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Vinte minutos, uma vida

Por Wilame Prado

O escritor paulista Daniel Galera contribuiu satisfatoriamente com a história recente do Brasil no romance “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 34,90). Como poucos na literatura contemporânea, explorou o contexto online brasileiro, do advento da internet em 1995 até janeiro de 2014, tempo vivido pelos personagens do livro, a partir do assassinato de Andrei Dukelsky, conhecido por Duque.

Na trama, Duque fora um dos criadores do fanzine digital Orangotango (inspirado no verídico Cardosonline, o qual Galera fez parte), vindo a se tornar realmente escritor. Aurora, Emiliano e Antero – amigos dele, também colaboradores do fanzine nos idos de 1999 – são os narradores em primeira pessoa de “Meia-Noite e Vinte”, todos abismados com a morte banal daquele que prometia ser um dos grandes escritores brasileiros.

Em cada capítulo, uma voz diferente. Primeiro, Aurora: doutoranda em Biologia que conheceu o pessoal do fanzine quando fazia Jornalismo e que, principalmente após a morte de Duque e após uma negativa numa apresentação acadêmica, se vê inserida na espiral do pessimismo dos tempos de agora, a qual lhe faz pensar no fim do mundo. Depois, Emiliano, jornalista freelancer mais velho, gay e que está incumbido de escrever uma biografia do amigo escritor morto. Por fim, Antero, um exótico inteligente da área de Humanas que, mais velho, casado e com filho, acaba ficando rico com o passar dos anos após fazer sucesso com a sua agência de publicidade.

Daniel Galera consegue convencer ao propor três modos diferentes de contar uma história cheia de pontos em comum, sempre direcionada à vida e obra de Duque. O contexto do romance se destaca mais que a história principal: a de três amigos que se reencontram numa Porto Alegre real e terrível – verão escabroso, fedida e cheia de greves – para um velório.

“Meia-Noite e Vinte” não é sobre amizade, porém: é sobre internet, hábitos de uma geração que começou com o ICQ e chegou ao WhatsApp e aos chats pornográficos, os perigos da literatura em meio ao que é banal e principalmente sobre o tempo que escorre das mãos, todos ficando velhos e cansados, mas ainda tão próximos e nostálgicos da época da juventude, da virada do milênio, anos 2000.

A história se aproxima do leitor porque, arrisco dizer, o leitor de Galera viveu boa parte daquilo narrado por Aurora, Emiliano e Antero. Ler “Meia-Noite e Vinte” é como ler a sua própria história recente, sentindo saudosismo e ao mesmo tempo refletindo amargamente o quanto tudo parece estar cada vez pior – ainda que com as facilidades flagrantes de uma vida pós-moderna que se esgota quase que inteiramente olhando para uma tela de smartphone.

É como se tivéssemos perdido a noção do tempo e, também, a queima de fogos tradicional da virada de ano, na meia-noite. Passaram-se vinte minutos, uma vida se passou.

ESTANTE
MEIA-NOITE E VINTE
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço sugerido: R$ 34,90

*Resenha publicada no caderno Cultura do Diário em 24 de fevereiro de 2017

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Os sertões de ‘Outros Cantos’

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Maria Valéria Rezende em sua casa, em João Pessoa (Foto de Rafael Passos)

Por Wilame Prado

A escritora santista radicada em João Pessoa Maria Valéria Rezende, 73 anos, demonstra domínio da linguagem e um olhar diferenciado para com os excluídos do sertão brasileiro no livro “Outros Cantos” (Alfaguara, 152 páginas, R$ 29,90). A publicação se deu graças ao patrocínio da Petrobras Cultural.

Ela, que, além de escritora é também freira, volta a publicar após ter vencido, ano passado, o Prêmio Jabuti na categoria Romance e Melhor Livro de Ficção do Ano com “Quarenta Dias”.

Em “Outros Cantos”, a personagem Maria – deflagradamente inspirada na vida da própria autora – está dentro de um ônibus leito retornando à cidade fictícia de Olho d´Água, no Nordeste brasileiro.

Junto dela, nada além de reminiscências que transportam a história para décadas atrás, quando a personagem foi para o sertão graças ao programa Mobral disposta a auxiliar na alfabetização de um povo que não tinha quase nada, especialmente educação formal.

O relato se dá única e exclusivamente pelo olhar de Maria, ora no presente – com o sacolejar de um ônibus velho e percebendo que o sertão dos tempos de agora mudou radicalmente, como percebido no trecho instigante do livro: “O sertão não é mais sertão e ainda não virou mar. Fecho os olhos e minha memória recupera e estiliza a beleza despojada daquele meu outro sertão. Desde quando, sem que eu me desse conta, as casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela estética do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d ´Água?”; ora no passado, descrevendo as suas lembranças que permitem ao leitor imaginar o cotidiano de pessoas simples, que viviam em uma intensa luta de sobrevivência – para comer, beber água e em meio às rezas e festejos para santos pedindo chuva para plantar e colher.

Ela permite que o leitor só aos poucos consiga construir em seu imaginário quem realmente é Maria. Uma simples e jovem professora idealista e disposta a mudar o mundo com suas próprias mãos? Não somente. Há também as lembranças das andanças da personagem pelo mundo, na Argélia e no México, por exemplo, conhecendo povos, costumes e outros tipos de sertões.

E há ainda no romance uma curiosa característica da protagonista: sonhadora em seus pensamentos, ela no fundo busca sempre um olhar perdido de um homem que cruza com ela em diferentes momentos da história. Sempre atenta ao olhar deste ser masculino, ela enxerga os olhos dele em vários lugares, em várias situações. No fim, ao levar em consideração também a própria história de vida da autora, abre-se uma margem para se pensar que, talvez, aquele olhar é a figura de uma entidade protetora para Maria, onde quer que ela esteja, talvez os olhos de Deus.

“Outros Cantos”, conclui-se, é maduro, de uma autora madura e esclarecida quanto à estilística textual, ortografia e gênero. Maria Valéria Rezende emociona, denuncia e propõe reflexões acerca de uma região brasileira, a vibração de gente que ainda sonha com o poder transformador do ensino e também de um período histórico: mais para o fim da trama, percebe-se claramente algo que a autora quer mesmo eternizar com a proposta literária, que é uma relação histórica com os rompantes vividos em meio à ditadura militar no País e movimentos importantes na luta contra a opressão, isso em regiões praticamente esquecidas pela grande mídia, cinema, História e afins.

OutrosCantos_570OUTROS CANTOS
Maria Valéria Rezende
Editora Alfaguara
Número de páginas: 152
Preço sugerido: R$ 29,90
Avaliação: ótimo

*Comentário publicado quarta-feira (11) no caderno Cultura, do Diário do Norte do Paraná

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Temporada triste de Helio Flanders

Hélio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Helio Flanders: álbum solo mostra força do líder da banda Vanguart

Por Wilame Prado

Helio Flanders marcou 2015. Em um dos melhores trabalhos musicais lançados este ano no País, com o álbum “Uma Temporada Fora de Mim” ele apresenta pela primeira vez um trabalho solo, longe dos meninos e das meninas da boa banda cuiabana radicada em SP Vanguart.

Algumas vezes é preciso se desnudar para mostrar quem realmente é. Flanders parece estar completamente nu nas nove canções de “Uma Temporada Fora de Mim”. Sonoridade e letras do disco, intimista, permitem algumas revelações, dentre as quais pelo menos uma envolvendo o seu passado como frontman da banda de rock: a parte mais sensível e poética da Vanguart é mesmo gestada pelo jovem músico.

Flanders produziu o disco ao lado de Arthur de Faria (que também tocou piano na faixa “Cuyaba Tango”). No estúdio, mais que cantar tocou piano, trompete, violão e acordeon. E contou com o entrosamento de bons músicos: Bruno Serroni (violoncelo), Ignacio Varchausky (contrabaixo), Leo Mattos (bateria e percussão) e Martín Sued (bandoneon).

É importante destacar: no disco solo – sem uma música alegre sequer – ele demonstrou uma evolução sonora na voz. Em sua trajetória com a banda, ao longo dos anos ele se mostrou muitas vezes displicente, principalmente quando canta ao vivo.

Claro, há sim toda a licença poética e o lado cênico característico que o músico emplaca em suas apresentações, mas há que se ter mais zelo na cantoria, há que se deixar para trás a adolescência de um Vanguart que, nos becos alternativos, em idos de 2007, fez muita gente se esgoelar por aí cantando e gritando que acreditava no semáforo e no avião.

Alguns dizem que ele parece um bêbado desafinado cantando. Mas a verdade é que ele acaba exagerando nos falsetes, muitas vezes vexatórios.

Isso tudo parece fazer parte do passado.

Se ele viveu mesmo uma temporada em off, como cantado na faixa de abertura homônima ao disco, isso tudo fez muito bem. Exemplo disso é a canção “Dentro do Tempo que Eu Sou”, que talvez seja uma das coisas mais emocionantes para se escutar no Brasil neste 2015. Ao lado da ótima e tocante cantora Cida Moreira, Flanders ressuscita toda aquela tristeza necessária cantada por Antônio Marcos (das imperdíveis “Gaivotas” e “Como Vai Você”) no século passado.

Na faixa, os dois cantam sobre o desconforto de quem está sozinho nesta vida, mas com saudades de alguém. E então tudo fica deslocado. E, pela janela do automóvel, a gente olha para os lugares e sente nostalgia do que nem sequer viveu, parecendo já ter vivido ali.

Mas há esperança: se o velho lugar é ao lado dela ou dele, Flanders acertou num refrão de arrepiar: “Nada vai durar para sempre/eu tenho pressa em te ver/Nada vai durar pra sempre/Mas talvez eu e você/Ainda há tempo/Nós temos tempo”.

Em “Uma Temporada Fora de Mim”, tudo soa muito triste, mas amplamente acertado. É triste o piano em “Romeo” (composta por Thiago Pethit e Flanders), em letra cerebral, com um achado destes: “Baby, quando eu te vi eu não soube dizer/Se queria matar ou se queria meter.”

É triste também a milonga de “Cuyaba Tango”, com o choro do acordeon. E é triste, muito triste, a história que ele conta na canção “Um Grito”: um homem ouviu um grito de “amor!” em sua direção, mas depois percebeu que, ao lado dele, estava ali um outro rapaz, supostamente namorado da moça, situação que o fez lembrar do jeito que uma pessoa do passado o chamava.

No final da canção, o sufoco: “hoje a vida é olhar a janela e esperar”. Para quem se identificou com “Uma Temporada Fora de Mim”, a vida é sim olhar pela janela e esperar, mas pelo menos ouvindo Helio Flanders tocar e cantar.

*Texto publicado no caderno Cultura do Diário em 14 de outubro de 2015

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Elza Soares canta, até no fim do mundo

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Elza Soares em show no Psicodália 2016: histórico

Por Wilame Prado

Elza Soares foi ao fim do mundo e voltou com um de seus melhores trabalhos em seis décadas de carreira e quase oitenta de vida. “A Mulher do Fim do Mundo” é um grito rouco e sensual da voz feminina mais marcante da música brasileira ainda na ativa.

Pelo projeto Natura Musical, o disco novo de Elza é composto somente por músicas inéditas, todas compostas especialmente para a sua voz marcante. O seu 34º álbum foi idealizado e montado pelo produtor e baterista Guilherme Kastrup.

Ao lado dele, um time de primeira e que, cada um a seu modo, tem marcado a música contemporânea brasileira: Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (guitarra), Felipe Roseno (percussão), Celso Sim (direção artística) e Romulo Fróes (direção artística), nomes conhecidos na cena paulista.

“A Mulher do Fim do Mundo” tem onze faixas. É difícil defini-lo. Samba? MPB? Samba rock? A diversidade de gêneros chama a atenção. Pronta para o que der e vier, Elza vai de samba, rock, rap e eletrônico, no mínimo.

Ao lado da sua voz, que já é uma distorção perfeita por natureza, o trabalho conta com arranjos arrojados e ousados, com ruídos que nos lembram e muito também as marcas dos vários músicos envolvidos no projeto. É ouvir Elza e recordar de Passo Torto e principalmente dos “barulhos feios” que Fróes vem fazendo em sua meia dúzia de álbuns já lançados. A diferença é que essa beleza de música vem acompanhada do melhor brinde de todos: a voz forte daquela mulher.

É preciso sempre deixar Elza Soares cantar, deixá-la ir ao fim do mundo e soltar aquela rouquidão toda mais vezes. Os grandes artistas brasileiros envelhecem e muitos, infelizmente, vão sumindo, sumindo, resumindo-se, ao fim, em apenas uma citação no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Os meninos liderados por Kastrup não deixaram isso acontecer com Elza, que já não demonstra a mesma agilidade, por exemplo, em grandes entrevistas, como a concedida recentemente no Jô Soares. Ao contrário do que ocorre nos estúdios: bem assessorado e muito bem planejado, “A Mulher do Fim do Mundo” proporciona à cantora carioca a dignidade que ela sempre mereceu.

Graças a esse belo e tocante registro, ninguém cala mais Elza Soares. Ela pede e o Brasil atende: deixemos ela cantar, para sempre.

*Texto publicado no caderno Cultura no dia 20 de outubro de 2015

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Sobre amor, ‘Love’ se perde no sexo

Cena de "Love" com os atores

Cena de “Love” com os atores Karl Glusman e Aomi Muyock

Por Wilame Prado

Mesmo presente no cotidiano da maioria das pessoas, o sexo ainda é tabu. O sexo no cinema também é tabu. Quando um diretor de renome resolve apostar num filme com cenas de sexos explícitos, e principalmente com nu frontal masculino, causa desconforto em muita gente que ainda não consegue encarar o sexo como tema intrínseco à vida dos seres humanos.

“Love”, em cartaz em Maringá, inova ao propor um drama – e não apenas mais um filme pornográfico, cujo principal objetivo é causar excitação em quem está assistindo – regado a sexo, sem pudores, sem cortes. Mais: em 3D, com riqueza de detalhes, em relações sexuais corriqueiras de um casal, oral, vaginal, e também nem tão corriqueiras, em ménage à trois, grupal etc.

Algumas redes de cinema boicotaram o filme do elogiado diretor franco-argentino Gaspar Noé. Aqui em Maringá, continua em exibição no horário nobre da família: 21h50, no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

O filme é um eterno flash back de Murphy (Karl Glusman), que fica relembrando os bons anos em que viveu ao lado da namorada Electra (Aomi Muyock) – uma jovem atraente e disposta para absolutamente todos os prazeres que sejam possíveis de se obter por meio de sexo.

Casado e com filho pequeno, ele não se perdoa por ter deixado se distanciar da ex. É feriado de Ano Novo e uma ligação da ex-sogra faz o jovem temer o pior: talvez Electra tenha se matado. É quando começam as recordações regadas a sexo da melhor qualidade. O pior mesmo, no final, é ter deixado escapar o grande amor da vida em mais um vacilo da carne: ao ter relação sexual com a vizinha de 16 anos (que outrora participara de uma ménage com o casal), a camisinha estoura e vem a criança.

“Love” é sobre o amor verdadeiro que nem sempre se faz muito nítido em meio aos fluidos do sexo levado às últimas consequências. É também sobre os limites do corpo e da mente. Como experiência fílmica, é válido. Mas aos saudosistas do agressivo “Irreversível”, filme de 2002 do mesmo diretor, fica a impressão de que Noé poderia ter caprichado um pouco mais no roteiro. Talvez o próprio tenha se ludribriado também com as intermitentes e belas cenas de sexo explícito.

*Comentário publicado terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Woody Allen mais racional do que nunca

Cena de "Homem Irracional", com a bela e talentosa Emma Stone e com o barrigudo Joaquin Phoenix

Cena de “Homem Irracional”, com o barrigudo Joaquin Phoenix e com a bela e talentosa Emma Stone

Por Wilame Prado

Após o desastroso “Magia ao Luar”, exibido ano passado por aqui, Woody Allen volta à velha e boa forma. “Homem Irracional”, em cartaz em Maringá, mostra um diretor atento aos mínimos detalhes em absolutamente todos os diálogos do filme, recheados com filosofia, especialmente com os princípios morais de Kant, a vertigem da liberdade de Kierkegaard e o existencialismo de Sartre e Heidegger. Tudo válido em uma construção narrativa que leva a um desfecho perfeito.

O longa é mais drama que comédia – assim como os melhores filmes do diretor – e, mais uma vez, é cercado pelo universo dostoiévskiano (o diretor é fascinado pelo escritor russo), especialmente ligado à máxima de Raskólnikov, de “Crime e Castigo”: para se destoar dos homens comuns, para haver algum sentido na vida, há que se fazer grandes feitos, até, de repente, quem sabe, cometer assassinatos, para um bem maior.

Abe Lucas (um Joaquin Phoenix propositalmente barrigudo e desgostoso com a vida) é um professor de filosofia famosinho que acaba de chegar a um novo campus para trabalhar, numa pequena cidade dos Estados Unidos. Sua chegada é cercada por boatos envolvendo principalmente o seu uso excessivo de álcool e os seus relacionamentos fugazes com mulheres – especialmente com professoras e alunas. Entre aulas entediantes, goladas generosas em seu cantil de uísque e flertes, um dia ele põe na cabeça que precisa matar um juiz que está sendo injusto com uma mãe humilde, prestes a perder a guarda dos filhos.

Allen tem acertado também nas escolhas de suas musas. Não é a primeira vez que ele aposta no charme e na imensa capacidade cênica de Emma Stone, mais linda do que nunca, em papel irretocável. Ela é a aluna Jill, que, fatalmente, apaixona-se pelo professor tristonho e boêmio de filosofia. Lucas também arranca suspiros de Rita (Parker Posey), uma professora casada que tenta ter um caso com ele. A veia cômica fica reservada a ela, que se debruça em busca de sexo com o professor e em planos indecorosos de fuga com ele para a Europa.

O diretor estadunidense faz um filme por ano e costuma ser lacônico em seus roteiros: o desfecho dos filmes são estreitados para o limite da vida, meio que matar ou morrer. É assim também em “Homem Irracional”, longa que nos faz lembrar que, mesmo com tanta teoria já eternizada nos livros, a filosofia ainda não é capaz de alcançar a irracionalidade que envolve as pessoas, as suas relações pessoais e os seus eternos esforços para sobreviver, para respirar.

*Comentário publicado nesta terça-feira (15) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Que Mal Eu Fiz a Deus?’ é para rir

Elenco completo do francês "Que Mal Eu Fiz a Deus?"

Elenco completo do francês “Que Mal Eu Fiz a Deus?”

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Wilame Prado

Não tem sido fácil rir no cinema. A penúltima vez, ainda me lembro, foi no ano passado, no ácido e irônico argentino “Relatos Selvagens”, que concorreu – mas não levou, injustamente – ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. As últimas e raras risadas aconteceram no último sábado, quando finalmente assisti ao francês duplamente estreado em Maringá (a primeira, no Festival Varilux de Cinema Francês) “Que Mal Eu Fiz a Deus?”, ainda em cartaz no Cineflix Cinemas, no Maringá Park Shopping.

A proposta do roteiro era arriscada: fazer as quatro filhas de um casal tradicional francês se casarem com homens de diferentes nacionalidades e religiões; mais especificamente falando, elas – quatro verdadeiras beldades caucasianas – se casam com um judeu, um árabe, um chinês e, finalmente, um africano. Poderia ter resultado num filme extremamente de mau gosto, xenofóbico, racista ou machista. Mas não. Deu muito certo.

O longa, dirigido por Philippe de Chauveron, prova – especialmente aos cineastas e dramaturgos brasileiros – que é possível tratar com humor o preconceito eminente que há no Ocidente, sem que com isso seja preciso apelar para o insuportável argumento do politicamente correto.

Mesmo sendo recordista absoluto de bilheteria nos cinemas franceses – e conquistando também bom público aqui no Brasil -, a crítica especializada brasileira não tem visto com bons olhos “Que Mal Eu Fiz a Deus?”. Entre, por exemplo, no site Adoro Cinema e tire sua prova: nas críticas reunidas em uma das páginas mais acessadas de cinema do País, descobrimos apenas uma estrelinha dada pela Folha de S. Paulo e também uma estrelinha do jornal O Globo, além de críticas negativas publicadas em sites especializados. O motivo? Acabou o bom humor e muitos acusaram o divertido longa como previsível e preconceituoso.

Discordo. Eu e a sala inteira do cinema rimos do absurdo, dos extremos, das situações impossíveis, da velha e boa comédia no cinema. Luiz Carlos Merten (ufa), do Estadão, também discorda. Para ele, “…deu a louca nos críticos. Não sintonizaram com o humor incorreto de Chauveron. Mas nem na cena hilária da missa?”

*Comentário publicado nesta quarta-feira (19), no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Riocorrente’: SP (ou o mundo) em chamas

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de "Riocorrente": niilista e provocador

Carlos, Exu, o abismo e SP em cena de “Riocorrente”: niilista e provocador

Por Wilame Prado

São Paulo (SP), século 21. Um rio enegrecido segue lentamente o seu caminho. A imensidão traduzida em vidro, concreto e metal. Asfaltos quilométricos parecem levar para além do horizonte. Madrugada quieta. Um garoto negro avaria um veículo luxuoso estacionado na rua. Uma jam session rola solta em uma casa noturna quase vazia. Som maravilhoso. Homens solitários, devidamente armados com suas long necks em mãos, apenas escutam. Um desses sujeitos – com cara de mal –, entoja-se facilmente e sai acelerando a sua potente motocicleta pelas ruas paulistanas, até finalmente recolher o moleque solitário e descalço que, há pouco, riscara a lataria do carro preto estacionado.

É assim, como um conto bem escrito, que começa o filme “Riocorrente”. Em apenas uma hora e dezenove minutos, Paulo Sacramento, que dirigiu e escreveu o longa-metragem, traçou um retrato fidedigno da maior cidade brasileira com uma competente fotografia e tendo como enredo os encontros e desencontros de um triângulo amoroso encenado pelos atores Lee Taylor, Simone Iliescu e Roberto Audio, todos desconhecidos do cinema, porém elogiados nos palcos do teatro. Personagens todos – cada qual a seu modo – asfixiados na metrópole.

Exu (Vinicius dos Anjos) é só mais um (como tantos outros) menino órfão de São Paulo. Ele chama Carlos (Lee Taylor) de pai. Carlos, no entanto, é um típico paulistano fulo da vida, descontente com o que vê pelas ruas da cidade grande, completamente embrutecido e autocrítico com as alternativas que encontrou para ganhar dinheiro – roubando carros para o desmanche, por exemplo. Em cima da sua moto, a câmera vai seguindo o olhar dele pelas ruas de São Paulo, tal qual um Travis Bickle (Robert de Niro) com seu táxi amarelo em Nova York, em “Taxi Driver” (Martin Scorsese).

Carlos apenas segue vivendo – ou seguindo o seu caminho, como um rio corrente –, mas percebe uma chama se aquecer em seu pensamento após Renata (Simone Iliescu) – com quem tem um caso amoroso – ler para ele um trecho de um livro. A ideia de que tudo está errado, e que apenas as pessoas é quem pode fazer algo para mudar o mundo, gruda na cabeça do motociclista até o desfecho do conto urbano cinematográfico. O pensamento humano, filosofa os personagens com livro em mão ou após uma sessão de cinema, é como uma bomba atômica, que se expande somente depois de explodir.

Do outro lado da cidade, Marcelo (Roberto Audio) é a representação do cabeça pensante, figura fácil paulistana. Entendido de artes plásticas, ele é colunista de um famoso jornal impresso que tem circulação nacional, guia turístico em cemitérios paulistanos – onde palestra sobre arquitetura e arte – e, como também grande parte dos chamados “entendidos” de alguma coisa, extremamente pacífico, sujeito que vive no mundo das abstrações, teorias, livro e jornais. Marcelo também tem um caso com Renata.

Renata é o personagem que representa a figura feminina nos tempos de hoje. Cada vez mais resolvida com seus desejos sexuais, independente financeiramente e culta. Mulher que, entendendo os anseios de se envolver com homens extremados – Marcelo é calmaria, Carlos é explosão – não se intimida em, por exemplo, após dormir na casa de um, acordar e ir diretamente para a casa do outro, em busca de sexo. Mas, assim como seus dois homens, ela também padece de incertezas, também sofre a pressão da cidade grande, a pressão da vida contemporânea e suas fugacidades, e chora copiosamente numa das cenas mais belas do filme, na plateia de um concerto intimista de Arnaldo Baptista, ex-Mutantes, cantando desafinada e lindamente atrás de um piano de caldas.

“Riocorrente” demonstra a maturidade de Paulo Sacramento, que foi elogiado com o documentário “Prisioneiro da Grade de Ferro” e que coleciona trabalhos como montador em filmes importantes, a exemplo de “Quanto Vale ou é Por Quilo” e “Amarelo Manga”. Não à toa, “Riocorrente” foi selecionado para o Festival de Rotterdam (Holanda), venceu o Prêmio Abbracine na Mostra Internacional de São Paulo e ainda nas categorias Melhor Fotografia e Melhor Montagem no Festival de Brasília.

Em seu último longa, Sacramento mistura drama e suspense e tem capacidade de criar situações em que a cena não se esgota por ela apenas, autorizando o espectador a pensar sobre ou completá-la. É o caso de cenas memoráveis, como a da ninhada de ratos que destrói pilhas e mais pilhas de jornais impressos dispostos em um galpão; o flagra da briga do casal com a câmera se aproximando devagar até enquadrar a tela exatamente na janela do apartamento; ou ainda quando Exu se encanta, mas não se espanta, com o leão dentro de uma jaula, chega pertinho e, com toda a calma do mundo, tira da boca um dente que estava mole.

O filme “Riocorrente”, extremamente crítico, perturbador, niilista, estimula o choque, o atrito, é mais Carlos (inconsequente e prático) e menos Marcelo (consciente e estagnado), trata da loucura que é São Paulo, que é o mundo, e faz um alerta: a bomba pode explodir a qualquer momento. Homens incendiários podem finalmente entender que, assim como a frase do ativista Zack de la Rocha e incorporada em voz over no filme, “Tem que começar em algum lugar. Tem que começar em alguma hora. Que lugar melhor que esse? Que momento melhor que agora?” No longa, a hora para agir é sim agora. E a destruição pode ser disseminada com a velocidade da correnteza de um rio sujo, ou no simples pedido feito por um menino após jogar seu dente que acabou de cair.

EM CARTAZ
SEMANA TUPINIQUIM
Assista “Riocorrente”
no Cineflix Cinemas,
no Maringá Park Shopping,
domingo (28) às 14 horas,
segunda-feira (29) às 21h40
e terça-feira (30) às 16h30

Trailer:

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Woody Allen é o mesmo de sempre em ‘Magia ao Luar’

Colin Firth e Emma Stone em cena de "Magia ao Luar": ceticismo colocado à prova

Colin Firth e Emma Stone em cena de “Magia ao Luar”: ceticismo colocado à prova

Por Wilame Prado

Woody Allen continua o mesmo em “Magia ao Luar”, filme em cartaz em Maringá: focado nos imensos diálogos entre personagens inteligentes e sarcásticos, atento na criação de cenários e figurinos fidedignos a uma época cuja trilha sonora é o jazz e extremamente conciso em sua sequência fílmica que, via de regra, costuma ter a duração de uma hora e meia.

A comédia romântica, como em quase todas as comédias de Allen, é para poucas risadas, nesse caso dedicadas ao azedume de Stanley, mágico que se veste de chinês e desmascarador de charlatões bem interpretado por Colin Firth – vencedor do Oscar em “O Discurso do Rei”. Ele divide a maior parte das cenas na Riviera Francesa dos anos 1920 com Sophie (Emma Stone), jovem norte-americana que se passa por médium na propriedade de uma família milionária inglesa.

No filme estão em jogo as questões entre razão e emoção, ciência e religião, real e metafísico. Para isso, Allen tem o suporte narrativo da história do mágico cético e da bela garota que se diz medium. A história de amor (como de praxe no universo de Allen, entre uma garota mais nova com um homem mais velho) é pouco ou quase nada explorada. O humor fica mesmo na sinceridade crua e amarga de Stanley no trato com as pessoas e no seu declarado amor-próprio, e também nas cenas pitorescas do jovem apaixonado Brice (Hamish Linklater), em sofríveis serenatas dedicadas a Sophie com seu ukelele desafinado em mãos.

Por fim, tem-se uma sugestão suavizada, leve e delicada para se pensar no dualismo entre crença e ceticismo. “Magia ao Luar” não encanta, não enche os olhos, mas é bem articulado por Allen, que não sai de sua própria cartilha. Sem ousar em nada, parece estar ciente de que alcançou a fórmula certa para um filme que não comprometerá o seu posto de diretor cultuado. Até a cena que pudesse ser pensada como a principal do filme – a dos dois protagonistas vendo a lua num planetário – é ligeira e preguiçosamente escasseada de qualquer aprofundamento.

Também, como em quase todos os longas em que resolve não dar para si o papel principal, é impossível não imaginar em Stanley o próprio diretor, em suas típicas rabugices e questionamentos filosóficos. Culpa da direção e não do ator Colin Firth, que parece ter se esforçado para que “Magia ao Luar” não ficasse chato.

CARTAZ
MAGIA AO LUAR
Direção: Woody Allen
Duração: 1h38min.
Classificação: 12 anos

*Comentário publicado nesta terça-feira (23) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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‘Lucy’ é ação viajandona, mas tem lá os seus valores

Scarlett Johansson é Lucy em ficção científica/ação que continua em cartaz nos cinemas

Scarlett Johansson é Lucy em ficção científica/ação que continua em cartaz nos cinemas

Por Wilame Prado

“Lucy”, filme de Luc Besson e estrelado por Scarlett Johansson ainda em cartaz em alguns cinemas da cidade, é uma ação bem diferente das demais. Une ficção científica, o charme da loira mais requisitada em Hollywood e algumas reflexões acerca da imensa capacidade que um cérebro humano pode ter.

Nas devidas proporções e desconsiderando os exageros de impossibilidades humanas inaceitáveis até para uma ficção científica, o filme é envolvente do início ao fim.

Após cair numa armadilha, Lucy (Scarlett Johansson) se vê obrigada a transportar drogas pesadas dentro do estômago. Envolvida com uma espécie de máfia coreana das mais sanguinolentas, acaba sendo espancada. Os chutes que leva de um coreano no estômago acabam estourando os pacotes da droga, que propicia em Lucy poderes sobre-humanos, desde telecinesia e ausência de dor, até a capacidade de adquirir conhecimento instantaneamente.

Ao lado do professor Norman (Morgan Freeman), Lucy acompanha o seu martírio de ter que fugir da máfia – que perderá milhões sem as drogas – e de ver a sua capacidade cerebral vertiginosamente aumentar para os 100%, fato acompanhado por uma infinidade de efeitos colaterais mortíferos.

“Lucy” homenageia o ser humano e ressalta uma importante mensagem: a de que podemos sempre mais e mais. No entanto, joga na mesa também uma analogia sutil e perigosa: dependendo da quantidade ingerida, substâncias químicas ilícitas poderão agir em prol da inteligência humana.

*Comentário publicado na sexta-feira (19) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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