Cinuem



Cinuem retorna em grande estilo

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Orestes mata pai torturador da ditadura e assassino da própria mãe

Por Wilame Prado

Maringá volta a ter mais uma opção que oferece cinema de qualidade longe dos circuitos comerciais das redes localizadas nos shoppings. O projeto Cinuem, da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PEC) da UEM, retomou as atividades após alguns meses sem oferecer sessões de cinema dentro do campus.

Com a Mostra Cinema Brasileiro Contemporâneo: Emergências da Política, iniciada há uma semana, o Cinuem volta a exibir filmes todas as quartas-feiras, pontualmente às 19 horas, na Sala 1 do Bloco A34, na UEM, sempre com entrada franca. O projeto é aberto a toda comunidade e não apenas a estudantes universitários.

O cartaz de hoje do Cinuem é o filme brasileiro “Orestes”, dirigido pelo mineiro Rodrigo Siqueira (“Terra deu, terra come”) e vencedor do Prêmio APCA como melhor documentário de 2015.

“Orestes” combina elementos documentais e ficcionais para jogar luz a dois problemas atuais da sociedade brasileira: a memória e a herança do regime militar de 1964 e a violência policial sentida principalmente pelos pobres e pelos negros. Quando do lançamento, ano passado, a crítica relacionou o filme aos ataques ocorridos em Osasco, na grande São Paulo.

Siqueira recorre à mitologia grega – mais precisamente às peças teatrais de Ésquilo – para criar analogias no documentário. Na tragédia grega, Orestes mata a mãe para vingar a morte do pai, o rei Agamemnon, e ganha um voto de minerva após decisão do júri formado por cidadãos atenienses.

No Brasil contemporâneo do diretor mineiro, Orestes é um personagem fictício que mata o pai – um torturador brasileiro anistiado em 1979 e assassino da mãe do seu filho – e que será submetido a um julgamento simulado dentro da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Entre os casos reais citados em “Orestes”, algumas vítimas da ditadura militar são entrevistadas, como Ñasaindy Barrett Araújo, filha da guerrilheira comunista Soledad Barrett Viedma que foi assassinada em 1973 após emboscada tramada por José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, ex-companheira de Soledad.

A crítica de cinema Eleonora de Lucena descreveu “Orestes” como um filme original e provocativo. “Mesclando documentário, psicodrama e encenação, o diretor mexe com a plateia: cria tensão, incômodo”, escreveu ela, em artigo publicado na Folha de S. Paulo em 29 de setembro de 2015.

Retomada
A retomada do Cinuem sempre foi desejo da PEC da UEM, mas estava parado desde que a professora Fátima Neves havia se desligado do projeto, no ano passado. Com a chegada da professora Cristiane Lima à universidade, o Cinuem ganhou sobrevida.

Ela, que veio de Belo Horizonte (MG), chegou como professora colaboradora para lecionar no curso de Comunicação e Multimeios. Com mestrado e doutorado na área de Cinema, definiu com o setor cultural da UEM o retorno do projeto.

Cristiane diz pretender aproximar o Cinuem dos alunos do curso de Comunicação e Multimeios. “A ideia é que eu coordene um grupo de curadoria, composto por alunos e ex-alunos do curso, para definir a programação dos filmes no projeto e também colaborar durante os encontros com explanações acerca das obras apresentadas”, diz ela.

Outro desafio será conseguir os filmes para as exibições, já que, agora, a proposta do Cinuem é levar ao público filmes recentes e premiados. Para isso, Cristiane se utilizará de seus contatos, amigos e conhecidos da área.

“Nesta primeira mostra de filmes brasileiros, consegui autorização dos próprios diretores para conseguir o filme ou então baixá-los”, conta ela, que finaliza: “O Cinuem permite essa abertura da universidade para a comunidade externa, e a gente acha que, desta maneira, promovemos a cultura no âmbito da cidade de Maringá.”

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (25) no caderno Cultura, do Diário

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Extremismo e jeitinho**

Contra sua vontade, Matsumoto é escolhido para casar com a filha do chefe da empresa onde trabalha. Ele já tem namorada, mas os pais o pressionam para que siga o caminho do sucesso, casando com a boneca de luxo, filha de um homem rico. Sendo assim, Sawako, a ex-namorada, tenta se matar, mas consegue apenas, com overdose de remédios, perder a memória. Com peso eterno na consciência, o rapaz abandona o casamento manjado e vai até o hospital buscar a antiga amada, que agora mais parece vegetar no mundo.

Os dois viram mendigos. Ela não se lembra de nada e se torna uma pessoa totalmente indefesa. Para protegê-la, Matsumoto amarra uma corda na cintura de Sawako e vive, assim, literalmente amarrado em seu amor até seus últimos dias. Essa é uma das três histórias sofridas de amor retratadas no filme “Dolls”, do diretor japonês Takeshi Kitano, rodado em 2002. Uma mulher que espera seu namorado na praça durante 30 anos para levar seu almoço e um fã que fica cego de propósito para agradar a cantora de sucesso são os outros lancinantes dramas amorosos do longa.

Dizem que o pessoal lá da Ásia é meio extremista. Ou quem aqui nunca ouviu falar de japoneses que se matam por não terem conseguido entrar na universidade? São pessoas que mantêm tradições, honras e cumprem com seus ideais, sem titubear. Cito outro filme, “Old Boy”, que não é de um japonês, mas é do diretor sul-coreano Park Chan-wook. No filme, o protagonista fica quinze anos confinado em um quarto por pura vingança de um conhecido dos tempos de colégio. Não vou entrar em detalhes para não estragar o filme.

Tenho alguns amigos japoneses. Uns são inteligentíssimos e dedicados. Outros gostam de uma farra e não se preocupam com absolutamente nada. Porém, todos, sem exceção, sabem jogar vídeo-game. Os extremismos citados acima, sejam nas representações fílmicas ou na realidade de conhecidos, basicamente é o que sei sobre os simpáticos asiáticos, de olhos puxados.

Mas agora que os balões dos japoneses já não sobrevoam os ares de Maringá, fico cá matutando: o que eles devem pensar do jeitinho brasileiro, do modo como sempre procuramos levar vantagem nas situações e de toda a corrupção existente no País, que contamina desde mendigos até presidentes? Ainda bem que o centenário da imigração japonesa caiu justamente em 2008 – ano de eleições municipais no Brasil.

Apenas em anos políticos, ou quando recebemos visitas, é que os buracos do asfalto finalmente são tapados, as pontes e os parques são inaugurados (mesmo não estando prontos), as árvores voltam a ser plantadas e tantas outras obras que poderiam favorecer a população em anos anteriores são realizadas. Temos sempre de esperar três anos de mandato para vermos algo acontecer. É de se pensar que, talvez, a solução seria realizar eleições anualmente ou, então, comemorações de centenários com mais frequência.

*Crônica publicada dia 1 de julho de 2008 no jornal O Diário do Norte do Paraná.

*Lembrei desta crônica porque, amanhã, quinta feira, 10/06, no Teatro Oficina, às 18h30, o Cinuem exibirá o bonito filme “Dolls”. Não percam. Abaixo, o trailer do filmaço:

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