Coluna Crônico



Estrela cadente

Por Wilame Prado

Na noite da última terça-feira, Osvaldo saiu de casa às duas horas da madrugada por causa de uma insônia que lhe estava proporcionando pensamentos muito ruins sobre a sua atual condição de vida: separado da mulher e sempre muito distante do filho, que, coincidentemente, passava alguns dias das férias em sua casa e dormia tranquilamente no quarto ao lado.

A pé, foi até o bosque bem próximo de sua casa e se sentou em um banco. Notou que, dali, era possível ter uma bela visão do céu, que, particularmente naquela noite, estava lindo, cheio de estrelas. De repente, viu uma estrela cadente riscando o horizonte. Entusiasmou-se, sentiu-se presenteado, fechou os olhos e fez um pedido.

Alguns segundos se passaram, mas Osvaldo permaneceu com os olhos fechados. Assustou-se quando ouviu uma voz feminina perguntando: “Moço, você está dormindo?”, disse Laura, jovem muito bonita que, com a sua máquina fotográfica, captava imagens da chuva de meteoros, vista naquela noite de qualquer localidade do País.

“Não, me desculpe. Vi uma estrela cadente, fiz um pedido e acabei me distraindo em pensamentos com os olhos fechados”, respondeu Osvaldo.

Os dois permaneceram sentados no banco do bosque por quase meia hora. Laura explicou para ele sobre a chuva de meteoros e as popularmente conhecidas estrelas cadentes. Comentou que, naquela noite em especial, estavam diante da chuva de meteoros Delta Aquarídeas, que propiciava a visibilidade dos detritos e poeiras deixados possivelmente pelo cometa 96P Machholz.

Ela fazia parte de um grupo de observação astronômica. E ele sofria de insônias.

Laura foi embora com a sua bicicleta, mochila e máquina fotográfica. “Será que havia uma luneta dentro daquela mochila?”, pensou Osvaldo, meio distraído, ao vê-la, tão bela, pedalar pelo bosque. Ela o achou interessante, um pouco mais velho que ela sim, mas um sujeito simpático, inteligente e que, em um rápido bate-papo, demonstrou que parecia ser um pai muito amoroso, um trabalhador esforçado. Mesmo assim, preferiu não convidá-lo para o grupo de observação astronômica, sentiu vergonha, talvez ele pensasse que fosse coisa de jovenzinhos com tempo para brincar de ver o céu.

Osvaldo levantou-se e se dirigiu tranquilamente para a casa. A partir daquele dia, Laura seria constantemente lembrada por ele com ternura, sempre associada à estrela cadente que viu cair e que lhe rendeu um pedido. Em casa, abriu devagar a porta do quarto do filho, beijou de leve a sua testa e sussurrou que ele continuasse dormindo com os anjos.

Já em sua cama, o motivo da insônia, agora, era outro. Não entendia por que não pediu, pelo menos, o telefone de Laura. Timidez? Enfim. Temia nunca mais vê-la nesta imensa cidade. E mesmo se a visse, o que diria? Teria coragem para puxar um papo ou apenas acenaria com a cabeça?

O dia começava a clarear e Osvaldo sabia que teria uma jornada difícil pela frente, já que não havia conseguido dormir nada naquela noite. Mas estava determinado a pelo menos tentar mudar de vida. Prometeu para ele mesmo que, se voltasse a encontrar Laura, revelaria para ela o pedido feito para a estrela cadente: uma mulher que botasse ordem na sua vida, que o fizesse parar de sofrer com as insônias e que gostasse de, junto dele, por o filho para dormir desejando “uma boa noite, dorme com os anjos” nos dias em que o garoto tivesse visitando o pai. (A coluna Crônico entra em férias a partir de hoje)

*Conto publicado nesta terça-feira (5) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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O meu amigo Barba

Por Wilame Prado

Vi um cara parecido com o Barba. Será que o Barba entraria assim naquele bar? Será que ele paqueraria a moça bonita das pernas magrelas, sentada a quatro mesas, 23 cadeiras e aproximadamente três metros de distância de mim? Será que teria comemorado os dois gols do Neymar, um de Oscar, tacando cerveja pra cima, tal qual certamente fez o cidadão levemente alcoolizado, com camisa amarela falsa do Brasil, boné descaindo pelas orelhas, horroroso, na mesa 43, a mesma mesa que já pediu mais de doze vezes novas garrafas de cerveja, uma porção de batata frita com muito queijo e bacon jogados por cima e ainda algumas rosetas de sal e limão porque as duas moças gostam de misturar a bebida levemente salgada e azeda com goles generosos de bebida alcoólica enquanto não entendem muito bem porque houve tão rapidamente um gol contra do Marcelo, e também porque se deve colocar a bola na marca branca próxima ao gol quando alguém do Brasil cai na grande área?

Pego-me a imaginar o Barba dentro daquele bar que mais se parece uma jaula suja, lotada de animais que precisam de cerveja como uma espécie de água e comida vitais para as energias juvenis de gente que só quer ter a coragem de olhar por mais de três segundos para os olhos amendoados da menina que revela tristeza até mesmo quando sorri, ou então a ousadia de tecer comentários com começo, meio e fim para a roda de amigos, sempre com uma pitada de humor, sempre com uma pitada de sensualidade no ato de revelar os contos cotidianos da vida regados a mais mentiras ou superlativos do que a verdade propriamente dita.

Barba perceberia que a loira que chegou com o cara da corneta gosta mesmo é do amigo do cara da corneta – tamanho foi o beijo tascado no rosto desse amigo, beijo que quase chegou na boca do amigo, beijo que revela segredos, intimidades, vontades e desejos da loira acompanhada do cara da corneta? Estaria ele incomodado com tanto barulho, irritações, braços que se tocam, gente que se empurra, banheiros sujos, vômito, urina e fezes, calor e frio, carros que sobem a avenida, motocicletas que aceleram de propósito na avenida e que, pela execução de seus devidos motociclistas, produzem sons que se assemelham ao estourar de rojões (comemoremos, é o Brasil ganhando jogo de copa do mundo!)?

Gostaria de saber onde estava o Barba no exato momento em que, após uma abertura muito criticada e chata (valeu ver apenas o rebolado da Jennifer Lopez e a sua beleza que chega a nos agredir fisicamente), finalmente a bola começou a rolar numa das copas mais aguardadas de toda a minha vida. Estaria em Maringá, no Jardim Alvorada de Santa Fé, em Londres, Nova York, Pantanal ou mesmo lá dentro da Arena Corinthians, vaiando a Dilma ou torcendo para que aqueles rapidíssimos 90 minutos não se esgotassem jamais, tamanha é a festa, tamanha é a alegria representada pelo futebol, tamanha é a emoção de viver, estar vivo e ter alguns dinheiros a mais a ponto de poder sim, o próprio Barba, hoje estar vendo com os próprios olhos da cara, sem filtros, sem televisões, sem replays, sem a voz do Galvão Bueno, o primeiro jogo da seleção em plena Copa do Mundo Fifa – Brasil 2014.

Lembro-me da última vez em que vi o Barba. Ele estava daquele jeito de sempre, lento caminhar, olhar distante, mão no ombro da mãe, bengala na outra mão, dando passos nas calçadas daquela pequena cidade como forma de exercício fisioterápico para, a conta-gotas, ir recuperando os movimentos da perna, perdidos após um trágico e besta acidente de moto. Se não fosse uma imensa placa que o impediu de continuar acelerando a sua moto, e que, por pouco, não gerou uma tragédia ainda maior para toda a sua família, Barba poderia estar aqui neste bar, comemorando feito idiota, assim como eu, mais uma “vitória” da Seleção Brasileira. Poderia, quem sabe, até chutar um placar para o próximo jogo, para o próximo espetáculo de circo, para a próxima palhaçada, cujos atores em cima do palco estariam uns vestidos com o amarelo do Brasil e outros vestidos com o verde do México. Viva o futebol. Viva o bar. Viva a cerveja, a festa e viva as pessoas que podem usufruir disso tudo sem precisar escorar numa bengala e no ombro de uma forte e guerreira mãe, assim como o meu amigo Barba precisa.

*Crônica publicada nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Lição da juventude

Por Wilame Prado

Que pessoas saudáveis! Que gente bonita! Jovens e mais jovens. Peles claras – sem maltrato –, olhos que brilham. Moças com cabelos sedosos e lisos, extremamente lisos. Homens com cabeçorras, barbas por fazer, na moda, e uma pele que denuncia uma vida de infinitas horas de videogame no apartamento, que lazer, vida mansa, tudo na paz. Geração 2000.

Eles, esses jovens que invadem inevitavelmente o universo de minha visão mediada pelas lentes dos óculos contra miopia, já estão no boteco, já descobrindo os prazeres causados por alguns copos inocentes de cerveja, talvez um baseado e até algumas carreiras para mais tarde. Uma juventude bonita e equipada, alguns já com a posse de veículos, outros com caronas garantidas de volta para casa. Eles parecem se divertir à beça.

Daqui do boteco, vê-se gente pobre, classe média e gente rica. Não importa, a democracia chegou: todos têm Instagram e Whatsapp. A noite é singela. O bar, lotado. A luz do refletor ilumina de laranja um momento único, parecido com o pôr do sol. Mas ninguém percebe. A democracia é cega perante aos fatos poéticos da vida. Não há poesia dentro da tela de um celular. Eles estão na busca pelo selfie perfeito, na pose, sendo poser, todos têm amigos, afinal, e ainda bem, todos têm histórias para contar, todos são engraçados, e bonitos.

Quantas aventuras e peripécias ainda narrarão na mesa do bar? E como eles riem, como são brancos os dentes deles, como é ingênua a felicidade deles, mas eles estão certos, todos certos. Querem mais é extravasar. Mas, então, não me aguento. Chamo o garçom. Pergunto para ele, que parece ter vivido um pouco mais de anos de vida – assim como eu, um, naquele local, velho de 42 anos esperando um pouco do passar de vida na mesa do bar –, e faço a seguinte indagação: “É ou não é tudo isso muito engraçado?”

Sorriso amarelo, ele pergunta se vou querer outra beer. Digo que sim, e digo mais, digo que quero todas as cervejas do estoque dele, e todas as cervejas que ainda restam em cada uma daquelas mesas vermelhas do bar que recebe, gratuitamente, a atmosfera da lua e o ar fresco que deve chegar com a força do vento marítimo, eu sei lá. Finalmente admito a brincadeira, e o garçom sai de perto de mim, sério e espantado. Tenho certeza de algumas coisas: ninguém daquele boteco percebeu a lua mais bonita dos últimos dias e o vento mais refrescante da última estação que se faziam presentes naquele local. Era espetacular, e aquela sensação, uma espécie de beira-mar em pleno bar numa cidade onde jamais existiu praia, também nunca foi registrada em rede social alguma.

Então eu me levanto. Rio comigo mesmo. Soa sarcástico, mas está tudo bem, ninguém percebe a presença do tio ali, pensava eu, transformei-me num ser invisível, o que pode ser bom, dependendo da situação. Só que, inesperadamente, um rapaz muito forte e jovem – daqueles que se aproveitam das tardes amenas para malhar, tomar suplementos e treinar lutas marciais – andou a passos largos e rápidos em minha direção. Parecia furioso, e olhou poucos segundos bem no fundo dos meus olhos. Sem reação alguma, apenas senti uma ardência em meu rosto e um medo muito grande de ficar cego por conta das lentes dos óculos estraçalhadas e engalfinhadas por toda a minha face. Devo ter levado uns sete ou nove socos até ter dado o tempo de garçons e jovenzinhos ao redor conseguirem segurar aquele brutamontes enraivecido.

Ainda ao chão, roupa empoeirada, cara lavada de sangue, uns 30% da visão não comprometida pelas lágrimas, sangue, suor e lente em cacos, finalmente pude encarar o cidadão que se viu no direito de me espancar em praça pública, tal qual o escravo no tronco aguardando a ardência do açoite. E então finalmente entendi o acontecido: ele, sentindo-se um representante desta juventude bonita e de cabelo liso, deve ter percebido tudo. Ao contrário do garçom, o fortinho notou que eu denunciava toda aquela comédia que é a vida em cena, em falsete, naquele boteco carregado de jovens com pele sem maltrato, cheios de dentes brancos e prontos para o manuseio correto de smartphones. Quis ele, o moço da academia e das lutas, fazer justiça com as próprias mãos.

Não pude conter o riso, mesmo com as dores, mesmo com toda aquela aparente humilhação, que, estranhamente, não sentia. Só que quando ele me viu sorrindo novamente, óculos destruído ao chão, garçom dando guardanapo para limpar sangue da boca e do nariz, aí, meu amigo, ninguém conseguiu segurar a fúria desta juventude bem alimentada, principalmente pelos suplementos vendidos na academia. Foi soco e pontapés para todo lado. Acordei na Santa Casa, na manhã do dia seguinte, rodeado por alguns familiares, aparentemente assustados.

*Conto publicado terça-feira (3) na Coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Dobradinha de títulos ou anotações sobre duas finais na TV

Por Wilame Prado

-Domingo de finais: Ituano Futebol Clube x Santos Futebol Clube; e Londrina Esporte Clube x Maringá Futebol Clube. Anoto no caderninho.

-Opto pelo time do coração.

-Mas gritos dos vizinhos me obrigam a mudar o canal: tiro da final do Campeonato Paulista para a final do Campeonato Paranaense.

-Se Londrina x Maringá estão merecidamente na final pela bola jogada, isso não repercute nos estádios. O que é pior? O pasto do Estádio do Café ou os postes andrógenos de iluminação no Estádio Regional Willie Davids?

-Penso no dilema dominical para os santistas que torcem para o Maringá e para os maringaenses que torcem para o Santos: Band ou Globo? Paraná ou São Paulo? Pizza ou dogão?

-Em Maringá e região, a torcida do Santos é a segunda maior. O fato foi revelado pela Paraná Pesquisa, em dezembro de 2012. Na região, 10% se declararam santistas. Em Maringá, 12,4%.

-O Santos de Oswaldo de Oliveira parece ser um time que tem perfil tático definido, jogadas ensaiadas e ofensividade desavergonhada: no escrete alvinegro praiano, 20 atletas selecionados para a final, sendo sete atacantes, ou 35% do total. Nos 90 minutos, seis deles tiveram o privilégio de vestir o manto dentro das quatro linhas, mas nenhum transformou em gol as parcas chances do time santista.

-Ao contrário do bom defensor Ituano – que nem pode ser chamado de retranqueiro porque marca bem, mas toca bem a bola no ataque também –, time responsável por um dos gols mais bonitos do Campeonato Paulista, com a triangulação a la Barcelona envolvendo Jackson, Esquerdinha e Cristian. Para poucos, aquela calma do camisa 10 da cidade onde tudo é grande. Para poucos, a precisão do chute daquele que poderá ter sido o autor do gol do título paulista.

-O barulho da bola fogueteando a rede lateral do gol defendido por Aranha ensurdeceu santistas de toda a nação, em especial os santistas torcedores do Maringá FC, que imediatamente trocaram de canal.

-Preocupo-me com o que vejo em outro canal: 1×0 para o Tubarão londrinense. Mais uma ou duas zapeadas nos canais, e o Maringá FC, que deverá ser eternizado como a Zebra no jogo dos animais que simbolizam times de futebol (parecemos crianças, não?), empata bravamente a partida. Daquele jeito mesmo: com o Cristiano, aos trancos e com a raça insuperável, caindo, levantando e chutando forte para o gol e com um Gabriel Barcos, oportunista como um pirata, estufando as redes do adversário.

-O segundo tempo entre Ituano x Santos, prefiro não comentar. Nada de muito importante aconteceu, a não ser um chapéu pomposo de Jackson, do time de Itu, para cima de Gabriel, do time de Santos. O alvinegro praiano perdeu, na bola e na tática, e terá uma semana inteira para esfriar a cabeça e pensar numa fórmula capaz de furar o esquema defensivo do Ituano. Não será fácil.

-O destaque, em se tratando de segundo tempo, fica mesmo no outro canal, no jogo bem mais próximo, disputado em Londrina, a 100 quilômetros daqui. E por falar em distâncias, foi de muito longe o canhão executado pelo meia Baiano – reserva sempre pronto para assumir o front no campo de batalha – e que calou os mais de 20 mil londrinenses empatando o clássico.

-Em se tratando de pescaria, o mar não foi para peixe neste domingo de final de campeonato ao quadrado. O Tubarão saiu mansinho do Estádio do Café, e a Zebra mais forte que nunca. Já a Baleia ficou pequena frente à grandeza dos ituanos.

-Muitos querem, seja nos arredores do Willie Davids, seja nas proximidades do Pacaembu, comer sardinha no almoço do próximo domingo. Então prevejo: os santistas torcedores do Maringá FC e os maringaenses fanáticos pelo Santos Futebol Clube ficam indecisos quanto ao cardápio, mas continuam otimistas e resolvem pedir dobradinha para o garçom, na panela uma mistura de conquistas – metade Paulistão e metade Paranaense.

*Crônica publicada terça-feira (8) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Existem protestos e protestos

Por Wilame Prado

Guarde estes números: 216 mortos e 140 desaparecidos.

Tirando toda a babaquice, a mesquinhez e a crueldade humana refletida nas mais variadas formas de expressão comunicacional (textos, vídeos, artes, fotos) nas redes sociais, aplaudo as alternativas que hoje temos, graças à internet, de reunir pessoas, compartilhar informações importantes, defender direitos e relembrar os deveres. Faz nem um ano que finalmente o brasileiro aprendeu a apertar os botões e, democraticamente, protestar contra aquilo que considera estar errado.

Em uma sociedade recheada por descontentes (o ser humano é descontente em essência), isso tudo tem incentivado a união dos iguais a protestarem contra aquilo que acham que está errado e também para reivindicar o que consideram ser o correto, sempre com uma semente plantada na rede social “virtual” e que cresce rapidamente até virar uma gigantesca rede social “real” de adeptos.

A receita é simples: pense em algo que é contra – vale tudo, desde ser contra gatos albinos até contra caminhonetes na garagem do prédio que dificultam o árduo trabalho de manobrar seu pequeno veículo sem direção hidráulica; depois, articule um protesto, já pensando em itinerário dos participantes e frases a serem escritas em cartazes; dispare a ideia numa rede social e aguarde milhares de pessoas que têm pavor só de ver a orelha rosa dos gatos albinos ou detestam a imponência desmedida de para-choques exuberantes daqueles veículos que, na realidade, deveriam estar na zona rural.

O último protesto noticiado nos principais jornais brasileiros foi a Marcha da Família com Deus, ocorrido simultaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro, uma reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu meio milhão de pessoas e que aconteceu em 19 de março de 1964, antes do golpe militar.

Nesta última marcha, marcharam 700 em SP e 150 no Rio. Os envolvidos nada comentaram sobre gatos albinos ou caminhonetes potentes. Querem mesmo é a retomada do poder pelos militares em uma resposta contra uma ameaça comunista que eles dizem o País estar sofrendo com o PT representado pela presidente da República, Dilma Rousseff. No meio dos protestos, uns ainda manifestaram serem contra a desmilitarização da polícia; outros gritaram “Bolsonaro para presidente”.

O próprio deputado federal Jair Bolsonaro participou da reedição da Marcha da Família com Deus no último sábado, no Rio. Em um vídeo que circula pela internet, ele afirma, enquanto marchava, referindo-se às centenas (ou milhares?) de brasileiros torturados durante o regime militar: “A maioria se fazia de vítima, a maioria era vagabundo que estava a serviço de Cuba aqui dentro.”

Estão lembrados dos números? Foram 216 mortos e 140 desaparecidos durante a ditadura e tem gente que ainda protesta pedindo o retorno das Forças Armadas ao poder. Como eu disse, aplaudo as redes sociais, que podem servir para o pleno exercício da democracia no País.

Todos têm direito de se reunirem e protestarem, até mesmo pedindo o extermínio de gatos albinos, a expulsão das caminhonetes nos condomínios residenciais e ainda a volta dos militares ao poder. Mas, em se tratando deste último e mais absurdo caso de insanidade humana – esta suposta Marcha da Família com Deus – pede-se, apenas, um pouco mais de respeito na hora de escolher o nome do protesto ou das marchas. “Família” e “Deus” são palavras muito maiores do que essa tentativa tacanha de tentar garantir privilégios para uma pequena e estúpida parcela da sociedade, a de gente que não gosta de gente e que, pela conservação dos costumes reacionários e cruéis, é capaz de tudo.

Que Deus e que famílias gostam de mortes e de desaparecidos? Segundo a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, o governo reconheceu a responsabilidade do Estado pela morte de 216 pessoas e pelo desaparecimento de outras 140 na ditadura militar. A maioria, aponta a pesquisa, morreu nos anos 1970, quando o regime decidiu eliminar as organizações de esquerda engajadas na luta armada.

*Crônica publicada nesta terça-feira (25) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Mais uma chance para ‘Ela’, senhorita K.

Por Wilame Prado

Senhorita K., serei franco e direto com você: peço que dê mais uma chance ao filme “Ela”, ou, como gosta de pronunciar, ao filme “Her”, do nosso prodigioso diretor norte-americano Spike Jonze, do nosso adorável ator Joaquin Phoenix e da nossa musa insuperável Scarlett Johansson, que, no longa-metragem, nos brinda com sua voz rouca e sensual. Isso sem falar da trilha sonora arrebatadora do filme, a qual não tem me deixado ouvir outra coisa nos últimos dias, assinada pelos garotos William Butler e Owen Pallett, da banda indie Arcade Fire.

Sei que os tempos são de correria e de energias poucas para aguentar assistir a um filme com baixa resolução em plena noite de terça-feira (“Ela” não estreou por essas terras). Há tantas outras coisas para se pensar e, no mínimo, duas horas a mais de sono podem muito bem ajudar a aguentar o tranco do outro dia que a espera. Mas, insisto, senhorita K.: deixe para mais tarde o trabalho, o descanso, a redação da monografia e o verão. Assista “Her”, garanto satisfação no entretenimento, emoção e reflexão sobre o que estamos fazendo em tempos contemporâneos.

As vezes olho para você e penso se tratar de um espelho: vejo-me em sua melancolia, senhorita K. Justamente por isso, não me conformo com a sua desistência – talvez acomodada no sofá, talvez com uma xícara de chá em uma das mãos – pelo filme e a entrega desmedida para o sono que, desta vez, agiu com ingratidão ao lhe oferecer sonhos tranquilos a uma trégua que seria muito bem-vinda para o êxito no projeto “ver ‘Her’ até o final”.

Percebo como, às vezes, está fixamente olhando para o chão, melancólica. Fiz uma rápida pesquisa de seus gostos musicais, e nada mais vi a não ser nostalgia. Descobri qual o seu livro predileto e ele trata de saudade daquilo que ainda nem foi vivido. Concluo, então, que “Her” foi escrito e filmado para você, senhorita K. Foi escrito e filmado para gente como a gente. Gente esquisita, mas do bem. Gente confusa, mas não tola.

E se me permite um spoiler ou outro (veja a que ponto cheguei para convencê-la de ver o filme), “Ela” – desculpe-me, “Her” – é sobre um futuro onde todos assumiram de vez o seu lado triste de ser. Para você ter uma ideia, Theodoro (Joaquin Phoenix) é um exímio escritor de cartas a mão, encomendadas por pessoas que estão declarando seu amor para outras ou então dando um feliz aniversário. Me diz, senhorita K., há quanto você não lê uma carta feita de próprio punho? Claro que, no filme, a tecnologia da época dá literalmente uma mão para os funcionários, que só precisam ditar o que será escrito na carta para o computador transformar em texto de mão a carta narrada.

Quando estiver finalmente convencida, peço que, em algumas cenas, deixe de olhar apenas para a legenda ou então para o rosto de Theo enquanto nutre o seu amor por Samantha – um sistema operacional com voz de mulher. Perceba o mundo ao redor. Note que, na realidade, aquele já é o mundo o qual vivemos. Só que maravilhosamente aceitável.

Certo: soa a alienação as pessoas andando pelas ruas e nutrindo suas relações de amizade ou amorosa com aparelhos cheios de chips, plásticos e placas, como se estivessem falando sozinhas. Mas o mundo construído por Spike Jonze é fantástico, se formos parar para pensar bem. É como se o complexo “Ele é louco, ele fala com as plantinhas” finalmente tivesse sido superado e que a ditadura da felicidade finalmente houvesse sido exterminada. “Her” retrata uma época em que ninguém tem vergonha por ser triste, por usar as calças na altura do umbigo, por nutrir um bigode démodé e usar óculos.

Mais uma chance para “Her” seria dar mais uma chance para todos nós. Como na letra de “The Moon Song”, canção de Karen O e do próprio Spike Jonze – cantada por Samantha e tocada por Theo – podemos estar a um milhão de quilômetros da lua, ou dela, da voz, do contentamento por meio da relação entre seres humanos, mas, afinal, tudo não passa de um filme, duas horinhas para sonhar, com Ela, com a lua, com Scarlett, com cenários limpos, prédios altos, elevadores frios, com vozes roucas e sem mau hálito de manhã, com camisas rosas e com a melancolia assumida, num tempo para não ter medo de ser “feliz” (triste).

“As vezes eu acho que já senti tudo que eu deveria. E que não sentirei nada a partir de agora. Só versões menores do que já senti” é uma das falas mais marcantes do protagonista de “Her”, na madrugada, na pior, após mais um encontro “físico” fracassado. Por isso, novamente eu insisto senhorita K.: dê mais uma chance para “Her”. Afinal, Theo pode sim ter razão quando confessa para Samantha aquilo que, na verdade, amedronta a todos nós, que é a possibilidade de que o melhor faz parte apenas do passado.

*Crônica publicada nesta terça-feira (18) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)
**Hoje a coluna Crônico completa seis anos (nesse meio tempo – entre 18 de março de 2008 e 18 de março de 2014 – fiquei sem escrever a coluna do dia 12 de julho de 2011 até 28 de maio de 2013)

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Carnaval em cinco atos divagantes

Por Wilame Prado

1
Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia. E eu não acreditei. Tanta graça, tanta praça. Que gata. Fiquei bobo, alegre, adolescente. Então estufei o peito, saí do carro, abri a porta, dei um sorriso, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, acorrentei a sua mão na minha e atravessamos a rua, no verde; íamos a um baile de carnaval. Íamos. Caminhão acelerado. Desespero. Dois corpos pedestres no chão, em cima da faixa branca, que se fez vermelha. Borrão. Antes de entrar na ambulância, senti o seu perfume – não queria nunca mais sentir outro cheiro –, mas estava misturado com o ocre metal. Vi dentes meus pelo chão. Nunca mais a vi com vida. Tão bonita. Ela se fez tão bonita naquele dia.

 2
Mexo a cabeça. O ouvido há muito entupido. Onde está? Olhando para um chão sujo de mijo e coliformes fecais. Banheiro público. Carnaval. E ele, o outro eu, maldito, está olhando, pela janela suja, a avenida movimentada. Braços que se sujam encostados na janela, cinzas podres de cigarros. Calma. Calma que a calmaria vai chegar. Calma que ainda, eu e eu, iremos nos encontrar. O outro eu saiu feito louco, escada desabando abaixo, um pé desnudo para fora do lençol se despede – a última imagem humana. Morreu atropelado na Brasil. Ônibus coletivo, o ouvido entupido não ouviu, e o receio de me contaminar no sujo banheiro público, enquanto descarrego necessidades corpóreas, pensando naquele pé descoberto para fora do lençol – reminiscências na pré-morte, já na ambulância. Eu e eu ainda iremos nos encontrar.

3
Tudo isso vale (u) a pena mesmo? Pena leve. Pena branda. Peso pena. Peso que não pesa. O carnaval foi com minúscula. E as ruas estavam tão quietas. E, acreditem, garoou ridícula e imensamente. Deprimente. Gotas peso pena – fisicamente falando. Gotas peso pesado – nostalgicamente falando. Insisto, o que vale (u) a pena? Até que ponto compensa? Ela passou do ponto, o ônibus não parou no ponto, você nunca quer o ponto final. Crimes não se apagam com castigos. Qual será a sua pena? Uma apendicite? Um ouvido entupido? Uma síndrome do intestino irritável? Ou um se sentir sozinho, tomando coca lata, indo pra casa, na chuva? Agora já é (C)arnaval. Crimes, castigos. Vale (u) a pena?

4
Ruas que andam. Vida que passa. Sentado. As ruas andam. A vida passa. O carro passa. O avião passa. A moto passa. A banda passa. O bloco passa. E a moça passa. Sentado, a vida passa. A árvore respira. O homem traga. O tênis se gasta. As paredes se desgastam. E gastam o asfalto. A moça passa. Sentado, a vida passa. E, de repente, coisa de centésimo de segundo, olha-se por entre o buraco do alargador na orelha de um jovem e delicado rapaz e ali se vê e se prevê uma vida inteira, sentado, vendo a moça, a vida e o bloco passar.

5
Uma forte sensação de abandono. Todos sumiram neste Carnaval. Tinham outros afazeres. Uns precisavam morrer. Outros queriam viver mais intensamente. Uma forte chuva caiu, mas, de dentro daquele pequeno apartamento na Rua K., ela nem pôde ver o movimento das águas, nem mesmo sentir o cheiro da terra. Tudo parecia tão distante do alto daquele oitavo andar. Todos estão distantes. Se tudo isso tivesse acontecido há, sei lá, uns quatro anos, reflete ela, certamente botaria tudo a perder. Mas hoje não. Agora não. Talvez não, nunca mais. Passou a acreditar em propósitos. Levou a sério aquela história de se escrever certo por linhas tortas. A maior provação? O afastamento das pessoas. A maior alegria? Ana, a pequena filha de sete meses e meio. Junto dela, pode cair o mundo em águas, e as pessoas podem se mudar até de país. Enquanto prepara a mamadeira na cozinha, olhando para os miúdos olhos abertos e suaves de Ana, ela se deixa levar pelo pensamento e sente uma nostalgia ao contrário, uma já saudade do que nem aconteceu: pensa com carinho no dia em que, depois de uma torrencial chuva e chegada do sol, talvez num feriado de Carnaval, levará a sua filha até lá fora para explicar que aquele cheiro é cheiro de terra molhada.

*Parte dos atos foi remanejada de divagações anteriores, já publicadas no blog
*Texto publicado nesta terça-feira (4) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Noite do casal

Por Wilame Prado

Prédio um tanto antigo, daqueles de cômodos maiores, zona 3 de Maringá, Rua Neo Alves Martins, lua cheia, leve chuva fina. O casal é casal pelo que se pode ver na visão dos dois na janela do alto do quarto andar. Faz alguns minutos, parecem preparar algo na cozinha. Um risoto suculento? Um rápido strogonoff? Alguma massa saborosa, quem sabe acompanhada de um bom tinto?

O casal se faz casal. Os dois se beijam, ficam abraçados, se mexem, se tocam, se dispõem ao contato físico e amoroso. Já passa das onze da noite e apostam na gastronomia, em plena segunda-feira. Mas é que é tão bela a lua cheia! Mesmo em fevereiro, o calor deu trégua, pelo menos à noite, e uns ventos batem obrigando-os a recorrer a um lençol fino, no sofá, após o vinho e a comida, juntinhos, assistindo a mais uma tola tela que se diz quente, não importa o filme, o importante é a companhia.

Recém-casados? Ou uma recém-formada em Farmácia – que ainda conta com mesada dos pais – recebendo a visita do namorado em plena segunda-feira simplesmente pelo fato de terem quase morrido de saudades após menos de 24 horas longe um do outro?

Tinham passado o domingo inteiro juntos, shopping, cinema, sorvete, champanhe e motel. Mas nada disso importa mais. O importante é que ela finalmente conseguiu o ponto certo do macarrão – al dente – e ele trouxe aquele vinho maravilhoso.

E ela pensa: deixe as 7h15 só para a manhã de amanhã, para depois o retrabalho levado para casa, para outra segunda a faxina do apê e para outra noite aquela boa pesquisa na internet em busca de uma pós-graduação decente.

E ele reflete: nesta noite, nada de academia, treino de Muay thai, programas na TV de discussões tolas sobre a última rodada do campeonato, futebol society com a turma de colegas do tio, pôquer com os amigos, Pro Evolution Soccer no videogame dos primos, cachorro-quente prensado na Colombo, conversa com pais e avós todos sentados em cadeiras de área ou, não menos importante, aulas chatas de Cálculo II na universidade.

O clima está gostoso, a lua está no céu e, ainda que recatada, ela até que gosta de se ver assediada por ele, que nem quer esperar o jantar para levantar a blusinha dela, na janela da cozinha mesmo, do alto do quarto andar, enquanto gente na sacada dos prédios ao redor vê tudo isso. E de tudo isso, nada importa. Afinal, acho que eles se amam.

Naquela noite choveu uma leve chuva fina em Maringá. E o casal de namorados nem imaginava, mas, por entre o fino lençol, no sofá da sala, sem nem perceber que o filme já tinha acabado, estavam os dois gerando aquele que seria o primeiro filho de uma linda família.

*Conto publicado nesta terça-feira (25) na coluna Crônico, do caderno Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Escada rolante

Por Wilame Prado

Um dia, parei pra contar: em uma hora de uma tarde qualquer de domingo, desceram pela escada rolante 357 pessoas. Foram 357 destinos que desceram do quarto andar do shopping direto pro terceiro andar. O que foram fazer? Entraram em outras lojas, compraram mais, comeram mais, usaram mais vezes o banheiro, usufruíram por mais tempo do ar-condicionado? Não sei. Muitos foram embora. Encararam o calor da Avenida São Paulo ou o dióxido de carbono detido no estacionamento subterrâneo. Durante toda aquela uma hora em que parei pra observar as pessoas se locomovendo pela escada rolante, apenas uma senhora encheu o saquinho transparente com 186 gramas de doces coloridos vendidos no quiosque onde trabalho.

Já estou acostumada ao trabalho de domingo. Pego a Biz, ando dezenas de quarteirões maringaenses e chego ao shopping. Tiro o tecido preto de cima do quiosque e visto, por cima da minha blusinha regata, a camiseta gola polo rosa e quente contendo no peito a logomarca da doceria. A dona quer que eu seja vista como um marshmallow rosa à disposição para o consumo dos clientes.

Mas não sou um doce que se pode mastigar facilmente. Nem um chiclete que nunca acaba e que perde o gosto rapidamente. Sou uma pessoa. E isso quase ninguém tem percebido ultimamente. O pessoal gosta de falar do sacrifício do trabalhador rural, do operário, dos pedreiros na construção civil. Mas poucos se lembram de mim: só uma garota de quase 30 anos, que almoça todos os domingos com os pais e que anda todos os dias com a sua pequena moto rumo a um quiosque que fede xarope de milho e açúcar. Das 357 pessoas que desceram a escada rolante naquele domingo, nenhuma olhou para mim.

Um dia, um moço casado olhou para mim. E permaneceu olhando. Não teve jeito: tive que procurar serviço para fazer e assim poder disfarçar. A situação estava embaraçosa. Quando a mulher dele olhava para o lanche que comia, ou então para o enorme copo de refrigerante em cima da mesa, ele me olhava. Sentia desejo, parecia. Uma pessoa, naquele instante, tinha percebido que, por trás de doces envelhecidos e camisetas ridículas, havia uma mulher. Gostei dele. Gostei da humildade em me reconhecer como gente. Era bonito e pouco importava se, na realidade, tinha segundas intenções. O dia estava salvo, e, às vezes, um olhar bastava para que eu pudesse chegar em casa um pouco menos infeliz.

O resto da história vocês já sabem. Vendo a reciprocidade do olhar, o homem voltou no dia seguinte. Encheu um saquinho de chocolates, balas e chicletes. Presenteou-me. Dar guloseimas para alguém que vende guloseimas é o pior presente que alguém pode dar. Resolvi não contar para ele quantas vezes vomitei ao me lembrar do cheiro daquelas verdadeiras borrachas envoltas no açúcar as quais preciso vender de segunda a segunda. Mas disse para ele duas verdades: eu odeio doces e não fico com caras casados. Ele parecia estar enfurecido descendo a escada rolante. Era apenas mais uma pessoa que descia aquela escada rolante sem sequer olhar para mim.

*Conto publicado nesta terça-feira (28) na Coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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É só mais uma bolinha de papel***

Chegou a hora. A hora de parar chegou. A vida é cheia de ciclos. E o ciclo da coluna “Crônico” termina aqui.

Comecei em março de 2008. Encerro em julho de 2011. Foram três anos e quatro meses, aproximadamente 150 crônicas publicadas, algumas críticas, poucos elogios e, mais do que tudo, prazer em poder compartilhar ideias semanalmente com o público leitor do jornal.

Neste momento, tento desenvolver parágrafos. Há aperto no peito. Sei que serão os últimos. Nos fones que parecem viver grudados nos meus ouvidos, coincidentemente Chico Buarque canta que, falando sério, queria não falar. O cara é gênio. E tive a honra de citá-lo em uma dúzia de textos.

E, se me permite uma comparação chula, se o gênio, falando sério, não queria cantar, eu também, falando sério, não queria mais escrever.

Mas não sou gênio. E minto. Sempre quero escrever. É a atividade que me dá mais prazer, embora admita que sinta cada vez mais dificuldade em desenvolver bons textos. A maior pressão, a maior censura, a maior barra, é a gente mesmo que impõe. É foda, se me permite baixar o tom nesta última crônica.

A minha intenção era sair de fininho, sair à francesa, sair enquanto todos cantam o parabéns e vê o aniversariante soprando velas. Mas meu amigo Jary Mércio, editor deste caderno de cultura, um cara que sempre acreditou em minha produção textual, pediu que eu fizesse um texto de despedida.

“Wilame, nem que você tenha apenas um leitor. Este único leitor merece uma satisfação do seu sumiço”, foi mais ou menos isso o que ele me disse, após um almoço no refeitório aqui do jornal.

O editor tem razão. O leitor merece. Ainda que deseje encerrar de vez o ciclo da coluna “Crônico”, devo dizer também que é sempre bom deixar as portas abertas para possíveis retornos. Daqui seis meses, daqui um ano, daqui uma década? Ninguém sabe nem se vai chover amanhã, não é mesmo?

A gente se vê em uma outra terça-feira, quinta ou até mesmo domingo. A gente se vê em jornais, sites, livros ou tablets. A gente se vê, a gente se lê. A gente se tromba em algum boteco ou no caixa do supermercado. Quem sabe um churrasquinho lá na sua casa qualquer dias desses? Que tal um chopp depois do expediente?

Promessas de um adeus ou de um até breve?

Enfim. Se o tom é de despedida, deixo registrado neste último texto minha velha e já conhecida melancolia. Peço, portanto, uma leitura última e especial: quero que seja um leitor participativo.

Com este pedacinho de jornal em mãos, olhe bem para o asfalto da avenida e veja aquela poça de água suja. Fixe bem os olhos nela. Agora faça desta crônica uma bolinha de papel (deixe os peixes desembrulhados e as gaiolas desforradas pelo menos uma vez) e suje um pouco mais a sua cidade jogando-a bem naquela poça!

Com todas as mortes que tenho morrido a cada terça-feira, essa será só mais uma, a derradeira. Depois disso, leitor, tente perceber que o sol, brigador, disputa mais uma vez espaço com as nuvens carregadas. É um novo prisma, um novo olhar, uma nova terça-feira, talvez com novas e mais iluminadas crônicas vindo por aí.

*Crônica publicada dia 12 de julho de 2011 na coluna Crônico, do caderno D+ do jornal O Diário do Norte do Paraná.

*A coluna Crônico no impresso encerra seu ciclo. Essa decisão foi minha. Alguns projetos me sugarão até o final do ano. Portanto, resolvi fazer uma pausa com os textos semanais no jornal impresso. Meu sincero desejo é de, o mais rápido possível, retornar, sabendo, porém, que isso não depende só de mim e sim do aval e da permissão da direção e dos editores do jornal.

*O blog continua, com crônicas quando der para fazer, posts mais instantâneos, vídeos, divagações, reportagens etc.

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