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Woody Allen mais racional do que nunca

Cena de "Homem Irracional", com a bela e talentosa Emma Stone e com o barrigudo Joaquin Phoenix

Cena de “Homem Irracional”, com o barrigudo Joaquin Phoenix e com a bela e talentosa Emma Stone

Por Wilame Prado

Após o desastroso “Magia ao Luar”, exibido ano passado por aqui, Woody Allen volta à velha e boa forma. “Homem Irracional”, em cartaz em Maringá, mostra um diretor atento aos mínimos detalhes em absolutamente todos os diálogos do filme, recheados com filosofia, especialmente com os princípios morais de Kant, a vertigem da liberdade de Kierkegaard e o existencialismo de Sartre e Heidegger. Tudo válido em uma construção narrativa que leva a um desfecho perfeito.

O longa é mais drama que comédia – assim como os melhores filmes do diretor – e, mais uma vez, é cercado pelo universo dostoiévskiano (o diretor é fascinado pelo escritor russo), especialmente ligado à máxima de Raskólnikov, de “Crime e Castigo”: para se destoar dos homens comuns, para haver algum sentido na vida, há que se fazer grandes feitos, até, de repente, quem sabe, cometer assassinatos, para um bem maior.

Abe Lucas (um Joaquin Phoenix propositalmente barrigudo e desgostoso com a vida) é um professor de filosofia famosinho que acaba de chegar a um novo campus para trabalhar, numa pequena cidade dos Estados Unidos. Sua chegada é cercada por boatos envolvendo principalmente o seu uso excessivo de álcool e os seus relacionamentos fugazes com mulheres – especialmente com professoras e alunas. Entre aulas entediantes, goladas generosas em seu cantil de uísque e flertes, um dia ele põe na cabeça que precisa matar um juiz que está sendo injusto com uma mãe humilde, prestes a perder a guarda dos filhos.

Allen tem acertado também nas escolhas de suas musas. Não é a primeira vez que ele aposta no charme e na imensa capacidade cênica de Emma Stone, mais linda do que nunca, em papel irretocável. Ela é a aluna Jill, que, fatalmente, apaixona-se pelo professor tristonho e boêmio de filosofia. Lucas também arranca suspiros de Rita (Parker Posey), uma professora casada que tenta ter um caso com ele. A veia cômica fica reservada a ela, que se debruça em busca de sexo com o professor e em planos indecorosos de fuga com ele para a Europa.

O diretor estadunidense faz um filme por ano e costuma ser lacônico em seus roteiros: o desfecho dos filmes são estreitados para o limite da vida, meio que matar ou morrer. É assim também em “Homem Irracional”, longa que nos faz lembrar que, mesmo com tanta teoria já eternizada nos livros, a filosofia ainda não é capaz de alcançar a irracionalidade que envolve as pessoas, as suas relações pessoais e os seus eternos esforços para sobreviver, para respirar.

*Comentário publicado nesta terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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O tédio dos jovens e de Sofia Coppola

Atriz Emma Watson em cena de “Bling Ring”: assaltos recheados de futilidade e consumismo

Por Wilame Prado

Tenho acompanhado há alguns anos o trabalho como diretora de cinema de Sofia Coppola, filha do mestre Francis Ford Coppola. E se o pai fez da história da máfia uma das grandes obsessões cinematográficas, a filha prefere centralizar em sua filmografia uma questão recorrente da contemporaneidade: o tédio.

Em “Um Lugar Qualquer” (filme de 2010 e vencedor do Leão de Ouro, em Veneza), Sofia já estava querendo nos dizer o seguinte: por detrás do glamour, da fama e da grana de um astro de Hollywood, há também tédio. Com “Bling Ring – A Gangue de Hollywood”, filme em cartaz no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping, o tédio continua sendo explorado por ela.

Nicki (Emma Watson), Marc (Israel Broussard), Sam (Taissa Farmiga), Rebecca (Katie Chang) e Chloe (Claire Julian) são as figuras principais da gangue que resolve se divertir matando o tempo em assaltos praticados em mansões situadas em Los Angeles.

O alvo dos assaltos são as celebridades, como Paris Hilton e Lindsay Lohan, figuras públicas que deixam vazar pela internet informações sobre viagens que fazem pelo mundo, pressuposto para a moçada invadir facilmente a propriedade privada sabendo que não há ninguém em casa. Para o filme, Sofia se baseou em uma história real, lida em um artigo da revista Vanity Fair.

Entediada. É assim que vejo aquela turma de jovens que resolve praticar furtos nas mansões dos milionários envolvidos com o mundo da moda e do entretenimento. Os dias de hoje são um tédio só. Junte isso ao consumismo babaca, à doença de se querer glamour por meio de luxo e marcas em roupas, aparelhos tecnológicos e acessórios, e então se fabrica uma juventude que não sabe mais o que inventar em uma época em que é mais importante postar, curtir e compartilhar do que viver.

No longa-metragem em cartaz, Sofia se atenta a isso e dedica boa parte das cenas naquele ritual comum e desprezível dos tempos de Facebook: agir, registrar, postar na rede social e aguardar a reação. Com joias, sapatos, bolsas e dólares furtados das mansões, o ápice do prazer banal da juventude só é pleno a partir do momento em que tudo fica registrado para os “amigos” verem.

Claro que, na trama, com as facilidades materiais advindas com a prática do crime, a galera desfruta de sensações, como a de dirigir um carro importado em alta velocidade, tomar champagne na melhor balada das redondezas e de experimentar drogas estimulantes. Mas o que vem depois? O tédio, em doses cavalares, com a força da realidade cotidiana que revela a fugacidade de tudo aquilo.

“Bling Ring” vem provando o que muitos dizem: Sofia Coppola talvez aborde temas que estão muito próximos a ela. Refiro-me novamente ao tédio: famosa desde que nasceu por conta do sucesso do pai, iniciado na década de 1970 com a saga do “Poderoso Chefão” e com “Apocalypse Now”, a jovem atriz e diretora deve saber que as coisas essenciais da vida não estão à venda e que, por isso mesmo, há tanta banalidade principalmente no mundo das celebridades; tudo não passa de uma fuga doentia contra o tédio.

Em seu último trabalho, porém, a diretora deixou escorrer a essência para a técnica, e isso vem sendo característica cada vez mais marcante e preocupante da diretora de cinema. Para Sofia, abordar o tédio como temática é essencial. Ela só não precisava ter transferido toda essa obsessão para as questões envolvendo a arte de se fazer um filme. “Bling Ring”, em suas repetidas e iguais cenas de furtos às mansões praticados por jovens fúteis e desmiolados, torna-se um filme chato, com roteiro fraco, sonolento, enfim, entediante.

Envolto às questões da juventude vazia que caracteriza a “gangue de Hollywood”, há uma série de elementos que poderiam ter sido melhores explorados pela diretora, como a ausência dos pais, amizades escolhidas e premissas de uma sociedade contemporânea que se mostra, cada vez mais, mesquinha em meio aos ditames consumistas da moda e do cinema.

Mas não: Sofia, talvez entediada para caramba, optou por ocupar mais de uma hora do longa – que, mesmo breve, se arrasta a passos lentos em seus infindáveis 1h30min de duração – com a repetição de cenas dos assaltos. Foram pelo menos três investidas no closet e na boate particular de Paris Hilton. Um tédio só ver aquelas meninas delirando com bolsas e sapatos e um menino com medo de ser pego em flagrante mas se revelando obcecado pelas marcas e joias tal qual uma patricinha de quinta categoria.

Sendo assim, “Bling Ring” caberia esplendidamente em um curta-metragem de 15 minutos, com uma cena de abertura, uma cena de assalto e outra com o desfecho da história. O público teria ficado menos entediado.

Obs.: Como bem alertou o jornalista e crítico de cinema Elton Telles, o filme “Spring Breakers – Garotas Perigosas” (dirigido e roteirizado por Harmony Korine este ano e que não estreou em cinemas brasileiros) traz à tona a mesma questão: garotas entediadas que resolvem subverter a ordem, curtindo umas “férias adoidadas”, literalmente. Filmaço, com cenas impactantes e que mesclam, com maestria, a singeleza de “novinhas” com seus biquínis amarelos com o perigoso mundo das drogas, álcool, tráfico, sexo e armas.

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Escolhas de Steve Jobs

Por Wilame Prado

As escolhas estão aí em nossa curta vida, espalhadas pelo ar, impregnadas nas relações humanas. Dificilmente não haverá escolha. Sei lá, menos em uma doença fatal, em um acidente de trânsito (foi acidente mesmo ou imprudência?); mas aí as escolhas já partem para o plano metafísico, fica difícil de discorrer, restam apenas divagações.

O que estou querendo dizer é que podemos ser tudo nessa vida louca. Podemos ser um andarilho e se alimentar de mangas que caem de grandiosas mangueiras plantadas por passarinhos na beira da rodovia. Como podemos também ser o fundador da Apple e responsável por grandes descobertas e feitos relacionados à tecnologia e à criação de objetos que tendem a facilitar a vida das pessoas. Escolhe-se e, consequentemente, seleciona-se.

“Jobs” (cinebiografia dirigida por Joshua Michael Stern, com roteiro de Matt Whiteley), em cartaz no Cineflix Cinemas (Maringá Park Shopping), Circuito Cinemas (Shopping Cidade) e Multiplex (Catuaí Shopping), faz um recorte biográfico de Steve Jobs (com interpretação elogiada de Ashton Kutcher), o astuto cara da maçãzinha dos adorados iPod´s, iPhone´s e iMac´s da vida.

Filme recomendado até mesmo para aqueles que sentem ojeriza por questões envolvendo tecnologia. O filme não é sobre nerds não. É sim sobre um cara maníaco, perfeccionista, determinado, inteligente e disposto a fazer o melhor, a criar a roda do século 20. Enfim, um filme sobre quem escolheu ser o fundador da Apple e não o andarilho comedor de mangas (nada contra os livres, leves e soltos andarilhos; gosto muito de manga, por sinal).

“Jobs” parece livro de autoajuda assistido nos cinemas. Mas vale o ingresso. É interessante a história de como surgiu a Apple no final da década de 1970. É curioso ver revelado alguns dos milhões de trejeitos e manias do ímpar Jobs, que odiava calçar tênis e cheirava mal.

Ao sair da sala do cinema, o sentimento é de revolta por sermos tão burros. Todos somos burros perto de Jobs, que, além de ter sido eficaz no campo da informática, sabia também negociar como ninguém e tinha o poder da oratória para convencer que tudo o que fazia era buscando o Inalcançável, pelo menos o inalcançável aparentemente aos olhos humanos dos mortais.

Ao “escolher” a perfeição, Jobs abre mão de muita coisa. Aos olhos atentos na telona dos falsos moralistas de plantão, ele se revela um calhorda. Abre mão das pessoas próximas pelos seus ideais. Em um jogo de eterno retorno de rejeição, o filho adotivo Jobs não quer reconhecer a paternidade de Lisa, sua primeira filha. Ele bem que tenta, vez ou outra, dialogar com antigos amigos, mas, simplesmente, admite não ter tempo: suas “escolhas” não permitiram a perda de tempo com tamanhos “luxos”.

O engraçado em Jobs – pelo menos o Jobs pintado na tela do cinema (confesso não ter lido muito sobre o inventor e empresário) – são as ironias do destino. Ele queria aproximar as pessoas com a tecnologia e, sem entrar no mérito das pseudo relações humanas via Iphone, conseguiu tamanha proeza. No entanto, para isso, “escolheu” o seu necessário afastamento humano. Aceitou ser encarado como um vilão egocêntrico e desumano para deixar um enorme legado à humanidade.

Vítima jovem de um câncer no pâncreas, morreu aos 56 anos, em 2011, um dia após o lançamento do Iphone 4S. Deve ter ido em paz, após mais um feito dentro da sua maçã mágica. Mas não é possível que Steve Jobs, em algum momento em sua vida ligeira e intensa, não parou para pensar um pouco nas escolhas que fez, nos amigos que não teve, nas mulheres que não amou, nos funcionários que humilhou, enfim, nas “simples guinadas do destino”, como bem cantou Bob Dylan (músico preferido de Jobs) na bela canção “Simple Twist of Fate”.

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