Contos



Contos do futebol

Por Wilame Prado

Júlio Cortázar professorou: no conto se ganha por nocaute e no romance se ganha por pontos. O escritor argentino – que era apaixonado por boxe – dizia que o futebol é “altamente entediante”. O autor do clássico O Jogo da Amarelinha que nos perdoe, mas ele talvez tenha assistido aos jogos errados.

No esporte bretão vale gol de barriga e de bicicleta, vitória por meio a zero e por doze a um. A narrativa do futebol é inenarrável, praticamente ilegível, convém-se apenas assistir, e de preferência torcer por um dos dois times que traçam o duelo dentro das quatro linhas brancas que delimitam o retângulo de gramado verde mais cobiçado do mundo. José Roberto Torero, 51, escritor nascido em Santos (SP) e torcedor famoso do Santos Futebol Clube, sabe muito bem destas coisas: sobre romances, contos e também sobre futebol.

Torero – cerca de 30 livros publicados – esteve por aqui durante a 1ª Festa Literária de Maringá (Flim). Vencedor da primeira edição do Prêmio Paraná Literatura na categoria contos com o livro “Papis et Circenses”, em 2012, foi convocado para uma mesa cujos assuntos debatidos foram o conto, a inspiração e o processo criativo. Nada de futebol…

Dividiu a mesa com o escritor de Jundiaí (SP) André Kondo, 39, espécie de maratonista de concursos literários: após a mesa, dando uma carona para os dois escritores rumando a um bar decente maringaense que servisse comida, bebida e exibição de mais uma rodada de futebol em telas gigantes de TV, o autor de “Contos do Sol Nascente” calculava ter conquistado prêmios em mais de cem concursos literários. “Foi a forma que eu encontrei de me bancar apenas vivendo da literatura”, defendeu o torcedor – hoje não fanático, jura – do Sport Clube Corinthians Paulista.

Diferenças à parte, Kondo, sempre educado, muito polido, tardou em revelar para qual time torcia. Estava diante de dois santistas roxos (eu e Torero) e uma são-paulina (minha mulher) na mesa. A questão envolvendo a preferência por times paulistas em pleno interior paranaense fica para outra história.

Em vez de defender com unhas e dentes – como todo corintiano faz – a trupe atualmente liderada por Paolo Guerreiro no ataque, Elias no meio e Gil na defesa – o contista resolveu contar, já na mesa do bar, sobre a final da Copa do Mundo de 2002 entre Brasil e Alemanha no Japão. Kondo estava no Estádio Internacional de Yokohama no dia em que Ronaldo e Rivaldo deram o pentacampeonato à seleção brasileira, mas curiosamente nem viu os gols, estava mesmo é curtindo a festa. Não há palavras, segundo ele, para explicar a emoção de estar num estádio em final de copa do mundo. Mas pelo menos deixou a experiência registrada em forma de crônica, em algum jornal de cidade pequena, recordou-se.

Torero, já devorando a porção de tilápia no palito e o seu suco de goiaba com água, não conseguia prestar muita atenção na gente: através do smartphone, aguardava notícias sobre o filho recém-nascido passando pela primeira febre alta de sua vida e também sobre alguns quiproquós gerados na produção da próxima entrevista que realizaria para o Super Libris – programa que está desenvolvendo para ser exibido, no ano que vem, no Sesc TV, só entrevistando escritores brasileiros, de variadas localidades.

No lugar privilegiado em que estávamos naquele bar, curtindo um vento que se fazia ainda mais refrescante naquela noite quente graças aos bons ares vindos do Parque do Ingá – bem ali ao lado – uma TV de 50 polegadas, a três metros de distância da mesa, não conseguia chamar a atenção dos santistas, ainda que, como atração principal, jogavam, na Vila Belmiro, Santos x Fluminense, partida válida pela trigésima rodada do Brasileirão. Jogo fraco, mesmo contando com o nosso eterno Pedalada (o Robinho) e o Gabi Gol (a nova esperança criada no celeiro do Alvinegro Praiano) dentro de campo.

Momentos antes, desta vez na mesa literária, a qual mediei, lembro-me de ter tido o atrevimento de perguntar para o Torero se escritor santista costumava ser craque nas linhas, tal qual Pelé, Robinho e Neymar foram e são nos gramados. “Pelé é insuperável, é praxe, e, acredite, não há assim tantos santistas vivos por aí, torcendo ou escrevendo”, brincou o modesto escritor, que considerou como um “golpe de sorte” a conquista do disputado prêmio literário paranaense, há dois anos. Não foi apenas sorte: “Papis et circenses” – um conto para cada papa, de Pedro a Francisco – é uma das maiores críticas já feitas sobre o papado. Ironia fina, sarcasmo puro e a concisão em forma de contos que estamos acostumados a ler em textos de Dalton Trevisan, Sérgio Sant’Anna e Luiz Vilela.

Durante a mesa literária, quase não encontro brechas para falar de futebol. Na verdade, é momento para falar do conto, que, para Kondo, deve ser algo como um abraço no leitor, já para Torero, a depender da ocasião, deve ser sim um murro bem dado no estômago. Criou-se ali, interessantemente, uma espécie de embate saudável entre as diferentes formas de se contar uma breve história: abraço, soco, vitória por pontos, por nocaute, contos com finais felizes e motivadores, contos sobre papas sacanas…

No boteco, sim, encontramos finalmente a descontração necessária para falar das banalidades da vida, futebol, gols e a ‘não literatura’ envolvendo o esporte considerado paixão nacional. Foi quando o Torero – que há alguns anos abandou a crônica esportiva, a coluna na Folha de S. Paulo e até o blog no UOL – admitiu ter ensaiado algumas tentativas futebolísticas in loco, todas frustradas. “Eu ficava muito irritado em campo. Fui um mediano meia”, confessou ele, hoje um crítico do futebol feio – a la Leandro Damião – praticado no País. “Nestes últimos anos, o futebol foi enfeando tanto que me desinteressei. O Santos ainda consegue certos lances de beleza, mas são um tanto raros”, havia afirmado o escritor dias antes, numa entrevista concedida por e-mail.

“Futebol não rende literatura. O futebol fala por si só, não precisa ficar escrevendo muito sobre. A pessoa já consumiu aquilo ali assistindo ao jogo, que muitas vezes é meio mágico, meio literário. Para quê escrever depois sobre?”, filosofou, por fim, na mesa do bar, Torero, autor de “Santos, um time dos céus”, “Futebol é bom pra cachorro”, “Dicionário Santista, de A a Z, mas sem X”, “Uma história de futebol”, “Pelé 70”, “Nove contra o 9”, “Futebologia” etc.

Replico citando “O Drible”, romance elogiado, publicado em 2013 por Sérgio Rodrigues e finalista do Prêmio Jabuti em 2014. “Eu li, é bom. Mas não é um romance especificamente sobre futebol, mas há futebol ali”, explicou o escritor santista, que, em meio ao bate-papo com a gente e com as batalhas no aparelho celular, nem viu que (a velha caixinha de surpresas), aos 45 minutos do segundo tempo, o pouco habilidoso volante Edson empurrou de carrinho (o típico gol feio) a bola para as redes do goleiro Aranha, dando a vitória para o Flu e afastando de vez a chance de o Santos alcançar o G4 no Brasileirão e, consequentemente, obter uma vaga para a Libertadores do ano que vem. Coisas do futebol, e que fazem qualquer escritor deixar a mesa do bar extremamente aborrecido de volta para o seu hotel, em outro bairro de Maringá.

Também retornando para o mesmo hotel, o corintiano Kondo segurou o riso e a comemoração com a derrota de seu rival, mas penso que, por dentro, lavou a alma. O conto que abraça o leitor venceu.

*Texto publicado em dezembro de 2014 no jornal O Duque

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Vale bem mais que 2,99

Caricatura de Marcio Renato dos Santos que faz parte do projeto gráfico das Tulipas Negras para "2,99"

Caricatura de Marcio Renato dos Santos que faz parte do projeto gráfico das Tulipas Negras para “2,99”

Por Wilame Prado

O cotidiano das cidades é prato cheio para quem procura histórias a serem contadas por meio dos textos. O difícil é enxergá-las. Nem tanto para Marcio Renato dos Santos, 40 anos, que lançou recentemente em Curitiba “2,99” (Editora Tulipas Negras, R$ 30, 120 páginas). Para o seu terceiro livro de contos, o curitibano se apropriou do olhar treinado de repórter – profissão exercida por vários anos nas redações da revista Ideias (Travessa dos Editores) e no Caderno G (Gazeta do Povo) – para enxergar a ficção literária que o cotidiano revela.

Os 16 contos curtos do livro revelam personagens em práticas cotidianas atípicas, a exemplo dos Gattelli, do conto “Segredo de família”, que sabem da importância de se haver anões se relacionando com as mulheres da família para que haja prosperidade nos negócios; ou então dos bigodudos envolvidos no concurso semanal de imitadores de Paulo Leminski, no conto hilário “A noite está velha”, que, de uma maneira muito sutil, com as aventuras envoltas ao anti-Leminski, critica a cena, a pose, as modinhas literárias. O que dizer do conto tragicômico “O Souza da Ilha”, que narra a história do Souza, vendedor há 20 anos de batidinha no litoral e que diz, para o mesmo cliente, na beira da praia, a mesma frase, dez ou quinze anos depois do primeiro encontro: “A Mega está acumulada. Dessa vez eu ganho.”?

É como se Santos, que atualmente trabalha na equipe editorial da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, incorporasse seu lado repórter apenas para o deslocamento do olhar e, no momento em que finalmente coloca as histórias no papel, se deixasse levar pela liberdade de invenções que a prosa oferece. O resultado disso são contos sucintos, brilhantemente claros graças à facilidade que o autor tem de contar uma história por meio do texto e, em certa medida, engraçados. Certa medida porque, a depender da avaliação que se faz quando se olha um cotidiano aparentemente absurdo, pode-se concluir o quanto de loucura há na vida dos mais comuns dos homens que vivem nas cidades.

Tal qual um simples artigo do cotidiano vendido em lojas a preços fixos e populares – R$ 1,99, R$ 2,99, R$ 3,99 – o autor aparentemente oferece seus contos sem preocupações, sem ambições. E justamente pelo fato de conseguir ser simples ao contar histórias engraçadas envolvendo lugares comuns com pessoas estranhas, ele tem alcançado um grande – senão o maior – objetivo com os contos publicados: leituras. Além dos conhecidos, jornalistas, professores e um público que adquire o livro nos lançamentos e nas livrarias, “2,99” vem sendo recomendado como leitura em colégios da capital e de cidades próximas. Certamente auxiliará para que alguns jovens criem o hábito da leitura.

ISTO É MARCIO RENATO DOS SANTOS
“Enquanto o Alberto, o Bernardo, o César, o Daniel, o Ferdinando, o Gastão, o Hamilton e outros tantos devem ter vindo ao mundo com uma missão, talvez destinados a construir algo, aterrissei por aqui a passeio ou, com mais precisão, a descanso. Vim para beber, me embriagar e viver aquele estado no qual a razão não tem vez.

Beber todo dia, toda noite, me trouxe dor de cabeça. A sensação dos primeiros goles é prazerosa, mas nos minutos, horas, copos e garrafas seguintes o que se entende por raiva toma conta do que sou. Já perdi o controle e me envolvi em conflitos por causa do consumo de álcool. Briguei, bati, apanhei, mais apanhei do que bati, e os efeitos foram irreversíveis. Afastei-me de amigos, desfiz casamentos, inclusive o meu, e escapei de balas disparadas por armas de fogo contra o meu corpo.

O que me trouxe mais problemas foi a minha covardia no mundo físico, que se transformou em uma coragem relativa, na realidade da internet. Apesar de cordial, de sorrisos, bom dia, oi tudo bom? tudo bem? – ao beber, me transformo em um sujeito hostil, talvez o ser agressivo real, que eu camuflo e dissimulo para sobreviver.

Já havia lido, na internet mesmo que, se beber, não tecle; se beber, não entre nas redes sociais. Mas entrei, bêbado, por diversas vezes, na internet, em especial, no facebook.”
///Trecho do conto “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni”, do livro “2,99”, de Marcio Renato dos Santos

ESTANTE

JPG72 capa 2,99

2,99
Gênero: contos
Autor: Marcio Renato
dos Santos
Editora: Tulipas Negras
Páginas: 120
Preço: R$ 30
Onde comprar: www.livrariascuritiba.com.br

ENTREVISTA

Primeiramente, por que resolveu levar o “2,99” para várias escolas

MARCIO RENATO DOS SANTOS – Meu segundo livro de contos, o “Golegolegolegolegah!”, publicado pela Travessa dos Editores, em 2013, teve leitura em escolas, sobretudo em alguns colégios do Sesi, na unidade do bairro Boqueirão, em Curitiba, e na unidade de Araucária, na região metropolitana de Curitiba. Agora, a Ana Paula Galkowski, coordenadora do Colégio Sesi de Castro, apresentou o “2,99” aos alunos do Colégio Sesi de Castro. Sessenta alunos vão ler o “2,99” nas férias e, em agosto, devo bater um papo com eles. É sensacional, não é? Dia desses, um aluno que leu “Golegolegolegolegah!” me contou, pelo Facebook, que comprou, leu e gostou de “2,99”. Que tal? Isso é uma beleza. Os meus livros circulam entre escritores, jornalistas, professores e, enfim, não sei exatamente quem lê a minha ficção. Mas ter a oportunidade de ser lido por alunos do ensino médio e, em seguida, conversar com os alunos sobre a minha obra literária é algo sensacional. Para mim, é quase um milagre. E penso que a leitura de ficção contemporânea pode ser estimulante para esses alunos do ensino médio.

Uma curiosidade: como é a vida aí na capital plenamente envolvido em trabalhos envolvendo jornalismo e literatura? Produzir o Cândido, trabalhar na Biblioteca Pública do Paraná, tudo isso tem auxiliado ou atrapalhado sua produção de ficção?

Estreei na ficção com “Minda-au”, livro de contos publicado pela Record em 2010. Naquela época, eu trabalhava na Gazeta do Povo, no Caderno G. Os contos de “Minda-au” foram escritos de 2007 a 2008, período no qual eu já estava no jornalismo diário. Escrevo ficção desde 1986, quando comecei mesmo a ler ficção e poesia todo dia. Se teve um marco? Eu passava férias na casa do meu tio Luiz, que morava em Maringá — hoje ele mora em Camboriú. Naquelas férias de 1986, li, na casa dele, em Maringá, “Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva. Até então, eu lia os livros na escola, em casa, mas aquele livro do Marcelo Rubens Paiva me tocou muito. A dicção contemporânea, a prosa fluente e trama insinuante me pegaram. Em seguida, procurei outros livros. Continuo até hoje, 2014, em busca de mais livros. Leio todo dia. Mais de um livro ao mesmo tempo. E foi a partir das leituras que comecei a escrever. Em 2000, passei a colaborar, como resenhista, com o Rascunho e até 2010 escrevi uma resenha por mês, isso durante uma década, no Rascunho. Só parei de resenhar por que a Record lançou “Minda-au”, o meu primeiro livro. Demorei para procurar editora. De 1986 até 2008, 2009, escrevia todo dia, lia todo dia, sem pensar em publicar livro. Foi por volta de 2008, 2009, que pensei em enviar um original para uma editora. E escolhi a Record. Enviei “Minda-au” e a Luciana Vilas-Boas, então diretora-editorial, decidiu publicar o livro. Depois, publiquei o segundo livro, também de contos, “Golegolegolegolegah!”, pela Travessa dos Editores, em 2013. Este ano, publiquei, em maio, o “Dicionário Amoroso de Curitiba”, pela editora Casarão do Verbo, da Bahia — é um projeto no qual um escritor de cada uma das cidades-sedes da Copa 2014 escreve um livro com verbetes sobre a cidade. E, em junho, publiquei pela Tulipas Negras esse “2,99”. Tudo isso pra te dizer o seguinte: a vida segue, trabalho e leio e escrevo ficção. Até maio deste ano deu certo. Faço, entre outras atividades, as matérias para o Cândido, trabalho na Biblioteca Pública do Paraná e, em casa, à noite, e de madrugada, acontece a ficção. Pelo menos até maio deste ano. O resto eu conto em outra pergunta, aguarde.

Produz também prosas mais longas ou é um defensor convicto do conto, e por quê?

Somos frutos do meio no qual nascemos? Não sei. Sei que nasci dia 28 de abril de 1974 em Curitiba, a terra do conto. Paraná, terra de Newton Sampaio (1913-1938) – ele nasceu em Tomazina, o primeiro autor moderno do Paraná, contista, a respeito de quem fiz uma dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Paraná em 2005. O Dalton Trevisan foi leitor do Newton Sampaio, e fez menção ao autor na revista Joaquim, que o próprio Trevisan editou entre 1946 a 1948. Nasci e moro em Curitiba, cidade do Dalton Trevisan, um mestre do conto. Convivi com Jamil Snege (1939-2003), outro mestre do conto. Também convivi com Wilson Bueno (1949-2010), que foi um excelente contista. Leio romance, poesia, não ficção e leio conto. Talvez eu tenha começado, em 1986, a escrever conto por causa dos livros do Dalton Trevisan. Admiro muito os contos do Machado de Assis, do Antonio Carlos Viana, do Sergio Faraco e do André Sant’Anna. Dizem que conto não vende? Mentira. Claro que vende. Dizem que poucos leem conto? Mentira. Há muito público para o conto. Eu continuo a responder essa pergunta ao longo das próximas respostas, combinado?

O que almeja, ou pelo menos imagina almejar, com os textos publicados em “2,99”?

Eu gostaria que os textos de “2,99” fossem lidos. O livro está à venda nas lojas da Livrarias Curitiba, na Livraria Poetria Livros, em Curitiba, na Livraria Arte & Letra, em Curitiba e no Sebo Kapricho II, em Curitiba. É possível adquirir por meio da internet, é bem fácil. O livro custa R$ 30. Essa matéria que você está fazendo vai proporcionar visibilidade ao “2,99”. O resto, você vai ver, respondo na próxima pergunta.

Pode me explicar o motivo do nome do livro, e peço perdão se essa informação estiver no release (estou longe dele).

O meu primeiro livro se chama “Minda-au”, foi publicado em 2010 pela Record. “Minda-au” teria sido, dizem os meus pais, a primeira palavra que pronunciei, ao olhar para um quadro de um dromedário, obra de minha avó Diva, já falecida. Depois, em 2013, lancei “Golegolegolegolegah!” pela Travessa dos Editores. “Golegolegolegolegah!” trata da incomunicabilidade e pensei num título impronunciável. Segui escrevendo e reuni alguns contos para o que seria o meu terceiro livro, o “2,99”. Nesse meio tempo, fui convidado, pelo Rosel Soares, da Casarão do Verbo, para escrever o livro “Dicionário Amoroso de Curitiba”, com verbetes sobre a capital do Paraná. Durante 2013, escrevi os verbetes para o “Dicionário Amoroso de Curitiba” e também os contos de “2,99”. Se você olhar a contracapa de “2,99”, vai ver o número 3. Esse livro de contos seria o meu terceiro livro, daí o número 3. Mas, também, escolhi “2,99” para fazer alusão às lojas de 1,99 e 2,99: os contos fazem alusão a situações do cotidiano. Às vezes, é um cotidiano no qual uma família prospera no comércio pelo fato de as esposas dos negociantes se entregarem a anões (confira o conto “Segredo de família”). À vezes, é um cotidiano no qual são realizados concursos de imitação do Paulo Leminski e o melhor candidato é o anti-Leminski (veja no conto “A noite está velha”). Às vezes, o sujeito trabalha na profissão mais feliz do mundo, autuário (isso de acordo com pesquisa recente), mas é infeliz (dê uma olhada no conto “Jimi Hendrix”). O cotidiano, mesmo que surreal, está recriado nos contos de 2,99. Por isso o título: para fazer alusão às lojas que vendem produtos do cotidiano.

Leio algumas informações sobre o livro na internet. E me deparo com este parágrafo, a respeito de um dos contos: “… Outros não conseguem sair do itinerário casa-trabalho, trabalho-casa”. Cara, a vida cotidiana, comum a várias pessoas, é algo que o motiva a escrever de maneira irônica, dramática ou escrachada?

O cotidiano pode parecer chato, pode parecer uma prisão, onde nada muda, mas tudo está em transformação, o tempo todo. O cotidiano é o melhor dos mundos. O trecho que você citou pode ser atribuído ao conto “Rastros”, no qual o personagem sua e o cheiro incomoda apenas a ele. O conto mostra um dia na vida do sujeito que se incomoda em suar, apesar de não fazer, em tese, quase nada. Não sei dizer se escrevo de maneira irônica ou dramática. Algumas pessoas que leram, me disseram que os contos de “2,99” são engraçados por causa da ironia, de um efeito de humor. O André Sant’Anna, um escritor brilhante, leu “2,99” e escreveu o texto que está na orelha. O texto dele ajuda a entender o livro. Eu não sei dizer algo sobre o que escrevo. Sei que “2,99” está sendo bem recebido, tem mais leitura dos que os livros anteriores. Já concedi entrevista para uma rádio de Minas Gerais. Pela primeira vez estou sendo entrevistado por um jornal de Maringá. Veja só! O livro circula. É uma alegria imensa tudo isso. Te agradeço, demais, por se interessar pelo meu livro, pela minha ficção. Obrigado, muito obrigado.

Situações cotidianas são inspirações para a literatura? E o que mais?

Um escritor, amigo, que mora em São Paulo leu “2,99” e disse que “2,99” é surreal, que eu flerto com o surrealismo. Será? Não sei. Mas se o escritor disse, talvez possa ser. Será? No conto “O segredo da bem-aventurança de Chuni Kuni”, que foi traduzido para o alemão e está na coletânea Wir sind bereit, publicada na Alemanha no ano passado, e agora em “2,99”, o personagem vivia perdido por causa do consumo de álcool, até que desiste de beber e prospera — esse é o segredo dele. Mas, em seguida, ele está diante de um garçom e pode pedir um drink e, se beber, destruir a vida. Ele vai beber? Não vou contar mais nada, é o desfecho do texto. Esse conto é sobre o cotidiano? Ou surreal? Ou algo que dialoga com o mundo dos sonhos? Nos contos “Uma jornada particular”, “Caminho de Santiago”, “Jobs” e “Fantasmas”, os personagens não sabem mais qual o limite entre realidade, sonho e pesadelo. Nos últimos cinco anos, vejo toda noite um filme, sobretudo do Federido Fellini, mas também vejo e revejo filmes do Roberto Rosselini, do Vittorio De Sica, do Luchino Visconti, do Francis Ford Coppola. Música escuto todo dia desde pequeno. Frequento museus, principalmente o Museu Oscar Niemeyer, almoço em restaurantes por quilo, como em pastelarias, caminho pelas ruas de Curitiba. Isso tudo deve ter impacto no que escrevo.

O que esta Copa do Mundo, morando numa das cidades-sede, auxiliou em seu processo como escritor, jornalista e observador do mundo?

Torço para o Clube Atlético Paranaense. O fato de o estádio da Copa 2014 em Curitiba ser o do CAP é uma maravilha. Ainda não fui ao estádio novo, mas nesse Brasileirão de 2014, agora no segundo semestre, sem dúvida, estarei lá. Gosto muito de futebol. Em 2010, quando eu trabalhava na Gazeta do Povo, tirei férias em junho para acompanhar todos os jogos da Copa, pela televisão, em casa. Esse ano, vejo o que posso. Está sendo uma maravilha viver em Curitiba durante a Copa 2014. Tem turistas nas ruas, as pessoas, os locais, ficam mais leves e alegres, muitos assopram cornetas, tem gente com roupa verde e amarela, caminhar nas ruas em dia de jogo do Brasil é uma experiência única. Surgiram algumas ideias para contos durante esta Copa. Só não vou contar o que é por que acho que se contar, a ideia se esvazia e perde a força. Mas considero essa Copa 2014 muito inspiradora. Vou escrever sobre esse período. No próximo livro.

Quais livros gostaria de ter sido o autor? Quais escritores admira para sempre e quais estão, neste momento, em sua cabeceira, na mesa do computador, enfim…

Em geral, leio 10 ou mais livros ao mesmo tempo. Agora, estou lendo, entre outros, “Poesia Total”, do Waly Salomão; “As coisas de João Flores”, de Marco Aurélio Cremasco; “O beijo de Schiller”, de Cezar Trdapalli; “O Brasil é bom”, do Andre Sant’Anna; “Lado B”, de Sérgio Augusto; “O mais estranho dos países”, de Paulo Mendes Campos e “A origem do gênio”, de Dean Keith Simonton. Tem prosa, romance e conto, tem poesia, tem ensaio e tem crônica. Terminei de ler “Nu, de botas”, do Antonio Prata, uma obra-prima sobre a infância. Acompanho lançamentos, leio clássicos que ainda não li, releio Machado de Assis, Borges, Dalton Trevisan, Swift, Shakespeare, Drummond, Roberto Gomes, Bandeira, Guido Viaro, Guimarães Rosa, Melville, Cervantes etc. Um pouco de tudo, todo dia.

Eu quero escrever os meus próprios livros. Os livros que os outros escreveram, eu quero mesmo é ler.

Esta é uma pergunta que sempre faço, mais por curiosidade mesmo: como é o seu processo criativo? Curte escrever que horas? É cercado por manias? Por brancos criativos? Por necessidades desesperadas de por coisas no papel? Acorda no meio da noite em busca de uma caneta e papel? Enfim…

Desde 1986, quando comecei a ler e a escrever, e li e escrevi praticamente todos os dias, sem interrupção, em qualquer lugar, até abril, maio de 2014. Em casa? No computador. Em viagem? No caderno. Em férias? Caderno. Sem problemas, em qualquer lugar, em qualquer hora. Mas este ano aconteceu, pela primeira vez, um problema. Publiquei dois livros, o “Dicionário Amoroso de Curitiba”, com sessão de autógrafos dia 6 de maio e o “2,99”, lançado dia 3 de junho. Fiz a revisão e o fechamento dos livros quase ao mesmo tempo, desde o fim de abril. Veja só. Eu trabalho durante o dia na Biblioteca Pública do Paraná. Então, à noite, ao chegar em casa, a partir de abril, toda noite, me dediquei a reler e a rever esses dois livros por quase 40 dias. Fiquei e estou esgotado. Sabe o que aconteceu? Travei. Não consigo mais escrever ficção. Pela primeira vez na vida, desde 1986, estou sem escrever ficção. Ideias eu tenho, o tempo todo. Acordo para anotar sonhos. Ando e tenho ideias, paro e anoto. Almoço e tenho ideias. Tomo banho e surge uma ideia para um conto. Vou comer um pastel e tenho outra ideia. Sem parar. Só não estou escrevendo. Estou fraco, debilitado, de tanto trabalhar com os dois livros. Vamos ver se, ainda em 2014, eu consigo escrever ficção. Será? Por enquanto, quero apenas ler, dormir e anotar as ideias.

*Reportagem publicada nesta quarta-feira (16) no caderno Cultura, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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Lamentações dos dois irmãos no dia de Páscoa

Conversavam como velhos amigos embora fossem irmãos, tão velhos como as feridas de suas pernas, que não os deixam em paz. Coçam, chamam a atenção e pedem até mesmo para que eles às vezes manquem. O sentido da Páscoa não foi tema recorrente, pareciam que viviam naquelas poucas horas de uma tarde abafada de domingo entre o céu e a terra, quase que crucificados pelo tédio da vida. E pelas coceiras das pernas.

Ninguém se lembrou de Jesus Cristo em um raio de 500 quilômetros da onde os dois estavam. Mas, de repente, talvez pela força da mídia, talvez pela embriaguez de tanto chocolate derretido e Kaiser quente, os que se foram, e não ressuscitaram como Ele, invadiram o pensamento dos dois.

E aquilo tudo era uma injustiça das mais sujas possíveis: dois velhos com feridas nas pernas sozinhos porque os queridos já se foram e eles simplesmente não tinham coragem de apontar uma arma para a testa. Nem arma e nem força nos dedos tinham para puxar o gatilho também.

Ao final da tarde, quando finalmente uma chuva de se criar fungos nos pés refrescou um pouco aquele fim de tarde de um domingo deprimente de Páscoa, o telefone verde, antigo e pouco usado da sala tocou: eram notícias ruins de São Paulo. Mas isso eles já sabiam quando ouviram o som produzido pelo maldito telefone, que só tocava quando do outro da linha alguém com a voz baixa e encabulada iria anunciar mais uma morte anunciada.

Paulo morreu exatamente ao meio-dia daquele domingo de Páscoa, talvez no exato momento em que um dos seus irmãos velhos coçava algumas das feridas nas pernas debaixo de um teto de amianto quente e nada convidativo. E mais uma vez um ente querido iria embora do mundo e não ressuscitaria.

Graças a Deus, o sono veio rápido  e os velhos morreram algumas horas também, só que ainda podendo sonhar ou ter pesadelos. O início da manhã daquela segunda-feira só não foi mais triste e totalmente pesado porque os irmãos pelo menos ainda tinham um ao outro. E a vida continuava: um coava o café e o outro dava ração para o vira-lata. Mas precisavam ser rápidos: o ônibus para São Paulo sairia às 10h da rodoviária daquele lugarejo onde, em milhares de anos, os dois tinham a certeza de que poucos deixariam de pensar no feriado e no chocolate no dia de Páscoa e que nenhum dos seus entes queridos poderia renascer depois da morte.

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Primeiras porradas

Um teste apenas. Paciência. Um dia tudo voltará ao normal (algum dia foi?), pensa Horácio. A vida é um teste? Então por que parece nunca estar pronto para o grande dia, o dia da apresentação, do espetáculo, da peça infantil que seu pai esqueceu de estar presente, do jogo da final que seu time nunca chegou, da hora do mergulho na piscina grande do Ibirapuera que você adiou para sempre, da hora H, do dia D, do dia do fico, do dia do bota-fora, da despedida, do beijo, do soco, do grito, do silêncio?

Silenciado, paciente e nunca pronto para o que der e vier, de nada adianta, Horácio, rodear o quarteirão um milhão de vezes para ver se a coragem chega. Nem de avião, muito menos de bicicleta Monark, a coragem chega aos perdedores.

A maneira mais confortável de ser um derrotado quase conformado com tudo, considera ele, é criticando aqueles que venceram, aqueles que ganharam o primeiro milhão, que aprenderam muito com os livros de autoajuda, que descobriram “O Segredo”, que pularam cedo da cama e, com os colhões que Deus lhe deu, resolveram conquistar o mundo, ainda que com um ou outro ansiolítico agindo bem pela corrente sanguínea.

Para abrir uma padaria é preciso coragem. Para abrir caminho no meio da mata fechada é preciso coragem. Pouca ou nenhuma coragem é necessária para se ficar deitado na cama de olhos abertos esperando a vida passar, e infelizmente fazendo o que é preciso fazer. Lembre-se bem, cara!

Mas não tem outro jeito, algumas regras são impostas, o que ele lamenta: escovar os dentes, tomar banho, comer, beber água e trabalhar. Mas o pior de tudo é a obrigação de ter de conviver, de ter de conversar com pessoas que considera cretinas, ou até mesmo com pessoas que ama, mas que simplesmente já não conseguem fazê-lo feliz.

Pensando bem, pondera, os derrotados também têm um pouco de coragem, caso contrário nunca mais veriam a luz do sol.

Talvez fosse melhor ter sido uma pessoa pior, pode pensar Horácio. Durante todos esses anos, ter partido pra briga, ter dado porrada, ter tido coragem (será que escolhemos isso?), faria dele um vencedor. Mas nunca é tarde para tentar – poderá dizer principalmente quem aprendeu isso sentado nos bancos de uma igreja, assistindo uma comédia romântica, vendo palestras que nunca dizem nada ou lendo um livro estúpido. Mas é verdade mesmo: talvez tenha mesmo chegado a hora de dar porrada, homem!

Apreciando cada dia mais o poder de um som pesado e sentindo cada vez mais o pulsar das veias em sintonia com o ar puxado propositalmente com força para dentro dos pulmões, as primeiras porradas bem dadas na vida de Horácio, um quase ex-derrotado, foi consertar a postura e nunca mais andar de cabeça baixa, a não ser dentro dos shoppings da pequena cidade para não correr o risco de ter de cumprimentar os sempre chatos que um dia teve o prazer de conhecer muito superficialmente mas o suficiente para decretar que são desprezivelmente vencedores.

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Como ter Charlene Flanders em suas mãos?

Obrigado a todos que foram ao lançamento do meu livro de estreia, “Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida”, na noite de quinta-feira (15). E peço desculpas pela falta de jeito com as palavras discursadas.

Quem não pôde ir ao lançamento e queira um exemplar, informo que em breve o livro estará sendo vendido nas melhores livrarias de Maringá.

E para quem não mora em Maringá, mande email no pradowil@gmail.com para adquirir um exemplar do livro via postagem.

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A saga do coração*

E de repente o órgão ditador dos batimentos da vida virou uma pedra de concreto das mais duras. Mas, com uma voadora bem dada com os dois pés, algo (ou alguém?) tinha feito aquela pedra quebrar em mil pedaços.

E só o tempo foi capaz de juntar aqueles pedaços de vida mal curados. Só o tempo cura.

Com o coração remediado, com os mil pedaços colados, ele caminha pela rua, em mais uma manhã fria e cheia de claridade de um sábado outonal. Pode estar indo comprar pão ou pode simplesmente estar indo.

O destino em si não importa. O que importa é o caminho.

Caminhando, o homem feliz com seu coração colado chega a um parque verde. Sente que respirar ali por perto é algo muito prazeroso e simples de se praticar. É quando ele se recorda que está vivo.

As descobertas vitais do seu corpo o estimulam a correr. Ele precisava correr e não apenas mais caminhar. Não era fuga, e sim o caminho a seguir.

Só parava de correr quando sentia sede.

E seguiu correndo por muito tempo. E seu tênis de marca furou de tanto correr. E a meia rasgou com a quentura do asfalto. E seus pés ficaram esfolados, machucados, sangrando e, logo depois, calejados, duros feitos cascos de cavalo. E ele só precisava correr, comer um pouco e beber bastante água. E ele, quem sabe, poderia até mesmo ser um cavalo solto na pastagem. Era o seu caminho e ele precisava seguir.

Passaram-se alguns dias, talvez anos, nunca se sabe. Até que ele concluiu que, depois de permanecer por debaixo de muito sol, tempestades, estrelas, luas e até chuvas de granizo, tinha finalmente chegado ao ponto final.

Era a hora de parar. Tinha certeza de que finalmente todas as chagas do passado estavam curadas. Tinha plena convicção de que o seu coração havia se recomposto.

Mil corações, seus pedaços, haviam se transformado em um grande coração, novamente. E não mais de pedra e sim de carne, de alma, de vida. E este era o problema. Se era vital e não de concreto, o coração estava novamente exposto às desventuras dos sentimentos e poderia, a qualquer momento, voltar a ser um bife torrando na frigideira.

Ele não devia jamais ter parado de correr. Ele não queria ver o seu coração fritado de novo.

Quando acreditou ter encontrado o ponto de chegada, eis que a viu pela primeira vez. Aquela beleza, um anjo na figura de mulher, destruiu o seu chão. As pernas tremeram e ele só se lembra de que era setembro e que, naquela noite, nem os ventos frios baixavam a febre do seu peito, em meio ao gosto de uva daqueles lábios.

Beijou a mulher, deixou-a ir e, logo em seguida, rasgou o peito com uma faquinha de serra (a mesma usada para cortar o bife da frigideira) e jogou aquele coração fervente na lixeira mais próxima.

Depois disso, tentou voltar a correr para frente, queria ser cavalo solto de novo nos prados bucólicos, mas o único caminho que conseguia seguir era em direção àquela mulher, que, desde então, passaria a vida inteira tirando pedacinhos do seu próprio coração na tentativa de reconstruir o dele.

Naquela noite de ventania de setembro, a saga do seu coração original se encerrou ao apodrecer em meio a latinhas de refrigerante, papéis de bala e restos de comida no lixo. Mas o seu novo coração, ainda que em permanente construção e dependente dos pedaços dela, é incrivelmente mais revigorado e saudável.

*Conto publicado hoje, dia 7 de junho, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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curto e denso*

O jornalista carioca Sérgio Tavares precisou de apenas 96 páginas, divididas em um conto longo e mais três contos curtos, para levar o último Prêmio Sesc de Literatura na categoria contos com seu livro “Cavala” (Editora Record) – título homônimo do conto maior do volume. Ousado na forma como escreve situações abissais relacionadas à loucura, repugnância, sujeira e sexo, o escritor estreante também não tem medo de se arriscar desobedecendo as regras da escrita e não utilizando letras maiúsculas no início de parágrafos e orações.

Para traçar seu estilo, Tavares, um leitor de grandes contistas como Cortázar, inspirou-se nas narrativas que se iniciam sem delongas, com o processo do contar já em andamento, pegando, muitas vezes, o leitor de surpresa e o obrigando a adentrar profundamente a história logo após a leitura da primeira frase, do primeiro parágrafo. “Quando escrevo, quero instigar o leitor não só pelo impacto das palavras, mas pelo formato. Iniciar os parágrafos com letras minúsculas traz uma sensação de fratura, de continuidade, de imersão, que combina com a velocidade e a densidade dos contos. Mas também rompe com o espaço hermético do livro, insinuando que há mais além dessa barreira”, explica o escritor, que diz ainda pretender utilizar esse estilo por toda a sua produção literária. “Escrever é muito mais que contar”.

Ligeiro e pesado

Ainda que pequeno e ligeiro, “Cavala” não deixa de ser pesado porque explora questões envolvendo situações extremamente complexas da vida humana. O conto que empresta seu título ao livro, com suas 58 páginas densas, por si só já é merecedor do prêmio. A impressão que fica é que Tavares, para preencher a quantidade necessária de páginas que o regulamento do prêmio impõe, fez os outros contos menores. Com isso, a obra perde homogeneidade, quebra-se e se divide em duas partes. O antes e depois do grande conto.

Mas talvez seja só impressão, pois, ainda que curtos, os outros três contos “Fome”, “Sobre a pelvis” e “Papel de cão” também arrastam vorazmente o leitor para situações adversas, delicadas e com personagens que demonstram ter traços de insanidade, assim como em “Cavala”.

Algumas dessas experiências narradas nos contos beiram o surrealismo; outras, um realismo tão cru que chega a parecer irreal, assim como em grande parte das notícias de tragédias e loucuras que lemos nos jornais.

Em entrevista concedida por email, o autor revela a sua preferência pelo último conto do livro, “Papel de cão” – a história de um menino que guarda um recorte de um cachorro no bolso e que o considera como sendo seu animal de estimação. Aliás, foi inspirado em um fato real que Tavares, na pele de jornalista, teve a sua primeira inspiração para escrever o conto, como revela na entrevista.

“Sendo jornalista, passei a me inspirar na realidade e dela pinçar pessoas que serão transportadas para um outro mundo, onde serão simulacros que viverão histórias construídas unicamente pela imaginação. Um bom exemplo é o último conto, ‘Papel de cão’, que surgiu depois de uma reportagem que fiz num abrigo de crianças. Diante do total abandono, perguntei a um menino qual era o maior sonho da vida dele, e ele me respondeu ter um cachorro. Aquela criança me assombrou por um tempo, até que descobri uma nova realidade para ela”, recorda-se Tavares.

Da razão à loucura

No conto “Cavala”, Tavares narra, em primeira pessoa, a triste e dramática história de uma moça que sofre com seus complexos, suas síndromes e principalmente com seu Transtorno Compulsivo Obsessivo (TOC). Para este inesquecível personagem, é preciso que os quadros estejam milimetricamente dispostos na parede para que consiga dormir. Ela sabe, por exemplo, quantos passos precisa dar até chegar ao banheiro, escovar os dentes e finalmente voltar para a cama. O conto foi inspirado em uma história real (o autor não declina o nome da “musa”, mas trata-se da ex-paquita da Xuxa, ex-modelo e atriz Luciana Vendramini).

Doente e com uma racionalidade fragilizada, a garota torce para que possa viver um bom dia. Mas isso não acontece para ela se, por exemplo, vir um carro vermelho passar. Se dois carros vermelhos passarem, então, ela tem certeza de que o dia será péssimo. Três carros vermelhos passando é sinônimo de um dia muito, muito ruim. E quando esse tipo de coisa acontece, ela tenta reagir, buscando as alternativas que sua mente lhe impõe para que possa haver possibilidades de remediar esta situação. É quando, então, a garota sai do seu quarto e segue a vagar pelas ruas até encontrar uma combinação de cores de carros ou então de somas de números das placas que possam, para os cálculos loucos da sua cabeça, compensar os acontecimentos ruins e, quem sabe, ter um dia bom.

É difícil para o leitor (pelo menos para aqueles que não sofrem de TOC) entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que, da sua janela, contou que, lá fora, há “12 construções erguidas em 8 andares, 4 apartamentos por andar, 32 janelas acesas e 128 apagadas”. Conseguir fazer com que manias como essas sejam perfeitamente explicadas e justificadas talvez tenha sido um dos maiores méritos de Tavares em “Cavala”.

Traumas e memórias

É no passado não muito distante da personagem, relatado pelo escritor, que o leitor vai começar a entender que exatamente todas suas atitudes têm um porquê. Histórias contadas com riqueza de detalhes e muito bem elaboradas, vividas por ela anteriormente, acabam convencendo o leitor de que, até mesmo a loucura, assassinatos, atitudes violentas e o TOC podem ser justificados.

Tavares joga luz em questões delicadas que envolvem traumas e memórias e, com sensibilidade, faz de “Cavala” um conto que estimula o leitor a repensar seus conceitos e preconceitos sobre as atitudes das pessoas.

Em outras palavras, o autor conseguiu dar razão à loucura de sua personagem. E isso tudo com um texto narrado em primeira pessoa, que surpreende pela capacidade do autor de conseguir construir com tanta veracidade uma personagem feminina doentia, nascida das mãos de um jovem e promissor escritor.

Sérgio Tavares é um cavalo novo da literatura nacional, com bons dentes, força e, quando preciso for, com coices certeiros na prática do contar.

Entrevista

O DIÁRIO Como fazer para descrever tão bem um personagem feminino com suas paranóias que parecem estar relacionadas ao TOC? Inspirou-se em que para construir a garota de “Cavala”?

Sérgio Tavares – Todos os personagens do livro, embora situados no extremo oposto do que convencionamos chamar de normalidade, são retratos de uma realidade que confrontei por meio de reportagens que li ou escrevi, na minha vivência como jornalista. A voz ativa do conto “Cavala”, que se apresenta como ex-modelo e atriz, chegou até mim, após eu ler uma entrevista de uma modelo, muito famosa nos anos 80, que conviveu com sintomas de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) durante parte da sua vida. É claro que o distúrbio não a levou a cometer um ato tão hediondo quanto o da personagem do conto, mas as compulsões e os medos são bem próximos ao que ela passou.

Neste caso, descrever essa personalidade feminina aconteceu de forma natural, já o objeto de inspiração era uma mulher. Contudo, a minha relação com os personagens é tão confessional, que não se detém a gêneros sexuais. Para iniciar um texto, careço de uma voz ativa que me conte a história por todo o tempo em que a escrevo, como uma personalidade paralela.

É dela que vem os sentimentos, os desejos, as aflições, e não de mim. Os personagens precisam estar vivos dentro do escritor para que o texto soe crível para o leitor. De outra forma, percebe-se de cara a artificialidade. Considero de melhor, em “Cavala”, a construção dos personagens; e daí que vem o espanto. Algumas pessoas que participaram do processo de avaliação do prêmio me confessaram que ficaram impressionados ao descobrir, depois de revelados os vencedores, que era um autor e não uma autora, devido à intimidade das palavras. Encaro como um elogio.

Com a boa divulgação e prestígio que obteve com o prêmio literário, já pensa em desenvolver novos trabalhos na literatura? Continuará na produção de contos ou quer explorar outros gêneros?

“Cavala” é composto de contos que surgiram durante o processo daquele que seria o meu primeiro livro. Quando soube do prêmio, dei uma olhada no material que tinha e editei a coletânea, escolhendo contos que se assemelhassem por tema e construção narrativa.

O meu segundo livro será, na verdade, o que seria o primeiro. Está praticamente pronto e, no início do próximo ano, pretendo entregá-lo à editora. O que acontece agora é uma autocrítica mais aguçada, oriunda exatamente do prestígio e do reconhecimento proporcionado pelo prêmio.

Ainda que soe pretensioso para um escritor iniciante, ter um livro lançado traz um amadurecimento que se reflete na maneira com que se vê a própria obra. É um livro menos agressivo e mais sombrio, cujas narrativas são influenciadas pelo sentimento de perda e de transição do tempo.

Também são contos, pois a literatura se revela, por enquanto, para mim, neste formato. Mas isso não quer dizer que serei um contista por excelência. Para o próximo trabalho, já começo a pensar num romance, ainda que um romance, agora, ainda me pareça um conto longo.

Trecho de “Cavala”

quero dormir, descansar o meu corpo num sono profundo, mas esse quadro não deixa, esse quadro 22x16cm que forma uma sequência abstrata de matizes que flutuam na tela porosa, um trio composto por elementos surreais, pingos, traços e borrões que se atraem e se fundem numa contagem decrescente, menos 23 pinceladas por quadro.

acabo de calcular e multiplico pela área do retângulo, 8.096 tons e subtons vermelhos, amarelos e laranja que forçam o cérebro a decifrar figuras subliminares, uma mariposa?, um precipício?, um rosto doente?, mas isso não importa, o que importa é a moldura e a sua falha fatal, essa desproporção a 1,91m dos meus olhos e a 10,5cm da janela em frente à cama. (Do conto “Cavala”, do livro homônimo de Sérgio Tavares)

*Resenha publicada dia 7 de dezembro no caderno D+, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

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Vermelho de sangue, vermelho de amor*

“Eles brigam demais e o passado dela não os deixam viver em paz”, comentava um amigo próximo do casal. Ninguém, na verdade, sabia o que os dois loucos amantes já passaram para ficar juntos, e nem o quanto o amor já havia batido na porta do coração dos dois.

Mas, para todos, esse namoro era nuvem passageira que aliviara um inferno de uma separação dolorosa recheada de adultérios. A situação do casal parecia estar cada vez melhor, já que, agora, finalmente, ela morava no mesmo prédio do rapaz, podendo, assim, namorar e desfrutar da companhia dele, diariamente. Raras exceções quando não se viam, às vezes ela não aguentava e se entregava ao sono, mas ele não ligava, pois sabia que, se algum monstro aparecesse debaixo de sua cama, era só bater na porta do D53.

Hereditariamente, o nervosismo e o pavio curto compunham o rapaz que, frequentemente, decepcionava-a com suas verdades doloridas. Pensando nisso, a cada dia que passava, a cada beijo que ele recebia, a cada palavra de amor e gestos de carinhos, a cada abraço sincero, a cada risada libertadora de sua amada, ele se sentia mal por não ser do bem.

Parecia que, quando ela ia embora dormir, ele precisava falar mais um último “eu te amo”, que nunca era o último, mas que confortava um pouco mais. Ambos pareciam duas crianças brincando de qualquer coisa, quando estavam juntos, e de bem. Ambos gostavam de rir da besteira ou da piadinha do outro. Ambos se amavam como loucos, mas, ultimamente, o rapaz achava que não estava correspondendo ao amor que sua amada lhe oferecia diariamente.

Estava confuso, e a última que ele aprontara, depois das festinhas particulares no apartamento sem a presença dela, foi uma volta, repentina e solitária, ao baile que, momentos antes, os dois bailavam felizes da vida – mar de embriaguez, uísque com água de coco. Ninguém acreditou no início, mas a verdade é que o rapaz agora estava dando a cara à tapa, mostrando quem ele realmente era – um fraco.

Quase foi por água abaixo o namoro conturbado, que, mesmo com infinitos amores, parecia que não tinha mais encaixe e estava a ponto de chegar ao fim. Mas, surpreendentemente, a moça o perdoou de tudo e estava disposta a conviver com um fraco, embora tentando acreditar que essa fraqueza fosse mentira, ou, talvez, uma fase.

Admirado, o rapaz não se podia conter de alegria, porém o peso em sua consciência parecia impedi-lo de ir adiante com essa história de amor; achava que a moça não merecia um fraco como ele. Reconheceu, enfim, que era um dos piores namorados que alguém poderia ter. Mesmo assim, voltou aos braços de sua amada. Sentiu-se, mais uma vez, o pior dos piores, pois sabia que o melhor era se afastar dela – moça bela e delicada, merecedora de diamantes raros.

O tempo, e não muito tempo, passou. Edificou-se a união e os preparativos para um enlace matrimonial pareciam que iam se iniciar. Mas, certa noite, após a moça retornar à sua morada, depois de ficar até de madrugada no quarto dele, ouviu umas batidas em sua janela de vidro. Era o cabo de vassoura que ele insistia em bater do 4º andar para que ela abrisse a janela.

O que a pobre moça ouviu foi uma das piores e mais dramáticas declarações de amor, com pano de fundo vermelho. Era o rapaz caindo e gritando: “eu amo você, fica comigo pra sem…”. Ela não fechou os olhos e entendeu que a cor do amor era vermelho, vermelho de sangue. O rapaz, naquela noite, achou que faltava dizer pelo menos mais um “eu te amo”, como em várias ocasiões passadas. Ele também queria dizer que os monstros que ficavam debaixo da cama tinham ido embora e que agora não tinha mais medo de dormir.

*Conto publicado no blog A Poltrona em 5 de fevereiro de 2008.

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Giselda sabe que é gostosa*

No auge da sua beleza, com seus 28 aninhos, casada, bem sucedida, morando no ap já financiado, Giselda anda tranquilamente pela avenida Riachuelo, em Maringá. É horário de almoço e, com o intervalo que tem do seu trabalho no escritório de contabilidade, ela parece desfilar pela calçada, com seu corpo que esbanja saúde, com sua pele levemente morena, com sua maquiagem retocada, com seus 28 aninhos bem distribuídos, com sua autoconfiança, ela desfila pela calçada e sabe que está abalando. Ela sabe que é gostosa, comenta o rapaz, sentado no boteco, enquanto palita os dentes. Ela sabe que é gostosa, balbucia novamente. Giselda não ouve, mas, ao olhar, disfarçadamente para o rapaz, pode ver nos seus olhos, pode ver na sua boca entreaberta que sim, ele a acha gostosa e sente uma vontade danada de devorá-la, ali mesmo, no meio da rua, no meio do dia, no meio dos outros. Ela gosta de se sentir desejada, ela se sente bem quando os outros a olham descaradamente para ela e comentam entre si sobre sua beleza de mulher, que não é nem menina mais e não é uma apagada senhora de idade: ela é simplesmente mulher. Giselda desfila e, de propósito, liga para uma amiga só para ficar conversando alto pelo celular enquanto desfila naquele mar de homens, mulheres, crianças e até freiras, que, absolutamente, não conseguem parar de olhar para a bunda de Giselda que requebra e que fica extremamente sensual naquela calça preta e justa do uniforme da empresa.

*Texto da coluna “Nem te conto”, composta somente por contos fictícios. Portanto, alguma semelhança com a realidade é mera coincidência.

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Sorteio, Tchekhov e um peixe amoroso

Quero agradecer aos colegas deste blog, que, incrivelmente, apareceram e me provaram que devo ter um pouco mais do que três leitores. Fico feliz com a recepção no primeiro post: atraiu um número bom de acessos e pouco mais de 30 comentários. Devo dizer, com a maior serenidade possível, que o difícil mesmo não é chegar até aqui e sim continuar caminhando, sempre buscando qualidade no conteúdo do blog, acima de tudo.

Sorteio

Anuncio, com muita alegria, que realizei o sorteio da surpresa literária prometida no primeiro post. E o ganhador do livro “Um homem extraordinário e outras histórias”, um pocket de Tchekhov, é o caro leitor Hudson, que não conheço pessoalmente, mas que comentou com humor e estilo em 15 de maio de 2010, às 14h19, segundo o horário do blog. Obrigado pela visita, Hudson! Mande seu endereço no meu email (pradowil@gmail.com) para receber minha singela lembrança em sua casa.

E para também presentear, de alguma forma, os demais leitores, fiquem com o belíssimo conto “Amor de peixe”, que faz parte do livro “Um homem extraordinário e outras histórias”, de Tchekhov.

Amor de peixe

Por estranho que pareça, o único carácio dourado que vivia na lagoa perto da dátcha do general Pantalýkin enamorou-se perdidamente pela veranista Sónia Mámotchkina. De resto, o que há nisso de estranho? Não se apaixonou o demônio de Liérmontov por Tamara, e o cisne por Leda, e não acontece que escriturários apaixonam-se pelas filhas dos seus chefes?

Toda manhã, Sónia Mamotchhkina vinha com sua tia banhar-se na lagoa. O carácio apaixonado nadava bem perto da margem e observava. Por causa da vizinhança próxima da fundição “Krandel & Filhos”, a água da lagoa havia muito que ficara pardecenta, mas apesar disso o carácio via tudo. Ele via como pelo céu azul esvoaçavam nuvens brancas e pássaros, como se despiam as veranistas, como, dentre os arbustos ribeirinhos, espiavam-nas os rapazes, como a rechonchuda titia, antes de entrar na água , ficava uns cinco minutos sentada sobre uma pedra e , afagando-se satisfeira, dizia:–E com quem foi que eu, uma elefanta dessas, fui sair parecida? Até dá medo de olhar.

Tirando do corpo roupas leves, Sónia atirava-se na água , guinchando, encolhia-se de frio, e o carácio, sem perda de tempo, nadava bem perto dela e começava a beijar-lhe avidamente os pezinhos, os ombros, o pescoço…

Após o banho as veranistas voltavam à casa, para tomar chá com pães-doces, enquanto o carácio nadava solitário na enorme lagoa e pensava: “Naturalmente, não se pode nem falar em chances de ser correspondido. Como pode ela, tão formosa, vir a amar-me a mim, um corácio? Não, mil vezes não! Não te iludas pois com tais sonhos, desprezível peixe! Restate um só destino–a morte! Mas morrer, como? Revólveres e fósforos não há na lagoa. Para nós outros , os corácios, só uma morte é possível– a bocarra do lúcio. Mas onde encontrar um lúcio? Tempos atrás havia aqui na lagoa um lúcio, mas até ele se finou de tédio. Ó, infeliz que sou!”

E pensando na morte, o jovem pessimista afundava-se no lodo e la escrevia um diário…

Certa vez, ao entardecer, Sónia e a sua tia estavam sentadas à beira da lagoa, pescando. O carácio nadava por perto das iscas e não tirava os olhos da jovem amada. Súbito , no seu cérebro, qual um raio, brilhou uma idéia: ” Morrerei nas mãos dela!” Pensou ele, e começou a brincar alegremente com as nadadeiras. –” Oh, esta será uma morte maravilhosa e doce!”

E cheio de decisão, apenas empalidecendo um pouco, ele nadou para junto do anzol de Sónia e tomou-o na boca.

–Sónia, mordeu!-guinchou a tia. –Querida, o teu anzol! Mordeu!

–Ah, ah!

Sónia deu um pulo e um safanão com toda a força. Algo dourado faiscou no ar e esborrachou-se na água, deixando círculos concêntricos depois de si.

–Arrancou-se!-gritaram ambas as veranistas, empalidecendo.

–Arrancou-se! Ai! Querida!

Olharam para o anzol e viram nele um beiço de peixe;

–Ah, querida, não precisava puxar com tanta força. Agora o pobre peixinho ficou sem beiço…

Soltando-se do anzol, meu herói ficou atordoado e por muito tempo não entendeu o que lhe acontecera; depois, porém, voltando a si, ele gemeu:

–Outra vez viver! De novo! Ó , ironia do destino!

Percebendo no entanto que lhe faltava a mandíbula inferior, o carácio empalideceu e prorrompeu em gargalhadas selvagens…Ele enlouquecera.

Mas receio que pareça estranho que eu queira ocupar a atenção de um leitor sério com o destino de uma criatura tão ínfima e desinteressante como um carácio dourado. De resto, o que há nisso de estranho? Não descrevem umas senhoras em grossas revistas uns gobiões e umas lesmas de que ninguém precisa? Pois eu imito as senhoras. Quem sabe, até eu mesmo sou uma senhora e só me oculto sob um pseudônimo masculino.

E, assim, o carácio enlouqueceu. O infeliz está vivo até agora. Os dourados em geral gostam de ser fritos em creme de leite, mas o meu herói agora ama qualquer tipo de morte. Sónia Mámotchkina casou-se com o dono de uma drogaria, e a tia foi embora para Lípetsk, morar com a irmã casada. Nisso não há nda de estranho, pois a irmã casada tem seis filhos e todos os filhos amam a titia.

Mas, adiante. Na fundição “Krandel & Filhos” trabalha como diretor o engenheiro Kryssin. Ele tem um sobrinho, Ivan, o qual como é sabido, escreve versos e os imprime avidamente em todos os jornais e revistas. Num certo meio-dia muito quente, passando pela lagoa, o jovem poeta resolveu tomar um banho. Despiu-se e meteu-se na lagoa. O carácio demente tomou-o por Sónia Mámotchkina, nadou para junto dele e depositou-lhe um beijo nas costas. Esse beijo teve as mais ruinosas conseqüências: o carácio contagiou o poeta com o pessimismo. Não suspeitando de nada, o poeta saiu da água e , gargalhando insanamente, dirigiu-se para casa.

Alguns dias depois, ele viajou para Petersburgo; tendo lá visitado as redações, contagiou todos os poetas com o pessimismo, e desde então os nossos poetas começaram a escrever poesias melancólicas e sombrias.

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