Campeonato Paranaense



Maringá FC, um time de respeito

Por Wilame Prado

Mesmo com a derrota no jogo dramático do último domingo no Estádio Regional Willie Davids para o Londrina Esporte Clube, afirmo sem medo de errar que o Maringá Futebol Clube é também um campeão. Não leva o caneco, mas merece os parabéns pelo jogo jogado tanto dentro das quatro linhas como fora – uma bela campanha de um time que, em pouco tempo, pulou da terceira para a primeira divisão do estadual, perdendo poucas partidas neste período, desempenhando um futebol elogiável e que se estende nestes quatro anos de fundação do clube.

Dito isto, revelo: fiz uma promessa para mim mesmo na noite do último sábado, vendo uma garoa fina molhar o chão do pátio aqui do jornal, pensando na grande final do Paranaense, que só escreveria esta crônica em caso de derrota do Maringá FC. Fui, durante pouco mais de um mês, assessor de imprensa do time e, em caso de título, evitaria escrever para que não pensassem que estivesse eu me incluindo – justo nos festejos – como parte integrante daquela que foi, e continua sendo, uma verdadeira família capitaneada pelos irmãos Regini (Zebrão e João Batista), gerenciada pelo diretor de futebol, Paulinho Regini, e orquestrada pelo técnico Claudemir Sturion.

Durante o pouco tempo em que convivi com funcionários, comissão técnica e elenco do Maringá FC, percebi o tamanho da pressão que envolve aqueles que trabalham com algo intimamente relacionado à paixão das pessoas. É bem mais fácil torcer do que trabalhar com o futebol. Corre nos sangue dos maringaenses o esporte bretão. Homem, mulher, criança. Não importa o nome do clube nem as cores do brasão: o que importa, para a maioria dos moradores desta cidade, é o melão rolando no gramado verde do Willie Davids.

Por tudo isso e muito mais, sinto uma vontade danada de parabenizar o pessoal lá do time, a começar pelo roupeiro Eli Lima, lenda viva do futebol maringaense desde os anos 1970, até o boa gente João Regini, presidente que está sempre escalado para a pelada descontraída nas manhãs de sábado junto ao plantel, no CT Vale da Zebra, e que não se importa nem mesmo de ajudar um assessor sem jeito a pregar no alambrado do estádio um painel, com a logo do time e patrocinadores, servindo de fundo nas entrevistas para a TV.

Essa campanha do Maringá FC, que resultou num vice-campeonato com sabor de título – o time demonstrou uma evolução impressionante até chegar às finais e, afora as penalidades, jogou melhor no Estádio do Café e também em casa –, ficará guardada em minha memória em relances de quando trabalhei para o time, em especial os momentos em que fiquei na beira do gramado do Willie Davids. Momentos de bastidores que, talvez, digam mais do que as arrancadas de Reginaldo, os lançamentos de Léo Maringá, os dribles de Max, o oportunismo de Gabriel Barcos, os gols de Cristiano, a raça de Zé Leandro, as defesas de Ney e depois de Ednaldo, a seriedade de Fabiano na zaga e tanta entrega dos demais do elenco.

Nas entrelinhas da assessoria para o Maringá FC, entre uma anotação e outra no caderninho, entre uma informação e outra repassada para os colegas de imprensa, entre um pedido e outro de declarações para jogadores, comissão e diretoria, entre uma crítica e outra de jornalistas querendo água, querendo lanche, querendo entrevistas, querendo informações exclusivas, querendo tudo (!), certamente o que mais me marcou foi o término das partidas, momento em que, exaustos, todos os envolvidos nessa guerra benigna que é o futebol, saíam pelos fundos do velho Willie Davids e iam embora para o descanso merecido. Uns, rodeados por filhos em festa e mulher carinhosa. Outros, solitários, rumando ao alojamento onde provavelmente sentiriam saudades da família que ficou longe. Outros, ainda, acelerando seus automóveis para passarem pelo menos um dia ao lado daqueles que o amam e que ficaram em casa. Todos, sem exceção, humildes, determinados e felizes por fazerem aquilo que mais gostam nesta vida, que é viver em função do futebol e que foi (pelo menos até então) ter vivido pela honra e glória do Maringá FC, um time de respeito.

*Crônica publicada nesta terça-feira (15) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Dobradinha de títulos ou anotações sobre duas finais na TV

Por Wilame Prado

-Domingo de finais: Ituano Futebol Clube x Santos Futebol Clube; e Londrina Esporte Clube x Maringá Futebol Clube. Anoto no caderninho.

-Opto pelo time do coração.

-Mas gritos dos vizinhos me obrigam a mudar o canal: tiro da final do Campeonato Paulista para a final do Campeonato Paranaense.

-Se Londrina x Maringá estão merecidamente na final pela bola jogada, isso não repercute nos estádios. O que é pior? O pasto do Estádio do Café ou os postes andrógenos de iluminação no Estádio Regional Willie Davids?

-Penso no dilema dominical para os santistas que torcem para o Maringá e para os maringaenses que torcem para o Santos: Band ou Globo? Paraná ou São Paulo? Pizza ou dogão?

-Em Maringá e região, a torcida do Santos é a segunda maior. O fato foi revelado pela Paraná Pesquisa, em dezembro de 2012. Na região, 10% se declararam santistas. Em Maringá, 12,4%.

-O Santos de Oswaldo de Oliveira parece ser um time que tem perfil tático definido, jogadas ensaiadas e ofensividade desavergonhada: no escrete alvinegro praiano, 20 atletas selecionados para a final, sendo sete atacantes, ou 35% do total. Nos 90 minutos, seis deles tiveram o privilégio de vestir o manto dentro das quatro linhas, mas nenhum transformou em gol as parcas chances do time santista.

-Ao contrário do bom defensor Ituano – que nem pode ser chamado de retranqueiro porque marca bem, mas toca bem a bola no ataque também –, time responsável por um dos gols mais bonitos do Campeonato Paulista, com a triangulação a la Barcelona envolvendo Jackson, Esquerdinha e Cristian. Para poucos, aquela calma do camisa 10 da cidade onde tudo é grande. Para poucos, a precisão do chute daquele que poderá ter sido o autor do gol do título paulista.

-O barulho da bola fogueteando a rede lateral do gol defendido por Aranha ensurdeceu santistas de toda a nação, em especial os santistas torcedores do Maringá FC, que imediatamente trocaram de canal.

-Preocupo-me com o que vejo em outro canal: 1×0 para o Tubarão londrinense. Mais uma ou duas zapeadas nos canais, e o Maringá FC, que deverá ser eternizado como a Zebra no jogo dos animais que simbolizam times de futebol (parecemos crianças, não?), empata bravamente a partida. Daquele jeito mesmo: com o Cristiano, aos trancos e com a raça insuperável, caindo, levantando e chutando forte para o gol e com um Gabriel Barcos, oportunista como um pirata, estufando as redes do adversário.

-O segundo tempo entre Ituano x Santos, prefiro não comentar. Nada de muito importante aconteceu, a não ser um chapéu pomposo de Jackson, do time de Itu, para cima de Gabriel, do time de Santos. O alvinegro praiano perdeu, na bola e na tática, e terá uma semana inteira para esfriar a cabeça e pensar numa fórmula capaz de furar o esquema defensivo do Ituano. Não será fácil.

-O destaque, em se tratando de segundo tempo, fica mesmo no outro canal, no jogo bem mais próximo, disputado em Londrina, a 100 quilômetros daqui. E por falar em distâncias, foi de muito longe o canhão executado pelo meia Baiano – reserva sempre pronto para assumir o front no campo de batalha – e que calou os mais de 20 mil londrinenses empatando o clássico.

-Em se tratando de pescaria, o mar não foi para peixe neste domingo de final de campeonato ao quadrado. O Tubarão saiu mansinho do Estádio do Café, e a Zebra mais forte que nunca. Já a Baleia ficou pequena frente à grandeza dos ituanos.

-Muitos querem, seja nos arredores do Willie Davids, seja nas proximidades do Pacaembu, comer sardinha no almoço do próximo domingo. Então prevejo: os santistas torcedores do Maringá FC e os maringaenses fanáticos pelo Santos Futebol Clube ficam indecisos quanto ao cardápio, mas continuam otimistas e resolvem pedir dobradinha para o garçom, na panela uma mistura de conquistas – metade Paulistão e metade Paranaense.

*Crônica publicada terça-feira (8) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Parabéns Metrô!

Por Wilame Prado

Por esses tempos, os sujeitos mais atentos vinham reparando bem nos olhares tristes dos maringaenses enquanto iam até a padaria do bairro buscar os pãezinhos, dentro de uma circular ou quando se prestavam a rodear intermitentemente o Parque do Ingá. Estavam todos calados, cabisbaixos, absortos em pensamentos, sós consigo mesmos os moradores desta cidade. Olhavam mais para a poeira do chão do que para a imensidão do horizonte. Essa tristeza incalculável mas nem sempre admitida dos maringaenses – pesquisas suspeitas andam dizendo por aí que aqui mora gente feliz – só podia ter uma explicação. A ausência de um time de futebol profissional decente.

Havia uma carência futebolística que foi se acumulando com tantos anos de amargura dentro do gramado, anos de times não sintonizados com o anseio do povo e uma dor no peito grande ao ver rivais como o Londrina Esporte Clube ou o Cianorte Futebol Clube jogando certinho, brigando lá em cima, dando alegria para seus torcedores em tardes de domingo, em dias de estádio cheio, sol quente e bola nas redes. Esse clima de velório futebolístico se reverteu por aqui desde as 17h19 do último domingo, instante em que o juiz Murilo Ugolini Klein apitou o término da partida entre o Colorado e o Metropolitano Maringá (realizada no simpático Estádio Municipal Francisco Borges de Campos na terra não menos simpática da cana-de-açúcar e do rodeio), sacramentando a vitória por 1×0 que garantiu o time maringaense, com duas rodadas de antecedência, na primeira divisão do Campeonato Paranaense, a ser disputado no ano que vem.

Com o acesso à primeira divisão, o sorriso do maringaense só não é mais escancarado porque, a bem da verdade, a sensação é a mesma quando acontece de o carro ser recuperado sem rádio e sem calotas após um furto. Recupera-se o bem que jamais deveria ter saído de suas mãos. Maringá jamais deveria ter saído da elite do futebol estadual e até nacional. Gente gabaritada, como o compositor e jornalista Cláudio Viola, não me deixa mentir: Maringá sempre foi boa das pernas e, em décadas passadas, não escolhia adversário para duelar no esporte bretão.

O Estádio Regional Willie Davids jamais deveria ter sido silenciado. Ninguém merece tardes vazias de domingo com um gigante calado.

Cristiano: esta é a minha sugestão para o nome do teu filho, caro leitor ou leitora. Cristiano, este é o nome da fera. Dono da camisa 9, artilheiro do torneio e autor do gol da vitória que garantiu a subida do Metropolitano Maringá aos céus após período que parecia ser interminável no purgatório das almas que tateiam em busca de times para torcer, com gritos de gols entalados e que causavam sufocamento de gargantas aquietadas.

Quando Cristiano interferiu na trajetória do escanteio batido por Fernandinho, fazendo, aos quarenta minutos do primeiro tempo, um belo gol de cabeça no canto superior esquerdo do pobre goleiro colorado Rafael, ele sabia que os maringaenses estávamos feridos, abatidos, sem dignidade, sem alma, sem coração e cada vez mais agarrados aos times paulistas.

Obrigado, Cristiano.

Sim, tudo bem, somos santistas também, palmeirenses, corintianos e até são-paulinos – as vezes encontra-se flamenguistas, atleticanos e outros suicidas mais na cidade. Mas, a cada rodada dos torneios mais representativos praticados por esses times, competições com envergadura nacional e até internacional, havia uma outra camisa vestindo os maringaenses, só que pelo lado de dentro do corpo. Maringá sempre teve camisa (cores e nomes dos times que representam a cidade pouco importam), nunca se desprotegeu. Chegou a hora de vesti-la por cima de qualquer roupagem enquanto se caminha – sem olhar para trás ou para o chão – até o estádio em uma tarde ensolarada de domingo, dia de rede balançando e de guerreiros cantando na arquibancada. Parabéns, Metrô!

*Crônica publicada esta terça-feira (6) na coluna Crônico, do D+, caderno do Diário de Maringá

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