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Cinuem retorna em grande estilo

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Por Wilame Prado

Maringá volta a ter mais uma opção que oferece cinema de qualidade longe dos circuitos comerciais das redes localizadas nos shoppings. O projeto Cinuem, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM, retomou as atividades após alguns meses sem oferecer sessões de cinema dentro do campus.

Com a Mostra Cinema Brasileiro Contemporâneo: Emergências da Política, iniciada há uma semana, o Cinuem volta a exibir filmes todas as quartas-feiras, pontualmente às 19 horas, na Sala 1 do Bloco A34, na UEM, sempre com entrada franca. O projeto é aberto a toda comunidade e não apenas a estudantes universitários.

O cartaz de hoje do Cinuem é o filme brasileiro “Orestes”, dirigido pelo mineiro Rodrigo Siqueira (“Terra deu, terra come”) e vencedor do Prêmio APCA como melhor documentário de 2015.

“Orestes” combina elementos documentais e ficcionais para jogar luz a dois problemas atuais da sociedade brasileira: a memória e a herança do regime militar de 1964 e a violência policial sentida principalmente pelos pobres e pelos negros. Quando do lançamento, ano passado, a crítica relacionou o filme aos ataques ocorridos em Osasco, na grande São Paulo.

Siqueira recorre à mitologia grega – mais precisamente às peças teatrais de Ésquilo – para criar analogias no documentário. Na tragédia grega, Orestes mata a mãe para vingar a morte do pai, o rei Agamemnon, e ganha um voto de minerva após decisão do júri formado por cidadãos atenienses.

No Brasil contemporâneo do diretor mineiro, Orestes é um personagem fictício que mata o pai – um torturador brasileiro anistiado em 1979 e assassino da mãe do seu filho – e que será submetido a um julgamento simulado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Entre os casos reais citados em “Orestes”, algumas vítimas da ditadura militar são entrevistadas, como Ñasaindy Barrett Araújo, filha da guerrilheira comunista Soledad Barrett Viedma que foi assassinada em 1973 após emboscada tramada por José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, ex-companheira de Soledad.

A crítica de cinema Eleonora de Lucena descreveu “Orestes” como um filme original e provocativo. “Mesclando documentário, psicodrama e encenação, o diretor mexe com a plateia: cria tensão, incômodo”, escreveu ela, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2015.

Retomada
A retomada do Cinuem sempre foi desejo da PEC da UEM, mas estava parado desde que a professora Fátima Neves havia se desligado do projeto, no ano passado. Com a chegada da professora Cristiane Lima à universidade, o Cinuem ganhou sobrevida.

Ela, que veio de Belo Horizonte (MG), chegou como professora colaboradora para lecionar no curso de Comunicação e Multimeios. Com mestrado e doutorado na área de Cinema, definiu com o setor cultural da UEM o retorno do projeto.

Cristiane diz pretender aproximar o Cinuem dos alunos do curso de Comunicação e Multimeios. “A ideia é que eu coordene um grupo de curadoria, composto por alunos e ex-alunos do curso, para definir a programação dos filmes no projeto e também colaborar durante os encontros com explanações acerca das obras apresentadas”, diz ela.

Outro desafio será conseguir os filmes para as exibições, já que, agora, a proposta do Cinuem é levar ao público filmes recentes e premiados. Para isso, Cristiane se utilizará de seus contatos, amigos e conhecidos da área.

“Nesta primeira mostra de filmes brasileiros, consegui autorização dos próprios diretores para conseguir o filme ou então baixá-los”, conta ela, que finaliza: “O Cinuem permite essa abertura da universidade para a comunidade externa, e a gente acha que, desta maneira, promovemos a cultura no âmbito da cidade de Maringá.”

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (25) no caderno Cultura, do Diário

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Sobre amor, ‘Love’ se perde no sexo

Cena de "Love" com os atores

Cena de “Love” com os atores Karl Glusman e Aomi Muyock

Por Wilame Prado

Mesmo presente no cotidiano da maioria das pessoas, o sexo ainda é tabu. O sexo no cinema também é tabu. Quando um diretor de renome resolve apostar num filme com cenas de sexos explícitos, e principalmente com nu frontal masculino, causa desconforto em muita gente que ainda não consegue encarar o sexo como tema intrínseco à vida dos seres humanos.

“Love”, em cartaz em Maringá, inova ao propor um drama – e não apenas mais um filme pornográfico, cujo principal objetivo é causar excitação em quem está assistindo – regado a sexo, sem pudores, sem cortes. Mais: em 3D, com riqueza de detalhes, em relações sexuais corriqueiras de um casal, oral, vaginal, e também nem tão corriqueiras, em ménage à trois, grupal etc.

Algumas redes de cinema boicotaram o filme do elogiado diretor franco-argentino Gaspar Noé. Aqui em Maringá, continua em exibição no horário nobre da família: 21h50, no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

O filme é um eterno flash back de Murphy (Karl Glusman), que fica relembrando os bons anos em que viveu ao lado da namorada Electra (Aomi Muyock) – uma jovem atraente e disposta para absolutamente todos os prazeres que sejam possíveis de se obter por meio de sexo.

Casado e com filho pequeno, ele não se perdoa por ter deixado se distanciar da ex. É feriado de Ano Novo e uma ligação da ex-sogra faz o jovem temer o pior: talvez Electra tenha se matado. É quando começam as recordações regadas a sexo da melhor qualidade. O pior mesmo, no final, é ter deixado escapar o grande amor da vida em mais um vacilo da carne: ao ter relação sexual com a vizinha de 16 anos (que outrora participara de uma ménage com o casal), a camisinha estoura e vem a criança.

“Love” é sobre o amor verdadeiro que nem sempre se faz muito nítido em meio aos fluidos do sexo levado às últimas consequências. É também sobre os limites do corpo e da mente. Como experiência fílmica, é válido. Mas aos saudosistas do agressivo “Irreversível”, filme de 2002 do mesmo diretor, fica a impressão de que Noé poderia ter caprichado um pouco mais no roteiro. Talvez o próprio tenha se ludribriado também com as intermitentes e belas cenas de sexo explícito.

*Comentário publicado terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Woody Allen mais racional do que nunca

Cena de "Homem Irracional", com a bela e talentosa Emma Stone e com o barrigudo Joaquin Phoenix

Cena de “Homem Irracional”, com o barrigudo Joaquin Phoenix e com a bela e talentosa Emma Stone

Por Wilame Prado

Após o desastroso “Magia ao Luar”, exibido ano passado por aqui, Woody Allen volta à velha e boa forma. “Homem Irracional”, em cartaz em Maringá, mostra um diretor atento aos mínimos detalhes em absolutamente todos os diálogos do filme, recheados com filosofia, especialmente com os princípios morais de Kant, a vertigem da liberdade de Kierkegaard e o existencialismo de Sartre e Heidegger. Tudo válido em uma construção narrativa que leva a um desfecho perfeito.

O longa é mais drama que comédia – assim como os melhores filmes do diretor – e, mais uma vez, é cercado pelo universo dostoiévskiano (o diretor é fascinado pelo escritor russo), especialmente ligado à máxima de Raskólnikov, de “Crime e Castigo”: para se destoar dos homens comuns, para haver algum sentido na vida, há que se fazer grandes feitos, até, de repente, quem sabe, cometer assassinatos, para um bem maior.

Abe Lucas (um Joaquin Phoenix propositalmente barrigudo e desgostoso com a vida) é um professor de filosofia famosinho que acaba de chegar a um novo campus para trabalhar, numa pequena cidade dos Estados Unidos. Sua chegada é cercada por boatos envolvendo principalmente o seu uso excessivo de álcool e os seus relacionamentos fugazes com mulheres – especialmente com professoras e alunas. Entre aulas entediantes, goladas generosas em seu cantil de uísque e flertes, um dia ele põe na cabeça que precisa matar um juiz que está sendo injusto com uma mãe humilde, prestes a perder a guarda dos filhos.

Allen tem acertado também nas escolhas de suas musas. Não é a primeira vez que ele aposta no charme e na imensa capacidade cênica de Emma Stone, mais linda do que nunca, em papel irretocável. Ela é a aluna Jill, que, fatalmente, apaixona-se pelo professor tristonho e boêmio de filosofia. Lucas também arranca suspiros de Rita (Parker Posey), uma professora casada que tenta ter um caso com ele. A veia cômica fica reservada a ela, que se debruça em busca de sexo com o professor e em planos indecorosos de fuga com ele para a Europa.

O diretor estadunidense faz um filme por ano e costuma ser lacônico em seus roteiros: o desfecho dos filmes são estreitados para o limite da vida, meio que matar ou morrer. É assim também em “Homem Irracional”, longa que nos faz lembrar que, mesmo com tanta teoria já eternizada nos livros, a filosofia ainda não é capaz de alcançar a irracionalidade que envolve as pessoas, as suas relações pessoais e os seus eternos esforços para sobreviver, para respirar.

*Comentário publicado nesta terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Que Mal Eu Fiz a Deus?’ é para rir

Elenco completo do francês "Que Mal Eu Fiz a Deus?"

Elenco completo do francês “Que Mal Eu Fiz a Deus?”

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Wilame Prado

Não tem sido fácil rir no cinema. A penúltima vez, ainda me lembro, foi no ano passado, no ácido e irônico argentino “Relatos Selvagens”, que concorreu – mas não levou, injustamente – ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. As últimas e raras risadas aconteceram no último sábado, quando finalmente assisti ao francês duplamente estreado em Maringá (a primeira, no Festival Varilux de Cinema Francês) “Que Mal Eu Fiz a Deus?”, ainda em cartaz no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

A proposta do roteiro era arriscada: fazer as quatro filhas de um casal tradicional francês se casarem com homens de diferentes nacionalidades e religiões; mais especificamente falando, elas – quatro verdadeiras beldades caucasianas – se casam com um judeu, um árabe, um chinês e, finalmente, um africano. Poderia ter resultado num filme extremamente de mau gosto, xenofóbico, racista ou machista. Mas não. Deu muito certo.

O longa, dirigido por Philippe de Chauveron, prova – especialmente aos cineastas e dramaturgos brasileiros – que é possível tratar com humor o preconceito eminente que há no Ocidente, sem que com isso seja preciso apelar para o insuportável argumento do politicamente correto.

Mesmo sendo recordista absoluto de bilheteria nos cinemas franceses – e conquistando também bom público aqui no Brasil -, a crítica especializada brasileira não tem visto com bons olhos “Que Mal Eu Fiz a Deus?”. Entre, por exemplo, no site Adoro Cinema e tire sua prova: nas críticas reunidas em uma das páginas mais acessadas de cinema do País, descobrimos apenas uma estrelinha dada pela Folha de S. Paulo e também uma estrelinha do jornal O Globo, além de críticas negativas publicadas em sites especializados. O motivo? Acabou o bom humor e muitos acusaram o divertido longa como previsível e preconceituoso.

Discordo. Eu e a sala inteira do cinema rimos do absurdo, dos extremos, das situações impossíveis, da velha e boa comédia no cinema. Luiz Carlos Merten (ufa), do Estadão, também discorda. Para ele, “…deu a louca nos críticos. Não sintonizaram com o humor incorreto de Chauveron. Mas nem na cena hilária da missa?”

*Comentário publicado nesta quarta-feira (19), no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Para jamais esquecer Juliane Moore

Juliane Moore, em "Para Sempre Alice": Oscar demorou mas chegou, para coroar grande atuação da carreira

Juliane Moore, em “Para Sempre Alice”: Oscar demorou mas chegou, para coroar grande atuação da carreira

Por Wilame Prado

Personagens acometidos por doenças dão trabalho em dobro para os atores. Mas, quando bem compostos, geralmente são reconhecidos e recompensados.

Além de Eddie Redmayne – premiado ao fazer o cientista Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo” – a bela Juliane Moore ganhou, pela primeira vez, o Oscar de Melhor Atriz pelo papel da linguista Alice Howland, no filme “Para Sempre Alice” (Richard Glatzer e Wash Westmoreland, 1h39min.), em cartaz em Maringá. O desafio foi interpretar uma mulher que passa a sofrer do Mal de Alzheimer precocemente, já aos 50 anos de idade. Pelo feito, foi reconhecida também no Globo de Ouro e na Bafta.

O peso da contradição é um dos pontos altos do filme. Logo a Dra. Howland, conhecida pela inteligência e perspicácia na pesquisa na área da linguística, vê-se surpreendida por repentinos golpes de esquecimentos, a começar de maneira mais corriqueira, em meio a uma palestra ou se perdendo pelas ruas de Manhattan, e se agravando quando esquece atos cotidianos que acabam de acontecer, como quando é apresentada à sua mais nova nora na cozinha e, já na mesa do jantar, demonstra nunca ter visto a moça. Até mesmo aquela receita predileta, até então muito bem guardada na memória da protagonista, deve ser revista na internet para, assim, evitar constrangimentos culinários.

Os conflitos familiares são fatalmente jogados em primeiro plano em “Para Sempre Alice”. Mãe de três filhos adultos e com um casamento aparentemente em ordem, Alice vira pivô de relações extremamente embaraçosas. No elenco, destaque também para o trabalho de Alec Baldwin como o Dr. John Howland, o marido de Alice; e também para a jovem Kristen Stewart, que vive Lydia Howland, filha caçula do casal e peça chave do longa-metragem já que representa a figura rebelde que acaba cedendo aos caprichos e desejos por conta de dilemas familiares.

No drama, a rotina familiar precisa ser revista. E no plano profissional, o que resta para a doutora é a aposentadoria precoce. As pessoas ao redor vivem situações delimitantes entre a vontade de ajudar, o desespero ao ver os rompantes de uma amnésia ingrata e gradualmente aumentada e a consequente lástima por ver um ser adulto brilhante e exemplar se tornar, aos poucos, uma simples criança dependente, esquecida, muitas vezes, até mesmo de que deve se lembrar de segurar a vontade de urinar.

Juliane Moore esperou tanto pela estatueta dourada – chegou perto em “Boogie Nights – Prazer sem Limites” (1998) e em “Fim de Caso” (2000) – mas fez valer a pena ao dar vida a um filme duro, tenso e que, como poucos, retrata a força que as pessoas acabam por encontrar somente na família. Ao vencer o Oscar, a atriz dedicou a estatueta aos portadores da doença degenerativa. Nada mais apropriado.

CARTAZ
PARA SEMPRE ALICE
Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Gênero: drama
Duração: 1h39min.
Classificação: 12 anos
Confira no Viva Maringá a programação dos filmes em cartaz na cidade

*Comentário publicado em 12 de março no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Fim do Projeto Um Outro Olhar: ‘Estou cansado’, desabafa Campagnolo

Campagnolo em cena: mesmo com os trabalhos nos palcos, revela poder voltar com projeto de cinema

Campagnolo: 2015 será teatral, mas ele revela poder voltar com projeto de cinema (Foto de Ademir Kimura)

Por Wilame Prado

Mesmo longuíssimo, o filme “Satantango” (exibido em Maringá em 2011 graças ao Projeto Um Outro Olhar), do húngaro Bela Tárr e que tem sete horas e meia de duração, tem um fim.

Uma das iniciativas envolvendo cinema mais marcantes de toda a história da cidade, o Projeto Um Outro Olhar, foi assim também: longo, mas com começo, meio e fim. No último dia 8 de novembro, quando o projeto completava 14 anos, no Sítio Kimura, o idealizador Paulo Campagnolo, 50, natural de Cascavel e radicado há alguns anos na Zona 7 de Maringá, abaladamente emocionado, comunicou o fim daquele que foi um dos programas mais “cabeças” que Maringá já viu nos últimos anos, por sábados a fio.

Ver a mais um cultuado filme na sessão noturna do projeto – que já percorreu por cinemas de shoppings e que, nos últimos anos, era exibido no Auditório Hélio Moreira – sempre sob curadoria de Campagnolo – amante da sétima arte, ator, diretor e escritor – era programa certo para um bom público. Após a exibição, que procurava ser pontual (poderia até ser filho do prefeito, mas, se chegasse atrasado, simplesmente não entrava), havia uma palestra do próprio coordenador do projeto, que, após optar por este ou aquele filme, munia-se de muito estudo acerca da obra e do autor, não sem antes ter assistido a uma infinidade de filmes para a sua escolha.

O cansaço pelo árduo trabalho com o projeto por anos ininterruptos, aliado a uma declarada decepção com o cinema contemporâneo, foram alguns dos principais motivos pelos quais Campagnolo, em quase uma semana de bate-papo via e-mail, declarou ter encerrado o Projeto Um Outro Olhar. No total, calcula ele, foram mais de 100 mil participantes, cerca de 1.200 filmes exibidos, centenas de resenhas publicadas neste caderno Cultura, algumas amizades alicerçadas e a honra de ter exibido verdadeiras preciosidades cinematográficas: “Cito dois filmes que me arrebentam emocionalmente: o clássico ‘Dois Destinos’, de 1962 (do italiano Valerio Zurlini), e o contemporâneo ‘Bom Dia, Noite’, de 2005 (também do italiano Marco Bellocchio).”

Na entrevista, a reportagem aproveitou para indagá-lo sobre os projetos que certamente consumirão a maior parte de seu tempo em 2015, quase todos relacionados à labuta teatral. E ao público que ficou órfão de cinema de qualidade com o fim do projeto, uma notícia boa e outra ruim. Primeiro, a boa: Campagnolo pode voltar com novos projetos de cinema; e agora a ruim: ele não divide por nada a sua invejável coleção de seletos quatro mil filmes devidamente guardados dentro de casa. Abaixo, a entrevista:

Após 14 anos, por que resolveu encerrar o projeto de cinema Um Outro Olhar?
PAULO CAMPAGNOLO – O Projeto Um Outro Olhar começou, no ano 2000, de uma forma muito inesperada para mim. Nem se tratava de um sonho, porque na verdade jamais sonhei com a possibilidade de que pudesse acontecer. Mas aconteceu, graças ao empenho do Gilmar Leal Santos (na época, um dos sócios dos cinemas do Shopping Aspen Park, que, depois, se transformou no Cinesystem e, enfim, no Cineflix hoje). E ele me pediu um projeto de exibição de filmes “alternativos” e a coisa toda aconteceu de uma maneira muito rápida e, devo dizer, profundamente transformadora para a minha vida. De repente, vi-me cercado de latas de película (portanto, verdadeiras, palpáveis, concretas) de filmes que fizeram parte da minha infância e adolescência e que, ainda por cima, fazem parte da história do cinema. Filmes como “Gritos e Sussurros”, do Bergman (o filme inaugural do Projeto, com uma sala lotada por mais de 200 pessoas que, é claro, jamais voltaram – com a exceção de algumas poucas); “O Leopardo” e “Rocco e Seus Irmãos”, do Visconti; “A Malvada”, do Joseph L. Mankiewicz; “Casablanca”, do Michael Curtiz; “Noites de Cabiria” e “Ensaio de Orquestra”, do Fellini; “O Morro dos Ventos Uivantes” (numa cópia péssima, mas que arrebatou todo mundo), no William Wyler; “Saló”, do Pasolini (que fez muita gente sair correndo da sessão), e tantos outros. E sem contar os filmes contemporâneos, distribuídos bravamente por pequenas empresas e que, aqui em Maringá, pouca gente viu, lamentavelmente. Quer dizer, era uma coisa de louco. E o louco era eu. Eu mal me aguentava nas pernas ao fazer os debates. Mal sabia do que estava falando. Achava mesmo que nem era preciso falar. Mas a proposta assim era. Então, os tempos mudaram. E quando penso nessas mudanças, a impressão que tenho é que foram tão violentas e abruptas que mal tive tempo de assimilá-las. E o cinema mudou tanto. Hoje creio ser possível contar nos dedos os cineastas que realmente realizam obras de relevância. Então o tempo foi passando e essa perspectiva nada agradável de que o cinema “incorporava” alguns desses sintomas tão precários da “experiência contemporânea” foi me dando nos nervos. E isso provocou um cansaço enorme porque, em alguns momentos (muitos, na verdade), eu acabava por assistir a uma penca de filmes (uns 40 ou 50, por vezes) para escolher apenas um para ser exibido. Esse trabalho foi ficando árduo principalmente porque com o tempo o Projeto foi assumindo um caráter muito político e ficava difícil, ou impossível, exibir qualquer coisa. E, depois, a vida, os outros projetos (teatro, literatura), acabaram por pedir mais a minha participação e, enfim… O cansaço. O Projeto acabou por tomar por demais o meu tempo. E como já não sou mais jovem, acabei por pedir “um tempo” nessa relação tão conturbada, tão difícil e, ao mesmo tempo, que me deu tantos momentos absolutamente loucos e maravilhosos.

Em todo esse tempo, tem ideia de quantas pessoas passaram por suas sessões? E o público mais fiel, aquele que você chegou a marcar rostos e nomes, era formado por quantos bravos?
Sempre fiz cálculos arredondando para menos. Porque o Projeto passou por fases bem complicadas. Mas, segundo esses cálculos, penso que mais de 100 mil pessoas frequentaram o Projeto. Quanto ao público fiel é muito difícil precisar o número. O Projeto sempre teve fluxos e muita gente frequentou durante muito tempo, depois sumiram e vieram outros. Porém, alguns muito loucos tiveram uma frequência mais regular. Alguns tornaram-se meus amigos em vida, muitos outros tornaram-se afetos conquistados e pelos quais tenho uma tremenda admiração e respeito.

Ainda sobre números, tem ideia de quantos filmes no total foram exibidos? Consegue imaginar a quantidade de horas dedicadas à apreciação e discussão fílmica?
No total, foram quase 1.200 filmes – alguns, hoje, eu nem exibiria. Não por serem ruins, mas trata-se desse caráter que o Projeto assumiu ao longo dos anos. Quanto ao tempo dedicado a isso tudo, é melhor que eu nem saiba mesmo. Muito tempo. Mas os debates, por mais que em muitos momentos eu quisesse “tomar conta”, sempre foram muito divertidos e muitas coisas alucinantes aconteceram nesses debates. Creio que daria um belo livro essa coisa dos “bastidores do Projeto”. Estou pensando nisso.

Qual o melhor e o pior filme exibidos durante o projeto, em seu ponto de vista?
Essa é uma pergunta muito complicada. Como você elege uma coisa como sendo a melhor ou a pior assim, de supetão? Como você compara filmes como “Aurora”, do Murnau, “O Ano Passado em Marienbad”, do Resnais, “A Marca da Maldade”, do Orson Welles, e mesmo um contemporâneo fabuloso como o gigantesco (7 horas e meia de duração) “Satantango”, do húngaro Bela Tárr, ou o “Berlin Alexanderplatz” (com mais de 15 horas), do Fassbinder, e o “Decálogo” (com quase dez horas) do Kieslówski? Talvez uma maneira de responder a essa pergunta seja apelando para questões como “honestidade”, importância histórica, relevância formal e tantas outras coisas. Em alguns momentos, é claro, tive de fazer certas concessões, mas não saberia dizer realmente qual foi o pior filme. Quanto ao melhor, tudo não passa de uma questão pessoal e muito emocional, penso. Então cito dois filmes que me arrebentam emocionalmente: o clássico “Dois Destinos”, de 1962 (do italiano Valerio Zurlini), e o contemporâneo “Bom Dia, Noite”, de 2005 (também do italiano Marco Bellocchio).

Nesse tempo, algo lhe aborreceu? Se arrepende de alguma coisa?
Todo aborrecimento acabou se transformando em mitologia. Aconteceram coisas muito estranhas. Pessoas que reagiram muito mal a alguns filmes e que, até mesmo, quiseram me bater. Acho isso tão engraçado hoje. Sobre arrependimentos, talvez se eu tivesse feito de outra forma… talvez se tivesse exibido tal e tal filme… talvez se não tivesse tanta insegurança. E assim vai. Mas, no fundo, é aquela velha história: você tem de tentar fazer o seu melhor.

Qual a lembrança mais bonita de algum acontecimento durante todos esses anos de projeto?
Tantas lembranças incríveis e que eu considero muito loucas. Por exemplo: quando eu fazia a programação e colocava alguns filmes eu pensava “porra, nesse aqui não vai ninguém!” E, então, acabava acontecendo justamente o contrário. Era uma coisa muito estranha e eu nunca entendi ao certo. Tenho as mais lindas emoções guardadas para certas exibições que eu julgava que não “funcionariam”. Eis que programo “O Atalante”, de Jean Vigo – um filme de 1934, uma maravilha para o qual as palavras talvez resultem em tremendas bobagens. E, naquela noite, não para de chegar gente. A sala ficou lotada e aquilo foi me dando uma coisa e eu queria perguntar pra cada uma daquelas pessoas (muitas eu jamais havia visto no Projeto): por que você veio ver este filme, justo este filme? E assim foi com a primeira exibição, também, do descomunal “A Palavra”, do Carl Dreyer. Talvez esse tenha me dado o maior dos arrepios que já senti na minha vida e quem conhece o filme vai me entender. Quando está chegando o final do filme e teremos, então, uma das cenas mais belas e emocionantes de toda a história do cinema, eu entrei na sala. E pude, assim, “sentir” a reação do público a essa tão milagrosa cena. Foi uma das coisas mais belas da minha vida. Aquele “ahhhh” em uníssono, na sala lotada. Senti um orgulho tão grande de pertencer a essa raça, a humana, capaz de tantos horrores, mas capaz de tantas coisas belas que podem mesmo nos dar uma dimensão do nosso lugar no mundo. Mas foram tantos momentos bonitos que minha vontade, agora, é curvar-me ao público para agradecer pelo mais elementar dos gestos: esse, de se fazer humano na sua inegável possibilidade de ser gentil, afetuoso, apto para o humanismo e a ética num mundo tão devastado pelo egoísmo.

Qual o legado deixado pelo Projeto Um Outro Olhar a Maringá?
Penso que, em primeiro lugar, foi uma oportunidade das pessoas darem uma “bisbilhotada” nas cinematografias chamadas “periféricas” e de assistirem alguns dos maiores clássicos do cinema. Alguns não sabiam exatamente o que estavam fazendo ali e jamais voltaram – esses eu tenho de considerar uns imbecis, lamentavelmente. Os outros, de alguma forma, foram “percebendo” coisas e, quando se deram conta, já estavam “entregues”, ou “debruçados” sobre este “novo” universo cinematográfico que se mostrava diante deles. Muita gente, com o tempo, chegou pra mim e disse: “Paulo, não consigo mais ver esses filmes comerciais que eu assistia antes”. E eu ficava apavorado, é claro. Pensava: “Cara, o que você está fazendo com essas pessoas?” Mas, depois, me tranquilizava: “não é você, são os filmes”.
Mas creio que quem deva falar mesmo sobre o legado do Projeto tenha de ser o público.

Mesmo com tantos projetos engatilhados ou sendo executados na área do teatro, o cinema continua sendo a grande paixão?
O cinema nunca foi uma paixão. O cinema é um AMOR imenso. É a minha primeira referência, na infância quando eu via na TV (vejam, eu tenho 50 anos) os filmes com a Greta Garbo, o Marlon Brando, a Bette Davis (eu adorava a Bette Davis), e o Hitchcock, o Sean Connery, o Errol Flynn (meu deus, que homem lindo! Eu pensava), o Clark Gable, os westerns, os melodramas do Douglas Sirk. Depois veio a literatura. Quando eu tinha 14 anos eu li “Crime e Castigo” e juro que pensei: que m… é essa? Tão louco eu fiquei. E no cinema fui pela primeira vez aos 6 anos de idade ver “Era Uma Vez no Oeste”, do Leone. Aquilo me deixou louco. Tinha um cinema na minha cidade que exibia, em matinée, os clássicos. Eu ficava encantado com aquilo, com os filmes em preto e branco, com a Ingrid Bergman e o Humphrey Bogart em “Casablanca”, o James Stewart e a Kim Novak em “Um Corpo Que Cai” – cheguei a ver “Lolita”, do Kubrick, e “Psicose”, do Hitchcock no cinema… quem poderia imaginar isso hoje? Então, é uma coisa sobre a qual nem posso falar direito. Claro que vi muita besteira. Eu vivia no cinema. Assistia tudo. Minha mãe achava estranho, mas mesmo assim eu insistia. Fiquei numa fila quilométrica para ver o “Guerra nas Estrelas”, do George Lucas, e “Tubarão”, do Spielberg, e “Lúcio Flávio”, do Babenco. E, quando a ditadura militar arrefeceu e pudemos ver, finalmente, os “filmes proibidos”, quase enlouqueci. Imagina ver, no cinema “O Último Tango em Paris”, do Bertolucci, “O Império dos Sentidos”, do Oshima, os filmes políticos do Costa-Gravas, o “Saló” do Pasolini, “O Porteiro da Noite” da Liliana Cavani, o maravilhoso “Iracema, Uma Transa Amazônica” do Jorge Bodanzky e Orlando Senna e “Laranja Mecânica” do Kubrick (com as infames bolinhas pretas nas genitálias dos atores, num primeiro momento), entre tantos outros. Que festa! Depois vieram os filmes de sexo explícito. E eu e algumas amigas do colégio de freiras onde estudávamos, pulávamos os muros e íamos nos “divertir”. Aquela “abertura” foi tão libertária. O cinema passava a ser “a liberdade”. Foi um momento lindo da minha vida. Um momento que só posso mesmo comparar com o Projeto Um Outro Olhar. Porque com o Projeto pude compartilhar dessa “experiência” tão devastadora e bela – a de ver filmes que nos colocam numa posição diante do mundo. E não há como fugir disso. É preciso estabelecer essa posição. Quem não faz isso eu só posso mesmo chamar de imbecil.

Almeja um dia participar de algum projeto na área do cinema, seja como ator, diretor ou roteirista?
Isso não passa pela minha cabeça. O cinema é uma coisa muito complicada, difícil.

O que gostaria de ver retratado nas cenas de um filme e que ainda não viu?
Se analisarmos bem, toda a condição humana já está presente em filmes extraordinários. Toda a percepção desse “estar no mundo” e de “pertencer” a este mundo já foi trabalhada de forma magistral por inúmeros cineastas.Tanto na forma quanto no conteúdo. Tenho, é claro, minhas predileções. Mas não desprezo o trabalho daqueles que, porventura, ainda tentam se aventurar nesse dilema. Quando penso em cineastas como o tailandês Apichatpong Weerasethakul (de “Mal dos Tropicos”, “Síndromes e Um Século” e “Tio Boonmee”), no húngaro Bela Tárr (de “Danação”, “Satantango”, “Werckmeister Hamóniák e “O Cavalo de Turim” – que encerrou sua carreira como diretor) e no português Pedro Costa (de “O Quarto de Vanda”, “Juventude em Marcha” e “Cavalo Dinheiro) – só para citar três -, então penso que eles trilharam um caminho tão prodigioso que faz com que eu pense: bem, nem tudo está perdido. Eu, seguramente, deixo a “bola” com eles.

Tem ideia de quantos filmes já assistiu em toda a sua vida?
Não tenho a menor ideia. Mas parece que foram muitos.

O que pode nos adiantar sobre os projetos para 2015, e aqui eu cito o possível Convite ao Cinema, ou então uma espécie de continuidade do Um Outro Olhar.
Creio que há uma possibilidade com o Convite ao Cinema, projeto da Secretaria de Cultura. Seria um projeto de cunho muito social, levando cinema para os bairros de Maringá. Mas nada ainda está “finalizado” quanto a isso. Sobre uma volta do Projeto Um Outro Olhar, creio que pode ser possível, mas num outro formato. Não tenho condições de pensar nisso agora. Ainda estou na ressaca do término do Projeto e isso é uma coisa que me dá muita tristeza.

Quais projetos no teatro serão executados em 2015?
Ah, os projetos… Toda vez que penso nos projetos logo em seguida me vem essa tenebrosa indagação: pra que tudo isso? Mas, enfim, deve ser, talvez, um desejo de falar sobre as coisas, as pessoas, essas inerências apavorantes que dizem respeito a todos nós. Tenho encontrado no teatro uma via de acesso a esses desconfortos, às dificuldades, ao que mais me aflige. Então eu tento. É um processo deveras difícil, principalmente quando você não pode depender disso para “movimentar” a sua vida. Porém, devo dizer, que tudo no qual me empenho em relação ao teatro vem de uma vontade de transformar em “prática”, em concretude de corpos e vozes, a “literatura” dos meus textos. E quando coloco a palavra literatura entre aspas é porque ainda não tenho certeza de nada… se aquele amontoado de palavras (das quais eu gosto, de uma forma geral – chego a ficar espantado com algumas coisas e penso: “porra, eu escrevi isso?”) significam algo que deva mesmo ser nomeado como literatura. Talvez, ainda, porque não tenho certeza de que as pessoas chegam mesmo a apreender, da maneira como “eu penso que deve ser apreendido” (que fique bem claro isso) tudo o que quero dizer. Bem, mas falávamos sobre os projetos.
Há uma coisa linda acontecendo comigo lá em Mandaguari, no trabalho de teatro que desenvolvo na Comunidade Social Cristã Beneficente. Num mundo de absurdo cinismo, lá encontro, com quatro garotas adolescentes, um “lugar” que eu julgava perdido, um “lugar” onde o afeto tem um papel predominante e, mais ainda, um “lugar” onde eu aprendo – porque essa convivência com as meninas (a Bruna, a Andressa, a Vanessa Lara e a Vanessa Carolina) faz eu me sentir melhor como pessoa, como artista. E elas, num despojamento assombroso, devolvem a emoção que sinto ao estar com elas com sagacidade, vontade e muito talento. Em 2015 vamos apresentar o “Barricada”, texto que eu já montei anteriormente e, ainda, um trabalho novo com as quatro e que deverá ter um humor negro daqueles que sempre pensei com adolescentes. Uma mistura de Godard com “South Park”. Creio que pode ficar bem politicamente incorreto.
Com o Teatro de Câmera, vamos montar “Puta!”, um trabalho que eu penso ser de ruptura do grupo e que terá Jucélia Cadamuro, Joaquim dos Santos, Fabrício Machado, Elizabety Barbosa, Mariana Scalassara e Amanda Podanoscki no elenco.
Em Campo Mourão estou dirigindo outro trabalho, “Desaparecimentos”, que é um texto meu com um grupo de lá. Estamos começando, mas a ideia é apresentar no segundo semestre de 2015. Um trabalho, no mais, bem difícil e que trata de um questionamento sobre o próprio ato de encenar, de fazer teatro, e do papel do ator.
Também quero montar um trabalho baseado na breve vida do tcheco Jan Palach que, em 1969, contra a invasão dos soviéticos na antiga Tchecoslováquia, se auto imolou em praça pública, em Praga, aos 20 anos de idade. A peça fará parte de uma trilogia sobre personagens históricos do Leste Europeu em tempos de autoritarismo político. Outro trabalho será sobre o ator polonês Zbigniew Cybulski (que fez o clássico “Cinzas e Diamantes”, do Andrzej Wajda, e era considerado o James Dean da Polônia). Nesse trabalho vou dirigir Donizeti Mazonas que este ano fez muito sucesso em São Paulo com a peça “Osmo”, baseado em Hilda Hilst. Mas não sei se conseguiremos finalizar para o próximo ano. Vamos começar, ao menos.
Portanto, muito trabalho pela frente e muita chicotada nos atores – essa é a parte que eu mais gosto.

Por que lutou tanto tempo pela vida do projeto Um Outro Olhar? Chegou a ganhar dinheiro, fama, amigos, amores ou, pelo menos, uma coleção de filmes (quantos? É um acervo físico? Virtual?)
Agora, pensando com tanto distanciamento sobre o Projeto, imagino que a “luta” tenha sido apenas porque eu achava bonito isso de compartilhar um gosto adquirido. E tinha um público e as coisas foram acontecendo. Esse “dar-se conta” de como tudo ocorreu é estranho e, ao mesmo tempo, tremendamente delicado. Eu nunca parei pra pensar que “se eu fizer assim“ ou “se eu fizer assado” isso poderia ser mais “interessante”. As coisas simplesmente aconteceram. Nunca ganhei dinheiro (ao menos nada que pudesse “solucionar” algumas questões elementares da vida cotidiana. E com isso não estou desprezando, é claro, dois patrocinadores corajosos que ajudaram o Projeto nos últimos anos), nunca foi meu foco – aliás, sou péssimo nisso de ganhar dinheiro.
Sobre a fama, creio que aconteceu alguma coisa. Algo que me faz rir hoje em dia porque isso é uma tremenda bobagem.
Amigos foram muitos e continuam sendo. Isso é o tipo de coisa que a gente costuma chamar de “impagável”.
Amores, nenhum… infelizmente. Porque no fundo o Projeto, como eu já disse publicamente, sempre foi uma tentativa de “arranjar” um namorado. Mas isso nunca deu certo. Acho que os rapazes tinham medo de mim.
Já a coleção de filmes (físicos, todos eles) bem razoável. Creio que uns 4 mil.
Sem contar os que já joguei fora – nossa, quantas bobagens são feitas!

Qual é a sua cidade natal e qual o bairro onde mora em Maringá? A idade já revelou, né? 50 anos bem vividos!
Eu nasci em Cascavel, mas saí de lá aos 20 anos e perambulei por aí. Moro, aqui em Maringá, na Zona 7, perto do Teatro Barracão. Lamentavelmente, 50 anos. Isso porque sou absolutamente incompetente no quesito suicídio. Tentei três vezes. Depois, tive que me conformar. Mas como muitos casos famosos, creio que ainda é uma possibilidade. Nunca esqueço a emoção que senti quando o diretor italiano Mario Monicelli (de filmes como “A Grande Guerra” e “Os Companheiros”) se atirou do quarto andar do hospital onde estava internado para tratar de um câncer na próstata. E isso aos 95 anos de idade. Pra mim, foi uma grande demonstração de que ele tinha direito à liberdade. Parece-me, na verdade, um tremendo gesto político, se pensarmos que a única maneira, hoje, de encararmos essa palavra é como um gesto absolutamente político. O meu corpo é político. A minha vida é política. O que eu faço dele, do corpo, e dela, da vida, é de interesse meu e apenas meu. Eu, inevitavelmente, sou um ser político. Como diria o Kirilov, em “Os Demônios”, do Dostoiévski: “suicidar-se é dar provas da própria liberdade”. Há quem não concorde, e eu sou muito compreensivo quanto a isso, na medida em que cada um cuida do que é seu e faz de sua vida o que bem entender. Adoro o Maiakóvski quando ele diz: “Para o júbilo, o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro. Nesta vida, morrer não é difícil. Difícil é a vida e seu ofício”.

Como era a sua relação com as distribuidoras de filmes e como você encarou a mudança radical do 35mm (película) para o digital?
Quando o Projeto começou, as coisas eram bem complicadas. Por mais que as distribuidoras de filmes de arte soubessem que seu produto não iria vender como um blockbuster, queriam um retorno razoável. E nem sempre isso foi possível, devido ao público inicial bastante escasso. Depois, com o tempo – e tanta vontade de desistir – as coisas foram mudando e a relação basicamente se inverteu: era a própria distribuidora que pedia para que exibíssemos seus filmes. Chegamos a deixar em cartaz o “Nossa Música”, do Godard, durante quatro semanas – mais tempo do que em São Paulo. E chegamos mesmo a exibir a cópia restaurada do “Passion”, também do meu querido Godard, antes mesmo de São Paulo. Foram muitas coisas lindas que aconteceram e das quais tenho muita saudade.
A mudança para o digital foi uma coisa triste, para mim. Como eu disse, a emoção de receber aquelas latas de filmes era inigualável. Quando chegaram as dez latas (três horas de duração) do “Rocco e Seus Irmãos”, do Visconti, eu juro: beijei todas as latas. Apalpei a película. Queria sequestrar o filme. Foi quase um orgasmo.

Na entrevista também comentou o lado divertido dos debates, mas já ouvimos casos de pessoas que se sentiram constrangidas durante as discussões pelo fato de ter demonstrado autoritarismo quanto aos seus pontos de vista. Isso tudo fazia parte de uma cena, do jogo, ou realmente, como também afirmou na entrevista, teve gente que quis acertar as contas no braço?
Essa questão do autoritarismo, eu penso agora, sempre foi uma defesa. Era o meu jeito de me defender de algumas coisas, de algumas pessoas, de algumas colocações que eu, por vezes, pensava serem ingênuas demais, tolas demais e, ainda, imbecis demais. E era, ainda, uma maneira de me defender daquilo que eu ainda não compreendia, das coisas que eu ainda não detinha (e, talvez, ainda não detenho). Mas é a velha história: o Projeto era eu, ficava difícil fugir de alguns “princípios”, digamos assim, adquiridos com o tempo. De qualquer forma, jamais disse que eu era o dono da verdade. Aqueles que se sentiram vilipendiados pelo meu autoritarismo, na verdade, talvez, não tiveram culhões para encarar de forma mais ostensiva a minha argumentação. Inclusive, uma dessas pessoas, algum tempo depois de um “arranco rabo”, num debate, chegou a vir a óbito. E eu pensei: “tá vendo Paulo, pra que tanto estresse?” Achei engraçado. O meu pensamento, não a morte do cara, por favor! A morte é uma coisa natural, não é mesmo? Considero a morte uma beleza. A última beleza. Calma (caro leitor), cuidado para não simplificar as coisas.
E depois, se pensarmos bem, tudo é cena, tudo é jogo de controle – não há como escapar disso. Contudo, teve gente que, julgando que eu era “culpado” por aquilo que (ele) havia acabado de assistir, chegou mesmo a dar de dedo na minha cara dizendo coisas do tipo: “você não tinha o direito de fazer isso”. Ora, se isso não é engraçado, então eu devo mesmo ser louco. Eu acho muito divertido quando lembro de certas coisas, de certas cenas bizarras – como, por exemplo, pessoas chegando até a bilheteria do cinema e apontando para um cartaz de um filme do Projeto e perguntando: “aquele filme é pra pensar?” Ou então o cara que entrou nada sala exatamente no momento de uma cena de sexo oral explícita, entre dois homens, no polêmico “O Fantasma” (2001), do português João Pedro Rodrigues. Foi muito engraçado, porque eu estava assistindo também ao filme, junto com o público. E ele se sentou na mesma fileira de poltronas que eu, só que do lado oposto. E ele começou a se masturbar, tranquilamente, como se estivesse na sua própria casa. E dava pra ouvir o barulho do cinto dele. Quando terminou a cena, ele se levantou, fechou o zíper da calça e o cinto e foi embora. Eis o mundo, eis o ser humano. Como diria o Melville, no “Bartleby”: “Oh, humanidade!”

Já pensou em disponibilizar essa sua coleção (4 mil títulos!) para o público de alguma maneira? Fazendo empréstimos remunerados, de repente…Assim como já existe em sebos de SP, você poderia ser uma espécie de locador-guia, sugerindo os filmes certos para cada um…
Acho que teria de abrir uma empresa. Acho que daria muito trabalho. Acho que teria de dizer não para muitas pessoas com as quais não tenho a menor afinidade. Acho que acabariam estragando os filmes. Acho que as pessoas são muito mal-educadas e não cuidam direito das coisas dos outros. Acho que não quero não. Acho até que vou vender os meus filmes e me tornar mendigo. Eu e meus três cachorros, que eu amo mais do que tudo neste mundo. Mais até, inclusive, que o cinema. E viveríamos até o dinheiro acabar. Depois, a escuridão e o silêncio da floresta. “E ir ser selvagem entre árvores e esquecimentos”. Sempre amei isso do Pessoa. Ou, então: “Vivi, amei, estudei e até cri. E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”. O Pessoa ainda é o cara.

*Parte desta entrevista foi publicada nesta terça-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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A urgência do cinema em Cornélio

Carol Santos e Edson Godinho, que organizam o CineUrge, em Cornélio Procópio

Carol Santos e Edson Godinho, que organizam o CineUrge, em Cornélio Procópio

Por Wilame Prado

O produto cinematográfico mais importante de Cornélio Procópio (48 mil habitantes e a 160km de Maringá) muito provavelmente tem apenas sete minutos e trinta e sete segundos de duração. Trata-se do curta “Morre um nome”, produzido em três finais de semana de 2007 na cidade, durante uma oficina de cinema promovida pela produtora londrinense Kinoarte .

Selecionado para o 18º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, “Morre um nome” (direção de Rodrigo Grota) é um recorte da passagem do músico norte-americano de jazz Booker Pittman (1909-1969) por Cornélio Procópio nos anos 1950, uma espécie de documentário de ficção com relatos de pioneiros e cenas de um ator interpretando Pittman com seus dilemas envolvendo o alcoolismo. Dá para ver no YouTube: http://zip.net/bpp8SB.

Para as pessoas envolvidas com a arte e o cinema em Cornélio, o tempo urge, principalmente quando o assunto é produção de cinema e de plateia na cidade. Então, basearam-se nessa urgência, pegaram o curta “Morre um nome” para servir como exibição de honra e fecharam a programação do CineUrge – 1º Festival de Cinema de Cornélio Procópio, que começa hoje e vai até domingo, sempre com entrada franca.

As atividades são variadas, e, a considerar a falta de grandes patrocinadores e o tamanho da cidade, o CineUrge deverá ser algo nunca antes visto por lá. Dentre as atividades (exibição de filmes, palestras, oficinas etc.), destaca-se a mostra de curta-metragens do festival, que contará com 24 filmes selecionados de um total de mais 100 obras audiovisuais inscritas e enviadas de 17 Estados brasileiros.

Entre os selecionados na mostra, temos o curta de ficção catarinense “Meio dia com ela”, de João Ramos, que narra a história de Bernardo, rapaz solitário que encontra a mulher de seus sonhos dentro de um sebo; o documentário brasiliense “Andarilha”, de Gustavo Freitas, que trata sobre a mobilidade urbana sob o olhar de duas drag queens; e ainda o experimental paranaense “Mauro Montezuma: Vida e Obra”, que apresenta um dia na companhia do tatuador peculiar em Londrina; e muitos outros.

“Há uma convergência de linguagens hoje em dia, um cinema dinâmico, criativo. Muitas pessoas fazendo trabalhos autorais de qualidade, sem precisar se aliar a grandes produtoras. Realmente, essas pessoas querem fazer cinema, pois elas estão rodando em festivais do País inteiro, inclusive em festivais pequenos como o nosso”, diz Carol Santos, jornalista e produtora do CineUrge.

Estímulo
Numa cidade onde não há salas de cinema, apenas duas videolocadoras e gente tendo de se virar na internet para encontrar bons filmes para assistir, na opinião de Edson Godinho, diretor do CineUrge, o festival nasce com ares empreendedores ao tentar dar o pontapé inicial para uma produção cinematográfica local.

“A denominação do festival remete à urgência de cinema em nossa cidade. O festival representa um incentivo para que a produção audiovisual seja incentivada, e que aconteça, de fato, a partir dessa primeira edição”, diz o diretor.

Para Guilherme Peraro, diretor e produtor de cinema da Kinopus Audiovisual , festivais como o que começa hoje em Cornéliosão, muitas vezes, os principais divulgadores de outros formatos cinematográficos. Durante o festival, ele falará justamente sobre a importância de festivais de cinema e ainda sobre o mercado brasileiro de cinema.

“O festival acaba tendo a responsabilidade de levar ao público o que se produz atualmente no cinema, em especial o brasileiro. E também pode ser o primeiro contato do público destas cidades com formatos diferentes, como o curta e o média-metragem. Outro fato importante é que um festival de cinema estimula a produção local de cinema e TV. Portanto, pode ser o início de uma produção mais consistente em Cornélio Procópio”, diz Peraro.

INFORMAÇÕES
CINEURGE –
1º FESTIVAL DE CINEMA
DE CORNÉLIO PROCÓPIO
Quando: de hoje a domingo

Informações, pelo site: www.cineurge.com

*Reportagem publicada nesta terça-feira (11) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Riocorrente’: SP (ou o mundo) em chamas

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de "Riocorrente": niilista e provocador

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de “Riocorrente”: niilista e provocador

Por Wilame Prado

São Paulo (SP), século 21. Um rio enegrecido segue lentamente o seu caminho. A imensidão traduzida em vidro, concreto e metal. Asfaltos quilométricos parecem levar para além do horizonte. Madrugada quieta. Um garoto negro avaria um veículo luxuoso estacionado na rua. Uma jam session rola solta em uma casa noturna quase vazia. Som maravilhoso. Homens solitários, devidamente armados com suas long necks em mãos, apenas escutam. Um desses sujeitos – com cara de mal –, entoja-se facilmente e sai acelerando a sua potente motocicleta pelas ruas paulistanas, até finalmente recolher o moleque solitário e descalço que, há pouco, riscara a lataria do carro preto estacionado.

É assim, como um conto bem escrito, que começa o filme “Riocorrente”. Em apenas uma hora e dezenove minutos, Paulo Sacramento, que dirigiu e escreveu o longa-metragem, traçou um retrato fidedigno da maior cidade brasileira com uma competente fotografia e tendo como enredo os encontros e desencontros de um triângulo amoroso encenado pelos atores Lee Taylor, Simone Iliescu e Roberto Audio, todos desconhecidos do cinema, porém elogiados nos palcos do teatro. Personagens todos – cada qual a seu modo – asfixiados na metrópole.

Exu (Vinicius dos Anjos) é só mais um (como tantos outros) menino órfão de São Paulo. Ele chama Carlos (Lee Taylor) de pai. Carlos, no entanto, é um típico paulistano fulo da vida, descontente com o que vê pelas ruas da cidade grande, completamente embrutecido e autocrítico com as alternativas que encontrou para ganhar dinheiro – roubando carros para o desmanche, por exemplo. Em cima da sua moto, a câmera vai seguindo o olhar dele pelas ruas de São Paulo, tal qual um Travis Bickle (Robert de Niro) com seu táxi amarelo em Nova York, em “Taxi Driver” (Martin Scorsese).

Carlos apenas segue vivendo – ou seguindo o seu caminho, como um rio corrente –, mas percebe uma chama se aquecer em seu pensamento após Renata (Simone Iliescu) – com quem tem um caso amoroso – ler para ele um trecho de um livro. A ideia de que tudo está errado, e que apenas as pessoas é quem pode fazer algo para mudar o mundo, gruda na cabeça do motociclista até o desfecho do conto urbano cinematográfico. O pensamento humano, filosofa os personagens com livro em mão ou após uma sessão de cinema, é como uma bomba atômica, que se expande somente depois de explodir.

Do outro lado da cidade, Marcelo (Roberto Audio) é a representação do cabeça pensante, figura fácil paulistana. Entendido de artes plásticas, ele é colunista de um famoso jornal impresso que tem circulação nacional, guia turístico em cemitérios paulistanos – onde palestra sobre arquitetura e arte – e, como também grande parte dos chamados “entendidos” de alguma coisa, extremamente pacífico, sujeito que vive no mundo das abstrações, teorias, livro e jornais. Marcelo também tem um caso com Renata.

Renata é o personagem que representa a figura feminina nos tempos de hoje. Cada vez mais resolvida com seus desejos sexuais, independente financeiramente e culta. Mulher que, entendendo os anseios de se envolver com homens extremados – Marcelo é calmaria, Carlos é explosão – não se intimida em, por exemplo, após dormir na casa de um, acordar e ir diretamente para a casa do outro, em busca de sexo. Mas, assim como seus dois homens, ela também padece de incertezas, também sofre a pressão da cidade grande, a pressão da vida contemporânea e suas fugacidades, e chora copiosamente numa das cenas mais belas do filme, na plateia de um concerto intimista de Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, cantando desafinada e lindamente atrás de um piano de caldas.

“Riocorrente” demonstra a maturidade de Paulo Sacramento, que foi elogiado com o documentário “Prisioneiro da Grade de Ferro” e que coleciona trabalhos como montador em filmes importantes, a exemplo de “Quanto Vale ou é Por Quilo” e “Amarelo Manga”. Não à toa, “Riocorrente” foi selecionado para o Festival de Rotterdam (Holanda), venceu o Prêmio Abbracine na Mostra Internacional de São Paulo e ainda nas categorias Melhor Fotografia e Melhor Montagem no Festival de Brasília.

Em seu último longa, Sacramento mistura drama e suspense e tem capacidade de criar situações em que a cena não se esgota por ela apenas, autorizando o espectador a pensar sobre ou completá-la. É o caso de cenas memoráveis, como a da ninhada de ratos que destrói pilhas e mais pilhas de jornais impressos dispostos em um galpão; o flagra da briga do casal com a câmera se aproximando devagar até enquadrar a tela exatamente na janela do apartamento; ou ainda quando Exu se encanta, mas não se espanta, com o leão dentro de uma jaula, chega pertinho e, com toda a calma do mundo, tira da boca um dente que estava mole.

O filme “Riocorrente”, extremamente crítico, perturbador, niilista, estimula o choque, o atrito, é mais Carlos (inconsequente e prático) e menos Marcelo (consciente e estagnado), trata da loucura que é São Paulo, que é o mundo, e faz um alerta: a bomba pode explodir a qualquer momento. Homens incendiários podem finalmente entender que, assim como a frase do ativista Zack de la Rocha e incorporada em voz over no filme, “Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Que lugar melhor que esse? Que momento melhor que agora?” No longa, a hora para agir é sim agora. E a destruição pode ser disseminada com a velocidade da correnteza de um rio sujo, ou no simples pedido feito por um menino após jogar seu dente que acabou de cair.

EM CARTAZ
SEMANA TUPINIQUIM
Assista “Riocorrente”
no Cineflix Cinemas,
no Maringá Park Shopping,
domingo (28) às 14 horas,
segunda-feira (29) às 21h40
e terça-feira (30) às 16h30

Trailer:

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Woody Allen é o mesmo de sempre em ‘Magia ao Luar’

Colin Firth e Emma Stone em cena de "Magia ao Luar": ceticismo colocado à prova

Colin Firth e Emma Stone em cena de “Magia ao Luar”: ceticismo colocado à prova

Por Wilame Prado

Woody Allen continua o mesmo em “Magia ao Luar”, filme em cartaz em Maringá: focado nos imensos diálogos entre personagens inteligentes e sarcásticos, atento na criação de cenários e figurinos fidedignos a uma época cuja trilha sonora é o jazz e extremamente conciso em sua sequência fílmica que, via de regra, costuma ter a duração de uma hora e meia.

A comédia romântica, como em quase todas as comédias de Allen, é para poucas risadas, nesse caso dedicadas ao azedume de Stanley, mágico que se veste de chinês e desmascarador de charlatões bem interpretado por Colin Firth – vencedor do Oscar em “O Discurso do Rei”. Ele divide a maior parte das cenas na Riviera Francesa dos anos 1920 com Sophie (Emma Stone), jovem norte-americana que se passa por médium na propriedade de uma família milionária inglesa.

No filme estão em jogo as questões entre razão e emoção, ciência e religião, real e metafísico. Para isso, Allen tem o suporte narrativo da história do mágico cético e da bela garota que se diz medium. A história de amor (como de praxe no universo de Allen, entre uma garota mais nova com um homem mais velho) é pouco ou quase nada explorada. O humor fica mesmo na sinceridade crua e amarga de Stanley no trato com as pessoas e no seu declarado amor-próprio, e também nas cenas pitorescas do jovem apaixonado Brice (Hamish Linklater), em sofríveis serenatas dedicadas a Sophie com seu ukelele desafinado em mãos.

Por fim, tem-se uma sugestão suavizada, leve e delicada para se pensar no dualismo entre crença e ceticismo. “Magia ao Luar” não encanta, não enche os olhos, mas é bem articulado por Allen, que não sai de sua própria cartilha. Sem ousar em nada, parece estar ciente de que alcançou a fórmula certa para um filme que não comprometerá o seu posto de diretor cultuado. Até a cena que pudesse ser pensada como a principal do filme – a dos dois protagonistas vendo a lua num planetário – é ligeira e preguiçosamente escasseada de qualquer aprofundamento.

Também, como em quase todos os longas em que resolve não dar para si o papel principal, é impossível não imaginar em Stanley o próprio diretor, em suas típicas rabugices e questionamentos filosóficos. Culpa da direção e não do ator Colin Firth, que parece ter se esforçado para que “Magia ao Luar” não ficasse chato.

CARTAZ
MAGIA AO LUAR
Direção: Woody Allen
Duração: 1h38min.
Classificação: 12 anos

*Comentário publicado nesta terça-feira (23) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Lucy’ é ação viajandona, mas tem lá os seus valores

Scarlett Johansson é Lucy em ficção científica/ação que continua em cartaz nos cinemas

Scarlett Johansson é Lucy em ficção científica/ação que continua em cartaz nos cinemas

Por Wilame Prado

“Lucy”, filme de Luc Besson e estrelado por Scarlett Johansson ainda em cartaz em alguns cinemas da cidade, é uma ação bem diferente das demais. Une ficção científica, o charme da loira mais requisitada em Hollywood e algumas reflexões acerca da imensa capacidade que um cérebro humano pode ter.

Nas devidas proporções e desconsiderando os exageros de impossibilidades humanas inaceitáveis até para uma ficção científica, o filme é envolvente do início ao fim.

Após cair numa armadilha, Lucy (Scarlett Johansson) se vê obrigada a transportar drogas pesadas dentro do estômago. Envolvida com uma espécie de máfia coreana das mais sanguinolentas, acaba sendo espancada. Os chutes que leva de um coreano no estômago acabam estourando os pacotes da droga, que propicia em Lucy poderes sobre-humanos, desde telecinesia e ausência de dor, até a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente.

Ao lado do professor Norman (Morgan Freeman), Lucy acompanha o seu martírio de ter que fugir da máfia – que perderá milhões sem as drogas – e de ver a sua capacidade cerebral vertiginosamente aumentar para os 100%, fato acompanhado por uma infinidade de efeitos colaterais mortíferos.

“Lucy” homenageia o ser humano e ressalta uma importante mensagem: a de que podemos sempre mais e mais. No entanto, joga na mesa também uma analogia sutil e perigosa: dependendo da quantidade ingerida, substâncias químicas ilícitas poderão agir em prol da inteligência humana.

*Comentário publicado na sexta-feira (19) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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