Companhia das Letras



Vinte minutos, uma vida

Por Wilame Prado

O escritor paulista Daniel Galera contribuiu satisfatoriamente com a história recente do Brasil no romance “Meia-Noite e Vinte” (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 34,90). Como poucos na literatura contemporânea, explorou o contexto online brasileiro, do advento da internet em 1995 até janeiro de 2014, tempo vivido pelos personagens do livro, a partir do assassinato de Andrei Dukelsky, conhecido por Duque.

Na trama, Duque fora um dos criadores do fanzine digital Orangotango (inspirado no verídico Cardosonline, o qual Galera fez parte), vindo a se tornar realmente escritor. Aurora, Emiliano e Antero – amigos dele, também colaboradores do fanzine nos idos de 1999 – são os narradores em primeira pessoa de “Meia-Noite e Vinte”, todos abismados com a morte banal daquele que prometia ser um dos grandes escritores brasileiros.

Em cada capítulo, uma voz diferente. Primeiro, Aurora: doutoranda em Biologia que conheceu o pessoal do fanzine quando fazia Jornalismo e que, principalmente após a morte de Duque e após uma negativa numa apresentação acadêmica, se vê inserida na espiral do pessimismo dos tempos de agora, a qual lhe faz pensar no fim do mundo. Depois, Emiliano, jornalista freelancer mais velho, gay e que está incumbido de escrever uma biografia do amigo escritor morto. Por fim, Antero, um exótico inteligente da área de Humanas que, mais velho, casado e com filho, acaba ficando rico com o passar dos anos após fazer sucesso com a sua agência de publicidade.

Daniel Galera consegue convencer ao propor três modos diferentes de contar uma história cheia de pontos em comum, sempre direcionada à vida e obra de Duque. O contexto do romance se destaca mais que a história principal: a de três amigos que se reencontram numa Porto Alegre real e terrível – verão escabroso, fedida e cheia de greves – para um velório.

“Meia-Noite e Vinte” não é sobre amizade, porém: é sobre internet, hábitos de uma geração que começou com o ICQ e chegou ao WhatsApp e aos chats pornográficos, os perigos da literatura em meio ao que é banal e principalmente sobre o tempo que escorre das mãos, todos ficando velhos e cansados, mas ainda tão próximos e nostálgicos da época da juventude, da virada do milênio, anos 2000.

A história se aproxima do leitor porque, arrisco dizer, o leitor de Galera viveu boa parte daquilo narrado por Aurora, Emiliano e Antero. Ler “Meia-Noite e Vinte” é como ler a sua própria história recente, sentindo saudosismo e ao mesmo tempo refletindo amargamente o quanto tudo parece estar cada vez pior – ainda que com as facilidades flagrantes de uma vida pós-moderna que se esgota quase que inteiramente olhando para uma tela de smartphone.

É como se tivéssemos perdido a noção do tempo e, também, a queima de fogos tradicional da virada de ano, na meia-noite. Passaram-se vinte minutos, uma vida se passou.

ESTANTE
MEIA-NOITE E VINTE
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 208
Preço sugerido: R$ 34,90

*Resenha publicada no caderno Cultura do Diário em 24 de fevereiro de 2017

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Todo mundo lê Knausgård

Karl Ove Knausgård: os seis livros da série somam 3,5 mil páginas

Karl Ove Knausgård: os seis livros da série somam 3,5 mil páginas

Por Wilame Prado

A Companhia das Letras continua apostando na série “Minha Luta”, do escritor Karl Ove Knausgård. Depois de “A Morte do Pai” (2013) e “Um Outro Amor” (2014), a editora lançou este ano “A Ilha da Infância”, terceiro volume da série de seis catataus de romances autobiográficos de um dos escritores sérios que fazem mais sucesso atualmente no planeta. O livro recém-chegado investiga a memória, o universo familiar e a construção da identidade do norueguês atualmente radicado na Suécia.

Se no terceiro volume da série foram principalmente os medos da infância o alvo de Knausgård, nos livros anteriores ele tratou com maestria temas importantes de sua própria vida: as consequências trazidas pelo lento suicídio do pai com o consumo excessivo de álcool, e o encontro de um novo amor após conhecer Linda Boström, sua segunda mulher e mãe dos três filhos do escritor. O que tem chamado a atenção é o motivo pelo qual muita gente não tem conseguido parar de virar as intermináveis páginas desta série de livros que não traz nada de novo, a não ser um relato aparentemente honesto da vida do autor.

É como ler diários bem escritos de um ilustre desconhecido e compartilhar de suas lutas cotidianas, que consistem no desafio de ser um bom escritor em meio ao cotidiano de um cidadão comum, que troca fraldas dos filhos pequenos, que briga com a vizinha louca, que tem de lidar com os arroubos depressivos da mulher, que vai ao mercado comprar ingredientes para o jantar, que confessa adorar a sensação de se estar completamente bêbado – e que odeia os arrependimentos causados por ressacas físicas e morais – e que precisa unir forças com o irmão para sepultar o pai.

Não há estilo rebuscado na autoficção do escritor e nem histórias sensacionais reveladas. Não se torce para que o mocinho Knausgård se dê bem no final do livro, tampouco há apelos sexuais, cômicos ou melancólicos em demasia. O autor vai muito mais pela fidelidade da narração dos fatos do que qualquer joguete de ironia ou sarcasmo. Nos romances, o autor mescla uma incansável capacidade de descrição de cenas cotidianas, ensaios sobre arte e literatura e algumas epifanias pontuais, extremamente tocantes no que se refere aos dramas existencialistas que golpeiam qualquer pessoa que pare para pensar na inutilidade humana em meio a uma sociedade vazia e consumista.

Por que todos leem Knausgård? Essa parece ser uma pergunta difícil de responder, assim como é difícil escrever ou dizer o nome do autor. Talvez seja porque, mais do que qualquer ficção mal contada ou produto midiático mal-ajambrado, ele escreva as suas verdades de maneira honesta. Verdades estas que, pensando bem, são as verdades que rodeiam e que tanto assustam aqueles que vivem neste mundo (ocidental, principalmente), nas últimas décadas do século 20 e neste início de século 21.

ISTO É KNAUSGÅRD
“Nos últimos anos eu tinha cada vez mais perdido a fé na literatura. Eu lia e pensava, isso tudo foi inventado. Talvez fosse porque estivéssemos completamente rodeados por ficções e narrativas. Aquilo tinha inflacionado. Não importava para onde olhássemos, sempre encontrávamos ficção. Todos esses milhões de livros pocket, livros em capa dura, filmes em DVD e séries de televisão, tudo dizia respeito a pessoas inventadas num mundo verossímil, mas também inventado. E as notícias do jornal e as notícias da televisão e as notícias do rádio tinham exatamente o mesmo formato, os documentários tinham o mesmo formato, também eram narrativas, e assim não fazia diferença nenhuma se a narrativa que contavam tivesse acontecido de verdade ou não. Havia uma crise, eu sentia em cada parte do meu corpo, algo saturado, como banha de porco, se espalhava em nossa consciência, porque o cerne de toda essa ficção, verdadeiro ou não, era a semelhança, e o fato de que a distância mantida em relação à realidade era constante.”
///Trecho do romance “Um Outro Amor”, de Karl Ove Knausgård

13618_ggESTANTE
A ILHA DA INFÂNCIA
Minha Luta – Volume III
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 440

13089_ggUM OUTRO AMOR
Minha Luta – Volume II
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 592

13088_ggA MORTE DO PAI
Minha Luta – Volume I
Karl Ove Knausgård
Número de páginas: 512

*Reportagem publicada em 27 de maio de 2015 no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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