Brasil



Cinuem retorna em grande estilo

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Por Wilame Prado

Maringá volta a ter mais uma opção que oferece cinema de qualidade longe dos circuitos comerciais das redes localizadas nos shoppings. O projeto Cinuem, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM, retomou as atividades após alguns meses sem oferecer sessões de cinema dentro do campus.

Com a Mostra Cinema Brasileiro Contemporâneo: Emergências da Política, iniciada há uma semana, o Cinuem volta a exibir filmes todas as quartas-feiras, pontualmente às 19 horas, na Sala 1 do Bloco A34, na UEM, sempre com entrada franca. O projeto é aberto a toda comunidade e não apenas a estudantes universitários.

O cartaz de hoje do Cinuem é o filme brasileiro “Orestes”, dirigido pelo mineiro Rodrigo Siqueira (“Terra deu, terra come”) e vencedor do Prêmio APCA como melhor documentário de 2015.

“Orestes” combina elementos documentais e ficcionais para jogar luz a dois problemas atuais da sociedade brasileira: a memória e a herança do regime militar de 1964 e a violência policial sentida principalmente pelos pobres e pelos negros. Quando do lançamento, ano passado, a crítica relacionou o filme aos ataques ocorridos em Osasco, na grande São Paulo.

Siqueira recorre à mitologia grega – mais precisamente às peças teatrais de Ésquilo – para criar analogias no documentário. Na tragédia grega, Orestes mata a mãe para vingar a morte do pai, o rei Agamemnon, e ganha um voto de minerva após decisão do júri formado por cidadãos atenienses.

No Brasil contemporâneo do diretor mineiro, Orestes é um personagem fictício que mata o pai – um torturador brasileiro anistiado em 1979 e assassino da mãe do seu filho – e que será submetido a um julgamento simulado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Entre os casos reais citados em “Orestes”, algumas vítimas da ditadura militar são entrevistadas, como Ñasaindy Barrett Araújo, filha da guerrilheira comunista Soledad Barrett Viedma que foi assassinada em 1973 após emboscada tramada por José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, ex-companheira de Soledad.

A crítica de cinema Eleonora de Lucena descreveu “Orestes” como um filme original e provocativo. “Mesclando documentário, psicodrama e encenação, o diretor mexe com a plateia: cria tensão, incômodo”, escreveu ela, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2015.

Retomada
A retomada do Cinuem sempre foi desejo da PEC da UEM, mas estava parado desde que a professora Fátima Neves havia se desligado do projeto, no ano passado. Com a chegada da professora Cristiane Lima à universidade, o Cinuem ganhou sobrevida.

Ela, que veio de Belo Horizonte (MG), chegou como professora colaboradora para lecionar no curso de Comunicação e Multimeios. Com mestrado e doutorado na área de Cinema, definiu com o setor cultural da UEM o retorno do projeto.

Cristiane diz pretender aproximar o Cinuem dos alunos do curso de Comunicação e Multimeios. “A ideia é que eu coordene um grupo de curadoria, composto por alunos e ex-alunos do curso, para definir a programação dos filmes no projeto e também colaborar durante os encontros com explanações acerca das obras apresentadas”, diz ela.

Outro desafio será conseguir os filmes para as exibições, já que, agora, a proposta do Cinuem é levar ao público filmes recentes e premiados. Para isso, Cristiane se utilizará de seus contatos, amigos e conhecidos da área.

“Nesta primeira mostra de filmes brasileiros, consegui autorização dos próprios diretores para conseguir o filme ou então baixá-los”, conta ela, que finaliza: “O Cinuem permite essa abertura da universidade para a comunidade externa, e a gente acha que, desta maneira, promovemos a cultura no âmbito da cidade de Maringá.”

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (25) no caderno Cultura, do Diário

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Oito livros traduzidos de John Fante

Ilustração inspirada no romance "Pergunte ao Pó"

Ilustração inspirada no romance “Pergunte ao Pó”

Por Wilame Prado

“1933 Foi Um Ano Ruim”: No fundo do estado norte-americano do Colorado, Dominic Molise, 17 anos, filho de um pedreiro e uma dona de casa temente a Deus, ambos imigrantes italianos, sonha em fugir do frio, ir para a Califórnia e tornar-se um grande arremessador de baseball.

“Espere a Primavera, Bandini”: Romance de estreia do autor, nesta obra ele retrata a vida de um adolescente em uma pequena cidade do Meio-Oeste americano, e mergulha na revolta dos que vivem à margem do sonho americano. Filho de imigrantes italianos, o alter ego do escritor, Arturo Bandini, faz-se presente.

“O Caminho de Los Angeles”: Arturo Bandini é um sensível e temperamental ítalo-americano que procura de todas as formas atingir o propósito máximo de sua vida: se tornar um escritor de prestígio. Mas, após a morte do pai, ele precisa sustentar a família e se vê forçado a trabalhar.

“Pergunte ao Pó”: Filho de imigrantes, Arturo Bandini é um jovem pretenso a escritor que se sente excluído da sociedade. Ele quer escrever sobre a vida e o amor, mesmo não tendo muita experiência sobre ambos, e se apaixona por uma linda garota. O romance se passa na Los Angeles da década de 1930.

“Sonhos de Bunker Hill”: Em uma Los Angeles frenética, que vive a explosão de Hollywood, na década de 30, Arturo Bandini ganha a vida como auxiliar de garçom. Com 21 anos, dinheiro nenhum no bolso e uma ingenuidade típica do interior americano, tenta embrenhar-se entre os roteiristas, atores, produtores e agentes do mundo cinematográfico, em busca de um lugar ao sol. O livro, ditado por Fante já cego e escritor por Joyce, sua mulher, fecha o “Quarteto Bandini”

“O Vinho da Juventude”: Nesta coletânea de contos de Fante estão seu pai, sua mãe, os irmãos, a irmã. O colégio católico, o beisebol, os mistérios das freiras, o pecado. Os imigrantes, os Estados Unidos das décadas de 30 e 40

“A Oeste de Roma”: Livro com duas novelas de Fante. Uma delas é sobre um cachorro, de cauda peluda, patas espalmadas, olhos oblíquos, meio akita, meio chow. De hábitos sexuais “muito estranho”, que já causaram confusões ímpares na sua família de humanos. Atende pelo nome de Estúpido. A outra novela é sobre uma mina de ouro desativada, cujo nome, Diabo Vermelho, já diz tudo: cenário e desculpa perfeitos para furtivos encontros etílico-amorosos.

“A Irmandade da Uva”: Personagem Henry Molise, 50 anos, escritor de sucesso, retorna à casa da família para ajudar com o mais recente drama dos pais já idosos: um divórcio. O pai de Henry, tirânico e alcoólatra, ainda desperta o medo em seus filhos, todos já na faixa dos 50 anos. A mãe, doente e devota ao catolicismo, tenta sempre amenizar as situações dramáticas dentro do lar, consolando e até confundindo os filhos.

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Germanizar, jamais

Por Wilame Prado

O futebol continua nos dando lições, veja só. A Alemanha, seleção de futebol que mais viveu intensamente a Copa do Mundo, sagrou-se tetracampeã mundial em solos brasileiros. Os baianos das redondezas de Santa Cruz de Cabrália, que adoraram a presença dos alemães durante o torneio, devem ter comemorado esse título tal qual um hexacampeonato do Brasil, projeto brecado após uma derrota acachapante nas semifinais justamente para eles, os germanos, e cujo resultado não preciso ficar aqui repetindo, não é mesmo?

A Alemanha demonstrou que é possível vencer sorrindo fora de campo e sério pisando no gramado, simples assim. Não precisamos fazer cara feia, chorar para mamar, tentar ludibriar, entrar para quebrar. Basta jogar. Em dias de folga, por exemplo, dois dos grandes atletas da seleção alemã – Neuer e Schweinsteiger – se deixavam ser flagrados nas areias das praias baianas, aprendendo danças típicas, dando autógrafos, curtindo, por que não, um turismo no País. Dentro de campo, não perderam o foco um minuto sequer das partidas que disputaram do mundial.

Os alemães se abrasileiraram e, sem dúvida, se aproveitaram disso também dentro de campo: jogaram como se estivessem em casa. Lukas Podolski, a partir de agora, será nome lembrado em cartórios daqui. Mario Götze fez o gol mais brasileiro na história da Alemanha de todos os tempos: habilidade de Neymar, matando a redonda no peito no tempo certo, e precisão de Pelé, enfiando a bola para a rede argentina. Gostaram tanto do País, esses alemães, que se recusaram a entregar a Copa do Mundo dentro de nossa casa para o nosso maior rival no futebol. Somos eternamente gratos, portanto.

Além de toda essa simpatia que foi capaz inclusive de quebrar o paradigma reinante – o de que alemão é antipático –, muitos agora aproveitam a conquista do título da Alemanha para sugerir à Seleção Brasileira um possível jeito de se voltar a jogar bola de maneira convincente. Erramos nessa tentativa, a meu ver. Tudo bem: elogiemos, sim, o comportamento deles fora de campo e aplaudamos, e muito, o comportamento tático dos capitaneados pelo polivalente Philipp Lahm. Reconheçamos que a frieza, a obediência tática e a determinação da Alemanha em campo resultaram na conquista do título mais importante para o futebol. Ressaltemos também que é muito melhor ter um time de bons jogadores do que ter um apanhado de jogadores medianos com uma estrela brilhante solitária. Agora, germanizar o futebol brasileiro e suas marcantes características, aí acho demais.

Precisamos de um bom técnico e de um bom time. Precisamos de mais atenção dentro de campo e mais estudo sobre os adversários fora de campo. Mas não precisamos deixar de chorar e sentir menos as coisas do nosso Brasil, assim como muitos sugeriram após o aperto passado na vitória, nos pênaltis, contra o Chile, nas oitavas de final da Copa do Mundo. Não podemos só ter isso, mas temos de respeitar e ver a importância de talentos individuais, porque um talento individual brasileiro – essas coisas de Neymar, Ronaldo, Rivaldo, Romário, Zico, Pelé e Garrincha – vale mais que mil palavras, é coisa que o dinheiro não compra.

Não somos imbatíveis, e isso, aos poucos, o País onde nasceu e vive o rei do futebol vai entendendo. Mas temos um futebol diferente, difícil de explicar. É aquela velha história envolvendo quem é esforçado e quem é talentoso nato. O talento, para nós, é natural. Precisamos é nos esforçar um pouco mais, aceitar algumas reciclagens, ter um pouco mais de humildade para também aprender e admirar outros “futebóis”, e não apenas ficar esperando a admiração alheia por nossa genialidade, fintas, golaços, impossibilidades que só são possíveis dentro de campo com a bola nos pés brasileiros.

Se tudo isso acontecer, meu amigo, aí sim será “Rumo ao Hexa”, tudo voltará ao normal, o Brasil voltará a jogar futebol para alemão ver e, finalmente, poderemos ter o mínimo de chances de ganharmos novamente uma Copa do Mundo, lá na Rússia, em 2018.

Ademais, Olimpíada Rio 2016 está logo aí também.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Os não-torcedores do Neymar

Por Wilame Prado

Há cinco anos, após começar a brilhar com a camisa do time profissional do Santos em plenos 17 anos de idade, Neymar Jr é assunto recorrente da mídia. De lá para cá, o jogador conquistou uma legião de fãs e desafetos também. Os rivais da equipe santista são detentores de torcidas populosas. Muitos destes, em especial, alimentam uma raiva doentia pela camisa 10 da Seleção Brasileira, e as causas dos sintomas podem ser facilmente explicadas por duas frentes: pela simulação de faltas que o atleta insiste em desempenhar, mas principalmente pela ousadia e alegria – bordão que ele eternizou em tatuagens e nas chuteiras – que resultam nos mais belos gols, nas mais belas jogadas.

Discussão velha, no entanto. Neymar já nem é o 11 do Peixe, disputou uma temporada com o Barcelona e, desde 2013, é a grande estrela do futebol brasileiro porque, ao contrário de Messi com a Argentina, chamou rapidamente para si a responsabilidade com a camisa amarela, foi peça fundamental na conquista da Copa das Confederações e, até onde pôde ajudar na Copa do Mundo deste ano, desempenhou papel crucial para que exatamente hoje, logo mais às 17 horas, possamos estar grudados à telinha assistindo a uma semifinal de copa, coisa que não víamos desde 2002, quando vimos ainda mais, um Brasil sendo brilhantemente campeão mundial.

Pensando bem, discussão velha, mas nem tanto. Tive a oportunidade de ver alguns jogos recentes do Brasil com pessoas que dizem não gostar do Neymar. Os olhos destas pessoas, quando a bola está nos pés do craque, aumentam de tamanho, assustados. Suam frio, mais do que o próprio adversário, temendo o pior, que, para eles, parece ser mesmo o êxito da jogada, o gol, a mágica, o futebol-arte. Os não-torcedores do Neymar implicam demais com ele, foram, talvez, acometidos por uma espécie de trauma após verem seus times tanto sofrerem com os pés deste menino de só 22 anos. Quando dribla genialmente, eles dizem que Neymar é fominha. Quando faz um gol – e só na copa foram quatro – olham de lado, comemoram com menos entusiasmo e geralmente dão crédito para quem passou a bola para ele concluir com bola na rede.

Chega a ser engraçada essa birra que há com o melhor jogador que despontou no País após a aposentadoria precoce de Ronaldo Fenômeno. São tão birrentos os não-torcedores do Neymar que, com a contusão dele no jogo contra a Colômbia, alguns chegaram a dizer que a sua ausência seria menos sentida que a suspensão do ótimo zagueiro e capitão do Brasil, Thiago Silva. Aí eu pergunto: quem está à altura para substituir Neymar naquele banco de reservas? Dante, ou até mesmo Henrique, podem jogar bem lá atrás, com a força que terão do simplesmente melhor jogador da copa, chamado David Luiz. Mas e lá na frente? Quem é que vai chamar o jogo, conduzir a bola, desestruturar o adversário, cobrar escanteios com maestria, bater faltas perigosas ao gol e – com ou sem exageros, com ou sem simulações – sofrer as faltas e dar chances reais de gol para um time que tem aproveitado bem as bolas paradas nas partidas? Vamos torcer para William ou o próprio Bernard entrar bem no jogo de hoje contra a Alemanha. Podem sim, fazer ótimas partidas, jogar até melhor do que o Neymar e, assim como fez Amarildo em 1962, suprir a ausência de um camisa 10 do Brasil.

Eles, os não-torcedores do Neymar, continuarão buscando justificativas absurdas para provar que ele não é craque, que ele é fominha, que ele deveria ser ator ao lado da namorada, que deveria nem estar usando a 10, que deveria mesmo é estar como está agora, machucado (“Vai fingir tanta falta! Deus castiga”, dizem os mais bizarros não-torcedores) e vendo do lado de fora o espetáculo do futebol que o próprio ajudou a se concretizar.

São raivosos estes não-torcedores, enfim. Um deles, jornalista que escreve para o Portal R7, expressou publicamente em redes sociais a sua torcida (isso em 23 de junho) para que o Neymar se contundisse, quebrando o fêmur, de preferência. Mas para o desespero de todo eles, Neymar tem idade – e futebol – para jogar mais umas três copas do mundo. Isso se a mandinga e a não-torcida deixarem.

*Crônica publicada nesta terça-feira (8) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O meu amigo Barba

Por Wilame Prado

Vi um cara parecido com o Barba. Será que o Barba entraria assim naquele bar? Será que ele paqueraria a moça bonita das pernas magrelas, sentada a quatro mesas, 23 cadeiras e aproximadamente três metros de distância de mim? Será que teria comemorado os dois gols do Neymar, um de Oscar, tacando cerveja pra cima, tal qual certamente fez o cidadão levemente alcoolizado, com camisa amarela falsa do Brasil, boné descaindo pelas orelhas, horroroso, na mesa 43, a mesma mesa que já pediu mais de doze vezes novas garrafas de cerveja, uma porção de batata frita com muito queijo e bacon jogados por cima e ainda algumas rosetas de sal e limão porque as duas moças gostam de misturar a bebida levemente salgada e azeda com goles generosos de bebida alcoólica enquanto não entendem muito bem porque houve tão rapidamente um gol contra do Marcelo, e também porque se deve colocar a bola na marca branca próxima ao gol quando alguém do Brasil cai na grande área?

Pego-me a imaginar o Barba dentro daquele bar que mais se parece uma jaula suja, lotada de animais que precisam de cerveja como uma espécie de água e comida vitais para as energias juvenis de gente que só quer ter a coragem de olhar por mais de três segundos para os olhos amendoados da menina que revela tristeza até mesmo quando sorri, ou então a ousadia de tecer comentários com começo, meio e fim para a roda de amigos, sempre com uma pitada de humor, sempre com uma pitada de sensualidade no ato de revelar os contos cotidianos da vida regados a mais mentiras ou superlativos do que a verdade propriamente dita.

Barba perceberia que a loira que chegou com o cara da corneta gosta mesmo é do amigo do cara da corneta – tamanho foi o beijo tascado no rosto desse amigo, beijo que quase chegou na boca do amigo, beijo que revela segredos, intimidades, vontades e desejos da loira acompanhada do cara da corneta? Estaria ele incomodado com tanto barulho, irritações, braços que se tocam, gente que se empurra, banheiros sujos, vômito, urina e fezes, calor e frio, carros que sobem a avenida, motocicletas que aceleram de propósito na avenida e que, pela execução de seus devidos motociclistas, produzem sons que se assemelham ao estourar de rojões (comemoremos, é o Brasil ganhando jogo de copa do mundo!)?

Gostaria de saber onde estava o Barba no exato momento em que, após uma abertura muito criticada e chata (valeu ver apenas o rebolado da Jennifer Lopez e a sua beleza que chega a nos agredir fisicamente), finalmente a bola começou a rolar numa das copas mais aguardadas de toda a minha vida. Estaria em Maringá, no Jardim Alvorada de Santa Fé, em Londres, Nova York, Pantanal ou mesmo lá dentro da Arena Corinthians, vaiando a Dilma ou torcendo para que aqueles rapidíssimos 90 minutos não se esgotassem jamais, tamanha é a festa, tamanha é a alegria representada pelo futebol, tamanha é a emoção de viver, estar vivo e ter alguns dinheiros a mais a ponto de poder sim, o próprio Barba, hoje estar vendo com os próprios olhos da cara, sem filtros, sem televisões, sem replays, sem a voz do Galvão Bueno, o primeiro jogo da seleção em plena Copa do Mundo Fifa – Brasil 2014.

Lembro-me da última vez em que vi o Barba. Ele estava daquele jeito de sempre, lento caminhar, olhar distante, mão no ombro da mãe, bengala na outra mão, dando passos nas calçadas daquela pequena cidade como forma de exercício fisioterápico para, a conta-gotas, ir recuperando os movimentos da perna, perdidos após um trágico e besta acidente de moto. Se não fosse uma imensa placa que o impediu de continuar acelerando a sua moto, e que, por pouco, não gerou uma tragédia ainda maior para toda a sua família, Barba poderia estar aqui neste bar, comemorando feito idiota, assim como eu, mais uma “vitória” da Seleção Brasileira. Poderia, quem sabe, até chutar um placar para o próximo jogo, para o próximo espetáculo de circo, para a próxima palhaçada, cujos atores em cima do palco estariam uns vestidos com o amarelo do Brasil e outros vestidos com o verde do México. Viva o futebol. Viva o bar. Viva a cerveja, a festa e viva as pessoas que podem usufruir disso tudo sem precisar escorar numa bengala e no ombro de uma forte e guerreira mãe, assim como o meu amigo Barba precisa.

*Crônica publicada nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O eterno murro na eterna faca

Cena de "Murro em Ponta de Faca": escrito em 1974, texto de Boal continua atual (Foto de Roberto Reitenbach)

Cena de “Murro em Ponta de Faca”: de 1974, texto de Boal continua atual (Foto de Roberto Reitenbach)

Por Wilame Prado

Questões obscuras envolvendo tortura, desaparecimento e morte de pessoas perseguidas durante o regime militar no Brasil não foram resolvidas até hoje, 28 anos após o seu fim. Sem ditadura, no entanto, coisas do tipo continuam acontecendo no País em pleno 2013. Um exemplo? Policiais são suspeitos de tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, que morava na Rocinha, Rio de Janeiro (RJ). O corpo da vítima ainda não foi encontrado.

Toda essa repressão – velada ou não – é motivo mais do que suficiente para se dizer que, no País, continua-se dando murro em ponta de faca, como prega o velho ditado. Motivo também que fez a atriz e produtora de teatro Nena Inoue procurar o consagrado ator e diretor Paulo José para apresentar um projeto de montagem do espetáculo “Murro em Ponta de Faca”, escrita em 1974 pelo dramaturgo Augusto Boal e que foi dirigida pelo próprio ator em 1978.

Selecionada pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura 2013/2014, a montagem “Murro em Ponta de Faca”, do Espaço Cênico Produções Artísticas (Curitiba), será apresentado na noite deste domingo, às 20h, no Cine Teatro Sonia Silvestre, em Marialva. Às 19h30 de segunda-feira, apresentação única também acontece em Apucarana, no Cine Teatro Fênix. A entrada é franca.

“Tivemos um apoio imenso em Maringá, mas infelizmente o Calil (Haddad) estava sem agenda e, pela importância da montagem, queríamos encontrar um local que suportasse um público maior. Em Marialva, que é bem pertinho, o teatro comporta 600 pessoas”, explica a argentina radicada em Curitiba Nena. De Maringá, um ônibus (já lotado) transportará moradores locais graças a uma parceria entre a TCCC, o Expresso Maringá e o Instituto Cultural Ingá.

O existencialismo do exílio
No espetáculo, contemplado com o Prêmio Myriam Muniz de Teatro 2011 (concedido pelo MinC), o tema principal é o exílio e todas as questões existencialistas que cercam os mais diferentes perfis de gente exilada na época da ditadura. Paulo José aceitou participar do projeto como diretor principalmente por um motivo, como comentou na estreia: “Eu afirmo que importante também é não esquecer, pois a perda de memória pode nos levar a repetir o erro.”

“Murro em Ponta de Faca” conta a história de um grupo de exilados brasileiros em suas trajetórias pelo Chile, Argentina e França. Nena conta que o espetáculo se confunde com a própria a história de Boal, que, em 1971, durante a ditadura militar e já conhecido por ser o criador do Teatro do Oprimido, foi preso, torturado e condenado ao exílio. Essas experiências inspiraram o diretor e dramaturgo a escrever a peça, considerada um de seus melhores trabalhos.

Paulo José declama poesia
Devido ao seu estado de saúde, Paulo José, que sofre há vinte anos do Mal de Parkinson, já não tem acompanhado a trupe do espetáculo que assina como diretor. Pelo menos não de corpo e alma. “Murro em Ponta de Faca” é brilhantemente aberto com a declamação do poema “Lusíada Exilado”, do poeta português Manuel Alegre, feita pelo ator que em 2011 brilhou nos cinemas com o premiado filme “O Palhaço”, de Selton Mello.

“No poema, ele fala sobre pertencimento, sobre a pátria que ele não tem mais, o pai, a mãe, o lugar. Um jornalista escreveu em uma matéria que, só pelo fato de ouvir Paulo José declamando, já vale a pena assistir ao espetáculo”, diz, entusiasmada, Nena.

Atual
Para ela, que diz continuar dando murro em ponta de faca – mas evidenciando, de maneira metafórica e esperançosa, o fato de que um dia o sangue das mãos poderá enferrujar a faca – o mais importante na montagem é o fato de que, mesmo tendo sido escrita na década de 1970, o texto de Augusto Boal continua extremamente atual.

“A Comissão da Verdade está aí, os torturados da Guerrilha do Araguaia estão aí, o Amarildo está aí. ‘Murro em Ponta de Faca’ continua emocionando na plateia aqueles que viveram o período de ditadura e também fazendo jovens de 20 anos chorarem por finalmente ficarem a par deste terrível episódio da história de nosso País”, afirma Nena.

PARA VER
MURRO EM PONTA DE FACA
Espaço Cênico Produções Artísticas (Curitiba)
Quando: domingo (20)
Onde: em Marialva, no Cine Teatro Sonia Silvestre (Av. Cristovão Colombo, nº 285)
Horário: 20h
Entrada gratuita – ingressos retirados no local a partir das 19h
Na segunda-feira (21), apresentação única em Apucarana, no Cine Teatro Fênix, às 19h30

*Matéria publicada neste domingo (20) no caderno Cultura, do Diário de Maringá

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Conheça o projeto ‘Músicas do Brasil’, de Beto Quadros

O mapa do Brasil pode ser não apenas visto, mas ouvido e delimitado pelos sons, gêneros e ritmos. Assim pensou Mário de Andrade, com sua Missão de Pesquisas Folclóricas em 1938, Marcus Pereira, com sua radiografia da música popular brasileira nos anos 1970 e agora, no século 21, o músico Beto Quadros, de São José dos Campos-SP, em um trabalho de resgate musical e busca por novos traços e fronteiras neste mapa com manifestações contemporâneas de gente que não se deixa levar pelos ditames da indústria cultural.

Com seu “Músicas do Brasil”, Beto reuniu o acervo de gravações que Marcus Pereira fez na década de 70 e cuidou de olhar também para as manifestações contemporâneas que não deixam morrer os ritmos brasileiros (inspirados no repertório popular consolidado principalmente graças à oralidade em diferentes comunidades e vilarejos no País). O projeto e tem por objetivo colocar jovens e adultos em contato com essa rica diversidade musical, por meio de apresentações musicais que contemplam gêneros como o fandango, o calango, o samba de roda, a moda, a chula, o choro, o carimbó e a ciranda.

Para isso, Beto anda devagar, sem pressa, mas sabendo onde quer chegar. O primeiro passo já foi dado e, em quatro anos de projeto, com incentivo cultural local, levou e contextualizou o repertório da música popular brasileira para mais de 20 mil pessoas em vários colégios e espaços culturais nos bairros de São José dos Campos.

Há poucos dias, Beto Quadros teve a ótima notícia de que poderá também levar “Músicas do Brasil” para todo o País. Com a aprovação do projeto no Programa de Ação Cultural (Proac) do Estado de São Paulo, ele marcará 30 shows no segundo semestre deste ano em cidades paulistas, gravará um DVD com direito a 500 cópias e relançará o CD “Músicas do Brasil – Fragmentos de uma Cultura”, lançado originalmente em 2010 e atualmente esgotado. Para isso, poderá captar em empresas apoiadoras até R$ 249 mil via isenção de ICMS.

Matéria completa no D+, do Diário de Maringá.

Conheça melhor o projeto “Músicas do Brasil” em sua página no Facebook.

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Em Santa Maria, domingo deveria ser dia de viver

O Brasil perde uma parte da sua juventude. Dos mais de 200 mortos encurralados dentro de uma boate em chamas em Santa Maria-RS, muitos deviam estar se preparando para o primeiro ano na faculdade. Inúmeros destes que perderam a vida deviam ser recém-formados, recém-chegados ao ignorante mercado de trabalho. Vários desses jovens que não tiveram mais chances de viver, é bem certo, estavam no meio de um curso de Medicina, Direito, Jornalismo, Odontologia etc.

Mas pode soar frio de minha parte dizer que perdemos um batalhão de mão de obra jovem e qualificada. Seria pensar demais na economia do País e menos naquelas vidas perdidas. Cada vida tinha uma história. Cada jovem tinha pais, amigos, primos e até desafetos. Todos que conhecem algum daqueles jovens perdem uma parte de uma história que foi interrompida em uma malfadada madrugada de domingo, em que todos só queriam se divertir, paquerar, tomar umas bebidas, dançar, dar risadas com os amigos, curtir uma noite na Kiss.

A morte veio para beijá-los. E o beijo da juventude é tão doce. Soa como injustiça.

Ninguém poderá entender, em vida, a morte. Ainda mais quando são mais de 200 vidas, de jovens que deveriam, neste triste domingo de verão, estarem “apenas” vivendo: caras emburradas em um almoço dominical, frango macarrão, pais e irmãos; um simples miojo com restos de uma carne de ontem na república estudantil; passeios no parque ao lado dele ou dela, sorvete, coca-cola, água mineral; sono profundo e uma sede incontrolável, talvez Gatorade talvez jarra de água bebendo no bico mesmo e a expectativa para mais uma rodada de futebol na TV; leituras daquele texto em xerox, afinal a data para a entrega do artigo do mestrado está aí; vontade de ficar quietinho depois de um banho quente, xícara de café e uma espécie de resguardo para a segunda-feira braba não ser tão dificultosa na repartição do trabalho; dia de lavar roupas, de visitar o filho ainda bebê na casa da mãe dele, de brincar com cachorros e gatos, de ver a avó internada no hospital, de ver aquele filme baixado na internet, de ir ao cinema assistir ao grande longa indicado ao Oscar, de catar a bike para queimar umas calorias na ciclovia da cidade, dia de ver o mar, quem sabe, de ver o sol, de ver a chuva que vem vindo, dia de ligar para a irmã que está longe e com saudades, dia de pensar no pai que morreu há alguns anos e que, em sua tentativa imagética consoladora, tornou-se uma estrela que você pode ver quando vai na janela da sala do seu apartamento e olha para o lado esquerdo em direção ao céu, dia de perguntar para sua mãe se as aulas já voltaram e como estão agora as coisas em sua casa nova.

Dia de viver. Em Santa Maria, para esses jovens, domingo deveria ser dia de viver.

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Brasil só funciona quando começa o futebol

A vida voltou ao normal.

Tem futebol passando na tv, sendo jogado nos estádios.

As velhas, tolas e óbvias discussões entre torcedores rivais prosseguem.

A vida voltou ao normal.

O Brasil volta a respirar.

É mentira quem diz que o País só volta a funcionar depois do carnaval.

O Brasil só acontece com o apito do árbitro.

E não tem nada a ver esse negócio de copinha sp.

O negócio começa mesmo com os estaduais e, principalmente, com a emocionante Libertadores da América – onde os fracos não têm vez.

Ah, e tem uma galera também que precisa se contentar com a Copa do Brasil.

Bola rolando. Segue o jogo.

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Sem meias, ingresso da Copa pode custar até R$ 1.500

Segundo estimativa do Congresso em Foco, o ingresso para as partidas da Copa do Mundo Fifa 2014, que deverá ocorrer no Brasil, custará entre R$ 150 e R$ 1.500. Para chegar a esse resultado, levou-se em conta a cotação do dólar na semana passada e o preço das entradas cobradas na África do Sul no ano passado, desconsiderando a inflação e as flutuações futuras do câmbio.

Outra notícia envolvendo o preço dos ingressos deve não agradar os estudantes e demais públicos que conseguem pagar meia entrada em diferentes eventos culturais e esportivos. Isso porque, o Ministério do Esporte fechou acordo com a Fifa para que a entidade negocie o fim das gratuidades ou meias-entradas na copa. O assunto, no entanto, ainda está sendo discutido na Casa Civil da Presidência da República.

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