TMC); e também um exímio músico e maestro Aniceto Matti garantindo a sonoridade na Rádio Cultura, tocando piano ao vivo e ainda propiciando formação musical para várias gerações.

Após meses empenhado no livro que busca seis décadas e meia de cultura na cidade, Leal encontra uma definição para tudo isso: “é a história de uma cidade em que a cultura esteve presente de forma intensa, só que não de maneira prioritária.”

O historiador, que trabalha este ano com um segundo volume para registrar a cultura maringaense, dessa vez entre 1991 e 2015, comemora a evolução permanente: “O que era intenso finalmente se consolidou. A partir dos anos noventa, a cultura maringaense se solidifica, se institucionaliza e se fortalece. Prova disso é que haverá o mesmo número de páginas em um livro que retrata muito menos tempo histórico.”

E se é para se pensar em cultura de maneira organizada – em uma nova, mas sempre muito planejada cidade –, pode-se citar algumas datas marcantes, como o ano de 1969, quando se instituiu a Secretaria Municipal de Cultura, ou então o ano de 1996, quando o Teatro Calil Haddad foi inaugurado no dia 30 de dezembro para extrapolar qualquer questão que remetesse a cartão-postal, sendo, hoje, um verdadeiro centro cultural que recebe manifestações do teatro, dança, artes plásticas e patrimônio histórico.

“No caso da Secretaria de Cultura, foi instituída na gestão do Adriano Valente. Temos uma secretaria de Cultura de 49 anos e cada vez mais atuante. Prova disso, dentre tantos eventos que Maringá já recebeu do poder público, é a Festa Literária de Maringá (Flim), evento marcante, que vai para o seu terceiro ano e que se destaca pela enorme capacidade de reunir escritores locais, nacionais e internacionais, além de chamar um público de respeito durante uma semana de evento”, considera.

Arte o ano todo
Atualmente, Maringá assiste a um cenário cultural pujante. Há mais de uma década a Secretaria Municipal de Cultura garante opções gratuitas e com qualidade por meio dos chamados Convites: Convite à Dança, Música, Teatro, Cinema e Artes Visuais.

Espalhados por diferentes bairros, hoje os teatros (Calil Haddad, Reviver, Barracão, Oficina da UEM, CEU em Iguatemi e Casa Cultural Jardim Alvorada) são locais para organização de eventos e espetáculos dos mais diferentes gêneros e estilos. Há, ainda, casas de shows, centros culturais, bibliotecas e, o mais importante: gente disposta a fazer e até viver da arte.

Só se faz aumentar os números envolvendo projetos culturais viabilizados por meio da Lei Rouanet, que permite aos artistas e produtores culturais captarem recursos financeiros com empresas que utilizam mecanismos de isenção fiscal para tal.

A jornalista e produtora Rachel Coelho é um dos que vivem intensamente a cultura local. Há vinte anos ela está, de uma maneira ou de outra, relacionando-se com a arte maringaense, escrevendo, produzindo, fazendo.

Formada em Jornalismo e História, ela passou a limpo a história do tradicionalíssimo Festival de Música Cidade Canção no livro “Canção Para Uma Cidade: a História do Femucic”, publicado em 2003. Ainda assim, o seu negócio mesmo é o teatro. Hoje ela assessora grupos teatrais, faz produção em montagens e tenta emplacar projetos próprios por meio da Lei Rouanet.

Rachel tem o perfil do que hoje podemos considerar um cidadão da cultura de Maringá. E ela comemora não somente o êxito de seus projetos ou a agenda local que se faz ininterrupta em praticamente todos os meses do ano na cidade. Ela vibra mesmo é com o horizonte que se mostra cada vez mais favorável em Maringá porque, aos poucos, cultura não é somente sinônimo de coisa que chega de cima para baixo, com artistas sempre dependentes à boa vontade do poder público.

Ela cita as conquistas das pré-conferências do Conselho de Cultura, os esforços da recém-inaugurada Maringá Cultural Cooperativismo (Macuco), o fomento visível do Instituto Cultural Ingá e as várias opções de formação cultural na cidade por meio de cursos universitários nas Artes Cênicas, Visuais e Musicais.

“O cenário é feito justamente de pessoas inquietas que não podem viver sem estar fazendo arte. Sou uma otimista. Estou aqui porque acredito nessa cidade. Então, não tenho como não comemorar tudo isso”, diz Rachel.

*Reportagem publicada no caderno especial de aniversário dos 69 anos de Maringá, encartado em 8 de maio no Diário

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Refúgio de sorriso e paz

Hudson Zanoni e Alexandre Penha em Burkina Faso, no continente africano, em novembro de 2014

Hudson Zanoni e Alexandre Penha em Burkina Faso, no continente africano, em novembro de 2014

Por Wilame Prado

O governo da Jordânia foi elogiado recentemente pela ONU ao anunciar que poderá ajudar até 78 mil sírios refugiados a conseguir trabalho legalmente no país. O que o governo talvez não consiga é propiciar momentos descontraídos para este povo a ponto de até, quem sabe, fazer refugiado voltar a sorrir.

Fazer sorrir, talvez até gargalhar: esta será a missão dos atores e palhaços profissionais maringaenses Alexandre Penha e Hudson Zanoni, da Cia Teatro Expressão de Amor. Eles têm viagem marcada no dia 25 de maio sentido a Aman, capital da Jordânia, onde realizarão apresentações para crianças e adultos refugiados da Síria.

Os palhaços foram convidados pela Missão Desafio, instituição que atua no Brasil e em diversos países de alto risco ao redor do mundo com o objetivo de levar dignidade e melhor qualidade de vida às pessoas dessas regiões por meio de construção de poços artesianos, escolas, estruturas de trabalho, igrejas e, também, viabilizando apresentações artísticas.

Jordânia é considerada um reino árabe e faz fronteira com a Arábia Saudita, Iraque, Síria, Israel e Palestina. Há meses, o país tem recebido refugiados sírios: pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados da Jordânia, já são 640 mil refugiados sírios registrados.

Durante a expedição, Alexandre Penha garante que estarão em áreas protegidas, mas próximos de países onde há, atualmente, confrontos armados. A motivação vai além de qualquer perigo, no entanto. “Observamos que nossos problemas são graves, mas perto de alguns povos são pura vaidade. Os brasileiros lutam por dignidade e melhora de vida; alguns lugares lutam, ainda e apenas, por sobreviver, por água ou comida”, diz ele.

Com a missão de colecionar sorrisos raros, Penha e outros atores da Cia Expressão de Amor já percorreram mais de dez países, entre eles Haiti, Burkina Faso, Peru e Nepal, todos vivendo a extrema miséria e carentes de comida, água, dignidade e momentos descontraídos, como aqueles proporcionados quando jovens atores vestem suas roupas coloridas, transformam-se em palhaços e fazem de tudo para que – pelo menos durante aquele momento – todas as mazelas da vida (e que nenhum ser humano merecia sofrer) sejam esquecidas.

Com uma experiência de 13 anos como médicos-palhaços percorrendo hospitais e asilos de Maringá e região, Penha e Hudson Zanoni estão acostumados a visitarem àqueles que nem sempre são lembrados. “Aprendemos de maneira prática como a vida deve ser simples e como podemos sempre dividir.”

E se poucos estão dispostos a visitarem um enfermo na cama do hospital ou mesmo um velhinho no asilo, que dirá se encontrar com um refugiado sírio buscando acima de tudo a sobrevivência? É justamente aí que entra o trabalho voluntariado dos palhaços maringaenses.

“Nosso objetivo é estar presente onde ninguém quer ir e assim levar, através da arte, alegria, amor e nossa cultura para essas populações”, diz Penha. “Acreditando que a ética do encontro pode mudar um dia ou uma vida de uma pessoa”, reforça.

E se cada um ajuda como pode, é com a arte clownesca que os palhaços não deixam de acreditar que rir, afinal, pode ser também um santo remédio. “A arte ajuda a salvar quando é feita de maneira responsável e está sustentada por uma estrutura maior que cuida das pessoas. Acreditamos que todo ser humano precisa de alimentação, moradia, saúde, segurança e muita arte (palhaço, dança, música, teatro, circo) para viver bem”, considera.

AJUDE
MISSÃO DESAFIO
Com os palhaços e atores Alexandre Penha e Hudson Zanoni
*A missão ainda recolhe recursos para a viagem; portanto, quem quiser ajudar e ainda conhecer melhor o projeto pode entrar em contato pelo e-mail [email protected] deamor.com.br ou WhatsApp: (44) 9930-7230

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (4) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Rubros e diretos*

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Por Wilame Prado

De Campo Mourão, Tiago Silva faz sucesso na internet com os Rubros Versos, projeto que mescla arte e crítica social

Muitos preferem o silêncio quando o tema é racismo, igualdade de gêneros, ditadura da beleza ou homossexualidade. Ao contrário da maioria, com o lápis na mão e a ideia na cabeça o cartunista e quadrinista Tiago Silva, 29 anos, costuma ser direto no que tem para dizer por meio de quadrinhos. É assim que os Rubros Versos (www.rubrosversos.wordpress.com) têm atraído milhares de pessoas na internet. Só no Facebook, a página do projeto já conta com mais de 40 mil curtidas. Os quadrinhos postados na rede social chegam a receber duas mil curtidas e uma infinidade de compartilhamentos.

Agora, Silva – que é natural de São João do Ivaí e mora em Campo Mourão – quer transformar os quadrinhos rubros (os tons avermelhados são característicos em todas as artes) em livro. Recentemente, ele começou uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse para reunir quadrinhos em um volume impresso.

Os antagonistas e os coadjuvantes ganham vozes, corpos e destaque nos traços do quadrinista. Uma mulher acima do peso clama pela felicidade acima de qualquer padrão determinado pela mídia; uma garota com seu blackpower prega o fim da expressão “cabelo ruim”; e uma simples imagem de um recipiente e três escovas de dente sugere o amor livre entre casais ou mais pessoas.

“As pessoas me inspiram. A nossa diversidade cultural e toda essa complexidade humana que se deriva disso. Essas coisas me deixam sempre instigado a tentar entender tudo e expressar a minha visão”, revela Silva – um confesso seguidor de uma tríplice de respeito nos quadrinhos: Laerte Coutinho, Bill Waterson e Robert Crumb.

Ao evidenciar costumes e o cotidiano daqueles que não seguem o considerado padrão comum numa sociedade machista e autoritária, ele coleciona sim vários elogios, mas também represálias. “É corriqueiro meus quadrinhos serem denunciados pelos defensores da ‘moral e dos bons costumes’. Às vezes as denúncias não dão em nada, porém já tive quadrinhos sumariamente apagados da página e meus perfis no Facebook bloqueados algumas vezes”, lamenta ele, que, além do projeto pessoal, atua na edição gráfica do jornal Correio do Cidadão e já emprestou seus traços para o site Vida Breve e o jornal O Duque.

Do livro, porém, ninguém poderá apagar nada. Restando ainda 40 dias para o término da campanha no Catarse, o artista recolheu até então 9% do valor necessário para a tiragem da primeira impressão do livro “Rubros Versos”, que terá mais de 100 páginas e feito em A5, com ótima impressão gráfica. “O livro será um compilado de tudo o que saiu na página do Facebook, além de algumas páginas inéditas, que serão feitas especialmente para a versão impressa”, garante.

*Matéria publicada em 9 de fevereiro de 2016 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir’ – Ademir Assunção

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Por Wilame Prado

O escritor Ademir Assunção lançou recentemente dois livros pela Editora Patuá, “Pig Brother” e “Até Nenhum Lugar”, ambos de poesia. Semana passada, ele lançou os livros no Londrix – Festival Literário de Londrina. Sobre as suas mais recentes obras e sobre o cenário atual da poesia brasileira, o vencedor do Prêmio Jabuti em 2013 concedeu entrevista:

Por que resolveu lançar os dois de uma vez? Tem a ver com os conteúdos: um mais porrada e outro mais lírico?
ADEMIR ASSUNÇÃO – Sim. Pig Brother é um poema longo, muito influenciado por minhas leituras sobre xamanismo, de um lado, e pela brutalidade humana, de outro. Procurei enfocar o lado selvagem, obscuro e violento desse mundo cheio de insensatez. Guerras, chacinas, linchamentos, torturas, tráfico de órgãos, intolerâncias, incitações ao ódio não são experiências agradáveis, mas a arte não pode se furtar de abordá-las. O livro acabou ficando barra-pesada, reconheço. Por isso decidi publicar também Até Nenhum Lugar, que é muito influenciado por minhas experiências com o zen, com uma visão mais sutil sobre a vida. Não diria que é um livro lírico. Diria que é o outro lado da moeda. A espécie humana é capaz das maiores delicadezas e das piores atrocidades. O que leva o pêndulo a oscilar, o tempo todo, para um lado e para o outro? Há motivações políticas, econômicas, religiosas, mas, do ponto de vista, digamos, espiritual, ou ontológico, se quiserem, essa “oscilação” é um mistério para mim. Por que enquanto uns tratam de criar outros tratam de matar?

Explique o criativo título “Pig Brother”.
Em vez de explicação, deixo em aberto para interpretações. Há uma referência clara ao clima de opressão do Big Brother, de George Orwell, e também ao exibicionismo babaca do Big Brother Brasil da TV Globo. Ao mesmo tempo, Pig Brother é a personificação de uma entidade xamânica. O xamanismo nos leva a encarar o lado obscuro, o pavor, a doença, para tentarmos superá-la. Mas que cada um leia e faça sua própria interpretação.

Seria um livro apocalíptico?
Não cabe a mim anunciar nenhum apocalipse. Simplesmente procurei jogar uma lente de aumento sobre situações com as quais convivemos cotidianamente. O cenário do poema é realmente chocante: o trânsito das cidades está paralisado, a Baía da Guanabara é uma crosta de óleo fétido, os rios são esgotos a céu aberto, a violência explode em todo canto. Acrescentei mais alguns pequenos detalhes: o céu é de lata, as árvores são de alumínio, o ar é quase irrespirável, as pessoas não conseguem sentir mais absolutamente nada. Isso torna o livro apocalíptico ou há um apocalipse pairando no horizonte dessa sociedade de consumo desenfreado que estamos vivendo?

Seria um livro que não dá salvação aos seres humanos?
Minha linguagem é a linguagem artística. Não sou pastor nem profeta. Não vendo ilusões. Penso que a arte pode abrir os olhos das pessoas, pode fazê-las enxergar melhor o que não estão enxergando com nitidez. Veja: durante o processo de criação do poema, caminhava muito pela cracolândia de São Paulo e por bairros periféricos da cidade. Não é um cenário que prima pela beleza e pela suavidade. Por outro lado, lia aquelas instrutivas revistas que mostram a frivolidade do mundo das celebridades. De um lado, pessoas se arrastando como zumbis, vivendo em condições precárias, de desespero total. Por outro, celebridades de papelão, vazias, dando opinião sobre tudo, da política ao sexo anal. Achei que deveria trazer esse inferno para dentro da tradição da poesia brasileira. Por que? Bem, porque ele existe e alguém precisa falar dele.

Em “Pig Brother” há claras referências à noite paulistana e carioca. Como é a sua relação com essas cidades, com essas noites?
Minha relação é a de uma pessoa que procura se manter o mais atento possível. Tenho a impressão de que estamos perdendo a noção do que é real, do que é imagem, do que é falsificação. De fato, em Pig Brother há muitas referências a bairros, ruas e inferninhos, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas também de Porto Alegre, de Buenos Aires e uma ou outra cidade. Isso porque queria deixar o mais concreto possível o ambiente em que os personagens se movimentam, queria trazer esses cenários para bem perto do leitor. Minha intenção era deixar uma dúvida: mas, caramba, tudo isso está se passando no futuro ou neste tempo presente? Se as pessoas saírem da leitura com esta dúvida, sinal de que funcionou.

Parabéns pela capacidade de construção imagética com os versos. Na sua opinião, é preciso muito treino ou muitas vivências para conseguir isso na poesia?
Creio que sim. É preciso muita leitura, muito treino, muita observação e muitas vivências. Eu procurei esse efeito: um fluxo incessante de imagens despejadas na cabeça dos leitores. Não me preocupei tanto com a ação dos personagens. Não existe uma narrativa linear de episódios. Existe esse fluxo de imagens, quase sempre tenebrosas, com uma luz opaca, eu diria, se fosse um cineasta. Mas sou um poeta, minha matéria prima é a palavra. Neste livro, talvez eu me comporte como um poeta querendo fazer cinema.

O leitor que quiser comprar, só no site da Patuá?
Sim, a venda dos dois livros, tanto Pig Brother, quanto Até Nenhum Lugar, está sendo feita somente pelo site da Editora Patuá. Parece que as condições impostas pelas grandes redes de livrarias são desvantajosas para as pequenas editoras. A venda via site está se tornando uma saída viável para editores, autores e leitores interessados. Deve crescer muito mais nos próximos anos.

Como foi esse processo com a editora, e a tiragem curta de 150 exemplares?
É realmente chocante que em um país com 200 milhões de habitantes livros importantes saiam com tiragem inicial de 150 exemplares, não é? Mas é assim que as coisas estão funcionando. Não adianta fazer grandes tiragens se não há locais para colocá-los a venda. Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir. De qualquer modo, a primeira impressão dos dois livros já se esgotou e a gráfica está rodando a segunda. Conforme vai saindo, vai-se imprimindo mais exemplares. As novas técnicas de impressão tornaram esse processo mais barato e evita-se gastos com estocagem. Aos poucos, meus livros vão se tornando tão conhecidos quanto os bons livros das grandes editoras.

O que é ganhar um Jabuti?
Ganhar um Jabuti? É um reconhecimento bacana, importante. Mas não mudou minha vida em nada. Continuo bebendo nos mesmos bares, com os mesmos amigos. Se fosse um Nobel, que está em torno de 1 milhão de euros, se não me engano, eu poderia viver o resto dos meus dias numa praia, me dedicando integralmente à leitura e à escrita.

O que é fazer poesia no Brasil?
Fazer poesia, para mim, é uma necessidade vital, quase como respirar. Acho que não seria diferente se vivesse na Dinamarca, Rússia ou Itália. Não tenho dúvidas que minha vida seria bem mais pobre sem a leitura e a escrita de poesia. É uma poderosa ferramenta de percepção.

Como estamos de poetas?
Muito bem. Há ótimos poetas vivos escrevendo com sangue, com pegada forte, com sutileza, sobre você, leitor, sua irmã, seu vizinho, sua namorada – mesmo que vocês não saibam disso. Viver na mesma época de Geraldo Carneiro, Glauco Mattoso e Alberto Lins Caldas, por exemplo, é um privilégio.

Fale dos próximos projetos.
Passar uma boa temporada na praia, pisando descalço na areia, namorando, de papo pro ar, sem nada pra fazer.

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Todo mundo lê Knausgård

Karl Ove Knausgård: os seis livros da série somam 3,5 mil páginas

Karl Ove Knausgård: os seis livros da série somam 3,5 mil páginas

Por Wilame Prado

A Companhia das Letras continua apostando na série “Minha Luta”, do escritor Karl Ove Knausgård. Depois de “A Morte do Pai” (2013) e “Um Outro Amor” (2014), a editora lançou este ano “A Ilha da Infância”, terceiro volume da série de seis catataus de romances autobiográficos de um dos escritores sérios que fazem mais sucesso atualmente no planeta. O livro recém-chegado investiga a memória, o universo familiar e a construção da identidade do norueguês atualmente radicado na Suécia.

Se no terceiro volume da série foram principalmente os medos da infância o alvo de Knausgård, nos livros anteriores ele tratou com maestria temas importantes de sua própria vida: as consequências trazidas pelo lento suicídio do pai com o consumo excessivo de álcool, e o encontro de um novo amor após conhecer Linda Boström, sua segunda mulher e mãe dos três filhos do escritor. O que tem chamado a atenção é o motivo pelo qual muita gente não tem conseguido parar de virar as intermináveis páginas desta série de livros que não traz nada de novo, a não ser um relato aparentemente honesto da vida do autor.

É como ler diários bem escritos de um ilustre desconhecido e compartilhar de suas lutas cotidianas, que consistem no desafio de ser um bom escritor em meio ao cotidiano de um cidadão comum, que troca fraldas dos filhos pequenos, que briga com a vizinha louca, que tem de lidar com os arroubos depressivos da mulher, que vai ao mercado comprar ingredientes para o jantar, que confessa adorar a sensação de se estar completamente bêbado – e que odeia os arrependimentos causados por ressacas físicas e morais – e que precisa unir forças com o irmão para sepultar o pai.

Não há estilo rebuscado na autoficção do escritor e nem histórias sensacionais reveladas. Não se torce para que o mocinho Knausgård se dê bem no final do livro, tampouco há apelos sexuais, cômicos ou melancólicos em demasia. O autor vai muito mais pela fidelidade da narração dos fatos do que qualquer joguete de ironia ou sarcasmo. Nos romances, o autor mescla uma incansável capacidade de descrição de cenas cotidianas, ensaios sobre arte e literatura e algumas epifanias pontuais, extremamente tocantes no que se refere aos dramas existencialistas que golpeiam qualquer pessoa que pare para pensar na inutilidade humana em meio a uma sociedade vazia e consumista.

Por que todos leem Knausgård? Essa parece ser uma pergunta difícil de responder, assim como é difícil escrever ou dizer o nome do autor. Talvez seja porque, mais do que qualquer ficção mal contada ou produto midiático mal-ajambrado, ele escreva as suas verdades de maneira honesta. Verdades estas que, pensando bem, são as verdades que rodeiam e que tanto assustam aqueles que vivem neste mundo (ocidental, principalmente), nas últimas décadas do século 20 e neste início de século 21.

ISTO É KNAUSGÅRD
“Nos últimos anos eu tinha cada vez mais perdido a fé na literatura. Eu lia e pensava, isso tudo foi inventado. Talvez fosse porque estivéssemos completamente rodeados por ficções e narrativas. Aquilo tinha inflacionado. Não importava para onde olhássemos, sempre encontrávamos ficção. Todos esses milhões de livros pocket, livros em capa dura, filmes em DVD e séries de televisão, tudo dizia respeito a pessoas inventadas num mundo verossímil, mas também inventado. E as notícias do jornal e as notícias da televisão e as notícias do rádio tinham exatamente o mesmo formato, os documentários tinham o mesmo formato, também eram narrativas, e assim não fazia diferença nenhuma se a narrativa que contavam tivesse acontecido de verdade ou não. Havia uma crise, eu sentia em cada parte do meu corpo, algo saturado, como banha de porco, se espalhava em nossa consciência, porque o cerne de toda essa ficção, verdadeiro ou não, era a semelhança, e o fato de que a distância mantida em relação à realidade era constante.”
///Trecho do romance “Um Outro Amor”, de Karl Ove Knausgård

13618_ggESTANTE
A ILHA DA INFÂNCIA
Minha Luta – Volume III
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 440

13089_ggUM OUTRO AMOR
Minha Luta – Volume II
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 592

13088_ggA MORTE DO PAI
Minha Luta – Volume I
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 512

*Reportagem publicada em 27 de maio de 2015 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Filó Machado canta no Femucic

Filó Machado apresenta a sua canção "A Índia e o Atirador de Facas"

Filó Machado apresenta a sua canção “A Índia e o Atirador de Facas”

Por Wilame Prado

Músicos do Recife, Goiânia, Curitiba, Aracaju, Londrina, São Paulo e Maceió se apresentam na noite deste sábado (6), a partir das 20h30, no Teatro Calil Haddad, pela última noite do 37º Festival de Música Cidade Canção (Femucic), realizado pelo Sesc em parceria com a Prefeitura de Maringá e RPC. A entrada é franca.

Um dos selecionados é o experiente cantor, compositor, multi-instrumentista e arranjador Filó Machado, de SP. Nesta noite, o músico com mais de 50 anos de experiência apresenta a canção “A Índia e o Atirador de Facas”. Filó está por aqui desde quarta, quando ministrou um workshop de improvisação. Ele tem onze CDs gravados, uma indicação ao Grammy Latin Jazz e recebeu o título de “mestre da música”.

Outra atração imperdível da noite é a participação da cantora e compositora Kátia Teixeira, também de SP. Ela, que no ano passado fez bonito cantando “Maria Estrela e Geraes” (de Chico Branco e Amauri Falabella), este ano mostra ao público a canção “Pega-Pega”, de sua autoria.

Set list da noite

1.Sertão Ibérico – Cavalgada (Recife/PE)
2. Chico Aafa – Setembro (Goiania/GO)
3. Viola Quebrada – Viola de palha (Curitiba/PR)
4. Viola Quebrada – Meus retalhos (Curitiba/PR)
5. Duo Ricardo Vieira e João Liberato – Eçaúna de mel (Aracaju/SE)
6. Duo Ricardo Vieira e João Liberato – Livre prá chorar (Aracaju/SE)
7. Fabio Brinholi e a Entropia – Jaboticaba (Londrina/PR)
8. Fabio Brinholi e a Entropia – O medo (Londrina/PR)
9. Kátya Teixeira – Pega-pega (São Paulo/SP)
10. Ell Gênio Duo – Canoa grande (Recife/PE)
11. Filó Machado – A índia e o atirador de facas (São Paulo/SP)
12. João Pereira Lima – Coisas difíceis (Maceió/AL)

DE GRAÇA
37º FEMUCIC
Última noite do festival
Quando: hoje, às 20h30
Onde: Teatro Calil Haddad
Entrada franca
*Retire ingressos até 20h na bilheteria do teatro

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O brilho e a simpatia de Aline Luz

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Aline Luz: violão é companheiro desde os 12 anos de idade

Por Wilame Prado

A cidade terá a chance de ver brilhar pela primeira vez uma nova compositora maringaense a partir das 21 horas deste sábado (30), quando Aline Luz, 26 anos, subirá ao palco do Teatro Barracão para fazer o seu primeiro show. Todo mundo da plateia terá em mãos o primeiro CD dela “Aline Luz”, contendo doze faixas de canções simpáticas, que mesclam pop rock, folk, MPB e uma voz doce, como a própria cantora. Show e disco são de graça.

Contemplada na categoria Artistas Iniciantes do Prêmio Aniceto Matti, Aline tem cinco datas de shows confirmadas em Maringá e a tiragem de mil cópias do álbum, que será distribuído para cada um que for aos shows. Além de sábado, ela cantará no Barracão no domingo, no mesmo horário. Em junho, apresenta-se nos dias 6 no Teatro de Oficina da UEM e 13 e 14, retornando ao Barracão.

Aline deu entrevista quinta-feira, no térreo do Teatro Calil Haddad. Ao seu lado, o inseparável violão, que começou a tocar aos 12, meio que a contragosto da mãe, pianista que sugeria às filhas (Aline tem uma irmã gêmea que também toca e canta)um bom curso de piano. Fez as duas coisas, e ainda participou de grupos de corais. O tempo passou. Todos sempre elogiaram o timbre e a facilidade com que Aline tem quando coloca as mãos nas seis cordas de aço de um violão.

Nos churrascos, não tinha tempo para sequer tomar água, quiçá uma cervejinha. Todos queriam vê-la cantar o cancioneiro consagrado do pop rock anos 1980 e 90, Kid Abelha, Skank, Titãs, Pato Fu e por aí vai. As ambições profissionais nunca a distanciaram da música: hoje, formada em Psicologia na UEM e residente no Observatório Social, os churrascos e as cantorias continuam, até mesmo onde mora,numa república na Zona 7, onde divide apartamento com duas amigas.

Mas algo mudou na vida de Aline há aproximadamente oito anos. Uma tragédia pessoal fez com que ela ultrapassasse a barreira que separa a interpretação da composição. Mais precisamente em 17 de julho de 2007, ela viu na lista das vítimas do fatídico acidente com uma aeronave da TAM, em São Paulo, o nome de sua tia, incentivadora do seu talento, e, curiosamente, dona daquele primeiro violão com que teve contato e que possibilitou a entrada da música em sua vida. Aline precisava compor para pelo menos tentar expulsar a a dor.

“Queria saber fazer um samba pra você/Mas meu coração só quer saber de blues”, são os versos iniciais da canção “Samba Blues”, primeira composição e que foi dedicada à memória da tia. “Não imaginava que levaria em frente a música. Estava na faculdade, recebi a notícia do acidente de avião. Compus pela primeira vez demonstrando ali a minha tristeza e a minha incapacidade de fazer qualquer coisa em meio ao luto. Minha tia era minha mãe também. Três dias antes do acidente, estávamos todos juntos de férias, em Foz. Não dava pra acreditar”.

Apreciadora da poesia, Aline conta que, antes, tentava cometer alguns poemas. E nada mais. A composição veio como luz, sem trocadilhos. Não parou mais. E hoje, ao apresentar o seu primeiro disco, percebe-se uma artista ainda em evolução, mas com duas joias raras em mãos: uma bonita voz, que se assemelha a vozes femininas da moda (Malu Magalhães, Uyara Torrente, Tiê, Clarice Falcão), e uma interessante maturidade nas letras.

Graça e leveza
À primeira vista, pode-se pensar que Aline Luz faz música romântica. Não é bem por aí. Há história de amor sim, mas há leveza e graça. Em “Cicatriz”, primeira faixa do CD e vencedora na categoria Aclamação Popular no 5º Festival Nacional Acorde Universitário, ela fala de um certo João que a deixa “sem chão” enquanto um tal Rafael a deixa só com seu “véu”.

Ela é também “família” na hora de compor. Além da canção dedicada à tia, o avô ganhou música também. A circense “Palhaço Mudo” – outra música premiada em festival – é homenagem ao avô, que a ensinou a ver filmes do Chaplin. “Hoje sou meio cinéfila graças a ele”, diz Aline, que, recentemente, compôs uma música inspirada pelo filme “Selma”, produção indicada ao Oscar e que narra a trajetória do pastor protestante e ativista social Martin Luther King. Percebe-se aqui também o lado social da psicóloga Aline Luz. O trabalho também é inspiração musical, diz ela. “Na música ‘Estação’, falo da alienação do trabalho. ‘Cantiga Urbana’ é a história de um menino de rua.”

Ainda trabalhando sua timidez, ela revela que o palco não a amedronta, mas se trata de experiência nova para quem nunca fez questão de tocar na noite maringaense. Para controlar as provações em meio ao público, as forças de Aline vêm do esporte. “Este ano quero ver se tiro minha faixa preta no karatê. Já joguei futsal, basquete e nadei. A competição esportiva ajuda a aprender lidar com a plateia”, diz.

Hoje, no Barracão, ao lado da banda formada especialmente para o projeto (Ronaldo Gravino no teclado e violão, Walter Batera na bateria, Luciano Blues nos solos de guitarra e na gaita, Ribeiro no contrabaixo e Luane Pedroso na percussão), Aline Luz pegará em seu violão e talvez se lembrará de muita coisa vivida desde que escreveu a sua primeira canção. Nada em vão, a estrada só está começando para uma jovem que já começa a ficar atenta aos editais do Convite à Música e da Virada Cultural. “Quero que a minha música tenha o poder de inspirar as pessoas e que as faça refletir, como qualquer tipo de arte.”

*Reportagem publicada sexta-feira (29) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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