André Kondo



Contos do futebol

Por Wilame Prado

Júlio Cortázar professorou: no conto se ganha por nocaute e no romance se ganha por pontos. O escritor argentino – que era apaixonado por boxe – dizia que o futebol é “altamente entediante”. O autor do clássico O Jogo da Amarelinha que nos perdoe, mas ele talvez tenha assistido aos jogos errados.

No esporte bretão vale gol de barriga e de bicicleta, vitória por meio a zero e por doze a um. A narrativa do futebol é inenarrável, praticamente ilegível, convém-se apenas assistir, e de preferência torcer por um dos dois times que traçam o duelo dentro das quatro linhas brancas que delimitam o retângulo de gramado verde mais cobiçado do mundo. José Roberto Torero, 51, escritor nascido em Santos (SP) e torcedor famoso do Santos Futebol Clube, sabe muito bem destas coisas: sobre romances, contos e também sobre futebol.

Torero – cerca de 30 livros publicados – esteve por aqui durante a 1ª Festa Literária de Maringá (Flim). Vencedor da primeira edição do Prêmio Paraná Literatura na categoria contos com o livro “Papis et Circenses”, em 2012, foi convocado para uma mesa cujos assuntos debatidos foram o conto, a inspiração e o processo criativo. Nada de futebol…

Dividiu a mesa com o escritor de Jundiaí (SP) André Kondo, 39, espécie de maratonista de concursos literários: após a mesa, dando uma carona para os dois escritores rumando a um bar decente maringaense que servisse comida, bebida e exibição de mais uma rodada de futebol em telas gigantes de TV, o autor de “Contos do Sol Nascente” calculava ter conquistado prêmios em mais de cem concursos literários. “Foi a forma que eu encontrei de me bancar apenas vivendo da literatura”, defendeu o torcedor – hoje não fanático, jura – do Sport Clube Corinthians Paulista.

Diferenças à parte, Kondo, sempre educado, muito polido, tardou em revelar para qual time torcia. Estava diante de dois santistas roxos (eu e Torero) e uma são-paulina (minha mulher) na mesa. A questão envolvendo a preferência por times paulistas em pleno interior paranaense fica para outra história.

Em vez de defender com unhas e dentes – como todo corintiano faz – a trupe atualmente liderada por Paolo Guerreiro no ataque, Elias no meio e Gil na defesa – o contista resolveu contar, já na mesa do bar, sobre a final da Copa do Mundo de 2002 entre Brasil e Alemanha no Japão. Kondo estava no Estádio Internacional de Yokohama no dia em que Ronaldo e Rivaldo deram o pentacampeonato à seleção brasileira, mas curiosamente nem viu os gols, estava mesmo é curtindo a festa. Não há palavras, segundo ele, para explicar a emoção de estar num estádio em final de copa do mundo. Mas pelo menos deixou a experiência registrada em forma de crônica, em algum jornal de cidade pequena, recordou-se.

Torero, já devorando a porção de tilápia no palito e o seu suco de goiaba com água, não conseguia prestar muita atenção na gente: através do smartphone, aguardava notícias sobre o filho recém-nascido passando pela primeira febre alta de sua vida e também sobre alguns quiproquós gerados na produção da próxima entrevista que realizaria para o Super Libris – programa que está desenvolvendo para ser exibido, no ano que vem, no Sesc TV, só entrevistando escritores brasileiros, de variadas localidades.

No lugar privilegiado em que estávamos naquele bar, curtindo um vento que se fazia ainda mais refrescante naquela noite quente graças aos bons ares vindos do Parque do Ingá – bem ali ao lado – uma TV de 50 polegadas, a três metros de distância da mesa, não conseguia chamar a atenção dos santistas, ainda que, como atração principal, jogavam, na Vila Belmiro, Santos x Fluminense, partida válida pela trigésima rodada do Brasileirão. Jogo fraco, mesmo contando com o nosso eterno Pedalada (o Robinho) e o Gabi Gol (a nova esperança criada no celeiro do Alvinegro Praiano) dentro de campo.

Momentos antes, desta vez na mesa literária, a qual mediei, lembro-me de ter tido o atrevimento de perguntar para o Torero se escritor santista costumava ser craque nas linhas, tal qual Pelé, Robinho e Neymar foram e são nos gramados. “Pelé é insuperável, é praxe, e, acredite, não há assim tantos santistas vivos por aí, torcendo ou escrevendo”, brincou o modesto escritor, que considerou como um “golpe de sorte” a conquista do disputado prêmio literário paranaense, há dois anos. Não foi apenas sorte: “Papis et circenses” – um conto para cada papa, de Pedro a Francisco – é uma das maiores críticas já feitas sobre o papado. Ironia fina, sarcasmo puro e a concisão em forma de contos que estamos acostumados a ler em textos de Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela.

Durante a mesa literária, quase não encontro brechas para falar de futebol. Na verdade, é momento para falar do conto, que, para Kondo, deve ser algo como um abraço no leitor, já para Torero, a depender da ocasião, deve ser sim um murro bem dado no estômago. Criou-se ali, interessantemente, uma espécie de embate saudável entre as diferentes formas de se contar uma breve história: abraço, soco, vitória por pontos, por nocaute, contos com finais felizes e motivadores, contos sobre papas sacanas…

No boteco, sim, encontramos finalmente a descontração necessária para falar das banalidades da vida, futebol, gols e a ‘não literatura’ envolvendo o esporte considerado paixão nacional. Foi quando o Torero – que há alguns anos abandou a crônica esportiva, a coluna na Folha de S. Paulo e até o blog no UOL – admitiu ter ensaiado algumas tentativas futebolísticas in loco, todas frustradas. “Eu ficava muito irritado em campo. Fui um mediano meia”, confessou ele, hoje um crítico do futebol feio – a la Leandro Damião – praticado no País. “Nestes últimos anos, o futebol foi enfeando tanto que me desinteressei. O Santos ainda consegue certos lances de beleza, mas são um tanto raros”, havia afirmado o escritor dias antes, numa entrevista concedida por e-mail.

“Futebol não rende literatura. O futebol fala por si só, não precisa ficar escrevendo muito sobre. A pessoa já consumiu aquilo ali assistindo ao jogo, que muitas vezes é meio mágico, meio literário. Para quê escrever depois sobre?”, filosofou, por fim, na mesa do bar, Torero, autor de “Santos, um time dos céus”, “Futebol é bom pra cachorro”, “Dicionário Santista, de A a Z, mas sem X”, “Uma história de futebol”, “Pelé 70”, “Nove contra o 9”, “Futebologia” etc.

Replico citando “O Drible”, romance elogiado, publicado em 2013 por Sérgio Rodrigues e finalista do Prêmio Jabuti em 2014. “Eu li, é bom. Mas não é um romance especificamente sobre futebol, mas há futebol ali”, explicou o escritor santista, que, em meio ao bate-papo com a gente e com as batalhas no aparelho celular, nem viu que (a velha caixinha de surpresas), aos 45 minutos do segundo tempo, o pouco habilidoso volante Edson empurrou de carrinho (o típico gol feio) a bola para as redes do goleiro Aranha, dando a vitória para o Flu e afastando de vez a chance de o Santos alcançar o G4 no Brasileirão e, consequentemente, obter uma vaga para a Libertadores do ano que vem. Coisas do futebol, e que fazem qualquer escritor deixar a mesa do bar extremamente aborrecido de volta para o seu hotel, em outro bairro de Maringá.

Também retornando para o mesmo hotel, o corintiano Kondo segurou o riso e a comemoração com a derrota de seu rival, mas penso que, por dentro, lavou a alma. O conto que abraça o leitor venceu.

*Texto publicado em dezembro de 2014 no jornal O Duque

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O conto em questão na Flim

NOCAUTE. À esquerda, o escritor André Kondo, de Jundiaí ; ao lado, o santista José Roberto Torero: conto é tema da conversa

NOCAUTE. À esquerda, o escritor André Kondo, de Jundiaí ; ao lado, o santista José Roberto Torero: conto é tema da conversa

Por Wilame Prado

O conto, a inspiração e o processo criativo dos contistas José Roberto Torero, 51, e André Kondo, 39, são temas hoje para a mesa da 1ª Festa Literária de Maringá (Flim). O bate-papo com os autores começa às 19h30, no Auditório Hélio Moreira, no Centro de Convivência Renato Celidônio (ao lado do Paço). A entrada é franca.

Torero é conhecido pelos contos, pelas crônicas e também pelas participações em discussões futebolísticas. Mas o santista diz estar cada vez mais afastado do futebol. Nem a vitória do Santos sobre o Palmeiras no último final de semana pareceu animar o autor. “Estes últimos anos (o futebol) foi enfeiando tanto que me desinteressei. O Santos ainda consegue certos lances de beleza, mas são um tanto raros.”

Kondo se destaca pelos vários concursos literários conquistados escrevendo contos. Seu livro “Contos do Sol Nascente” dividiu, em 2011, o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Nihonjin”, do maringaense Oscar Nakasato, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota. Natural de Jundiaí (SP), pela Flim ele também dá a palestra “Produção literária” hoje, às 14 horas, no Hélio Moreira.

Em entrevista por e-mail, os dois escritores adiantaram um pouco do que falarão nesta noite a respeito dos desafios envolvendo a feitura de contos. Torero, engraçado e direto, considera um ato de sorte a sua conquista no Prêmio Paraná Literatura de 2012 com o livro de contos “Papis et circenses”, o que lhe rendeu R$ 40 mil.

Para ele, o conto sempre vem de algo já existente. “Em ‘Pequenos Amores’, um livro de contos de amor, eu olhava casais na rua ou em restaurantes (na época, era repórter do Guia 4 Rodas e ia a muitos restaurantes) e inventava uma história para eles. Já em ‘Papis et circenses’, fiz uma pesquisa histórica sobre os papas e ela serviu de ponto de partida. Ou seja, sempre parto de alguma coisa já existente. Talvez seja falta de criatividade”, comenta o vencedor do Jabuti de 1995 com “O Chalaça”.

Sem ainda ter se aventurado na prosa longa, Kondo diz não saber responder se é mais difícil fazer um conto ou um romance. Mas revela: gosta da liberdade que ele e seus personagens costumam ter nos contos. “Meu processo criativo é simples: apenas escrevo. Não tenho a disciplina de montar a história inteira dentro da minha cabeça antes de começar a escrevê-la. É arriscado, mas gosto de pensar que o meu personagem tem o mínimo de liberdade para caminhar pelo papel, para sonhar, para ter algo dentro dele que eu desconheço. Gosto de me surpreender com ele, de me emocionar. Enfim, gosto de me enganar, de acreditar que aquilo que escrevo é a mais pura verdade.”

Para o também autor dos livros “Além do horizonte”, “Amor sem fronteiras” e “O Pequeno Samurai”, o importante é que o conto emocione, seja por pontos ou nocaute. “Não se vence batendo no leitor, mas escrevendo algo tão bom que ele não queira te dar um soco na cara, mas um abraço”, diz Kondo. Para Torero, que aconselha a leitura dos contistas Dalton Trevisan, Luís Fernando Verissimo, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela, o conto aceita o inusitado: “A prosa curta pede uma estrutura mais aparente, mais surpreendente. No romance um formato estranho pode cansar, mas no conto é algo bem mais suportável. Ele até pede uma certa estranheza.”

PARTICIPE
MESA: O CONTO,
A INSPIRAÇÃO
E O PROCESSO CRIATIVO
Com os contistas
José Roberto Torero e André Kondo
Mediação: Wilame Prado
Quando: hoje, às 19h30
No Auditório Hélio Moreira
Entrada franca

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (22) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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