Conto



Retardatário

 

Por Wilame Prado

A vida real é sua maior aventura. Diz o slogan do Jeep Renegade. Carro que persigo há algum tempo. Pelas ruas, avenidas, rodovias. Até em outras cidades. Minha maior aventura já foi a vida real. É que preciso te encontrar. Falar o que senti. Tira, então, o pé do acelerador. Nem de perto consigo chegar. Você desliza pelo asfalto. Com seu Jeep preto. Com as suas coisas no banco de trás. Com a sua musiquinha no volume nem tão alto assim. Posso ver seus olhos diante do retrovisor. Lembrar, pelo menos. Sua beleza era tanta para comprar pão na padaria. Nunca pude entender suas manias. Até que tive ousadia. Disse que seria minha. Simples assim. Logo, aprendi que objetificava uma vida. Não há laço, vínculo ou relação. Com quem só quer correr na pista. Ir para frente. Esperar o sinal abrir. E sumir. Sua maior aventura foi o caminho que seguia. Nunca te alcancei. Um azarão da corrida. Ruim de volante. Medroso no velocímetro. E você corria, corria. Hoje não corre mais. Não se mexe mais. Não volta mais. Sigo lhe procurando. Perseguindo Jeeps Renegades pretos. Alucinado no autoengano. Entrando em confusão. Sendo chamado de ladrão. Pedindo perdão. Com a cara no chão. Nunca pude entender acidentes de trânsito. A violência. A vida num segundo. O choque. Ferragens retorcidas. Design terrorista. A mais bela aventura. Lançamento do ano. Modelo amassado. Airbags já acionados. ABS desperdiçado. E sangue no asfalto. Vida real. Você não é mais real. Nunca foi. Ia além. Mãos no volante. Pé no acelerador. Olhos no retrovisor. A mais bela das motoristas. Sigo a procurar este seu olhar. Mas sempre estou atrasado.

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Elas têm a palavra, e os prêmios também

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

À esquerda, Vanessa Barbara; acima, Sônia Barros; e embaixo, Adriana Griner: só deu elas no PR de Literatura. —FOTOS: DIVULGAÇÃO E RAFAEL ROCHA CARDOZO

Por Wilame Prado

É de se destacar a boa literatura que vem sendo produzida por escritoras brasileiras. Anunciado ontem pela Biblioteca Pública do Paraná, o resultado do Prêmio Paraná de Literatura 2014 revelou a superioridade delas em todas as categorias: a paulistana Vanessa Barbara venceu o prêmio Manoel Carlos Karam com o romance “Operação Impensável”; a carioca Adriana Griner é a vencedora do prêmio Newton Sampaio com a coletânea de contos “No Início”; e a paulista Sônia Barros venceu o prêmio Helena Kolody com os poemas do livro “Fios”.

Sem nem citar as muitas escritoras em atividade no País que vêm publicando livros elogiáveis mas sem receberem premiações, ressalte-se que, recentemente, o Prêmio São Paulo de Literatura teve, pela primeira vez, uma mulher como grande vencedora: Ana Luísa Escorel recebeu R$ 200 mil ao vencer na categoria Melhor Livro do Ano de 2013 com o romance “Anel de Vidro” (Editora Ouro Azul). Já no último Prêmio Sesc de Literatura, foi escrito por uma jovem de 27 anos o melhor romance na opinião dos jurados. “Enquanto Deus Não Está Olhando” é de autoria da pernambucana Débora Ferraz.

As três mulheres que terão direito a R$ 40 mil e uma tiragem de mil exemplares de seus livros graças à conquista do PR de Literatura não são fracas não: Vanessa, Adriana e Sônia deixaram para trás um total de 630 obras inéditas de autores de todo o País, inscritas sob pseudônimo, e que foram avaliadas por um júri com outras escritoras de prestígio, como Elvira Vigna, Regina Zilberman, Cíntia Moscovich e Luci Collin.

Elas também são persistentes. Em entrevista por e-mail, Sônia Barros – conhecida pela vasta obra de infanto-juvenis – diz que foi o segundo ano a tentar, com o mesmo “Fios”, o PR de Literatura. Para adultos ou crianças, os versos precisam existir, na opinião dela. “A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.”

Estrategistas, sem dúvida alguma, elas também são. Vanessa Barbara, em entrevista para o Estadão, diz que pensou no concurso literário como forma de se “obrigar” a escrever tendo um objetivo – o romance – e um prazo a cumprir – a data limite das inscrições. “É um incentivo tremendo para a produção literária”, opina.

E, por fim, por que não, ousadas em suas propostas literárias? Também para o Estadão, a professora de inglês e estreante na literatura Adriana Griner comenta sobre os diferenciais dos contos reunidos em “No Início”: “Para mim, o livro é, antes de tudo, sobre o amor. Em termos de linguagem, brinco com o primeiro capítulo do ‘Mimesis’, de Auerbach, quando ele compara a linguagem da Bíblia com a da Odisseia.”

Vai vendo!

3 perguntas para Vanessa Barbara

Mesmo autores já conhecidos como você ainda “precisam” dos concursos literários para alavancar a carreira e ganhar dinheiro?
Sim, principalmente pela parte financeira. Viver de literatura é bem difícil (eu, por exemplo, vivo de jornalismo), então um prêmio desses é muito bem-vindo até para quem tem algum reconhecimento na área. Em edições anteriores do prêmio, o José Roberto Torero, o Alexandre Vidal Porto e o Caetano Galindo foram vencedores. Isso diz muito sobre a pindaíba em que vivemos! :p

Conte o que puder contar sobre o processo de criação do romance “Operação Impensável”, sobre a história que o livro traz e também sobre o que pensa desse livro ainda inédito teu.
Já escrevi o romance pensando em mandar para o prêmio – queria submeter esse livro por outros caminhos, sob pseudônimo, para ver se ele realmente valia algo. Também queria ter um objetivo claro e um prazo que servissem de incentivo para trabalhar. O livro conta a história de amor entre uma historiadora especialista em Segunda Guerra Mundial (daí o título) e um programador de computadores que esconde segredos.

Sua versatilidade é invejável. Na crônica e nas reportagens, tem ótimas publicações. Para você, mais conhecida com as crônicas, quais são os desafios na hora de encarar um romance ficcional?
Acho bem difícil escrever ficção, acho que porque não tenho tanta prática… Também porque é um trabalho que exige fôlego, paciência, senso de estrutura… Enfim, é um desafio tremendo.

3 perguntas para Adriana Griner

Trabalha com literatura mesmo?
Trabalho como professora no ensino médio, e só indiretamente estou na área de literatura, através do ensino. Nunca publiquei um livro. Escrevi muito na vida, li mais ainda. Eu era daquelas crianças que atravessam a rua lendo um livro, vêm TV lendo, almoçam lendo. Aos quinze anos diminuí o ritmo de leitura, aos trinta me tornei semi-analfabeta e assim passei a ler bem menos.

O que pode nos contar sobre os contos de “No Início”?
É um livro de contos porque o livro pedia um livro de contos. Como eu reconto histórias do primeiro livro da Bíblia, não haveria outra forma de fazê-lo. Mas apesar de ser um livro de contos, é um livro em que diversos temas perpassam todas as histórias, então são contos independentes, mas que remetem uns aos outros.
O que faço no livro é criar ou recriar as histórias. Algumas histórias são apenas a reprodução da história original, mas com um ponto de vista distinto, pois tento dar voz às personagens femininas que eram tratadas apenas como paisagem ou como objeto da narração. Procuro ver como elas se sentiram ao passar por aquela situação. Em outras histórias a Bíblia é apenas o ponto de partida para eu narrar uma história que não foi contada.

Esperava vencer tão disputado prêmio?
Não, não esperava vencer. Fiquei com o maior jeito de boba ao saber do resultado. Acho que ninguém acredita muito que vai vencer um prêmio como esse, considerado um dos mais importantes do país. O reconhecimento tem um gosto bom.

3 perguntas para Sônia Barros

Atualmente vive só da literatura?
Sim, mas não vivo apenas dos direitos autorais dos meus livros (tenho 17 títulos infanto-juvenis publicados), também visito escolas e participo de feiras literárias, converso com alunos, pais e educadores.

De que maneira os versos e a poesia ajudam ou ajudaram em sua carreira como escritor de livros infanto-juvenis?
Eu não vivo sem poesia. Já na infância, me encantavam os poemas da Cecília Meireles, Mário Quintana, José Paulo Paes… Dos meus 17 títulos infanto-juvenis, vários são de poesia ou prosa poética. A poesia nos torna mais humanos, mais sensíveis. E é com essa sensibilidade que tento escrever, alcançar o leitor, tenha ele a idade que tiver.

O que pode nos contar sobre os poemas de “Fios”?
Foram escritos ao longo dos últimos sete anos, de 2008 a 2014. O título acabou se impondo depois que percebi os muitos poemas retratando “fios” aparentemente distintos, mas, de certa forma, entrelaçados: do ofício, da infância, da velhice, da maternidade, do amor, da memória, da solidão, da morte, da própria poesia, da arte… enfim, os caminhos internos e externos da existência humana. Quem me mostrou isso foi o poeta Donizete Galvão, com quem conversava muito sobre poesia, e a quem o livro é dedicado. Infelizmente, o Doni faleceu em janeiro deste ano. Aliás, um grande poeta, que ainda não teve o merecido reconhecimento no País.

*Reportagem publicada nesta terça-feira (25) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

 

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O conto em questão na Flim

NOCAUTE. À esquerda, o escritor André Kondo, de Jundiaí ; ao lado, o santista José Roberto Torero: conto é tema da conversa

NOCAUTE. À esquerda, o escritor André Kondo, de Jundiaí ; ao lado, o santista José Roberto Torero: conto é tema da conversa

Por Wilame Prado

O conto, a inspiração e o processo criativo dos contistas José Roberto Torero, 51, e André Kondo, 39, são temas hoje para a mesa da 1ª Festa Literária de Maringá (Flim). O bate-papo com os autores começa às 19h30, no Auditório Hélio Moreira, no Centro de Convivência Renato Celidônio (ao lado do Paço). A entrada é franca.

Torero é conhecido pelos contos, pelas crônicas e também pelas participações em discussões futebolísticas. Mas o santista diz estar cada vez mais afastado do futebol. Nem a vitória do Santos sobre o Palmeiras no último final de semana pareceu animar o autor. “Estes últimos anos (o futebol) foi enfeiando tanto que me desinteressei. O Santos ainda consegue certos lances de beleza, mas são um tanto raros.”

Kondo se destaca pelos vários concursos literários conquistados escrevendo contos. Seu livro “Contos do Sol Nascente” dividiu, em 2011, o Prêmio Bunkyô de Literatura em língua portuguesa com “Nihonjin”, do maringaense Oscar Nakasato, e “Retratos Japoneses no Brasil”, organizado por Marília Kubota. Natural de Jundiaí (SP), pela Flim ele também dá a palestra “Produção literária” hoje, às 14 horas, no Hélio Moreira.

Em entrevista por e-mail, os dois escritores adiantaram um pouco do que falarão nesta noite a respeito dos desafios envolvendo a feitura de contos. Torero, engraçado e direto, considera um ato de sorte a sua conquista no Prêmio Paraná Literatura de 2012 com o livro de contos “Papis et circenses”, o que lhe rendeu R$ 40 mil.

Para ele, o conto sempre vem de algo já existente. “Em ‘Pequenos Amores’, um livro de contos de amor, eu olhava casais na rua ou em restaurantes (na época, era repórter do Guia 4 Rodas e ia a muitos restaurantes) e inventava uma história para eles. Já em ‘Papis et circenses’, fiz uma pesquisa histórica sobre os papas e ela serviu de ponto de partida. Ou seja, sempre parto de alguma coisa já existente. Talvez seja falta de criatividade”, comenta o vencedor do Jabuti de 1995 com “O Chalaça”.

Sem ainda ter se aventurado na prosa longa, Kondo diz não saber responder se é mais difícil fazer um conto ou um romance. Mas revela: gosta da liberdade que ele e seus personagens costumam ter nos contos. “Meu processo criativo é simples: apenas escrevo. Não tenho a disciplina de montar a história inteira dentro da minha cabeça antes de começar a escrevê-la. É arriscado, mas gosto de pensar que o meu personagem tem o mínimo de liberdade para caminhar pelo papel, para sonhar, para ter algo dentro dele que eu desconheço. Gosto de me surpreender com ele, de me emocionar. Enfim, gosto de me enganar, de acreditar que aquilo que escrevo é a mais pura verdade.”

Para o também autor dos livros “Além do horizonte”, “Amor sem fronteiras” e “O Pequeno Samurai”, o importante é que o conto emocione, seja por pontos ou nocaute. “Não se vence batendo no leitor, mas escrevendo algo tão bom que ele não queira te dar um soco na cara, mas um abraço”, diz Kondo. Para Torero, que aconselha a leitura dos contistas Dalton Trevisan, Luís Fernando Verissimo, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela, o conto aceita o inusitado: “A prosa curta pede uma estrutura mais aparente, mais surpreendente. No romance um formato estranho pode cansar, mas no conto é algo bem mais suportável. Ele até pede uma certa estranheza.”

PARTICIPE
MESA: O CONTO,
A INSPIRAÇÃO
E O PROCESSO CRIATIVO
Com os contistas
José Roberto Torero e André Kondo
Mediação: Wilame Prado
Quando: hoje, às 19h30
No Auditório Hélio Moreira
Entrada franca

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (22) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Estrela cadente

Por Wilame Prado

Na noite da última terça-feira, Osvaldo saiu de casa às duas horas da madrugada por causa de uma insônia que lhe estava proporcionando pensamentos muito ruins sobre a sua atual condição de vida: separado da mulher e sempre muito distante do filho, que, coincidentemente, passava alguns dias das férias em sua casa e dormia tranquilamente no quarto ao lado.

A pé, foi até o bosque bem próximo de sua casa e se sentou em um banco. Notou que, dali, era possível ter uma bela visão do céu, que, particularmente naquela noite, estava lindo, cheio de estrelas. De repente, viu uma estrela cadente riscando o horizonte. Entusiasmou-se, sentiu-se presenteado, fechou os olhos e fez um pedido.

Alguns segundos se passaram, mas Osvaldo permaneceu com os olhos fechados. Assustou-se quando ouviu uma voz feminina perguntando: “Moço, você está dormindo?”, disse Laura, jovem muito bonita que, com a sua máquina fotográfica, captava imagens da chuva de meteoros, vista naquela noite de qualquer localidade do País.

“Não, me desculpe. Vi uma estrela cadente, fiz um pedido e acabei me distraindo em pensamentos com os olhos fechados”, respondeu Osvaldo.

Os dois permaneceram sentados no banco do bosque por quase meia hora. Laura explicou para ele sobre a chuva de meteoros e as popularmente conhecidas estrelas cadentes. Comentou que, naquela noite em especial, estavam diante da chuva de meteoros Delta Aquarídeas, que propiciava a visibilidade dos detritos e poeiras deixados possivelmente pelo cometa 96P Machholz.

Ela fazia parte de um grupo de observação astronômica. E ele sofria de insônias.

Laura foi embora com a sua bicicleta, mochila e máquina fotográfica. “Será que havia uma luneta dentro daquela mochila?”, pensou Osvaldo, meio distraído, ao vê-la, tão bela, pedalar pelo bosque. Ela o achou interessante, um pouco mais velho que ela sim, mas um sujeito simpático, inteligente e que, em um rápido bate-papo, demonstrou que parecia ser um pai muito amoroso, um trabalhador esforçado. Mesmo assim, preferiu não convidá-lo para o grupo de observação astronômica, sentiu vergonha, talvez ele pensasse que fosse coisa de jovenzinhos com tempo para brincar de ver o céu.

Osvaldo levantou-se e se dirigiu tranquilamente para a casa. A partir daquele dia, Laura seria constantemente lembrada por ele com ternura, sempre associada à estrela cadente que viu cair e que lhe rendeu um pedido. Em casa, abriu devagar a porta do quarto do filho, beijou de leve a sua testa e sussurrou que ele continuasse dormindo com os anjos.

Já em sua cama, o motivo da insônia, agora, era outro. Não entendia por que não pediu, pelo menos, o telefone de Laura. Timidez? Enfim. Temia nunca mais vê-la nesta imensa cidade. E mesmo se a visse, o que diria? Teria coragem para puxar um papo ou apenas acenaria com a cabeça?

O dia começava a clarear e Osvaldo sabia que teria uma jornada difícil pela frente, já que não havia conseguido dormir nada naquela noite. Mas estava determinado a pelo menos tentar mudar de vida. Prometeu para ele mesmo que, se voltasse a encontrar Laura, revelaria para ela o pedido feito para a estrela cadente: uma mulher que botasse ordem na sua vida, que o fizesse parar de sofrer com as insônias e que gostasse de, junto dele, por o filho para dormir desejando “uma boa noite, dorme com os anjos” nos dias em que o garoto tivesse visitando o pai. (A coluna Crônico entra em férias a partir de hoje)

*Conto publicado nesta terça-feira (5) na coluna Crônico, no caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Tristeza no jantar

Por Wilame Prado

O pai ficou triste na hora do jantar. Não era a primeira vez que a sua mulher e a sua filha desrespeitavam a mesa sem sequer perceberem tal atitude. Naquela noite de sábado em especial, veja só, ele estava se sentindo confortável com uma felicidade passageira que chegou como a poeira levada pelo vento e que também se vai ao primeiro olhar. Estava gostando do clima, da calmaria. Sentia vontade de agradecer a Deus por poder, em mais um final de semana, estar próximo da família, com comida na mesa, televisão para assistir mais tarde, uma boa cama para se deitar finalmente. Sensações desmanchadas quando notou o desdém que as duas dedicaram às esfihas de carne, queijo, frango e chocolate compradas por ele no disque entrega do bairro, com preço mais acessível que os praticados no centro, nos shoppings e nos restaurantes chiques.

Havia contas a pagar, afinal. A situação financeira da família estava difícil de ser controlada porque ele havia retornado ao mercado e se sujeitado – regras do jogo – a ganhar muito menos do que ganhava na empresa anterior, onde cumpriu expediente religiosamente ordeiro por mais de dez anos antes de ser dispensado. Sentia-se culpado. Percebia (ou seria paranoia?) o olhar de cobrança da mulher e o ar de desprezo da filha quando anunciou a “boa nova”: o fim do desemprego, o cargo de vendedor na loja de departamento e a necessidade de se acostumar a receber ordens e não o contrário, como fazia anteriormente quando era gerente de setor.

Na madrugada, sozinho na sala, permitindo-se uma dose ou duas, colocou em perspectiva tudo aquilo que aconteceu nas horas recentes e que o deixou para baixo: esfihas entregues, mesa posta, comida em cima da mesa, ele tardando alguns minutos para se sentar, a mulher e a filha já devorando pedaços de massa de farinha e água com carne e cebola em cima, as duas falando meio que com a boca cheia, criticando o gosto, a temperatura, a gordura, a imensa quantidade de cebola, a pouca quantidade de carne, e ele ali, ainda de pé, sem sequer ter se sentado à mesa para o jantar de sábado com a sua família, e ouvindo, “a esfiha lá de não sei onde é bem melhor”, “essa esfiha é horrível”, “está fria”, “pega o refrigerante para mim?”, “vou comer a doce já, porque não quero mais dessa salgada ruim”, “credo, que chocolate podre”, “parece manteiga”, “pai, não dá nem pra comer”, “pelo amor de Deus, por que inventou de comprar esfiha neste lugar?” etc.

Em dez ou quinze minutos, a filha foi escapando rapidamente em direção ao quarto, ao encontro do smartphone ou do computador (ele não sabe) e justificando a necessidade de prosseguir com os estudos para o vestibular que estava próximo. E a mulher, alegando cansaço e dor em algum lugar do corpo, foi para o sofá e até que se distraiu um pouco com o humorístico da TV antes de finalmente ir para a cama. E ele, ia perdendo a fome diante da mesa, solitário, esfihas espalhadas nos pratinhos de papelão, copos sujos, uma mancha de molho de pimenta bem ao lado da sua mão direita, na toalha quadriculada, e o fim, por completo, daquela breve sensação confortável de felicidade que havia sentido antes daquele jantar malfadado de sábado à noite.

Antes de se deitar, o triste pai pensou que não era assim que as coisas deveriam acontecer em um jantar de sábado à noite com a família. Antes das críticas, deveria haver agradecimentos, sorrisos fraternos e a reunião de todos iniciando e terminando juntos a nobre tarefa de saciar a fome, de receber os alimentos que propiciam forças e energias para se continuar vivendo e, mais que isso, prazer pelo ato de comer. Elas nem perceberam a tristeza do pai. E ele preferiu não fazer comentário algum, estava cansado. Ao fim da bebida, na calada da noite, prestes a encostar a cabeça no travesseiro, ele finalmente se lembrou do motivo que o fizera comprar esfihas para o jantar daquele sábado em família, em vez de requentar as sobras do almoço.

Caso elas tivessem esperado para que todos jantassem juntos diante da mesa, ele iria dizer para a sua mulher e para a sua filha que estava se esforçando muito no novo emprego, que havia sim dificuldades, que havia sim, por ora, menos dinheiro entrando como remuneração, mas que ele, pelo contrário, não havia perdido as forças, sequer as esperanças de que, com a ajuda da família, conseguiria sim superar as dificuldades, conseguiria crescer na nova empresa e que, não tenha dúvidas, voltaria a ser um gerente de setor, para que pudessem, ele, a mulher e a filha, retomarem rapidamente a qualidade de vida de outrora dentro daquele lar.

Às oito horas da manhã de segunda-feira, à espera dos clientes dentro da loja, ele já não tinha tanta certeza assim de que conseguiria se reerguer profissionalmente.

*Conto publicado terça-feira (22) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Manhã atípica

Por Wilame Prado

O velho varria a calçada pela manhã. A camisa branca do velho estava com todos os botões fechados, até em cima. Em frente à casa onde mora, ele varria meio que desesperadamente, mais apressado do que em outras manhãs corriqueiras.

Os homens iniciavam seu meio expediente a contragosto. Fazia um vento gelado. Era de manhã, era inverno. Mas quase ninguém estava de blusa. Tempo fechado. A construção precisava continuar. Portanto, eles martelavam, batiam, quebravam e não viam o tempo passar. Muitos demonstraram no semblante uma cara séria, um ar de preocupação e expectativa.

Um senhor de bermuda e camiseta de manga demonstrava, no peito, certo orgulho enquanto segurava a coleira do cachorro no passeio público. O dono pouco atentava, na verdade, à felicidade do cão em sua matinal escapada. Olhava para frente com um ar de esperança, e a espera pela conclusão das necessidades básicas de seu cão se tornou momento ideal para reflexões, cara de sonhador.

Na fila do supermercado, um rapaz concluiu que era uma manhã boa para pensar na Letícia, que há tanto tempo não via. Eram divertidas as manhãs ao lado dela, os dois se permitindo tomarem café preto e pão com ovo, queijo e tomate na padaria mais próxima, justamente em manhãs como aquelas. Mas pagou rapidamente o valor cobrado pela caixa e, como num passe de mágica, esqueceu-se completamente de Letícia.

Uma mãe descascava tranquilamente batatas na cozinha quando considerou aquela manhã como muito boa hora para ligar para a filha que mora em SP e que certamente estava prestes a ir num mercado ou numa feira. Ela nem se importou com as possibilidades de não encontrar a filha em casa. Ligou do mesmo jeito, mas não podia, naquela manhã, ficar pendurada por mais de trinta minutos ao telefone como de costume.

Manhã ideal, pensou Letícia, para abrir a janela do pequeno quarto, no quarto andar do prédio simples e popular, e ver um pouco a paisagem cinza, sentir um friozinho, uma vontade de beber chá e se lembrar de que, naquele momento – em vários momentos –, não há ninguém dentro daquele apartamento para lhe aquecer, para dividir uma bebida quente em manhãs frias como aquela, para simplesmente pedir que feche logo a janela, “está tão frio e você pode pegar um resfriado, menina”. Ao contrário do rapaz da fila do supermercado, nem passou por sua cabeça lembranças de manhãs como aquelas em que se permitiam ir a uma padaria mais próxima tomar café preto e comer pão com ovo, queijo e tomate.

Quem olhava para o velho varrendo inevitavelmente visualizava também enormes bandeiras penduradas na sacada do sobrado onde morava, sede para um bom e velho churrasco que começaria em instantes. Os homens da construção, um deles com boné verde e amarelo, não participariam da confraternização, mas por estarem trabalhando ao lado da casa do velho, daqui a pouco sentiriam cheiro de carne assada e teriam mais vontade ainda de voltar para casa após o fim do expediente. O homem do cachorrinho ostentava a 10 da Seleção Brasileira no peito no meio da rua, mas, dentro de alguns minutos, precisaria voltar para casa e iniciar os trabalhos com sal grosso e carne encomendada no açougue. O jovem da fila do supermercado aproveitava a promoção e comprava boa quantidade de cerveja em lata para abastecer o churrasco que começaria antes, seguiria durante e perduraria depois do jogo. A mãe que ligou para a filha descascava batatas justamente para a maionese que seria servida no churrasco do filho que tinha ido ao supermercado comprar cervejas.

Letícia, que mora na mesma cidade onde todos aqueles aproveitariam os embalos de uma copa do mundo para comemorarem com churrasco não sabem certamente o quê, se esqueceria, naquela manhã atípica de sábado, que era dia de jogo do Brasil. Ela ficaria espantada ao ouvir comemorações de vizinhos pelo primeiro gol da partida, de David Luiz, aos 18 minutos do primeiro tempo, momento em que pensou em até ligar a TV para finalmente começar a ver o jogo, optando, entretanto, por ficar debaixo das cobertas, no quarto, agora com a janela bem fechada.

*Crônica publicada terça-feira (1º) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Lição da juventude

Por Wilame Prado

Que pessoas saudáveis! Que gente bonita! Jovens e mais jovens. Peles claras – sem maltrato –, olhos que brilham. Moças com cabelos sedosos e lisos, extremamente lisos. Homens com cabeçorras, barbas por fazer, na moda, e uma pele que denuncia uma vida de infinitas horas de videogame no apartamento, que lazer, vida mansa, tudo na paz. Geração 2000.

Eles, esses jovens que invadem inevitavelmente o universo de minha visão mediada pelas lentes dos óculos contra miopia, já estão no boteco, já descobrindo os prazeres causados por alguns copos inocentes de cerveja, talvez um baseado e até algumas carreiras para mais tarde. Uma juventude bonita e equipada, alguns já com a posse de veículos, outros com caronas garantidas de volta para casa. Eles parecem se divertir à beça.

Daqui do boteco, vê-se gente pobre, classe média e gente rica. Não importa, a democracia chegou: todos têm Instagram e Whatsapp. A noite é singela. O bar, lotado. A luz do refletor ilumina de laranja um momento único, parecido com o pôr do sol. Mas ninguém percebe. A democracia é cega perante aos fatos poéticos da vida. Não há poesia dentro da tela de um celular. Eles estão na busca pelo selfie perfeito, na pose, sendo poser, todos têm amigos, afinal, e ainda bem, todos têm histórias para contar, todos são engraçados, e bonitos.

Quantas aventuras e peripécias ainda narrarão na mesa do bar? E como eles riem, como são brancos os dentes deles, como é ingênua a felicidade deles, mas eles estão certos, todos certos. Querem mais é extravasar. Mas, então, não me aguento. Chamo o garçom. Pergunto para ele, que parece ter vivido um pouco mais de anos de vida – assim como eu, um, naquele local, velho de 42 anos esperando um pouco do passar de vida na mesa do bar –, e faço a seguinte indagação: “É ou não é tudo isso muito engraçado?”

Sorriso amarelo, ele pergunta se vou querer outra beer. Digo que sim, e digo mais, digo que quero todas as cervejas do estoque dele, e todas as cervejas que ainda restam em cada uma daquelas mesas vermelhas do bar que recebe, gratuitamente, a atmosfera da lua e o ar fresco que deve chegar com a força do vento marítimo, eu sei lá. Finalmente admito a brincadeira, e o garçom sai de perto de mim, sério e espantado. Tenho certeza de algumas coisas: ninguém daquele boteco percebeu a lua mais bonita dos últimos dias e o vento mais refrescante da última estação que se faziam presentes naquele local. Era espetacular, e aquela sensação, uma espécie de beira-mar em pleno bar numa cidade onde jamais existiu praia, também nunca foi registrada em rede social alguma.

Então eu me levanto. Rio comigo mesmo. Soa sarcástico, mas está tudo bem, ninguém percebe a presença do tio ali, pensava eu, transformei-me num ser invisível, o que pode ser bom, dependendo da situação. Só que, inesperadamente, um rapaz muito forte e jovem – daqueles que se aproveitam das tardes amenas para malhar, tomar suplementos e treinar lutas marciais – andou a passos largos e rápidos em minha direção. Parecia furioso, e olhou poucos segundos bem no fundo dos meus olhos. Sem reação alguma, apenas senti uma ardência em meu rosto e um medo muito grande de ficar cego por conta das lentes dos óculos estraçalhadas e engalfinhadas por toda a minha face. Devo ter levado uns sete ou nove socos até ter dado o tempo de garçons e jovenzinhos ao redor conseguirem segurar aquele brutamontes enraivecido.

Ainda ao chão, roupa empoeirada, cara lavada de sangue, uns 30% da visão não comprometida pelas lágrimas, sangue, suor e lente em cacos, finalmente pude encarar o cidadão que se viu no direito de me espancar em praça pública, tal qual o escravo no tronco aguardando a ardência do açoite. E então finalmente entendi o acontecido: ele, sentindo-se um representante desta juventude bonita e de cabelo liso, deve ter percebido tudo. Ao contrário do garçom, o fortinho notou que eu denunciava toda aquela comédia que é a vida em cena, em falsete, naquele boteco carregado de jovens com pele sem maltrato, cheios de dentes brancos e prontos para o manuseio correto de smartphones. Quis ele, o moço da academia e das lutas, fazer justiça com as próprias mãos.

Não pude conter o riso, mesmo com as dores, mesmo com toda aquela aparente humilhação, que, estranhamente, não sentia. Só que quando ele me viu sorrindo novamente, óculos destruído ao chão, garçom dando guardanapo para limpar sangue da boca e do nariz, aí, meu amigo, ninguém conseguiu segurar a fúria desta juventude bem alimentada, principalmente pelos suplementos vendidos na academia. Foi soco e pontapés para todo lado. Acordei na Santa Casa, na manhã do dia seguinte, rodeado por alguns familiares, aparentemente assustados.

*Conto publicado terça-feira (3) na Coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Noite do casal

Por Wilame Prado

Prédio um tanto antigo, daqueles de cômodos maiores, zona 3 de Maringá, Rua Neo Alves Martins, lua cheia, leve chuva fina. O casal é casal pelo que se pode ver na visão dos dois na janela do alto do quarto andar. Faz alguns minutos, parecem preparar algo na cozinha. Um risoto suculento? Um rápido strogonoff? Alguma massa saborosa, quem sabe acompanhada de um bom tinto?

O casal se faz casal. Os dois se beijam, ficam abraçados, se mexem, se tocam, se dispõem ao contato físico e amoroso. Já passa das onze da noite e apostam na gastronomia, em plena segunda-feira. Mas é que é tão bela a lua cheia! Mesmo em fevereiro, o calor deu trégua, pelo menos à noite, e uns ventos batem obrigando-os a recorrer a um lençol fino, no sofá, após o vinho e a comida, juntinhos, assistindo a mais uma tola tela que se diz quente, não importa o filme, o importante é a companhia.

Recém-casados? Ou uma recém-formada em Farmácia – que ainda conta com mesada dos pais – recebendo a visita do namorado em plena segunda-feira simplesmente pelo fato de terem quase morrido de saudades após menos de 24 horas longe um do outro?

Tinham passado o domingo inteiro juntos, shopping, cinema, sorvete, champanhe e motel. Mas nada disso importa mais. O importante é que ela finalmente conseguiu o ponto certo do macarrão – al dente – e ele trouxe aquele vinho maravilhoso.

E ela pensa: deixe as 7h15 só para a manhã de amanhã, para depois o retrabalho levado para casa, para outra segunda a faxina do apê e para outra noite aquela boa pesquisa na internet em busca de uma pós-graduação decente.

E ele reflete: nesta noite, nada de academia, treino de Muay thai, programas na TV de discussões tolas sobre a última rodada do campeonato, futebol society com a turma de colegas do tio, pôquer com os amigos, Pro Evolution Soccer no videogame dos primos, cachorro-quente prensado na Colombo, conversa com pais e avós todos sentados em cadeiras de área ou, não menos importante, aulas chatas de Cálculo II na universidade.

O clima está gostoso, a lua está no céu e, ainda que recatada, ela até que gosta de se ver assediada por ele, que nem quer esperar o jantar para levantar a blusinha dela, na janela da cozinha mesmo, do alto do quarto andar, enquanto gente na sacada dos prédios ao redor vê tudo isso. E de tudo isso, nada importa. Afinal, acho que eles se amam.

Naquela noite choveu uma leve chuva fina em Maringá. E o casal de namorados nem imaginava, mas, por entre o fino lençol, no sofá da sala, sem nem perceber que o filme já tinha acabado, estavam os dois gerando aquele que seria o primeiro filho de uma linda família.

*Conto publicado nesta terça-feira (25) na coluna Crônico, do caderno Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Escada rolante

Por Wilame Prado

Um dia, parei pra contar: em uma hora de uma tarde qualquer de domingo, desceram pela escada rolante 357 pessoas. Foram 357 destinos que desceram do quarto andar do shopping direto pro terceiro andar. O que foram fazer? Entraram em outras lojas, compraram mais, comeram mais, usaram mais vezes o banheiro, usufruíram por mais tempo do ar-condicionado? Não sei. Muitos foram embora. Encararam o calor da Avenida São Paulo ou o dióxido de carbono detido no estacionamento subterrâneo. Durante toda aquela uma hora em que parei pra observar as pessoas se locomovendo pela escada rolante, apenas uma senhora encheu o saquinho transparente com 186 gramas de doces coloridos vendidos no quiosque onde trabalho.

Já estou acostumada ao trabalho de domingo. Pego a Biz, ando dezenas de quarteirões maringaenses e chego ao shopping. Tiro o tecido preto de cima do quiosque e visto, por cima da minha blusinha regata, a camiseta gola polo rosa e quente contendo no peito a logomarca da doceria. A dona quer que eu seja vista como um marshmallow rosa à disposição para o consumo dos clientes.

Mas não sou um doce que se pode mastigar facilmente. Nem um chiclete que nunca acaba e que perde o gosto rapidamente. Sou uma pessoa. E isso quase ninguém tem percebido ultimamente. O pessoal gosta de falar do sacrifício do trabalhador rural, do operário, dos pedreiros na construção civil. Mas poucos se lembram de mim: só uma garota de quase 30 anos, que almoça todos os domingos com os pais e que anda todos os dias com a sua pequena moto rumo a um quiosque que fede xarope de milho e açúcar. Das 357 pessoas que desceram a escada rolante naquele domingo, nenhuma olhou para mim.

Um dia, um moço casado olhou para mim. E permaneceu olhando. Não teve jeito: tive que procurar serviço para fazer e assim poder disfarçar. A situação estava embaraçosa. Quando a mulher dele olhava para o lanche que comia, ou então para o enorme copo de refrigerante em cima da mesa, ele me olhava. Sentia desejo, parecia. Uma pessoa, naquele instante, tinha percebido que, por trás de doces envelhecidos e camisetas ridículas, havia uma mulher. Gostei dele. Gostei da humildade em me reconhecer como gente. Era bonito e pouco importava se, na realidade, tinha segundas intenções. O dia estava salvo, e, às vezes, um olhar bastava para que eu pudesse chegar em casa um pouco menos infeliz.

O resto da história vocês já sabem. Vendo a reciprocidade do olhar, o homem voltou no dia seguinte. Encheu um saquinho de chocolates, balas e chicletes. Presenteou-me. Dar guloseimas para alguém que vende guloseimas é o pior presente que alguém pode dar. Resolvi não contar para ele quantas vezes vomitei ao me lembrar do cheiro daquelas verdadeiras borrachas envoltas no açúcar as quais preciso vender de segunda a segunda. Mas disse para ele duas verdades: eu odeio doces e não fico com caras casados. Ele parecia estar enfurecido descendo a escada rolante. Era apenas mais uma pessoa que descia aquela escada rolante sem sequer olhar para mim.

*Conto publicado nesta terça-feira (28) na Coluna Crônico, do Caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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Telefone celular

Por Wilame Prado

Ele disse “window”, eu ouvi, ele cantou “window”, e estou numa janela.

Nada de anormal: ouvindo Thom Yorke numa janela.

Foi legal ouvir uma das únicas palavras que sei a tradução em inglês em plena window.

Hoje já é amanhã. Passa das zero horas. Na janela. Fones abraçam minhas orelhas. Digito em um pequeno teclado de aparelho celular que me permite ouvir música e escrever. Até ligação faz.

Odeio telefone, falar ao telefone, trocar telefones, por favor não me ligue mais, nem peça meu número. Fiquemos só com as palavras, com o vento, com o vinho. Calço 41, mais números, impossível dar, não posso me comprometer. O que é WhatsApp?

Não gosto de telefone, mas gosto de coisas que me permitem ler, escrever e ouvir música. No fim, é isso o que salva, que resta, que não cobra, que não chora nem grita, ao telefone, sempre o maldito telefone.

Todos reclamam bulas inteiras de remédio alegando a falta de sinal da operadora de telefonia. Eu rio. Eu gosto. Estava com um celular, antes desse, que não cantava música nem me deixava ser escritor de smartphone. Era singelo o celular antigo, capinha não tinha para proteger a bateria, o seu sangue vital. Acabou morrendo. Não ligava mais. Perdeu sangue. Eu nem ligava (literalmente). Ria sem bateria e sem sinal.

E então me enfiaram um novo telefone. Que canta, escreve e até fala de vez em quando. Mas eu não gosto dele não: ouvir aquela linda mulher – o meu amor – chorar do outro lado da linha não é mole, corta o coração da gente, silencia música, breca os dedos digitadores e cala minha voz; torço, então, para cair o sinal, para o “sanguinho” da bateria secar.

Ouço Thom Yorke cantando “window” – “Before Your Very Eyes” é a primeira canção do disco “Amok”, do grupo de rock norte-americano Atoms for Peace, cujo vocalista é o líder do Radiohead e que propõe, na letra da canção, que ela, “moça jovem e de boa aparência”, “olhe pela janela” e veja o que passa diante de seus olhos (o tempo, o tempo, “alma velha sobre ombros jovens”) – quando hoje já é amanhã e o vento refresca só a pele pelos buracos da camiseta e nada de abrandar as quenturas da alma.

Penso naquele choro da minha linda e amada mulher ao telefone. Jamais esquecerei aquele som. O barulho ensurdecedor das lágrimas caindo ao chão. Fecho a janela, deixo o smartphone de lado, tomo outro gole de vinho e vou dormir, aguardando o maldito celular me servir, daqui poucas horas, como despertador para mais um dia.

Como mágica, não há ressaca, não há janelas abertas, não há mais calor, Thom Yorke e nem despertador. Estou sonhando acordado, meu Deus? Aquele lá sou eu, ainda deitado na cama, nada de choro, nada de ligações pelo aparelho celular. Tudo está em paz. Ela está ao meu lado, e como fica linda dormindo! Até o gato garantiu um espaço na cama de casal. Tudo está em paz. Ainda bem. E, então, não há como não parafrasear o Vanguart, na bela canção “Meu Sol”, do último disco “Muito Mais que o Amor”: “A vida é tão mais vida de manhã.” Tomamos café e, a partir daquele dia, resolvemos que nunca mais atenderíamos as ligações de nossos aparelhos de telefone celular.

*Conto publicado nesta terça-feira (17) na coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)

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