Os sertões de ‘Outros Cantos’

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Por Wilame Prado

A escritora santista radicada em João Pessoa Maria Valéria Rezende, 73 anos, demonstra domínio da linguagem e um olhar diferenciado para com os excluídos do sertão brasileiro no livro “Outros Cantos” (Alfaguara, 152 páginas, R$ 29,90). A publicação se deu graças ao patrocínio da Petrobras Cultural.

Ela, que, além de escritora é também freira, volta a publicar após ter vencido, ano passado, o Prêmio Jabuti na categoria Romance e Melhor Livro de Ficção do Ano com “Quarenta Dias”.

Em “Outros Cantos”, a personagem Maria – deflagradamente inspirada na vida da própria autora – está dentro de um ônibus leito retornando à cidade fictícia de Olho d´Água, no Nordeste brasileiro.

Junto dela, nada além de reminiscências que transportam a história para décadas atrás, quando a personagem foi para o sertão graças ao programa Mobral disposta a auxiliar na alfabetização de um povo que não tinha quase nada, especialmente educação formal.

O relato se dá única e exclusivamente pelo olhar de Maria, ora no presente – com o sacolejar de um ônibus velho e percebendo que o sertão dos tempos de agora mudou radicalmente, como percebido no trecho instigante do livro: “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. Fecho os olhos e minha memória recupera e estiliza a beleza despojada daquele meu outro sertão. Desde quando, sem que eu me desse conta, as casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d ´Água?”; ora no passado, descrevendo as suas lembranças que permitem ao leitor imaginar o cotidiano de pessoas simples, que viviam em uma intensa luta de sobrevivência – para comer, beber água e em meio às rezas e festejos para santos pedindo chuva para plantar e colher.

Ela permite que o leitor só aos poucos consiga construir em seu imaginário quem realmente é Maria. Uma simples e jovem professora idealista e disposta a mudar o mundo com suas próprias mãos? Não somente. Há também as lembranças das andanças da personagem pelo mundo, na Argélia e no México, por exemplo, conhecendo povos, costumes e outros tipos de sertões.

E há ainda no romance uma curiosa característica da protagonista: sonhadora em seus pensamentos, ela no fundo busca sempre um olhar perdido de um homem que cruza com ela em diferentes momentos da história. Sempre atenta ao olhar deste ser masculino, ela enxerga os olhos dele em vários lugares, em várias situações. No fim, ao levar em consideração também a própria história de vida da autora, abre-se uma margem para se pensar que, talvez, aquele olhar é a figura de uma entidade protetora para Maria, onde quer que ela esteja, talvez os olhos de Deus.

“Outros Cantos”, conclui-se, é maduro, de uma autora madura e esclarecida quanto à estilística textual, ortografia e gênero. Maria Valéria Rezende emociona, denuncia e propõe reflexões acerca de uma região brasileira, a vibração de gente que ainda sonha com o poder transformador do ensino e também de um período histórico: mais para o fim da trama, percebe-se claramente algo que a autora quer mesmo eternizar com a proposta literária, que é uma relação histórica com os rompantes vividos em meio à ditadura militar no País e movimentos importantes na luta contra a opressão, isso em regiões praticamente esquecidas pela grande mídia, cinema, História e afins.

OutrosCantos_570OUTROS CANTOS
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
Número de páginas: 152
Preço sugerido: R$ 29,90
Avaliação: ótimo

*Comentário publicado quarta-feira (11) no caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Cultura que se constrói com êxitos

O jornalista Rogério Recco e o escritor Laurentino Gomes durante a Flim do ano passado: festa reflete o bom momento cultural da cidade

O jornalista Rogério Recco e o escritor Laurentino Gomes durante a Flim do ano passado: festa reflete o bom momento cultural da cidade (Foto: Divulgação)

Por Wilame Prado

Quando chegam a uma nova localidade, pioneiros planejam construir casa, igreja e armazém. Ruas, avenidas, praças e bosques. Mas nem sempre se lembram da cultura, dos teatros, dos cinemas e de locais em que pessoas compartilham a arte e o lazer para, simplesmente, serem mais feliz.

Maringá nasceu planejada, principalmente urbanisticamente falando. Com a cultura não foi assim. Aliás, com a cultura geralmente não é assim. Cultura é intrínseca ao ser humano e as manifestações culturais certamente acontecem em sociedades organizadas.

“Maringá nasceu calcada no espírito do trabalho e do labor. Muitos vieram em busca de fazer fortuna, trabalhar para crescer. Não havia um planejamento cultural e artístico. Mas o homem não é só trabalho. Ele precisa de algo para cultuar, ter os seus momentos de contemplação”, diz o historiador João Laércio Lopes Leal, da Gerência de Patrimônio Histórico de Maringá.

Em razão disso, fez-se, então, a cultura em Maringá, desde os primórdios. Como exemplo, cita-se o livro de autoria do próprio Leal, o recém-lançado “História Artística e Cultural de Maringá”, que começa a sua narrativa apontando acontecimentos datados já de 1939, quando Maringá era apenas um distrito de Londrina.

No começo eram apenas quermesses, bailes na roça, festinhas na cidade e os pequenos circos mambembes.

Depois, veio o primeiro cinema, que chegou já em 1947; as fotografias de Shizuma Kubota, Tutumo Sanuki e Kenji Ueta; e um talentoso Edgar Werner Ostenrroht dando seus primeiros traços nos anos 1950 e dando à historiografia um olhar a mais por meio da pintura.

Havia ainda um inquieto artista chamado Calil Haddad fazendo a cena dramatúrgica acontecer na cidade com a criação do Teatro Maringaense de Comédia (TMC); e também um exímio músico e maestro Aniceto Matti garantindo a sonoridade na Rádio Cultura, tocando piano ao vivo e ainda propiciando formação musical para várias gerações.

Após meses empenhado no livro que busca seis décadas e meia de cultura na cidade, Leal encontra uma definição para tudo isso: “é a história de uma cidade em que a cultura esteve presente de forma intensa, só que não de maneira prioritária.”

O historiador, que trabalha este ano com um segundo volume para registrar a cultura maringaense, dessa vez entre 1991 e 2015, comemora a evolução permanente: “O que era intenso finalmente se consolidou. A partir dos anos noventa, a cultura maringaense se solidifica, se institucionaliza e se fortalece. Prova disso é que haverá o mesmo número de páginas em um livro que retrata muito menos tempo histórico.”

E se é para se pensar em cultura de maneira organizada – em uma nova, mas sempre muito planejada cidade –, pode-se citar algumas datas marcantes, como o ano de 1969, quando se instituiu a Secretaria Municipal de Cultura, ou então o ano de 1996, quando o Teatro Calil Haddad foi inaugurado no dia 30 de dezembro para extrapolar qualquer questão que remetesse a cartão-postal, sendo, hoje, um verdadeiro centro cultural que recebe manifestações do teatro, dança, artes plásticas e patrimônio histórico.

“No caso da Secretaria de Cultura, foi instituída na gestão do Adriano Valente. Temos uma secretaria de Cultura de 49 anos e cada vez mais atuante. Prova disso, dentre tantos eventos que Maringá já recebeu do poder público, é a Festa Literária de Maringá (Flim), evento marcante, que vai para o seu terceiro ano e que se destaca pela enorme capacidade de reunir escritores locais, nacionais e internacionais, além de chamar um público de respeito durante uma semana de evento”, considera.

Arte o ano todo
Atualmente, Maringá assiste a um cenário cultural pujante. Há mais de uma década a Secretaria Municipal de Cultura garante opções gratuitas e com qualidade por meio dos chamados Convites: Convite à Dança, Música, Teatro, Cinema e Artes Visuais.

Espalhados por diferentes bairros, hoje os teatros (Calil Haddad, Reviver, Barracão, Oficina da UEM, CEU em Iguatemi e Casa Cultural Jardim Alvorada) são locais para organização de eventos e espetáculos dos mais diferentes gêneros e estilos. Há, ainda, casas de shows, centros culturais, bibliotecas e, o mais importante: gente disposta a fazer e até viver da arte.

Só se faz aumentar os números envolvendo projetos culturais viabilizados por meio da Lei Rouanet, que permite aos artistas e produtores culturais captarem recursos financeiros com empresas que utilizam mecanismos de isenção fiscal para tal.

A jornalista e produtora Rachel Coelho é um dos que vivem intensamente a cultura local. Há vinte anos ela está, de uma maneira ou de outra, relacionando-se com a arte maringaense, escrevendo, produzindo, fazendo.

Formada em Jornalismo e História, ela passou a limpo a história do tradicionalíssimo Festival de Música Cidade Canção no livro “Canção Para Uma Cidade: a História do Femucic”, publicado em 2003. Ainda assim, o seu negócio mesmo é o teatro. Hoje ela assessora grupos teatrais, faz produção em montagens e tenta emplacar projetos próprios por meio da Lei Rouanet.

Rachel tem o perfil do que hoje podemos considerar um cidadão da cultura de Maringá. E ela comemora não somente o êxito de seus projetos ou a agenda local que se faz ininterrupta em praticamente todos os meses do ano na cidade. Ela vibra mesmo é com o horizonte que se mostra cada vez mais favorável em Maringá porque, aos poucos, cultura não é somente sinônimo de coisa que chega de cima para baixo, com artistas sempre dependentes à boa vontade do poder público.

Ela cita as conquistas das pré-conferências do Conselho de Cultura, os esforços da recém-inaugurada Maringá Cultural Cooperativismo (Macuco), o fomento visível do Instituto Cultural Ingá e as várias opções de formação cultural na cidade por meio de cursos universitários nas Artes Cênicas, Visuais e Musicais.

“O cenário é feito justamente de pessoas inquietas que não podem viver sem estar fazendo arte. Sou uma otimista. Estou aqui porque acredito nessa cidade. Então, não tenho como não comemorar tudo isso”, diz Rachel.

*Reportagem publicada no caderno especial de aniversário dos 69 anos de Maringá, encartado em 8 de maio no Diário

Reportagens
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Refúgio de sorriso e paz

Hudson Zanoni e Alexandre Penha em Burkina Faso, no continente africano, em novembro de 2014

Hudson Zanoni e Alexandre Penha em Burkina Faso, no continente africano, em novembro de 2014

Por Wilame Prado

O governo da Jordânia foi elogiado recentemente pela ONU ao anunciar que poderá ajudar até 78 mil sírios refugiados a conseguir trabalho legalmente no país. O que o governo talvez não consiga é propiciar momentos descontraídos para este povo a ponto de até, quem sabe, fazer refugiado voltar a sorrir.

Fazer sorrir, talvez até gargalhar: esta será a missão dos atores e palhaços profissionais maringaenses Alexandre Penha e Hudson Zanoni, da Cia Teatro Expressão de Amor. Eles têm viagem marcada no dia 25 de maio sentido a Aman, capital da Jordânia, onde realizarão apresentações para crianças e adultos refugiados da Síria.

Os palhaços foram convidados pela Missão Desafio, instituição que atua no Brasil e em diversos países de alto risco ao redor do mundo com o objetivo de levar dignidade e melhor qualidade de vida às pessoas dessas regiões por meio de construção de poços artesianos, escolas, estruturas de trabalho, igrejas e, também, viabilizando apresentações artísticas.

Jordânia é considerada um reino árabe e faz fronteira com a Arábia Saudita, Iraque, Síria, Israel e Palestina. Há meses, o país tem recebido refugiados sírios: pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados da Jordânia, já são 640 mil refugiados sírios registrados.

Durante a expedição, Alexandre Penha garante que estarão em áreas protegidas, mas próximos de países onde há, atualmente, confrontos armados. A motivação vai além de qualquer perigo, no entanto. “Observamos que nossos problemas são graves, mas perto de alguns povos são pura vaidade. Os brasileiros lutam por dignidade e melhora de vida; alguns lugares lutam, ainda e apenas, por sobreviver, por água ou comida”, diz ele.

Com a missão de colecionar sorrisos raros, Penha e outros atores da Cia Expressão de Amor já percorreram mais de dez países, entre eles Haiti, Burkina Faso, Peru e Nepal, todos vivendo a extrema miséria e carentes de comida, água, dignidade e momentos descontraídos, como aqueles proporcionados quando jovens atores vestem suas roupas coloridas, transformam-se em palhaços e fazem de tudo para que – pelo menos durante aquele momento – todas as mazelas da vida (e que nenhum ser humano merecia sofrer) sejam esquecidas.

Com uma experiência de 13 anos como médicos-palhaços percorrendo hospitais e asilos de Maringá e região, Penha e Hudson Zanoni estão acostumados a visitarem àqueles que nem sempre são lembrados. “Aprendemos de maneira prática como a vida deve ser simples e como podemos sempre dividir.”

E se poucos estão dispostos a visitarem um enfermo na cama do hospital ou mesmo um velhinho no asilo, que dirá se encontrar com um refugiado sírio buscando acima de tudo a sobrevivência? É justamente aí que entra o trabalho voluntariado dos palhaços maringaenses.

“Nosso objetivo é estar presente onde ninguém quer ir e assim levar, através da arte, alegria, amor e nossa cultura para essas populações”, diz Penha. “Acreditando que a ética do encontro pode mudar um dia ou uma vida de uma pessoa”, reforça.

E se cada um ajuda como pode, é com a arte clownesca que os palhaços não deixam de acreditar que rir, afinal, pode ser também um santo remédio. “A arte ajuda a salvar quando é feita de maneira responsável e está sustentada por uma estrutura maior que cuida das pessoas. Acreditamos que todo ser humano precisa de alimentação, moradia, saúde, segurança e muita arte (palhaço, dança, música, teatro, circo) para viver bem”, considera.

AJUDE
MISSÃO DESAFIO
Com os palhaços e atores Alexandre Penha e Hudson Zanoni
*A missão ainda recolhe recursos para a viagem; portanto, quem quiser ajudar e ainda conhecer melhor o projeto pode entrar em contato pelo e-mail [email protected] deamor.com.br ou WhatsApp: (44) 9930-7230

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (4) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Dignidade

Por Wilame Prado

Fico pensando no conforto que a gente tem. No frio é que se dá o devido valor a uma blusa. E não importam marcas e nomes. Conforto é a palavra certa para descrever o que de mais valioso conquistamos trabalhando por tantos anos. A nossa lida continua.

Hoje eu me sinto um sujeito agradecido. Parei de esquentar a cabeça com a conta no vermelho e me sinto até abençoado quando o trabalho acumula um pouco: isso nada mais quer dizer que, ainda bem, tem gente que confia no profissional que sou.

Os dias passam. Os anos voam. Uma década rapidamente se completa. Quanto tempo passei sem me olhar direito no espelho? Hoje vejo outra pessoa. Os cabelos brancos estão aqui, alguns quilos a mais foram inevitáveis: a boa e velha sexta-feira da pizza.

E então, olho no olho (olhando no espelho), reavalio o meu passado e percebo que as batalhas nunca se cessaram e que, também, as derrotas foram inevitáveis.

Emociono-me. Mais uma ruga brotou em meu rosto. E as costas acusam um cansaço que só se abranda um pouco quando existe a paz em um fim de semana com o time retirado de campo.

Teimo em olhar-me. O olho. A lágrima anuncia. Tantos arrependimentos. Tantos erros. Tantos caminhos tortuosos enfrentados em meio ao inebriante pensamento turvo.

Parece ser quase um milagre ainda estar aqui, de corpo presente. Parece ser uma dádiva o simples ato de ir e vir. Há misericórdia no espaço. Existem segundas chances. Feito bobo em frente ao espelho, olhando uma biografia que se constrói errantemente, visualizando um sujeito que tenta, mas muitas vezes não consegue, rememorar aquele alegre menino que tinha o mundo inteiro pela frente, eu nada mais consegui enxergar a não ser uma urgente necessidade de perdão e – talvez – redenção, renascimento.

A água límpida e fria cai da torneira, lava minha mão e alcança os poros do meu rosto. A vida ainda está lá fora, e aqui dentro de mim também.

Perdão, meu pai. Perdão, pessoas. Perdão, mundo. Eu errei, e continuando errando. Mas quero muito mudar. Voltar a sorrir e caminhar. Quero viver com dignidade. Ser um sujeito digno. A vida precisa de mais dignidade.

Termino de enxugar o rosto. Saio de casa. Faz frio e a queda na temperatura foi brusca e repentina.

Volto a pensar no conforto proporcionado por minhas roupas macias e quentes. Egoísmo ou gratidão? O conforto conquistado. A vida precisa de mais dignidade, para todos que habitam esse mundo enlouquecido.

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Temporada triste de Helio Flanders

Hélio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Helio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Por Wilame Prado

Helio Flanders marcou 2015. Em um dos melhores trabalhos musicais lançados este ano no País, com o álbum “Uma Temporada Fora de Mim” ele apresenta pela primeira vez um trabalho solo, longe dos meninos e das meninas da boa banda cuiabana radicada em SP Vanguart.

Algumas vezes é preciso se desnudar para mostrar quem realmente é. Flanders parece estar completamente nu nas nove canções de “Uma Temporada Fora de Mim”. Sonoridade e letras do disco, intimista, permitem algumas revelações, dentre as quais pelo menos uma envolvendo o seu passado como frontman da banda de rock: a parte mais sensível e poética da Vanguart é mesmo gestada pelo jovem músico.

Flanders produziu o disco ao lado de Arthur de Faria (que também tocou piano na faixa “Cuyaba Tango”). No estúdio, mais que cantar tocou piano, trompete, violão e acordeon. E contou com o entrosamento de bons músicos: Bruno Serroni (violoncelo), Ignacio Varchausky (contrabaixo), Leo Mattos (bateria e percussão) e Martín Sued (bandoneon).

É importante destacar: no disco solo – sem uma música alegre sequer – ele demonstrou uma evolução sonora na voz. Em sua trajetória com a banda, ao longo dos anos ele se mostrou muitas vezes displicente, principalmente quando canta ao vivo.

Claro, há sim toda a licença poética e o lado cênico característico que o músico emplaca em suas apresentações, mas há que se ter mais zelo na cantoria, há que se deixar para trás a adolescência de um Vanguart que, nos becos alternativos, em idos de 2007, fez muita gente se esgoelar por aí cantando e gritando que acreditava no semáforo e no avião.

Alguns dizem que ele parece um bêbado desafinado cantando. Mas a verdade é que ele acaba exagerando nos falsetes, muitas vezes vexatórios.

Isso tudo parece fazer parte do passado.

Se ele viveu mesmo uma temporada em off, como cantado na faixa de abertura homônima ao disco, isso tudo fez muito bem. Exemplo disso é a canção “Dentro do Tempo que Eu Sou”, que talvez seja uma das coisas mais emocionantes para se escutar no Brasil neste 2015. Ao lado da ótima e tocante cantora Cida Moreira, Flanders ressuscita toda aquela tristeza necessária cantada por Antônio Marcos (das imperdíveis “Gaivotas” e “Como Vai Você”) no século passado.

Na faixa, os dois cantam sobre o desconforto de quem está sozinho nesta vida, mas com saudades de alguém. E então tudo fica deslocado. E, pela janela do automóvel, a gente olha para os lugares e sente nostalgia do que nem sequer viveu, parecendo já ter vivido ali.

Mas há esperança: se o velho lugar é ao lado dela ou dele, Flanders acertou num refrão de arrepiar: “Nada vai durar para sempre/eu tenho pressa em te ver/Nada vai durar pra sempre/Mas talvez eu e você/Ainda há tempo/Nós temos tempo”.

Em “Uma Temporada Fora de Mim”, tudo soa muito triste, mas amplamente acertado. É triste o piano em “Romeo” (composta por Thiago Pethit e Flanders), em letra cerebral, com um achado destes: “Baby, quando eu te vi eu não soube dizer/Se queria matar ou se queria meter.”

É triste também a milonga de “Cuyaba Tango”, com o choro do acordeon. E é triste, muito triste, a história que ele conta na canção “Um Grito”: um homem ouviu um grito de “amor!” em sua direção, mas depois percebeu que, ao lado dele, estava ali um outro rapaz, supostamente namorado da moça, situação que o fez lembrar do jeito que uma pessoa do passado o chamava.

No final da canção, o sufoco: “hoje a vida é olhar a janela e esperar”. Para quem se identificou com “Uma Temporada Fora de Mim”, a vida é sim olhar pela janela e esperar, mas pelo menos ouvindo Helio Flanders tocar e cantar.

*Texto publicado no caderno Cultura do Diário em 14 de outubro de 2015

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Elza Soares canta, até no fim do mundo

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Por Wilame Prado

Elza Soares foi ao fim do mundo e voltou com um de seus melhores trabalhos em seis décadas de carreira e quase oitenta de vida. “A Mulher do Fim do Mundo” é um grito rouco e sensual da voz feminina mais marcante da música brasileira ainda na ativa.

Pelo projeto Natura Musical, o disco novo de Elza é composto somente por músicas inéditas, todas compostas especialmente para a sua voz marcante. O seu 34º álbum foi idealizado e montado pelo produtor e baterista Guilherme Kastrup.

Ao lado dele, um time de primeira e que, cada um a seu modo, tem marcado a música contemporânea brasileira: Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (guitarra), Felipe Roseno (percussão), Celso Sim (direção artística) e Romulo Fróes (direção artística), nomes conhecidos na cena paulista.

“A Mulher do Fim do Mundo” tem onze faixas. É difícil defini-lo. Samba? MPB? Samba rock? A diversidade de gêneros chama a atenção. Pronta para o que der e vier, Elza vai de samba, rock, rap e eletrônico, no mínimo.

Ao lado da sua voz, que já é uma distorção perfeita por natureza, o trabalho conta com arranjos arrojados e ousados, com ruídos que nos lembram e muito também as marcas dos vários músicos envolvidos no projeto. É ouvir Elza e recordar de Passo Torto e principalmente dos “barulhos feios” que Fróes vem fazendo em sua meia dúzia de álbuns já lançados. A diferença é que essa beleza de música vem acompanhada do melhor brinde de todos: a voz forte daquela mulher.

É preciso sempre deixar Elza Soares cantar, deixá-la ir ao fim do mundo e soltar aquela rouquidão toda mais vezes. Os grandes artistas brasileiros envelhecem e muitos, infelizmente, vão sumindo, sumindo, resumindo-se, ao fim, em apenas uma citação no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Os meninos liderados por Kastrup não deixaram isso acontecer com Elza, que já não demonstra a mesma agilidade, por exemplo, em grandes entrevistas, como a concedida recentemente no Jô Soares. Ao contrário do que ocorre nos estúdios: bem assessorado e muito bem planejado, “A Mulher do Fim do Mundo” proporciona à cantora carioca a dignidade que ela sempre mereceu.

Graças a esse belo e tocante registro, ninguém cala mais Elza Soares. Ela pede e o Brasil atende: deixemos ela cantar, para sempre.

*Texto publicado no caderno Cultura no dia 20 de outubro de 2015

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plástico

no que eu me tornei?
não toco mais violão
não faço gols
não leio mais que três páginas de uma vez só.
não vou ao cinema.
não vejo parentes.
tenho poucos e distanciados amigos.
eu passo um dia todo sem sequer pensar nas pessoas que amo.
eu brigo com os números de contas bancárias.
eu plastifiquei as relações.
eu nem beijo mais.

tudo é um jogo.
estratégias de sobrevivência.
noites que passam num piscar de olhos, fechados, dormindo.
dias que duram séculos.
o trabalho nunca acaba.

a vida acaba.
o amor pode acabar.
as pessoas podem acabar com você.
ou, pior: ignorarem você.
Afastarem-se de vez.
o mundo não está a seus pés.
ninguém está nem aí para você.

e quando a doença vier?
quem estará ao teu lado?
um amontoado de notas e moedas não fazem companhia.

Pense no melhor momento da sua vida.
Pense naquela lágrima mais sincera.
Naquele sorriso mais encantador.
Em um abraço que você nunca mais recebeu.
Pense naquelas pessoas.
E então refletirá que nunca trabalho e dinheiro fizeram parte disso.

Ok. Você precisou ouvir novamente Radiohead com legenda no YouTube para descobrir isso.
Mas se você parou e pensou, isso quer dizer que está vivo.
Quando nada mais emocionar, é a morte da alma.

Então é melhor assim?
Enrole-se num plástico bolha e saia rolando escada abaixo.
Coloque uma sacola de mercado na cabeça e erre na multidão.
Vista a armadura de plástico.
Voe com a capa de plástico.
Coma plástico com sal.
Depois ingira plástico com açúcar.

Do jeito que vai
Vão achar que você é de plástico.

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Estante: Bruna Siena lança livro, concurso literário em PE, João Santana romancista e uma indagação: ‘vale a pena ser escritor?’

Por Wilame Prado

DE VOLTA Bruna Siena, prodigiosa escritora de Maringá, agora é Siena Bruna Naamah, tem um selo editorial chamado Kadosh Publicações e está com o livro “Marduk” em pré-lançamento. À venda, por R$ 25, no site 29969.iluria.com.

LIVRO E DISCO Bruna, 22 anos, fará uma noite de autógrafos do livro em um festival de bandas que acontecerá no mês de março, com data ainda não definida. No mesmo dia, a banda maringaense Stolen Byrds lançará disco novo.

MELHOR QUE RELEASE Na ausência de um release, a escritora usou a criatividade para passar informações a este jornalista que vos escreve: simulou uma entrevista pingue-pongue com o namorado. Informou mais que qualquer release.

MACABRO “A Morte assassina, viola e arrasta, a Morte liberta.” Assim define, em poucas palavras, o seu novo livro, “Marduk”.

ALÉM “Talvez estejam esperando algo mais pornográfico, visto que ingressei na literatura transgressora falando sobre prostituição e questões puramente sociais. Porém, ‘Marduk’ tem um propósito e vai além… falo sobre a imortalidade da alma, a procura de um Deus que pode ter morrido no sétimo dia ou não”, explica a autora.

ESVAZIE A GAVETA O Concurso Literário de Pernambuco está com inscrições abertas. Escritores que tenham originais dentro das gavetas podem participar do concurso.

LIVRO+GRANA Aceita-se romance, livro de contos, poesia e literatura infantojuvenil. Os vencedores ganham a publicação do livro e ainda R$ 20 mil.

INFORME-SE O edital está disponível no site www.cepe.com.br.

POR AQUI… O Prêmio Paraná de Literatura está congelado desde 2014. Os escritores que venceram o concurso naquele ano tiveram de esperar até meados de 2015 para receber.

INDEFINIÇÃO Ainda não se sabe se teremos concurso paranaense em 2016. Aguardemos posição da Biblioteca Pública do Paraná, a coordenadora do prêmio literário.

NÃO VALE A PENA “Existem dezenas de maneiras de se tornar escritor. Talvez existam milhares, não tenho certeza. A única certeza que tenho hoje – depois de velho – é que não vale a pena.” Assim começa um texto o escritor e editor Sebastião Nunes.

LEIA, RECOMENDO O bom texto de Nunes pode ser lido aqui: http://zip.net/bgsWBS.

TEOLOGIA O servidor Renato Cesar Figueiredo, que mora em Centenário do Sul, lança em Maringá o livro “No Limiar dos Tempos”. O lançamento e manhã de autógrafos acontece às 10 horas de sábado, na Livraria Evangélica.

Entre outras experiências teológicas para a escrita da obra, Figueiredo aprofundou suas pesquisas escatológicas a partir de seminários promovidos pelo Ministério Palavra da Fé, da líder evangélica Valnice Milhomens.

ARTE IMITA A VIDA O romance “Aquele Sol Negro Azulado” conta a história de um casal brasileiro que reside em Washington e que retorna ao Brasil. Curiosamente, a ficção de 2003 prenunciou a realidade: esta semana, o seu autor – o publicitário João Santana -, ao lado da mulher, precisou retornar ao País após mandado de prisão temporária.

*Coluna Estante sai todas as quintas-feiras no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Rubros e diretos*

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Por Wilame Prado

De Campo Mourão, Tiago Silva faz sucesso na internet com os Rubros Versos, projeto que mescla arte e crítica social

Muitos preferem o silêncio quando o tema é racismo, igualdade de gêneros, ditadura da beleza ou homossexualidade. Ao contrário da maioria, com o lápis na mão e a ideia na cabeça o cartunista e quadrinista Tiago Silva, 29 anos, costuma ser direto no que tem para dizer por meio de quadrinhos. É assim que os Rubros Versos (www.rubrosversos.wordpress.com) têm atraído milhares de pessoas na internet. Só no Facebook, a página do projeto já conta com mais de 40 mil curtidas. Os quadrinhos postados na rede social chegam a receber duas mil curtidas e uma infinidade de compartilhamentos.

Agora, Silva – que é natural de São João do Ivaí e mora em Campo Mourão – quer transformar os quadrinhos rubros (os tons avermelhados são característicos em todas as artes) em livro. Recentemente, ele começou uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse para reunir quadrinhos em um volume impresso.

Os antagonistas e os coadjuvantes ganham vozes, corpos e destaque nos traços do quadrinista. Uma mulher acima do peso clama pela felicidade acima de qualquer padrão determinado pela mídia; uma garota com seu blackpower prega o fim da expressão “cabelo ruim”; e uma simples imagem de um recipiente e três escovas de dente sugere o amor livre entre casais ou mais pessoas.

“As pessoas me inspiram. A nossa diversidade cultural e toda essa complexidade humana que se deriva disso. Essas coisas me deixam sempre instigado a tentar entender tudo e expressar a minha visão”, revela Silva – um confesso seguidor de uma tríplice de respeito nos quadrinhos: Laerte Coutinho, Bill Waterson e Robert Crumb.

Ao evidenciar costumes e o cotidiano daqueles que não seguem o considerado padrão comum numa sociedade machista e autoritária, ele coleciona sim vários elogios, mas também represálias. “É corriqueiro meus quadrinhos serem denunciados pelos defensores da ‘moral e dos bons costumes’. Às vezes as denúncias não dão em nada, porém já tive quadrinhos sumariamente apagados da página e meus perfis no Facebook bloqueados algumas vezes”, lamenta ele, que, além do projeto pessoal, atua na edição gráfica do jornal Correio do Cidadão e já emprestou seus traços para o site Vida Breve e o jornal O Duque.

Do livro, porém, ninguém poderá apagar nada. Restando ainda 40 dias para o término da campanha no Catarse, o artista recolheu até então 9% do valor necessário para a tiragem da primeira impressão do livro “Rubros Versos”, que terá mais de 100 páginas e feito em A5, com ótima impressão gráfica. “O livro será um compilado de tudo o que saiu na página do Facebook, além de algumas páginas inéditas, que serão feitas especialmente para a versão impressa”, garante.

*Matéria publicada em 9 de fevereiro de 2016 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir’ – Ademir Assunção

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Ademir Assunção: dois livros, dois mundos

Por Wilame Prado

O escritor Ademir Assunção lançou recentemente dois livros pela Editora Patuá, “Pig Brother” e “Até Nenhum Lugar”, ambos de poesia. Semana passada, ele lançou os livros no Londrix – Festival Literário de Londrina. Sobre as suas mais recentes obras e sobre o cenário atual da poesia brasileira, o vencedor do Prêmio Jabuti em 2013 concedeu entrevista:

Por que resolveu lançar os dois de uma vez? Tem a ver com os conteúdos: um mais porrada e outro mais lírico?
ADEMIR ASSUNÇÃO – Sim. Pig Brother é um poema longo, muito influenciado por minhas leituras sobre xamanismo, de um lado, e pela brutalidade humana, de outro. Procurei enfocar o lado selvagem, obscuro e violento desse mundo cheio de insensatez. Guerras, chacinas, linchamentos, torturas, tráfico de órgãos, intolerâncias, incitações ao ódio não são experiências agradáveis, mas a arte não pode se furtar de abordá-las. O livro acabou ficando barra-pesada, reconheço. Por isso decidi publicar também Até Nenhum Lugar, que é muito influenciado por minhas experiências com o zen, com uma visão mais sutil sobre a vida. Não diria que é um livro lírico. Diria que é o outro lado da moeda. A espécie humana é capaz das maiores delicadezas e das piores atrocidades. O que leva o pêndulo a oscilar, o tempo todo, para um lado e para o outro? Há motivações políticas, econômicas, religiosas, mas, do ponto de vista, digamos, espiritual, ou ontológico, se quiserem, essa “oscilação” é um mistério para mim. Por que enquanto uns tratam de criar outros tratam de matar?

Explique o criativo título “Pig Brother”.
Em vez de explicação, deixo em aberto para interpretações. Há uma referência clara ao clima de opressão do Big Brother, de George Orwell, e também ao exibicionismo babaca do Big Brother Brasil da TV Globo. Ao mesmo tempo, Pig Brother é a personificação de uma entidade xamânica. O xamanismo nos leva a encarar o lado obscuro, o pavor, a doença, para tentarmos superá-la. Mas que cada um leia e faça sua própria interpretação.

Seria um livro apocalíptico?
Não cabe a mim anunciar nenhum apocalipse. Simplesmente procurei jogar uma lente de aumento sobre situações com as quais convivemos cotidianamente. O cenário do poema é realmente chocante: o trânsito das cidades está paralisado, a Baía da Guanabara é uma crosta de óleo fétido, os rios são esgotos a céu aberto, a violência explode em todo canto. Acrescentei mais alguns pequenos detalhes: o céu é de lata, as árvores são de alumínio, o ar é quase irrespirável, as pessoas não conseguem sentir mais absolutamente nada. Isso torna o livro apocalíptico ou há um apocalipse pairando no horizonte dessa sociedade de consumo desenfreado que estamos vivendo?

Seria um livro que não dá salvação aos seres humanos?
Minha linguagem é a linguagem artística. Não sou pastor nem profeta. Não vendo ilusões. Penso que a arte pode abrir os olhos das pessoas, pode fazê-las enxergar melhor o que não estão enxergando com nitidez. Veja: durante o processo de criação do poema, caminhava muito pela cracolândia de São Paulo e por bairros periféricos da cidade. Não é um cenário que prima pela beleza e pela suavidade. Por outro lado, lia aquelas instrutivas revistas que mostram a frivolidade do mundo das celebridades. De um lado, pessoas se arrastando como zumbis, vivendo em condições precárias, de desespero total. Por outro, celebridades de papelão, vazias, dando opinião sobre tudo, da política ao sexo anal. Achei que deveria trazer esse inferno para dentro da tradição da poesia brasileira. Por que? Bem, porque ele existe e alguém precisa falar dele.

Em “Pig Brother” há claras referências à noite paulistana e carioca. Como é a sua relação com essas cidades, com essas noites?
Minha relação é a de uma pessoa que procura se manter o mais atento possível. Tenho a impressão de que estamos perdendo a noção do que é real, do que é imagem, do que é falsificação. De fato, em Pig Brother há muitas referências a bairros, ruas e inferninhos, principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, mas também de Porto Alegre, de Buenos Aires e uma ou outra cidade. Isso porque queria deixar o mais concreto possível o ambiente em que os personagens se movimentam, queria trazer esses cenários para bem perto do leitor. Minha intenção era deixar uma dúvida: mas, caramba, tudo isso está se passando no futuro ou neste tempo presente? Se as pessoas saírem da leitura com esta dúvida, sinal de que funcionou.

Parabéns pela capacidade de construção imagética com os versos. Na sua opinião, é preciso muito treino ou muitas vivências para conseguir isso na poesia?
Creio que sim. É preciso muita leitura, muito treino, muita observação e muitas vivências. Eu procurei esse efeito: um fluxo incessante de imagens despejadas na cabeça dos leitores. Não me preocupei tanto com a ação dos personagens. Não existe uma narrativa linear de episódios. Existe esse fluxo de imagens, quase sempre tenebrosas, com uma luz opaca, eu diria, se fosse um cineasta. Mas sou um poeta, minha matéria prima é a palavra. Neste livro, talvez eu me comporte como um poeta querendo fazer cinema.

O leitor que quiser comprar, só no site da Patuá?
Sim, a venda dos dois livros, tanto Pig Brother, quanto Até Nenhum Lugar, está sendo feita somente pelo site da Editora Patuá. Parece que as condições impostas pelas grandes redes de livrarias são desvantajosas para as pequenas editoras. A venda via site está se tornando uma saída viável para editores, autores e leitores interessados. Deve crescer muito mais nos próximos anos.

Como foi esse processo com a editora, e a tiragem curta de 150 exemplares?
É realmente chocante que em um país com 200 milhões de habitantes livros importantes saiam com tiragem inicial de 150 exemplares, não é? Mas é assim que as coisas estão funcionando. Não adianta fazer grandes tiragens se não há locais para colocá-los a venda. Não sou um autor de best-seller nem de livrinhos de colorir. De qualquer modo, a primeira impressão dos dois livros já se esgotou e a gráfica está rodando a segunda. Conforme vai saindo, vai-se imprimindo mais exemplares. As novas técnicas de impressão tornaram esse processo mais barato e evita-se gastos com estocagem. Aos poucos, meus livros vão se tornando tão conhecidos quanto os bons livros das grandes editoras.

O que é ganhar um Jabuti?
Ganhar um Jabuti? É um reconhecimento bacana, importante. Mas não mudou minha vida em nada. Continuo bebendo nos mesmos bares, com os mesmos amigos. Se fosse um Nobel, que está em torno de 1 milhão de euros, se não me engano, eu poderia viver o resto dos meus dias numa praia, me dedicando integralmente à leitura e à escrita.

O que é fazer poesia no Brasil?
Fazer poesia, para mim, é uma necessidade vital, quase como respirar. Acho que não seria diferente se vivesse na Dinamarca, Rússia ou Itália. Não tenho dúvidas que minha vida seria bem mais pobre sem a leitura e a escrita de poesia. É uma poderosa ferramenta de percepção.

Como estamos de poetas?
Muito bem. Há ótimos poetas vivos escrevendo com sangue, com pegada forte, com sutileza, sobre você, leitor, sua irmã, seu vizinho, sua namorada – mesmo que vocês não saibam disso. Viver na mesma época de Geraldo Carneiro, Glauco Mattoso e Alberto Lins Caldas, por exemplo, é um privilégio.

Fale dos próximos projetos.
Passar uma boa temporada na praia, pisando descalço na areia, namorando, de papo pro ar, sem nada pra fazer.

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