Biblioteca



Charutos*

Acho que a grande maioria dos garotos que atinge certa idade começa a desejar algumas coisas que, em certo ponto, é por influência de filmes norte-americanos. Foi unanimidade quando tocaram no assunto de charutos. Estava combinado de que seria naquela noite linda de sexta-feira, onde a negritude que esmagava nossas cabeças se entrosava com a brisa amena e deliciosa que esvoaçava os cabelos compridos de nós. Eu, Flávio e Caetano.

Em frente ao estádio, num bar, ou melhor, num boteco de esquina, foi que experimentei pela primeira vez um charuto. Eu achava que todos que estavam naquele ambiente boêmio iria olhar para mim de um jeito diferente; senti-me mais importante, mais mal, mais Fidel, mais jogador de pôquer, mais Juan Carlos Onetti, mesmo sem saber se ele fuma charuto. Caetano também estava no auge de um orgasmo “charutual”, porém não tomava tanta cerveja como eu. E Flávio, coitado, não se dava ao deleite de experimentar essa sensação de grandeza, sendo que, para mim, era o que mais merecia, pois era um cara humilde, que tinha todo direito de pelo menos uma vez se sentir mais do que os outros.

Apesar de não sabermos se o charuto era de boa qualidade, fizemos um ritual e tanto, pois, de fato, merecia. Caetano mordeu a ponta, pois qualquer bom fumante de charuto sabe que, se cortar com a tesoura afeta o sabor (eu não sabia). Depois, tratamos logo de arrumar uma caixa de fósforos. Recusamos o isqueiro da velha do bar e perguntei para a senhora se ela estava de brincadeira comigo, pois uma dona de um bar deveria saber que acender charutos com isqueiro corrompe o sabor original do nobre fazedor de fumaça (eu também não sabia, quem me falou foi o Caetano). Percebia que estava mais esnobe, mais norte-americano, mais desgraçado.

Acho que é por isso que existem tantas pessoas más e ridículas neste mundo. Não por causa de uma simples merda de um charuto, mas de pequenas coisas materiais que sobem nas cabeças das pessoas, corrompendo a dignidade, até então, original de cada ser. Vou explicar melhor: as pessoas são outras depois de conseguirem algo que tanto almejam e que provavelmente tem um status maior do que de outro grupo de pessoas. Você seria a mesma pessoa depois de virar um presidente de um país, de um movimento estudantil ou de qualquer presidência? É óbvio que agora você fala que seria a mesma pessoa, mas é aí que está a questão. Não é por querer. É um mal de todo ser humano. É inevitável.

Mas, voltando a descrição daquela linda noite, onde nada poderia evitar a bebedeira, nem a tristeza ou alegria contida em nossos corações, pois, afinal de contas, além de ser sexta-feira, ainda era a primeira vez que eu e meu amigo Flávio bebíamos juntos. A primeira de várias bebedeiras. Logo em seguida, depois de tomar um pouco no boteco ao lado do estádio, fomos em direção aos nossos humildes lares, onde talvez um banho quente estaria nos esperando ou até uma pilha de louças para lavar, visto que é atividade normal do cotidiano de moradores de repúblicas. Refleti bem e lembrei que havia oitenta por cento de chances de ter uma louça me esperando e ainda um banheiro para lavar. Juntando isso com certo grau de excitação que a cerveja e o magnífico instrumento de elevação moral – o charuto – haviam provocado, insisti aos amigos para que não deixássemos a tão linda noite boêmia se encerrar tão cedo.

Então fomos para outro boteco, ou melhor, fomos para uma lanchonete fazedora de lanches, ao lado do bosque que continha blocos humildes e paupérrimos, a Universidade Estadual de Maringá. Lá, tomamos cerveja para valer. No meio da jornada de morticínio de neurônios chegou um amigo meu da província e um amigo de curso do Flávio, que também era meu amigo de trabalho. Eles perceberam meu ponto de excitação alcoólica, deixando-me irado. Esse motim durou dois minutos até que, como uma fórmula mágica,vejo Dasy, amiga nossa de trampo, passando dentro de uma circular.

Devido a vários fatores que já mencionei, dei meu primeiro fiasco da noite: quase parei a circular só para dar um oi à nossa companheira. Porém, devido ao seu alto grau de reflexo, vendo rapidamente que existia um copo de cerveja em minha mão, ela me esnobou. Isso me deixou muito triste, pois, até então, pensava que ninguém tinha coragem de rejeitar Fidel Castro, o fumante de charutos.

Bebemos bastante ainda, mas já não era a mesma coisa. Ainda aconteceram coisas incríveis, como exemplo outra circular passando na rua com outra amiga nossa. Tentei me animar, mas pensava seriamente em desistir de ser o chefe de Estado de um país socialista.

Ora. A vida, nesse dia, deu-me um golpe. Logo percebi – com o passar das bebedeiras, com o passar dos anos, com o passar dos acontecimentos – que a vida é essa. Um golpe. A felicidade são todas ilusões muito bem detalhadas, umas duram mais do que as outras. Uns se enganam a vida inteira achando que são felizes, mas todos, sem exceção de ninguém, percebem que a felicidade plena não existe. Assim como Santo Agostinho a denominava como o conhecimento de Deus, assim como um milhão de românticos acham que felicidade é quando se encontra alma gêmea, assim como Flávio acha que felicidade é poder saber tudo de Gabriel García Márquez e ser seu discípulo, eu, naquela sexta-feira linda, achava que tinha encontrado a felicidade naquela merda de charuto.

Volto para casa. Já é tarde, ou cedo, dependendo do ponto de vista. Lembrei-me de que teria de trabalhar no outro dia, ou melhor, daqui algumas horas. Isso me fez perceber que a ressaca estava começando. O gosto de charuto na boca me deixou de mal-humor. Percebo definitivamente que não gosto de charutos, nem de me sentir melhor do que ninguém. Percebo que o bom e velho humilde que sou, volta ao meu corpo. Cheguei atrasado ao serviço. Levei bronca, e isso é deprimente. Será que minha chefe fuma charutos?

*O primeiro conto escrito por mim, em 2004. Também publicado em A Poltrona.

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Desligue o computador e vá ler um livro

Fico feliz quando leio a notícia de que, por lei, agora toda escola brasileira deverá ter, em suas mediações, uma biblioteca instalada. Fico mais feliz ainda quando, de acordo com as determinações dessa lei, é obrigatório que essa biblioteca ofereça pelo menos um livro por estudante daquela instituição. Ou seja, se a escola tem 100 alunos matriculados, a biblioteca terá de ter, no mínimo, 100 livros à disposição da gurizada.

Se realmente esta lei pegar, lembrando-se do fato de que inúmeras leis no Brasil não são respeitadas, vai ser mais fácil para os professores estimularem o hábito da leitura, já que terão material disponível na biblioteca suficiente para que todos possam levar livros para casa e também para a sala de aula.

Fosse eu um professor, faria, pelo menos uma vez por mês, um debate com troca de ideias sobre determinado livro que estivesse nas prateleiras da biblioteca escolar. Mas, para isso, o mestre do quadro negro e do giz também deve ter o hábito da leitura. Caso contrário, o professor estará fazendo o mesmo papelão do pai que fuma e chicoteia o filho quando descobre que o peste está fumando escondido na casa dos amigos.

Portanto, fosse eu um coordenador, faria, pelo menos uma vez por mês, um debate com troca de ideias sobre determinado livro que estivesse nas prateleiras da biblioteca escolar. A diferença do parágrafo acima é que, em vez da molecada, quem deveria participar deste encontro seria todo o corpo docente do colégio. Mas, para isso, o coordenador também precisa gostar de ler, ora pois.

Sendo assim, fosse eu um diretor, e agora vou além, esforçaria-me para que, pelo menos uma vez por mês, todos, absolutamente todos do colégio, participassem de um debate sobre determinado livro para que a troca de ideias envolvendo a literatura e o prazeroso hábito de ler pudesse se tornar algo maior, algo especial, um evento mesmo.

Desta maneira, quase que utopicamente é verdade, enxergo um colégio de leitores, crianças leitoras, jovens leitores, professores leitores, coordenadores leitores, diretores leitores, merendeiras leitoras, serventes leitores, secretárias leitoras, porteiros leitores, enfim, uma escola leitora.

Parece pouco ler um livro por mês, o que resultaria no total de 12 livros por ano. Mas, por incrível que pareça, a média do brasileiro é de apenas 4 livros lidos ao ano. Eu disse apenas 4 livros lidos ao ano. Com o mutirão nos colégios, essa marca mais que dobraria.

E, com o passar do tempo, a molecada, sem dúvida nenhuma, pegaria o gosto pela coisa e conseguiria ler mais em menos tempo, e então o colégio faria dois encontros mensais discutindo os livros lidos, e, com o tempo passando, muitos criariam por meta ler três livros por mês, e, por fim, todo esse pessoal do colégio conseguiria atingir a média de incríveis 36 livros lidos ao ano.

Deixa eu parar de sonhar alto e voltar às minhas sagradas leituras. Para quem tem curiosidade em saber, atualmente estou no meio da leitura de cinco livros: dois romances, dois de crônicas e um de conto. E você, caro leitor do blog? Já leu algum livro neste mês de maio? Se ainda não, faço a recomendação: desligue o computador e vá ler um livro!

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Centro cultural, camelódromo ou arranha-céu?*

“Um arranha-céu pode ser construído em inúmeros locais de Maringá. Já a nossa antiga Estação Rodoviária Américo Dias Ferraz não poderá, jamais, ser reinventada em nenhum outro lugar da cidade.”

Mesmo, teoricamente, tendo o papel de representar o coletivo, as atitudes do governo municipal acerca do destino que será dado à Estação Rodoviária Américo Dias Ferraz parecem aproximar-se mais dos anseios privados, de determinados grupos que estão de “olho gordo” naquele espaço privilegiado, do que nas reais necessidades da população maringaense. Dos males, os menores, fico feliz ao ler por aí que a prefeitura pretende, pelo menos, instalar um centro cultural no local, que promete abrigar um arranha-céu de 36 andares.

Desde quando eu estagiava na Biblioteca Municipal de Maringá, a minha querida chefe, biblioteconomista concursada pela prefeitura, sonhava com as promessas do prefeito de que, tão logo, o grandioso acervo da biblioteca ganharia novas acomodações, livrando-se das condições precárias daquele subsolo onde hoje ficam alojadas as prateleiras da biblioteca do centro. Desde então, passaram-se mais de cinco anos.

Bom mesmo seria se, ali na antiga rodoviária, fosse possível satisfazer o pessoal que anseia pela conservação histórica do prédio e também o pessoal que acredita no bem que a cultura faz para a sociedade como um todo. Para isso acontecer, far-se-ia necessário manter os traços arquitetônicos intactos da nossa apelidada “Rodoviária Velha” e ainda transformá-la em referência cultural de Maringá, com bibliotecas, museus, salas de leitura, salas de cinema, teatros, enfim. Mas, pelo modo como as coisas vão indo, dificilmente deixarão de demolir o antigo prédio onde antes comprávamos pilhas para os nossos tocadores de mp3 e outras bugigangas mais.

Os efeitos dessa desvalorização histórica na cidade não serão percebidos tão já, por ninguém. Sentimos falta da nossa tradição e do nosso passado quando, por exemplo, comparamo-nos com o pessoal do Rio Grande do Sul, que detém conhecimento histórico de toda a construção e emancipação do seu estado e que, justamente por essa criação de raízes, ama o lugar onde nasceu. O maringaense, pelo contrário, desconhece boa parte da curtíssima história do seu município, não cria vínculos afetivos com o lugar onde nasceu e, quando menos se espera, já está morando em São Paulo ou em Curitiba em busca de melhores oportunidades profissionais.

Imagine que bacana se houvesse um projeto de reconstrução e conservação dos traços da Rodoviária Velha, mas que, também, no lugar, a população pudesse usufruir serviços relacionados à cultura. Um arranha-céu pode ser construído em inúmeros locais de Maringá. Já a nossa antiga Estação Rodoviária Américo Dias Ferraz não poderá, jamais, ser reinventada em nenhum outro lugar da cidade.

Ou alguém aí discorda de mim quando afirmo que conhecimento e preservação histórica, incentivo à leitura e construção cultural e crítica são fatores determinantes para o desenvolvimento de uma sociedade? E que a construção de um centro cultural, mantendo os traços históricos da antiga rodoviária, é alternativa infinitas vezes mais interessante do que manter um camelódromo ou então subir mais um arranha-céu comercial? Vamos alimentar esta discussão. Comente sua opinião acerca do futuro da Rodoviária Velha aqui no blog.

*Crônica publicada hoje, dia 18 de maio de 2010, na coluna Crônico, no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Sábado de sol, açougue, sapataria e Dostoiévski

Vida corrida é a nossa. Os sapatos, a levar na sapataria; o remédio, a buscar na farmácia; as carnes, a serem cortadas e compradas no açougue; O bolo, a esperar a farinha de trigo e os ovos que desfalcam a receita completa; o carro, implorando uma lavagem numa manhã de sol tão aprazível.

Todas essas tarefas, propícias para se fazer justamente num sábado como hoje, impediram-me de participar do Clube da Leitura de Maringá, encontro organizado mensalmente na Biblioteca Municipal Central, localizada na avenida XV de novembro, ao lado dos Correios.

O encontro, que, segundo Alberto dos Santos, pessoa que me convidou a participar, é formado “por um grupo heterogêneo, gente entre 18 e 70 anos, com os mais variados graus de instrução”. No mesmo email com o convite, Alberto me diz que o amor pela literatura é o ponto em comum de todos os participantes.

Sem dúvida, hoje perdi um grande evento literário. É difícil encontrar pessoas que sentem prazer em conversar sobre literatura. E, justamente, o encontro realizado neste sábado tinha um algo mais para mim: isso porque, “Crime e castigo”, de Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, tema das discussões do encontro de hoje, é uma das minhas obras prediletas e livro que estou relendo neste momento.

Em 2004, no auge de uma solidão universitária sem tamanho, trancafiado num apartamento sujo da Zona 07, tendo de estudar para uma prova de História Antiga, abandonei o mundo por mais de quatro horas seguidas e li cento e poucas páginas de “Crime e castigo”, na mesma posição, deitado na cama, alucinado, cada vez mais amante fiel da boa literatura russa.

Em breve, discorrerei, neste humilde blog, sobre tamanha genialidade traduzida em palavras, frases e capítulos pelo inalcançável escritor russo Dostoiévski. Enquanto isso, deixo meus agradecimentos ao Clube da Leitura de Maringá pelo convite. Tentarei, da próxima, participar do encontro. Aproveito também o ensejo para divulgar esses encontros literários, que estão abertos para quem quiser participar.

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