Campo Mourão



Rubros e diretos*

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Tirinha de Tiago Silva, disponível em rubrosversos.wordpress.com

Por Wilame Prado

De Campo Mourão, Tiago Silva faz sucesso na internet com os Rubros Versos, projeto que mescla arte e crítica social

Muitos preferem o silêncio quando o tema é racismo, igualdade de gêneros, ditadura da beleza ou homossexualidade. Ao contrário da maioria, com o lápis na mão e a ideia na cabeça o cartunista e quadrinista Tiago Silva, 29 anos, costuma ser direto no que tem para dizer por meio de quadrinhos. É assim que os Rubros Versos (www.rubrosversos.wordpress.com) têm atraído milhares de pessoas na internet. Só no Facebook, a página do projeto já conta com mais de 40 mil curtidas. Os quadrinhos postados na rede social chegam a receber duas mil curtidas e uma infinidade de compartilhamentos.

Agora, Silva – que é natural de São João do Ivaí e mora em Campo Mourão – quer transformar os quadrinhos rubros (os tons avermelhados são característicos em todas as artes) em livro. Recentemente, ele começou uma campanha de financiamento coletivo no site Catarse para reunir quadrinhos em um volume impresso.

Os antagonistas e os coadjuvantes ganham vozes, corpos e destaque nos traços do quadrinista. Uma mulher acima do peso clama pela felicidade acima de qualquer padrão determinado pela mídia; uma garota com seu blackpower prega o fim da expressão “cabelo ruim”; e uma simples imagem de um recipiente e três escovas de dente sugere o amor livre entre casais ou mais pessoas.

“As pessoas me inspiram. A nossa diversidade cultural e toda essa complexidade humana que se deriva disso. Essas coisas me deixam sempre instigado a tentar entender tudo e expressar a minha visão”, revela Silva – um confesso seguidor de uma tríplice de respeito nos quadrinhos: Laerte Coutinho, Bill Waterson e Robert Crumb.

Ao evidenciar costumes e o cotidiano daqueles que não seguem o considerado padrão comum numa sociedade machista e autoritária, ele coleciona sim vários elogios, mas também represálias. “É corriqueiro meus quadrinhos serem denunciados pelos defensores da ‘moral e dos bons costumes’. Às vezes as denúncias não dão em nada, porém já tive quadrinhos sumariamente apagados da página e meus perfis no Facebook bloqueados algumas vezes”, lamenta ele, que, além do projeto pessoal, atua na edição gráfica do jornal Correio do Cidadão e já emprestou seus traços para o site Vida Breve e o jornal O Duque.

Do livro, porém, ninguém poderá apagar nada. Restando ainda 40 dias para o término da campanha no Catarse, o artista recolheu até então 9% do valor necessário para a tiragem da primeira impressão do livro “Rubros Versos”, que terá mais de 100 páginas e feito em A5, com ótima impressão gráfica. “O livro será um compilado de tudo o que saiu na página do Facebook, além de algumas páginas inéditas, que serão feitas especialmente para a versão impressa”, garante.

*Matéria publicada em 9 de fevereiro de 2016 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Afinal, uma palhaça de negócios

Palhaça Pipoca em apresentação no Rio de Janeiro; Raquel Cruz empreende construindo sorrisos

Palhaça Pipoca em apresentação no RJ; Raquel Cruz empreende construindo sorrisos

Por Wilame Prado

Raquel Aparecida da Cruz, 38 anos, sempre preferiu rir a chorar. E descobriu o tamanho da força de um sorriso ao optar trabalhar com a arte circense e ser uma palhaça profissional. Mais do que a recompensa que tem de poder, trabalhando, dar felicidade para crianças, jovens e adultos, a conhecida palhaça Pipoca, de Campo Mourão (a 90 quilômetros de Maringá), vem conquistando também prêmios que revelam o seu lado empreendedor e que a legitimam como uma mulher de negócios.

No final do mês passado, Pipoca – uma das poucas palhaças negras do País – gargalhou mais do que a plateia, em Brasília, ao representar o Paraná no Prêmio Sebrae Mulher de Negócios na categoria Microempreendedora Individual ao conquistar o Troféu Bronze. A participação de Pipoca no prêmio nacional se deu após ter conquistado o primeiro lugar na etapa estadual, que aconteceu, no ano passado, em Curitiba-PR.

Mesmo sendo, hoje, uma das vencedoras da premiação do Sebrae, que visa reconhecer, divulgar e premiar histórias de empreendedorismo feminino, Raquel conta, em entrevista por telefone ao Diário, que nunca tinha parado para pensar em assuntos relacionados ao desempenho feminino à frente dos negócios.

Ela só se inscreveu no prêmio após muita insistência por parte de uma consultora do Sebrae de Maringá. “Muita gente tem história parecida com a minha, que venceu mesmo com as adversidades. Talvez o que tenha chamado a atenção seja o fato de eu ter escolhido a área do circo e não áreas mais comuns no setor feminino, como costura, beleza e cozinha”, diz.

Acostumada a sempre correr com mais de uma tarefa diária, Raquel começou a trabalhar aos 12 anos em Campo Mourão. Foi cortadora de cana e cozinheira, mas nunca deixou de lado o sonho de ser artista, fazendo cursos na área e já se apresentando para pequenas plateias. Após passar algum tempo nessa dupla jornada, conta, um dia apostou todas as fichas na arte, dispôs-se a entender todos os processos envolvendo um espetáculo circense – desde a maquiagem, luz e cenário, até a parte cênica envolvendo a atuação do palhaço – deu vida à Pipoca e, atualmente, se divide entre o fazer rir e também o ensinar a fazer rir.

“Uma das inspirações para desenvolver a Pipoca, sem dúvida, foi o palhaço Saca-Rolha, de Curitiba”, conta Raquel, recordando-se de uma época boa da sua vida, quando morava na capital e passava os dias ao lado da mãe adotiva – camareira de circo – acompanhando os ensaios, trabalhos e apresentações de uma trupe circense liderada pelo palhaço Saca-Rolha. Nascia ali, diz ela, a certeza de que queria trabalhar com arte. “Em outra reencarnação eu devia trabalhar em circo, só pode.”

Hoje, ensina os “truques” da palhaça Pipoca para cerca de 500 crianças que recebem aulas gratuitas de circo no contra turno em três municípios da região. Além do trabalho desenvolvido com as crianças, explica Raquel/Pipoca, sua Microempresa Individual (MEI) desenvolve cursos de artes circenses e maquiagem artística, animações e performances em eventos, monta coreografias circenses e ainda desenvolve cenários, figurinos e adereços.

“Sou palhaça, mas não sou besta”, diverte-se ela ao comentar que, mesmo seguindo a carreira artística, precisa alertar muita gente de que, nos bastidores, não pode haver bagunça.

Ela conta que, com as dores da alma, palhaço também chora (muitas vezes até atrás das cortinas, com o show prestes a começar), isso sem contar com as exigências físicas da profissão, com afazeres dobrados nos finais de semana e desafios envolvendo acrobacias, presepadas e traquinagens em cima do palco. Toda essa vivência, diz ela, serve como matéria-prima para repassar aos alunos e clientes.

Ao olhar para trás, ela prefere o sorriso, a gargalhada, a palhaçada, a se recordar das dificuldades que já passou nesta vida – ainda bebê, foi adotada por outros pais, que, depois, separaram-se, o que a obrigou a trabalhar na infância para ajudar com as contas dentro de casa. Mesmo assim, não sei se Raquel, não sei se Pipoca, não titubeia em dizer que é melhor ser alegre que ser triste.

“Sempre preferi sorrir do que chorar, encarar as coisas do que reclamar. E isso eu passo para os meus alunos. Se as lágrimas insistem em cair antes do espetáculo, aí o palhaço precisa ir pela técnica e entrar sempre sorrindo. Independentemente do que acontece na sua vida, o espectador espera o seu melhor. Ninguém paga para ouvir coisa ruim e a nossa missão é fazer as pessoas mais felizes”, ensina.

*Agradecimentos a Edilaine Castro, diretora da empresa Espaço Sou Arte (Campo Mourão), que auxiliou com a produção na reportagem

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